segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

Clássicos Disney (VI)

E hoje teremos mais três Clássicos Disney, dessa vez recheados de cachorros! Au-au!

A Dama e o Vagabundo
Lady and the Tramp
1955


Em 1937, o roteirista e desenhista Joe Grant, que trabalhou no roteiro de Dumbo e criou a aparência da Rainha Má de Branca de Neve, levou para Walt Disney uma série de esboços que havia feito de sua Cocker Spaniel, Lady ("Dama", em inglês), na esperança de que ela se tornasse um novo personagem Disney. Disney gostou dos esboços e pediu a Grant que fizesse o storyboard de uma história. Esse storyboard, entretanto, não o agradaria, e o projeto seria engavetado.

Em 1943, Disney leria na revista Cosmopolitan o conto Happy Dan, The Whistling Dog, de Ward Greene, sobre um cachorro que vivia nas ruas. Gostando do conto, ele compraria os direitos para transformá-lo em um desenho. O redirecionamento forçado dos estúdios Disney para os esforços de guerra, entretanto, engavetaria também essa ideia.

Dez anos depois, em 1953, um grupo de desenhistas estava praticando com os esboços de Grant, copiando-os e modificando-os, e isso chamou a atenção de Disney, que se lembrou do conto de Greene. Ele, então, pediria a seus roteiristas que criassem uma história baseada na de Greene, mas que pudesse incluir também a cachorrinha.

Após a finalização do roteiro, Disney entraria em contato com Greene, e lhe pediria para fazer uma versão do desenho em produção para ser lançada como livro, pois temia que a audiência não tivesse interesse em assistir um desenho em longa metragem com roteiro original. Greene não se animaria com o projeto, e só o aceitaria após muita insistência de Disney. Ele trabalharia rápido, e a versão em livro de A Dama e o Vagabundo seria lançada ainda em 1953.

No desenho, Dama (Barbara Ludy) é uma Cocker Spaniel que pertence a uma família rica. Seus donos, chamados por ela de Querido e Querida (Jim Dear e Darling no original, vozes de Lee Millar e Peggy Lee), dão a ela tudo do bom e do melhor, e seus vizinhos, o Scottish Terrier Joca (Jock no original, voz de Bill Thompson) e o Santo Humberto Truta (Trusty no original, voz de Bill Baucom), estão sempre por perto para alegrar sua vida. Um dia, porém, Querido e Querida decidem viajar, e chamam a Tia Sarah (Verna Felton, em seu quarto papel em um Clássico Disney) para tomar conta da casa. Sarah é apaixonada por seus dois gatos siameses, Si e Am (Peggy Lee, ambos), e detesta cachorros, transformando a vida de Dama em um inferno.

Enquanto isso, nas ruas da cidade, vive um vira-lata conhecido apenas como "o Vagabundo" (Larry Roberts). Sua vida é simples, mas feliz, vagando pelas ruas, comendo as sobras dos restaurantes e fugindo com seus amigos, a Lhasa Apso Peg (Peggy Lee) e o Buldogue Bull (Bill Thompson). As vidas de Dama e do Vagabundo se cruzam quando a Tia Sarah decide levar Dama a uma pet shop para comprar uma mordaça, mas ela foge. O Vagabundo, então, mostra a ela as coisas simples da vida, ambos se apaixonam, e, quando Tia Sarah a encontra e a leva de volta para casa, ele a segue, decidindo enfrentar o preconceito em nome de seu amor.

Os roteiristas e animadores Disney se esforçaram para que o desenho transmitisse fielmente a visão dos cães. Os rostos de Querido e Querida, por exemplo, jamais são mostrados, já que não estão no campo de visão direto de Dama. Seus próprios nomes são uma referência ao fato de que Dama os desconhece, sabendo apenas os nomes pelos quais o casal se trata em sua presença. Os desenhistas fizeram desenhos completos dos cômodos da casa, mas bem maiores que as células de animação, para que só servissem como fundo as partes inferiores, relativas à altura dos cachorros. Curiosamente, os planos de fundo foram bastante criticados à época do lançamento do desenho, com um dos críticos reclamando que, proporcionalmente, os cachorros pareciam ser do tamanho de hipopótamos.

Muitas mudanças foram feitas no roteiro durante a produção do desenho. A principal dúvida dos roteiristas foi quanto ao nome do Vagabundo. Inicialmente, ele se chamaria Homer, depois mudaram para Rags ("Trapos"), e até mesmo Bozo chegou a ser considerado. Disney, entretanto, não gostou de nenhum desses nomes, e pediu para que o próprio cachorro jamais dissesse qual é seu verdadeiro nome, com os outros cachorros se referindo a ele apenas como Vagabundo, e os humanos cada um lhe dando um nome diferente - o que aconteceria mesmo na vida real, já que, se ele tivesse um nome, não seria capaz de dizê-lo a ninguém. Curiosamente, enquanto escolhiam os nomes, os roteiristas realmente consideraram batizá-lo oficialmente como Tramp ("Vagabundo"), mas acharam que esse nome não combinaria com um personagem infantil. Diante da sugestão de Disney, contudo, todos preferiram ficar quietos e não contradizer o chefe.

Originalmente, a Tia Sarah seria uma personagem muito mais detestável, e seus gatos siameses, que originalmente se chamariam Nip e Tuck, seriam muito mais perversos, e fariam referência aos japoneses inimigos da Segunda Guerra Mundial. Com o fim da Guerra e achando que o desenho estava muito sombrio, Disney pediria mudanças no roteiro para amenizar os personagens, e mudaria os nomes dos gatos para Si e Am, uma referência ao nome antigo da Tailândia, Sião (Siam em inglês) - de onde também vem o nome da raça dos gatos. De forma oposta, o personagem do Rato era bem mais cômico no roteiro original, mas se tornaria mais amedrontador na revisão, para tornar sua cena mais impactante.

Dentre as cenas excluídas, havia uma na qual Dama teria um pesadelo ao saber que Querido e Querida esperavam um filho, que acabaria descartada por ser muito semelhante ao pesadelo que Dumbo tem quando fica bêbado; e uma na qual o Vagabundo canta uma canção descrevendo seu ponto de vista, no qual os cães são a espécie dominante e os humanos são seus animais de estimação, excluída porque os animadores acharam que ela quebrava o ritmo do filme.

A Dama e o Vagabundo seria o primeiro desenho em longa metragem da história filmado em widescreen, usando uma recém-lançada técnica chamada CinemaScope, o que causaria alguns problemas de adaptação aos animadores, que não estavam acostumados ao tamanho maior das células desse formato - as principais reclamações foram de que era mais difícil fazer tomadas em close e de destacar um personagem dos outros. Os responsáveis pelos layouts tiveram de praticamente inventar uma nova técnica para adequar seu trabalho ao novo formato de tela, e os animadores das cenas de ação tinham de ser constantemente lembrados de que agora os personagens podiam correr pelo cenário, ao invés de o personagem permanecer no mesmo lugar e o cenário passar correndo atrás dele, como era feito até então. Mas o problema mais inesperado surgiu quando o desenho já estava finalizado, e as salas de cinema começaram a recebê-lo: quase nenhuma delas tinha equipamento ou tela para exibir um filme em CinemaScope. Diante disso, Disney decidiu lançar o desenho em duas versões, uma em widescreen e uma em fullscreen (na época conhecido como Academy Ratio), o que deu mais trabalho à equipe de pós-produção, que teve de analisar cada cena do filme antes de "cortar" seus lados, para que nenhum elemento importante ficasse de fora.

A Dama e o Vagabundo estrearia em 22 de junho de 1955. Apesar de massacrado pela crítica, seria um imenso sucesso de público - realizado ao custo de 4 milhões de dólares, renderia quase 94 milhões. Sua mais icônica cena, a de Dama e o Vagabundo comendo espaguete, se tornaria uma das mais famosas do cinema, referenciada e parodiada em diversas outras obras. Seguindo a tradição, o desenho seria relançado em 1962, 1971, 1980 e 1986.

Em 2001, o desenho ganharia uma continuação, A Dama e o Vagabundo 2: As Aventuras de Banzé, lançado direto em vídeo. Nele, Banzé, um dos filhotes de Dama e do Vagabundo, criado na casa de Querido e Querida, sonha em ser um cachorro de rua, para viver com mais liberdade, e, um dia, foge de casa, se metendo em muitas confusões.

A Bela Adormecida
Sleeping Beauty
1959


Após o lançamento de Cinderela, Walt Disney decidiu criar mais um desenho baseado em um conto de fadas. Para isso, ele escolheria mais uma história de Charles Perrault, La Belle au Bois Dormant, adaptada pelos Irmãos Grimm com o nome de Dornröschen. Em inglês, essa história era conhecida como Sleeping Beauty, ou A Bela Adormecida.

O projeto, entretanto, levaria quase uma década para ser concluído: a adaptação da história e sua transformação em roteiro seriam feitas em 1951, a gravação das vozes teria início em 1952, e a produção dos desenhos começaria em 1953, mas só se concluiria em 1958, com a trilha sonora sendo gravada em 1957. Esses cinco anos de produção se explicariam pelo fato de que A Bela Adormecida também seria produzido em widescreen, mas usando uma técnica diferente da CinemaScope, chamada Technirama, que comportava planos de fundo bem mais detalhados.

Essa característica do Technirama levaria Disney a buscar mais uma vez uma inovação: ao invés de fazer o desenho com o clássico "visual Disney", ele pediria a seus animadores que o fizesse com um visual inspirado nas gravuras medievais, mais quadrado e com cores bastante vivas. Os planos de fundo eram tão detalhados que levavam de sete a dez dias para serem concluídos, enquanto um plano de fundo tradicional normalmente ficava pronto em um único dia. O resultado de fato chamaria atenção, e serviria para diferenciar A Bela Adormecida de Cinderela e Branca de Neve, o que era um objetivo secundário de Disney ao determinar o novo estilo de animação.

A história começa com o nascimento da Princesa Aurora, filha muito esperada do Rei Estêvão (Taylor Holmes) e da Rainha Leah (Verna Felton, de novo). Para celebrar o nascimento, os monarcas fazem uma grande festa, na qual Aurora é prometida ao Príncipe Filipe, filho do Rei Humberto (Bill Thompson, também de novo), monarca do reino vizinho e grande amigo de Estêvão. Também durante essa festa, as três fadas da floresta, Flora (Verna Felton, outra vez), Fauna (Barbara Jo Allen) e Primavera (Barbara Luddy), convidadas pelo Rei, decidem dar à Princesa cada uma um presente. Flora lhe dá a beleza e Fauna lhe dá uma belíssima voz, mas, antes que Primavera possa dar seu presente, surge a maligna bruxa Malévola (Eleanor Audley). Revoltada por não ter sido convidada para a festança, Malévola também decide dar à Princesa um "presente": antes do dia em que completar dezesseis anos, Aurora espetará seu dedo em um fuso e morrerá. Como ainda não havia dado seu presente, Primavera, que não tem poder para cancelar a maldição mas o tem para alterá-la, o faz, mudando as regras para que, ao invés de morrer, Aurora caia em um sono profundo, do qual só poderá ser despertada por um beijo de seu verdadeiro amor. O Rei faz sua parte e manda destruir todos os fusos do reino - coitadas da tecelãs - mas, ainda assim, as fadas sabem que Malévola não poupará esforços para que sua maldição se cumpra. Elas, então, arquitetam um plano: assumirão a identidade de simples camponesas e levarão Aurora para a floresta, onde ela viverá incógnita até seu aniversário de dezesseis anos, no qual será devolvida ao reino para seu casamento com Filipe.

O tempo passa, e Aurora (Mary Costa), às vésperas de completar dezesseis anos, está cada vez mais inquieta e rebelde, não aguentando mais viver com três tias velhas numa cabana esquecida no meio da floresta. Durante uma fugidinha, ela conhece Filipe (Bill Shirley) e ambos se apaixonam, um sem saber que o outro é da realeza e que ambos estão de casamento marcado. Graças a essa fugidinha, Malévola consegue descobrir o esconderijo de Aurora, e a guia até uma torre abandonada, onde um fuso a aguarda. Caberá às fadas e a Felipe impedir a cruel bruxa, revertendo o triste destino que ela planejou para a Princesa.

Algumas das cenas de A Bela Adormecida foram planejadas originalmente para outros desenhos e depois descartadas, como a sequência na qual Malévola sequestra o príncipe e o prende em seu calabouço, originalmente presente no roteiro de Branca de Neve, e a cena na qual Aurora e Filipe dançam nas nuvens, originalmente planejada para Cinderela. Durante a produção do desenho, mais uma vez, Disney usaria atores de verdade para guiar seus animadores; o papel do Príncipe ficaria com Ed Kemmer, um dos astros do seriado infanto-juvenil de ficção científica Space Patrol, enquanto Aurora seria interpretada por Helene Stanley, que também foi o modelo para Cinderela. Algumas cenas de Stanley interpretando Aurora seriam mais tarde reaproveitadas em alguns programas Disney para a TV, como O Clube do Mickey.

A versão original do conto possui sete fadas; Disney achou que esse número era exagerado, e que melhor seria se elas fossem apenas três. Disney também queria que todas as fadas fossem idênticas, mas os animadores preferiram fazê-las cada uma com uma aparência, personalidade e roupa de uma cor diferente - inicialmente, inclusive, as fadas fariam referência a Huguinho, Zezinho e Luisinho, os sobrinhos do Pato Donald, mas essa ideia acabaria também descartada. Já Malévola seria uma bruxa tradicional, mas, com medo de que ela ficasse muito parecida com o disfarce da Rainha Má de Branca de Neve, seu animador decidiu fazê-la uma espécie de fada malvada, bonita, elegante e com elementos como chifres e asas de morcego em sua roupa, para deixar bem claro que ela é uma criatura do mal.

A trilha sonora do desenho seria interpretada pela Orquestra Sinfônica de Berlim, e consistiria de interpretações das músicas do balé A Bela Adormecida, de Tchaikovsky. Essa trilha seria indicada ao Oscar, mas perderia para a de Porgy and Bess, adaptada de uma ópera de mesmo nome. O nome da Princesa, Aurora, também é o mesmo do balé de Tchaikovsky; no conto de Perrault, esse é o nome de sua filha, e no conto dos Irmãos Grimm, a Princesa se chama Rosa, que é o nome que Aurora adota enquanto está escondida na floresta. Já o Príncipe, que não tem nome em nenhuma das versões, foi batizado como Filipe em homenagem ao Príncipe Phillip, Príncipe Consorte da Rainha da Inglaterra.

A Bela Adormecida seria o último Clássico Disney a utilizar o processo tradicional de se pintar diretamente sobre as células com tinta. A partir do desenho seguinte, Disney passaria a utilizar um método que envolvia pintar sobre um papel comum e então transferir o desenho para a célula através de uma xerox. Esse processo chegou a ser experimentado em A Bela Adormecida na cena do dragão, mas, como as máquinas de xerox eram muito rudimentares, o resultado não agradaria.

Lançado em 29 de janeiro de 1959, A Bela Adormecida seria o mais caro de todos os desenhos Disney até então, custando absurdos 6 milhões de dólares. Sua bilheteria foi péssima, rendendo apenas 7,7 milhões, o que fez com que os Estúdios Disney fechassem o ano no vermelho pela a primeira vez desde a Segunda Guerra Mundial, o que por sua vez levou a uma reestruturação do departamento de animação, com várias demissões. O fracasso fez com que Disney desistisse de apostar em contos de fadas: somente em 1989, trinta anos depois, um Clássico Disney voltaria a se basear em um deles.

Assim como Alice no País das Maravilhas, entretanto, após a morte de Disney A Bela Adormecida se tornaria cult, apontado por profissionais da animação como um dos mais belos desenhos já feitos. Um interesse renovado pelo desenho faria com que ele fosse relançado nos cinemas em 1970, 1979, 1986, 1993 e 1995, somando uma bilheteria total de 51,6 milhões de dólares. Hoje, A Bela Adormecida é considerado um dos mais belos Clássicos Disney, e Aurora uma de suas mais famosas princesas.

101 Dálmatas
One Hundred and One Dalmatians
1961


Disney estava sempre procurando novas histórias infantis que pudesse transformar em seus longa metragens. Assim, quando foi lançado o livro The Hundred and One Dalmatians, de Dodie Smith, em 1956, ele foi um dos primeiros a lê-lo. Disney adorou a história, e entrou em contato com Smith quase que imediatamente para conseguir os direitos de adaptação, o que ocorreria em 1957. Mais tarde, Smith declararia que, desde que soube que Disney estava lendo seu livro, desejou que ele se interessasse e resolvesse fazer dele um desenho.

101 Dálmatas seria o primeiro Clássico Disney a ter todo o seu roteiro escrito por uma única pessoa, ao invés de uma equipe como era tradicional. Para escrever o roteiro preliminar, Disney escolheria Bill Peet, que já havia trabalhado em Branca de Neve, Pinóquio, Dumbo, Cinderela, Peter Pan e A Bela Adormecida. O roteiro de Peet ficaria tão bom que Disney decidiria não mudar nada - de fato, ao mostrar a Smith o roteiro, ela declararia que Peet inclusive havia melhorado sua história.

Os personagens centrais de 101 Dálmatas são um casal de, bem, Dálmatas, aqueles cachorros brancos pintadinhos que costumam ser mascotes dos bombeiros. O macho se chama Pongo (voz de Rod Taylor, de A Máquina do Tempo), e pertence a Roger Radcliffe (Ben Wright), um compositor um tanto excêntrico. Através de uma maquinação de Pongo, Roger conhece Anita (Lisa Davis), moça intelectual dona de Prenda (Perdita no original, voz de Cate Bauer). Roger e Anita se apaixonam e se casam, assim como Pongo e Prenda, que dá à luz quinze filhotinhos.

Os problemas começam a afligir a família quando uma antiga amiga de faculdade de Anita, Cruela Cruel (Cruela de Vil no original, voz de Betty Lou Gerson), surge para visitá-la. Cruela insiste em comprar os filhotinhos, mas Roger não está interessado. Ela, então, envia dois capangas, Jasper (Pat O'Malley, tradicional dublador Disney) e Horácio (Frederick Worlock), para sequestrá-los. Cruela, apaixonada por casacos de pele, planeja usar as dos cachorrinhos para fazer um casaco pintado, único e exclusivo; como eles são filhotes, ela acaba sequestrando 99 deles. Caberá a Pongo e Prenda, ajudados pelo Sheepdog Coronel (Pat O'Malley), o cavalo Capitão (Thurl Ravenscroft) e o gato Sargento (David Frankham) resgatar essa dalmatada toda, antes que seu destino cruel se cumpra.

A ordem durante a produção de 101 Dálmatas era cortar custos. O prejuízo causado por A Bela Adormecida teve um enorme impacto no orçamento do estúdio, e Disney chegou a cogitar fechar totalmente seu departamento de animação para cinema - a Warner Bros. já havia feito isso alguns anos antes, e, no final da década de 1950, o principal faturamento da Disney vinha de filmes com atores e produções para a TV - o que só não fez por pena, já que seus estúdios haviam sido fundados justamente para produzir desenhos para o cinema.

Para evitar fechar o departamento, Disney ordenou que se enxugasse o orçamento ao máximo, cortando todo o possível. Primeiro, foi decidido que o desenho seria em fullscreen, e não em widescreen como os dois antecessores, já que as células menores eram mais baratas. Depois, Ub Iwerks, amigo de longa data de Disney, começou a experimentar o uso de xerox na hora de passar os desenhos para as células, o que já havia sido tentado em A Bela Adormecida, mas descartado devido a limitações tecnológicas das máquinas de xerox. Iwerks conseguiu desenvolver um método no qual o desenho era transmitido perfeitamente, embora com alguns "rabiscos" de rascunho aparentes - até então, os desenhistas não tinham o hábito de fazer a arte-final de seus desenhos, cabendo esse papel aos artefinalistas, que já a faziam na célula. Disney achou que os rabiscos davam uma aparência interessante ao desenho, e deu luz verde para que ele fosse produzido assim mesmo.

Todos os desenhos, portanto, foram transferido via xerox para as células e então pintados nelas, sem arte-final. Pelo lado positivo, isso reduziu drasticamente os custos, e deu ao desenho uma aparência vanguardista. Pelo lado ruim, cerca de 400 artefinalistas do estúdio perderam seus empregos, o que também ajudou a cortar as despesas, mas não deve ter sido lá muito bom para as suas famílias. Também é importante citar que, se não fosse pelo método das xerox, talvez nem tivesse sido possível fazer um desenho com Dálmatas, já que os artefinalistas teriam de cobrir todas as suas pintas uma a uma - um total de 6.459.952 pintas em todo o desenho.

Uma curiosidade sobre 101 Dálmatas é que ele também foi o primeiro Clássico Disney a não fazer uso frequente de canções - mesmo com um de seus personagens sendo compositor. Todo o desenho conta com apenas três canções, sendo que a única de destaque é a que Roger faz em "homenagem" a Cruela Cruel - as outras duas são o jingle de um biscoito canino e a canção de encerramento, da qual Roger só canta duas estrofes antes de o desenho acabar. Na verdade, Mel Leven, o compositor escolhido por Disney, chegou a escrever várias outras canções, mas elas seriam todas descartadas durante a produção para dar mais ritmo ao filme.

101 Dálmatas estrearia em 25 de janeiro de 1961, com um custo final de 4 milhões, considerado aceitável por Disney. O desenho foi bem recebido pelo público e pela crítica - apesar de alguns críticos terem torcido o nariz para a ideia de Cruela de fazer um casaco de peles de cachorro - e rendeu 6,5 milhões, se tornando o décimo filme mais assistido do ano e garantindo que os Estúdios Disney fechasse 1961 no azul. Seu bom desempenho garantiu que fosse relançado outras quatro vezes, em 1969, 1979, 1985 e 1991. Como já está se tornando padrão, 101 Dálmatas também ganharia uma continuação lançada diretamente em vídeo, As Aventuras de Patch em Londres, de 2003, na qual um dos filhotes de Pongo e Prenda se perde na cidade.

Mas, antes disso, em 1996, 101 Dálmatas ganharia uma versão com atores de carne e osso, com Glenn Close interpretando Cruela Cruel. O filme segue a mesma história do desenho, mas nele Roger (Jeff Daniels) é um game designer, e Anita (Joely Richardson) é uma estilista que trabalha para Cruela - como curiosidade, vale citar que os cachorros não falam no filme, e que Jasper é interpretado por Hugh Laurie (também conhecido como Dr. House). O filme faria um sucesso moderado, e daria origem a uma série de animação de 65 episódios, exibida pela ABC entre setembro de 1997 e março de 1998; e a uma sequência - chamada 102 Dálmatas - lançada em 2000, na qual Cruela, ao sair da prisão, bola um plano para sequestrar os filhotes de um abrigo de animais genrenciado pelos personagens de Ioan Gruffud (o Sr. Fantástico do filme do Quarteto Fantástico) e Alice Evans.

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