sábado, 29 de setembro de 2007

Escrito por em 29.9.07 com 0 comentários

Baralho (VIII)

Hoje veremos os sete padrões regionais restantes do baralho latino. Como na semana passada, cada um deles será ilustrado por um Cavaleiro de Ouros, mas, se você clicar nele, poderá ver as demais figuras do padrão.

Padrão Placentino


Criado na cidade de Placência (ou Piacenza) no século XVIII, este é hoje, ao lado do napolitano, um dos padrões mais populares da Itália, utilizado para jogar até mesmo no norte do país, onde coexiste com os padrões regionais locais. O padrão placentino também é o único padrão do centro-sul da Itália que tem as figuras impressas nos dois sentidos da carta, divididas por uma fina linha preta, embora somente os Reis, Cavaleiros e Fantes sejam impressos desta forma, sendo as demais cartas, inclusive os Ases, impressos em sentido único. Na verdade, quando o padrão surgiu, as figuras também eram impressas em um só sentido, sendo as figuras de duas cabeças introduzidas pelas fabricantes gradativamente, influenciadas pelos padrões do norte da Itália, até que, no meio do século XX, o padrão original desapareceu por completo, e o padrão placentino passou a ser, oficialmente, um padrão de figuras que nunca ficam de cabeça para baixo.

Os primeiros baralhos placentinos foram adaptados do baralho de Aluette, que chegavam à Itália por meio de comerciantes franceses. Aos poucos, ele foi recebendo influências de vários outros padrões italianos, até chegar à forma atual, por volta do final do século XIX. As principais características herdadas do Aluette são o machado na mão do Rei de Ouros; o Ás de Paus, simbolizado por um tronco ainda plantado no chão; e o Ás de Ouros, que tem a figura de uma águia pousada e com uma coroa na cabeça, com um espaço em branco no centro onde deveria ser colocado o selo dos impostos. Nos baralhos originais, neste espaço havia uma grande moeda, e o selo era colocado no 4 de Ouros, no espaço em branco entre os naipes; sob influência de outros padrões italianos, porém, o selo mudou de lugar, e o 4 de Ouros passou a vir com um logotipo da fabricante. Atualmente, como não existe mais a obrigatoriedade do selo, algumas fabricantes já estão voltando a fazer o baralho com a moeda no centro da águia, embora estes ainda sejam relativamente raros.

O baralho placentino possui 40 cartas (do 1 ao 7, mais Fante, Cavaleiro e Rei de cada naipe), de 51 x 94 mm cada. Atualmente, ele é produzido pelas principais fabricantes da Itália e da França; a francesa Grimaud, inclusive, por alguma razão o identifica como "tipo bolonhês", e fez uma modificação no Ás de Espadas, que, ao invés de um anjo carregando uma espada curva envolta em uma coroa de folhas, traz apenas uma espada reta. O motivo é desconhecido.

Padrão Bolonhês


Também conhecido como Primiera Bolognese, por ter sido criado para um jogo do século XVI chamado Primiera, o padrão bolonhês é claramente do norte da Itália, embora a cidade de Bolonha esteja situada na região central, e ele guarde algumas semelhanças com os padrões do centro-sul.

Este padrão evoluiu diretamente do Tarô Bolonhês, criado no século XV. Basicamente, as pessoas começaram a usar as cartas do tarô para jogar Primiera, mas, como originalmente o Tarô Bolonhês tinha 78 cartas, e o jogo de Primiera só usa 40 (Ases, do 2 ao 7, Fantes, Cavaleiros e Reis), os jogadores acabavam gastando dinheiro em cartas das quais não necessitavam. As fabricantes da região, então, começaram a produzir uma versão especial do baralho, somente com as 40 cartas usadas para jogar Primiera. Este baralho permanece praticamente inalterado até hoje.

As cartas têm 51 x 103 mm, e suas ilustrações são simples e bastante coloridas, como as dos padrões do centro-sul da Itália. Apesar disso, o baralho é claramente um padrão do norte: as espadas são curvas e embainhadas, algumas até sem empunhaduras discerníveis, e os bastões imitam bastões cerimoniais, com as pontas unidas por discos nos naipes mais altos. As moedas têm uma estrela no interior, e as taças, curiosamente, possuem duas bocas, uma em cada extremidade. Ao adaptar o tarô para o baralho, as fabricantes também simplificaram as ilustrações, para facilitar sua produção, o que significa que, atualmente, as cartas do Padrão Bolonhês e do Tarô Bolonhês não são idênticas - a pele das figuras, por exemplo, no Padrão Bolonhês não é pintada, permanecendo da mesma cor do fundo das cartas, enquanto no Tarô Bolonhês possui um tom de bege.

Todas as cartas são impressas nos dois sentidos, sendo algumas figuras divididas por uma linha horizontal grossa e preta, outras por uma linha diagonal imperceptível, com alguns detalhes de uma figura "vazando" para o espaço da outra. Os cavaleiros de Paus e Ouros parecem não estar montados, mas ao lado de seus cavalos, pela disposição das cabeças destes. As cartas mais interessantes são os ases: o de Espadas traz a figura de um dragão passando por dentro de uma coroa; o de Paus traz um cetro, também passando por uma coroa, e decorado com folhas e estrelas; o de Copas traz uma taça de boca hexagonal e sob uma coroa; e o de Ouros é pouco mais que o nome da fabricante, acompanhado de uma moldura no centro da qual seria aplicado o selo dos impostos.

O baralho bolonhês só é fabricado na Itália, e seu uso é praticamente restrito à província de Ferrara, próxima a Bolonha.

Padrão Bergamasco


Assim como o padrão bolonhês, o bergamasco, da cidade de Bérgamo, também evoluiu de um Tarô, no caso o Tarô Lombardo, atualmente extinto. O baralho tem as 40 cartas tradicionais dos italianos, cada uma com 51 x 91 mm. As figuras são impressas nos dois sentidos da carta, divididas por uma linha horizontal fina, preta e um tanto inclinada, mas as demais cartas, aparentemente, não (o que pode ser constatado pelas taças, já que pelas moedas, espadas e bastões, é meio difícil saber).

As figuras também têm traços simples e muitas cores, mas com um estilo mais semelhante aos dos demais padrões do norte. As moedas são vermelhas com uma estrela no centro, os bastões se alternam nas cores azul e vermelha e são curiosamente entrelaçados, as espadas são curvas e sempre têm uma empunhadura discernível, e as taças possuem formas retas. Como de costume, as principais atrações do baralho são os ases: o de Copas, por exemplo, traz uma fonte com um cupido no topo, o símbolo presente no brasão da família Sforza, governante da Lombardia, onde se localiza Bérgamo, no século XV; os de Espadas e Paus trazem uma mão segurando o objeto do naipe, sendo que a espada passa por dentro de uma coroa, e o bastão por uma faixa onde se lê "vencerás"; e o de ouros é apenas dois aros, um amarelo e um laranja, no centro dos quais deveria ser aplicado o selo dos impostos, e mais o nome da fabricante. Atualmente, algumas fabricantes já substituem estes aros por uma grande moeda.

O padrão bergamasco é mais um restrito à região onde foi criado, e apenas fabricado na Itália. Algumas versões acompanham duas cartas extras, com números de 1 a 8 ou de 1 a 10, utilizadas pelos jogadores para marcar o placar no jogo de Scopa, o mais popular na Lombardia.

Padrão Trevisano ou Veneziano


Criado na cidade de Treviso, na região do Vêneto (cuja capital é Veneza), no século XVII, este padrão também parece uma adaptação de algum tarô, embora não existam registros históricos suficientes para afirmar que isso seja verdade, e nem de qual tarô ele teria evoluído. Além das ilustrações, bastante detalhadas e ricamente decoradas, um fato que corrobora para esta desconfiança é que a versão original deste baralho tem 52 cartas (do 1 ao 10 mais as três figuras de cada naipe), embora atualmente ele também possa ser encontrado na versão tradicional italiana de 40 cartas. Suas cartas são finas e compridas, com 49 x 104 mm, e, curiosamente, o baralho possui um "verso padrão", utilizado pela maioria das fabricantes. Também curiosamente, a versão de 52 cartas fabricada pela Modiano acompanha 2 Curingas, com a figura do bufão e tudo.

As figuras do padrão trevisano são as mais bem elaboradas de todos os padrões do norte da Itália. As moedas possuem flores em seu interior, e têm uma metade azul e a outra amarela, com o centro vermelho; as taças têm um formato peculiar, semelhante a um haltere, e estão aparentemente tampadas; as espadas são curvas e com empunhaduras simples, sendo que uma espada diferente cruza as demais nas cartas ímpares, e uma pequena ilustração decora o espaço em branco nas cartas pares; e os bastões, semelhantes a cetros, se cruzam atrás de uma espécie de escudo losangular. As figuras mais peculiares do baralho são o Fante de Copas, que carrega um escudo com um rosto; o Fante de Espadas, que traz uma cabeça decepada na ponta de sua lâmina; o Cavaleiro de Espadas, um mouro com direito a cimitarra; e o Rei de Paus, que no centro da carta traz o brasão da cidade de Treviso, com a inscrição Tarvisium, o nome da cidade em latim. As figuras são impressas nos dois sentidos da carta, divididas por uma fina linha preta horizontal. Todas as cartas possuem uma borda dupla, e as de 2 a 10 são numeradas, com um número no canto superior esquerdo e outro, invertido, no canto inferior direito.

Como de costume, os Ases são ricamente decorados: o de Paus possui um cetro curioso, com duas faces e alguns penduricalhos, tem uma mão segurando sua base, um galo a seu lado, e uma faixa com a inscrição "se tu perdes, o prejuízo é teu"; o de Copas também tem duas faces, possui uma curiosa simetria vertical, e a enigmática inscrição "por um ponto, Martinho perdeu a capa" (segundo alguns, um provérbio italiano até hoje popular); o de Espadas é ricamente decorado com dois galos, flores e folhas, uma coroa, dois sóis e uma placa onde se lê "não confie em mim se não for forte de coração"; e o de Ouros traz apenas o nome da fabricante, uma decoração com folhas, e um anel dourado no centro do qual era colocado o selo dos impostos.

O padrão trevisano já foi fabricado na Alemanha e França, mas hoje só o é na Itália, e sua popularidade está restrita ao Vêneto. No passado, porém, ele se espalhou pela Europa Central, chegando à Tchecoslováquia, onde foi adaptado para o jogo de Trappola, bastante popular no país desde o século XV. Com a associação do baralho ao jogo, as fabricantes locais o adaptaram, criando um baralho especial para Trappola, com ilustrações diferentes, mas baseadas nas trevisanas, e apenas 36 cartas (1, 2, do 7 ao 10 e as três figuras de cada naipe, o necessário para jogar Trappola). Com o tempo, o baralho de Trappola foi evoluindo, até se tornar totalmente diferente do trevisano original, a começar pelos Ases, que perderam suas frases de efeito e a maior parte de suas decorações, e passaram a ser impressos nos dois sentidos da carta. O baralho de Trappola se tornou muito popular no século XIX, sendo fabricado também na Áustria e na Alemanha, mas aos poucos, infelizmente, foi sendo descontinuado, até se extinguir por completo no meio do século XX. Atualmente ele só sobrevive na forma de uma edição de luxo, fabricada pela austríaca Piatnik em 1988 mas ainda encontrada no mercado, com ilustrações que imitam as antigas e algarismos romanos nas cartas numéricas.

Padrão Trentino


Este padrão de desenhos simples e poucas cores, um dos dois únicos do norte da Itália no qual as figuras são impressas em um único sentido, é originário da cidade de Trento. Ninguém sabe dizer ao certo em que época ele surgiu, mas desconfia-se que ele seja o mais antigo dentre todos os padrões do norte da Itália.

Originalmente, o baralho trentino tinha 52 cartas, mas aos poucos a versão de 40 cartas foi se tornando mais popular, até que a de 52 foi descontinuada no meio do século XX (embora algumas edições antigas ainda possam ser encontradas em algumas lojas). Suas cartas, finas e compridas ao estilo do norte, têm 54 x 100 mm, e são produzidas pelas principais fabricantes italianas. Sua popularidade, porém, restringe-se aos arredores de Trento.

As cartas mais curiosas do baralho trentino são as figuras, que, para começar, possuem cabelos encaracolados e multicoloridos, em azul, vermelho e amarelo. Os cavalos são rampantes e desproporcionalmente pequenos, e os Fantes carregam não um, mas dois símbolos de seu naipe, à exceção do de Copas, que carrega apenas uma taça, mas está sendo importunado por um cachorro. Os Reis estão sentados em seus tronos, mas são curiosamente retratados de frente. Os Ases seguem o estilo dos baralhos do norte, mas com menos alegorias: o de Paus é um cetro de formas curiosas, iluminado por três sóis, decorado com uma faixa e duas flores, e empunhado por uma mão bicolor; o de Espadas também é empunhado, passa por dentro de uma coroa, e tem flores crescendo de sua empunhadura; o de Copas, parecido com o do padrão bergamasco, é semelhante a um pedestal com um cupido no topo; e o de Ouros, totalmente diferente dos demais padrões, é uma espécie de espelho, onde até se vê o reflexo de uma figura humana. Este é o único padrão italiano em que o selo dos impostos nunca foi colocado no Ás de Ouros; ao invés disso, seu lugar era no Rei de Ouros, que por essa razão tem as pernas arqueadas.

Todas as cartas do baralho possuem uma fina borda, e as cartas de 2 a 7 possuem números. Em nem todas elas, porém, os números estão nos cantos superior esquerdo e inferior direito; em algumas ele está mais próximo do centro, ou no próprio centro. Números também podem ser encontrados nos losangos que cobrem as interseções dos bastões e espadas, e nas tampas das taças do 2 de Copas.

Padrão Bresciano


Originário da cidade da Bréscia, este padrão guarda muitas semelhanças com o trentino, o que leva a crer que, se ele não for uma adaptação, ambos tiveram um mesmo ancestral comum. Assim como no padrão trentino, seus desenhos são simples, as figuras são impressas em um único sentido da carta, o Fante de Copas está sendo atacado por um cachorro, os cavalos são rampantes e pequenos, e os Reis estão sentados em seus tronos, vistos de frente. Também como o trentino, este foi originalmente um baralho de 52 cartas, mas, curiosamente, jamais se transformou em uma versão de 40, sendo comercializado até hoje apenas na versão de 52.

O baralho bresciano é mais colorido que o trentino, mas, assim como naquele, algumas cores parecem estar erradas, como no caso dos Cavaleiros, e especialmente no Ás de Copas, onde o cupido tem três cores. Os ases são quase idênticos aos trentinos, com exceção do Ás de Ouros, que neste baralho retoma sua função de abrigar o selo dos impostos, contendo apenas um círculo vazio, uma decoração com folhas, e o nome da fabricante. O local destinado ao selo, evidentemente, seria o círculo, mas em algumas versões ele era aplicado no espaço em branco abaixo do círculo, deixando-o vazio. Como o Ás de Ouros levava o selo, o Rei de Ouros não precisava ter suas pernas arqueadas, mas, por alguma razão, o de Paus as tem, e neste espaço é colocado um logotipo da fabricante ou outro desenho qualquer. As cartas do Rei de Paus e do Cavaleiro de Ouros também trazem uma faixa em sua base, onde é escrito o nome da fabricante ou sua cidade de origem.

As moedas do baralho bresciano são pretas com uma estrela vermelha no centro, e os bastões, apesar de remeter aos bastões cerimoniais, são simples e pouco trabalhados. Todas as cartas possuem uma borda fina, mas nenhuma é numerada, com exceção do 7 e do 9 de Espadas, que trazem um grande número na interseção das espadas, talvez para que as cartas não sejam confundidas uma com a outra. As cartas do baralho bresciano têm 49 x 84 mm, e atualmente só são fabricadas na Itália, sendo sua popularidade restrita aos arredores da cidade de Bréscia.

Padrão Triestino


Surgido no século XIX na cidade de Trieste, na fronteira com a atual Eslovênia, este padrão surgiu a partir do Trevisano, que chegou à região através de comerciantes, e incorporou alguns elementos do padrão vienense do baralho francês, muito popular na região na época. Atualmente o padrão triestino é impresso na Itália, Áustria e Eslovênia, e é relativamente popular no norte da Itália e na Europa Central.

As cartas do padrão triestino têm 54 x 100 mm. Todas possuem uma borda e números nos cantos superior esquerdo e inferior direito, este invertido. As figuras dos naipes são bastante semelhantes às do trevisano, em especial as moedas, que têm uma metade azul e outra amarela, e o centro vermelho. As espadas e bastôes têm losangos cobrindo suas interseções, mas aqui eles trazem o número da carta em seu interior. Os Ases são outro ponto de semelhança com o baralho trevisano, com ilustrações parecidas e as famosas frases de efeito em italiano; tais frases, porém, são diferentes: na faixa do Ás de Paus se lê uma estimulante "muitas vezes os jogos de baralho terminam em pauladas"; a placa do Ás de Espadas, decorado com grifos ao invés de galos, diz "o jogo da espada a muitos não agrada"; e a taça do Ás de Copas, que tem três faces que vertem água pela boca, traz a inscrição "uma taça de bom vinho faz surgir a coragem". O Ás de Ouros, como de costume, é um caso à parte: ele traz um anel branco ou amarelo, cujo centro era reservado ao selo dos impostos, uma decoração de folhas, o nome da fabricante, e a frase "os amigos são muito raros quando não se há dinheiro", exceto na versão fabricada pela Modiano, onde a frase é "de nada adianta saber quem tem má sorte". Atualmente, é comum que o centro do anel seja preenchido com um logotipo da fabricante.

As cartas mais características do padrão são as figuras, grandes e ocupando quase toda a carta, como ocorre no padrão vienense. Como o baralho no passado possuía 52 cartas, as figuras são marcadas com os números 11, 12 e 13, mesmo estando hoje esta versão extinta, e só existindo a tradicional de 40 cartas, o que faz com que a numeração "pule" do 7 para o 11, semelhante ao que ocorre no padrão sardenho, onde o pulo é do 7 para o 10. As figuras são impressas nos dois sentidos da carta, divididas por uma grossa linha branca onde está escrito o nome da figura, em italiano e em um único sentido, sendo esta a característica mais distintiva do padrão.

Os baralhos latinos ficam por aqui. No próximo post da série, o baralho alemão!

Série Baralhos

Padrões Regionais Latinos - Parte 2

Ler mais

sábado, 22 de setembro de 2007

Escrito por em 22.9.07 com 4 comentários

Baralho (VII)

Hoje começaremos a ver os padrões regionais do baralho latino. Todos eles são ilustrados com um Cavaleiro de Ouros, mas, clicando nele, você poderá ver as demais cartas do baralho.

Padrão Castelhano


Também conhecido como Baraja Española, este é considerado o padrão nacional da Espanha; apesar disso, ele não foi o primeiro padrão regional a se estabelecer como tal. O padrão castelhano foi criado em 1868 pelo fabricante Heraclio Fournier, da cidade de Vitoria, como uma variação enfeitada, inspirado em um baralho com ilustrações neoclássicas criado em 1810 por Clemente Roxas, da cidade de Madri, e que fez muito sucesso. Com o tempo, o baralho de Fournier também alcançou grande popularidade, sendo copiado por diversas outras fabricantes, e se estabelecendo como o baralho favorito dos jogadores. O nome "padrão castelhano" foi cunhado no início do século XX, para diferenciá-lo de outro padrão popular, o catalão; na Espanha, porém, ele costuma ser chamado simplesmente de "padrão espanhol" ou "baralho espanhol".

Todas as ilustrações do padrão castelhano são ricamente trabalhadas, e impressas em várias cores. Cada naipe possui uma peculiaridade: todas as moedas têm uma efígie de mulher em seu interior; as taças são sempre cobertas com uma espécie de tampa; as espadas das cartas 1, 2, 3 e as nas mãos das figuras são longas e com empunhaduras trabalhadas, enquanto as das demais cartas são curtas e semelhantes a adagas; e as clavas possuem poucas protuberâncias (com exceção das cartas 1 e 2), como se tivessem sido "lixadas", diferente das clavas rústicas de outros padrões. Outros detalhes interessantes são que os quatro cavalos têm as quatro patas no chão, e os quatro reis são barbados. Mas a carta que chama mais atenção é o Ás de Ouros, ricamente decorado com uma enorme moeda, várias bandeiras, coroas de folhas, e até um gárgula.

O baralho castelhano pode ser encontrado em duas variedades, a tradicional espanhola de 48 cartas (do 1 ao 9, Sota, Cavaleiro e Rei de cada naipe) ou a de 40 cartas (sem o 8 e o 9 de cada naipe), que é até mais comum, já que a maioria dos jogos modernos só usa 40 cartas. A versão de 48 cartas costuma acompanhar duas cartas extras, chamadas comodines (algo como "pretextos" ou "desculpas"). Estas cartas possuem um logotipo do fabricante, todos os quatro naipes em uma mesma carta, ou um outro personagem qualquer; em jogos mais recentes elas funcionam como curingas, mas sua função inicial era substituir cartas que porventura se danificassem.

Quanto ao tamanho das cartas, o baralho tradicionalmente tem 61 x 95 mm, mas existem duas variações "oficiais": a chamada Liliput, apropriada para jogar paciência, com cartas pequenas de 37 x 57 mm; e a chamada Gigante, que tem cartas enormes de 122 x 190 mm, e eu nem imagino para que sirva. Também não é difícil encontrar este baralho em formato redondo.

Independentemente da fabricante, o baralho castelhano costuma usar as figuras criadas por Fournier, mudando alguns detalhes de acordo com o artista. Se o baralho sofrer muitas modificações, acaba sendo enquadrado como uma variação enfeitada. Existe, porém, uma variação que acabou sendo "incorporada" ao padrão: chamada de Poker Español, esta variação traz cartas com grossas bordas, que contêm curiosos índices, compostos por um número e um pequeno símbolo do naipe, ficando a ilustração original em um quadrado interno, com fundo amarelo. O intuito é possibilitar que se jogue Pôquer (e, por tabela, todo tipo de jogo) com o baralho espanhol ao invés do francês; por causa disso, um baralho de Poker Español possui todas as 52 cartas (incluindo um 10 de cada naipe), tem Ases, Sotas, Cavaleiros e Reis marcados com as letras A, J, Q e K, e até mesmo um Curinga, curiosamente marcado com o número 0, mas sem naipe.

Atualmente, o baralho castelhano é fabricado na Espanha, França, Áustria, México, e até no Brasil, pela Copag.

Padrão Catalão


Este padrão é um descendente direto do inventado por Pere Rotxoxo, da cidade de Barcelona, no século XVII. As ilustrações se mantêm fiéis às originais, embora tenham ganhado alguns novos detalhes conforme as técnicas de impressão se modernizavam.

Mesmo assim, as ilustrações do padrão catalão são bem mais simples que as do castelhano, e usam bem menos cores. A principal característica deste padrão está nos cavalos, chamados rampantes, por estarem com as patas dianteiras levantadas; este traço é tão característico que praticamente todos os baralhos influenciados pelo espanhol também trazem cavalos rampantes. Outros detalhes curiosos incluem as estrelas de seis pontas dentro das moedas, as taças destampadas, as clavas rústicas de formatos irregulares, e as espadas sempre longas, mesmo nas cartas com maior quantidade delas. Somente os Reis de Espadas e Copas possuem barba, e os Cavaleiros de Espadas e Copas usam bigode, assim como o Sota de Espadas. O Ás de Ouros, além de decorado com bandeiras, traz ainda uma coroa, um leão e uma âncora. Uma âncora também pode ser encontrada no 4 de Ouros.

As cartas do baralho catalão têm o mesmo tamanho das castelhanas, 61 x 95 mm, mas desconheço a existência de versões Liliput, Gigante ou redonda. Também como o castelhano, é comercializado na versão de 48 cartas, acompanhadas de duas comodines, ou na de 40 cartas. Atualmente ele é produzido na Espanha, Áustria, Argentina e França.

Na França, aliás, o padrão ganhou duas variações curiosas: a primeira, conhecida como catalão francês (Cartes Catalanes, na França), surgiu no início do século XIX, quando as fabricantes da fronteira entre França e Espanha decidiram criar baralhos baseados nos que chegavam da Espanha. As figuras do baralho catalão francês até lembram as do catalão original, mas são bem mais trabalhadas e coloridas, e com algumas diferenças básicas: as moedas trazem em seu centro uma coroa de folhas, as taças são em formato diferente, todos os Reis usam barba, e nenhum Cavaleiro ou Sota tem bigode. O Ás de Ouros também é bem menos decorado, apenas com duas fitas, uma lança e um brasão. Estes detalhes fazem com que muitos considerem este padrão uma "mistura" dos três padrões regionais espanhóis. O baralho catalão francês jamais foi fabricado fora da França, e atualmente é considerado apenas uma variação enfeitada.

A segunda variação é ainda mais interessante: surgida na região de Vendée no século XVII, ela recebeu o nome de Aluette, o mesmo do jogo tradicional da região, originalmente jogado com baralhos trazidos da Espanha. No jogo de Aluette, cada carta possui um "apelido", então as fabricantes da região desenvolveram um baralho especial, onde as figuras das cartas tinham relação com estes apelidos (o 2 de Copas, por exemplo, é apelidado "A Vaca", então a carta do 2 de Copas tem a figura de uma vaca). Além disso, algumas outras cartas ganharam detalhes curiosos, como os Cavaleiros, montados em cavalos desproporcionalmente pequenos, e vestindo roupas femininas. O resultado foi um baralho ricamente ilustrado e bastante colorido, mas que ficou restrito a um único jogo e a uma única região. Atualmente o baralho de Aluette ainda é fabricado pela francesa Grimaud, no tamanho 58 x 89 mm, mas é considerado um baralho específico para um jogo específico, mais ou menos como um baralho de Uno.

Padrão de Cadíz


Este é o padrão espanhol que mais guarda semelhanças com os primeiros padrões, da época em que cada fabricante inventava suas próprias cartas. Surgido no início do século XIX na cidade de Cadíz, ele não tem nome oficial ("padrão de Cadíz" é um nome extra-oficial, usado pelos colecionadores), e teria desaparecido se não tivesse migrado para a África, mais precisamente para Marrocos.

Com o aumento da popularidade do padrão castelhano, o padrão de Cadíz foi aos poucos sendo abandonado na Espanha, mas em Marrocos ele seguia firme e forte, ao ponto de se espalhar para a Tunísia e para a França, que tinha filiais de suas principais fabricantes nestes dois países. Atualmente, ele é fabricado na França (onde é curiosamente identificado como "padrão espanhol"), El Salvador, Hong Kong e Uruguai, onde deu origem ao Estilo Paris, considerado por alguns como o padrão regional uruguaio.

As cartas do padrão de Cadíz têm 55 x 84 mm, e o baralho pode ser encontrado tanto na versão de 48 quanto na de 40 cartas, mas sem comodines. Suas principais características são as moedas com desenhos geométicos, as taças destampadas e quase cilíndricas, e as clavas coloridas e com galhinhos, quase como tentáculos. Os cavalos são rampantes e desproporcionalmente pequenos, e os Reis não têm barba. No geral, as ilustrações têm traços simples e ingênuos, mas em compensação são bastante coloridas. Algumas edições especiais, comercializadas como variações enfeitadas, podem ter figuras mais bem trabalhadas.

Padrão Napolitano


O padrão criado na cidade de Nápoles é um dos mais famosos da Itália, sendo popular em praticamente todos os lugares que não tenham um padrão próprio. Surpreendentemente, porém, ele é um dos mais recentes, tendo chegado à forma que tem hoje apenas no final do século XVIII.

As cartas do baralho napolitano são pequenas, com 50 x 83 mm, e bastante coloridas, com ilustrações impressas em tons fortes de verde, azul, vermelho e amarelo, além de detalhes em preto, cinza e marrom. As moedas, em amarelo e preto, trazem um sol em seu interior, que possui um rosto nas cartas 2, 3, 4 e 5. As taças são destampadas (com exceção do Ás), e trazem duas alças em suas laterais. As espadas têm lâminas de um azul vivo e empunhaduras ricamente decoradas; e as clavas são lisas, sem qualquer protuberância, e decoradas com folhas. As cartas mais características do padrão são o 3 de Paus, que traz à frente das clavas uma face grotesca e bigoduda; o 5 de Espadas, que retrata uma cena rural entre as espadas; e o Ás de Ouros, que traz uma águia de duas cabeças, e com dois espaços para o selo dos impostos, embora somente um selo fosse aplicado em cada baralho. Além disso, os Cavaleiros de Espadas e Ouros são mouros, com turbantes na cabeça, e uma cimitarra ao invés de uma espada na mão do Cavaleiro de Espadas. Nenhuma carta é numerada ou possui bordas, e todas as figuras são impressas em um único sentido da carta. Os Reis, Cavaleiros e Fantes estão de pé sobre uma espécie de tapete, cuja cor depende do naipe (azul para Espadas, vermelho para Copas, amarelo para Ouros e verde para Paus). O nome e logotipo do fabricante costumam vir impressos no 4 de Ouros e no de Copas.

Atualmente, o padrão napolitano é fabricado por praticamente todas as fabricantes italianas, e também pela austríaca Piatnik. Só é encontrado na versão tradicional italiana de 40 cartas.

Padrão Siciliano


Surgido na ilha da Sicília no século XIX, este padrão traz muitos detalhes em comum com o napolitano, sendo, provavelmente, uma adaptação deste. Sua popularidade não se restringe à ilha, sendo utilizado também em muitas cidades do sul da Itália.

Assim como o padrão napolitano, o siciliano tem 40 cartas de 50 x 83 mm, nenhuma delas possuindo índices ou bordas. As figuras, impressas em um único sentido da carta (embora tenhamos taças "de cabeça pra baixo" no o 2 e no 4 de Copas) também são bastante coloridas, mas as ilustrações são mais simples, e com alguns pequenos desenhos, como animais, casinhas, navios e pessoas, para preencher os espaços em branco entre os símbolos dos naipes. As clavas são trabalhadas e com uma espécie de empunhadura; as taças são gordinhas, com bocas pequenas e duas alças; as espadas têm empunhaduras simples e lâminas verdes, com exceção do Ás e do 2, onde estão embainhadas, e das espadas empunhadas pelos personagens, bem mais finas e pontudas que o habitual, e com lâminas azuis. As moedas são o naipe mais curioso, com praticamente cada carta trazendo uma ilustração diferente dentro delas. Curiosamente, o único Cavaleiro que está segurando o símbolo de seu naipe é o de Ouros; nos demais o símbolo aparece suspenso no ar ao lado da figura, o mesmo acontecendo com o Fante de Copas. O Ás de Ouros traz uma águia nas cores verde e vermelha, com o tradicional espaço central destinado ao selo dos impostos.

O baralho siciliano já foi fabricado na Alemanha e Áustria, mas atualmente só é encontrado nos catálogos das principais fabricantes italianas.

Padrão Romanhol


Este padrão surgiu na região de Romagna, que hoje corresponde aproximadamente à região da Emilia-Romagna, no centro da Itália. Muitos pesquisadores consideram este padrão uma adaptação do padrão placentino (que veremos semana que vem), mas com muitos detalhes "emprestados" de outros padrões italianos e espanhóis.

Produzido pelas principais fabricantes italianas, o baralho romanhol tem 40 cartas de 51 x 94 mm, nenhuma delas possuindo índices ou bordas. As figuras são bem trabalhadas, mas bem menos coloridas que as de outros padrões italianos. As demais ilustrações são simples, mas usam tons fortes de azul, vermelho e amarelo. As moedas trazem uma espécie de flor em seu interior, embora nem todas as cartas tenham a mesma flor. As taças são descobertas, mas sem alças, e as espadas têm empunhaduras simples e lâminas coloridas. As clavas são lisas e sem qualquer protuberância, com exceção do 2 de Paus, onde cada clava traz quatro pequenos prolongamentos, e um grande nó, como se um pedaço tivesse sido cortado, em sua ponta. Os Reis de Copas e Ouros são armados com machados, e os cavalos dos Cavaleiros são desproporcionalmente pequenos, embora somente os de Paus e Ouros sejam rampantes.

Os Ases são um espetáculo à parte: o de Espadas traz a figura de um pequeno anjo segurando a espada, além de uma fita com uma moeda em cada ponta; o de Copas traz uma taça tampada e ricamente decorada, como uma urna; o de Paus traz uma clava rústica com muitos nós e protuberâncias, além de um pedaço de solo com duas plantinhas; e o de Ouros não traz absolutamente nada além do nome da fabricante e de uma pequena decoração central, que varia de acordo com a mesma, mas nunca é mais detalhada que um pequeno círculo vermelho e algumas folhinhas na horizontal. A razão para um Ás tão econômico, infelizmente, se perdeu no tempo.

Padrão Sardenho


Originário da ilha da Sardenha, este é o padrão italiano que mais guarda semelhança com os padrões espanhóis, em uma clara demonstração de que foi adaptado a partir de algum deles. Para começar, todas as cartas possuem bordas, embora todas sejam contínuas, e não quebradas como no baralho espanhol. Além disso, este é o único padrão do centro-sul da Itália no qual as cartas possuem números nos cantos superior esquerdo e inferior direito, sendo este último de cabeça para baixo. Corrobora a teoria de que este padrão é relacionado aos espanhóis o fato de que, embora ele tenha apenas 40 cartas, as figuras são marcadas com os números 10, 11 e 12, exatamente como nos padrões espanhóis de 48 cartas.

As ilustrações também guardam muitas semelhanças com as espanholas; as figuras, por exemplo, são muito mais trabalhadas do que as dos demais baralhos italianos, com roupas garbosas e armaduras coloridas. Os cavalos, à exceção do de Copas, são rampantes e desproporcionalmente pequenos. As moedas possuem efígies em seu interior, as taças são tampadas, e as clavas são rústicas e com protuberâncias. E talvez a maior semelhança entre as figuras deste padrão e dos espanhóis esteja no Ás de Ouros: embora sem decoração em volta, ele é representado por uma enorme moeda, algo que não acontece em nenhum outro padrão regional italiano.

Apesar de todos estes traços em comum, o baralho sardenho ainda possui algumas peculiaridades bem originais. Os Ases de Paus e Espadas, por exemplo, estão nas mãos de anjos, e têm cenários ricamente decorados. As taças também são muito mais decoradas que o habitual, tendo, inclusive, ramos de parreira pendendo de suas bordas. Todas as espadas, exceto as empunhadas pelas figuras, estão embainhadas; e as quatro cartas de valor 4 possuem belas ilustrações no espaço em branco entre os símbolos dos naipes.

Não existem indícios precisos de quando este baralho tenha surgido, mas o mais provável é que tenha sido no final do século XIX. Suas cartas têm 57 x 87 mm, e atualmente só são fabricadas na Itália.

Semana que vem, os sete padrões restantes!

Série Baralhos

Padrões Regionais Latinos - Parte 1

Ler mais

sábado, 15 de setembro de 2007

Escrito por em 15.9.07 com 0 comentários

Cutey Honey

Há uns dois meses, fiz aqui um post sobre Zillion. Na ocasião, revelei que desejava escrever um post sobre algum anime, e, na ausência de anime recentes sobre os quais eu quisesse falar, decidi recorrer aos mais antigos. Acabei optando por Zillion devido a este ter aparecido na capa da revista Dragonslayer, por estar completando 20 anos desde sua primeira exibição no Japão, mas confesso que Zillion não foi a primeira opção que me veio à mente quando decidi escrever sobre um anime antigo. A primeira opção foi Cutey Honey, que ficou devidamente guardada esperando uma ocasião propícia. E esta ocasião chegou.

Que eu saiba, Cutey Honey (também conhecido nos Estados Unidos como Cutie Honey, embora ambos signifiquem a mesma coisa, algo como "Honey fofinha", com o detalhe pitoresco de que honey, que significa "mel", também é um adjetivo semelhante a "meiga") nunca foi exibido no Brasil; eu mesmo só tomei conhecimento de sua existência graças a um amigo que conseguiu umas fitas de vídeo da segunda encarnação da série, com som original em japonês e legendas em inglês. Desconheço onde ele arrumou essas fitas, mas lembro-me que, na época em que assisti, quando tinha uns 16 anos, achei divertidíssimo; hoje já não acho tão bom assim, mas digamos que o desenho adquiriu um certo valor nostálgico.

Cutey HoneyE não só para mim: Cutey Honey é considerada uma espécie de precursora das heroínas mágicas japonesas, aquelas que normalmente mudam de roupa para ganhar novos poderes, algo como a Angel, que procurava a Flor das Sete Cores (alguém aí se lembra disso?), e, se não chega a ser um dos anime mais populares do Japão, é, com certeza, um dos mais conhecidos. Criada no agora longínqüo ano de 1973 por Go Nagai, Honey foi inspirada em dois antigos heróis de tokusatsu, Nanairo Kamen, de 1959, o primeiro super-herói da Toei (dos Sentai), um detetive capaz de assumir sete diferentes personalidades, cada uma com um poder; e Rainbowman (no qual Megaman também é inspirado), de 1972, o primeiro Henshin Hero (heróis que "se transformam", como Kamen Rider) da Toho (de Godzilla), que tinha o poder de se transformar em sete outros super-heróis diferentes (algo meio parecido com Ben 10 - este post está cheio de referências...). Curiosamente, tanto Nanairo Kamen quanto Rainbowman foram inventados pelo mesmo homem, Kohan Kawauchi.

Pois bem, inspirada nestes dois super-heróis, Cutey Honey fez sua estréia na edição 41 do mangá Shonen Champion, que trazia diferentes histórias de diferentes heróis a cada edição. Seu poder, evidentemente, era o de assumir múltiplos disfarces, mudando de roupa e de aparência, e ganhando diferentes habilidades - ao se vestir de motoqueira, por exemplo, Honey ganha a habilidade de dirigir motos com extrema maestria, ao se vestir de soldado adquire uma mira fantástica, com roupa de trapezista ela consegue dar saltos acrobáticos impressionantes, e assim por diante. Honey só voltava à sua "verdadeira identidade" no final da batalha, quando se revelava ao vilão antes de derrotá-lo.

Esta primeira história de Cutey Honey fez tanto sucesso que, menos de uma semana após seu lançamento, a heroína ganhou uma versão em anime. Produzida pela Toei e chamada simplesmente de Cutey Honey, a série estreou no Japão em 13 de outubro de 1973, e ficou no ar na TV Asahi até 30 de março de 1974, com um total de 25 episódios. O número baixo pode dar a entender que a série não fez muito sucesso, mas na verdade Cutey Honey foi considerado um dos anime mais bem sucedidos da década de 70.

Mas quem afinal é Cutey Honey? Nascida Honey Kisaragi, ela aparentemente é apenas uma adolescente japonesa comum - apesar de extremamente bonita - que estuda em uma escola católica só para moças. Um dia, o pai de Honey é brutalmente assassinado pela organização criminosa Panther Claw, que passa também a perseguir Honey, que logo descobre o motivo: Honey, na verdade, não é uma garota comum, mas sim uma andróide, criada por seu pai com a tecnologia do Sistema de Fixação do Elemento Ar (ou algo parecido), cobiçada pela Panther Claw. É esta tecnologia que permite que Honey, ao gritar "Honey Flash!", ative seus poderes, se transformando na guerreira Cutey Honey. Com o mesmo grito, Cutey Honey pode assumir diferentes personalidades, cada uma com um poder importante para que ela supere a encrenca na qual está metida.

Após dominar seus poderes, Honey passa a combater a Panther Claw, liderada pela feiticeira Panther Zora, que planeja se apoderar do Sistema para dominar o mundo. Quando não está combatendo a Panther Claw como Cutey Honey, Honey Kisaragi vive uma vida adolescente normal e, acompanhada de sua melhor amiga Natchan, se mete em muitas confusões em sua escola, graças ao comportamento anárquico das duas. Cada episódio oferece, portanto, duas temáticas distintas: Cutey Honey vive incríveis aventuras cheias de ação, enquanto Honey Kisaragi oferece o contraponto cômico, se metendo em confusões adolescentes.

Mas a principal característica de Cutey Honey é que ele é um anime, digamos, um tanto safadinho. Não chega a ser um hentai, porque não mostra genitálias nem tem cenas de sexo, mas ainda assim é altamente desaconselhável para menores. Toda vez que Honey se transforma, por exemplo, ela fica totalmente pelada durante a troca de roupa, com direito a closes no bumbum e nos seios. Muitas das vilãs também são bastante "desinibidas", as coleguinhas do colégio de Honey gostam de usar saias mais curtas do que deveriam, e existe até mesmo uma professora subentendidamente lésbica, e aparentemente atraída por Honey. E, por incrível que pareça, o mangá era mais pesado ainda, com violência extrema (que foi bastante amenizada no anime), cenas lésbicas bem mais explícitas e piadas bem mais constrangedoras.

Apesar de todas estas características, Cutey Honey teve apelo não somente entre os meninos, mas também entre as meninas, talvez por ter sido uma heroína "à frente de seu tempo", de personalidade forte, e totalmente independente dos homens, adorando sacanear vilões e provocar colegas de colégio. Talvez ela tenha sido considerada visionária até demais, já que, depois do anime, ela fez apenas mais uma aparição na Shonen Champion (foram quatro, no total), e depois foi para a geladeira, de onde só saiu após 20 anos.

E Honey saiu da geladeira diretamente para um novo anime, desta vez para uma série OVA (Only Video Available, "disponível somente em vídeo", ou seja, produzido para ser lançado diretamente em vídeo ou DVD, sem passar antes no cinema ou na TV). Lançado em 1994, New Cutey Honey trouxe 8 novos episódios, sendo que os quatro primeiros formavam uma história completa, enquanto os quatro últimos não tinham relação entre si, e eram uma espécie de homenagem a criações anteriores de Go Nagai.

New Cutey Honey se passa vários anos (embora ninguém saiba ao certo quantos) após a série original. Honey Kisaragi, já adulta, trabalha como secretária para o prefeito de Cosplay City. Um dia, a cidade é atacada pelo vilão Dolmeck, e Honey revela sua verdadeira identidade, jurando destruí-lo e restaurar a paz. Dolmeck é auxiliado por Black Maiden, uma menininha pré-adolescente presa em um imenso corpo robótico, e Peeping Spider, uma mistura de humano e aranha. Honey também ganha curiosos aliados na forma da família Hayami, composta por Danbei, um vovô ciborgue tarado e resmungão, seu filho Akakabu, a mulher gostosona de Akakabu, Daiko, e o filho de Akakabu e neto de Danbei, Chokkei, um adolescente tímido que acaba se apaixonando por Honey. No episódio 4, Dolmeck é derrotado, mas não sem que antes Honey descubra um terrível segredo. Depois disso, em cada um dos quatro últimos epiódios um vilão ou vilã ameaça a cidade, e Honey e a família Hayami têm de derrotá-los.

New Cutey Honey não foi exatamente um sucesso (na verdade, foi considerado muito inferior ao original), mas pelo menos lançou a semente para uma nova produção: Cutey Honey Flash (ou Cutey Honey F), uma nova série que foi ao ar na TV Asahi de 25 de fevereiro de 1997 a 31 de janeiro de 1998, com 39 episódios. Desta vez a série era um shoujo, ou seja, um anime direcionado às meninas, como Sailor Moon, por exemplo. Aliás, a série ocupou justamente o lugar de Sailor Moon na grade da Asahi, quando a série saiu do ar depois de 200 episódios exibidos ao longo de seis anos; muitos dos animadores e dubladores de Sailor Moon também trabalharam em Cutey Honey F, o que fez com que o estilo da série também ficasse parecido.

Sendo direcionado às meninas, Cutey Honey F não poderia ser tão "liberal" quanto suas antecessoras, então algumas modificações tiveram de ser feitas. Honey Kisaragi voltou a ser uma adolescente, e agora já não fica explicitamente pelada ao se transformar. Todas as situações sexuais e homossexuais sumiram, e a violência não é muito diferente da que vemos em outros anime por aí. A história, porém, é quase a mesma: em seu décimo-sexto aniversário, Honey Kisaragi está indo visitar seu pai, um dos maiores cientistas do Japão, quando ele é seqüestrado (e não morto) pela organização criminosa Panther Claw, liderada por Panther Zora, uma feiticeira maligna de outra dimensão, que planeja invadir a nossa e dominar o mundo. Pouco após o seqüestro de seu pai, Honey recebe uma visita de um estranho homem que se identifica apenas como "Príncipe do Crepúsculo", e lhe presenteia com um dos inventos de seu pai: uma gargantilha que, quando ativada, permite que Honey assuma diferentes formas com diferentes habilidades, sendo a mais poderosa (e mais freqüentemente utilizada) a da espadachim Cutey Honey. Curiosamente, qualquer forma assumida por Honey também tem um nome que termina com Honey, como Nurse Honey (enfermeira), Hurricane Honey (motociclista), Stage Honey (cantora), Scoop Honey (fotógrafa) e muitas outras.

Assim, Honey passa a utilizar seus novos poderes para lutar contra Panther Zora e salvar seu pai, e ao longo do processo ganha diversos aliados: além do Príncipe, que surge de vez em quando para lhe dar conselhos e dicas de batalha, Honey pode contar com a ajuda do intrépido detetive Seiji Hayami, que teve seus pais mortos pela Panther Claw e agora quer fazer justiça e colocar Panther Zora atrás das grades; Natchan, sua melhor amiga e colega de colégio; e Danbei, o vovozinho meio cabeça oca que dirige o colégio. No episódio 14 surge a enigmática Seira Hazuki, que alega ser meio-irmã de Honey, e possui uma liga idêntica à gargantilha de Honey, que permite que ela se transforme na guerreira Misty Honey (mas não em nenhuma outra forma). Misty é a clássica "gêmea malvada", sendo inimiga de Honey e tentando destruí-la, mas sem ser aliada de Panther Claw, e até mesmo enfrentando os vilões de vez em quando.

Honey KisaragiApesar de não ter feito tanto sucesso quanto a série original (e de alguns fãs mais puristas terem torcido o nariz), Cutey Honey F foi bastante bem sucedida, e até ganhou um mangá, publicado entre maio de 1997 e abril de 1998. Depois deste mangá, Cutey Honey ficaria mais um tempinho na geladeira, até estrear em um novo tipo de produção: um filme em live action, ou seja, com atores de carne e osso!

Produzido pela Gainax (de Evangelion), o filme, chamado simplesmente de Cutey Honey, foi lançado nos cinemas em 2004, e trazia a modelo Eriko Sato no papel de Honey Kisaragi/Cutey Honey. A história é mais semelhante à do anime original (mas sem os elementos "adultos"): Honey é uma andróide, inventada pelo Dr. Kisaragi à imagem e semelhança de sua filha, morta em um acidente. Pouco depois de criá-la, o Dr. Kisaragi é seqüestrado pela organização criminosa Panther Claw, que usa a tecnologia inventada por ele para criar um poderoso exército, com o qual planeja dominar o Japão. Antes de botar seu plano em prática, porém, a Panther Claw precisa do sistema de transformação de Honey (rebatizado para Imaginary Induction System, "Sistema de Indução Imaginária", ou I-System, um trocadilho com a palavra ai, "amor" em japonês), que garantiria vida eterna à sua líder, Sister Jill (Eisuke Sakai - nas outras séries, Sister Jill era a braço-direito de Panther Zora, não a chefe da organização), que já passou da hora de morrer, e se mantém viva sacrificando jovens garotas. Para frustrar os planos das criminosas, Honey contará com a ajuda do jornalista Seiji Hayami (Jun Murakami) e da policial Natsuko "Natchan" Aki (Mikako Ichikawa). Go Nagai também faz uma participação de alguns segundos.

Simultaneamente com o lançamento do filme, a Gainax lançou um novo anime em OVA, em três episódios, chamado Re: Cutey Honey. Este novo OVA contava exatamente a história do filme, mas com mais detalhes e mais personagens. Re: Cutey Honey foi bastante criticado, principalmente por ter um traço muito simples, semelhante ao da série original, mas bastante diferente dos anime mais recentes.

A mais recente encarnação de Cutey Honey ainda não entrou no ar: trata-se de uma série em live action, chamada Cutey Honey: The Live, que estreará dia 2 de outubro na TV Tokyo. O papel de Honey caberá à modelo Mikie Hara, e a história provavelmente será a mesma de sempre, envolvendo o assasinato do pai de Honey e a Panther Claw. Aparentemente, ninguém quer fugir muito disso para manter a tradição.

Uma característica curiosa a respeito de Cutey Honey é que sua música de abertura é a mesma em todas as suas encarnações, sendo que em cada uma foi interpretada por uma cantora ou banda diferente. A música é bastante popular no Japão, mesmo entre pessoas que nunca assistiram Cutey Honey, e várias bandas pop já a gravaram em seus álbuns.

Cutey Honey não chega a ser uma obra-prima, mas é tão curioso que merece uma olhada - principalmente o filme, incrivelmente bem feito para uma produção do gênero, e Cutey Honey F, se você é fã de Sailor Moon. E a musiquinha realmente gruda na cabeça.
Ler mais

sábado, 1 de setembro de 2007

Escrito por em 1.9.07 com 0 comentários

Baralho (VI)

Hoje retomaremos a série de posts sobre o baralho, falando sobre o baralho latino. Para começar, cabe explicar que "baralho latino" é um termo amplo, usado para denominar três grupos de baralhos regionais: os espanhóis, os do norte da Itália e os do centro-sul da Itália. Muitos pesquisadores, inclusive, não gostam do termo baralho latino, usando termos como "baralho espanhol", "baralho italiano" e "baralho italiano com naipes espanhóis". Eu prefiro a denominação mais abrangente, que, inclusive, causa menos confusão.

Seja qual for o nome que você pretende dar, os baralhos regionais da Espanha e da Itália têm todos uma característica em comum: figuras dos naipes grandes, detalhadas e coloridas, descendentes diretas dos baralhos árabes que lhes deram origem. Alguns deles são tão decorados que chega a ser difícil para nós, habituados ao simples padrão anglo-americano, imaginar que sejam usados para jogar baralho.

3 de Espadas, séc. XVIIA origem do baralho tem muitos pontos nebulosos, mas em um deles a maioria dos pesquisadores parece concordar: os primeiros baralhos europeus do mundo surgiram na Espanha, durante o século XIV, influenciados pelas cartas que os invasores mouros traziam. Assim como os baralhos árabes, os primeiros baralhos espanhóis eram totalmente produzidos à mão, com suas cartas desenhadas uma a uma; suas ilustrações, porém, sofreriam certas modificações e adaptações. Para começar, os quatro naipes do baralho árabe (espadas, bastões, taças e moedas) foram mantidos, mas tiveram de ser adaptados para que representassem objetos mais facilmente identificáveis pela população espanhola. As espadas árabes, por exemplo, eram cimitarras, de longas lâminas curvadas e embainhadas; no baralho espanhol, se transformaram em espadas de lâmina reta e azul-clara, muitas vezes curta e pontuda como uma faca. Os bastões árabes eram do tipo utilizado para jogar pólo, um jogo muito popular na Arábia da época, mas praticamente desconhecido na Espanha; não se sabe se pelo seu formato ou por seu nome, acabaram adaptados para clavas rústicas de madeira, algumas inclusive ainda contendo nós, folhas e fragmentos de pequenos galhos, como se tivessem acabado de ser arrancadas das árvores. As taças árabes, de formas retas, foram substituídas por cálices arredondados, semelhantes aos encontrados nas igrejas; apenas as moedas, facilmente identificáveis por serem redondas e douradas, foram mantidas inalteradas. Em espanhol, estes quatro naipes ganharam os nomes de Espadas, Bastos, Copas e Oros.

As figuras do baralho também sofreram uma adaptação importante: como o islamismo proíbe reproduções artísticas de seres humanos, as cartas do baralho árabe que representavam o Rei, o Vizir, o Delegado do Rei e o Ministro Religioso não traziam suas efígies, mas ricas ilustrações do naipe da carta em questão, acompanhada de um retângulo azul sobre o qual o nome da figura era escrito em letras douradas. Este tipo de carta deve ter parecido estranho aos olhos das fabricantes espanholas, que decidiram, pura e simplesmente, desenhar na carta uma ilustração da figura representada, já que na Espanha não havia qualquer restrição neste sentido. O Rei, figura mais importante da corte e do baralho, foi mantido, mas, como na Espanha não haviam vizires, foi escolhida a figura do Cavaleiro, um dos membros mais importantes da corte, para decorar a segunda carta mais importante do baralho. Para terceira figura, foi escolhido o Sota, uma espécie de escudeiro ou secretário do cavaleiro, estabelecendo-se, assim, uma relação de hierarquia entre as três cartas. Nenhuma figura espanhola tinha nome, mas todas eram facilmente identificáveis: o Rei trazia uma coroa na cabeça, o Cavaleiro estava montado a cavalo, e o Sota era o outro cara. Não se sabe bem por que o Ministro Religioso ficou de fora do baralho espanhol, mas, embora existam boatos de que as fabricantes não queriam criar problemas com a Igreja, a teoria mais provável é a de que o baralho usado como "molde" para os espanhóis tenha sido o Mulûk wa-Nuwwâb, que originalmente também já não trazia o Ministro Religioso. Outra carta, porém, sumiu de modo inexplicável: todos os baralhos árabes, incluindo o Mulûk wa-Nuwwâb, tinham dez cartas numéricas e três figuras; mas no baralho espanhol as numéricas só vão do 1 ao 9. Talvez fosse difícil desenhar dez naipes dentro de uma mesma carta.

Os primeiros baralhos espanhóis, sendo desenhados à mão, não tinham ainda um padrão definido, ou seja, cada fabricante os desenhava da forma como bem entendia. Somente no final do século XV, com o advento da impressão através de blocos talhados de madeira, é que começaram a surgir os primeiros desenhos padronizados, sempre visando facilitar o entalhe. Detalhes como cavalos relativamente pequenos em relação aos cavaleiros ou um Ás de Ouros que ocupava toda a carta começaram a surgir em baralhos de diferentes fabricantes, já que, afinal, copiar era mais fácil do que entalhar do zero. Ainda assim, os baralhos espanhóis eram bem mais trabalhados - e coloridos - do que os baralhos franceses de naipes simples, que começariam a surgir no início do século XVI.

O primeiro baralho espanhol a estabelecer um padrão foi criado no início do século XVII pelo fabricante Pere Rotxoxo, da cidade de Barcelona. De figuras simples, para facilitar o entalhe, mas ainda assim bem trabalhadas, para chamar a atenção dos jogadores, o baralho criado por Rotxoxo passou a ser copiado não somente pelas demais fabricantes de Barcelona, mas também das principais cidades espanholas, e ainda de algumas francesas próximas à fronteira. Além de modificar as figuras, Rotxoxo ainda teve uma bela idéia para facilitar a vida dos jogadores: uma borda que até hoje está presente em todos os baralhos espanhóis, independente de seu padrão regional. Esta borda, uma espécie de índice rudimentar, possui "quebras" de acordo com o naipe da carta: se a borda for toda contínua, a carta é de Ouros; com uma quebra (um buraco), a carta é de Copas; cartas de Espadas possuem duas quebras; e as de paus, três. Quando, no século XVIII, pequenos números foram adicionados às bordas superior esquerda e inferior direita (sendo este de cabeça para baixo), foi criada uma forma dos jogadores saberem quais cartas tinham na mão sem precisar olhar para a carta inteira. Todas as carats do baralho espanhol são marcadas por números; as numéricas vão do 1 ao 9, o Sota é o 10, o Cavaleiro 11, e o Rei 12. Talvez por este recurso ter surgido antes das figuras "de duas cabeças", nenhum padrão regional espanhol jamais teve suas figuras impressas em ambos os sentidos da carta, diferentemente do que ocorreu com os padrões franceses. A única exceção foi um baralho chamado Gemela ("gêmeo"), que não chegou a fazer muito sucesso, e hoje é visto como uma variação enfeitada.

Cavaleiro de Paus, baralho mexicanoFalando nelas, o baralho espanhol também possui variações enfeitadas, que não são consideradas parte de nenhum padrão regional, quase como se fossem um "padrão à parte". Estas variações começaram a surgir no século XIX, quando técnicas mais modernas de impressão possibilitaram que as fabricantes inovassem nos desenhos das cartas, fazendo com que algumas delas se tornassem verdadeiras obras de arte. A maioria destas variações traz personagens de histórias e lendas da Espanha, como o baralho El Quijote, com personagens do clássico Dom Quixote, de Cervantes, ou a Baraja Goyesca, inspirado nas obras de Francisco Goya. Mas existem também os que constituem "padrões regionais não-oficiais", fabricados exclusivamente em uma região, e utilizando traços da cultura ou folclore daquela região, como o brasão local dentro das moedas, ou governantes importantes do passado no lugar dos Reis; dentre estes destacam-se o baralho aragonês (da região de Aragão), o galego (da Galícia) e o curioso baralho canário (das Ilhas Canárias), que traz cuias no lugar das taças, toras ao invés de clavas, facas ao invés de espadas, mulheres rústicas como Sotas, Reis primitivos, e, o mais curioso, grandes cachorros no lugar dos Cavaleiros. Isto porque as Ilhas Canárias, quando descobertas, não possuíam cavalos nativos, mas uma grande quantidade de cães, de onde veio seu nome - este "canárias" vem de canis, cachorro em latim.

Junto com os colonizadores, o baralho espanhol singrou os mares e veio aportar na América, onde acabou não somente reproduzido pelas fabricantes locais, mas também ganhando variações locais, como o curioso baralho mexicano, onde os quatro Sotas são mulheres, e os Cavaleiros usam chapéus emplumados. Outros países onde o baralho espanhol é muito popular são El Salvador, Uruguai e Argentina, onde surgiu o Baralho Gaúcho, que traz os naipes de facas, chicotes, cuias de chimarrão e moedas, e figuras vestidas com trajes típicos. Apesar de todos estes detalhes, os baralhos latino-americanos também são considerados variações enfeitadas, e não padrões regionais.

Assim como chegou à América, o baralho espanhol também chegou e fincou raízes na Itália, no final do século XVIII, quando o sul da Itália foi dominado pela Espanha. A popularidade dos baralhos espanhóis levou as fabricantes da região a copiá-los, criando diversos padrões regionais que os imitavam. Ainda hoje sobrevivem cinco destes padrões, conhecidos por muitos como "baralhos italianos com naipes espanhóis", já que utilizam figuras diferentes dos demais baralhos italianos. Assim como os baralhos espanhóis, os do centro-sul da Itália usam espadas de lâmina reta, clavas rústicas, cálices e moedas redondas e douradas como figuras para seus naipes, mais um Rei, um Cavaleiro e um Fante, o equivalente italiano do Sota, como figuras.

Apesar de todas estas semelhanças, os baralhos do centro-sul da Itália ainda são bastante diferentes de seus antepassados espanhóis. Para começar, nenhum deles tem as bordas com quebras, que só surgiram na Espanha depois que o processo de criação dos padrões italianos já havia começado. Em segundo lugar, nenhum baralho so centro-sul da Itália possui números nas bordas, provavelmente pelo mesmo motivo, devendo as cartas serem identificadas puramente pelo número de símbolos que possuem. Em terceiro, enquanto os Ases de Ouros espanhóis trazem figuras grandes e ricamente decoradas, os italianos trazem uma águia, com um espaço redondo no meio, onde deveria ser colocado um selo (na verdade, um carimbo) que confirmava que a fabricante do baralho havia pago ao governo um imposto local existente na época. A única exceção a estas três regras é o padrão regional da Sardenha, o último a surgir, e mais influenciado pelos espanhóis. Nele, as cartas possuem bordas (embora todas tenham uma borda contínua), números, e o Ás de Ouros é uma grande moeda.

Fante de Ouros, baralho ChartaAlém destas diferenças, baralhos do centro-sul da Itália têm apenas 40 cartas (do 1 ao 7 e mais as três figuras de cada naipe), ao invés das 48 espanholas (que incluem o 8 e o 9 de cada naipe). A razão mais provável para isso é que, já no século XVIII, quando os baralhos espanhóis chegaram à Itália, os jogos mais populares usavam apenas 40 cartas, então as fabricantes não viram muita razão para produzir cartas que raramente seriam usadas.

Mas nem todos os baralhos surgidos na Itália foram copiados dos espanhóis: mais ou menos na mesma época em que os baralhos árabes chegaram à Espanha, eles também chegaram ao norte da Itália, que mantinha fortes laços comerciais com os árabes. Com o tempo, nesta região também começou a surgir um baralho próprio, bastante diferente do espanhol, mas ainda bem parecido com o árabe. Isto ocorreu por volta do século XIV, e, embora ninguém saiba precisar quando, aparentemente todos concordam que o baralho italiano surgiu depois do espanhol.

Assim como ocorreu na Espanha, na Itália os naipes árabes foram adaptados à realidade local; na Itália, porém, as figuras resultantes eram bem mais parecidas com as originais: as espadas eram curvas e dentro de bainhas; os bastões de pólo se tornaram bastões cerimoniais, coloridos e com as pontas decoradas; as taças se mantiveram sextavadas, semelhantes às usadas pelos reis e rainhas; e as moedas traziam decorações abstratas em seu interior. Além disso, assim como no baralho original árabe, as espadas e os bastões não estavam arrumados lado-a-lado, mas se cruzavam no meio das cartas. Estes naipes receberam, em italiano, os nomes de Spade, Bastoni, Coppe e Danari, nomes estes que depois acabaram transpostos para os baralhos do centro-sul, de influência espanhola. Não se sabe se por coincidência ou influência do baralho espanhol, as figuras acabaram sendo as mesmas daquele, o Fante, o Cavaleiro e o Rei.

Também como ocorreu na Espanha, no início os baralhos italianos eram feitos à mão, passando depois para a técnica de impressão através de madeira entalhada. Na Itália, porém, nenhum padrão chegou a prevalescer sobre os demais; diversos padrões evoluíram em separado, até que cada um deles se tornou firmemente relacionado à cidade ou região onde era fabricado. Isto fez com que a Itália fosse palco de dois eventos curiosos: em primeiro lugar, foi lá que nasceu o conceito de padrão regional, que mais tarde se espalharia para os demais países que fabricavam baralho. Em segundo lugar, ironicamente, isto fez com que a Itália seja o único país que tem padrões regionais mas não tem um padrão oficial do país.

Hoje em dia ainda sobrevivem seis padrões regionais do norte da Itália. Alguns deles trazem números no estilo de índices, outros trazem números grandes no centro da carta, que servem apenas para o jogador identificar mais facilmente as cartas de Espadas e Paus, sem ter de contar as figuras entrelaçadas; alguns deles trazem figuras impressas nos dois sentidos da carta, mas apenas dos Fantes, Cavaleiros e Reis, sendo outras cartas, inclusive os Ases, impressas em um sentido único. Alguns, assim como os baralhos árabes originais, têm 52 cartas (do 1 ao 10 mais as três figuras de cada naipe), outros, como os demais baralhos da Itália, têm apenas 40. E alguns até mesmo trazem o "buraco" destinado ao selo do recolhimento de impostos no Ás de Ouros.

Todas estas diferenças e variações decorrem do fato de que, durante sua evolução, os padrões acabaram influenciados uns pelos outros, pelos seus vizinhos do centro-sul, da Espanha, e até da França. Os padrões que ainda existem hoje permanecem inalterados desde o início do século XIX, e muitos consideram um milagre que tantos deles tenham sobrevivido como padrões regionais (e não sumido ou passado a ser considerados variações enfeitadas), embora isso tenha uma explicação até razoável: na Itália, mais do que em qualquer outro lugar, as regiões são fortemente ligadas a seus padrões, sendo difícil encontrar um número expressivo de jogadores em um lugar que use o padrão de outro. Padrões regionais italianos são fabricados e vendidos em todo o país (muitos deles em todo o planeta), mas, na hora de jogar, um italiano prefere o padrão do local onde aprendeu a jogar, por uma questão de identificação e de facilidade em reconhecer as cartas.

Talvez por isso, variações enfeitadas de baralhos italianos são raíssimas, e quando existem não são relacionadas com nenhum padrão, assim como ocorre com os espanhóis. Dois dos mais famosos são o Charta, produzido pelo artista Giorgio Ruffolo para a Dal Negro, onde os Reis, Cavaleiros e Fantes vestem armaduras medievais, e o Quintana, produzido pela Edicolandia em homenagem a uma feira medieval de mesmo nome, que acontece uma vez ao ano na cidade de Ascoli Piceno, onde a fábrica está localizada. Variações enfeitadas não costumam fazer muito sucesso, porém, e tentativas de criar novos padrões regionais normalmente resultam em retumbantes fracassos, dos quais o mais famoso exemplo é o padrão romano, criado na década de 70 pela Capitol, para que a capital italiana tivesse um padrão regional próprio. Com figuras vestidas com togas e armaduras de centurião, e Rômulo e Remo no Ás de Espadas, o padrão não despertou o interesse dos jogadores, já acostumados ao padrão placentino, e foi descontinuado menos de dez anos depois.

Ás de Copas, baralho portuguêsPor fim, eu não poderia falar de baralho latino sem mencionar o curioso, e infelizmente extinto, baralho português. Criado no século XVI, e inspirado nos baralhos espanhóis que chegavam a Portugal, o baralho português acabou evoluindo de uma forma totalmente diferente de seus antecessores, ao ponto de não ser considerado nem mesmo um padrão regional, mas um baralho totalmente novo. Seus naipes eram os mesmo do espanhol (espadas, clavas, moedas e taças) e suas cartas também eram 48, mas, curiosamente, seus ases traziam dragões portugueses - que tinham cabeça de dragão, corpo de serpente e duas pequenas asas ao invés de braços - segurando com a boca o objeto que representava o naipe. Além disso, ao invés de Sotas, o baralho português trazia quatro figuras femininas, que, em escala de valor, se posicionavam entre o Rei e o Cavaleiro, como as Rainhas do baralho francês, mas não traziam qualquer indicação de que pudessem ser Rainhas, como uma coroa, por exemplo - e, curiosamente, as de Espadas e Paus estavam sendo atacadas por um pequeno dragão e por um lobo, respectivamente, e usando o objeto que representava o naipe para se defender. As cartas numéricas do baralho português também eram ricamente decoradas, com um garoto de pernas cruzadas no 2 de Paus, pontas de lança nas cartas de Ouros, e escudos com carrancas na maioria das cartas de Espadas e Paus, onde as figuras se cruzavam atrás do escudo, mais ou menos como nas cartas italianas, com a diferença de que, nas portuguesas, as espadas eram retas como as espanholas. Além disso tudo, as figuras das cartas de Copas e Ouros eram arrumadas em disposições diferentes tanto das espanholas quanto das italianas.

Junto com os navegadores potugueses, o baralho português se espalhou pelo mundo. Na Sicília, ele influenciou o Tarô Siciliano, onde os quatro Valetes são mulheres; no Japão ele deu origem a um jogo totalmente novo, o Tensho Karuta ("karuta" é o modo japonês de se escrever "carta"), o que pode ser comprovado pelos quatro dragões presentes nas cartas mais valiosas e pela disposição das moedas em algumas das cartas; e até na Indonésia ele acabou sendo adaptado para um jogo chamado Omi, infelizmente também extinto.

Apesar de tudo isso, o baralho português sumiu no final do século XVII. Os jogadores portugueses aos poucos foram preferindo jogar com os baralhos franceses, e as fabricantes portuguesas foram deixando de produzi-lo. Como Portugal era relativamente isolado do restante da Europa, ele não chegou a ser fabricado fora do país. Aos poucos, os exemplares existentes foram se perdendo, ao ponto de que hoje tudo o que sabemos vem de uns poucos exemplares incompletos, conservados em museus. Mesmo que alguma fabricante resolvesse relançá-lo como uma variação enfeitada, teria de inventar algumas das cartas.

Em breve, veremos os padrões regionais espanhóis e italianos. Até lá!

Série Baralhos

Baralho Latino

Ler mais