sábado, 22 de julho de 2006

Olimpíadas (VIII)

E hoje é dia de mais um post sobre as Olimpíadas!

Garmisch-Partenkirchen 1936


Em seu congresso realizado no ano de 1931, o COI escolheu para sede dos Jogos de Verão de 1936 Berlim, capital da Alemanha. Como o regulamento da época previa, a Alemanha, portanto, teria prioridade na escolha da sede para as Olimpíadas de Inverno que ocorreriam no mesmo ano. À época, as melhores instalações para a prática dos esportes de inverno não estavam em uma, mas em duas cidades daquele país, as pequenas e vizinhas Garmisch e Partenkirchen, localizadas ao sul da Bavária, fronteira com a Áustria. Sem poder indicar duas cidades como sede, e querendo aproveitar as instalações para poupar dinheiro, Adolf Hitler, então comandante do país, viu uma solução muito simples para o seu problema: ordenou que as duas se fundissem, criando a cidade de Garmisch-Partenkirchen. A fusão ocorreu em 1935, e as duas continuam unidas até hoje, muitas vezes sendo a nova cidade referenciada apenas como Garmisch, o que provoca algumas reclamações por parte dos moradores mais antigos do lado que era Partenkirchen.

Após a fusão, o governo da Alemanha tratou de providenciar todas as obras necessárias ao sucesso do evento. Pistas de esqui e trenó foram reformadas, foi construído o Olympia Skistadion, um estádio onde ocorreram as disputas de saltos com esqui e as cerimônias de abertura e encerramento, e um moderno sistema de ônibus foi implementado ligando as duas cidades, permitindo que os espectadores se deslocassem com rapidez entre um evento e outro. Graças a ele, 500.000 espectadores viram ao vivo as modalidades, um recorde para os Jogos de Inverno.

Participaram do evento 646 atletas, sendo 80 mulheres, representando 28 nações em 17 modalidades de 8 esportes: bobsleding, combinado nórdico, esqui alpino, esqui cross country, hóquei no gelo, patinação artística no gelo, patinação no gelo em velocidade e saltos com esqui. O biatlo foi mais uma vez um esporte de demonstração, acompanhado do eisstockschiessen, uma variante alemã do curling. Os Jogos aconteceram entre 6 e 16 de fevereiro, quando uma cerimônia de encerramento com uma grande queima de fogos os encerrou de forma memorável. Durante toda a sua duração, uma grande pira permaneceu acesa no Olympia Skistadion, mas ela havia sido acendida antes da cerimônia, e não pela Tocha Olímpica como logo viria a se tornar um costume.

A modalidade de esqui conhecida como alpina estreou nestes Jogos com um evento combinado, que somava os pontos das provas de descida e slalom. Logo na estréia a modalidade já criou uma controvérsia, pois o COI impediu instrutores de esqui de se inscrever para o evento, alegando que estes eram profissionais. Revoltados, os atletas da Áustria e da Suíça decidiram boicotar o evento, o que abriu o caminho para que os atletas da casa conquistassem as medalhas de ouro e prata tanto no masculino quanto no feminino. A confusão causada pelo incidente foi tanta que o COI, em sua reunião seguinte, decidiu não incluir o evento no programa dos Jogos de 1940.

Falando em esqui, o norueguês Birger Ruud, ouro nos saltos com esqui em 1932, tentou um feito inusitado, ao competir simultaneamente no esqui alpino e no combinado nórdico, além de nos saltos. No primeiro ele ia muito bem, vencendo o evento de descida, mas errou a passagem de um portal no slalom e terminou em quarto lugar. No segundo evento ele não foi bem, e não conseguiu uma colocação expressiva. Mas Ruud não sairia de Garmisch-Partenkirchen de mãos abanando: na semana seguinte ele conseguiria o ouro nos saltos, repetindo seu feito de quatro anos antes.

Um norueguês também seria o destaque da patinação no gelo em velocidade: Ivar Ballangrund ganharia três das quatro medalhas de ouro possíveis, nos 500, 5.000 e 10.000 metros, e ainda ficaria com a prata nos 1.500 metros, atrás de seu compatriota Charles Mathiesen. A Noruega também não deixaria a peteca cair na patinação artística no gelo feminina, onde o destaque seria mais uma vez Sonja Henie, que ganhou sua terceira medalha de ouro consecutiva, agora aos 23 anos. Estes seriam os últimos Jogos de Henie, porém. Logo após o evento, ela se profissionalizou, e rodou o mundo com shows de balé no gelo, alcançando grande fama e popularidade, principalmente nos Estados Unidos. Henie pode ter sido pedra cantada, mas outro favorito, o time de hóquei no gelo do Canadá, não foi, perdendo duas vezes para a Grã-Bretanha, que ficou com o ouro. Ironicamente, 11 dos 12 jogadores da Grã-Bretanha jogavam ou haviam jogado em times do Canadá, e um deles era um canadense naturalizado.

Apesar de bem sucedidos, estes foram Jogos estranhos: muitos temiam que os nazistas se aproveitassem do evento para fazer propaganda de seu governo. A propaganda realmente aconteceu, mas foi, de certa forma, contida. Isso porque eles estavam esperando o evento principal, que aconteceria alguns meses depois.

Berlim 1936


Berlim foi escolhida como sede dos Jogos de 1936 na reunião do COI de 1931 - antes, portanto, que o partido nazista chegasse ao poder na Alemanha. Mas era óbvio que, uma vez no comando, Adolf Hitler faria todo o possível para mostrar ao mundo, durante os Jogos Olímpicos, como a Alemanha sob seu comando era uma nação forte e organizada, como o nazismo era a mais acertada forma de governo, e - talvez principalmente - como a raça ariana era superior a todas as demais no campo esportivo. O führer chegou até a fazer uma otimistíssima estimativa de que os atletas alemães ganhariam sessenta medalhas de ouro, quase a metade do total em jogo.

É importante que se diga que, em 1936, Hitler ainda não era o inimigo do mundo, e a Alemanha era um país como qualquer outro. Assim, não foi nenhuma aberração o fato de que nenhuma das prinicpais nações do mundo tenha se recusado a participar, ou até mesmo que o COI tenha deixado Adolf Hitler proferir um discurso na Cerimônia de Abertura. Hoje muitos estranham que a última Olimpíada antes da Segunda Guerra tenha acontecido justamente na Alemanha nazista, mas na época ninguém que não tivesse poderes divinatórios poderia prever o que estava para acontecer.

Ainda assim, muitos estavam preocupados com a política claramente racista dos nazistas, principalmente os judeus norte-americanos, liderados pelo diplomata Henry Morgenthau, que convenceu o Presidente Roosevelt a enviar um observador à Alemanha em 1934, que teria a tarefa de averiguar se seria seguro que os norte-americanos participassem do evento. A idéia de Morgenthau era, uma vez comprovado que os nazistas se aproveitariam dos Jogos para se autopromover, boicotar o evento e pressionar o COI a mudar a sede de 1936 para Barcelona. Roosevelt enviou a Berlim o presidente do comitê olímpico norte-americano, Avery Brundage. A tarefa de Brundage seria elaborar um minucioso relatório sobre o alcance do nazismo e as intenções de Hitler. Roosevelt não sabia, porém, que Brundage era ele mesmo um racista, presidente de um clube que não permitia a entrada de negros ou judeus, e que na presidência do comitê olímpico norte-americano se empenhava ao máximo para impedir que Jim Thorpe, medalhista de ouro em 1912 que teve sua medalha cassada por uma falsa alegação de profissionalismo, a obtivesse de volta, pelo simples motivo de que Thorpe descendia de índios. Brundage, evidentemente, fez um relatório altamente favorável à Alemanha, no qual chegou até mesmo a escrever "temos muito o que aprender com os alemães". Mesmo com este relatório, a idéia da troca de sede ainda permaneceria viva, mas iria por água abaixo de uma vez por todas após o início da Guerra Civil Espanhola.

Para sepultar de vez qualquer chance de que a Alemanha não viesse a hospedar as Olimpíadas, Hitler decidiu gastar uma fortuna impensável para a época na construção das mais modernas instalações que o mundo já vira, a começar pela magnífica Praça Olímpica, construída em volta do Estádio Olímpico que havia sido erguido para os cancelados Jogos de 1916. Com um plano simétrico, a Praça abrigava o Estádio Olímpico, que não era o mesmo de 1916, mas um totalmente novo e moderníssimo, com capacidade para 110 mil pessoas, construído no exato mesmo local; o gramado de Maifeld, capacidade para 250 mil, utilizado para demonstrações de ginástica, e, durante as Olimpíadas, para o pólo a cavalo; uma piscina com capacidade para 16 mil espectadores; um anfiteatro para mais 25 mil; e outros 150 prédios, usados para as mais diversas competições esportivas, durante os Jogos Olímpicos ou após. O complexo existe até hoje, e o Estádio Olímpico, reformado, foi palco da final da Copa de 2006.

E ainda havia a Vila Olímpica, construída nas imediações da Praça Olímpica, que contava com chalés de alvenaria, hospital, salas de ginástica e 38 refeitórios. As mulheres ganharam sua própria Vila Olímpica, com casinhas muito mais confortáveis que as dos homens. Como se construir todo este complexo não fosse o bastante, os alemães ainda o equiparam com a mais moderna tecnologia, os equipamentos mais precisos da época para controle dos tempos das provas, e um serviço de atendimento aos jornalistas que produzia quatro boletins diários em catorze idiomas diferentes sobre o andamento dos Jogos. Esta também foi a primeira Olimpíada a ser transmitida pela televisão, cortesia da Telefunken, que ainda montou diversas telas de cinema improvisadas por toda a cidade, para que aqueles que não pudessem ir aos locais das competições também pudessem acompanhá-las. Falando em cinema, Hitler encomendou à cineasta Leni Riefenstahl um filme que cobrisse o desempenho dos atletas alemães durante as competições, o primeiro Filme Oficial de uma Olimpíada.

A vontade de Hitler de mostrar sua Olimpíada ao mundo era tanta que o governo alemão arcou com as despesas integrais de viagem e transporte de todas as delegações que se dispusessem a participar. Em um ato que pode parecer contraditório, Hitler não impediu a inscrição de atletas negros ou judeus - nem mesmo os que iriam competir pela Alemanha. Esta atitude teve dois motivos básicos: primeiro, engolindo seu constrangimento e não se opondo, Hitler afastava a desconfiança de que a Alemanha queria fazer destes Jogos "armados", prontos para que só arianos ganhassem medalhas. Além disso, Hitler estava tão certo de que os atletas "puros" iriam ganhar que, quando o fizessem, apenas demonstrariam sua superioridade sobre os negros e judeus. Como vamos ver daqui a pouco, não foi bem isso o que aconteceu.

Participaram dos Jogos de 1936, realizados entre 1o e 16 de agosto, 4.066 atletas, um número absolutamente impressionante para a época, sendo que 328 eram mulheres. 49 nações foram representadas em 129 modalidades de 22 esportes: atletismo, basquete, boxe, canoagem, ciclismo, equitação, esgrima, futebol, ginástica, halterofilismo, handebol, hóquei, luta greco-romana, luta livre, natação, pentatlo moderno, pólo a cavalo, pólo aquático, remo, saltos ornamentais, tiro e vela; mais beisebol e vôo planado como esportes de demonstração. Na cerimônia de abertura, além do desfile das delegações, houve a revoada de vinte mil pombos brancos, um sino de catorze toneladas badalando no ritmo do Hino Nacional da Alemanha, e o início da talvez mais famosa das tradições olímpicas: ao final da cerimônia, um atleta entrou no estádio trazendo uma tocha, a qual passou para um colega, que deu uma volta na pista e a entregou para Fritz Schilgen, que a usou para acender uma gigantesca pira, sob os aplausos emocionados de mais de cem mil pessoas. Uma idéia do cientista esportivo Carl Diem, a tocha tinha sido acesa pela luz do Sol em Olímpia, Grécia, no local onde na antigüidade se localizava um templo da deusa Héstia. A tocha foi levada de Olímpia a Berlim a pé, por um revezamento de mais de três mil atletas, e o fogo da pira acesa por ela permaneceria aceso por toda a duração dos Jogos. Tão forte foi o simbolismo do momento que todas as edições dos Jogos Olímpicos (pelo menos dos de Verão) a partir de então teriam uma tocha, revezamento e pira semelhantes.

Hitler tinha certeza de que seus atletas sobrepujariam todos os estrangeiros - afinal, eles eram de uma raça superior. As provas, porém, demonstrariam o contrário. A Alemanha ganharia 32 medalhas de ouro, apenas oito a mais que os Estados Unidos. Muitos dos títulos da competição seriam conquistados por negros, orientais e judeus. Mas houve um homem que se tornou emblemático: o norte-americano Jesse Owens. Neto de escravos, nascido no Alabama, aos nove anos Owens se mudou com a família para Cleveland para fugir do racismo do sul dos Estados Unidos, e logo se descobriu um atleta fantástico nas provas de velocidade e de salto. Em 1936, Owens ganharia nada menos que quatro medalhas de ouro, nos 100 e 200 metros, no revezamento 4x100 metros, e no salto em distância. Esta última foi a mais emocionante: enquanto se aquecia, Owens deu um salto para "testar a pista", procedimento comum entre os atletas deste esporte. Visando prejudicá-lo, os árbitros validaram este salto, deixando o atleta com apenas mais duas oportunidades para conseguir uma marca que o permitisse avançar na competição. Tenso com a situação, Owens queimou seu segundo salto, e quase foi eliminado. Seu principal oponente na prova, o louríssimo alemão Lutz Long, fluente em inglês, se indignou com a atitude dos fiscais, e durante um intervalo foi conversar com Owens. Após um animado papo, Long aconselhou Owens a começar sua corrida um pouco antes do local onde havia começado os dois saltos anteriores, e se despediu com a frase "por enquanto, você não precisa se preocupar em vencer, apenas em se classificar". Mais relaxado, Owens avançou na prova, até conquistar a medalha de ouro, diante de um constrangido Hitler, que assistia à competição da tribuna de honra do estádio. Depois da prova, Owens e Long se tornariam amicíssimos. Long faleceu durante um combate na Segunda Guerra Mundial, mas, até o final de sua vida, Owens ainda manteria contato com sua família. Long acabou recebendo postumamente a Medalha Pierre de Coubertin, reservada aos atletas que demonstram o verdadeiro espírito da esportividade durante os Jogos Olímpicos.

A maratona também teve uma história interessante: seu vencedor foi o coreano Sohn Kee-chung, de 23 anos, que estabeleceu um novo recorde olímpico. Outro coreano, Nam Seung-yong, chegaria em terceiro lugar, ganhando a medalha de bronze. A Coréia, na época, porém, não existia como nação, pois havia sido anexada pelo Japão em 1910. Kee-chung e Seung-yong, portanto, tiveram que competir pelo Japão, usando os nomes de Kitei Son e Shoryu Nan, a pronúncia japonesa para os ideogramas utilizados para escrever seus nomes originais. Kee-chung ainda tentou se inscrever como atleta apátrida, mas o COI não permitiu. Sem escolha, ao vencer a prova, ele viu a bandeira do Japão ser hasteada, enquanto o hino japonês era executado. Após a Guerra, nos Jogos de 1948, com a Coréia finalmente livre do domínio japonês, Kee-chung foi escolhido como porta-bandeira da Coréia do Sul durante a Cerimônia de Abertura. 50 anos depois, ele receberia uma nova homenagem, entrando com a Tocha Olímpica no estádio durante a abertura dos Jogos de Seul, em seu país. Nesta ocasião, o COI determinou que os dois maratonistas coreanos de 1936 tivessem seus nomes registrados com a grafia correta, e que ficassem registrados na História dos Jogos como coreanos, não japoneses.

Os esportes coletivos de 1936 merecem algum destaque. O basquete finalmente fez sua estréia no programa olímpico, após anos de insistência por parte dos Estados Unidos. Não foi uma estréia memorável, porém: na falta de quadras de basquete, as partidas foram disputadas em quadras de tênis adaptadas. Até aí tudo bem, se o piso de tais quadras não fosse de saibro. Ainda assim, fora uma eventual poeira e sujeira, nada de mais. Só que no dia da final choveu. Os times dos Estados Unidos e do Canadá tiveram de fazer um esforço sobre-humano para controlar a bola, e a primeira final olímpica do basquete acabou com o inacreditável placar de 19 a 8 para os norte-americanos.

Outro esporte coletivo a estrear em Berlim foi o handebol, mas não o handebol de quadra, como conhecemos hoje, e que estrearia nos Jogos também na Alemanha, mas em 1972. O esporte disputado em 1936 foi o handebol de campo, onde os times têm onze de cada lado em um campo quase do mesmo tamanho do de futebol. A Alemanha ficou com a medalha de ouro, batendo a Áustria por 10 a 6 na final. No futebol, a medalha de ouro ficou com a Itália, campeã da Copa de 1934, e que dali a dois anos ganharia o bi na Copa de 1938. Na final, a Azzurra bateria a Áustria por 2 a 1. Muitos, inclusive, consideram este time da Áustria o melhor da época, e lamentam que o país não possa ter participado da Copa de 1938 por ter sido invadido pela Alemanha.

Em pelo menos duas das competições houve expresso protecionismo aos atletas da casa: para a equitação, foi montada uma pista dificílima, capaz de ser superada apenas pelos cavaleiros alemães, que já conheciam o percurso. O resultado foi que a Alemanha ganhou todas as medalhas de ouro do esporte, e mais uma prata no adestramento. Pior que isso, no concurso completo três cavalos se machucaram seriamente, e tiveram de ser sacrificados. Mas ainda mais ultrajante foi a atuação dos fiscais na prova de velocidade scratch do ciclismo: o alemão Toni Merkens impediu a passagem do holandês Arie Van Vliet ilegalmente, e graças a isso conquistou o ouro. Ao invés de desclassificá-lo como manda o regulamento, os fiscais simplesmente lhe impuseram uma multa de 100 marcos.

Entre as mulheres, os destaques viriam da natação, a começar por uma holandesa de 17 anos, Henrika Mastenbroek, apelidada Rie, três ouros e uma prata. Um prodígio, dona de vários títulos europeus, Rie subiria ao lugar mais alto do pódio nos 100 e nos 400 metros livre e no revezamento 4x100 livre, e ficaria com o segundo lugar curiosamente em sua melhor prova, os 100 metros costas, onde havia baixado o recorde mundial em quase três segundos em fevereiro de 1936. Mais impressionante ainda, na prova Rie foi suplantada por sua compatriota Dina Senff, que, ao fazer a virada do meio da prova, não tocou na borda da piscina. Com medo de ser desclassificada, Senff voltou, tocou a borda, virou de novo, e ainda chegou três décimos à frente de Rie. Outra nadadora fantástica ficaria com a prata nos 400 metros livre, a dinamarquesa Ragnhild Hveger, de apenas quinze anos, que nos seis anos seguintes ganharia tudo o que disputou, quebrando 42 recordes, sendo que quatro deles só seriam superados em 1953.

O Brasil enviou 94 atletas a Berlim, sendo 6 mulheres. O Comitê Olímpico Brasileiro havia acabado de ser fundado, em 1935, e se imaginava que, pela primeira vez, o país pudesse mandar para uma Olimpíada seus melhores atletas, independentemente de brigas políticas ou desavenças pessoais. Infelizmente, não foi bem assim. A Confederação Brasileira de Desportos se recusou a reconhecer o COB, e decidiu ela mesma montar a delegação que representaria o Brasil na Alemanha. O resultado foi que o país enviou duas delegações distintas: pela CBD, foram atletas do atletismo, natação e remo; pelo COB foram inscritos competidores do atletismo, boxe, ciclismo, esgrima, natação, pentatlo moderno, remo, tiro, vela, e mais a seleção brasileira de basquete. Mesmo com essa confusão, o Brasil conseguiu três quintos lugares, com Sylvo Padilha nos 400 metros com barreira do atletismo, Piedade Coutinho nos 400 metros livre da natação, e José Salvador Trindade na carabina, modalidade deitado, do tiro. Mesmo sem ter tido uma boa colocação, também merece destaque a nadadora Maria Lenk, de 17 anos, a primeira sul-americana a nadar em uma Olimpíada, e que inventou uma nova forma de nado estilo peito, cujas braçadas eram realizadas fora da água, e acabou se tornando um novo estilo, chamado hoje borboleta ou golfinho. Lenk disputou os 200 metros peito, mas esgotada pela viagem e com medo de ser desclassificada pelos fiscais, que a toda hora perguntavam se aquele tipo de nado era válido, não se classificou para a final da prova. Três anos depois, porém, Lenk quebraria os recordes mundiais dos 200 e dos 400 metros peito, e se tivesse havido uma Olimpíada em 1940, ela teria grandes chances de ter conquistado o ouro. Lenk nada até hoje, disputando competições na categoria masters.

Muito doente, praticamente incapaz de se mover, o Barão de Coubertin pouco soube do que aconteceu em Berlim - ou, se soube, não compreendeu. Chegou a enviar uma carta a Carl Diem, parabenizando os alemães pelo evento grandioso que organizaram, carta esta que os nazistas não tardaram em revelar como prova de que sua Olimpíada tinha sido um sucesso. Coubertin morreria em 1937, aos 74 anos. Seu corpo foi enterrado em Lausanne, cidade sede do COI, exceto seu coração, que de acordo com o disposto em seu testamento, foi enterrado em Olímpia, onde hoje existe um monumento em sua homenagem.

Melhor para o Barão, ele não viu a seqüência das Olimpíadas ser interrompida mais uma vez, desta vez pelo longo período de doze anos. Jogos depois destes, só em 1948. Infelizmente, com uma Guerra no meio.

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