domingo, 13 de fevereiro de 2005

Stan Lee

No mundo de hoje, não basta ser bem sucedido. Algumas pessoas, por mais alto que seja o status que tenham alcançado, não recebem o devido valor, muitas vezes por preconceito, inveja, ou simplesmente pela sociedade achar que aquilo que estão fazendo "não é importante". Uma das pessoas que eu admiro, e que é o tema do post de hoje, se enquadra neste perfil. Mesmo tendo atingido um patamar de destaque em sua carreira, poucos o consideram uma referência, ou até mesmo um destaque. Esta pessoa é Stan Lee.

Stan Lee revolucionou os quadrinhos de super-heróis, praticamente definindo o estilo como o conhecemos hoje. Criou centenas de personagens - sem exagero - cada um com sua própria origem, história e personalidade. Seus personagens até hoje são temas de histórias em quadrinhos, livros, filmes, jogos e tudo o que é mercahndising. Apesar disto, você não encontrará seu nome na lista dos mais importantes autores de ficção do século XX. Tudo isso porque os quadrinhos são considerados uma "arte menor". Muito injusto, se alguém deseja minha opinião.



Nascido Stanley Martin Lieber, em 28 de dezembro de 1922, Stan "The Man" Lee começou sua carreira aos 16 anos na Timely Comics, trabalhando como copiador - "o garoto que tirava xerox". O dono da Timely, Martin Goodman, era casado com sua prima. Em 1941, uma das edições do Capitão América - na época publicado pela Timely - precisava de um texto tapa-buraco para uma de suas páginas. Lee decidiu apresentar um texto a Goodman, que, impressionado com o talento do rapaz, decidiu publicá-lo. Este foi o primeiro trabalho publicado de Stan Lee, que pela primeira vez assinava este nome. O texto foi bem recebido, e Goodman decidiu nomear Lee editor e roteirista de quadrinhos. Tendo sido nomeado aos 17 anos, Lee é até hoje o editor mais jovem da História.

Durante a Segunda Guerra Mundial, Lee se alistou no Batalhão de Comunicações, e recebeu a tarefa de escrever manuais, filmes de treinamento, slogans e charges. Seu trabalho era tão bom que ele recebeu a classificação de Dramaturgo Militar - título este somente conferido a nove homens na História do Exército Americano.

Ao retornar da Guerra, Lee escreveu histórias de vários gêneros, mais notadamente romance, faroeste e ficção científica. Na época, havia acabdo de surgir o Comics Code Authority, uma entidade que alegava que os quadrinhos corrompiam a juventude através de sexo e violência. Sob pressão do CCA, os editores não podiam publicar muitas de suas histórias. Tal interferência em seu trabalho fez com que Lee parasse de gostar de criar roteiros, e considerasse abandonar o ramo.

No fim da década de 50, porém, a DC Comics (antiga Detective Comics) causou um boom nas histórias de super-heróis ao lançar a Liga da Justiça, uma equipe que reunia todos os seus heróis mais famosos. Até então, os quadrinhos que mais vendiam eram os de faroeste e piratas. Com o lançamento da Liga, os super-heróis assumiram o primeiro lugar. Querendo entrar neste filão, Goodman pediu a Lee que criasse uma equipe de super-heróis, e decidiu mudar o nome da Timely para Marvel Comics, um nome mais adequado para uma editora de super-heróis (nome este que Stan Lee diz ter sido ele o criador).

Sem saber como proceder, já que nunca havia criado um super-herói antes, Lee decidiu seguir um conselho de sua esposa, que lhe disse para escrever o tipo de história que mais o agradasse, e, se isto não combinasse com super-heróis e ele fosse demitido, não fazia mal, já que ele já estava querendo sair mesmo. Graças a este conselho, a carreira de Lee e a história dos super-heróis mudou completamente.

Até então, super-heróis eram seres inatingíveis, sem falhas de caráter, inabaláveis, cujo único objetivo na vida era combater o mal. Basta olhar para as primeiras histórias do Super-Homem, Batman ou Capitão América. Eram histórias direcionadas para crianças e pré-adolescentes, onde o maniqueísmo era componente essencial. Lee decidiu criar histórias para um público de uma faixa etária alguns anos mais a frente. Ele decidiu que seus heróis teriam mau-humor, depressão, ambição, egoísmo, vaidade, preocupações quanto a pagar as contas e impressionar as garotas, e até mesmo ficariam doentes. Todas estas coisas que nós humanos comuns sofremos, mas às quais os heróis eram invulneráveis. O que aparentemente seria um fracasso se transformou em um imenso sucesso, por atender exatamente aos anseios da geração baby boom, os nascidos durante ou logo após a Guerra, em uma época onde os sonhos eram mais difíceis, mas também mais esperançosos.

Para atender ao pedido de Goodman e criar sua própria equipe de super-heróis, Lee chamou o desenhista Jack Kirby. Juntos, eles criaram o Quarteto Fantástico, uma família de super-heróis, com todos os problemas que uma típica família americana possuía. Foi um imenso sucesso. Dois dos personagens das histórias do Quarteto eram reformulações dos antigos heróis da Timely, o Tocha Humana e o Príncipe Submarino. A versão de Lee era tão "fantástica", porém, que hoje em dia muitos nem sabem que estes personagens já existiam antes da Segunda Guerra (e que o Tocha Humana original, só para constar, era um andróide).

O sucesso e popularidade quase imediata do Quarteto fez com que a demanda por super-heróis crescesse. Lee, então, criou, nesta ordem, o Incrível Hulk, o Homem de Ferro, Thor, os Vingadores (uma "resposta" à Liga da Justiça, ou seja, uma única equipe com todos os principais heróis Marvel), os X-Men (novamente em parceria com Jack Kirby), o Demolidor (em parceria com Bill Everett), o Dr. Estranho e, finalmente, em 1962, sua mais famosa criação, o Homem-Aranha, em parceria com Steve Ditko. Somando todos os heróis e vilões que saíram da mente de Lee durante todos estes anos, a conta chega a mais de cem.

Durante a década de 60, Lee escreveu os roteiros, dirigiu a arte e editou praticamente todos os títulos da Marvel. Além disso, ele moderava as sessões de cartas, escrevia uma coluna mensal chamada Stan's Soapbox e ainda criava material promocional. Sua mais pitoresca frase de efeito, "Excelsior!" (algo como "excelente!", uma gíria antiga e hoje pouco utilizada), se tornou tão famosa que passou a ser o slogan do Estado de Nova York. Seu método de criação de histórias, onde o roteirista escreve uma breve sinopse e os desenhistas criam uma espécia de storyboard (um roteiro em quadrinhos) se tornou tão famoso que hoje em dia é utilizado por várias editoras, e é conhecido como o "método Marvel".

Stan Lee ainda conseguiu a proeza de mudar o posicionamento do CCA. Em 1971, o Departamento de Saúde, Educação e Bem Estar dos EUA pediu à Marvel que publicasse uma história sobre os perigos das drogas. Lee então criou uma história onde um amigo do Homem-Aranha se tornava dependente de pílulas para dormir. O CCA considerou que as drogas não eram essenciais para o contexto da história, e proibiu sua publicação. Lee não quis nem saber, e publicou a história assim mesmo, em Amazing Spider-Man no 96, até hoje a única revista pós-CCA a sair sem o selo de aprovação da autoridade. A revista foi um sucesso de vendas, e a Marvel ganhou um prêmio por ajudar a conscientizar os jovens contra as drogas. Diante disso, o CCA mudou seu regulamento, para permitir que os quadrinhos fizessem representações negativas das drogas, além de tornar menos rígidos outros artigos.

No final da década de 70, Lee se tornou o presidente da Marvel Comics, e começou a expandir seus negócios, criando a Marvel Entertainment, que cuidaria de desenhos, filmes e seriados. Lee sempre atuou como conselheiro de tudo o que a Marvel Entertainment produzia, embora confesse que nem tudo o que foi feito ficou de seu agrado. Atualmente, ele e seu novo sócio Avi Arad trabalham como produtores executivos dos novos filmes Marvel, e Stan Lee sempre faz uma "pontinha" em cada um deles. Além disso, Lee trabalha em seu mais novo projeto, Striperella, uma super-heróina estilo adulto, que pode ser assistida por aqui no Multishow.

Stan Lee é tão respeitado no meio que, em 2000, foi convidado pela DC Comics, a maior concorrente da Marvel, para escrever uma série em quadrinhos. Com o nome de Just Imagine, a série teve cinco edições, onde apresentava o Super-Homem, Batman, Mulher Maravilha, Lanterna Verde e Flash como eles seriam se tivessem sido inventados por Stan Lee, e não por seus criadores originais.

Como eu já disse, é uma pena que os quadrinhos não sejam respeitados como literatura. Stan Lee, para mim, é o mais importante autor do gênero, e deveria ser reconhecido como tal.

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