segunda-feira, 16 de dezembro de 2013

Godzilla (II)

Já tem um tempo que eu não faço uma série de posts aqui no átomo. E confesso que estava procurando por uma - eu gosto de séries de posts, pois permitem que eu fale sobre um determinado assunto a fundo, e me liberam de encontrar um monte de assuntos diferentes para as semanas que ficariam livres se não estivessem ocupadas pela série.

Pois bem, essa semana, duas coisas aconteceram que me deram a ideia para mais uma série. Primeiro, finalmente assisti a Godzilla, King of the Monsters!, versão norte-americana do filme original do Godzilla - até então, eu só tinha assistido à versão japonesa. Segundo, descobri que, após o filme horroroso de 1998, os norte-americanos decidiram fazer uma nova tentativa, e já estão filmando um novo Godzilla, para ser lançado ano que vem.

Diante disso, me veio à mente: por que não fazer uma série de posts sobre os filmes do Godzilla? Afinal, eu adoro Godzilla, ele estrela quase trinta filmes, e, aqui no átomo, eu só tinha feito um post bem genérico, falando por alto sobre os que tinham sido lançados até então (e, ainda assim, não todos), lá nos primórdios do blog.

Portanto, corram para garantir seu Destruidor de Oxigênio, porque, durante as próximas semanas, Godzilla despejará sua fúria radioativa nas páginas do átomo! Não de forma seguida, evidentemente - como de costume, os posts da série serão intercalados com outros sobre outros assuntos, para que quem não gosta de lagartos de sessenta metros de altura não precise fugir em pânico até ele ir embora.

Ah, sim, antes de começarmos, um pequeno detalhe: embora sejam japoneses, os filmes de Godzilla possuem títulos oficiais em inglês, criados pela própria Toho, estúdio que os produziu. São esses títulos que eu vou usar na introdução de cada filme, junto ao título em português, e não uma transliteração do nome japonês (Godzilla Contra-Ataca, por exemplo, em japonês, é Gojira no Gyakushuu, mas seu título oficial em inglês é Godzilla Raids Again), até porque é bem mais fácil encontrar os filmes por seus títulos oficiais em inglês se você tiver interesse em assisti-los. Se o filme for conhecido por um título diferente nos Estados Unidos (mais uma vez, Godzilla Contra-Ataca, por exemplo, é conhecido nos EUA como Gigantis, The Fire Monster) eu cito isso no texto sobre o filme. Isso explicado, vamos adiante!

Godzilla
1954


A estreia de Godzilla nos cinemas aconteceu há quase 60 anos, e, assim como quase todos os grandes sucessos, aconteceu meio que por acidente. A Toho havia contratado o produtor Tomuyuki Tanaka para produzir um filme de terror, mas, após vários atrasos na pré-produção, esse filme acabaria sendo descartado pelo próprio produtor. A Toho não ficaria nada satisfeita com o descarte, e pressionaria Tanaka para que ele entregasse um filme, qualquer filme, antes do fim do prazo estipulado no contrato original - e imagino que haveria alguma sanção bem cabeluda se ele não o fizesse. Enquanto pensava em como poderia sair dessa enrascada, Tanaka leria nos jornais a história do Daigo Fukuryuu Maru, barco pesqueiro japonês vítima de um bizarro acidente envolvendo a energia nuclear.

Em março de 1954, o Daigo Fukuryuu Maru, contando com 23 pescadores em sua tripulação, navegava tranquilamente pela costa das Ilhas Marshall, enquanto os Estados Unidos realizavam um teste de uma bomba nuclear, conhecida como Castle Bravo, no atol de Bikini. A bomba, a princípio, seria de 6 megatons, o que significava que o Daigo Fukuryuu Maru estava dentro da zona de segurança, ou seja, não sofreria nenhum efeito da radiação. Infelizmente, devido a um erro, a bomba detonada teria não 6, mas 15 megatons, mais que o dobro do previsto. Devido à distância, o barco não seria obliterado, mas, ainda assim, seus ocupantes receberiam uma imensa carga de radiação, sofrendo queimaduras, náuseas, dores de cabeça, sangramento nas gengivas e outros sintomas ligados à contaminação radioativa. O operador de rádio do barco, Aikichi Kuboyama, não resistiria, e faleceria devido ao envenenamento radioativo. Entrevistado em seu leito de morte, ele diria estar rezando para ser a última vítima de uma bomba nuclear.

Essa história comoveria Tanaka, que decidiria fazer um filme sobre o horror nuclear. Mas, como os bombardeios de Hiroshima e Nagasaki ainda estavam muito vivos na memória dos japoneses, não poderia ser um filme sobre bombas nucleares, ou o público poderia não se interessar em assisti-lo, considerando-o de mau gosto. Era preciso que o filme usasse alguma alegoria.

Quem teve a ideia de que a alegoria fosse um monstro foi o roteirista Shigeru Kayama, também autor de contos de ficção científica. Kayama escreveria um roteiro que seria uma homenagem ao filme norte-americano The Beast from 20,000 Fathoms, lançado um ano antes. No roteiro de Kayama, o antagonista era um cientista louco que vestia capa, usava um tapa-olho e morava em uma enorme casa ao estilo gótico, que, usando a energia nuclear, havia criado um monstro que vivia no mar. Esse monstro viria à praia à noite para se alimentar, e, ao ser atacado pelos humanos, decidiria destruir a cidade.

Esse roteiro seria entregue ao diretor do filme, Ishiro Honda, que não gostaria muito. Honda, que ficou chocado com a destruição de Hiroshima e Nagasaki, havia adorado a ideia de fazer uma alegoria da destruição nuclear, mas achou que a história, do jeito que estava, não a representava bem. Ele e o roteirista Takeo Murata, então, fizeram algumas alterações, fazendo com que o monstro fosse uma força da natureza, e não uma criação do homem, e transformando o cientista louco original em dois outros personagens (ambos sãos e nada malignos), um favorável à preservação do monstro, outro à sua destruição. Honda também incluiria uma cena que aludiria diretamente ao acidente com o Daigo Fukuryuu Maru, na qual o monstro destrói um barco pesqueiro.

Criada a história, faltavam dois meros detalhes: a aparência do monstro e seu nome. O chefe da equipe de efeitos especiais, Eiji Tsuburaya, sugeriria um polvo gigante, mas essa ideia não agradava a Honda, que queria um monstro capaz de andar pela cidade enquanto a destruía - sua intenção era filmar a destruição causada pelo monstro como se fosse a destruição causada por uma bomba nuclear, mas de forma mais lenta e desesperadora. Tanaka chegaria a sugerir um gorila gigante com a cabeça em formato de cogumelo, para lembrar a explosão de uma bomba atômica, ideia felizmente descartada. No final, por sugestão de Kayama, o monstro teria a aparência de um dinossauro, assim como o monstro de The Beast from 20,000 Fathoms - com o qual, aparentemente, ele estava cismado. Para chegar à sua aparência final, os técnicos em efeitos especiais misturariam características do tiranossauro, do iguanodonte, do estegossauro, e, por que não?, de um dragão. A textura da pele do monstro, originalmente marrom, mas hoje representada como um cinza esverdeado, seria inspirada nas queimaduras encontradas nas vítimas de exposição à radiação nuclear, para deixar claro sua conexão com a bomba atômica.

O nome também seria bastante problemático. Nos estágios iniciais de produção, o filme seria conhecido apenas como Kaihatsu Keikaku G ("projeto em desenvolvimento G"), sendo que esse "G" significava "gigante", porque o monstro seria gigante. Vários nomes provisórios foram tentados, mas nenhum seria considerado apropriado pela equipe. A Toho até mesmo chegou a cogitar fazer um concurso para escolher o nome, mas Honda lhes demoveu da ideia, alegando que estragaria a surpresa em torno do filme. Quando já estavam quase desistindo, resolveram chamar o monstro de Anguirus, nome baseado no do dinossauro anquilossauro, mas aí alguém sugeriu Gojira - mistura das palavras japonesas gorira (gorila) e kujira (baleia). Honda adorou o nome e decidiu adotá-lo, guardando, porém, Anguirus, para um próximo filme. Como o nome Gojira surgiu do nada, logo surgiria também um boato de que esse era o apelido de um dos funcionários da Toho, grande e gordo, sugerido pelos colegas como nome do monstro para caçoar dele; esse boato jamais seria confirmado, porém, já que nunca nenhum Gojira ou seus colegas zoadores viriam a público se identificar.

Como Gojira viraria Godzilla também é um mistério. A teoria mais aceita é a de que houve um erro na transliteração do nome - transliterar, para quem não sabe, é o ato de pegar uma palavra escrita com um conjunto de caracteres e escrevê-la em outro, sem traduzi-la; nesse caso, a transliteração seria pegar os kanji que compunham o nome Gojira e escrevê-lo novamente usando o nosso alfabeto. O problema é que o nome Gojira, quando escrito em japonês, usa um sistema conhecido como man'yougana, no qual os kanji são escolhidos não por seu significado, e sim pelo seu som - ao invés de juntar os kanji de "gorila" e "baleia", eles escolheram três que tinham o som "gojira" quando lido juntos, independentemente do que significavam quando separados. Por causa disso, na hora da transliteração, o kanji do meio teria sido erroneamente transliterado como "dzi" ao invés de "ji" - o "ra" para "la" é até bem comum em transliterações, já que o idioma japonês não possui os sons começados em "L", e o L dobrado se explica por uma questão fonética da língua inglesa. Outro detalhe interessante é que nós costumamos falar Godzilla com um "o" fechado ("gôdzilla"), semelhante à pronúncia japonesa ("gôdjira"), mas, em inglês, o "o" é aberto ("gódzilla"), o que deixa o início de seu nome semelhante a god, que significa "deus".

No filme, Godzilla não é um deus, mas um lagarto pré-histórico, que, por alguma aberração da natureza, conseguiu sobreviver escondido no fundo do mar até os dias atuais. Graças aos testes nucleares realizados no Oceano Pacífico, ele seria impelido para a superfície, se tornaria gigantesco, furioso e dotado de poderes radioativos - por onde Godzilla passa, a terra e a água ficam contaminados, e ele é capaz de soltar uma baforada radioativa por sua boca que derrete qualquer substância orgânica ou inorgânica. A pele de Godzilla também é muito dura e ele possui poderes regenerativos, o que faz com que seja quase impossível destruí-lo.

Após ser impelido para a superfície, o primeiro ato de Godzilla é destruir um barco pesqueiro. Embora as autoridades fiquem perplexas com o ocorrido - ao todo oito barcos são destruídos na mesma região, todos os sobreviventes dando a mesma descrição, a de que o mar explodiu em chamas - os moradores da pequena Ilha Odo, próxima aos incidentes, sabem que o responsável foi Godzilla, um monstro marinho que deve ter sua fúria aplacada com um estranho ritual que, no passado, incluía o sacrifício de belas jovens. As autoridades, a princípio, tomam isso como crendice, mas, quando a própria Ilha Odo é atacada e quase destruída, enviam cientistas, dentre eles o renomado paleontólogo Dr. Kyohei Yamane (Takeshi Shimura), para estudar o fenômeno. Durante o estudo, Godzilla em pessoa (ou em lagarto) aparece, sendo, inclusive, fotografado.

O governo, evidentemente, planeja enviar o exército, a marinha e a aeronáutica para atirar balas e mísseis em Godzilla até destruí-lo, mesmo com os protestos do Dr. Yamane, que vê no monstro a oportunidade única de estudar uma criatura pré-histórica ainda viva e, ainda por cima, afetada pela radiação nuclear. Dentre os que concordam com a destruição estão o marinheiro Hideto Ogata (Akira Takarada), noivo da filha de Yamane, Emiko (Momoko Kouchi), que originalmente estava prometida a outro cientista, o Dr. Daisuke Serizawa (Akihiko Hirata), mas rompeu seu compromisso ao se apaixonar por Ogata. Durante uma visita, Serizawa mostra a Emiko uma arma que descobriu acidentalmente durante suas pesquisas: o Destruidor de Oxigênio, capaz de acabar com todo o oxigênio na água, matando toda a vida marinha ao seu redor. Como nenhuma das armas convencionais parece fazer efeito em Godzilla - que, mais furioso a cada tentativa dos humanos de destruí-lo, passa a atacar Tóquio, arrasando a cidade - Emiko tenta convencer Serizawa a usar o Destruidor de Oxigênio, algo que ele jurou jamais fazer, por medo de revelar ao mundo uma nova e destrutiva arma.

Inicialmente, as cenas de Godzilla seria filmadas em stop motion, técnica na qual uma miniatura é movida manualmente e fotografada inúmeras vezes, dando, no filme, a impressão de que está se movendo sozinha; essa técnica, entretanto, seria muito cara e demorada, fazendo com que o filme, além de não ficar pronto a tempo, ainda estourasse o orçamento da Toho. A solução foi criar uma roupa de Godzilla, vestir um ator com ela e criar uma maquete da cidade, para que ele parecesse gigantesco ao andar em meio aos pequenos prédios e casas. O dublê Haruo Nakajima, faixa preta em judô, seria voluntário para usar a roupa, e com ela passaria maus bocados: sem ter como respirar lá dentro, e sofrendo de intenso calor devido ao material do qual a roupa era feita, ele só podia filmar por, no máximo, três minutos, antes de ter de tirar a máscara e se refrescar. No final das gravações, para tentar poupar tempo, os técnicos em efeitos especiais chegaram a colocar na roupa uma válvula para refrescar e permitir que Nakajima respirasse, mas ela fez pouco efeito, o que levou o dublê a desmaiar durante uma cena. Outro acidente ocorreria durante a gravação de uma das cenas de Godzilla na água, nas quais Nakajima era filmado dentro de uma piscina: próximo a Godzilla passaria um barco, cujo modelo usado nas filmagens era elétrico; acidentalmente, um dos técnicos encostou um fio desencapado na água, e Nakajima só não morreu eletrocutado porque a roupa era de borracha. Mesmo com todas as dificuldades, Nakajima adorou ser o ator que interpretava Godzilla, e continuou vestindo sua roupa em todos os filmes do monstro, até se aposentar em 1972.

Além da roupa de Nakajima, os técnicos em efeitos especiais criariam um fantoche da cabeça de Godzilla, para quando ele precisasse aparecer segurando alguma coisa com a boca. Além de maquetes dos prédios, inúmeros modelos, de veículos, barcos, aviões e até de mergulhadores seriam usados durante as cenas nas quais contracenam com Godzilla. Apesar de o stop motion ter sido descartado, pelo menos uma cena, na qual Godzilla destrói um prédio com sua cauda, seria filmada com essa técnica, pois Nakajima não conseguia mover a cauda da forma correta para derrubar a maquete. Outra curiosidade diz respeito ao rugido de Godzilla, criado por Akira Ifukube, responsável pela trilha sonora do filme, que chegou ao resultado desejado esfregando uma luva de borracha coberta com cera nas cordas de um contrabaixo.

Honda queria que Godzilla fosse filmado em cores, mas a Toho se negou, alegando que os gastos com o filme já estavam muito altos, e que filmar em preto e branco seria mais barato. No fim, a decisão se mostraria acertada, pois o filme em preto e branco contribuiria para os efeitos especiais, escondendo cabos de sustentação e contribuindo para a ilusão de gigantismo de Godzilla, além de contribuir para o clima sinistro do ataque do monstro a Tóquio.

Godzilla seria lançado em 3 de novembro de 1954, e faria um enorme sucesso de público - mesmo sendo um filme de terror, seria o oitavo mais assistido do ano no Japão. A crítica, porém, o receberia de forma negativa, acusando-o de querer capitalizar sobre duas tragédias que abalaram o Japão (os bombardeios de Hiroshima e Nagasaki e o acidente do Daigo Fukuryuu Maru). Honda ficou muito sentido com as críticas, achando que seu trabalho não merecia ser tratado dessa forma. Entretanto, conforme o tempo passava, e o público do filme continuava bom, alguns críticos mudariam de opinião, e, no final, Godzilla até ganharia algum reconhecimento, sendo indicado para o Nippon Akademi-shou, mais importante prêmio da indústria cinematográfica japonesa nas categorias Melhores Efeitos Especiais e Melhor Filme, ganhando o primeiro, mas perdendo o segundo para Os Sete Samurais, de Akira Kurosawa. Anos mais tarde, Godzilla seria eleito o vigésimo-sétimo filme mais importante da história do Japão de um total de 150 escolhidos por 370 críticos de cinema selecionados pela revista Kinema Junpo.

Em 1955, Godzilla seria exibido nos Estados Unidos, mas apenas em cinemas de regiões nas quais a população de japoneses e de descendentes de japoneses era significativa. Um executivo norte-americano, Edward Goldman, viu o filme por acaso em um cinema da Califórnia, e decidiu entrar em contato com a Toho e comprar seus direitos por 25 mil dólares. Goldman revenderia esses direitos para a pequena produtora Jewel Enterprises, que decidiria fazer uma nova versão do filme.

O método adotado pela Jewel para essa nova versão foi bastante curioso: ela contrataria o roteirista Al C. Ward, o diretor Terry O. Morse, o ator Raymond Burr e mais alguns figurantes, filmaria várias cenas novas e editaria o filme original, inserindo essas cenas novas e removendo algumas outras. O resultado seria um novo filme, lançado nos cinemas dos Estados Unidos em 27 de abril de 1956 com o título de Godzilla, King of the Monsters!.

No filme norte-americano, Burr interpreta o repórter Steve Martin (homônimo do ator de comédia por pura coincidência), que está indo ao Japão visitar seu amigo, Dr. Serizawa. Bem quando ele chega, barcos pesqueiros estão sendo atacados misteriosamente, e ele decide permanecer e cobrir a história, se tornando, por acidente, uma testemunha internacional do ataque de Godzilla a Tóquio. Além da edição e da inserção de novas cenas, a Jewel dublaria em inglês as falas dos principais personagens, e usaria de recursos visuais para parecer que Burr estava contracenando com os atores da versão original. Para não ter que dublar o filme todo, a maior parte do filme é no estilo de um documentário, com as cenas do original japonês sendo exibidas enquanto a voz de Burr narra os acontecimentos como se fosse a narração oficial de Martin para o jornal no qual trabalha.

Godzilla, King of the Monsters! seria um gigantesco sucesso, rendendo 2,5 milhões de dólares nas bilheterias - apesar de, mais uma vez, ter sido mal recebido pela crítica. Aproveitando o fato de que o Godzilla original era desconhecido na Europa e na América do Sul, a Jewel exportaria seu filme para esses mercados, ajudando a popularizar Godzilla e a própria Toho, até então pouco conhecida fora do Japão. Em retribuição, a Toho traria o filme de volta para o Japão, e o lançaria em 29 de maio de 1957, com legendas em japonês e o nome de Monster King Godzilla. Esse relançamento também faria um grande sucesso, e ajudaria a aumentar ainda mais a popularidade de Godzilla.

Godzilla hoje é um dos principais símbolos do Japão e um dos personagens da cultura pop mais facilmente reconhecíveis. Esse seu primeiro filme daria origem a todo um estilo de filmes japoneses, o kaiju, no qual um monstro gigante destrói Tóquio ou uma outra cidade qualquer, sendo detido por cientistas, militares ou por heróis igualmente gigantes - seriados como Ultraman também fazem parte do estilo kaiju. Nada mais justo, portanto, que o filme tenha ganhado algumas continuações, para que Godzilla pudesse se aproveitar de sua própria fama. Talvez eles tenham exagerado, mas aí já é uma questão de opinião.

Godzilla Contra-Ataca
Godzilla Raids Again
1955

O primeiro Godzilla foi um sucesso inesperado de público. Nada mais natural, então, que a Toho querer ganhar um dinheirinho extra, produzindo, a toque de caixa, uma continuação. O que poderia ser um problema, já que Godzilla morre no final do filme.

O roteirista Shigeaki Hidaka, porém, encontraria uma solução muito simples para esse problema: não existia um Godzilla, mas dois! E, além disso, os testes nucleares que acordaram e alteraram Godzilla não teriam apenas afetado a esses dois Godzillas, mas também a outro monstro! Um monstro com o qual Godzilla tinha um intensa rivalidade na pré-história, e que, agora, com ambos despertados e modificados pela radiação nuclear, seria revivida em escala épica! Uma batalha entre monstros capaz de destruir todo o Japão!

Sabem aquele ditado "essa ideia é tão bizarra que pode até dar certo"? Alguém na Toho deve ter pensado isso quando leu a sinopse de Hidaka, pois a história do filme é justamente essa: um segundo Godzilla surge do mar, juntamente com outro monstro, um anquilossauro gigante chamado Anguirus - nome que Honda, aparentemente, fez bem em guardar para o futuro. Godzilla e Anguirus começam a lutar um contra o outro, levando sua luta à cidade de Osaka, destruindo tudo no caminho. E, para desespero dos japoneses, parece não haver forma de detê-los, já que o único Destruidor de Oxigênio conhecido foi usado para destruir o Godzilla do filme anterior.

O único personagem presente no primeiro filme que retorna para a continuação é o Dr. Kyohei Yamane, mais uma vez interpretado por Takeshi Shimura. Os protagonistas humanos do filme são os pilotos de avião Shoichi Tsukioka (Hiroshi Koizumi) e Koji Kobayashi (Minoru Chiaki), que trabalham para uma indústria de atum enlatado. São Tsukioka e Kobayashi que primeiro avistam Godzilla e Anguirus, durante um voo de rotina; ficam entre a vida e a morte quando a fábrica na qual trabalham é destruída pelos monstros; e têm a ideia que permite que Godzilla seja mais uma vez impedido: já que não podem matá-lo, vão atraí-lo para uma montanha e soterrá-lo com uma avalanche. Ideia bastante corajosa, na minha opinião.

A produção do filme ficaria mais uma vez a cargo de Tomoyuki Tanaka, e o roteiro final seria escrito por Shigeaki Hidaka e Takeo Murata; Ishiro Honda, entretanto, decidiria não dirigir a sequência, e a entregaria a seu pupilo Motoyoshi Oda, diretor que gozava até de certo prestígio nos filmes de horror, já tendo lançado dois grandes sucessos nos anos anteriores. Eiji Tsuburaya seria mais uma vez o responsável pelos efeitos especiais, e criaria uma nova roupa de Godzilla, mais leve, com maior mobilidade e que não contasse com o risco de matar acidentalmenbte Haruo Nakajima, que mais uma vez "interpretou" o monstro. Essa nova roupa seria criada não somente devido aos incidentes ocorridos durante as filmagens do Godzilla anterior, mas também porque, como Godzilla apareceria em várias cenas de luta contra Anguirus, era preciso que o monstro pelo menos se movesse adequadamente, e não de forma letárgica como no primeiro filme.

A roupa de Anguirus seria vestida por outro dublê, Katsumi Tezuka, que passou por maus bocados pelo fato de Anguirus originalmente ser quadrúpede. A roupa de Anguirus, aliás, tem uma história curiosa: como o primeiro Godzilla havia feito sucesso nos Estados Unidos (bem, ou quase, já que o que fez sucesso mesmo foi a versão norte-americana), a Toho procurou um parceiro para lançar o segundo filme na América. Após muitas negociações, ficaria acertado que esse parceiro seria o estúdio AB-PT Pictures, que já estava produzindo um filme de monstros chamado The Volcano Monsters. Como parte do acordo de distribuição, a Toho cedeu a roupa de Anguirus para que a AB-PT usasse em seu filme. Pouco depois, porém, a AB-PT faliu, e seus pertences foram leiloados para cobrir suas dívidas - a roupa de Anguirus entre eles, já que, quem leiloou aparentemente não sabia que ela era emprestada. A Toho acabaria ficando sem ter o filme distribuído nos Estados Unidos, e sem sua roupa de Anguirus original, já que, até hoje, ninguém sabe onde ela foi parar.

Após a falência da AB-PT, os produtores Paul Schreibman, Edmund Goldman e Newton P. Jacobs decidiriam comprar os direitos de Godzilla Contra-Ataca, para editá-lo e lançá-lo nos Estados Unidos da mesma forma que a Jewel havia feito com o primeiro filme. Por alguma razão, entretanto, esses produtores decidiriam mudar drasticamente o filme, ao ponto de o monstro principal não se chamar Godzilla, e sim Gigantis - e tendo, inclusive, o mesmo rugido que Anguirus, e não o mesmo rugido que Godzilla. Com o nome de Gigantis, The Fire Monster e lançado em 1959 pela Warner Bros, o filme americano incluiria uma nova introdução, várias cenas retiradas de filmes educativos sobre dinossauros, uma nova trilha sonora e a remoção de enredos secundários inteiros. Gigantis faria pouco sucesso, e hoje é considerado pelos fãs inferior ao original japonês em todos os quesitos.

Godzilla Contra-Ataca estrearia em 24 de abril de 1955, e teria bom público, se tornando, até hoje, o terceiro filme de Godzilla de maior bilheteria, logo atrás do original. Mas, além de ser bombardeado pela crítica, seria bastante criticado pelos fãs, que acharam a batalha entre Godzilla e Anguirus muito curta - além disso, ela ocorre no meio do filme, com toda a segunda metade mostrando apenas os humanos tentando deter Godzilla. Outro ponto de reclamações foi a nova roupa de Godzilla, considerada menos ameaçadora que a original. Muito do clima de terror do primeiro filme também não estava presente, sendo esse mais um filme de ação que de horror. Por tudo isso, a Toho decidiria não investir em um terceiro Godzilla tão cedo, e a série faria uma parada de quase dez anos.

1 enfiaram o nariz:

Cleber Rafael disse...

ótima matéria! recheada de detalhes e curiosidades da produção. eu particularmente acho o original muito bom, o segundo tem uma trama não tão boa, mas vale pelo godzilla. não conheço as versões americanas.

12:28 PM

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