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Legend of the Five Rings

Eu não costumo aceitar sugestões. Na verdade, eu nem gosto de receber sugestões. Sugerir um tema para o átomo é praticamente condená-lo a jamais ganhar um post aqui. Em primeiro lugar porque o átomo é um blog para falar das coisas que eu gosto, não das coisas que os leitores gostariam que eu falasse. Em segundo lugar, mesmo que um leitor sugira um tema do qual eu goste, pode ser que eu não esteja a fim de escrever sobre aquilo naquele momento. Pode ser uma regra meio ditatorial, mas é em parte graças a ela que este blog sobrevive com posts regulares há mais de cinco anos.

Mas hoje eu vou fazer uma raríssima concessão e falar sobre o RPG Legend of the Five Rings. Não porque eu tenha gostado da sugestão ou mudado de idéia, mas porque eu já havia feito uma lista de possíveis temas para quebrar o binômio cinema/esporte que parece ter se apossado do átomo ultimamente, e por um acaso Lot5R estava entre eles. Na verdade, este post só não entrou no ar antes por três motivos: o primeiro é que havia outros assuntos sobre os quais eu estava mais a fim de falar, como Indiana Jones, Conan, e encerrar a série do James Bond. O segundo é que atualmente eu estou escrevendo os posts do átomo com várias semanas de antecedência - este aqui está escrito desde 12 de julho; neste fim de semana eu vou escrever o post de número 376. O terceiro é que, se eu o colocasse semana passada, a piadinha que eu bolei para abrir o post sobre o críquete perderia a graça. Infelizmente, esta piadinha acabou gerando um reforço na sugestão, o que quase me levou a adiar este post mais uma vez. Mas, como já estava pronto mesmo, pelo menos eu me livro de continuar sendo sugerido.

Agora, a segunda confissão do dia: eu nunca joguei Lot5R. Nem o card game, nem o RPG. Já tive a oportunidade de ler, porém, vários dos livros, tanto do sistema original quanto do d20. Como um apaixonado pelo Japão, achei a ambientação muitíssimo interessante. E, como todo jogador sabe, uma boa ambientação é mais do que metade do caminho andado para um bom RPG. Tanto que, mesmo sem nunca ter jogado, considero Lot5R um dos meus RPGs preferidos.

Legend of the Five Rings, ou Lot5R, foi criado pela Alderac Entertainment Group, ou AEG, em 1995. Originalmente, o jogo não era um RPG, mas um card game, que buscava pegar carona no sucesso de Magic: the Gathering, mas utilizando uma ambientação oriental. Inicialmente, o card game não era publicado pela AEG, mas pela Five Rings Publishing Group, ou FRPG, uma empresa criada especialmente para publicá-lo, mas que acabou lançando outros card games, como Doomtown e a segunda versão de Rage.

O card game de Lot5R foi um grande sucesso, principalmente por não representar um combate entre dois indivíduos, como em Magic, mas entre diversas facções, cada uma comandada por um jogador. Embora em torneios os duelos costumem ser entre dois jogadores, o jogo foi desenvolvido para que qualquer número de jogadores pudesse se enfrentar simultaneamente, resultando em grandes batalhas. Além disso, destruir o oponente não é a única condição de vitória, com diversos outros objetivos podendo ser cumpridos para se ganhar a partida, o que permite diversas estratégias diferentes, e até mesmo que alguém que esteja apanhando feio trace um plano B e vença "de virada".

Motivada pelo sucesso do card game, a AEG decidiu pegar sua ambientação, ou seja, o mundo no qual os duelos dos cards aconteciam, e lançar um RPG. Assim, em 1997 foi lançado o primeiro livro básico de Lot5R, publicado pela AEG. Poucos meses após o lançamento, a FRPG foi vendida para a Wizards of the Coast, que assumiu a produção do card game. Apenas em 2000, um ano após a Wizards ser comprada pela Hasbro, a AEG comprou os direitos do card game, que é publicado até hoje, e já conta com mais de 50 expansões, além de alguns sets especiais para jogadores iniciantes.

Tanto o card game quanto o RPG são ambientados em Rokugan, um reino fictício semelhante ao Japão Feudal, mas com elementos de fantasia e da mitologia não só do Japão, mas de outros países do Sudeste Asiático. O mundo onde Rokugan, também conhecido como Império Esmeralda (Emerald Empire), está localizado não tem um nome específico, sendo que os habitantes de Rokugan costumam usar o nome de seu país para se referir a todo o planeta. Além de Rokugan, as duas únicas nações conhecidas deste mundo, com as quais os habitantes de Rokugan interagem de vez em quando, são as Areias Escaldantes (Burning Sands), um reino inspirado na Arábia das Mil e Uma Noites, e os Reinos de Marfim (Ivory Kingdoms), inspirados na Índia.

As origens de Rokugan são semelhantes às origens do mundo de acordo com a mitologia grega: no início, o Paraíso Celestial e o mundo material eram uma coisa só, e nele viviam Amaterasu, a Senhora Sol, e Onnotangu, o Senhor Lua. Ambos nasceram do Nada, se apaixonaram, e tiveram dez filhos, conhecidos como os kami. Onnotangu era tão apaixonado por Amaterasu, porém, que se recusava a dividir seu amor até mesmo com seus filhos. Enciumado, ele decidiu devorar todos eles. O único que escapou foi Hantei, escondido por sua mãe em uma caverna próxima antes de ser comido por seu próprio pai.

O tempo passou, e Hantei cresceu. Quando já estava adulto e sabia manejar a espada, ele desafiou seu pai para um duelo, no qual cortou sua barriga. De dentro de Onnotangu caíram oito de seus filhos devorados em direção a um mundo desconhecido; um deles, Ryoshun, não resistiu e morreu, passando a ser o guardião de Jigoku, o Reino dos Mortos. Junto com os kami, caíram lágrimas de Amaterasu e o sangue de Onnotangu, que se misturaram e deram origem à humanidade. Exilados neste novo mundo, os kami passaram a viver dentre os humanos como seus líderes e governantes, fundando Rokugan; Hantei, que livrou seus irmãos de Onnotangu, foi declarado Imperador, governante de todos os humanos e kami. Infelizmente, porém, um dos Kami não deu sorte ao cair: Fu Leng, ao invés de cair em terra firme, caiu dentro de um poço aparentemente sem fundo, enlouquecendo e dando origem ao que seria o maior flagelo de Rokugan, as Shadowlands.

Para poder enfrentar Fu Leng e as hordas das Shadowlands, os kami reuniram seguidores em torno de si, fundando os sete grandes clãs de Rokugan: o Clã do Caranguejo, o Clã da Garça, o Clã do Dragão, o Clã do Leão, o Clã da Fênix, o Clã do Escorpião e o Clã do Unicórnio. Liderados por um estranho homem que veio do Oeste, de nome Shinsei, um representante de cada clã, conhecidos como os Sete Trovões, derrotaram Fu Leng e selaram seu poder em doze pergaminhos negros. Mesmo após esta vitória, as Shadowlands ainda existem, e suas hordas de monstros e poderes malignos continuam sendo uma ameaça ao Império, o que mantém os clãs sempre vigilantes.

Além das Shadowlands, o Império ainda têm outro problema para lidar: antes dos kami e dos humanos chegarem a Rokugan, outros seres e outras raças já viviam por lá. Os principais são os Nezumi, homens-rato que viviam onde hoje são as Shadowlands, e que tiveram seu império destruído pela chegada de Fu Leng, revertendo a um estado quase selvagem para poder sobreviver; os nobres Naga, humanóides da cintura para cima, cobras da cintura para baixo, uma das raças mais antigas do mundo, que se recolheu a um longo sono em suas terras ancestrais após a chegada dos humanos, planejando somente acordar se forem necessários; os kenku, homens-corvo arredios e grandes mestres da espada, que se esconderam nas florestas, são quase impossíveis de serem encontrados, não querem nada com Rokugan, mas que segundo as lendas teriam treinado os maiores espadachins da história do Império Esmeralda; e os ogros, que um dia tiveram um império avançadíssimo, mais até do que os humanos têm hoje, mas que, com a chegada de Fu Leng, foram escravizados, e hoje são pouco mais que brutamontes irracionais a seu serviço. O povo de Rokugan é extremamente preconceituoso e xenófobo, e trata qualquer um que também não seja um humano de Rokugan - inclusive humanos de outras terras, os gaijin - com extrema desconfiança.

Com o passar dos anos, a sociedade de Rokugan foi se estruturando, com os descendentes dos fundadores de cada clã se estabelecendo em terras próprias, e desenvolvendo características que se tornariam a marca de cada clã: o Clã do Caranguejo tomou para si a tarefa de vigiar a muralha que separa Rokugan das Shadowlands, enfrentando eventuais invasores, e por isso seus membros se tornaram especialistas em estratégias de defesa, guerreiros formidáveis, e de certa forma de pouca literação. O Clã da Garça, vivendo sempre em contato com a Família Imperial, se tornou um clã de artistas e duelistas, formado principalmente por membros da corte. O Clã do Dragão vive nas montanhas ao norte do Império, isoladas do restante de Rokugan durante o inverno devido a pesadas nevascas, o que faz com que seus membros sejam também distantes e desinteressados nos assuntos de outros clãs, vivendo quase como monges; o Clã do Leão é militarizado, respeita a honra acima de tudo, e está sempre pronto para defender o Imperador; o Clã da Fênix faz amplo uso da magia, gerenciando escolas de magia e sempre estudando novos usos para ela na sociedade; o Clã do Escorpião é sorrateiro, fechado em si mesmo e cheio de segredos, conta com muitos ninjas e espiões, e seus membros sempre usam máscaras ou pintura facial, para esconder suas verdadeiras identidades; e o Clã do Unicórnio é feito de cavaleiros e viajantes, que se aventuram em terras distantes e são vistos como bárbaros pelos outros clãs.

Com o tempo, foram surgindo também clãs menores, fundados por outros que não os kami. Não se sabe quantos clãs menores existem, mas é preciso autorização do Imperador para se fundar um novo clã, autorização dada somente após se prestar um grande favor ao Império. Pelo menos um clã menor, o Clã do Louva-a-Deus, cujos membros se destacam por suas habilidades em navegação, conseguiu crescer em importância até ser hoje considerado por muitos como um clá maior. Outros clãs menores famosos são o Clã da Raposa, o Clã do Coelho, o Clã da Aranha e o Clã do Boi. A Família Imperial não faz parte de nenhum clã, mas todos os clãs devem lealdade ao imperador.

A intriga entre os clãs é parte fundamental da ambientação, então, ao criar seus personagens, além de escolhas tradicionais como o Bushi ("guerreiro") ou Shugenja ("mago"), o jogador pode escolher ser também um Cortesão, uma espécie de político. Diferentemente da maioria dos RPGs, Lot5R permite que sessões inteiras de jogo sejam roladas apenas com intriga política, sem qualquer rolagem de combate. O combate em Lot5R, aliás, é conhecido por sua extrema letalidade, capaz de matar em segundos um personagem despreparado que ataque um monstro apenas atrás de pontos de experiência. Apesar disso, há bastante espaço para combates, com as hordas das Shadowlands batendo à porta do Império a todo tempo, e monstros da floresta e coisas do tipo vagando nas regiões mais selvagens e inexploradas de Rokugan.

O nome do jogo, Legend of the Five Rings, faz referência a um outro livro, The Book of Five Rings, de Miyamoto Musashi. No jogo, a natureza conta com cinco elementos, Terra, Fogo, Água, Ar e Vazio. Todas as magias do jogo são ligadas a um destes elementos, que juntos formam tudo o que existe em nossa realidade. Curiosamente, a AEG enfrentou um processo por parte do Comitê Olímpico dos Estados Unidos, que clamava que o Comitê Olímpico Internacional teria os direitos sobre qualquer figura que utilizasse cinco anéis entrelaçados em qualquer formato, e o primeiro logotipo do jogo trazia cinco anéis entrelaçados em forma de estrela. O Comitê ganhou a ação, e a AEG teve de mudar o logotipo, o que não trouxe muitos problemas para o RPG, mas acabou fazendo com que, no card game, as cartas mais antigas ficassem com o verso diferente das demais.

Atualmente, Lot5R está em sua Terceira Edição, lançada em 2005. Em 2000, quando foi lançada a Segunda Edição, a Wizards decidiu aproveitar que tinha direitos sobre o cenário, por causa do card game, e usá-lo como ambientação oficial para seu novo Oriental Adventures, um suplemento de Dungeons and Dragons voltado para aventuras no oriente, e que em Advanced Dungeons and Dragons usava como cenário Kara-Tur, o "continente oriental" vizinho a Faerûn, de Forgotten Realms. Por causa disso, todos os livros de Lot5R Segunda Edição, à exceção do livro básico, serviam tanto para o sistema tradicional de Lot5R, conhecido como "Roll & Keep", quanto para o sistema d20 de D&D. Alguns livros específicos para d20, como Creatures of Rokugan, Magic of Rokugan e a ambientação Rokugan, que fazia as vezes de livro básico, também chegaram a ser lançadas pela AEG. Na Terceira Edição, porém, os livros voltaram a ser apenas voltados para o sistema original, sem nada de d20.

Além do Card game e do RPG, Lot5R também teve lançados vários romances e um jogo de miniaturas, chaamdo Clan Wars, que não é mais fabricado. Estão previstos para um futuro próximo uma história em quadrinhos no estilo graphic novel e um jogo de tabuleiro. Uma das coisas mais curiosas de Lot5R é que o resultado dos torneios do card game pode influenciar os rumos da história não somente das expansões seguintes, mas também do RPG, dependendo do que aconteça com os clãs envolvidos nos duelos travados com os cards.

Eu posso ser suspeito para falar, mas, se você é fã do estilo oriental, recomendo que dê uma chance a Lot5R. Mesmo que não seja para jogar, como acontece comigo. Afinal, fantasia medieval oriental não é algo que se ache aos montes por aí, e a encontrada em Lot5R é da melhor qualidade.
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Críquete

Ok, eu assumo que ando meio sem imaginação. Afinal, ultimamente todos os posts aqui do átomo têm sido ou sobre cinema, ou sobre esportes. Hoje, para variar, não será exceção, pois hoje teremos um post sobre um esporte. Um esporte curioso e pouco conhecido aqui no Brasil - do jeito que eu gosto, por sinal. Hoje é dia de um post sobre críquete.

Confesso que nunca assisti a uma partida de críquete, pelo simples motivo de que, até onde eu saiba, nenhum canal jamais se interessou em transmitir uma aqui no Brasil. Meu único contato televisivo com este esporte foi através de umas duas edições que eu assisti do programa ICC Cricket World, que a ESPN costumava passar a umas 6 da manhã, não sei se ainda passa. Eu comecei a procurar me informar sobre este esporte no ano passado, de curiosidade, de tanto ouvir falar que o beisebol era parecido com, ou descendia do críquete, ou qualquer coisa nesse sentido. Acabei encontrando vários vídeos que ensinam a jogá-lo, e várias curiosidades deste esporte tão diferente. Desde que eu fiz o post sobre beisebol, tenho vontade de compartilhá-las com vocês. Como eu não resisto mesmo, hoje é o dia.

Antes de começarmos, apenas um pequeno aparte: curiosamente, muita gente que eu conheço acha que críquete é aquele esporte onde o objetivo é acertar uma bola com uma marreta e fazê-la passar por baixo de uns aros, que costuma aparecer em desenhos animados como o do Pica-Pau. Na verdade aquele esporte se chama croquê, e não tem nada a ver com críquete.

O críquete é um dos esportes mais antigos do mundo, tão antigo que ninguém sabe com certeza quando ele foi inventado. O que se sabe é que já no tempo dos normandos e saxões ele era jogado pelas crianças da região de Weald, no sudeste da Inglaterra. Como o objetivo primordial do jogo é bastante simples - acertar com um bastão uma bola arremessada - acredita-se que ele tenha sido apenas passatempo de crianças das zonas rurais até o século XVII, quando os adultos resolveram adicionar mais regras e começar a praticá-lo. O primeiro registro oficial do esporte é de 1597, em um processo onde uma escola clama propriedade sobre uma faixa de terra, e uma das testemunhas declara que as crianças da escola utilizam o local para jogar "kreckett" há mais de cinqüenta anos. A primeira referência ao críquete como um esporte de adultos é de 1611, também em um processo, onde dois homens são processados por ficarem jogando cricket aos domingos pela manhã ao invés de irem à igreja. Falando nisso, aliás, assim como ninguém sabe quando o esporte foi inventado, ninguém sabe de onde veio o nome "críquete", ou quando ele começou a ser usado. A teoria mais aceita é a de que a palavra cricket, que dá nome ao jogo em inglês, seja uma corruptela do francês criquet, que não é mais usada mas significava "bastão" - e que, curiosamente, também deu nome ao jogo de croquê.

Seja como for, a partir do momento em que o críquete passou a ser um jogo de adultos, ele foi crescendo em popularidade e ganhando novas regras - e atraindo apostadores. Por volta de 1697, as regras já eram bastante semelhantes às de hoje, mas a primeira codificação ocorreu apenas em 1744, quando surgiram as chamadas Leis do Críquete, em vigor até hoje. Por volta de 1751 começaram a surgir os primeiros clubes, e, com eles, os primeiros campeonatos. Depois disso, os colonizadores e imigrantes ingleses começaram a espalhar o esporte pelo mundo, até que, em 1844, foi disputada a primeira partida internacional da história do esporte, entre Estados Unidos e Canadá, em Nova Jérsei. A primeira partida internacional envolvendo jogadores profissionais seria disputada em 1877, entre Inglaterra e Austrália, na Austrália. A partir daí começou o que ficou conhecido como "a Era de Ouro do críquete", quando o esporte atingiu níveis de popularidade jamais vistos, e que durou até mais ou menos a Primeira Guerra Mundial.

Hoje, o críquete é considerado o mais inglês dos esportes, e é o esporte mais popular da Índia, Paquistão, Sri Lanka e das ex-colônias inglesas do Caribe, sendo considerado também o esporte nacional da Austrália - tanto que o estádio mais famoso de lá, o Melbourne Cricket Ground, também usado para futebol e rugby, e que foi o Estádio Olímpico em 1956, é um estádio de críquete. O órgão que controla o esporte internacionalmente, o ICC (International Cricket Council), foi fundado em 1909 (com o nome de Imperial Cricket Conference), pela Inglaterra, Austrália e África do Sul. Atualmente, o ICC já conta com 101 membros, incluindo o Brasil - embora eu nunca tenha ficado sabendo de nenhuma partida de críquete realizada em território nacional.

O críquete é um esporte demorado, com um placar incompreensível a quem não conhece o sistema de pontuação, mas que, na verdade, tem regras bastante simples. De fato, o objetivo não poderia ser mais simples: o time que está defendendo arremessa uma bola, e o time que está atacando tem de rebatê-la com um bastão. É claro que não é só isso, então passemos aos detalhes; como de costume, vou apenas explicar o básico, e quem quiser saber das nuances pode procurar por aí.

O críquete é um dos poucos esportes jogados em um campo oval. Este campo não possui uma dimensão padrão, mas normalmente tem entre 137 e 150 metros de diâmetro. O campo é todo gramado, exceto por uma pequena faixa de terra, um retângulo de 3 por 20 metros, localizado bem em seu centro. Este retângulo é conhecido como pitch, e é lá que a ação se desenrola.

Um time de críquete conta com 11 jogadores. Quando o time está defendendo, todos os onze estão em campo; quando o time está atacando, apenas dois deles vão para o pitch rebater, os outros esperam sua vez de jogar; a ordem dos rebatedores é escolhida pelo capitão do time, não precisa ser divulgada previamente, e normalmente traz os melhores rebatedores no início e os piores por último. Dos onze jogadores do time de defesa, um é o arremessador (bowler), o sujeito que jogará a bola na direção do rebatedor, se posicionando em uma das pontas do pitch. Outro jogador do time de defesa será o wicket keeper, e se posicionará na ponta do pitch oposta ao arremessador, normalmente agachado, atrás do wicket - do qual falaremos em breve. Os outros nove jogadores são espalhados pelo campo, em posições escolhidas pelo capitão do time, e determinadas pela estratégia da defesa. Estes jogadores terão a missão de pegar a bola caso ela seja rebatida, e podem mudar de posição a qualquer momento durante o jogo, de acordo com a conveniência do capitão. Finalmente, um dos dois jogadores do time atacando será o rebatedor (striker), e se posicionará na ponta oposta do pitch ao arremessador, na frente do wicket. O outro será conhecido como non-striker, e se posicionará atrás do arremessador.

O famoso wicket consiste de três estacas de madeira, chamadas stumps, de 71 cm de altura, fincadas firmemente no chão. O pitch tem dois wickets, um de cada lado. Sobre as estacas repousam duas pecinhas leves de madeira chamadas bails. As bails não são fixas, estando apenas apoiadas sobre os stumps, de forma que, se algo atingir os stumps, derrubará as bails. Quando isso acontece, diz-se que o wicket foi "quebrado", o que é bom para a defesa. Assim, o objetivo do arremessador no jogo é acertar o wicket, e o do rebatedor é usar o bastão para impedi-lo, jogando a bola para longe. E tentando anotar uma corrida quando consegue.

A 122 cm do final de cada lado do pitch existe uma linha branca que delimita uma área chamada crease, no centro da qual fica um wicket. Toda vez que o rebatedor consegue rebater a bola, ele e seu parceiro (o non-striker), sairão correndo, cada um em direção à crease oposta. Se ambos conseguirem alcançá-la, anotarão uma corrida, e seus papéis serão invertidos, com o non-striker rebatendo na jogada seguinte. Se acharem seguro e válido, eles podem continuar correndo, anotando mais corridas em seqüência. Neste caso, será o rebatedor para o arremesso seguinte o que terminar na ponta do pitch oposta ao arremessador. "Corridas automáticas" também são anotadas caso o rebatedor rebata a bola para fora do campo: 6 corridas se a bola não tocou o chão antes de fazê-lo, ou 4 se tocou. Estas corridas automáticas substituem as que o rebatedor e seu parceiro tiverem feito antes da bola sair.

A bola do críquete é dura e sólida, com por volta de 225 mm de circunferência, e pesando aproximadamente 160 gramas. Seu núcleo é de cortiça, enrolado com linha, e envolto em couro. A bola normalmente é vermelha para jogos diurnos, ou branca para jogos noturnos, embora outras cores, como amarelo, laranja e até rosa-choque, sejam eventualmente usadas. O bastão com o qual o rebatedor tentará rebatê-la é feito de madeira, e, diferentemente de um bastão de beisebol, é chato com uma empunhadura cilíndrica, parecendo um remo. o bastão não pode ter mais de 96,5 cm de comprimento, e a parte chata - conhecida como "lâmina" - não pode ter mais de 10,8 cm de largura. Normalmente o bastão pesa entre 1 e 1,4 Kg. Também diferentemente do beisebol, a bola não é rebatida em cima, na altura dos ombros, mas embaixo, quase paralela à perna do rebatedor, para proteger o wicket. O arremessador também não arremessa a bola parado, mas após uma pequena corrida. Também é permitido que a bola quique antes de ser rebatida. O uniforme do críquete é composto de camisas de mangas curtas ou compridas, calças compridas e um boné na cabeça; o rebatedor usa proteções nas pernas, para não se machucar se levar uma bolada, e, opcionalmente, um boné de plástico com uma grade no rosto, também para proteger de boladas; o wicket keeper também pode usar as proteções nas pernas e no rosto, e obrigatoriamente usa um par de luvas especiais, tipo luvas de goleiro, para ajudá-lo a pegar a bola em movimento.

Um jogo de críquete conta com dois árbitros, um principal, que fica atrás do arremessador, e um auxiliar, que fica ao lado do rebatedor - ambos com uma certa distância para não atrapalhar o jogo, evidentemente. Jogos especialmente importantes podem ter um terceiro árbitro, que assiste à partida pela televisão, e auxilia o árbitro principal em caso de jogadas controversas. Partidas internacionais contam ainda com um árbitro conhecido como match referee, que só interfere no jogo no caso de violação às Leis do Críquete ou ao fair play.

Uma partida de críquete não tem duração pré-determinada. Ela é dividida em quatro innings, que, por sua vez, são divididos em overs. Um over consiste de seis arremessos válidos (ou seja, nos quais o rebatedor tinha condições de rebater a bola; jogar a bola lá pra longe não vale). No final de cada over, o arremessador troca de lugar com um dos nove jogadores que estavam espalhados pelo campo, e o novo arremessador arremessará da outra ponta do pitch, o que efetivamente faz com que o striker e o non-striker também invertam seus papéis. Um mesmo jogador pode ser arremessador em quantos overs quiser, desde que não o seja em dois overs seguidos.

Um innings (também no singular) dura quantos overs forem necessários até que dez dos onze rebatedores do time atacando sejam eliminados - pois as regras exigem que o time atacando tenha sempre dois jogadores em campo. Quando um rebatedor é eliminado, outro dos que estavam esperando assume seu lugar, e o eliminado sai do jogo. Um rebatedor pode ser eliminado de nada menos que dez formas diferentes; a mais simples se chama caught ("pego"), quando o rebatedor consegue rebater a bola, mas um dos jogadores da defesa a pega antes que ela toque o chão. Um rebatedor também estará "pego" se a bola tocar sua mão enquanto ele estiver segurando o bastão. Outra forma comum de eliminação se chama bowled, e acontece quando a bola arremessada atinge o wicket, derrubando uma ou ambas as bails, mesmo que ela tenha resvalado no bastão antes de fazê-lo. Se o arremesso for válido, e a bola for parar nas mãos do wicket keeper, ele poderá usá-la para quebrar o wicket, eliminando o rebatedor em uma jogada conhecida como stumped.

Se o rebatedor conseguir rebater a bola, ela tocar o chão, e ele sair correndo em direção à crease, ainda há uma forma dele ser eliminado: se qualquer jogador do time de defesa (incluindo o arremessador e o wicket keeper) conseguir pegar a bola antes dela sair de campo, ele poderá arremessá-la na direção de um dos dois wickets. Se este wicket for quebrado antes do jogador que está correndo alcançar a crease, a corrida não será anotada, e o jogador estará eliminado, em uma jogada conhecida como run out. Curiosamente, as regras não dizem que o rebatedor precisa rebater a bola antes de tentar anotar a corrida, então na teoria um rebatedor poderia simplesmente sair correndo assim que a bola saísse da mão do arremessador, tentando ele e seu parceiro alcançar as creases antes que um wicket seja quebrado - mas, evidentemente, é uma jogada muito mais difícil.

Caso o rebatedor pare a bola com qualquer parte de seu corpo, ao invés de com o bastão, e o árbitro auxiliar julgar que ela iria quebrar o wicket se ele não o tivesse feito, ele também é eliminado, por leg before wicket (ou lbw, algo como "perna na frente do wicket"). Caso o próprio rebatedor quebre o wicket, atingindo-o com o bastão ou com parte do corpo, mesmo que seja após rebater a bola, ele também estará eliminado, por hit wicket - por este motivo, os rebatedores correm segurando seus bastões, ao invés de jogá-los longe como no beisebol. Outras formas mais ridículas de serem eliminados incluem pegar a bola com as mãos (handled the ball), obstruir um jogador de defesa que esteja tentando acertar o wicket após pegar a bola (obstructing the field), acertar a bola com o bastão duas vezes em uma única jogada (hit the ball twice), ou demorar mais de três minutos para assumir a posição ao substituir um rebatedor eliminado (timed out).

Uma vez que dez rebatedores tenham sido eliminados, termina o innings, e os times trocam de posição: os onze jogadores que estavam na defesa agora tentarão rebater, e os onze que tentaram rebater agora irão para a defesa, com um deles assumindo a função de arremessador e outro a de wicket keeper. Como o jogo completo tem quatro innings, cada time defenderá e o outro atacará em dois deles. Ao final do quarto innings, quem tiver somado mais corridas será o vencedor. O time que rebate no último innings não precisa continuar até dez de seus rebatedores serem eliminados se alcançar um número de corridas que lhe garanta a vitória antes disso, e, se no final do terceiro innings a quantidade de corridas do time que irá rebater no quarto já for maior do que a do que rebateu no terceiro, o quarto não é nem jogado. É possível - apesar de raríssimo - um jogo terminar empatado. Caso seja um jogo que não possa terminar empatado, como um jogo eliminatório, por exemplo, ele será decidido no bowl-out, uma espécie de "disputa de pênaltis": cinco jogadores de cada time arremessam a bola em direção a um wicket, sem rebatedor; o time que quebrar mais wickets vence.



O placar do críquete é curiosíssimo: são anotados o número de corridas, seguido do número de rebatedores eliminados até o momento. Assim, um time com 195 corridas e 3 eliminados tem o placar de 195/3. Os resultados finais também são curiosos: supondo que o time B, que rebateu no quarto innings, fez 192 corridas, não conseguindo alcançar o time A, que terminou o terceiro innings com 200, então o time A ganhou por 8 corridas. Se este mesmo time B alcançasse 201 corridas, quando só tinha 4 jogadores eliminados, então o time B ganhou por 6 wickets (sendo 6 a diferença entre o número de eliminados no momento, 4, e o número de eliminados necessário para o jogo terminar, 10). Finalmente, caso no final do tercerio innings o time A tinha 200 corridas, mas só no segundo innings o time B marcou 205, então o time B ganhou por um innings e cinco corridas.

A esta altura, muitos já devem estar imaginando que um jogo que exige que dez rebatedores sejam eliminados quatro vezes e termina com por volta de 200 corridas para cada lado deve demorar um pouquinho. De fato, um jogo de críquete costuma demorar muito. Mas muito mesmo. Normalmente de três a cinco dias, com seis horas de jogo por dia, com o jogo sendo interrompido quando não há mais luz natural, e continuando no dia seguinte. Como o críquete não pode ser jogado na chuva, caso chova em algum dia, o jogo vai durar um dia a mais. Evidentemente, um jogo tão comprido não é apropriado para ser transmitido pela televisão, e apenas os fãs mais ardorosos se disporiam a freqüentar um estádio cinco dias seguidos para acompanhar um jogo inteiro. Portanto, para que o críquete atraísse mais espectadores, tanto presentes quanto pela TV, o ICC decidiu torná-lo menos demorado. Mas, ao invés de mudar as regras, como a FIVB fez com o vôlei, por exemplo, ela decidiu criar novas modalidades do esporte.

Atualmente, o críquete tradicional, que dura quatro innings e cinco dias, é conhecido como Test Cricket, termo cunhado durante uma excursão do time inglês pela Austrália no final do século XIX, quando a série de partidas disputadas foi considerada um "teste de força e competência" para a equipe inglesa pela imprensa local. O Test Cricket ainda é considerado a principal modalidade do esporte, embora venha perdendo popularidade nos últimos anos. Atualmente, o Test Cricket só é jogado internacionalmente por equipes das chamadas Test Nations - Inglaterra, Austrália, África do Sul, Índias Ocidentais (uma seleção de jogadores de treze ex-colônias inglesas do Caribe), Nova Zelândia, Índia, Paquistão, Sri Lanka, Zimbábue e Bangladesh - e em um sistema de séries de jogos, no qual cada Test Nation enfrenta todas as outras ao longo de seis anos, com um ranking dizendo qual é a mais bem sucedida, e um troféu que sempre fica com a primeira do ranking (atualmente a Austrália). A única exceção é o torneio ICC Intercontinental Cup, disputado anualmente desde 2004 em sistema de todos contra todos, exclusivamente por nações sem Test Status, vencido duas vezes pela Irlanda e uma pela Escócia. Também anualmente, desde 1882, é disputada uma série de 5 jogos entre a Inglaterra e a Austrália conhecida como The Ashes, e considerada como o mais importante e tradicional evento do críquete mundial. Seja qual for o torneio, no Test Cricket ambos os times jogam de branco, e cada jogo tem uma duração máxima de cinco dias, terminando obrigatoriamente empatado se não chegar ao final no término do quinto dia.

A modalidade que é atualmente mais popular é a conhecida como Limited Overs Cricket ou One Day International, ou ainda ODI. A primeira partida ao estilo ODI, mas ainda sem este nome, foi jogada em 1962 na Inglaterra, e o primeiro torneio completo neste formato foi disputado no ano seguinte. A popularidade desta versão mais "curta" do jogo rapidamente convenceu o ICC de que este era o melhor caminho a ser seguido, e em 1971 foi criada oficialmente esta nova modalidade, que, como o próprio nome sugere, tem suas partidas resolvidas em um único dia, com duração de entre quatro e seis horas, o que estimula a transmissão pela TV e aumenta o público presente nos estádios. Graças a isso, hoje em dia todos os torneios entre clubes, e as mais populares competições internacionais, como a Copa do Mundo, são disputados no formato ODI. Diferentemente do que ocorre no Test Cricket, no ODI as equipes usam uniformes coloridos, e são possíveis jogos noturnos, com o uso de refletores. O que ainda não é possível é jogar na chuva, portanto, apesar do normal ser que o jogo termine em um dia só, se começa a chover durante uma partida ela é interrompida e concluída ou quando a chuva parar ou no dia seguinte.

Para que o ODI termine em um dia só, ele tem algumas regras diferentes do Test Cricket. Para começar, são apenas dois innings: no primeiro o time A arremessa enquanto o time B rebate, no segundo o time B arremessa enquanto o time A rebate. O jogo termina quando dez rebatedores do time B são eliminados (com o time A ganhando por x corridas), ou quando o time B ultrapassa o número de corridas do time A (com o time B ganhando por n wickets). Além disso, cada innings dura um número máximo de overs - 50 nas competições internacionais, entre 40 e 60 em competições domésticas - sendo que o innings termina após o último arremesso do último over, mesmo que os dez rebatedores ainda não tenham sido eliminados. Além disso, o campo recebe duas marcações extras: dois círculos de 27,4 m de diâmetro centrados em cada wicket, e um oval de 27,4 m de raio a partir do centro do campo. O que está dentro dos dois círculos é chamado close infield; fora dos círculos mas dentro do oval é o infield; e fora do oval é o outfield. Durante três períodos do jogo conhecidos como powerplays - em uma partida de 50 overs por innings, os powerplays são os 10 primeiros overs do innings, mas dois períodos de 5 overs consecutivos cada, escolhidos pelo capitão do time defendendo - o time defendendo só poderá ter dois de seus nove jogadores de defesa no outfield, e pelo menos dois no close infield, devendo os demais ficarem obrigatoriamente no infield. Fora dos powerplays, o time pode ter no máximo cinco jogadores no outfield, e não há mínimo para o close infield - embora normalmente os dois que lá estavam sejam mantidos. O intuito desta regra é encorajar os rebatedores a rebater para o outfield, deixando o jogo mais emocionante. Finalmente, no ODI cada jogador, além de não poder arremessar por dois overs seguidos, só pode arremessar em no máximo dez overs, o que impede que um dos times leve vantagem por ter um arremessador acima da média.

A modalidade mais recente é também a mais veloz: conhecida como Twenty20, ela foi inventada em 2003 na Inglaterra, na forma de um campeonato com as regras da ODI, mas apenas 20 overs por innings. Um jogo de Twenty20 costuma durar duas horas e meia, o que faz com que esta categoria venha crescendo em popularidade no mundo inteiro, principalmente nas competições entre clubes. Uma partida de Twenty20 só tem dois innings, de 20 overs cada, cada arremessador só pode arremessar por no máximo 4 overs, apenas dois jogadores da defesa podem ficar no outfield durante os seis primeiros overs, e depois disso até cinco jogadores podem, nunca pode haver mais de cinco jogadores de defesa atrás do rebatedor, e um time que esteja "fazendo cera" e aumentando a duração do jogo de propósito é penalizado em cinco corridas. Os torneios de clubes de Twenty20 não costumam "substituir" os torneios ODI, sendo disputados simultaneamente a estes. Além de alguns jogos "soltos", até hoje só foi realizado um torneio internacional de Twenty20, o ICC World Twenty20, disputado no ano passado na África do Sul, e vencido pela Índia. O intuito do ICC é fazer com que o campeonato seja disputado a cada dois anos, com o próximo já marcado para ano que vem na Inglaterra.

A mais importante e famosa competição do críquete mundial é a Copa do Mundo, disputada no formato ODI. A versão masculina foi disputada pela primeira vez em 1975, e é disputada a cada quatro anos desde 1999. O maior vencedor é a Austrália, que tem quatro títulos, sendo os três últimos seguidos; as Índias Ocidentais têm dois títulos, e Índia, Paquistão e Sri Lanka têm um cada. No feminino a Copa é disputada a intervalos irregulares desde 1973, mas o planejamento é de que o seja a cada quatro anos após 2005. A Austrália também é o maior vencedor, com cinco títulos; a Inglaterra tem dois títulos, e a Nova Zelândia um. Falando nisso, existe críquete feminino, disputado em todas as três modalidades, embora os torneios mais famosos, como as séries do Test Cricket, o The Ashes, o ICC Intercontinental Cup e o ICC World Twenty20 sejam todos masculinos - se bem que há planos para que o primeiro ICC World Twenty20 feminino seja disputado ano que vem.

O críquete já foi esporte olímpico, disputado apenas uma vez, na Olimpíada de 1900, com vitória da Grã-Bretanha sobre a França, únicos dois times que participaram, na modalidade Test Cricket, a única que existia. O ICC é uma entidade reconhecida pelo COI, e durante algum tempo até tentou incluir um torneio ODI no programa olímpico, mas sem sucesso. Especula-se que agora o ICC tentará incluir o Twenty20 nas Olimpíadas, mas ainda não há uma posição oficial do órgão sobre o assunto.
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James Bond (IV)

E hoje é dia da quarta e última parte do post sobre James Bond! Após quase três décadas de sucessos no cinema, a década de 1990 não começava muito boa para o agente 007. Para começar, pouco após a estréia de Licence to Kill, em 1989, tiveram início várias batalhas judiciais, motivadas pela intenção da MGM de vender os direitos de distribuição de todos os filmes de James Bond para a francesa Pathé, que então os comercializaria para exibição em TVs de todo o mundo, algo com o qual a EON não concordou. Pouco depois, em 1991, faleceria Richard Maibaum, roteirista de 13 dos 16 filmes da série. Albert R. Broccoli, o produtor da série, teria graves problemas de saúde, que fariam com que ele se afastasse da produção do 17o filme, e acabariam culminando em seu falecimento, em 1996. Ainda em 1991, a União Soviética deixaria de existir, acabando com a Guerra Fria, principal componente dos filmes de agente secreto. Para completar, em 1994, Timothy Dalton, que assinara um contrato para três filmes, o romperia devido à demora para iniciar as filmagens do novo projeto, o que deixaria a EON mais uma vez procurando por um novo Bond.

Pierce BrosnanDesta vez, porém, eles procuraram pouco. Assumindo a produção, Barbara Broccoli, filha de Albert, e Michael G. Wilson, co-produtor dos últimos três filmes, decidiram contratar Pierce Brosnan, 42 anos, que já havia sido considerado para o papel quando Roger Moore deu lugar a Dalton. Barbara e Wilson também escolheram para a direção o neozelandês Martin Campbell, sem nenhum grande sucesso no currículo, mas considerado bastante promissor. Finalmente, para aproveitar a queda do Muro de Berlim e o fim da União Soviética, os produtores decidiram fazer do novo filme uma "modernização" de Bond - já considerado por muitos críticos como "ultrapassado" e "sem lugar no mundo atual". Assim surgiu GoldenEye.

GoldenEye (no Brasil, 007 contra GoldenEye), não era exatamente um reboot, mas se preocupava em trazer um Bond ainda no auge da carreira para a década de 1990, com todas as mudanças que ela pudesse representar para a vida de um agente secreto. Embora os filmes anteriores não tenham sido oficialmente desconsiderados, todo o elenco principal foi renovado, à exceção de Desmond Llewelyn, que, aos 81 anos, repetiu o papel de Q. M, por outro lado, seria interpretado pela famosíssima atriz Judi Dench, na primeira vez em que o chefe do MI6 seria mostrado como sendo uma mulher. Para o papel de Moneypenny, secretária de M, foi escolhida uma atriz com um nome no mínimo curioso, Samantha Bond.

GoldenEye foi o primeiro filme da série totalmente dissociado da obra de Ian Fleming, já que não usa absolutamente nenhum dos elementos - nem o título - dos livros escritos por ele. Talvez por isso, o título foi uma espécie de homenagem a Fleming, já que é o nome de sua casa de praia na Jamaica. O tal GoldenEye do filme, inclusive, não é uma pessoa, mas um satélite, capaz de emitir um pulso eletromagnético que destrói qualquer equipamento eletrônico em sua área de atuação. No filme pode não haver Guerra Fria, mas os russos continuam fazendo das suas, vendendo o tal satélite para um sindicato do crime, que planeja usá-lo para destruir Londres e iniciar um colapso financeiro. O homem por trás de tal plano é ninguém menos que Alec Trevelyan (Sean Bean), ex-agente 006 e amigo de Bond, que forjou sua própria morte antes de fundar o sindicato, auxiliado pela assassina Xenia Onatopp (Famke Janssen), que possui o desagradável hábito de estrangular suas vítimas com as coxas, e pelo programador Boris Grishenko (Alan Cumming), que trabalhava no projeto GoldenEye. Sem saber que enfrentará um ex-colega, Bond é enviado para deter os criminosos, e para tal tarefa contará com a ajuda, como de costume, de uma Bond Girl, Natalya Simonova (Izabella Scorupco), gênio da informática e sobrevivente de um ataque do GoldenEye. Bond também terá a ajuda de um agente da CIA, Jack Wade (Joe Don Baker), também enviado para deter o sindicato, e do ex-agente da KGB Valentin Zukovsky (Robbie Coltrane), que o ajuda a encontrar Trevelyan.

GoldenEye estreou em novembro de 1995, primeiro nos Estados Unidos, e quatro dias depois no Reino Unido. Apesar de ter recebido algumas críticas desfavoráveis, foi considerado um grande sucesso, eleito um dos melhores filmes da série, e rendeu um bom dinheiro: com orçamento de 58 milhões de dólares, rendeu quase 351 milhões, sendo 106 milhões só nos Estados Unidos, e 26 milhões só no primeiro fim de semana. Com música-tema composta por Bono e The Edge, do U2, e cantada por Tina Turner, GoldenEye também foi o primeiro filme de Bond a usar efeitos especiais gerados por computação gráfica, e o primeiro a ser adaptado para um video game, e um por sinal muito bom.

O enorme sucesso de GoldenEye, além de provar que Bond poderia sobreviver nos anos 1990, colocou uma enorme pressão sobre os produtores, que foram praticamente obrigados pela MGM a fazer com que o filme seguinte fosse, pelo menos, um sucesso equivalente. Alguns problemas, porém, afetariam seriamente a produção. Além da já citada morte de Broccoli, sete meses após a estréia de GoldenEye, Campbell se recusou a dirigir o filme, alegando não querer fazer dois filmes de Bond seguidos; para substituí-lo, foi escolhido Roger Spottiswoode. O roteiro também foi problemático, com sete roteiristas trabalhando simultaneamente. Finalmente, o orçamento foi mais do que estourado, e fechou em nada menos que 110 milhões de dólares.

O resultado disso tudo foi Tomorrow Never Dies (007 o Amanhã Nunca Morre no Brasil), que estreou em dezembro de 1997, primeiro no Reino Unido e uma semana depois nos Estados Unidos, rendendo 125 milhões de dólares na Terra do Tio Sam, e 333 milhões no mundo inteiro. A recepção dos críticos foi bastante diversa, com alguns considerando-o o melhor filme de Bond em muitos anos, outros achando que foi dinheiro jogador fora. A música-tema foi gravada por Sheryl Crow.

Judi Dench (M)Desta vez, Bond deve enfrentar um magnata das telecomunicações, Elliot Carver (Jonathan Pryce), que possui o singelo plano de usar sua influência na mídia para engenderar alguns eventos que levariam à Terceira Guerra Mundial, para obter vantagens financeiras, evidentemente. Carver possui dois capangas de respeito - o tecno-terrorista Henry Gupta (Ricky Jay) e o fortão Stamper (Götz Otto, que ganhou o papel dizendo no teste que era "grande, mau e alemão") - e, ainda por cima, é casado com uma ex-namorada de Bond, Paris (Teri Hatcher). A Bond Girl do filme é uma agente chinesa, Wai Lin (Michelle Yeoh), que também investiga as empresas de Carver, devido ao aumento de sua influência no sudeste asiático. Bond também conta mais uma vez com a ajuda de Jack Wade, e o filme introduz um novo personagem recorrente, o agente do MI6 Charles Robinson (Colin Salmon), que também participaria dos dois filmes seguintes.

Além dos problemas com a produção, Tomorrow Never Dies teve alguns problemas de elenco: Anthony Hopkins foi convidado para viver Carver, mas recusou. Natasha Henstridge seria a Bond Girl, que seria uma agente russa, mas, talvez para evitar clichês, foi substituída por Yeoh. Monica Belucci testou para o papel de Paris, mas os produtores preferiram Hatcher, que estava grávida de três meses quando as filmagens começaram, o que fez com que ela se atrasasse excessivamente para uma das filmagens, irritando Brosnan, que depois teria pedido desculpas ao saber de sua gravidez. Rumores de desentendimentos nas filmagens, aliás, foram constantes, e devidos principalmente a brigas entre Spottiswoode e o roteirista Bruce Feirstein.

As brigas foram tão intensas que Spottiswoode não quis voltar para uma nova seqüência, alegando cansaço. O 19o filme de Bond teria, portanto, um novo diretor, Michael Apted. The World is Not Enough (no Brasil, 007 o Mundo Não é o Bastante), que tirava seu nome do lema da família Bond, "Orbis non Sufficit", apresentado pela primeira vez tanto no livro quanto no filme de On Her Majesty's Secret Service, estrearia dois anos depois, em novembro de 1999, primeiro nos Estados Unidos, e uma semana depois nos Reino Unido. Curiosamente, para afastar de Bond a imagem de um "agente secreto ultrapassado", a MGM fez um acordo com a Mtv, que exibiu nos Estados Unidos diversos especiais sobre o agente na semana de lançamento do filme, totalizando mais de 100 horas de programação. Aparentemente, deu certo: com orçamento de 135 milhões de dólares, o filme rendeu 126 milhões só nos Estados Unidos, sendo 35,5 milhões só no primeiro fim de semana, e totalizou 361 milhões de dólares no mundo inteiro, se tornando o Bond mais rentável até então.

Em The World is No Enough, Bond investiga o assassinato de Robert King (David Calder), amigo pessoal de M e empresário do ramo do petróleo que planeja construir um oleoduto do Azerbaijão até o ocidente, passando pela Turquia. O principal suspeito do crime é o terrorista Renard (Robert Carlyle), que, no passado, seqüestrou a filha de Robert, Elektra (Sophie Marceau), e levou um tiro na cabeça disparado pelo 009, ficando com a bala alojada no cérebro, se movendo lentamente até que um dia ele morra. Imaginando que Renard talvez queira vingança, Bond decide proteger Elektra, e acaba descobrindo que o terrorista planeja roubar uma bomba nuclear soviética. Durante sua missão, Bond acaba conhecendo a física nuclear e Bond Girl Christmas Jones (Denise Richards), e contará com a ajuda mais uma vez de Valentin Zukovsky. The World is Not Enough foi o último filme onde Desmond Llewelyn, que faleceria cerca de um mês após a estréia, interpretou Q. Coincidentemente, neste filme Q se aposenta, e passa seu cargo para um assistente (John Cleese), que assumiria o papel de Q no filme seguinte.

Com música-tema interpretada pela banda Garbage, que criou um clip no melhor estilo agente secreto para divulgá-la, The World is Not Enough entrou para a história como o filme com a seqüência pré-título mais longa da série, com 14 minutos. Apesar da boa recepção do público, o filme foi desprezado pela crítica, que o elegeu como um dos piores da carreira de Bond. A Dra. Jones também foi muito criticada, sendo eleita a pior Bond Girl de todos os tempos pela revista Entertainment Weekly, com os críticos argumentando que Denise Richards não era uma atriz apropriada para interpretar uma física nuclear, e que um uniforme de camisetinha e shortinho não combinava com uma cientista.

Mas, como se aprende no cinema, não há filme tão ruim que uma seqüência não possa piorar. Em novembro de 2002, simultaneamente nos Estados Unidos e Reino Unido, estrearia Die Another Day (no Brasil, 007 Um Novo Dia Para Morrer), vigésimo filme da série. Nele, após matar Moon (Will Yun Lee), um Coronel renegado norte-coreano, Bond é capturado pelo inimigo, e submetido a 14 meses de tortura. Libertado em uma troca de prisioneiros, ao ser trocado por Zao (Rick Yune), homem de confiança de Moon, Bond decide descobrir quem seria o contato de Moon no ocidente, responsável por alertar Zao de que ele seria um agente britânico infiltrado, ato que levou à sua captura. Investigando Zao, Bond acaba chegando a Gustav Graves (Toby Stephens), magnata dos diamantes, que na verdade planeja usar um satélite carregado com eles e capaz de disparar um poderoso laser para auxiliar a Coréia do Norte a conquistar a Coréia do Sul e o Japão. Também durante a investigação, Bond se envolve com a agente norte-americana Jinx (Hale Berry), a Bond Girl do filme, e primeira Bond Girl negra da história, que também investiga Zao. O elenco conta ainda com Rosamund Pike como Miranda Frost, secretária de Graves; Michael Madsen como o chefe de Jinx; e Madonna, em uma participação especial no papel de uma instrutora de esgrima.

Dirigido por Lee Tamahori, e com música-tema de Madonna, Die Another Day comemorava o aniversário de 40 anos da série, trazendo referências a todos os dezenove filmes anteriores em suas cenas. Curiosamente, ele também usa alguns elementos do livro Moonraker não usados no filme, se tornando o primeiro filme de Bond desde Licence to Kill a trazer elementos dos livros de Fleming. Com o orçamento astronômico de 142 milhões de dólares, rendeu 432 milhões, sendo 161 milhões só nos Estados Unidos.

Mas, no meio do caminho, alguma coisa deu errado. A escolha da Coréia do Norte como vilã do filme e cenas de pouco tato onde os norte-americanos comandam tropas sul-coreanas fizeram com que o filme fosse odiado na Ásia, e boicotado em diversos países, dentre eles a Coréia do Sul. A quantidade absurda de merchandising durante o filme também foi pesadamente criticada, com alguns críticos o apelidando de Buy Another Day. Muitos também acharam que o foco nos efeitos especiais e nas traquitanas que Bond usa durante as missões foi exagerado, sobrando pouco espaço para desenvolver o enredo. No geral, Die Another Day é considerado um dos piores - ou até mesmo o pior, por alguns - filmes da série, embora um crítico ou outro tenha elogiado a direção de Tamahori ou as referências aos filmes anteriores.

Como aparentemente os roteiros originais não estavam mais dando certo, a EON decidiu tentar uma volta às origens, fazendo mais um filme inspirado nas obras de Fleming. Já desde 1999 a MGM havia conseguido os direitos de filmagem de Casino Royale, o único livro de Bond jamais adaptado pela EON, e, coincidentemente o primeiro de todos, lançado em 1953. Graças a uma adaptação não-oficial feita em 1967, os direitos de Casino Royale pertenciam à Sony, mas esta os trocou pelos direitos sobre um filme do Homem-Aranha, que na época pertenciam à MGM - curiosamente, em 2005 a Sony compraria a MGM, o que faria com que os direitos voltassem para ela.

Em 2004, quando foi dada a luz verde para a primeira adaptação "oficial" de Casino Royale, os roteiristas começaram a trabalhar em mais um filme com Brosnan no papel principal. Para aproveitar que se tratava do primeiríssimo livro, porém, a EON decidiu finalmente fazer um reboot da série, que ignoraria todos os vinte filmes já existentes, e começaria a contar a história de James Bond como 007 do início, e na época atual. Para isso, eles precisariam de um novo Bond. A lista especulativa chegou a ter mais de 200 nomes, incluindo os de Eric Bana, Hugh Jackman, Goran Visnic e Clive Owen; Colin Salmon chegou a ser seriamente considerado, o que faria com que Bond fosse, pela primeira vez, negro. O preferido dos produtores era Henry Cavill, mas, com apenas 22 anos, foi considerado jovem demais para o papel. Finalmente, após muita procura, Barbara Broccli e Michael G. Wilson decidiram apostar em Daniel Craig, ator inglês de 37 anos que estava fazendo muito sucesso no filme Nem Tudo é o que Parece (Layer Cake, no original).

Daniel CraigA escolha de Craig, porém, não foi pacífica: pela primeira vez, os fãs se revoltaram contra a decisão dos produtores, alegando que o ator não se enquadrava na descrição de Bond presente nos livros, principalmente por ser louro. Até mesmo um site, danielcraigisnotbond.com chegou a ser posto na ar para expressar seu descontentamento. Apesar disso, a EON manteve sua decisão, e o futuro provaria que ela o faria bem: a maioria dos críticos foi extremamente elogiosa quanto à interpretação de Craig, e aparentemente até os fãs acabaram se rendendo após o filme, já que ele foi confirmado também para os dois próximos.

Casino Royale (007 Cassino Royale no Brasil) é o primeiro filme da série a não começar com a característica seqüência do revólver; ao invés disso, ele começa com uma seqüência em preto-e-branco mostrando como Bond conseguiu a licença para matar, e o código 007. Logo após, aí sim, temos a seqüência do revólver, e então a abertura, considerada uma das mais criativas da série. A música tema, You Know My Name, interpretada por Chris Cornell, ex-vocalista do Audioslave e do Soundgarden, é a terceira a não ter o mesmo nome do filme, e a segunda a não fazer referência a este durante sua letra. Ela também substitui o famoso tema de Bond durante o filme, com este sendo executado apenas durante os créditos finais, como que dando partida na carreira do agente secreto.

No filme, um inexperiente Bond, recém-promovido a agente 00, seguindo pistas em uma missão, vai da África ao Caribe e então a Miami, onde evita um ataque terrorista contra um avião. Ao fazê-lo, ele coloca Le Chiffre (Mads Mikkelsen - "chiffre" significa "número" em francês), banqueiro de uma organização terrorista, gênio matemático e mestre no xadrez, em uma posição complicada, precisando de dinheiro para devolver a seus clientes. Para recuperar o dinheiro, Le Chiffre arma um jogo de pôquer de apostas altíssimas - 10 milhões de dólares só para começar a jogar - no qual planeja usar seu intelecto superior para ganhar. O MI6 fica sabendo do jogo e decide inscrever Bond, também exímio jogador, com o plano de que, se Le Chiffre perder, o governo britânico lhe oferecerá proteção em troca de informações sobre os terroristas. Durante esta empreitada, Bond acaba conhecendo a Bond Girl Vesper Lynd (Eva Green), uma agente do Tesouro enviada para supervisionar a operação e fornecer o dinheiro necessário ao jogo, e o agente da CIA Felix Leiter (Jeffrey Wright, primeiro ator negro a interpretar Leiter em um filme oficial), que também foi enviado com o mesmo plano, mas não joga tão bem quanto Bond.

Judi Dench repete mais uma vez o papel de M, mas nem Q nem Moneypenny aparecem no filme - e, aparentemente, estão fora dos planos da EON nesta nova fase, pois também não estão previstos para os próximos. Para interpretar a Bond Girl foram cogitados nomes como Angelina Jolie, Charlize Theron e Audery Tautou, que só não ficou com o papel por já estar filmando O Código Da Vinci. Antes das filmagens começarem, Quentin Tarantino expressou interesse em dirigir o filme, e Matthew Vaughn, diretor de Nem Tudo é o que Parece chegou a ser cogitado, mas no final a direção acabou ficando mais uma vez a cargo de Martin Campbell, de GoldenEye. Para que o filme tivesse o maior clima de 007 possível, os produtores decidiram restringir os efeitos em computação gráfica ao mínimo possível, e filmar todas as seqüências de ação "à moda antiga"; isto fez com que, pela segunda vez, uma cena de um filme de Bond fosse parar no Livro dos Recordes, já que na cena do capotamento o Aston Martin do 007 gira sete vezes em torno do próprio eixo.

Com orçamento de 130 milhões de dólares, Casino Royale estreou em novembro de 2006, simultaneamente no Reino Unido e Estados Unidos. Rendeu a considerável soma de 594,2 milhões, sendo 167 milhões só nos Estados Unidos, 40 milhões só no primeiro fim de semana. A recepção dos críticos foi excelente, embora alguns tenham achado o filme - especialmente o final - muito comprido. No geral, Casino Royale foi considerado um dos melhores filmes da franquia, e cumpriu sua missão de reiniciar a série com louvor.

Vesper LyndTanto que o próximo filme, Quantum of Solace (ainda sem título no Brasil, mas provavelmente não será a tradução literal, "a medida do consolo"), será uma seqüência direta dele. Dirigido por Marc Forster (de De Volta à Terra do Nuca) e com estréia prevista para o final deste ano, o filme tira seu título de um dos contos do livro For Your Eyes Only, embora o enredo seja totalmente diferente. Nele, Bond continua no encalço da organização terrorista financiada por Le Chiffre, e vem até a Bolívia atrás de Dominic Greene (Mathieu Amalric), um ambientalista envolvido com reflorestamento, mas que na verdade planeja dar um golpe de estado e se apoderar de toda a reserva de água do país. A Bond Girl será Camille (Olga Kurylenko), descendente de russos e bolivianos, que deseja uma vingança pessoal contra Greene - de início, os produtores pensaram em utilizar uma atriz latina para o papel, e as brasileiras Juliana Paes e Fernanda Lima chegaram a ser cogitadas.

Por enquanto, o maior problema de Quantum of Solace parece ser o orçamento, mais do que estourado e já passando dos 230 milhões de dólares. Problemas como a revolta dos bolivianos com a forma como seu país é supostamente mostrado no filme, revolta dos chilenos com filmagens em seu país quando na tela será a Bolívia, e a destruição acidental de dois Aston Martins durante filmagens na Itália chegaram a ameaçar um atraso no lançamento, mas, como o filme já está em pós-produção, provavelmente ficará pronto a tempo. A música-tema, Another Way to Die será pela primeira vez um dueto, cantada por Alicia Keys e Jack White, escolhidos após os produtores cogitarem as cantoras Amy Winehouse, Beyoncé, Leona Lewis e Duffy.

Após Quantum of Solace, ainda restam quatro títulos de contos de Ian Fleming ainda não usados para filmes: The Hildebrand Rarity, The Property of a Lady, Risico e 007 in New York. Usando um deles ou não, o próximo filme, com Craig mais uma vez no papel, já está previsto para 2010. Por enquanto, Bond vem conseguindo sobreviver ao fim da Guerra Fria. Para felicidade dos fãs, esperamos que o mundo sempre venha a precisar de um agente secreto com permissão para matar.
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Conan

Como já narrei em algum lugar por aqui, eu comecei a ler quadrinhos de super-heróis ainda criança, por volta dos sete anos, quando meu avô apareceu lá em casa com uma revista do Capitão América que alguém tinha esquecido no trabalho dele, ou alguma coisa assim. Depois disso comprei uma revista dos X-Men numa vez em que fui ao jornaleiro com meu pai, e depois não parei mais. Quer dizer, parei de comprar revistas há alguns anos, mas continuo me interessando por super-heróis.

Apesar de minha mãe achar que crianças de sete anos não deveriam ler quadrinhos de super-heróis - algo com o qual eu hoje de certa forma concordo, mas isso não vem ao caso agora - ela nunca proibiu que meu pai ou meu avô comprassem qualquer destas revistas para mim, com exceção de uma: A Espada Selvagem de Conan. Ok, Conan não é exatamente um super-herói, mas a revista era publicada pela Marvel, e a Abril, que a lançava aqui, a colocava no mesmo pacote de outras como Homem-Aranha, X-Men, Capitão América e Superaventuras Marvel. De fato, eu me lembro que meu avô fez certa vez uma assinatura de um pacote da Turma da Mônica para mim e para minha irmã, que durou pouco tempo, pois logo depois a publicação das revistas da Mônica passou da editora Abril para a Globo. Para compensar meu avô, a Abril lhe deu a opção de trocar a assinatura por qualquer outro pacote da editora, que ele receberia até o tempo contratado por ele acabar. Eu, evidentemente, tentei convencê-lo a escolher o pacote Marvel, mas minha mãe não deixou, devido, principalmente, à presença de Conan no meio das revistas. Não lembro o que ele acabou escolhendo, mas deve ter sido alguma revista pra ele, ou então o dinheiro de volta.

Hoje eu também concordo com minha mãe que nenhuma criança deveria ler Conan, mas eu só fui entender o porquê anos mais tarde, quando, já maior de idade, finalmente travei meu primeiro contato com as histórias do personagem - exceto pelos dois filmes com o Schwarzenegger, que eu assisti algumas vezes na Sessão da Tarde, e de um desenho bem pouco Conan que passava na Globo. Não sei quando a Espada Selvagem deixou de ser publicada no Brasil, mas provavelmente ela nem existia mais quando eu li A Fênix na Espada, um livro emprestado por um amigo meu. Neste momento, eu gostaria de confessar três coisas: primeiro, eu só resolvi ler o livro por que eu era fã de Schwarzenegger; segundo, eu nunca li uma edição da Espada Selvagem na vida; terceiro, isto não me impediu de me tornar fã de Robert E. Howard e de querer ler todas as demais histórias de seu mais famoso personagem. Tanto que Conan é o tema do post de hoje.

Robert E. HowardRobert Ervin Howard, o homem que criou Conan, nasceu em Peaster, Texas, em 1906. Filho de um médico, ele passou sua infância viajando por várias cidades do sul dos Estados Unidos, ouvindo histórias de fantasmas contadas por vaqueiros, histórias da África contadas por ex-escravos, histórias da Guerra de Secessão contadas por soldados, e até lendas folclóricas contadas pelos índios. Sua mãe, que sofria de tuberculose, fez questão de educá-lo para ser um homem letrado, incutindo nele um profundo amor pela literatura e poesia, e sempre incentivando-o a escrever seus próprios versos. Apesar disso, em sua adolescência Howard fora um apaixonado pelo boxe, e se dedicava a atividades físicas como levantamento de pesos e luta livre com a mesma paixão que devorava livros e escrevia poemas.

Mas o que ele queria mesmo era ser escritor. Desde os nove anos de idade, Howard já escrevia histórias envolvendo vikings, árabes e batalhas medievais épicas. Suas maiores influências eram Jack London, que costumava escrever sobre reencarnação e vidas passadas; Rudyard Kipling e suas histórias de continentes selvagens; e Thomas Bulfinch, especialista em lendas da mitologia clássica. Aos treze anos, Howard se apaixonou pelos bárbaros após ler um livro sobre os pictos, um antigo povo habitante da Escócia. Aos quinze, se apaixonou pela revista Adventure, especializada em contos de aventura ao estilo Indiana Jones. Diante disso, seu destino estava traçado: ele seria um escritor de contos de aventura.

Howard começou a tentar ainda aos quinze anos, criando vários personagens e enviando-os para revistas como a Adventure e sua concorrente Argosy, mas tudo o que conseguiu foi uma pilha de rejeições. Diante disso ele recuou por um tempo, se dedicando à escola e ao boxe, e trabalhando em uma variedade de empregos como colhedor de algodão, caixa de doceria e estenógrafo. Aos poucos, ele voltou a oferecer seus contos a revistas, até que um deles, Spear and Fang ("lança e presa"), sobre um homem das cavernas, foi aceito pela revista Weird Tales ("histórias esquisitas"), que lhe pagou 16 dólares. Aos 18 anos, Howard estava no mercado: a Weird Tales aceitaria várias outras histórias escritas por ele, finalmente concretizando seu sonho de ser um escritor profissional.

Aos 20 anos, Howard escreveu sua primeira história a ilustrar a capa da revista, Wolfshead, cujo protagonista era um lobisomem. Aos 22, publicou a primeira história de seu primeiro personagem regular, Solomon Kane, um aventureiro do século XVII que corria o mundo combatendo o mal. Aos poucos ele passou a publicar também poemas, escritos em conjunto com seu amigo Tevis Clyde Smith. Howard começava a criar para seus personagens um mundo sombrio, quase hipnótico, cheio de imagens oníricas e fantásticas, algo inigualado em qualquer outra revista de contos de aventura da época, e que ajudou a popularizar a Weird Tales, junto com os contos de horror cósmico e intimista de H.P. Lovecraft e a fantasia surreal de Clark Ashton Smith, ambos também colaboradores da revista. Mas Howard não queria ficar restrito às histórias esquisitas, e passou a escrever também para outra revista, a Fight Stories, onde criou o marinheiro Steve Costigan, que lutava boxe, era pouco inteligente, mas tinha um coração de ouro. Eventualmente, Howard passou a escrever também para a Action Stories, e, aos 23 anos, tornou-se um escritor profissional, jamais exercendo outra profissão pelo resto da vida.

Com emprego garantido, Howard passou à experimentação. Influenciado por seu amigo Lovecraft, ele começou a misturar elementos de fantasia, horror, mitologia, filosofia, bárbaros, magia e lutas de espada, tudo em uma história só. O resultado foi The Shadow Kingdom, primeira aventura de seu mais recente personagem, o bárbaro Kull. Kull foi publicado na Weird Tales e fez um enorme sucesso, mas várias de suas aventuras posteriores foram rejeitadas, o que levou Howard a desistir do personagem.

Em 1932, aos 26 anos, Howard estava viajando pelo Texas, quando teve uma inspiração súbita. Com ela, ele criou a Ciméria, uma terra fictícia, localizada no hemisfério norte, lar de bárbaros fortes e destemidos - claramente uma referência a seus queridos pictos. Ao chegar em casa, Howard decidiu expandir esta idéia, e acabou criando um mundo inteiro, ao qual chamou de Era Hiboriana, pois ele não queria que fosse outro planeta, mas nossa própria Terra, em uma era tão antiga que não temos qualquer registro dela hoje. Howard decorou sua Era Hiboriana com diversos países, povos, monstros e magias. Só faltava um herói para viver aventuras nela. E este herói seria Conan, o cimério.

ConanConan já havia aparecido extra-oficialmente em uma história de Howard, de 1931, chamada People of the Dark ("o povo da escuridão"), publicada na revista Strange Tales of Mystery and Terror, na qual o protagonista diz que, em outra vida, foi "Conan, um bárbaro de cabelos negros que servia ao deus Crom". A primeira aventura oficial de Conan, porém, surgiria após Howard reescrever uma história rejeitada de Kull, rebatizando-a para The Phoenix on the Sword (A Fênix na Espada). Esta história seria publicada na edição de dezembro de 1932 da Weird Tales, e faria tanto sucesso que Howard escreveria e publicaria nada menos que outras dezesseis aventuras de Conan na revista ao longo de três anos.

Com Conan, Howard acabou criando um novo estilo de fantasia, conhecida como Sword and Sorcery, ou Espada e Magia. Este estilo influenciaria diversos outros escritores da Weird Tales, e eventualmente do mundo inteiro. Infelizmente, Howard faleceria em 1936, aos 30 anos de idade, suicidando-se com um tiro na cabeça por não suportar a morte de sua mãe. Ao todo, ele deixou escritas 21 histórias de Conan - quatro publicadas após sua morte - e inúmeras de outros personagens.

Conan é alto, musculoso, mas ágil como uma pantera, tem cabelos negros e lisos, olhos azuis e pele queimada de sol. Apesar de ter uma força inigualável, ser praticamente invencível em combate corpo-a-corpo e de gostar de resolver seus problemas com sua espada, não é burro, mas um estrategista brilhante, de raciocínio rápido e capaz de ler e escrever em diversos idiomas. Além disso tudo, Conan também é leal, honrado, e possui um ótimo senso de humor. Nascido na fictícia terra da Ciméria, localizada no extremo norte, era filho de um ferreiro, e desde cedo se interessou pelas artes da luta, já sendo um guerreiro respeitado aos quinze anos de idade. Nesta época, ele participou da destruição do forte de Venarium, depois da qual passou a vagar pelo mundo em busca de novas aventuras - as aventuras narradas por Howard em suas histórias.

Apesar de todas as suas boas qualidades, Conan é freqüentemente descrito como um anti-herói, e não como um herói, pois só se envolve com os problemas dos outros quando seu envolvimento pode resultar em algum ganho pessoal, e só executa atos heróicos quando estes vão ao encontro de seus próprios interesses. Conan também não é super-humano, e algumas vezes se vê em dificuldades, sendo capturado por inimigos, precisando de aliados para superar um determinado problema, ou simplesmente caindo de bêbado ou sendo seduzido por alguma feiticeira gostosona. Em nenhuma das histórias de Howard, porém, ele jamais foi derrotado em confronto direto.

A Era Hiboriana onde vive Conan é um período perdido de nossa própria história, entre a destruição de Atlântida e o aparecimento das primeiras cidades das quais temos registros. Nesta época, o mundo é formado por um único continente, Hibória, dividido em diversas regiões, algumas por sua vez subdivididas em nações. Destas, a principal é Aquilônia, que de certa forma lembra o Império Romano, sempre em busca de expansão e dominação das nações vizinhas. Embora rode o mundo inteiro, Conan está sempre de alguma forma ligado à Aquilônia, a principal fonte de enredos para suas aventuras. Por volta dos 40 anos de idade, após ser bárbaro, mercenário, gladiador, ladrão e pirata, Conan consegue derrotar o Rei de Aquilônia, se tornando ele mesmo o ocupante do trono, e aparentemente encerrando sua carreira de aventuras como monarca.

Após a morte de Howard, histórias envolvendo Conan foram escritas por mais de quinze autores diferentes. As primeiras surgiram na década de 1950, quando a editora Gnome Press adquiriu os direitos sobre as obras de Howard, e republicou todas as histórias de Conan escritas por ele em volumes de capa dura. Ao todo, entre 1950 e 1957 a Gnome lançou sete livros, sendo que o penúltimo curiosamente continha histórias escritas por Howard, mas que não eram protagonizadas por Conan, reescritas por L. Sprague de Camp para se tornarem aventuras do personagem. O último livro lançado pela Gnome foi também a primeira aventura de Conan totalmente escrita por um autor que não fosse Howard, The Return of Conan, escrito por Björn Nyberg e revisado por de Camp.

A Espada Selvagem de ConanAté então, porém, Conan era um personagem conhecido apenas pelos fãs do gênero. Sua popularização definitiva veio apenas em 1966, com o lançamento de uma segunda série de livros, desta vez pela Lancer Books. Idealizada por de Camp e por Lin Carter, esta nova série, publicada em formato brochura, republicou todas as histórias de Howard mais uma vez, além de trazer histórias inéditas, algumas inacabadas, finalizadas por de Camp e Carter. Entre 1966 e 1977, a Lancer - e depois a Ace Books, que assumiu o projeto após a falência daquela - publicou doze livros com mais de 50 histórias de Conan, sendo que três deles traziam apenas histórias inéditas escritas por de Camp e Carter. A arte ficou a cargo de Frank Frazetta, que até hoje é considerado o criador da imagem de Conan, e ilustrador definitivo de suas aventuras. Embora a coleção da Lancer/Ace seja criticada por muitos puristas pela "intromissão" da dupla de Camp/Carter nas histórias originais de Howard, foi ela quem ajudou a espalhar Conan pelo mundo, transformando-o em um dos mais populares personagens do século XX.

A série da Lance/Ace seria assumida pelas editoras Bantam e Maroto a partir de 1978, que, juntas, lançariam 11 novos livros entre 1978 e 1982. A partir de 1982, a editora oficial de Conan seria a Tor, que até 1997 lançaria nada menos que 42 novos livros com histórias inéditas de vários autores, sendo as mais famosas as de Robert Jordan - curiosamente, todos os 42 títulos da Tor começam com Conan the, tipo Conan the Invincible e Conan the Fearless. A partir de 1997, a Tor começou a republicar os livros com histórias que não fossem de Howard lançados anteriormente pela Lance/Ace, Bantam e Maroto. Em 2004, ela lançou seu último livro até agora, Conan of Venarium, escrito por Harry Turtledove. Atualmente, os direitos sobre Conan são disputados, sendo o entendimento geral o de que as histórias pertencem a seus respectivos autores, sendo as de Howard de domínio público, mas o personagem Conan não pertence a ninguém. Isto, evidentemente, é contestado por várias editoras que alegam ter os direitos para a publicação de novas histórias do cimério.

Na década de 1970, Conan se tornaria ainda mais popular ao sair das páginas dos livros para as histórias em quadrinhos. A primeira revista do personagem, batizada de Conan the Barbarian, foi publicada pela Marvel Comics em outubro de 1970. Com roteiro de Roy Thomas e arte de Barry Windsor-Smith, a revista era a cores e voltada para o público juvenil que lia os quadrinhos de super-heróis da editora. Ao todo, teve 275 edições mensais, só deixando de ser publicada em 1993, mais 12 especiais anuais entre 1973 e 1987, e cinco especiais "gigantes" entre 1974 e 1975. Durante os 23 anos em que foi publicada, a revista contou com roteiros de Thomas, J.M. DeMatteis, Bruce Jones, Doug Moench e Chuck Dixon, dentre outros, e com a arte de Windsor-Smith e John Buscema. O sucesso da revista acabou gerando um spin-off, King Conan (mais tarde rebatizada para Conan the King), que mostrava as aventuras de Conan já como Rei da Aquilônia, e foi publicada entre 1980 e 1989, com 55 edições mensais. Durante a década de 1990, a Marvel ainda faria algumas novas tentativas com Conan the Adventurer (14 edições entre 1994 e 1995), Conan the Savage (10 edições entre 1995 e 1996) e simplesmente Conan (11 edições entre 1995 e 1996), mas nenhuma fez tanto sucesso quanto a Conan the Barbarian original.

Mas a revista de Conan de maior sucesso de todos os tempos é mesmo The Savage Sword of Conan the Barbarian (a famosa A Espada Selvagem de Conan, em português), criada pela Marvel também na onda do sucesso de Conan the Barbarian. Com roteiro de Thomas e arte em preto-e-branco de Buscema ou Alfredo Alcala, a revista era voltada para o público adulto, com histórias bem mais violentas, mulheres seminuas, sacrifícios humanos, esse tipo de coisa. Lançada em agosto de 1974, também teve vida longa, com 235 edições entre 1974 e 1995, mais um especial anual em 1975, e hoje é considerada um clássico dos quadrinhos.

Desde 2003, os quadrinhos de Conan são publicados pela editora Dark Horse, em uma revista inicialmente chamada simplesmente de Conan, mas rebatizada para Conan the Cimmerian em maio último. Com roteiro de Kurt Busiek até 2006 e Tim Truman desde então, e arte de Cary Nord, a revista da Dark Horse tenta se manter fiel apenas às histórias originais de Howard, sem nenhuma conexão com as de outros autores ou com as da Marvel.

SchwarzeneggerNa década de 1980, seria a vez de Conan chegar ao cinema. O primeiro projeto de um filme do personagem partiu do diretor Edward Summer, que planejava adaptar todas as histórias de Howard, criando uma série de filmes ao estilo da de James Bond. Summer chegou a fazer seis sinopses, e ele e Thomas escreveram o roteiro do que seria o primeiro filme, mas este projeto nunca foi adiante. O que chegaria às telas de cinema em 1982 seria outro projeto totalmente diferente, produzido por Dino de Laurentiis e dirigido por John Milius, comm roteiro de Milius e Oliver Stone. Conan the Barbarian (Conan, o Bárbaro no Brasil) traria Arnold Schwarzenegger no papel do cimério, seu primeiro papel de destaque, e que o impulsionou para uma carreira de sucesso. O filme, porém, tem muito pouco a ver com as histórias originais de Conan, sendo ambientado em uma estranha Idade do Bronze com elementos fantásticos. Nele, Conan se torna órfão quando sua vila é atacada pelos homens de Thulsa Doom (James Earl Jones), sendo vendido como escravo. Após ser escravo e gladiador, e ser treinado nas artes da espada, Conan, já adulto, conquista sua liberdade, e, vagando pelo mundo, conhece personagens como o arqueiro Subotai (Gerry Lopez), a ladra Valeria (Sandahl Bergman), o Rei Osric (Max von Sydow) e o mago Akiro (Makoto Iwamatsu). Mas o própósito de Conan não é simplesmente correr o mundo vivendo aventuras, mas se vingar de Doom pela morte de seus pais.

Apesar de pouco fiel ao Conan de Howard, o filme foi um grande sucesso, e gerou, como era de se esperar, uma continuação. Conan the Destroyer (Conan, o Destruidor) foi lançado em 1984, novamente com Schwarzenegger no papel principal, mas dirigido por Richard Fleischer e produzido por Raffaella de Laurentiis, filha de Dino. Mais voltado ao público juvenil, e mais parecido com um filme de fantasia medieval do que seu antecessor, o filme mostrava Conan e seu aliado Malak (Tracey Walter) sendo contratados pela Rainha Taramis (Sarah Douglas) para resgatar uma jóia que só pode ser tocada por sua sobrinha Jehnna (Olivia d'Abo). Em troca, a Rainha, que tem poderes mágicos, ressucitaria Valeria, amante de Conan. Durante sua missão, Conan reencontra Akiro e conquista uma nova aliada, a guerreira Zula (Grace Jones), e descobre que a Rainha na verdade planeja assassinar Jehnna e ressucitar o deus maligno Dagoth, se tornando a governante mais poderosa do mundo por toda a eternindade. Diante disso, Conan decide detê-la e salvar a menina.

O filme foi bem menos sucedido que o primeiro, com alguns críticos inclusive acusando-o de ser "muito infantil"; ainda assim, foi considerado um sucesso por de Laurentiis, tanto que ela decidiu produzir um filme de outra personagem das histórias de Conan, Red Sonja (conhecido no Brasil como Guerreiros do Fogo), no ano seguinte, com Brigitte Nielsen no papel principal, e Schwarzenegger como o bárbaro Kalidor. Outro filme de Conan, porém, jamais foi feito. Até recentemente, haviam boatos de que seria feito um filme de Conan em sua fase Rei, novamente trazendo Schwarzenegger, que estaria na "idade ideal" para o personagem - embora, nas histórias de Howard, Conan tenha se tornado Rei com 40 anos, e Schwarza já esteja com mais de 60. Como era difícil para ele conciliar as filmagens com suas atribuições como Governador da Califórnia, o projeto foi suspenso, até que, em agosto de 2007, a Millenium Films conseguiu os direitos exclusivos para a produção de um novo filme do cimério. A Millenium já avisou que irá produzir o tal filme, e que ele será bem mais fiel às histórias originais de Howard que os outros dois, mas nada ainda foi dito sobre quem interpretaria Conan - já que, muito provavelmente, não será Schwarzenegger.

Além dos livros, quadrinhos e filmes, Conan também teve dois desenhos animados e uma série de TV durante a década de 1990 - os quais eu vou me abster de comentar - uma tirinha de jornal publicada entre 1978 e 1981, um RPG, um card game, e sete jogos de videogame, sendo o mais recente Age of Conan, um MMORPG onde você pode criar seu próprio bárbaro e viver aventuras na Era Hiboriana.

Aos que quiserem conhecer o bárbaro mais famoso da literatura em sua forma original, recomendo Conan, o Cimério, coleção em dois volumes publicada pela Editora Conrad, tradução de Conan of Cimmeria da editora Wandering Star. Além das histórias originais de Howard, cada livro traz notas, rascunhos, esboços de contos inacabados, e outros tipos de material. Imperdível para qualquer fã de fantasia.
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Indiana Jones

Até por volta dos 15 ou 16 anos, minhas preferências musicais e cinematográficas eram bem diferentes das atuais. Em outras palavras, eu gostava de um monte de bandas e filmes para os quais eu não ligo muito hoje em dia. Em matéria de bandas e cantores, quase nenhum sobreviveu à minha adolescência, mas em matéria de filmes alguns continuaram na minha lista de favoritos, a maioria deles, porém, fora das primeiras colocações. Um bom exemplo é o tema do post de hoje, Indiana Jones.

Quando criança, eu absolutamente adorava Indiana Jones, e achava Indiana Jones e o Templo da Perdição a coisa mais incrivelmente fantástica já feita para o cinema. Eu tinha vontade de comprar uma jaqueta de couro e um chapéu, e me imaginava vivendo aventuras em meio a templos ancestrais infestados de insetos, com meu chicote como companheiro. Eu era criança, oras!

Com o tempo, o deslumbramento pelos filmes de Indy foi passando, e hoje, embora eu ainda adore todos eles, já não são os primeiros a vir à minha mente quando me perguntam quais são meus filmes favoritos. Mas ainda me divirto ao ver a armadilha da pedra que rola, a perseguição no carrinho de mina, ou a sessão de autógrafos de Hitler. Em homenagem a estes três filmes tão especiais - e ao quarto, que estreou recentemente - Indiana Jones finalmente ganhará seu post aqui no átomo! Um post que às vezes eu acho que já deveria ter sido escrito há mais tempo, mas tudo bem.

IndyIndiana Jones foi criado por George Lucas e Steven Spielberg no final da década de 1970, pouco após o lançamento do primeiro Star Wars. Spielberg havia acabado de dirigir Contatos Imediatos de Terceiro Grau, e comentava com seu amigo Lucas que desejava que seu próximo filme fosse algo aventureiro e divertido, mais ou menos como os filmes de James Bond - curiosamente, a EON havia cogitado o nome de Spielberg para dirigir um filme de Bond na mesma época, mas o descartara por ele estar envolvido com a pós-produção de Tubarão. Lucas, fã dos heróis de aventuras que povoavam as revistas pulp da década de 1930, já vinha há algum tempo maturando a idéia de fazer um filme sobre um deles, e teria respondido a Spielberg que tinha "uma idéia ainda melhor".

Após acertarem os detalhes, ambos reuniram uma equipe para criar o personagem principal do filme. Seu visual foi criado pelo desenhista Jim Steranko, que havia ilustrado histórias de Nick Fury para a Marvel, e, curiosamente, era grande fã de James Bond. Lucas sugeriu que o herói deveria usar uma jaqueta do tipo que usavam os aviadores da Primeira Guerra Mundial, um chapéu semelhante ao de Humphrey Bogart no filme O Tesouro de Sierra Madre, e um chicote ao estilo Zorro. Steranko adicionou um cinto com coldre, e uma camisa e calças cáqui ao estilo das usadas por Charlton Heston em O Segredo dos Incas. Faltava apenas um nome, e Lucas sugeriu Indiana Smith, em homenagem a um cachorro chamado Indiana que ele mesmo tinha na época; Spielberg, que não gostava do nome Smith, discordou, e Lucas sugeriu, meio de brincadeira, "ok, então que tal Indiana Jones?". Pegou.

"Indiana", evidentemente, não era o nome de batismo do personagem (bem mais tarde seria revelado que este seria Henry Walton Jones, Jr.); ao melhor estilo dos pulps, Indiana - ou Indy, como era chamado por seus amigos - possuía uma espécie de "identidade secreta", atuando como o simples professor Dr. Jones quando não estivesse caçando tesouros. Apesar de Indy não ser um super-herói, ser bem humano e bem falível, ele e seu alter ego têm personalidades quase que diametralmente opostas: enquanto está dando aulas, o Dr. Jones é tímido, comedido, apenas mais um no meio da multidão; quando veste a roupa de Indiana, porém, ele se torna corajoso, heróico, falastrão e capaz de proezas aparentemente impossíveis a um humano normal. Segundo Lucas e Spielberg, isso era o que mais os atraía nos heróis dos pulps, e é provavelmente a maior razão para o sucesso de Indiana: ele transmite a mensagem de que, com um pouco mais de dedicação e coragem, qualquer um pode ser um herói.

Com o personagem criado, faltava apenas o ator para interpretá-lo. Spielberg sugeriu Harrison Ford, mas Lucas, já tendo trabalhado com ele em dois filmes, preferiu Tom Selleck. Selleck, na época, porém, gravava a série de TV Magnum, e não foi liberado pela CBS para as filmagens. Após um pouco mais de insistência de Spielberg, Lucas acabou concordando, e Ford foi chamado para o papel a menos de três semanas de começarem as filmagens do que seria o primeiro filme estrelado por Indiana Jones.

Os Caçadores da Arca Perdida (no original, Raiders of the Lost Ark, e atualmente "rebatizado" para Indiana Jones e os Caçadores da Arca Perdida), dirigido por Spielberg e produzido por Lucas, estrearia em junho de 1981. Com uma espantosa renda de 384 milhões de dólares - o mais rentável filme do ano, sendo que custou "apenas" 20 milhões - e oito indicações para o Oscar, incluindo melhor filme, das quais ganhou quatro - Melhor Som, Melhor Edição, Melhores Efeitos Visuais e Melhor Direção de Arte, além de um Oscar Especial por Edição de Efeitos Sonoros - o filme foi um imenso sucesso, recebendo várias críticas bastante favoráveis, e se tornando praticamente um clássico instantâneo.

O enredo dos Caçadores envolve a Arca da Aliança, aquela onde Moisés teria depositado os fragmentos dos Dez Mandamentos, idéia do roteirista Philip Kaufman, que ouviu a história da Arca de um dentista quando era pequeno, e ficou fascinado. Ambientado em 1936, o filme mostra Indy sendo contratado para encontrar a Arca antes dos nazistas, que podem usar seu poder para tornar o exército alemão invencível, e conquistar o mundo. Para encontrar a Arca, Indy precisa da ajuda de uma antiga paixão, Marion Ravenwood (Karen Allen), filha de seu antigo professor, Abner Ravenwood, e que está de posse de um medalhão necessário para apontar o lugar onde se encontra o tesouro; e de Sallah (John Rhys-Davies), o "melhor escavador do Cairo", que conhece a região onde a Arca está supostamente enterrada, assim como as lendas sobre ela. Para encontrar a arca antes, os nazistas contrataram ninguém menos que o maior rival de Indy, o arqueólogo francês René Belloq (Paul Freeman), auxiliado por vários soldados alemães e agentes da Gestapo, dos quais o mais sinistro é o interrogador Arnold Toht (Ronald Lacey). Completa o elenco principal o Dr. Marcus Brody (Denholm Elliott), amigo de Indy e curador do museu para onde ele planeja levar a Arca após encontrá-la.

As filmagens dos Caçadores foram bastante tumultuadas. Grande parte delas ocorreu na Tunísia, onde também foram filmadas as cenas de Tatooine de Star Wars - a cena onde Indy ameaça explodir a Arca, inclusive, foram feitas no mesmo local onde R2-D2 foi capturado pelos Jawas. Muitos membros da equipe, incluindo Ford e Rhys-Davies, sofreram de disenteria devido ao calor intenso e à má qualidade da água, o que fez com que uma programação de seis semanas de filmagens tivesse de ser reduzida para apenas quatro, e com que muitas das cenas fossem alteradas no momento das filmagens, recorrendo a improvisações de última hora, incluindo uma das mais famosas: na cena em que um espadachim se exibe para Indy, e este o mata com um tiro, o roteiro previa uma complicadíssima cena de Indy lutando contra o oponente usando seu chicote. Doente e cansado, Ford perguntou a Spielberg: "por que não podemos simplesmente dar um tiro nele?". Várias cenas da perseguição onde Indy pilota um caminhão também tiveram de ser filmadas sem Ford, com os closes dele na cabine sendo filmados depois. Uma das cenas, porém, saiu bem melhor do que todos esperavam: a igualmente famosa seqüência da abertura, onde Indy escapa de ser esmagado por uma pedra gigante. Feita de fibra de vidro, a pedra ficou tão realística e a cena tão boa que Spielberg pediu para que se acrescentasse mais um metro e meio de perseguição no finalzinho da cena.

Além de problemas com filmagens, Spielberg e Lucas também tiveram alguns problemas com elenco: além de Selleck não poder interpretar Indy, o papel de Marion foi escrito com Debra Winger em mente, que o recusou. Toht foi oferecido a Klaus Kinski, que disse ter odiado o roteiro; e Sallah seria de Danny DeVito, que não pôde aceitar por já estar envolvido com a série Taxi. O elenco também traz duas curiosidades: Alfred Molina em seu primeiro papel no cinema, como um guia que leva Indy ao templo da seqüência de abertura; e Pat Roach em dois papéis, o de um dos capangas de Toht que atacam o bar de Marion, e o do mecânico que luta com Indy na cena do avião estacionado - o que fez com que ele tivesse a duvidosa honra de ser um dos poucos a morrer duas vezes em um único filme. Também como curiosidade, vale citar duas idéias de Spielberg que foram rejeitadas por Lucas: a de que o Dr. Jones seria alcóolatra, e que Toht teria um braço biônico - esta última descartada para que o filme não acabasse virando ficção científica.

Apesar de todos estes problemas, tudo deu certo no final, com o filme se tornando o grande sucesso do qual já falamos, e dando origem, evidentemente, a uma continuação - prevista por Lucas desde o início: graças ao igualmente enorme sucesso de Star Wars, ele conseguiu da Paramount um contrato para produzir nada menos que cinco filmes de Indiana Jones. O segundo deles, Indiana Jones e o Templo da Perdição (Indiana Jones and the Temple of Doom), seria lançado dali a três anos, em maio de 1984.

O Templo da Perdição não é uma seqüência, mas uma "preqüência" dos Caçadores, ambientada um ano antes - segundo Lucas, ele optou por esta estratégia porque não queria que os nazistas fossem mais uma vez os vilões do filme. O clima do filme é bem mais pesado que o do anterior, quase um filme de terror. Spielberg e Lucas atribuem este fato à intenção inicial de que o filme fosse uma espécie de homenagem a Gunga Din, um famoso filme da década de 1930 com Cary Grant, e ao humor da dupla na época, já que ambos haviam terminado relacionamentos amorosos recentemente. De fato, o filme seria até mais pesado que a versão final, e se chamaria "Indiana Jones e o Templo da Morte".

Nesta nova aventura, Indy vai parar na Índia (?), acompanhado da cantora Willie Scott (Kate Capshaw) e do pequeno órfão chinês Short Round (Ke Huy Quan). Lá, eles são confundidos como enviados do deus Shiva, e recrutados pelo povo de uma pequena aldeia para recuperar uma pedra sagrada, que teria sido roubada por um culto maligno, que ainda escravizou todas as crianças do povoado, missão que Indy aceita por acreditar que a tal pedra seria uma das lendárias Pedras de Sankara. Durante a busca pela pedra, Indy acaba descobrindo que seu roubo faz parte do renascimento do culto Tugue, que idolatra Kali, a deusa da morte, e planeja destruir todas as outras religiões e dominar o mundo, liderados pelo sacerdote Mola Ram (Amrish Puri). Dan Aykroyd faz uma participação especial como o diretor de um aeroporto.

Os JonesSpielberg e Lucas usaram no Templo da Perdição várias cenas que haviam escrito para os Caçadores mas acabaram cortadas do roteiro, como a da perseguição na mina e a do salto do avião usando um bote inflável. Por incrível que pareça, as filmagens só consumiram 85 dias. O orçamento foi de 28 milhões de dólares, e o filme rendeu 333 milhões, além de duas indicações para o Oscar - Melhor Trilha Musical Original e Melhores Efeitos Visuais, ganhando só o último - e muitas reclamações por parte dos hindus, de que o filme seria racista e estereotipado.

As curiosidades sobre o filme incluem o fato de que temos novamente personagens batizados em homenagem a cachorros, já que Willie era a cocker spaniel de Spielberg, e Short Round o cachorro do roteirista Willard Huyck; uma nova participação de Pat Roach, desta vez em três papéis diferentes, o do homem que toca o gongo na primeira cena do filme, o de um assassino enviado para matar Indy, e o de um mestre de escravos, o que fez com que ele fosse o único ator além de Ford presente em ambos os filmes - e mais uma vez morresse duas vezes em um filme só; e o nome do clube onde se desenrola a seqüência de abertura, Club Obi Wan, em homenagem a Star Wars. Em relação ao elenco, Kate Capshaw, em seu segundo papel no cinema, não era a primeira escolha para Willie, mas após seu teste ela tirou o papel de Sharon Stone; e Ke Huy Quan (que depois também faria Os Goonies, e hoje é conhecido como Jonathan Ke Quan) na verdade não se ofereceu para o papel, mas foi acompanhando seu irmão a um teste, e os diretores de elenco decidiram convidá-lo depois que viram que ele dava dicas ao irmão sobre o que fazer e o que não fazer durante o teste. Finalmente, o Governo da Índia não deu autorização para as filmagens por não gostar do roteiro, o que fez com que o filme fosse na verdade filmado no Sri Lanka - onde Ford arrumou uma hérnia de tanto cavalgar elefantes.

Após este desvio por um filme mais "sério", Indy retornaria em mais uma aventura ao estilo da primeira cinco anos depois, em Indiana Jones e a Última Cruzada (Indiana Jones and the Last Crusade). De certa forma, Spielberg se sentiu desconfortável por ter feito uma seqüência tão diferente da original, e fez questão de completar a trilogia com um filme o mais parecido com Os Caçadores possível. Para começar, nesta nova aventura Indy está em busca mais uma vez de um artefato religioso, o Santo Graal.

Na verdade, o Santo Graal era o projeto de vida do pai de Indy, o Professor Henry Jones (Sean Connery), que durante toda a sua vida se preocupou mais em estudar sobre o Cálice e procurá-lo do que em criar seu filho. Indy se envolve com a busca do Graal quando seu pai é dado por desaparecido durante a procura, e, para completar, ele descobre que os nazistas também estão atrás do artefato. Inicialmente, portanto, a missão de Indy é salvar seu pai, mas evidentemente ambos partem em busca do Graal após se reunirem. Buscando recuperar o clima de Os Caçadores da Arca Perdida, Spielberg e Lucas ambientaram este novo filme apenas dois anos depois, em 1938, e trouxeram de volta dois personagens, Marcus Brody, que desta vez viaja com Indy, servindo como apoio cômico do filme, e Sallah, já que talvez seja preciso escavar atrás do Cálice. Completam o elenco principal Alison Doody como a Dra. Elsa Schneider, a "Indy Girl" do filme, e Julian Glover como Walter Donovan, um empresário norte-americano que deseja beber do Cálice para se tornar imortal. Pat Roach fez uma pequena participação como um agente da Gestapo, se tornando o único ator além de Ford a aparecer nos três filmes.

De certa forma, A Última Cruzada também é o primeiro filme em que outro ator além de Ford interpreta Indiana Jones, já que na seqüência inicial vemos Indy ainda com 13 anos, interpretado por River Phoenix, e já vivendo aventuras. Phoenix foi sugerido para o papel pelo próprio Ford, que disse que, de todos os atores mirins da época, Phoenix era o que mais se parecia com ele quando tinha esta idade. Já Sean Connery foi escolhido pelo próprio Spielberg, que disse que ninguém a não ser James Bond poderia ser pai de Indiana Jones.

Mas, de início, o filme não teria nada de Graal ou pai de Indy. Quando surgiu a idéia de um terceiro filme, Spielberg e Lucas pensaram mais uma vez em utilizar elementos que ficaram de fora do filme anterior, levando Indy desta vez para a China, idéia que até chegou a ganhar um roteiro feito por Chris Columbus. Após chegar à conclusão de que seria melhor algo mais próximo do primeiro filme que do segundo, Lucas sugeriu o Santo Graal, mas Spielberg não concordou, pois achava que as pessoas iriam associar o filme a Monty Python e o Cálice Sagrado. Spielberg, porém, já pensava em incluir o pai de Indy na aventura, e, após refletir um pouco, chegou à conclusão de que o Graal seria uma adição interessante, pois a busca pelo Cálice Sagrado poderia ser uma metáfora para a busca pela reconciliação entre pai e filho.

Estreando em maio de 1989, com orçamento de 48 milhões de dólares - o dobro do anterior - A Última Cruzada rendeu 474 milhões, se tornando o filme mais rentável do ano - embora, nos Estados Unidos, tenha tido renda inferior à de Batman. O filme foi indicado a três Oscars, de Melhor Trilha Sonora, Melhor Som e Melhor Edição de Efeitos Sonoros, ganhando este último, e recebeu muitas críticas positivas.

Apesar do contrato de Lucas com a Paramount ainda permitir mais dois filmes, ele não conseguia encontrar um motivo satusfatório para que Indy decidisse se aventurar novamente, e a série foi interrompida por alguns anos. Enquanto o novo filme não saía, Lucas decidiu produzir uma série de TV com o personagem, que mostrasse suas primeiras aventuras, mais ou menos como a seqüência inicial da Última Cruzada.Assim nasceu O Jovem Indiana Jones (The Young Indiana Jones Chronicles).

Televisionada entre 1992 e 1996 pela ABC, a série teve 28 episódios ao todo, mais quatro filmes feitos para a TV, e era o que nos Estados Unidos se chama edutainment, programas de televisão infantis feitos como entretenimento, mas que procuram ensinar alguma coisa às crianças ao invés de apenas diverti-las. Cada episódio se iniciava com Indy aos 93 anos, interpretado por George Hall, contando uma das aventuras que viveu quando criança. Então, um flashback nos mostrava o herói dos 8 aos 10 anos (interpretado por Corey Carrier) ou dos 16 aos 21 anos (Sean Patrick Flanery), vivendo a tal aventura - aparentemente, dos 11 aos 15 anos ele pouco se aventurou. O "velho" Indy voltava ao final do episódio para a conclusão. Ford, aos 50 anos, fez uma participação especial como um Indy de meia idade em um dos episódios. Curiosamente, quando a série foi lançada em DVD, Lucas removeu todas as aparições de Hall, mantendo apenas as aventuras, sem a introdução ou conclusão. O motivo, comenta-se, era que Hall usava um tapa-olho, em referência a uma aventura futura na qual Indy perderia um olho, mas depois Lucas teria desistido desta idéia.

Após a participação de Ford na série de TV, Lucas teve a idéia de fazer um novo filme, com um Indy mais velho, ambientado na década de 1950, tendo alienígenas como vilões, já que extraterrestres eram moda nos anos 1950. Ford e Spielberg não concordaram, achando que a idéia não era boa, mas mesmo assim Lucas decidiu encomendar um roteiro. A idéia de colocar Indiana Jones contra os ETs foi descartada de vez após a estréia de Independence Day, quando Spielberg convenceu Lucas de que mais um filme de invasão alienígena era desnecessário naquele momento. Lucas então abandonou Indiana, e se concentrou na nova trilogia de Star Wars.

Indy sessentãoNo ano 2000, Ford, Lucas e Spielberg se reencontraram durante uma homenagem do American Film Institute a Ford. Coincidentemente, o filho de Spielberg havia lhe perguntado quando sairia um novo filme de Indiana Jones, o que reacendeu o interesse do diretor no projeto. Os três, e mais os produtores Frank Marshall e Kathleen Kennedy, decidiram discutir idéias para um novo filme, e Lucas sugeriu que eles poderiam usar as Caveiras de Cristal, artefatos da América Pré-Colombiana, que ele já havia pensado em colocar em um dos episódios de O Jovem Indiana Jones, antes da série ser cancelada, como mote para que Indy se envolvesse em uma nova aventura. M. Night Shyamalan chegou a ser convidado para escrever o roteiro, mas acabou recusando por não se achar capaz de escrever uma seqüência para Os Caçadores da Arca Perdida, um de seus filmes preferidos de todos os tempos.

Após muitas mudanças de nome e no roteiro, finalmente nasceu Indiana Jones e o Reino da Caveira de Cristal (Indiana Jones and the Crystal Skull Kingdom), ambientado em 1957, exatos 19 anos após A Última Cruzada - mesmo tempo que separa os dois filmes - e trazendo os soviéticos substituindo os nazistas no papel de vilões, para aproveitar o momento da Guerra Fria. Diferentemente dos outros filmes, este foi filmado quase todo nos Estados Unidos, exceto por algumas seqüências nas Cataratas do Iguaçu. Spielberg também optou por não filmar com equipamento digital, e por não utilizar efeitos especiais gerados por computação gráfica, para que o filme tivesse o mesmo clima dos outros três. Ford, apesar dos 63 anos, também fez todas as suas cenas de ação, dispensando dublês, para que o filme ficasse o mais realístico possível.

Este novo filme traz um Indiana Jones mais velho e mais experiente, acompanhado do explorador Mac (Ray Winstone) e do adolescente Mutt (Shia LaBeouf), em busca da Caveira de Cristal, um artefato ancestral e poderoso, descoberto por seu amigo Harold Oxley (John Hurt), e que interessa aos soviéticos, liderados pela Dra. Irina Spalko (Cate Blanchett). O filme também traz de volta Karen Allen no papel de Marion, antiga paixão de Indy, que mais uma vez o acompanha em sua aventura. Marcus Brody, infelizmente, não pôde estar no filme, já que Denholm Elliott falecera em 1992, assim como Pat Roach, que faleceu em 2004. Sean Connery ainda está vivo, mas aposentado, e recusou repetir o papel do Professor Jones.

Estreando em maio deste ano, O Reino da Caveira de Cristal foi um grande sucesso, recebendo muitas críticas positivas, apesar de alguns críticos terem torcido o nariz, e do Partido Comunista da Rússia ter reclamado de os soviéticos serem os vilões. Com orçamento de 185 milhões, rendeu até agora 715 milhões no mundo inteiro, sendo 25 milhões apenas no dia da estréia, o que fez com que ele se tornasse a quarta maior bilheteria de abertura da história, além do filme mais rentável de 2008 até o momento.

Criado para homenagear os heróis do passado, Indiana Jones se tornou um dos maiores ícones do cinema, superando até mesmo alguns dos que lhe serviram de inspiração, como Allan Quatermain, que existe desde 1885, mas ganhou um filme em 1985, na carona do sucesso de Indy. O próprio Indy inspirou diversos outros personagens, como Jack Colton de Tudo por Uma Esmeralda, Rick O'Connell de A Múmia, e a mulher mais famosa dos games, Lara Croft, de Tomb Raider. Já se fala em um "Indiana Jones 5", no qual Indy passaria o bastão provavelmente para Mutt, que daria segmento às suas aventuras. Eu pessoalmente, não me importaria de ver Ford no papel até que tivéssemos um Indy bem velhinho.
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