sábado, 29 de setembro de 2007

Baralho (VIII)

Hoje veremos os sete padrões regionais restantes do baralho latino. Como na semana passada, cada um deles será ilustrado por um Cavaleiro de Ouros, mas, se você clicar nele, poderá ver as demais figuras do padrão.

Padrão Placentino


Criado na cidade de Placência (ou Piacenza) no século XVIII, este é hoje, ao lado do napolitano, um dos padrões mais populares da Itália, utilizado para jogar até mesmo no norte do país, onde coexiste com os padrões regionais locais. O padrão placentino também é o único padrão do centro-sul da Itália que tem as figuras impressas nos dois sentidos da carta, divididas por uma fina linha preta, embora somente os Reis, Cavaleiros e Fantes sejam impressos desta forma, sendo as demais cartas, inclusive os Ases, impressos em sentido único. Na verdade, quando o padrão surgiu, as figuras também eram impressas em um só sentido, sendo as figuras de duas cabeças introduzidas pelas fabricantes gradativamente, influenciadas pelos padrões do norte da Itália, até que, no meio do século XX, o padrão original desapareceu por completo, e o padrão placentino passou a ser, oficialmente, um padrão de figuras que nunca ficam de cabeça para baixo.

Os primeiros baralhos placentinos foram adaptados do baralho de Aluette, que chegavam à Itália por meio de comerciantes franceses. Aos poucos, ele foi recebendo influências de vários outros padrões italianos, até chegar à forma atual, por volta do final do século XIX. As principais características herdadas do Aluette são o machado na mão do Rei de Ouros; o Ás de Paus, simbolizado por um tronco ainda plantado no chão; e o Ás de Ouros, que tem a figura de uma águia pousada e com uma coroa na cabeça, com um espaço em branco no centro onde deveria ser colocado o selo dos impostos. Nos baralhos originais, neste espaço havia uma grande moeda, e o selo era colocado no 4 de Ouros, no espaço em branco entre os naipes; sob influência de outros padrões italianos, porém, o selo mudou de lugar, e o 4 de Ouros passou a vir com um logotipo da fabricante. Atualmente, como não existe mais a obrigatoriedade do selo, algumas fabricantes já estão voltando a fazer o baralho com a moeda no centro da águia, embora estes ainda sejam relativamente raros.

O baralho placentino possui 40 cartas (do 1 ao 7, mais Fante, Cavaleiro e Rei de cada naipe), de 51 x 94 mm cada. Atualmente, ele é produzido pelas principais fabricantes da Itália e da França; a francesa Grimaud, inclusive, por alguma razão o identifica como "tipo bolonhês", e fez uma modificação no Ás de Espadas, que, ao invés de um anjo carregando uma espada curva envolta em uma coroa de folhas, traz apenas uma espada reta. O motivo é desconhecido.

Padrão Bolonhês


Também conhecido como Primiera Bolognese, por ter sido criado para um jogo do século XVI chamado Primiera, o padrão bolonhês é claramente do norte da Itália, embora a cidade de Bolonha esteja situada na região central, e ele guarde algumas semelhanças com os padrões do centro-sul.

Este padrão evoluiu diretamente do Tarô Bolonhês, criado no século XV. Basicamente, as pessoas começaram a usar as cartas do tarô para jogar Primiera, mas, como originalmente o Tarô Bolonhês tinha 78 cartas, e o jogo de Primiera só usa 40 (Ases, do 2 ao 7, Fantes, Cavaleiros e Reis), os jogadores acabavam gastando dinheiro em cartas das quais não necessitavam. As fabricantes da região, então, começaram a produzir uma versão especial do baralho, somente com as 40 cartas usadas para jogar Primiera. Este baralho permanece praticamente inalterado até hoje.

As cartas têm 51 x 103 mm, e suas ilustrações são simples e bastante coloridas, como as dos padrões do centro-sul da Itália. Apesar disso, o baralho é claramente um padrão do norte: as espadas são curvas e embainhadas, algumas até sem empunhaduras discerníveis, e os bastões imitam bastões cerimoniais, com as pontas unidas por discos nos naipes mais altos. As moedas têm uma estrela no interior, e as taças, curiosamente, possuem duas bocas, uma em cada extremidade. Ao adaptar o tarô para o baralho, as fabricantes também simplificaram as ilustrações, para facilitar sua produção, o que significa que, atualmente, as cartas do Padrão Bolonhês e do Tarô Bolonhês não são idênticas - a pele das figuras, por exemplo, no Padrão Bolonhês não é pintada, permanecendo da mesma cor do fundo das cartas, enquanto no Tarô Bolonhês possui um tom de bege.

Todas as cartas são impressas nos dois sentidos, sendo algumas figuras divididas por uma linha horizontal grossa e preta, outras por uma linha diagonal imperceptível, com alguns detalhes de uma figura "vazando" para o espaço da outra. Os cavaleiros de Paus e Ouros parecem não estar montados, mas ao lado de seus cavalos, pela disposição das cabeças destes. As cartas mais interessantes são os ases: o de Espadas traz a figura de um dragão passando por dentro de uma coroa; o de Paus traz um cetro, também passando por uma coroa, e decorado com folhas e estrelas; o de Copas traz uma taça de boca hexagonal e sob uma coroa; e o de Ouros é pouco mais que o nome da fabricante, acompanhado de uma moldura no centro da qual seria aplicado o selo dos impostos.

O baralho bolonhês só é fabricado na Itália, e seu uso é praticamente restrito à província de Ferrara, próxima a Bolonha.

Padrão Bergamasco


Assim como o padrão bolonhês, o bergamasco, da cidade de Bérgamo, também evoluiu de um Tarô, no caso o Tarô Lombardo, atualmente extinto. O baralho tem as 40 cartas tradicionais dos italianos, cada uma com 51 x 91 mm. As figuras são impressas nos dois sentidos da carta, divididas por uma linha horizontal fina, preta e um tanto inclinada, mas as demais cartas, aparentemente, não (o que pode ser constatado pelas taças, já que pelas moedas, espadas e bastões, é meio difícil saber).

As figuras também têm traços simples e muitas cores, mas com um estilo mais semelhante aos dos demais padrões do norte. As moedas são vermelhas com uma estrela no centro, os bastões se alternam nas cores azul e vermelha e são curiosamente entrelaçados, as espadas são curvas e sempre têm uma empunhadura discernível, e as taças possuem formas retas. Como de costume, as principais atrações do baralho são os ases: o de Copas, por exemplo, traz uma fonte com um cupido no topo, o símbolo presente no brasão da família Sforza, governante da Lombardia, onde se localiza Bérgamo, no século XV; os de Espadas e Paus trazem uma mão segurando o objeto do naipe, sendo que a espada passa por dentro de uma coroa, e o bastão por uma faixa onde se lê "vencerás"; e o de ouros é apenas dois aros, um amarelo e um laranja, no centro dos quais deveria ser aplicado o selo dos impostos, e mais o nome da fabricante. Atualmente, algumas fabricantes já substituem estes aros por uma grande moeda.

O padrão bergamasco é mais um restrito à região onde foi criado, e apenas fabricado na Itália. Algumas versões acompanham duas cartas extras, com números de 1 a 8 ou de 1 a 10, utilizadas pelos jogadores para marcar o placar no jogo de Scopa, o mais popular na Lombardia.

Padrão Trevisano ou Veneziano


Criado na cidade de Treviso, na região do Vêneto (cuja capital é Veneza), no século XVII, este padrão também parece uma adaptação de algum tarô, embora não existam registros históricos suficientes para afirmar que isso seja verdade, e nem de qual tarô ele teria evoluído. Além das ilustrações, bastante detalhadas e ricamente decoradas, um fato que corrobora para esta desconfiança é que a versão original deste baralho tem 52 cartas (do 1 ao 10 mais as três figuras de cada naipe), embora atualmente ele também possa ser encontrado na versão tradicional italiana de 40 cartas. Suas cartas são finas e compridas, com 49 x 104 mm, e, curiosamente, o baralho possui um "verso padrão", utilizado pela maioria das fabricantes. Também curiosamente, a versão de 52 cartas fabricada pela Modiano acompanha 2 Curingas, com a figura do bufão e tudo.

As figuras do padrão trevisano são as mais bem elaboradas de todos os padrões do norte da Itália. As moedas possuem flores em seu interior, e têm uma metade azul e a outra amarela, com o centro vermelho; as taças têm um formato peculiar, semelhante a um haltere, e estão aparentemente tampadas; as espadas são curvas e com empunhaduras simples, sendo que uma espada diferente cruza as demais nas cartas ímpares, e uma pequena ilustração decora o espaço em branco nas cartas pares; e os bastões, semelhantes a cetros, se cruzam atrás de uma espécie de escudo losangular. As figuras mais peculiares do baralho são o Fante de Copas, que carrega um escudo com um rosto; o Fante de Espadas, que traz uma cabeça decepada na ponta de sua lâmina; o Cavaleiro de Espadas, um mouro com direito a cimitarra; e o Rei de Paus, que no centro da carta traz o brasão da cidade de Treviso, com a inscrição Tarvisium, o nome da cidade em latim. As figuras são impressas nos dois sentidos da carta, divididas por uma fina linha preta horizontal. Todas as cartas possuem uma borda dupla, e as de 2 a 10 são numeradas, com um número no canto superior esquerdo e outro, invertido, no canto inferior direito.

Como de costume, os Ases são ricamente decorados: o de Paus possui um cetro curioso, com duas faces e alguns penduricalhos, tem uma mão segurando sua base, um galo a seu lado, e uma faixa com a inscrição "se tu perdes, o prejuízo é teu"; o de Copas também tem duas faces, possui uma curiosa simetria vertical, e a enigmática inscrição "por um ponto, Martinho perdeu a capa" (segundo alguns, um provérbio italiano até hoje popular); o de Espadas é ricamente decorado com dois galos, flores e folhas, uma coroa, dois sóis e uma placa onde se lê "não confie em mim se não for forte de coração"; e o de Ouros traz apenas o nome da fabricante, uma decoração com folhas, e um anel dourado no centro do qual era colocado o selo dos impostos.

O padrão trevisano já foi fabricado na Alemanha e França, mas hoje só o é na Itália, e sua popularidade está restrita ao Vêneto. No passado, porém, ele se espalhou pela Europa Central, chegando à Tchecoslováquia, onde foi adaptado para o jogo de Trappola, bastante popular no país desde o século XV. Com a associação do baralho ao jogo, as fabricantes locais o adaptaram, criando um baralho especial para Trappola, com ilustrações diferentes, mas baseadas nas trevisanas, e apenas 36 cartas (1, 2, do 7 ao 10 e as três figuras de cada naipe, o necessário para jogar Trappola). Com o tempo, o baralho de Trappola foi evoluindo, até se tornar totalmente diferente do trevisano original, a começar pelos Ases, que perderam suas frases de efeito e a maior parte de suas decorações, e passaram a ser impressos nos dois sentidos da carta. O baralho de Trappola se tornou muito popular no século XIX, sendo fabricado também na Áustria e na Alemanha, mas aos poucos, infelizmente, foi sendo descontinuado, até se extinguir por completo no meio do século XX. Atualmente ele só sobrevive na forma de uma edição de luxo, fabricada pela austríaca Piatnik em 1988 mas ainda encontrada no mercado, com ilustrações que imitam as antigas e algarismos romanos nas cartas numéricas.

Padrão Trentino


Este padrão de desenhos simples e poucas cores, um dos dois únicos do norte da Itália no qual as figuras são impressas em um único sentido, é originário da cidade de Trento. Ninguém sabe dizer ao certo em que época ele surgiu, mas desconfia-se que ele seja o mais antigo dentre todos os padrões do norte da Itália.

Originalmente, o baralho trentino tinha 52 cartas, mas aos poucos a versão de 40 cartas foi se tornando mais popular, até que a de 52 foi descontinuada no meio do século XX (embora algumas edições antigas ainda possam ser encontradas em algumas lojas). Suas cartas, finas e compridas ao estilo do norte, têm 54 x 100 mm, e são produzidas pelas principais fabricantes italianas. Sua popularidade, porém, restringe-se aos arredores de Trento.

As cartas mais curiosas do baralho trentino são as figuras, que, para começar, possuem cabelos encaracolados e multicoloridos, em azul, vermelho e amarelo. Os cavalos são rampantes e desproporcionalmente pequenos, e os Fantes carregam não um, mas dois símbolos de seu naipe, à exceção do de Copas, que carrega apenas uma taça, mas está sendo importunado por um cachorro. Os Reis estão sentados em seus tronos, mas são curiosamente retratados de frente. Os Ases seguem o estilo dos baralhos do norte, mas com menos alegorias: o de Paus é um cetro de formas curiosas, iluminado por três sóis, decorado com uma faixa e duas flores, e empunhado por uma mão bicolor; o de Espadas também é empunhado, passa por dentro de uma coroa, e tem flores crescendo de sua empunhadura; o de Copas, parecido com o do padrão bergamasco, é semelhante a um pedestal com um cupido no topo; e o de Ouros, totalmente diferente dos demais padrões, é uma espécie de espelho, onde até se vê o reflexo de uma figura humana. Este é o único padrão italiano em que o selo dos impostos nunca foi colocado no Ás de Ouros; ao invés disso, seu lugar era no Rei de Ouros, que por essa razão tem as pernas arqueadas.

Todas as cartas do baralho possuem uma fina borda, e as cartas de 2 a 7 possuem números. Em nem todas elas, porém, os números estão nos cantos superior esquerdo e inferior direito; em algumas ele está mais próximo do centro, ou no próprio centro. Números também podem ser encontrados nos losangos que cobrem as interseções dos bastões e espadas, e nas tampas das taças do 2 de Copas.

Padrão Bresciano


Originário da cidade da Bréscia, este padrão guarda muitas semelhanças com o trentino, o que leva a crer que, se ele não for uma adaptação, ambos tiveram um mesmo ancestral comum. Assim como no padrão trentino, seus desenhos são simples, as figuras são impressas em um único sentido da carta, o Fante de Copas está sendo atacado por um cachorro, os cavalos são rampantes e pequenos, e os Reis estão sentados em seus tronos, vistos de frente. Também como o trentino, este foi originalmente um baralho de 52 cartas, mas, curiosamente, jamais se transformou em uma versão de 40, sendo comercializado até hoje apenas na versão de 52.

O baralho bresciano é mais colorido que o trentino, mas, assim como naquele, algumas cores parecem estar erradas, como no caso dos Cavaleiros, e especialmente no Ás de Copas, onde o cupido tem três cores. Os ases são quase idênticos aos trentinos, com exceção do Ás de Ouros, que neste baralho retoma sua função de abrigar o selo dos impostos, contendo apenas um círculo vazio, uma decoração com folhas, e o nome da fabricante. O local destinado ao selo, evidentemente, seria o círculo, mas em algumas versões ele era aplicado no espaço em branco abaixo do círculo, deixando-o vazio. Como o Ás de Ouros levava o selo, o Rei de Ouros não precisava ter suas pernas arqueadas, mas, por alguma razão, o de Paus as tem, e neste espaço é colocado um logotipo da fabricante ou outro desenho qualquer. As cartas do Rei de Paus e do Cavaleiro de Ouros também trazem uma faixa em sua base, onde é escrito o nome da fabricante ou sua cidade de origem.

As moedas do baralho bresciano são pretas com uma estrela vermelha no centro, e os bastões, apesar de remeter aos bastões cerimoniais, são simples e pouco trabalhados. Todas as cartas possuem uma borda fina, mas nenhuma é numerada, com exceção do 7 e do 9 de Espadas, que trazem um grande número na interseção das espadas, talvez para que as cartas não sejam confundidas uma com a outra. As cartas do baralho bresciano têm 49 x 84 mm, e atualmente só são fabricadas na Itália, sendo sua popularidade restrita aos arredores da cidade de Bréscia.

Padrão Triestino


Surgido no século XIX na cidade de Trieste, na fronteira com a atual Eslovênia, este padrão surgiu a partir do Trevisano, que chegou à região através de comerciantes, e incorporou alguns elementos do padrão vienense do baralho francês, muito popular na região na época. Atualmente o padrão triestino é impresso na Itália, Áustria e Eslovênia, e é relativamente popular no norte da Itália e na Europa Central.

As cartas do padrão triestino têm 54 x 100 mm. Todas possuem uma borda e números nos cantos superior esquerdo e inferior direito, este invertido. As figuras dos naipes são bastante semelhantes às do trevisano, em especial as moedas, que têm uma metade azul e outra amarela, e o centro vermelho. As espadas e bastôes têm losangos cobrindo suas interseções, mas aqui eles trazem o número da carta em seu interior. Os Ases são outro ponto de semelhança com o baralho trevisano, com ilustrações parecidas e as famosas frases de efeito em italiano; tais frases, porém, são diferentes: na faixa do Ás de Paus se lê uma estimulante "muitas vezes os jogos de baralho terminam em pauladas"; a placa do Ás de Espadas, decorado com grifos ao invés de galos, diz "o jogo da espada a muitos não agrada"; e a taça do Ás de Copas, que tem três faces que vertem água pela boca, traz a inscrição "uma taça de bom vinho faz surgir a coragem". O Ás de Ouros, como de costume, é um caso à parte: ele traz um anel branco ou amarelo, cujo centro era reservado ao selo dos impostos, uma decoração de folhas, o nome da fabricante, e a frase "os amigos são muito raros quando não se há dinheiro", exceto na versão fabricada pela Modiano, onde a frase é "de nada adianta saber quem tem má sorte". Atualmente, é comum que o centro do anel seja preenchido com um logotipo da fabricante.

As cartas mais características do padrão são as figuras, grandes e ocupando quase toda a carta, como ocorre no padrão vienense. Como o baralho no passado possuía 52 cartas, as figuras são marcadas com os números 11, 12 e 13, mesmo estando hoje esta versão extinta, e só existindo a tradicional de 40 cartas, o que faz com que a numeração "pule" do 7 para o 11, semelhante ao que ocorre no padrão sardenho, onde o pulo é do 7 para o 10. As figuras são impressas nos dois sentidos da carta, divididas por uma grossa linha branca onde está escrito o nome da figura, em italiano e em um único sentido, sendo esta a característica mais distintiva do padrão.

Os baralhos latinos ficam por aqui. No próximo post da série, o baralho alemão!

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