segunda-feira, 30 de dezembro de 2013

Godzilla (III)

Antes que o ano acabe, vamos ao post de número 550, falando sobre mais filmes do Godzilla!

King Kong vs. Godzilla
1962

Em 1960, Willis O'Brien, animador do boneco de Kong no King Kong original, teve uma ideia para um novo filme estrelando o gorila gigante: sabe-se lá como ou por que, Kong enfrentaria, nas ruas de São Francisco, uma versão gigantesca do Monstro de Frankenstein. O'Brien chegou a escrever algumas páginas de um roteiro, preparou alguma arte conceitual e levou seu projeto à RKO, estúdio responsável por King Kong, que na época já não produzia mais filmes, tendo encerrado suas atividades um ano antes, mas ainda era dona dos direitos sobre Kong, que O'Brien planejava licenciar.

Na RKO, O'Brien foi apresentado ao roteirista George Worthing Yates, que escreveria o roteiro final, e ao produtor John Beck, que se comprometeu a encontrar um estúdio que produziria o filme. Acreditando que o nome Frankenstein era de propriedade da Universal, que produziu seu filme na década de 1930 - na verdade, apenas a aparência do monstro era de propriedade da Universal, já que o nome do filme era o mesmo do livro - Beck recomendou que O'Brien mudasse o título, que passaria a ser King Kong vs. Prometheus - baseado no título completo do livro, que se chama Frankenstein ou o Prometeu Moderno.

Beck, porém, teria muitas dificuldades para vender o projeto a algum estúdio, visto que a década de 1960 não ficou exatamente conhecida por ter estúdios de cinema nadando em dinheiro e um filme em stop motion era um projeto caro e demorado. Ele chegou a oferecer o roteiro até mesmo para estúdios internacionais - e foi aí que chamou a atenção da Toho, que já tinha vontade há alguns anos de produzir um filme estrelado por Kong. Infelizmente, O'Brien não receberia nem crédito nem um único tostão pelo filme: como Beck foi procurado diretamente pela Toho, tratou todo o contrato sem que O'Brien ficasse sabendo, e sempre lhe dizia que ainda não tinha conseguido um estúdio. Ao ver o filme lançado, O'Brien chegou a cogitar processar Beck, mas depois mudou de ideia. Quem realmente processaria Beck seria o diretor de King Kong, Merian C. Cooper, que acreditava ser o único detentor dos direitos de Kong. Quando ficou provado que os direitos eram da RKO, ele retirou a ação.

Em 1962, a Toho completaria 30 anos, e viu no projeto de O'Brien a oportunidade perfeita para uma comemoração: bastava substituir o monstro de Frankenstein por seu monstro mais famoso, Godzilla. Devido à sua importância, a Toho chamaria para o projeto a mesma dupla responsável pelo Godzilla original, o diretor Ishiro Honda e o chefe da equipe de efeitos especiais Eiji Tsuburaya. Tsuburaya já estava trabalhando em um outro projeto, um filme de fantasia chamado Kaguyahime, mas o suspendeu diante de uma nova chance de trabalhar com Godzilla e de uma chance que ele considerava única de trabalhar com King Kong - filme, segundo ele, responsável por sua decisão de trabalhar com efeitos especiais, tomada após assisti-lo nos cinemas.

Tsuburaya sugeriria que o filme tivesse mais apelo dentre as crianças, reduzindo o horror e aumentando as sequências de ação e cômicas - a primeira versão do roteiro incluía até uma cena na qual Godzilla e Kong jogavam um enorme pedregulho de um para o outro como se fosse uma bola de praia. Honda foi contra, alegando que deveria ser mais um filme de horror, no estilo dos King Kong e Godzilla originais, mas a Toho aprovaria a sugestão de Tsuburaya. Essa decisão influenciaria todos os demais filmes de Godzilla, que se tornariam cada vez mais leves e voltados para as crianças. Também para ter mais apelo entre as crianças, a Toho optaria por filmar King Kong vs. Godzilla em widescreen e a cores - marcando a primeira vez em que tanto Kong quanto Godzilla apareceriam em cores no cinema e nesse formato.

Honda chegaria a cogitar filmar em stop motion, mas a Toho ordenaria que fossem usados atores fantasiados, não só para cortar custos, mas porque isso já vinha funcionando bem em seus filmes de monstro, então não havia por que mudar. Uma nova roupa de Godzilla seria criada especialmente para o filme, tornando-o mais parrudo e mais parecido com um dinossauro e dando-lhe um tom esverdeado, para aparecer melhor no filme a cores - a roupa original, embora ninguém pudesse ver no filme preto e branco, era marrom. Embora só tenha sido usada nesse filme, essa roupa se tornaria uma das aparências mais icônicas de Godzilla, servindo de base para vários brinquedos produzidos no mundo inteiro nas décadas de 1960 e 1970. Além da roupa, também foram produzidos, para serem usados em closes, fantoches da cabeça, da cauda e um que consistia somente da cintura para cima, além de um modelo de um metro de altura.

Mais uma vez, vestir a roupa de Godzilla ficaria a cargo de Haruo Nakajima, enquanto a roupa de Kong seria vestida por Shoichi Hirose, que lutava luta livre - Nakajima e Hirose tiveram carta branca para interpretar as lutas dos monstros da forma como melhor lhes conviesse, e acabaram incluindo vários golpes de luta livre, na época muito popular no Japão. A roupa de Kong, aliás, se parecia com uma roupa de gorila dessas encontradas em qualquer loja de fantasias, o que rendeu muitas críticas no mundo inteiro. O responsável pelo figurino, Sadamasa Arikawa, disse que foi muito difícil agradar Tsuburaya, que colocava defeitos em todas as roupas que eles criavam, e só aprovou essa bem simples. Assim como Godzilla, Kong tinha um modelo de um metro e um fantoche da cabeça, além de dois modelos de máscara, com duas expressões faciais diferentes, e dois tipos de braços - um par comprido como os de um gorila, com bastões por dentro que Hirose segurava e mãos falsas nas pontas, usado quando Kong era visto de longe ou estava andando, e um par do mesmo tamanho dos braços de Hirose, para quando Kong fosse lutar contra Godzilla ou segurar alguma coisa.

No filme, o Sr. Tako (Ishiro Arishima), chefe da companhia Pacific Pharmaceuticals, procura uma jogada de marketing para aumentar suas vendas, e vê a oportunidade perfeita quando relatos de um estranho monstro surgem vindos de uma ilha do pacífico. Tako envia dois de seus empregados, Osamu Sakurai (Tadao Takashima) e Kinsaburo Furue (Yu Fujiki) para investigar a história e trazer o monstro para o Japão, se possível. Ao chegar lá, eles descobrem que o monstro é nada menos que o famoso King Kong, e, após algumas desventuras, conseguem capturá-lo e levá-lo para Tóquio. No caminho, o monstro se apaixona por Fumiko (Mie Hama, de Com 007 Só Se Vive Duas Vezes), a bela irmã de Sakurai, que aparentemente só está no filme para que Kong segure uma mulher com a mão e fuja com ela.

Paralelamente a isso, um submarino norte-americano se choca contra um iceberg - que, na verdade, é nada menos que o bloco de gelo no qual Godzilla estava aprisionado após os eventos de Godzilla Contra-Ataca. O choque liberta Godzilla, que destrói o submarino e ruma para Tóquio. Lá, o exército tenta desesperadamente detê-lo mais uma vez, mas, mais uma vez, não tem sucesso. Ao saber que Sakurai e Kinsaburo estão trazendo Kong para o Japão, eles têm uma ideia: levar o gorila até Godzilla e colocar os dois para brigar até a morte. O que, na minha opinião, não é uma estratégia lá muito militar, mas eu não entendo nada disso.

King Kong vs. Godzilla seria lançado em 11 de agosto de 1962. Com orçamento de cinco milhões de ienes, renderia nada menos que 350 milhões, se tornando, até hoje, o filme mais rentável estrelado por Godzilla, à frente do original e do segundo. A crítica, mais uma vez, não pouparia ofensas, criticando, principalmente, o roteiro e as atuações, mas a roupa de Godzilla e uma cena que conta com o ataque de um polvo gigante - filmada usando quatro polvos de tamanho comum - se salvariam, e seriam até elogiadas. Um dos pontos mais criticados foi o tamanho dos monstros: oficialmente, Godzilla tem 60 metros de altura, sendo mais alto que um prédio, mas Kong tem oficialmente sete metros e meio, tanto que consegue escalar um deles; em King Kong vs. Godzilla, porém, ambos os monstros têm a mesma altura, o que significa ou que Kong cresceu muito em trinta anos ou que Godzilla encolheu com o frio.

Assim como o Godzilla original, King Kong vs. Godzilla também teria uma versão norte-americana um tanto diferente da japonesa. Quando fechou o contrato com a Toho, Beck fez questão de incluir uma cláusula que lhe dava exclusividade sobre o filme para lançamento fora da Ásia; usando desse poder, ele entraria em negociações com a Universal para não somente lançar o filme nos Estados Unidos, mas para editá-lo como a Jewel havia feito com o primeiro Godzilla. Após assistir a uma seção prévia de King Kong vs. Godzilla no Japão, Beck, o editor Peter Zinner e os roteiristas Paul Mason e Bruce Howard se reuniram e decidiram incluir dois novos personagens, o repórter Eric Carter (Michael Keith), que cobre o embate entre os monstros, e o diretor do Museu de História Natural de Nova Iorque (Arnold Johnson), que explica as origens e a biologia de Kong e Godzilla. Os dois apareceriam em várias novas cenas dirigidas por Thomas Montgomery e que substituíam cenas do filme original - que seria bastante editado, tanto que, mesmo com as novas cenas, a versão norte-americana seria seis minutos mais curta. Beck também conseguiria que a Universal lhe cedesse várias músicas de seu catálogo de trilhas - compostas por Henry Mancini, Hans J. Salter e Heinz Roemheld - para substituir a trilha sonora original, de Akira Ifukube, e dar ao filme, em suas palavras, um "clima mais ocidental". King Kong vs. Godzilla estrearia nos Estados Unidos em 17 de junho de 1963 e renderia um milhão e meio de dólares - mais do que suficiente para pagar os 200 mil dólares que Beck gastou em sua edição. O filme original japonês jamais seria exibido oficialmente nos cinemas dos Estados Unidos, só chegando lá em vídeo.

Diversas teorias curiosas foram formuladas sobre o filme após seu lançamento nos Estados Unidos, como a de que Kong representava a América e Godzilla representava o Japão, em uma espécie de batalha entre o progresso e o conservadorismo - teoria essa que daria origem a uma lenda de que o filme tinha dois finais diferentes, com Kong vencendo no final norte-americano e Godzilla vencendo no final japonês; na verdade, o final é ambíguo, e apenas sugere que Kong venceu, em ambas as versões. Além disso, apesar de ser um personagem norte-americano, Kong era extremamente popular no Japão na década de 1960, graças, inclusive, ao sucesso dos filmes de monstros gigantes; além disso, Godzilla, na época, ainda era visto como um vilão, uma força da natureza que devastava o país, e não seu protetor contra ataques de outros monstros como ficaria estabelecido nos anos seguintes. O filme, aliás, se chama King Kong vs. Godzilla (e não "Godzilla vs. King Kong"), justamente para enfatizar o fato de que Kong é quem defende o Japão do ataque de Godzilla, e não o contrário - e também para atrair o público, que veria seu nome primeiro ao olhar para o título.

Para terminar, vale dizer que, infelizmente, apesar de seu sucesso, King Kong vs. Godzilla é um dos filmes mais mal-preservados do Japão. Seus negativos originais desapareceram misteriosamente, só restando os que não foram jogados fora após a edição para a criação da versão norte-americana e uma cópia preparada por Honda para um festival, com 24 minutos a menos. Para o lançamento em vídeo, a Toho conseguiria recuperar 15 desses 24 minutos através da versão norte-americana, mas os outros nove só existem hoje em uma cópia de qualidade bem inferior - tanto que, mesmo com a remasterização, é possível notar, ao assistir o filme em DVD, quais cenas foram retiradas dessa cópia.

Mothra vs. Godzilla
1964

O enorme sucesso de King Kong vs. Godzilla fez com que a Toho anunciasse uma sequência quase que imediatamente, criativamente chamada Continuation: King Kong vs. Godzilla. Essa sequência jamais deixaria de ser apenas esse título, mas, partindo dessa ideia, a Toho decidiria lançar um novo filme de Godzilla por ano, sempre colocando o lagartão para enfrentar um outro monstro, famoso ou anônimo. Também nada criativamente, eles decidiriam que, no próximo filme, Godzilla enfrentaria uma versão gigante do monstro de Frankenstein, e o roteirista Takeshi Kimura chegaria a escrever um roteiro para Frankenstein vs. Godzilla. Pouco antes de as filmagens começarem, entretanto, a Toho mudaria de ideia, e decidiria colocar Godzilla para brigar com um monstro legitimamente japonês: Mothra.

Assim como Kong, Mothra já havia sido a estrela de seu próprio filme, Mothra, lançado pela Toho em 1961, também dirigido por Honda e com efeitos especiais de Tsuburaya. Nesse filme, testes nucleares conduzidos pela nação de Rolisica - um bizarro amálgama dos Estados Unidos com a União Soviética - ameaça a Ilha Infante, até então considerada desabitada, mas que estudos mostraram ser lar de uma antiga civilização desconhecida. Após protestos do Japão, Rolisica aceita enviar uma expedição conjunta à ilha para estudos arqueológicos e determinação dos danos causados pelos testes. Lá, após vários perigos, eles se deparam com duas mulheres de apenas 30 cm de altura e com uma mariposa gigantesca, Mothra, considerada pelos antigos habitantes da ilha como seu deus protetor. Quando um inescrupuloso empresário decide explorar a ilha para diversão, Mothra se vinga, atacando o Japão e Rolisica.

A ideia de usar Mothra ao invés de Frankenstein foi do roteirista Shinichi Sekizawa - não por acaso, roteirista de Mothra - que, para convencer a Toho, escreveu o roteiro antes mesmo de apresentar sua ideia. Após a luz verde, porém, a Toho pediu que Sekizawa fizesse algumas alterações - no roteiro original, Godzilla atacava Rolisica, e Mothra só aparecia no finalzinho, quando a Ilha Infante também era ameaçada, para deter o monstro. Falando nisso, como Mothra é um deus protetor, Godzilla é mais uma vez o vilão - por isso o título é Mothra vs. Godzilla, e não "Godzilla vs. Mothra".

Mothra vs. Godzilla, mais uma vez dirigido por Honda e com efeitos especiais de Tsuburaya, começa com o repórter Ichiro Sakai (Akira Takarada) e o fotógrafo Junko Nakanishi (Yuriko Hoshi) cobrindo os estragos causados por um tufão na Ilha Iwa. Durante a reportagem, eles encontram uma escama gigante e um ovo maior ainda; quando o ovo está prestes a ser levado por um grupo de cientistas liderados pelo Profesor Miura (Hiroshi Koizumi) para ser estudado, porém, surge o empresário Kumayama (Yoshifumi Tajima), dono da Happy Enterprises, que alega ter comprado o ovo dos habitantes da ilha e planeja usá-lo como atração central de um parque de diversões. Quando Kumayama e seu sócio, Torahata (Kenji Sahara), estão discutindo quanto dinheiro irão ganhar com o ovo, são abordados por duas mulheres de 30 cm de altura, que se denominam Shobijin (as cantoras gêmeas Emi e Yumi Ito, que interpretaram o mesmo papel em Mothra). As Shobijin revelam que o ovo é de Mothra, e foi levado da Ilha Infante durante o tufão. Ao invés de se compadecerem, os empresários decidem é capturar as Shobijin também, para fazer delas mais uma atração para o parque. Elas escapam e pedem ajuda a Sakai, Junko e Miura.

Paralelamente a isso, Godzilla, que estava soterrado no fundo do mar desde a batalha contra Kong, é despertado pelo tufão, e decide atacar Nagoia. Como o exército mais uma vez não consegue detê-lo, Junko tem uma brilhante ideia: ir com as Shobijin até a Ilha Infante, e pedir para que Mothra derrote Godzilla. O povo da ilha, porém, se nega, primeiro porque o ovo foi roubado, segundo porque Mothra está muito velha, e não terá forças para deter Godzilla. Mas, quando Godzilla ameaça a integridade do ovo, a própria Mothra decide arriscar sua vida para detê-lo.

Mais uma vez, uma nova roupa de Godzilla, novamente vestida por Nakajima, seria criada especialmente para esse filme, com as garras das mãos e dos pés e as escamas das costas feitas de um novo tipo de plástico, para ficarem mais realistas - Honda não gostava do efeito que essas partes apresentavam nos outros filmes, achando que elas pareciam moles quando deveriam ser rijas. O novo Godzilla também tinha uma "boca mole", causada por um acidente inusitado: durante a gravação da cena na qual Godzilla destrói o Castelo Nagoia, Nakajima escorregou e caiu sobre o castelo, danificando a máscara. Honda, porém, gostou do efeito, e pediu para que os técnicos não o consertassem.

Lançado em 29 de abril de 1964, Mothra vs. Godzilla foi um grande sucesso de público - é o quarto filme mais rentável da série até hoje - e, surpreendentemente, também fez um grande sucesso junto à crítica, que o considerou o melhor de todos os filmes de Godzilla.

Como já está se tornando habitual, o filme também ganhou uma versão norte-americana, lançada pela American International Pictures em 25 de novembro de 1964. Dessa vez, porém, a edição foi mínima, com apenas poucas cenas sendo removidas, e apenas uma sendo incluída, e que, por acaso, havia sido gravada para o original japonês mas não aproveitada na edição final - uma cena na qual Godzilla é atacado por uma salva de mísseis disparados por destróieres norte-americanos. O mais curioso da versão norte-americana era o título, alterado para Godzilla vs. The Thing ("Godzilla vs. a coisa"). A alteração do título se deveu a uma campanha de marketing, que escondeu Mothra - na época, pouco conhecida fora do Japão - do público, visando causar surpresa quando o monstro finalmente fosse revelado. Quando o filme foi lançado em vídeo, na década de 1980, o título foi alterado para Godzilla vs. Mothra, o que causou uma certa confusão entre quem não o conhecia, que imaginou que fosse um filme diferente.

1 enfiaram o nariz:

Teily Fábio disse...

Muito bom mesmo! Os filmes do Godzilla são muito legais. Godzilla Final Wars é animal! Parabéns pela matéria.

10:02 PM

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