segunda-feira, 28 de maio de 2012

Clássicos Disney (X)

E hoje é dia de Clássicos Disney!

As Peripécias do Ratinho Detetive
The Great Mouse Detective
1986


Hoje pode parecer inacreditável, mas, após o fracasso de O Caldeirão Mágico, todo o departamento de animação para cinema da Disney correu o risco de ser extinto. Acreditando que o custo era muito alto e o retorno munito baixo, os acionistas da companhia pretendiam concentrar os esforços do estúdio apenas em desenhos para a TV e filmes para o cinema. Foi o produtor Burny Mattinson, que trabalhava para a Disney desde 1955, quem os convenceu a fazer pelo menos mais uma tentativa, com um desenho mais simples, de custo mais baixo.

Mattinson e sua equipe - David Michener, John Musker e Ron Clements, pivotais para o renascimento da Disney das cinzas - decidiram deixar de lado o plano anterior - investir em histórias de apelo entre os jovens - e escolher uma história infantil, que levasse crianças aos cinemas. Mais uma vez, a escolha cairia não sobre uma única história, mas sobre uma série de livros: Basil of Baker Street, de Eve Titus, publicada entre 1958 e 1982, inspirada nas histórias de Sherlock Holmes, mas que usa como personagens ratinhos antropomórficos vivendo na Inglaterra Vitoriana.

O desenho da Disney não é inspirado em nenhum dos cinco livros da série em particular, usando apenas seus protagonistas, o ratinho detetive Basil (batizado por Titus em homenagem a Basil Rathbone, que interpretou Holmes na série de 14 filmes lançada entre 1939 e 1946); seu biógrafo, Dr. David Q. Dawson; o antagonista, Professor Padraic Ratigan, gênio do crime e arqui-inimigo de Basil; e a governanta de Basil, a Sra. Judson. Todos os demais personagens e situações do filme foram criados por Musker, Clements e pelos roteiristas Peter Young, Vance Gerry e Steve Hulett, sempre buscando manter o mesmo clima dos livros de Titus.

No desenho, ambientado na Londres de 1897, o Professor Ratigan (Vincent Price) manda seu capanga Morcegão (Candy Candido) sequestrar o famoso construtor de brinquedos Hiram Flaversham (Alan Young), para obrigá-lo a tomar parte em um plano maligno: construir um autômato idêntico à Rainha dos Ratos (Eve Brenner), que então será posto em seu lugar, permitindo ao Professor governar toda a Inglaterra (bom, pelo menos os ratos da Inglaterra). Quando Hiram se recusa, Ratigan ordena que Morcegão sequestre sua filha, Olivia (Susanne Pollatschek), que será comida pela gata de estimação do vilão, Felicia, se seu pai não colaborar. Enquanto foge por sua vida, Olivia acaba trombando com o Dr. Dawson (Val Bettin, também o narrador do filme), que a leva até Basil (Barrie Ingham). Inicialmente, Basil não parece muito empolgado em ajudar a menina, mas, quando ela menciona que seu pai foi sequestrado por Morcegão, ele percebe que se trata de um plano de Ratigan, e vê uma oportunidade para deter seu arqui-inimigo de uma vez por todas. Basil, Dawson e Olivia começam, então, uma caçada a Ratigan, que passa por diversos pontos famosos da Inglaterra, como o Palácio de Buckingham, o Rio Tâmisa e o Big Ben, tentando deter o vilão antes que Hiram - que, imaginando que sua filha foi capturada, começa a construir o autômato - termine seu trabalho.

Após o orçamento gigantesco de O Caldeirão Mágico, a equipe de animadores trabalhou para cortar custos, para que um novo fracasso, se ocorresse, não fosse tão sentido. Desta vez, entretanto, ao invés de reaproveitar animações, o corte de custos viria com o uso da moderna tecnologia: os layouts dos desenhos foram todos feitos em computadores, e os testes de tinta contaram com a ajuda de câmeras que criaram imagens digitalizadas das células, que puderam ser poupadas, economizando dólares preciosos. A cena da perseguição dentro do Big Ben também contou com a ajuda de computadores, com o movimento das engrenagens sendo feito em computação gráfica e então impresso nas células, sendo pintado por cima para evitar que destoasse do restante do desenho. O uso da tecnologia, além de reduzir o orçamento, também reduziria drasticamente o tempo de produção do filme, que ficaria pronto em apenas um ano.

Olivia, inicialmente, seria mais velha, e despertaria um interesse amoroso tanto em Basil quanto em Ratigan; durante a produção, entretanto, Musker e Clements decidiram fazer dela uma criança, para que as plateias tivessem alguém com quem se identificar. As aparências de Basil e Dawson foram inspiradas nas de Basil Rathbone e Nigel Bruce - que interpretava o Dr. Watson na série de filmes - mas suas personalidades se mantiveram fiéis às dos livros de Titus, não emulando as de Holmes e Watson dos filmes. Curiosamente, Sherlock Holmes e o Dr. Watson - bem como seu cachorro, Toby - fazem uma participação no desenho, já que Basil mora debaixo de seu apartamento. Holmes, aliás, falaria com a voz de Rathbone, morto quase 20 anos antes; para que isso fosse possível, Musker e Clemens usaram trechos da gravação de uma leitura interpretada que Rathbone havia feito em 1966 do conto A Liga dos Cabeças-Vermelhas. Watson, por outro lado, não fala com a voz de Bruce, tendo sido dublado por Laurie Mann.

No fim, As Peripécias do Ratinho Detetive acabaria custando 14 milhões de dólares, valor considerado aceitável pelo estúdio. Lançado em 2 de julho de 1986, receberia críticas favoráveis - principalmente em relação a Ratigan, que, para muitos críticos, rouba a cena - e renderia pouco mais de 38 milhões nas bilheterias. Embora essa soma não fosse suficiente para considerá-lo um grande sucesso, o foi para afastar durante um tempo as ameaças de fechamento do estúdio, que receberia luz verde para começar a trabalhar em um novo Clássico ainda naquele ano. O desenho seria relançado nos cinemas em 1992, mas com o título, em inglês, de The Adventures of the Great Mouse Detective, só voltando a ter seu título original quando lançado em DVD, em 2002.

Vale citar como curiosidade, aliás, que a ideia de batizar o desenho como The Great Mouse Detective ao invés de Basil of Baker Street partiu do executivo Peter Schneider, e foi duramente criticada pela equipe de produção - o argumento de Schneider, acreditem ou não, era que o filme O Enigma da Pirâmide (cujo título em inglês era Young Sherlock Holmes, o "jovem Sherlock Holmes"), lançado um ano antes, havia sido um fracasso de bilheteria por causa de seu título, "muito britânico para as plateias americanas", e que o desenho da Disney sofreria a mesma sina caso se chamasse Basil of Baker Street. Um dos animadores, Ed Gombert, chegou a escrever um memorando satírico distribuído no estúdio e atribuído a Schneider, no qual o executivo determinava mudanças nos nomes de vários Clássicos Disney: Branca de Neve se chamaria Sete Homens Pequenos Ajudam a Uma Garota, Peter Pan se tornaria As Incríveis Crianças Voadoras, e Bernardo e Bianca seria Dois Ratinhos Salvam Uma Menina, dentre outros.

Oliver e Sua Turma
Oliver & Company
1988


Com a ameaça de fechamento do estúdio temporariamente afastada, chegou a hora de escolher um novo Clássico para entrar em produção. Enquanto a equipe de prosução procurava por uma história adequada, cogitou-se a ideia de se fazer uma sequência de um dos Clássicos anteriores, algo que ainda não havia sido tentado. O Clássico escolhido para essa empreitada seria Bernardo e Bianca, primeiro por ter sido baseado em uma série de livros, mas só ter sido inspirado em dois; segundo, por ter sido o mais bem sucedido Clássico produzido após a morte de Walt Disney.

Durante a produção, entretanto, o roteiro foi focando cada vez mais em Penny e cada vez menos em Bernardo e Bianca, até que chegou a um ponto no qual o desenho era exclusivamente sobre a nova vida que Penny levava em Nova Iorque, em companhia de seus pais adotivos e de um gatinho. Nesse ponto, a ideia foi engavetada, pois o desenho já estava sendo considerado sem apelo e de história pouco convincente.

Após o engavetamento, porém, a equipe de roteiristas decidiu aproveitar parte do que já havia sido feito para adaptar outra história: Oliver Twist, o clássico de Charles Dickens. Originalmente sobre um menino órfão que sobrevive cometendo pequenos roubos em companhia dos amigos na Londres do século XIX, em sua versão Disney a história versaria sobre um gatinho órfão que sobrevive cometendo pequenos crimes em companhia de cachorros na Nova Iorque dos dias atuais.

Oliver (Joey Lawrence) é o único de sua ninhada que não é adotado, e, após uma chuva, se perde na cidade. Ele é resgatado pelo cachoro Dodger (Billy Joel), que o engana para ajudá-lo a roubar uma carrocinha de cachorro-quente. Quando Dodger foge com o produto do roubo sem dar nada a Oliver, o gatinho o segue até seu esconderijo, onde ele comanda uma gangue de cachorros, composta do Chihuahua nervosinho Tito (Cheech Marin), o Dinamarquês não muito brilhante Einstein (Richard Mulligan), o Buldogue ator Francis (Roscoe Lee Browne) e Rita (Sheryl Lee Ralph), uma bela e esperta Saluki. Os cachorros "trabalham" fazendo pequenos roubos para seu dono, Fagin (Dom DeLuise), que tem uma dívida astronômica com o perigoso agiota Sykes (Robert Loggia), dono dos Dobermanns Roscoe (Taurean Blacque) e DeSoto (Carl Weintraub), que sempre estão importunando os cachorros da gangue.

Oliver é incorporado à turma, e passa a fazer pequenos roubos até ser adotado por uma menina rica, Jenny Foxworth (Natalie Gregory), dona de Georgette (Bette Midler), uma Poodle de competição vaidosa e mimada. Quando Fagin descobre, decide sequestrar Oliver e pedir resgate a Jenny, para usar o dinheiro para pagar Sykes. O plano, entretanto, acaba saindo pela culatra.

A Disney apostou alto em Oliver e Sua Turma: decidida a fazer dele o primeiro em uma série de musicais - o último Clássico musical havia sido Os Aristogatas, de 1970, depois disso, a ênfase nas músicas foi ficando cada vez menor, ao ponto de O Caldeirão Mágico ser o primeiro Clássico Disney sem nenhuma canção - chamaram dois ícones da música da época, Billy Joel e Bette Midler, para dublar dois dos principais personagens. Ruth Pointer, das Pointer Sisters, foi convidada para dublar Rita, mas não pôde aceitar; ela gravaria, entretanto, as canções cantadas por Rita, ficando Sheryl Lee Ralph apenas com as falas. Algo semelhante aconteceria com Jenny, que teria suas falas dubladas por Natalie Gregory, mas nas canções sua voz é de Myhanh Tran. As canções de Oliver e Sua Turma fariam um grande sucesso, sendo a principal, Why Should I Worry?, inclusive, indicada ao Globo de Ouro - perdendo para Let the River Run, cantada por Carl Simon em Uma Secretária de Futuro. Tendo se mostrado a decisão acertada, a Disney voltaria a investir na trilhas sonoras de seus Clássicos: dos dez Clássicos seguintes, nove seriam musicais.

Oliver e Sua Turma - que durante a produção se chamava Oliver and the Dodger, e mais uma vez não teria o mesmo título do livro no qual se baseia - também foi o primeiro Clássico Disney a fazer uso extensivo de computação gráfica - enquanto O Caldeirão Mágico e As Peripécias do Ratinho Detetive a usavam apenas em algumas cenas, Oliver teve sequências inteiras produzidas primeiro no computador e depois passadas para as células. Para que isso fosse possível, a Disney teve de abrir um novo departamento em seu estúdio de animação, exclusivamente dedicado à animação por computador. Aproveitando o ensejo, a equipe de som também criaria vários efeitos sonoros novos, que substituiriam alguns dos efeitos que a Disney usava em seus desenhos há mais de cinquenta anos, como o som do trovão e o grito do Pateta.

Outra curiosidade é que Oliver foi o primeiro Clássico Disney a fazer mercahndising, trazendo em suas cenas logotipos de produtos como a Coca-Cola, o jornal USA Today e a gigante dos eletrônicos Sony. O curioso é que a Disney, mais tarde, revelaria não ter recebido um centavo sequer dessas marcas, e que a decisão de usá-las de deveu ao fato de que Nova Iorque não seria Nova Iorque se não tivesse algumas propagandas aqui e ali. Falando nisso, Oliver seria o 27o Clássico Disney, mas apenas o quinto ambientado na "época atual" - ou seja, o mesmo ano no qual o desenho foi lançado - sendo os anteriores Dumbo, Bambi, 101 Dálmatas e Bernardo e Bianca.

Com orçamento de 15 milhões de dólares, Oliver e Sua Turma seria lançado nos cinemas em 18 de novembro de 1988, mesmo dia da estreia de seu principal concorrente, Em Busca do Vale Encantado, produzido por Don Bluth, ex-empregado da Disney e seu principal rival na época. Sua bilheteria foi de pouco mais de 53 milhões, resultado extremamente satisfatório para a Disney, e que levou Peter Schneider a anunciar que, a partir de então, a Disney lançaria um Clássico por ano. Em uma nova estratégia de marketing, a Disney também fez um contrato com o McDonald's, que passaria a oferecer brinquedos de Oliver e Dodger na compra de lanches, a primeira de uma série de promoções da rede de lanchonetes envolvendo personagens Disney. Oliver e Sua Turma seria relançado nos cinemas em 1996, mais uma vez com boa bilheteria.

Apesar de todo o sucesso com o público, o desenho foi arrasado pela crítica, que considerou seu roteiro previsível, suas músicas sem graça e sua animação pobre, incapaz de colocá-lo à altura dos verdadeiros Clássicos Disney. Parece que, depois disso, a Disney falou "ah, é?", e resolveu voltar com força total.

A Pequena Sereia
The Little Mermaid
1989


Na década de 1930, Disney pensou em fazer uma série de desenhos baseados nos contos de Hans Christian Andersen. Após a conclusão de Branca de Neve, o estúdio pensou em usar essa ideia para fazer um package film, e colocou o projeto em pré-produção. Devido a várias circunstâncias, entretanto, esse projeto seria abandonado.

Em 1985, o roteirista Ron Clemens encontrou um livro de contos de Andersen enquanto fazia compras em uma livraria. Após lê-lo, ele escreveu uma sinopse de duas páginas de um desenho inspirado em A Pequena Sereia, e a apresentou ao CEO e ao presidente da Disney, Michael Eisner e Jeffrey Katzenberg, respectivamente, durante uma reunião. Eisner e Katzenberg rejeitaram a sinopse, pois a Disney havia acabado de lançar nos cinemas, no ano anterior, o filme Splash: Uma Sereia em Minha Vida, do qual cogitava fazer uma continuação, o que tornava A Pequena Sereia um projeto redundante.

Katzenberg, porém, deve ter pensado melhor durante a noite, pois no dia seguinte cancelou os planos para a sequência de Splash e telefonou para Clements, dando a luz verde para a produção do desenho. Clements, então, começou a trabalhar com John Musker para transformar sua sinopse em um roteiro completo. Durante essa fase da produção - na qual Clements e Musker também foram escolhidos para dirigir o desenho - os animadores acabaram encontrando os antigos rascunhos e testes para o package film da década de 1930, e se surpreenderam com a quantidade de coincidências entre o roteiro de Clements e Musker e as propostas feitas na época por Kay Nielsen.

A produção de A Pequena Sereia - primeiro conto de fadas a se tornar um Clássico Disney desde A Bela Adormecida, lançado 30 anos antes - não começaria imediatamente após a finalização do roteiro, pois o estúdio já estava envolvido não só com Oliver e Sua Turma, mas também com Uma Cilada para Roger Rabbit, que demandou muitos esforços do departamento de animação. Enquanto não podiam começar a filmar, Clements e Musker começaram a trabalhar em outras partes do filme, como a música: em 1987, o famoso compositor Howard Ashman, que já havia escrito uma das música de Oliver, foi incluído no projeto, e começou a escrever as muitas canções que Katzenberg queria no filme - seguindo o plano começado por Schneider com Oliver, de ressucitar os Clássicos Disney musicais. Ashman levou para o projeto seu parceiro Alan Menken - repetindo a dupla responsável pelas canções de A Pequena Loja dos Horrores - e ambos, junto com Katzenberg, Clements e Musker, definiram que A Pequena Sereia teria a mesma estrutura de um musical da Broadway, com curtas sequências de ação ligadas por empolgantes sequências musicais. Uma curiosidade sobre a produção das canções é que Ashman propôs tornar o caranguejo Sebastian (na época chamado Clarence) jamaicano, e fazer todas as músicas do filme em ritmo de reggae (efetivamente ambientando o desenho no Caribe, imagino). O que, felizmente, não foi aceito.

Em 1988, com Oliver já se preparando para o lançamento, finalmente a produção de A Pequena Sereia começaria para valer. A Disney não pouparia esforços para fazer deste um verdadeiro Clássico, destinando recursos financeiros e técnicos a ele como não fazia desde a década de 1940. Os animadores tentariam usar até mesmo a câmera multiplanos, usada pela última vez em Peter Pan, mas, infelizmente, descobririam que ela estava em péssimo estado de conservação, e impossível de ser usada.

Pela primeira vez em anos, a Disney trabalharia com modelos vivos, atores contratados para interpretar os personagens do desenho e dar uma base aos animadores para facilitar a criação de seus personagens. Duas atrizes fariam o papel de Ariel, a Pequena Sereia do título: Jodi Benson, famosa por seus papéis na Broadway, faria a maior parte de suas cenas, cabendo a Sherri Lynn Stoner, membro de um grupo de comédia do improviso, as cenas mais audazes - afinal, Ariel é uma sereia, e, no fundo do mar, faz movimentos que não costumamos fazer em terra. Falando nisso, o comportamento do cabelo de Ariel sob a água seria um desafio para os animadores, que se inspiraram em vídeos da astronauta Sally Ride. Benson também acabaria ficando com o papel de dubladora de Ariel, após disputá-lo com mais de cinquenta atrizes; a escolha se deu porque Clements e Musker consideravam essencial que a mesma dubladora falasse e cantasse. No geral, A Pequena Sereia não teria um elenco estelar - as mais famosas eram mesmo Benson e Pat Caroll, que dublaria a vilã Úrsula - mas, curiosamente, vários nomes conhecidos, como Tim Curry, Nancy Cartwright, Hamilton Camp, Rene Auberjonois e até mesmo Mark Hamill (o Luke Skywalker), fariam participações dublando personagens secundários.

Apesar de todo o envolvimento de Benson com Ariel, a atriz não seria a inspiração dos animadores ao criar a aparência e personalidade da sereia. Embora o animador Glen Keane dissesse jocosamente que a inspiração fora sua esposa - e que ela era idêntica a Ariel sem o rabo de peixe - Ariel seria inspirada na atriz Alyssa Milano, na época uma das mais famosas atrizes adolescentes dos Estados Unidos, graças a seu papel interpretando a filha de Tony Danza na série Quem é o Chefe? (Who's the Boss?). Úrsula, a vilã, também teria uma inspiração da vida real, a drag queen Divine.

A Pequena Sereia seria o último desenho Disney a utilizar células de animação no processo tradicional de desenho e pintura; depois dele, a Disney passaria a utilizar um sistema chamado CAPS (de Computer Animation Production System), desenvolvido, ora vejam só, pela Pixar. Com o CAPS, os desenhos no papel eram digitalizados, coloridos já no computador com o uso de um software, combinados com planos de fundo com um outro software, também responsável por efeitos de câmera como zoom e multiplanos, e então transferidos diretamente para a película, sem a necessidade de fotografar as células - na verdade, sem a necessidade de usar as células, o que já representava um grande corte no custo de tempo e dinheiro. A Pequena Sereia, entretanto, só usaria um sistema semelhante ao CAPS - um protótipo do mesmo - em uma única cena, a do casamento de Ariel. O uso de computação gráfica nos moldes dos três Clássicos anteriores - produzindo a cena no computador e então transferindo-a para uma célula - também só seria usada em uma única cena, a da batalha dos navios. Ou seja, quase a totalidade do desenho foi produzida com o método tradicional, desenhando e pintando em células de animação, o que só torna seu resultado final ainda mais impressionante; duplamente, se considerarmos que grande parte dele se passa sob a água, algo sabidamente difícil de desenhar - tão difícil que os animadores Disney não deram conta, tendo de terceirizar a maior parte dos efeitos especiais subaquáticos para o estúdio chinês Pacific Rim Productions.

Antes que eu me esqueça, o tradicional resumo da história: Ariel (Jodi Benson) não somente é uma sereia, mas também uma princesa, mais nova das sete filhas do Rei Tritão (Kenneth Mars). Adolescente, ela se sente inconformada com sua vida sob o oceano, e tem como passatempo preferido recolher objetos jogados ao mar pelos humanos, em companhia de seu melhor amigo, o peixinho Linguado (Flounder no original, voz de Jason Marin), e levá-los à gaivota Sabidão (Scuttle no original, voz de Buddy Hackett), que sempre lhe ensina tudo errado - dizendo que um garfo é um prendedor de cabelos, por exemplo.

Apesar de todos os protestos de seu pai e de seu tutor, o caranguejo Sebastian (Samuel E. Wright), Ariel faz repetidas visitas à superfície, sempre se imaginando vivendo entre os humanos. Durante uma dessas visitas, ela se apaixona pelo Príncipe Eric (Christopher Daniel Barnes), a quem salva de um naufrágio. O Príncipe também se apaixona por sua voz - tudo o que se lembra do encontro - mas é um amor impossível, já que um não pode sobreviver no mundo do outro.

Após ser duramente repreendida por seu pai, porém, Ariel acaba encontando a feiticeira Úrsula (Pat Caroll), que lhe propõe uma barganha: transformar Ariel em humana por três dias, em troca de sua voz. A Princesa aceita o trato, e é enviada para a superfície, com duas pernas e capaz de respirar ar, mas totalmente muda. Enquanto ela convive com Eric, pensando em como fará para que vivam seu amor, Úrsula põe em prática um ardiloso plano: disfarçada como a bela Vanessa, ela usa a voz de Ariel para que Eric se apaixone por ela - o que, na verdade, é parte de um plano maior.

A Pequena Sereia seria lançado em 14 de novembro de 1989. De início, Katzenberg estava preocupado que o desenho fosse considerado um "filme para meninas" e não vendesse tantas entradas quanto Oliver, mas, aos poucos, sua esperança foi aumentando, e ele chegou a acreditar que o desenho seria o primeiro da história a ultrapassar a marca de 100 milhões de dólares, se tornando o primeiro filme de animação blockbuster. Faltou pouco para as pretensões de Katzenberg se concretizarem: A Pequena Sereia renderia pouco mais de 84 milhões de dólares nos Estados Unidos, e 99,8 milhões no mundo inteiro. Mesmo com o absurdo orçamento de 40 milhões de dólares, o filme foi considerado um grande sucesso pela Disney, satisfeitíssima com seu desempenho.

A crítica também ficou muito entusiasmada com o desenho, considerando-o o melhor da Disney em décadas, digno de figurar entre as grandes obras da época em que Walt Disney era vivo. A animação e as músicas do desenho também foram bastante elogiadas, assim como Ariel, uma menina inteligente, ativa e corajosa, totalmente diferente da imagem de submissa e controlada que as Princesas Disney tinham até então. O desenho provaria que a animação para cinema, à época eclipsada pelos filmes com atores, parques temáticos e desenhos para a TV, ainda era uma área rentável para a Disney, que, nos dez anos seguintes, transformaria esse setor em seu principal investimento, aumentando sua equipe de 300 para mais de 2.200 profissionais trabalhando em três estúdios. Esse período de onze anos, entre 1989 e 1999, inaugurado por A Pequena Sereia, e que se estenderia por mais dez Clássicos, passaria a ser conhecido como a Renascença Disney.

Além de inaugurar a Renascença Disney, A Pequena Sereia ganharia vários prêmios, incluindo dois Oscars, de melhor Trilha Sonora e Melhor Canção - Under the Sea, cantada por Sebastian para convencer Ariel de que o fundo do mar era bem melhor que o mundo da superfície; outra música, Kiss the Girl, também seria indicada. O filme ganharia esses mesmos prêmios no Globo de Ouro, no qual também seria indicado a Melhor Filme Musical ou Comédia, e sua trilha sonora ganharia dois Grammys, de Melhor Álbum Infantil e Melhor Álbum de Trilha Sonora, além de seis Discos de Platina.

A Pequena Sereia seria o primeiro Clássico Disney a ser lançado em VHS, oito meses após sua estreia nos cinemas, em uma decisão controversa e bastante criticada por alguns setores da Disney, que preferiam relançar os Clássicos nos cinemas ao invés de disponibilizá-los para uso doméstico - até então, somente alguns desenhos selecionados haviam sido lançados em vídeo, e sempre em tiragens limitadas. Foi Katzenberg quem apostou no lançamento em VHS, e sua decisão se mostrou acertada: A Pequena Sereia se tornaria o VHS mais vendido da história, com 7 milhões de unidades vendidas apenas em seu primeiro mês, e, quando o desenho foi relançado nos cinemas, em 1997, novamente teve boa bilheteria. Desde então, se tornaria praxe que todos os Clássicos Disney fossem lançados em vídeo - primeiro em VHS, mais tarde em DVD, agora em Blu-ray - mas com alguns (os "mais Clássicos"), à venda por um tempo limitado.

A Pequena Sereia também seria o primeiro Clássico Disney a dar origem a uma série animada, exibida pelo canal ABC entre 11 de setembro de 1992 e 26 de novembro de 1994, com 3 temporadas e 31 episódios, mostrando aventuras de Ariel antes de ela se apaixonar por Eric. No ano 2000, seria lançado, direto para vídeo, a continuação A Pequena Sereia: O Retorno para o Mar, na qual a protagonista é a filha de Ariel e Eric, Melody, que possui o sonho inverso de sua mãe: se tornar uma sereia e viver no mar. E, em 2008, seria lançado mais um filme direto para DVD, A Pequena Sereia: A História de Ariel, que, assim como a série, é ambientado antes do primeiro filme, logo após a morte da mãe de Ariel, quando seu pai decide banir toda a música do Reino Submarino - lei contra qual Ariel decide lutar com todas as suas forças.

Em 2007, A Pequena Sereia também seria convertido em um musical da Broadway - passo curioso se considerarmos que a ideia original era fazê-lo parecido com um - que ficaria em cartaz de janeiro de 2008 a agosto de 2009.

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