True Blood

Eu já devo ter dito alguma vez por aqui que não sou especialmente fã de vampiros. Não rejeito filmes/livros/séries sobre vampiros, mas também não costumo me empolgar com eles, não tendo muita pressa para conhecê-los. Foi por isso que, quando estreou True Blood, mesmo com alguns amigos meus dizendo que era muito bom e que eu deveria assistir, não dei muita bola. Somente há uns dois anos é que finalmente me convenci e resolvi começar. E devo dizer que eles estavam absolutamente certos. Acabou que True Blood foi uma das séries que eu mais gostei em toda a minha vida, tanto que fiquei bastante triste quando acabei de assistir tudo. Acabei justamente essa semana, e, em homenagem a esse fato, decidi que hoje seria dia de True Blood no átomo!

Antes de começarmos, acho que vale a pena citar que o átomo normalmente é um blog família, mas True Blood é uma exceção: assim como a série de Spartacus e como Game of Thrones, True Blood é o que se costuma chamar hoje de "série adulta", ou seja, tem nu frontal, palavrões, sexo quase explícito e violência medonha. Portanto, se você se interessar, pode assistir - mas esteja avisado.


O mote de True Blood ("sangue verdadeiro") é que, em nosso mundo, sempre existiram vampiros, mas ninguém nunca soube porque eles se escondiam muito bem. Dois anos antes do início da série, entretanto, um laboratório japonês, ligado à multinacional Yakonomo Corporation, consegue criar um sangue sintético absolutamente idêntico ao natural, com o propósito de utilizá-lo em cirurgias no lugar do sangue de doadores. Como é idêntico ao natural, esse sangue também é capaz de prover sustento aos vampiros - embora o sabor seja diferente, o que faz com que alguns deles o rejeitem - o que leva a um efeito colateral imprevisto: os vampiros começam a "sair do caixão", revelando ao mundo que são vampiros, e pedindo direitos iguais para que possam ser considerados cidadãos como os humanos. Para aproveitar o filão, a Yakonomo começa a produzir o sangue sintético em escala industrial e a comercializá-lo engarrafado com o nome de TruBlood, para que os vampiros o consumam ao invés de caçar humanos - como a humanidade não tem jeito mesmo, alguns humanos resolvem se voluntariar para alimentar os vampiros, sentindo um prazer quase sexual enquanto são sugados, mas isso já é outra história.

Embora os vampiros estejam se revelando (e o TruBlood sendo vendido) no mundo inteiro, o foco da série é a pequena cidade de Bon Temps, na Louisiana, Estados Unidos. É lá que mora a protagonista, a jovem garçonete Sookie Stackhouse (Anna Paquin, a Vampira dos filmes dos X-Men - que, apesar do nome, não é vampira, acho que vocês sabem, mas não deixa de ser uma coincidência interessante). Apesar de muito bonita, Sookie, desde criança, é tratada como uma pária pela maioria dos moradores da cidade, porque possui um dom especial: ela é capaz de ler os pensamentos daqueles que estão a seu redor, precisando se concentrar muito para que isso não ocorra acidentalmente. No primeiro episódio, Sookie conhece o vampiro Bill Compton (Stephen Moyer, com quem Paquin se casou em 2010), de 173 anos de idade e que lutou na Guerra Civil, que, após "sair do caixão", decide voltar para Bon Temps, cidade onde nasceu, e viver em sua antiga casa, vizinha à de Sookie. Em um primeiro momento, Sookie se sente atraída por Bill, intrigada por ser incapaz de ler sua mente - na verdade, ela não consegue ler a mente de nenhum vampiro - e, mais tarde, acaba se apaixonando por ele. O romance entre os dois é o fio condutor da série, se entremeando em todas as outras histórias vividas pelos personagens.

Mas Sookie e Bill não são os únicos personagens de destaque em Bon Temps. O elenco fixo da série conta, ainda, com Sam Merlotte (Sam Trammell), dono do bar onde Sookie trabalha, apaixonado por ela, e que guarda um grande segredo; Jason Stackhouse (Ryan Kwanten), irmão mais novo de Sookie, astro do futebol americano na época do colégio e que faz grande sucesso com as mulheres, mas que não é muito inteligente, apesar de seu coração enorme e de uma certa sabedoria adquirida com a vida; Tara Thronton (Rutina Wesley), melhor amiga de Sookie, esquentada, desbocada e com graves dificuldades para se manter em empregos e fazer amizades, frutos de uma vida sofrida que teve com sua mãe alcóolatra, Lettie Mae (Adina Porter); Lafayette Reynolds (Nelsan Ellis), primo de Tara, cozinheiro no Merlotte's, gay assumido e fornecedor de qualquer tipo de drogas, inclusive sangue de vampiro (ou simplesmente V), que, consumido por humanos, dependendo da quantidade ingerida, pode curar ferimentos, aumentar a potência sexual, atuar como esteroide anabolizante, ou causar vívidas alucinações; Arlene Fowler (Carrie Preston), garçonete amiga de Sookie e mãe solteira, com grande senso de responsabilidade mas sem sorte no amor; Andy Bellefleur (Chris Bauer), principal policial da cidade; Terry Bellefleur (Todd Lowe), primo de Andy, que lutou no Iraque e voltou com Transtorno de Estresse Pós-Traumático, trabalha no Merlotte's e é apaixonado por Arlene, mas sem coragem de se declarar; Hoyt Fortenberry (Jim Parrack), melhor amigo e colega de trabalho de Jason, que mora com uma mãe dominadora, Maxine (Dale Raoul), e se ressente de não fazer tanto sucesso com as mulheres quanto o amigo; Jessica Hamby (Deborah Ann Woll, a Karen Page da série do Demolidor), adolescente de 17 anos transformada em vampira por Bill e posta sob seus cuidados como punição por ele ter matado outro vampiro; o Reverendo Steve Newlin (Michael McMillian), fundador da Irmandade da Luz, grupo religioso devotado a impedir que os vampiros sejam integrados à sociedade; Pamela Swynford de Beaufort (Kristin Bauer van Straten), ou simplemente Pam, vampira antipática que discorda da integração à sociedade por acreditar que os vampiros são superiores aos humanos, e trabalha como administradora da Fangtasia, boate para vampiros que passou a também ser frequentada por humanos após a criação do TruBlood; Ginger (Tara Buck), a tresloucada garçonete do Fangtasia; e Eric Northman (Alexander Skarsgaard), vampiro sueco de mil anos de idade dono do Fangtasia e que atua como Xerife da Área 5, onde fica localizada Bon Temps, sendo uma espécie de autoridade à qual todos os vampiros da área devem se reportar - e que, como todo relacionamento de série fica melhor quando se transforma em um triângulo, também se apaixona por Sookie, passando a disputá-la com Bill.

Além dessa gente toda - que figura em todas as temporadas da série - a primeira temporada ainda tem alguns personagens coadjuvantes de destaque: René Lenier (Michael Raymond-James), que originalmente não é de Bon Temps, e é marido de Arlene (mas não pai de seus dois filhos) quando a série começa; Bud Dearborne (William Sanderson), o xerife de Bon Temps; Mike Spencer (John Billingsley, o Dr. Phlox de Enterprise), o agente funerário e médico-legista da cidade; Adele Stackhouse (Lois Smith), a avó de Sookie e Jason; Dawn Green (Lynn Collins), garçonete do Merlotte's que tem um caso com Jason; Amy Burley (Lizzy Caplan), jovem que também não é de Bon Temps, se apaixona por Jason e o convence a consumir V; Jane Bodehouse (Patricia Bethune), mulher de meia idade que parece estar sempre bebendo alguma coisa no balcão do Merlotte's; Eddie Fournier (Stephen Root), vampiro gay com quem Lafayette tem um acordo para ser seu fornecedor de V; Miss Jeanette (Aisha Hinds), mulher que mora em um trailer no meio da floresta, alega ter poderes mágicos e diz que vai tirar o demônio do corpo de Tara; Lorena Krasiki (Mariana Klaveno), vampira que transformou Bill na época da Guerra Civil; Maryann Forrester (Michelle Forbes), mulher misteriosa ligada ao passado de Sam; Benedict Talley (Mehcad Brooks), apelido Ovo, protegido de Maryann; o Magistrado (Zeljko Ivanek), cujo nome verdadeiro ninguém sabe, que, dentro da hierarquia dos vampiros, serve como uma espécie de juiz para casos envolvendo vampiros em toda a América do Norte; e Nan Flanagan (Jessica Tuck), porta-voz dos vampiros e principal figura política na luta por sua integração à sociedade.

A primeira temporada teria 12 episódios, e estrearia no canal a cabo HBO no dia 7 de setembro de 2008; além de apresentar os personagens e o romance de Sookie e Bill, ela ainda tinha um mistério a ser resolvido: um serial killer que só matava mulheres que tivessem tido relações sexuais com vampiros - e que marca Sookie para ser sua próxima vítima após ela ter sua primeira noite com Bill.

True Blood não é uma obra original, e sim a adaptação de uma série de 13 livros conhecida como The Southern Vampire Mysteries, escritos por Charlane Harris e lançados entre entre 2001 e 2013. A ideia de transformar os livros em uma série partiu do produtor Alan Ball, que já havia trabalhado na série da HBO A Sete Palmos. Em 2006, Ball estava na sala de espera do dentista consultando o site da livraria Barnes & Noble, e encontrou por acaso o primeiro livro da série, Morto Até o Anoitecer; lendo a sinopse e os comentários dos leitores, ele imaginou que a história dos livros daria uma excelente série, e entrou em contato com Harris. Harris já havia recebido duas outras propostas, uma para transformar o primeiro livro em filme, outra de uma produtora jamais revelada para fazer uma série, mas, segundo ela, a visão de Ball para a série a cativou, convencendo-a a assinar com a HBO.

A produção começaria quase que imediatamente, com o elenco sendo escolhido e um piloto sendo gravado em fevereiro de 2007. A série, porém, não poderia estrear naquele ano, devido a uma greve de roteiristas que atrasaria a produção, fazendo com que a HBO marcasse a estreia para 2008. Já com o elenco escolhido e uma boa quantidade de cenas filmadas, a HBO aproveitaria para veicular uma extensa campanha de marketing durante o ano, que incluía comerciais de TruBlood estrelados por "vampiros" nos mesmos moldes de comerciais de cerveja, e placas colocadas em máquinas de bebida por todo o país pedindo desculpas porque o TruBlood havia acabado; o canal também produziria dois documentários sobre a história e a trajetória dos vampiros no cinema, TV e literatura, exibidos pouco antes da estreia da primeira temporada.

A primeira temporada faria um grande sucesso, renderia um Globo de Ouro de Melhor Atriz em Série Dramática para Paquin, e, após a exibição de apenas dois episódios, a HBO já encomendaria a segunda, com mais 12, que estrearia em 13 de setembro de 2009; como parte da campanha de marketing para a segunda temporada, começariam a ser comercializadas em todos os Estados Unidos garrafas de TruBlood idênticas às que os vampiros bebiam na série, mas que continham um refrigerante sabor laranja - mas da cor de sangue. Também seria criado o "site oficial" da Irmandade da Luz, com dicas sobre como identificar e matar vampiros. A segunda temporada renderia nada menos que três Emmys para a série: Melhor Série de Drama, Melhor Elenco para uma Série de Drama e Melhor Ator Coadjuvante em uma Série de Drama (Nelsan Ellis).

A segunda temporada é centrada no desaparecimento de Godric (Allan Hyde), vampiro de mais de dois mil anos de idade, que transformou Eric, e é o atual Xerife da Área 9, no Texas; preocupado com o bem-estar de seu criador, Eric pede ajuda a Bill e Sookie para encontrá-lo. Paralelamente a isso, Jason decide se filiar à Irmandade da Luz e se tornar um caçador de vampiros, mas acaba se interessando pela esposa do Reverendo Newlin, Sarah (Anna Camp), o que poderá lhe trazer grandes problemas. A principal vilã da segunda temporada é Maryann, que leva Tara para morar em sua casa, e está diretamente ligada ao segredo que Sam guarda em seu passado. Além dos do elenco fixo, os personagens que retornam são Bud, Mike, Jane, Lorena, Maryann, Ovo, Nan e o Magistrado, e os novos de destaque, além de Godric e Sarah Newlin, incluem Daphne Landry (Ashley Jones), nova garçonete do Merlotte's, que acaba se envolvendo romanticamente com Sam; Karl (Adam Leadbetter), mordomo de Maryann; Luke MacDonald (Wes Brown), candidato a membro da Irmandade da Luz com quem Jason faz amizade; Gabe (Greg Collins), mercenário que atua como chefe de segurança na sede da Irmandade da Luz; Barry Horowitz (Chris Coy), rapaz que trabalha no hotel em Dallas onde Eric, Bill e Sookie se hospedam, e é telepata como Sookie; Hadley Hale (Lindsey Haun), prima de Sookie que também está envolvida com vampiros; e Sophie-Anne Leclercq (Evan Rachel Wood), Rainha da Louisiana e autoridade máxima dos vampiros dentro das fronteiras do estado.

A terceira temporada mais uma vez teria 12 episódios, e teria sua estreia antecipada, com o primeiro episódio indo ao ar em 13 de junho de 2010. Ela traria um dos vilões mais odiados da série, Russel Edgington (Denis O'Hare), vampiro de mais de três mil anos de idade que é contra a integração com os humanos, acreditando que eles são apenas comida. Edgington é o Rei do Mississipi, odeia Sophie-Anne, e sequestra Bill para tentar convencê-lo a tomar parte em um plano para depor a Rainha da Louisiana. Além de tudo isso, ele ainda comanda uma alcateia de lobisomens, que estreiam oficialmente na série nessa temporada. Os pricipais lobisomens são Alcide Herveaux (Joe Manganiello), que se recusa a servir o vampiro, e acaba se interessando romanticamente por Sookie; Debbie Pelt (Brit Morgan), ex-noiva de Alcide, a quem ele deseja salvar do domínio do vilão; e Coot (Grant Bowler), líder dos lobisomens comandados por Edgington.

Além desses quatro personagens, estreiam na terceira temporada o Reverendo Daniels (Gregg Daniel), pastor da principal igreja de Bon Temps, que tenta livrar Lettie Mae do alcoolismo; Holly Cleary (Lauren Bowles), garçonete do Merlotte's por quem Andy se apaixona, mãe solteira de dois meninos, Rocky (Aaron Christian Howles) e Wade (Noah Matthews), e praticante de wicca; Crystal Norris (Lindsay Pulsipher), jovem que mora com seu pai, Calvin (Gregory Sporleder), e seu irmão, Felton (James Harvey Ward), no Hotshot, uma espécie de favela na periferia de Bon Temps, que guarda um terrível segredo e se envolve romanticamente com Jason; Summer (Melissa Rauch, a Bernadette de The Big Bang Theory), moça que Maxine tenta empurrar como namorada para Hoyt; Jesus Velasquez (Kevin Alejandro), enfermeiro mexicano, neto do bruxo Don Bartolo (Del Zamora), e que se torna namorado de Lafayette, o qual conhece por cuidar de sua mãe, Ruby Jean Reynolds (Alfre Woodard); Tommy Mickens (Marshall Allman), irmão de Sam que vai morar com ele após brigar com os pais, Melinda (J. Smith-Cameron) e John Lee (Cooper Huckabee); Claudine (Lara Pulver), fada que possui uma ligação com Sookie e a observa invisível; Talbot (Theo Alexander), vampiro de 700 anos criado por Edgington para ser seu companheiro; e Franklin Mott (James Frain), detetive vampiro contratado por Edgington para encontrar Sookie, e que acaba se envolvendo romanticamente com Tara. Bud, Mike, Jane, Lorena, Hadley, Sophie-Anne, Nan e o Magistrado também participam da terceira temporada.

No final da terceira temporada, é revelado de onde vêm os poderes de Sookie: ela é meio-fada, descendente de um representante do povo feérico que se casou com um humano; graças a isso, além da telepatia, ela tem a habilidade de projetar luz pelas mãos, e seu sangue possui um odor e um sabor deliciosos que atraem os vampiros - e, segundo as lendas, um vampiro que consuma uma quantidade suficiente de sangue de fada se torna capaz de caminhar sob a luz do Sol, por isso o interesse de Edgington em Sookie. No último episódio, Claudine leva Sookie para o Reino das Fadas, e tenta convencê-la a viver lá para sempre.

Sookie, evidentemente, não aceita ficar no Reino das Fadas, e, no primeiro episódio da quarta temporada, que também teve 12, e estreou em 26 de junho de 2011, retorna a Bon Temps. Infelizmente para Sookie, porém, o tempo no Reino das Fadas não passa da mesma forma que aqui na Terra, então a quarta temporada é ambientada pouco mais de um ano após os eventos da final da terceira. Como era de se esperar, muita coisa mudou: Andy agora é o Xerife, Jason é policial, Lafayette descobre ser médium, e Bill é o novo Rei da Louisiana. A trama central envolve a líder do grupo wicca do qual Holly faz parte, Marnie Stonebrook (Fiona Shaw), sendo possuída pelo espírito de uma bruxa queimada na Inquisição Espanhola no século XVII, Antonia Gavilán de Logroño (Paola Turbay). Como os inquisidores que a condenaram à morte eram vampiros, Antonia pretende usar seus poderes através do corpo de Marnie para exterminar todos os vampiros do mundo, começando pelos de Bon Temps. Uma subtrama importante envolve Antonia apagando a memória de Eric, que vai morar com Sookie para que ela possa protegê-lo.

A quarta temporada possui bem menos tramas paralelas que as anteriores, e, portanto, também tem menos personagens novos. Os de maior destaque são Luna Garza, namorada de Sam e mãe da pequena Emma (Chloe Noelle); Patrick Devins (Scott Foley), que serviu com Terry no Iraque e o procura para cobrar um favor; Portia Bellefleur (Courtney Ford), irmã de Andy e advogada de sucesso que decide voltar a morar em Bon Temps, e acaba se apaixonando por Bill; Marcus Bozeman (Dan Buran), ex-marido de Luna e pai de Emma, lobisomem e líder da principal alcateia da Louisiana, que se torna rival de Alcide; e Mavis (Nondumiso Tembe), escrava assassinada no início do século XX que toma o corpo de Lafayette para resolver assuntos inacabados. Alcide, Debbie, Barry, Jesus, Don Bartolo, Tommy, o Reverendo Daniels, Holly, Rocky, Wade, Crystal e Nan também participam da quarta temporada.

A quinta temporada seria bastante centrada na hierarquia vampírica, finalmente mostrando vários vampiros ligados à Autoridade, órgão máximo da hierarquia dos vampiros no planeta. Tudo começa com o desaparecimento de Nan, do qual Bill e Eric são os principais suspeitos; uma vampira membro da Autoridade e também criada por Godric, Nora Gainsborough (Lucy Griffiths), tenta ajudá-los a fugir, mas eles acabam sendo capturados e levados à presença do Guardião, Roman Zimojic (Christopher Meloni), vampiro antiquíssimo que tem a missão de proteger o sangue de Lilith (Jessica Clark), a primeira vampira da história. Bill e Eric acabam, então, descobrindo que a Autoridade passa por uma grave crise, pois, dentre os membros de seu alto escalão - que inclui Roman; Nora; a texana Rosalyn Harris (Carolyn Hennesy); o africano Kibwe Akinjide (Peter Mensah); Alexander Drew (Jacob Hopkins), transformado em vampiro quando ainda era criança; Dieter Braun (Christopher Heyerdahl), transformado em vampiro ainda nos tempos bíblicos; e Salomé Agrippa (Valentina Cervi), aquela que pediu a cabeça de João Batista - há os que acreditam que devem conviver pacificamente com os humanos, e os que acreditam que os humanos são apenas comida, com os dois grupos estando em conflito. Como se isso já não bastasse, a Autoridade ainda tem de lidar com um problema sério: Edgington está vivo, e, como não respeita as ordens do órgão, é uma ameaça à manutenção da paz entre os vampiros.

A quinta temporada teria mais 12 episódios, e estrearia em 10 de junho de 2012. Além da história envolvendo a Autoridade, nela Sookie e Jason descobririam que seus pais foram mortos por um vampiro chamado Warlow; Alcide se torna líder da alcateia após desafiar Marcus; Terry e Patrick partem em uma cruzada contra uma entidade sobrenatural que os persegue por terem sido amaldiçoados no Iraque; e Hoyt se une a um grupo de ódio que pretende exterminar todas as criaturas sobrenaturais da América. Holly, Rocky, Wade, Luna, Emma, Ruby Jean, Bud e Mike, além dos já citados Edgington, Alcide e Patrick, também participam da quinta temporada; os novos personagens são Molly (Tina Majorino), vampira responsável pelos aparatos tecnológicos utilizados pela Autoridade; Claude (Gilles Matthey), o irmão de Claudine; Maurella (Kristina Anapau), fada que seduz Andy; Rikki Naylor (Kelly Overton), moça lobisomem casca-grossa que se apaixona por Alcide; Martha Bozeman (Dale Dickey), mãe de Marcus e avó de Emma; e Jackson Herveaux (Robert Patrick, o T-1000 de O Exterminador do Futuro 2), o pai de Alcide.

Ao final da quinta temporada, Ball decidiria deixar o posto de produtor da série e atuar apenas como consultor, declarando acreditar que a série estava em boas mãos e a equipe daria o seu melhor para que ela tivesse muito mais temporadas. Mark Hudis, que, desde a quarta temporada era roteirista, e assumiria como produtor no lugar de Ball, entretanto, decidiria levar a série em uma direção diferente: até então, cada temporada equivalia a um dos livros da série (a primeira a Morto Até o Anoitecer, a segunda a Vampiros em Dallas, a terceira a Clube dos Vampiros, a quarta a Procura-se um Vampiro e a quinta a Olhos de Pantera), com alguns elementos "emprestados" dos livros posteriores (por exemplo, Sookie só descobre que é meio-fada no oitavo livro, mas, na série, ela faz essa descoberta na terceira temporada); Hudis decidiria não fazer a sexta temporada equivalente ao sexto livro (Vampiros para Sempre), e sim pegar elementos de todos os oito livros restantes. A sexta temporada também acabaria sendo mais curta, com apenas 10 episódios, o primeiro estreando em 16 de junho de 2013, devido ao fato de Paquin estar grávida - como Sookie não podia engravidar também, os produtores quiseram encerrar as filmagens antes que sua barriga começasse a aparecer.

Na sexta temporada, após os eventos deflagrados pela disputa interna na Autoridade na temporada anterior, o Governador do Estado da Louisiana, Truman Burrell (Arliss Howard), decide declarar guerra aos vampiros, caçando-os e colocando-os em campos de concentração; paralelamente a isso, Sookie recebe a visita de seu avô, o Rei das Fadas Niall Brigant (Rutger Hauer, de Blade Runner), e conhece Ben Flynn (Rob Kazinsky), que também tem sangue de fada, e é mais um personagem que guarda um terrível segredo. Outros novos personagens são Willa Burrell (Amelia Rose Blaire), a filha do Governador, que é contra o massacre dos vampiros; Nicole Wright (Jurnee Smollett-Bell), ativista política que se apaixona por Sam; Violet Mazurski (Karolina Wydra), vampira viva desde a Idade Média que resolve transformar Jason em seu brinquedo sexual; James Kent (Luke Grimes), vampiro que conhece Jessica no campo de concentração e se apaixona por ela; Dr. Overlark (John Fleck), cientista responsável por conduzir experimentos com os vampiros no campo de concentração; Dr. Finn (Pruitt Taylor Vince), psiquiatra que analisa os vampiros no campo de concentração, e acaba desenvolvendo um interesse especial por Pam; Hido Takahashi (Keone Young), o cientista criador do TruBlood; e Adilyn (Bailey Noble), que, assim como Sookie, é meio-fada e tem telepatia. Alcide, Rikki, Jackson, Martha, Emma, Holly, Rocky, Wade, Portia, o Reverendo Daniels, Sarah, Nora e Lilith também participam da sexta temporada.

A sexta temporada teve uma queda catastrófica na avaliação da crítica em relação às anteriores, embora a audiência tenha tido apenas uma queda leve. Temerosa de que a audiência poderia acompanhar a queda caso a série ficasse muito mais tempo no ar, a HBO decidiria encerrá-la de forma digna, fechando as pontas soltas e fazendo um último episódio próprio, na sétima temporada. Hudis não concordaria com o plano, e acabaria sendo substituído como produtor por Brian Bucker. A sétima temporada teria majoritariamente material original, com poucos elementos dos livros, e, assim como a sexta, teria apenas 10 episódios, o primeiro estreando em 22 de junho de 2014.

Na sétima temporada, ambientada um ano após os eventos da sexta, um vírus mortal transmitido pelo sangue está vitimando os vampiros; Bill é contaminado, e decide amarrar as pontas soltas de sua vida antes de partir. Paralelamente a isso, a cidade tem que lidar com o ataque de um grupo de vampiros infectado e enlouquecido, que se estabelece no Fangtasia e sequestra vários moradores para guardar no porão e usar como comida. Alcide, Holly, Rocky, Wade, Adilyn, Willa, Nicole, o Reverendo Daniels, Sarah, Violet e James (agora interpretado por Nathan Parsons) também participam da sétima temporada; os personagens novos são Vince McNeil (Brett Rickaby), o vice-prefeito de Bon Temps, que acha que o caminho para se livrar dos vampiros infectados é destruindo todos os vampiros, infectados ou não; o Sr. Gus Jr. (Wil Yun Lee), presidente da Yakonomo; Keith (Riley Smith), vampiro de 500 anos que se interessa por Arlene; Amber Mills (Natalie Hall), a irmã de Sarah, que, sem que ninguém saiba, é uma vampira; e Brigette (Ashley Hinshaw), namorada que Hoyt conhece ao ir trabalhar no Alasca. Charlane Harris faria uma participação especial como uma diretora de TV no último episódio, que iria ao ar em 24 de agosto de 2014.
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Acredite se Quiser

Uma das lembranças mais nítidas que eu tenho da minha infância é o programa Acredite se Quiser. Eu o assistia, principalmente, na casa da minha avó, onde eu sempre passava as tardes de sábado em companhia dos meus primos. Quando ia dar a hora do programa, nos sentávamos em volta da televisão e ligávamos na finada TV Manchete; minha avó aproveitava e nos trazia um lanche. Talvez pela associação com esse tempo tão feliz - ou com o lanche - a música da abertura ficou gravada na minha cabeça para sempre: passei anos sem ouvi-la, mas conseguia cantarolá-la perfeitamente. Para escrever esse post, assisti a uns vídeos online, e até me deu um quentinho no coração ao ouvi-la novamente após todo esse tempo.

O motivo pelo qual estou escrevendo esse post é digno de um episódio do programa, aliás: não me perguntem o porquê, mas eu sonhei com Jack Palance. Quer dizer, no meu sonho, havia um homem que eu identificava como sendo o Jack Palance, mas que aparentemente era um conhecido da minha família. Ao acordar, resolvi pesquisar se Palance ainda estava vivo (não está, faleceu em 2006, aos 87 anos), e pensei que seria legal fazer um post sobre o programa - na época em que eu assistia, Palance era o apresentador, de forma que, para mim, ambos estarão eternamente associados. E é por isso que hoje é dia de Acredite se Quiser no átomo.

O nome original do Acredite se Quiser, em inglês, é Ripley's Believe It or Not - em uma tradução livre, "o acredite ou não do Ripley". Esse nome aparecia na abertura, e eu cheguei, quando criança, a procurar no dicionário o seu significado - não encontrando, evidentemente, um verbete para a palavra "Ripley". Ao questionar minha mãe, ela disse que deveria ser um nome de uma pessoa. Essa explicação me satisfez parcialmente, já que passei anos tentando descobrir quem seria o tal Ripley. "Anos" talvez seja exagero, deve ter sido no máximo um, mas o fato é que, já que eu passei muito tempo sem me interessar pelo programa, só acabei descobrindo hoje.

O tal Ripley do título é Robert LeRoy Ripley, cartunista profissional e antropólogo nas horas vagas, nascido em 25 de dezembro de 1890 em Santa Rosa, Califórnia, Estados Unidos, e que faleceu prematuramente, aos 58 anos, em 27 de maio de 1949, na cidade de Nova Iorque. Quando jovem, Ripley sonhava ser jogador de beisebol, e chegou a jogar por times semi-profissionais, até precisar largar o esporte e se dedicar em tempo integral aos cartuns para poder cuidar de sua mãe, muito doente. Seus primeiros trabalhos seriam publicados na revista Life e nos jornais San Francisco Bulletin e San Francisco Chronicle; após a morte da mãe, ele se mudaria para Nova Iorque, onde trabalharia para o jornal The New York Globe e tentaria uma vaga no time de beisebol New York Giants - se machucando durante a seleção, de forma tão grave que teve de encerrar a carreira definitivamente. Como cartunista do Globe, ele ficaria responsável pelo cartum Champs and Chumps, que trazia curiosidades sobre o mundo esportivo, sendo publicado no caderno de esportes, e conheceria Beatrice Roberts, com quem se casaria em 1919. No ano seguinte, Ripley seria enviado pelo jornal para Antuérpia, Bélgica, para ajudar na cobertura das Olimpíadas.

Durante a viagem, ele conheceria pessoas interessantes e aprenderia vários fatos curiosos, o que o estimularia a juntar dinheiro, durante os dois anos seguintes, para um projeto ambicioso: uma viagem ao redor do mundo. Ripley partiria em 3 de dezembro de 1922 e retornaria em 7 de abril de 1923, após visitar vários locais do interior dos Estados Unidos, da América do Sul, Europa, Oriente Médio e África. A viagem lhe custaria o casamento - sua esposa, após tanto tempo separada, pediria o divórcio quando ele retornasse - mas daria a Ripley a ideia de um novo trabalho: contratando o linguista Norbert Pearlroth como assistente, ele criaria a série Ripley's Believe It or Not!, um cartum de uma página inteira que, a cada dia, traria um fato curioso e interessante sobre algum assunto. A série começaria a ser publicada no jornal The New York Evening News (o Globe havia ido à falência no mesmo ano de 1923), mas, em 1926, passaria para outro jornal, o The New York Post.

A série faria tanto sucesso que atrairia a atenção de William Randolph Hearst, presidente da King Features Syndicate, responsável pela publicação de tiras de jornal de grande sucesso, como Mandrake, Popeye e O Fantasma, dentre outras. Hearst faria um acordo com Ripley, e logo o Ripley's Believe It or Not! estaria sendo publicado em 17 jornais de todos os Estados Unidos, e alcançando grande popularidade. Ripley aproveitaria o momento e lançaria os mais populares da série em forma de livro, à venda em todo o país - prática que seria repetida ao longo dos anos, com vários volumes sendo lançados. Incapaz de dar conta de todos os cartuns, Ripley entregaria a arte de alguns painéis, ao longo dos anos, aos cartunistas Joe Campbell, Art Slogg, Clem Gretter, Carl Dorese, Bob Clarke, Stan Randall e os irmãos Paul e Walter Frehm.

Uma das maiores provas da popularidade do Ripley's Believe It or Not! foi que ele seria diretamente responsável pela oficialização do Hino Nacional dos Estados Unidos. Em um dos primeiros cartuns publicados pela King Features Syndicate, Ripley explicaria que, apesar do costume de se usar The Star-Spangled Banner, que tem letra de Francis Scott Key sobre música de John Stafford Smith, como hino nacional, não havia nenhuma lei em vigor determinando que esse era o hino nacional oficial do país. Após a publicação do cartum, vários leitores começariam a enviar cartas ao Congresso, pedindo que o hino fosse oficializado. Um dos que fizeram campanha para a oficialização foi John Philip Sousa - a quem muitos confundem como sendo o autor do hino - um dos maiores compositores norte-americanos da época, autor de The Stars and Stripes Forever, considerada a "marcha oficial dos Estados Unidos" (Nota do Guil: e que eu aposto que você conhece, mesmo sem saber que é esse o nome, procure só pra ver), e de The Liberty Bell, tema de abertura do programa The Monty Python Flying Circus, que conversaria pessoalmente com o Presidente dos Estados Unidos na época, Herbert Hoover, sobre o assunto. Graças à pressão popular causada pelo cartum de Ripley, seria criada uma lei oficializando The Star-Spangled Banner como Hino Nacional dos Estados Unidos, sancionada por Hoover em 3 de março de 1931 - mais de 150 anos após a independência do país.

Além de publicar fatos coletados pelo próprio Ripley em suas viagens e pesquisas, o Ripley's Believe It or Not! aceitava contribuições dos leitores, que eram checadas (pessoalmente, quando possível) por Pearlroth, a maioria falando sobre vegetais de formas estranhas que nasceram em alguma cidade do interior do país. Dentre as selecionadas para a publicação estava a de um certo Charles M. Schulz, que alegava que seu cachorro Spike comia, regularmente, parafusos, alfinetes, tachinhas, pregos e lâminas de barbear. Schultz era ele mesmo um cartunista, e enviaria a carta no formato de um cartum; anos mais tarde, ele usaria Spike como inspiração para sua criação mais famosa: o cachorro Snoopy (que, até onde eu saiba, não tem o hábito de comer objetos pontiagudos).

No auge da popularidade, na década de 1930, a estimativa era de que o Ripley's Believe It or Not! tinha 80 milhões de leitores ao redor do planeta; somente no mês de maio de 1932, Ripley receberia mais de dois milhões de cartas dos leitores, o que levaria o mundo jornalístico a cunhar o jargão de que "Ripley recebe mais cartas que o Presidente dos Estados Unidos". Como sempre acontece nesses casos, surgiriam também as imitações, como a Strange as It Seems, tira de jornal criada por John Hix em 1928 e, assim como o Ripley's Believe It or Not!, publicada em vários jornais dos Estados Unidos em esquema de syndication; o Our Own Oddities, criado por Ralph Graczak em 1940 e publicado aos domingos no jornal The St. Louis Post-Dispatch; e o It Happened in Canada, criado por Gordon Johnston em 1967 e publicado em esquema de syndication no Canadá - e que tratava somente de fatos relacionados ao Canadá, e não internacionais como os demais.

No início da década de 1930, Ripley decidiria levar seu Believe It or Not para além dos jornais, e assinaria um contrato com a Mutual Broadcasting System para criar um programa de rádio, transmitido para os Estados Unidos, Canadá, Reino Unido, Austrália e Nova Zelândia, e que ganharia versões em outros idiomas em vários países da Europa e Ásia. O programa era gravado e depois inserido em meio à programação das rádios, em blocos que variavam de 15 a 30 minutos, sempre com Ripley comentando fatos curiosos. Hearst decidiria financiar suas viagens pelo mundo, para que ele encontrasse cada vez mais assunto, e, em 1932, ele faria sua primeira viagem ao Extremo Oriente. Ripley não pararia de gravar o programa durante essas viagens, e se tornaria o primeiro radialista dos Estados Unidos a gravar de dentro de um avião, de dentro de uma caverna, do meio de uma floresta, do alto de uma montanha, e de outros lugares exóticos - inclusive do fundo do mar. Alguns programas também seriam transmitidos ao vivo, o que faria com que Ripley fosse o primeiro radialista do mundo a transmitir um programa do meio do oceano, e o primeiro dos Estados Unidos a transmitir ao vivo para o país estando fora dele - prática que ele adotaria diversas vezes, sendo que, na primeira, ele estava em Buenos Aires, Argentina.

Em 1933, Ripley gravaria uma série de 24 curta-metragens de seu Believe It or Not para a Warner Bros, que seriam exibidos nos cinemas, antes das produções do estúdio. No mesmo ano, ele abriria seu primeiro Odditorium (um trocadilho com as palavras odd, "excêntrico", e auditorium, "auditório", que se pronuncia justamente "oditórium"), uma espécie de museu de fatos curiosos e objetos bizarros, na cidade de Chicago. O Odditorium seria um sucesso, e logo abriria filiais em San Diego, Dallas, Cleveland, San Francisco e Nova Iorque. Hoje, já existem 32 Odditoriums espalhados pela América do Norte, Ásia, Europa e Austrália.

Em 1934, Ripley se tornaria o primeiro radialista a transmitir ao vivo simultaneamente para o mundo inteiro - dizem que todas as nações que tinham rádio receberam o programa ao mesmo tempo, embora eu creia que seja difícil verificar essa informação - com a ajuda de 28 tradutores simultâneos, que traduziram ao vivo seu programa enquanto ele o transmitia. Durante a Segunda Guerra Mundial, ele se envolveria com organizações de caridade, doando grandes quantias em dinheiro e ajudando a organizar seus eventos. Durante a Guerra, com a dificuldade de se encontrar novos fatos curiosos, o programa do rádio lentamente mudaria de formato, passando a contar com entrevistados ao vivo e com números de comédia.

Em 1948, no aniversário de 25 anos do Ripley's Believe It or Not!, Ripley já havia visitado quase 200 países, sido votado o homem mais popular da América pelo jornal The New York Times, e possuía uma fortuna considerável, que incluía uma mansão de 28 quartos em Nova Iorque, uma quase do mesmo tamanho em West Palm Beach, Flórida, e um apartamento de cobertura gigantesco em Manhattan. Com tudo isso, ele tomaria uma decisão que seria considerada arriscadíssima: acabar com o programa de rádio e começar a gravar um programa para a televisão - aparelho que, na época, estava presente em apenas uma minúscula parcela dos lares norte-americanos, ao contrário do onipresente rádio.

O produtor do programa de TV seria Doug Storer, produtor do programa de rádio que se tornaria amigo pessoal de Ripley, e que, após sua morte, se tornaria presidente do Ripley's Believe It or Not Group (que abreviaremos para Grupo Ripley), responsável por cuidar da série dos jornais e de tudo o que fosse relacionado a ela. Exibido pela NBC, o programa de TV seria bem próximo do original do rádio, trazendo apenas fatos curiosos, com a apresentação e ilustrações do próprio Ripley e cenas gravadas ao redor do planeta. Infelizmente, Ripley só conseguiria gravar 13 episódios de um total de 35 planejados antes de sofrer um infarto fulminante e falecer - diz a lenda que ele morreu durante as gravações do 13o episódio, mas, na verdade, ele se sentiu mal, foi para casa sem concluí-las, e morreu em casa.

Após a morte de Ripley, o programa continuaria com apresentadores convidados, incluindo Storer. Seu sucesso garantiria uma segunda temporada, na qual a NBC usaria um apresentador fixo, o ator Robert St. John. A segunda temporada, porém, não faria nem a metade do sucesso da primeira, e a série acabaria cancelada após duas temporadas de 35 episódios cada, o primeiro exibido em 1o de março de 1949, o último em 5 de outubro de 1950.

A versão para jornal do Ripley's Believe It or Not! continuaria sendo publicada após a morte de Ripley, com os fatos curiosos sendo encontrados e verificados por Pearlroth, e os cartuns desenhados pelos irmãos Frehm. Somente em 1989, com a falta de interesse do público, é que a série seria cancelada, após 66 anos de publicação contínua.

No início da década de 1980, entretanto, ninguém diria que essa crise se avizinhava; pelo contrário, após anos de sucesso moderado, o Ripley's Believe It or Not! teria um surto de popularidade, com os jornais voltando a receber várias cartas com comentários e curiosidades. O canal de televisão ABC decidiria se aproveitar desse surto e fazer um contrato com o Grupo Ripley, tratando da produção de uma nova série para a TV. Para testar as águas, o canal produziria uma espécie de piloto, um programa especial de uma hora de duração escrito e dirigido por Ronald Lyon, do Grupo Ripley, no qual o ator Jack Palance, famoso por ter atuado em faroestes nas décadas de 1950 e 1960 (incluindo o clássico Os Brutos Também Amam), viajava o mundo apresentando histórias que originalmente fizeram parte da série de jornal Ripley's Believe It or Not!, como a de um homem que viveu a maior parte da vida com uma barra de metal alojada na cabeça, e a de que a lenda do Conde Drácula teria sido inspirada na vida da Condessa Elizabeth Báthory, que viveu na Hungria no século XV. No final, o programa ainda adicionaria uma nova curiosidade, falando sobre as mais recentes novidades no estudo do biofeedback. A abertura contaria com desenhos do próprio Ripley, e música do famoso compositor Henry Mancini (criador, dentre outros, do tema de A Pantera Cor de Rosa). Exibido em 3 de maio de 1981, o programa faria grande sucesso, abrindo caminho para a produção da nova série.

A segunda série para a TV de Ripley's Believe It or Not! estrearia na ABC em 26 de setembro de 1982, com uma temporada de 20 episódios de 45 minutos cada. A abertura seria a mesma do especial, mas o programa contaria com dois apresentadores, Jack Palance e a atriz canadense Catherine Shirriff. Cada episódio trazia por volta de dez curiosidades, a maioria já apresentada na série de jornal, mas agora mostrada de forma mais elaborada, com reconstituições feitas por atores, imagens atuais dos locais onde ocorreram, imagens de arquivo e reproduções; algumas das curiosidades eram novas, pesquisadas pela equipe do programa. Antes de cada intervalo comercial, um cartum desenhado por Ripley era apresentado, com a história relacionada a ele sendo narrada em off. Ao fim de cada curiosidade, Palance ou Shirriff falavam a frase que ficaria associada para sempre ao programa: "acredite... se quiser!" ("believe it... or not!" no original).

Ripley's Believe It or Not! teria uma das maiores audiências da ABC em 1982/83, e ganharia uma segunda temporada, de 23 episódios, que estrearia em 25 de setembro de 1983. A fórmula seria a mesma, mas Shirriff, que assumiria compromissos com o cinema (dentre eles as gravações de Jornada nas Estrelas III: À Procura de Spock, no qual interpretaria a klingon Valkris) seria substituída pela filha de Palance, a também atriz Holly Palance. Holly seria mantida para a terceira temporada, de 21 episódios, que estrearia em 23 de setembro de 1984.

A terceira temporada, infelizmente, já começaria com audiência menor que a segunda, e essa audiência seria decrescente a cada episódio. Alguns comentaristas de TV considerariam que o formato estava esgotado, mas a ABC decidiria dar mais uma chance ao programa, produzindo uma quarta temporada, que estrearia em 29 de setembro de 1985, na qual Holly seria substituída pela cantora country Marie Osmond. A previsão era de que a quarta temporada teria mais 20 episódios, mas, como a audiência só fazia cair, apenas 11 seriam gravados, com a série sendo cancelada após um total de 75 episódios (sem contar o piloto), o último deles exibido em 6 de fevereiro de 1986. Depois disso, o Ripley's Believe It or Not! enfrentaria a já citada crise de popularidade que levaria ao cancelamento de sua série dos jornais, bem como ao fechamento de vários Odditoriums ao redor do planeta.

Na década de 1990, a série apresentada por Palance seria reprisada pelo canal a cabo Sci-Fi, onde faria um certo sucesso. Esse sucesso motivaria o estúdio Cinar a fazer um acordo com o Grupo Ripley para a produção de uma série animada, que estrearia no canal a cabo Fox Family em 14 de julho de 1999, com 26 episódios. Voltada para crianças em idade escolar, a série animada tinha como protagonista Michael Ripley, um sobrinho fictício de Robert Ripley, que viajava pelo mundo em companhia de três crianças, sempre mostrando curiosidades aliadas a fatos históricos; cada episódio era temático, com todas as curiosidades e fatos sendo ligados a um único tema. A série animada não faria muito sucesso, e teria só essa temporada.

O sucesso das reprises da série dos anos 1980 no Sci-Fi também motivaria a ABC a encomendar um piloto para uma nova versão da série de TV em 1994. Era uma época de vacas magras para o Grupo Ripley, porém, e eles aproveitariam a ocasião para fazer uma espécie de leilão, oferecendo os direitos da série ao canal que fizesse a melhor proposta. O canal vencedor seria a TBS, que, em 1998, faria um lance pela produção de uma temporada de 22 episódios sem que fosse necessária a produção de um piloto. Essa temporada estrearia em 20 de janeiro de 2000, e teria apresentação de Dean Cain (que interpretava o Super-Homem na série Lois & Clark).

A terceira versão da série Ripley's Believe It or Not! traria uma abordagem mais sensacionalista, com maior foco nas partes aparentemente inexplicáveis das curiosidades. Diferentemente de Palance e suas co-apresentadoras, Cain não viajava pelo mundo, mas apresentava o programa de um grande galpão, com cada episódio começando com a reconstituição, nesse galpão, diante de uma plateia, de uma das curiosidades do dia. Cada episódio mais uma vez trazia por volta de dez curiosidades, com Cain atuando como narrador em off quando eram mostradas imagens externas. Cada programa também contava com um segmento Spot the Not, no qual eram apresentados três fatos para que os espectadores tentassem adivinhar qual dos três não era verdade.

Ao todo, a série teria quatro temporadas, com a segunda, de mais 22 episódios, estreando em 10 de janeiro de 2001; nela, o ator Gregory Jbara, irmão de Dan Jbara, o produtor da série, estrearia como narrador de alguns segmentos, dividindo a função com Cain, e um novo segmento, Ripley's Record, traria candidatos a quebrar algum recorde mundial reconhecido pelo Guinness Book diante da plateia do programa. A terceira temporada teria mais 22 episódios, estrearia em 9 de janeiro de 2002, e traria a participação da atriz Kelly Packard, que apresentaria um novo segmento no qual pessoas demonstrariam habilidades incomuns, viajando pelo país para encontrar candidatos e locais próprios para que eles se exibissem.

Assim como ocorreu com a segunda série, a audiência da terceira temporada seria bem mais baixa que a da segunda; para a quarta temporada, então, a TBS encomendaria apenas 11 episódios, com a possibilidade de encomendar mais 11 caso a audiência melhorasse. O primeiro episódio da quarta temporada iria ao ar em 8 de janeiro de 2003; em março, acreditando que a audiência daria sinais de melhora, a TBS encomendaria os episódios adicionais, mas mudaria de ideia e cancelaria a série após apenas três deles serem gravados. Assim, a quarta temporada teria um total de 14 episódios, o último sendo exibido em 20 de agosto de 2003.

Essa foi a última versão de um Ripley's Believe It or Not! produzida nos Estados Unidos; em 2004, a Paramount colocaria em pré-produção um filme sobre a vida de Robert Ripley, mas, até hoje, o projeto não saiu do papel. O Grupo Ripley ainda existe, e atualmente publica e republica suas curiosidades em um site, que conta com uma equipe para verificar se todas as alegações ali feitas são verdadeiras. Vários Odditoriums ainda estão abertos à visitação em todo o planeta, e, de vez em quando, também são lançados novos livros, alguns em formato ebook, a maioria deles com republicações da série de jornal, mas alguns trazendo material inédito. Aparentemente, o legado de Robert Ripley jamais morrerá. Acredite... se quiser!
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A Ilha do Dr. Moreau

H.G. Wells é um dos meus escritores preferidos. Seus dois livros dos quais eu mais gosto são A Máquina do Tempo, que li pela primeira vez quando era criança, e A Ilha do Dr. Moreau, pelo qual confesso que só me interessei após ver uma de suas adaptações cinematográficas, quando já era adolescente. Sobre A Máquina do Tempo eu já falei aqui, num post, inclusive, em que aproveitei para falar sobre a vida do próprio Wells; sobre A Ilha do Dr. Moreau... bem, acho que já está bem claro que eu vou falar hoje.

A Ilha do Dr. Moreau foi o segundo livro escrito por Wells - com o primeiro tendo sido, ora vejam só, A Máquina do Tempo. Wells era formado em zoologia, e, no final do século XIX, dava aulas de biologia na Henley House School, em Londres. Na época, ocorria na sociedade científica um acalorado debate sobre vivissecção animal - o ato de abrir animais vivos para estudar o que havia dentro deles - e sobre a teoria da degeneração social, segundo a qual a sociedade estava em declínio, e dentre as causas estavam fatores biológicos - basicamente, segundo essa teoria, "defeitos" como preguiça e devassidão eram transmitidos hereditariamente, e, como os "defeituosos" tinham mais filhos, seus números na sociedade aumentavam mais que os dos "não-defeituosos", o que, inevitavelmente, levaria a um colapso social; vale citar que essa teoria estava no cerne de outras como a eugenia, que pregava que somente pessoas "não-defeituosas" deveriam procriar. Além dessas duas discussões, a Teoria da Evolução de Charles Darwin ganharia força dentre os cientistas, com vários artigos que a abordavam sendo publicados - alguns a favor, outros contra.

Dentro desse cenário, em 1895, Wells publicaria um artigo chamado The Limits of Individual Plasticity, no qual dizia acreditar que um animal poderia ser modificado através de cirurgias ou compostos químicos até assumir uma aparência completamente diferente, mas que as crias desse animal não incorporariam essas mudanças, mantendo sua forma original. Ele também discutiria o fato de que qualquer mudança assim obtida seria apenas na aparência do animal, incapaz de mudar sua assinatura genética, o que hoje conhecemos como DNA. Não se sabe se paralelamente ao artigo, ou se motivado por ele, Wells logo começaria a trabalhar em uma história centrada nesse conceito, que seria publicada no ano seguinte, 1896, pela editora Heinemann, a mesma de A Máquina do Tempo.

O livro é escrito como se fosse um relato de Edward Prendick, inglês que sobreviveu a um naufrágio no Oceano Pacífico, sendo resgatado por um navio que passava, que transportava vários animais a pedido de um misterioso homem chamado Montgomery, que viaja acompanhado de seu servo M'ling - sendo os dois os únicos no navio, além de Prendick, que não pertencem à tripulação. Montgomery está levando os animais para uma ilha do Pacífico que não consta em nenhum mapa, e, ao chegar lá, o capitão do navio decide que não quer levar Prendick consigo, deixando-o na ilha junto com Montgomery, M'link e os animais. Sem escolha, Montgomery leva Prendick até o dono da ilha, um cientista conhecido como Dr. Moreau - a quem Prendick reconhece como tendo sido expulso da comunidade acadêmica de Londres devido a seus experimentos com vivissecção.

Ao bisbilhotar o laboratório do Dr. Moreau, Prendick chega à conclusão de que ele está praticando vivissecção em humanos, presumindo que suas cobaias sejam os nativos da ilha, e teme que ele possa ser a próxima vítima. Ao vagar pela ilha, porém, ele encontra estranhos híbridos de homens e animais, e, Moreau acaba lhe revelando a verdade: há mais de uma década, ele vem fazendo experimentos em animais, visando transformar um animal em um ser humano - M'ling, inclusive, é um desses experimentos - sendo que, até hoje, não obteve sucesso total, já que, eventualmente, os animais revertem a seu comportamento feral, apesar de manter a aparência transformada. Prendick acaba decidindo ficar na ilha e ajudar Moreau, mas um acontecimento inesperado fará com que ele tente retornar à Inglaterra a qualquer custo.

O livro seria um sucesso moderado de público, mas se tornaria um dos maiores clássicos da ficção científica, tendo sido um dos primeiros a trazer o conceito do "cientista louco" que se isola do mundo para conduzir seus experimentos, e o primeiro no qual uma inteligência superior se utiliza da ciência para modificar uma inteligência inferior de acordo com seu bel-prazer, algo que seria muito abordado em histórias futuras, mas envolvendo temas como abdução alienígena e engenharia genética.

A Ilha do Dr. Moreau também daria origem a três adaptações para o cinema. A primeira, em preto e branco, seria produzida pela Paramount, dirigida por Erle C. Kenton, e estrearia em 12 de dezembro de 1932, com o título de A Ilha das Almas Perdidas (Island of Lost Souls no original). Uma das maiores curiosidades sobre esse filme é que seus roteiristas foram Waldemar Young e Phillip Wyle, esse último considerado, assim como Wells, um dos maiores autores de ficção científica de todos os tempos, autor de Gladiator, que teria sido uma das inspirações de Joe Shuster e Jerry Siegel ao criar o Super-Homem, e de When Worlds Collide, considerado um dos maiores clássicos do gênero.

O filme começa bem fiel ao livro, mas logo toma um rumo diferente, inclusive com a inclusão de duas personagens femininas. Nele, o inglês Edward Parker (Richard Arlen) sofre um naufrágio e é resgatado por um navio onde viajam o misterioso Sr. Montgomery (Arthur Hohl) e seu servo M'ling (Tetsu Komai), que levam uma carga de animais para uma estranha ilha do pacífico. Parker manda uma mensagem via telégrafo para sua noiva, Ruth Thomas (Leila Hyams), avisando que está a bordo do navio, mas, quando chega à ilha, se desentende com o capitão (Stanley Fields), que decide deixá-lo lá. Parker, então, é apresentado por Montgomery ao dono do local, o Dr. Moreau (Charles Laughton), cientista que decidiu se isolar do mundo para conduzir melhor seus experimentos. Moreau apresenta Parker à misteriosa Lota (Kathleen Burke), e, por algum motivo, parece desejar que os dois se tornem um casal.

Com o tempo, Parker descobre a verdade sobre a ilha: os experimentos de Moreau envolvem transformar animais em seres humanos, e a própria Lota, originalmente, era uma pantera, com o cientista desejando que ela e Parker tenham um relacionamento para provar que o experimento foi um sucesso. Paralelamente a isso, o navio chega a seu destino, e Ruth, ao ver que Parker não está nele, e descobrir que ele foi deixado na ilha, convence o Capitão Donahue (Paul Hurst) a levá-la até lá. Ruth e Donahue chegam bem em meio a uma revolta dos experimentos (cujo líder é interpretado por Bela Lugosi, de Drácula), que mudará o destino da ilha para sempre.

O filme foi um grande sucesso de público, e uma de suas falas ("os nativos estão inquietos essa noite") se tornou uma das mais famosas do cinema, sendo repetida incontáveis vezes, como homenagem ou paródia. Wells, entretanto, não gostou do filme, considerando que o diretor deu muito foco ao clima de terror, deixando de lado a crítica social e os questionamentos filosóficos que, segundo ele, eram o cerne de sua história. Vale citar também que, graças a esse clima de terror, em especial às cenas de vivissecção - e a uma cena na qual Moreau pergunta a Parker se ele "sabe como é se sentir como um deus" - o filme seria banido no Reino Unido, somente estreando nos cinemas de lá, em uma versão bastante editada, em 1958.

A segunda versão seria produzida pela American International Pictures, dirigida por Don Taylor, e estrearia em 13 de julho de 1977, com o mesmo título do livro, A Ilha do Dr. Moreau. Essa segunda versão toma ainda mais liberdades que a primeira, e começa com três sobreviventes de um naufrágio, dentre eles o engenheiro Andrew Braddock (Michael York), chegando a uma estranha ilha no Caribe após 17 dias à deriva no mar. Lá, dois dos náufragos são mortos por ataques de animais, mas Braddock é salvo pelo dono da ilha, o Dr. Moreau (Burt Lancaster), e levado à sua casa, onde conhece seus empregados, o mercenário Montgomery (Nigel Davenport), o animalesco M'ling (Nick Cravat) e a bela Maria (Barbara Carrera). Moreau trata Braddock muito bem, e inclusive permite que ele usufrua da casa como se fosse sua, mas o adverte de que ele jamais deve sair à noite. Um dia, desrespeitando as ordens, Braddock vê Moreau e Montgomery conduzindo uma criatura estranha a seu laboratório, e, ao percebê-lo, o cientista revela a verdade: ele injeta nos animais da ilha um soro que contém DNA humano, tentando transformá-los, também, em seres humanos, já tendo obtido vários graus de sucesso - alguns, depois de um tempo, voltam a ser animais, mas outros, como Maria (que Braddock não sabe ser um dos experimentos), se tornam humanos perfeitos. Braddock se convence de que Moreau é insano, e planeja fugir da ilha levando Maria, o que não se mostrará nada fácil.

O filme seria bem recebido pela crítica, que elogiaria principalmente as atuações de Lancaster e York; o público, por outro lado, não corresponderia, e a AIP consideraria o filme um fracasso. Uma curiosidade sobre esse filme é que, assim como Lota no primeiro, Maria é na verdade uma pantera; no final original escrito para o filme, ela engravida de Braddock e dá à luz, ao invés de um bebê, um gatinho. Taylor, entretanto, se recusou a levar esse final a sério, e sequer chegou a filmá-lo, somente gravando o final do filme após sua alteração.

Em 1990, o diretor sul-africano Richard Stanley, que havia lido o livro quando criança, decidiria tentar realizar seu sonho de dirigir um filme baseado nele, e começaria a escrever um roteiro. Ele passaria quatro anos desenvolvendo o projeto antes de apresentá-lo à New Line Cinema, que daria a luz verde em 1994. Desde que começou o projeto, Stanley pensava no ator Jürgen Prochnow (de Duna e Força Aérea Um) para o papel de Moreau, mas a New Line, sem consultá-lo, contrataria Marlon Brando. Após essa contratação, Stanley ouviria um boato de que Brando havia sido convidado porque a New Line planejava que ele (Stanley) não fosse o diretor, e sim Roman Polanski, e decidiria se encontrar com Brando, que ficaria do seu lado e convenceria o estúdio a deixá-lo dirigir. Com a ajuda de Brando, Stanley também conseguiria trazer dois outros nomes de peso para a produção: Bruce Willis para o papel de Prendick, e James Woods para o de Montgomery, além do mago dos efeitos especiais Stan Winston para criar a maquiagem dos híbridos.

O que parecia um sonho, entretanto, logo se tornaria um pesadelo. Pouco antes de as filmagens começarem, Willis desistiria do papel sem maiores explicações, e seria substituído por Val Kilmer. Para aceitar o papel, porém, Kilmer exigiria uma redução de 40% no número de dias de filmagem em que deveria estar presente. Para solucionar esse problema, Stanley colocaria Kilmer no papel de Montgomery, o que criaria um novo problema, já que o estúdio achava Woods velho demais para interpretar Prendick. Woods, então, seria dispensado, e, para o papel de Prendick, seria convidado Rob Morrow, da série Northern Exposure. Com o problema de elenco resolvido, as filmagens começariam, mas, pouco depois, a filha de Brando se suicidaria e ele se ausentaria das filmagens antes mesmo de gravar sua primeira cena, sem dar uma data para retornar.

Durante as filmagens, Kilmer se comportaria de modo extremamente desagradável, se recusando a dizer as falas do jeito que estavam escritas, criticando Stanley e os colegas de elenco abertamente, e não aparecendo para gravar as cenas nos horários previstos. No segundo dia de filmagens, uma tempestade impediria as gravações, e Morrow, insatisfeito com o clima tenso, pediria para deixar o filme. No terceiro dia, a New Line enviaria ao set um fax. No qual demitia Stanley do cargo de diretor.

Para o lugar de Stanley, o estúdio contrataria o veterano John Frankenheimer, que se aproveitaria do momento de desespero da New Line para exigir um salário altíssimo e um contrato para dirigir não um, mas três filmes. Frankenheimer traria o ator David Thewlis para o lugar de Morrow, e pediria que seu colaborador de longa data Ron Hutchinson reescrevesse o roteiro - Stanley, entretanto, continuaria creditado como co-autor. Para que todas essas mudanças pudessem ser implementadas, as filmagens seriam interrompidas por uma semana e meia. Como elas ocorriam na Austrália, todo esse furdunço aumentaria o orçamento do filme em nada menos que 70 milhões de dólares em relação à estimativa inicial.

E os problemas não acabariam com a chegada de Frankenheimer. Brando se comportaria cada vez mais como uma diva, se recusando a sair de seu trailer até o último momento possível para filmar suas cenas, e frequentemente entrava em conflito com Kilmer - a partir de um determinado momento, ambos só aceitavam sair de seus respectivos trailers depois que o outro tivesse saído, o que atrasava as gravações em horas. Frankenheimer também ficaria cada vez mais irritado com Kilmer, prometeria jamais trabalhar com ele novamente, e, ao final da gravação de sua última cena, disse a seu assistente: "ótimo, agora tire esse bastardo da minha frente". Thewlis frequentemente reescrevia suas falas, pedindo, inclusive, para que seu personagem passasse a se chamar Edward Douglas, e Brando se recusava a decorar as dele, usando um rádio para que um assistente as passasse para ele pouco antes de ele dizê-las - diz a lenda que, um dia, esse rádio pegou a frequência da polícia, e Brando disse "há um roubo em andamento na Woolworth's", no meio de uma cena.

O estúdio também ficaria muito preocupado que Stanley, que ficou na Austrália após ser demitido, pudesse tentar sabotar o filme; na verdade, ele faria um acordo com um dos contra-regras, que o ajudaria a entrar escondido no set e, durante vários dias, interpretaria um híbrido de homem e cachorro, sem que ninguém soubesse que era ele.

No fim, as filmagens, que estavam previstas para seis semanas, levariam seis meses, com o elenco e a equipe chegando esgotados ao final. A New Line registraria o orçamento do filme como sendo 40 milhões de dólares, mas estima-se que ela tenha gasto cerca de cem milhões a mais que isso. O pior é que todo esse esforço não adiantaria nada: a bilheteria mundial do filme seria de 49 milhões de dólares, o que, mesmo que o orçamento tivesse sido 40, se configuraria como um tremendo fracasso. Os críticos também receberiam muito mal o filme, considerado o pior da carreira de Brando e um dos piores de todos os tempos.

O filme é ambientado em 2010, e começa com um avião que leva Edward Douglas (Thewlis), um negociador da ONU, caindo no Mar de Java e sendo resgatado por Montgomery (Kilmer) em um bote. Montgomery promete levar Douglas até Timor, mas faz uma escala no caminho em uma ilha não-mapeada, onde tem que entregar um carregamento de coelhos. Lá, Douglas conhece a bela Aissa (Fairuza Balk), que diz ser filha do Dr. Moreau (Brando), cientista que se isolou do mundo para fazer experimentos de engenharia genética combinando DNA humano e animal, visando criar uma raça incapaz de causar dano a seus semelhantes. Moreau ainda não obteve sucesso, e controla seus híbridos - dentre os quais há um homem-leopardo interpretado por Marc Dacascos e um homem-bode interpretado por Ron Perlman - através de um chip em sua pele que lhes causa uma grande dor se Moreau apertar um botão em um controle remoto. Sem que Moreau saiba, porém, há dentre os híbridos um mutante (Daniel Rigney), que pretende destroná-lo e libertar todos os demais.

O terceiro filme realmente é bem ruim, mas teve pelo menos um mérito: me fez ler o livro pra ver se era ruim também. Felizmente, não é, muito pelo contrário. Portanto, se vocês quiserem conhecer o verdadeiro Dr. Moreau, leiam o livro.
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Sambô

Hoje eu vou falar sobre sambô. Não sobre o grupo musical, que eu absolutamente detesto. Eu nem tenho nada contra samba, só acho uma péssima ideia regravar grandes clássicos do rock ao som de samba, principalmente porque, na maioria das músicas, a letra e o ritmo não combinam - poucas coisas são mais ridículas que um grupo de pessoas, com copos de cerveja na mão e sorrisos no rosto, sambando alegremente ao som de Sunday Bloody Sunday, enquanto o vocalista canta "garrafas quebradas sob os pés das crianças, corpos espalhados nas ruas sem saída (...) e mães, filhos, irmãos, irmãs dilacerados". Fico imaginando se algum dia alguém resolvesse montar uma banda para regravar grandes clássicos do samba em ritmo de rock se todo mundo iria aceitar numa boa.

Enfim, o sambô do qual eu vou falar hoje não é a banda, e sim uma luta, inventada na União Soviética - cujo nome, inclusive, é uma sigla, para SAMozashchita Bez Oruzhiya, o que significa "auto-defesa sem o uso de armas". Em uma reviravolta curiosa em relação ao parágrafo anterior, vale citar que, em russo, toda letra "o" que não pertence à sílaba tônica tem som de "a" - e, como a sílaba tônica é o SAM, a pronúncia mais correta não seria "sambô", e sim... "samba". Em português, convenciounou-se chamar a luta de sambô não somente para não confundir com o samba, mas também por influência de outros nomes de lutas terminados com "ô", como "judô", "sumô" e "aikidô". Vale citar, também, que, nos Estados Unidos, a palavra sambo era usada em sentido pejorativo, para se referir a pessoas filhas de negros com índios; por causa disso, nos países de língua inglesa, o nome da luta costuma ser escrito como sombo. Também é comum encontrar o nome da luta escrito todo em maiúsculas (já que, afinal, é uma sigla), ou seja, SAMBO.

O sambô foi criado na década de 1920 por dois homens, Vasili Oshchepkov e Viktor Spiridonov. Curiosamente, eles não trabalharam juntos para criá-lo, mas ambos tinham o mesmo objetivo: integrar noções e técnicas de artes marciais japonesas, como o judô e o jiu-jitsu, ao sistema de combate corpo a corpo utilizado pelo exército da União Soviética na época. Oshchepkov foi um dos primeiros estrangeiros a aprender judô no Japão, tendo sido aluno de ninguém menos que Jigoro Kano, o criador dessa arte marcial, e tendo chegado até do segundo dan, ou seja, a segunda graduação da faixa preta; já Spiridonov era um entusiasta das artes marciais e veterano da Primeira Guerra Mundial que, após receber um ferimento de baioneta que deixou os movimentos de seu braço esquerdo comprometidos, começou a estudar as técnicas do jiu-jitsu para aprender a compensar a falta de força nesse braço durante o combate desarmado. Trabalhando de forma independente, tanto Oshchepkov quanto Spiridonov analisariam meticulosamente cada uma das técnicas do judô e do jiu-jitsu, separariam as que julgassem ter uso durante um combate real, e trabalhariam para que cada uma delas pudesse ser usada para desarmar e subjugar um oponente no menor tempo possível.

Tanto Oshchepkov quanto Spiridonov trabalhariam, em momentos diferentes, para a Dinamo, uma academia militar criada por Kliment Voroshilov, que, em 1953, seria o presidente da União Soviética, mas que, em 1918, era apenas um militar, e teria recebido do próprio Vladimir Lenin a missão de desenvolver e organizar as técnicas de combate corpo a corpo do Exército Vermelho. Em 1923, Anatoly Kharlampiyev, que havia sido aluno tanto de Oshchepkov quanto de Spiridonov, receberia da Dinamo a missão de viajar o mundo para estudar o maior número de artes marciais possível, fazendo um documento que apontasse quais de suas técnicas seriam adequadas ao combate corporal do exército. Sabendo do sonho de seus professores, ele reuniria um extenso catálogo de técnicas nos mesmos moldes dos estudos de Oshchepkov e Spiridonov, o qual apresentaria a Voroshilov em 1933. Kharlampiyev chamaria seu catálogo de "técnicas de auto-defesa sem o uso de armas", frase que, como vimos, deu origem à sigla SAMBO.

Acreditando que o sambô poderia ser mais que apenas um treinamento para soldados, Kharlampiyev passaria os anos seguintes refinando suas técnicas para que ele pudesse ser lutado competitivamente, como já ocorria, por exemplo, com o judô. Em 1938, ele apresentaria seu plano de transformar o sambô em esporte para o Comitê Desportivo Soviético, que, graças a uma certa influência política da qual Kharlampiyev já dispunha, o aceitou, conferindo a licença para que as primeiras academias de sambô fossem abertas, e os primeiros campeonatos de sambô, disputados. Por causa disso, embora a luta em si já existisse há anos antes disso, 1938 é considerado o ano de criação do sambô, e Kharlampiyev é considerado, na União Soviética, como o "pai do sambô"; no exterior, entretanto, Kharlampiyev costuma ser considerado o "pai do sambô desportivo", enquanto Oshchepkov e Spiridonov são reconhecidos como os criadores da arte marcial - Spiridonov, inclusive, chegaria a criar, no início da década de 1930, uma luta desportiva diferente da de Kharlampiyev, chamada samoz, ainda hoje ensinada em várias academias de diversos países, mas não tão famosa quanto o sambô.

Assim como várias outras artes marciais, o sambô é bastante confuso em relação às suas federações internacionais. Originalmente, não existia uma "federação soviética de sambô", com o Comitê Desportivo Soviético fazendo a função de regular o esporte. Graças à influência soviética, após a Segunda Guerra Mundial o sambô se espalharia para outros países da Europa Oriental, como Polônia, Bulgária e Tchecoslováquia, mas, devido à Cortina de Ferro e à falta de integração entre Europa Oriental e Ocidental, ele demoraria para chegar ao restante da Europa, só começando a ser praticado, primeiro na Escandinávia, depois na Alemanha Ocidental, no início da década de 1960. Como a maioria dos países não tinha uma federação nacional de sambô, com suas federações nacionais de luta olímpica sendo as responsáveis por regulá-lo nacionalmente, a Federação Internacional de Lutas Associadas (FILA, hoje United World Wrestling, UWW), então responsável pela regulação, dentre outros estilos de luta, da luta greco-romana e da luta livre olímpica, decidiria, em 1968, passar a regular internacionalmente também o sambô, com o primeiro campeonato mundial da modalidade sendo realizado em 1973.

Algumas federações nacionais, porém, não ficariam satisfeitas com a política da FILA para o sambô, e, em 1985, decidiriam romper com ela e, com a ajuda do Comitê Desportivo Soviético, fundar a Federação Internacional de Sambô Amador (FIAS, da sigla em francês). Aos poucos, todos os membros ligados ao sambô da FILA foram migrando para a FIAS, até que, em 1990, a FILA decidiria deixar de regular o sambô internacionalmente, com a FIAS passando a ser a única federação internacional desse esporte.

Mas esperem que tem mais: no início da década de 1990, começariam a surgir desentendimentos dentro da FIAS em relação às regras do sambô, e dois grupos surgiriam: a "FIAS oriental", liderada pela Rússia, e composta pelas federações que preferiam um sambô mais tradicional, e a "FIAS ocidental", liderada pelos Estados Unidos e composta pelas federações que queriam uma modernização do sambô. Na prática, a partir de 1993, passariam a existir duas federações chamadas FIAS, uma com sede em Moscou e uma com sede em Nova Iorque, ambas com seus próprios membros, organizando seus próprios campeonatos, e clamando para si o direito de ser a única federação internacional de sambô. Essa dualidade duraria até 2005, quando a FILA chegaria a um acordo com a "FIAS ocidental" e voltaria a regular o sambô, dessa vez com as regras usadas nos Estados Unidos - na prática, continuariam existindo duas federações internacionais de sambô, mas agora uma delas se chamava FILA e a outra se chamava FIAS.

Esse novo arranjo, entretanto, duraria pouquíssimo: em 2008, sem nenhuma explicação, a FILA decidiria parar de regular o sambô, o que levaria todos os antigos membros da "FIAS ocidental" a migrar para a FIAS (que, na prática, era a "FIAS oriental"). Como vocês devem estar imaginando, isso não deu muito certo, e os conflitos internos recomeçaram, somente cessando em 2014, quando FILA e FIAS assinaram um novo acordo, dessa vez prevendo que a FIAS era a única federação internacional de sambô, mas que devia espelhar a forma como o regulava na forma como a FILA fazia com suas lutas. Estados Unidos e Canadá não concordaram com esse acordo, e, graças a isso, até hoje a Associação Americana de Sambô (ASA) organiza torneios, que não são reconhecidos pela FIAS, com as regras mais populares nos Estados Unidos. A ASA, entretanto, é filiada à FIAS, o que significa que os lutadores norte-americanos e canadenses, se quiserem, podem participar normalmente dos torneios da FIAS - desde que, evidentemente, lutem de acordo com as regras da FIAS quando o fizerem.

Atualmente, na teoria, a FIAS, que hoje conta com 86 membros dos cinco continentes, incluindo o Brasil, é a única federação internacional do sambô; na prática, entretanto, existem diversas variações do sambô, com três delas sendo consideradas as principais. O sambô regulado pela FIAS, e que será discutido nesse post, é conhecido como sambô desportivo (bor'ba sambo, que traduz para "luta sambô"), e é um esporte semelhante ao judô, mas que não permite técnicas de estrangulamento, apenas de imobilização. Já o sambô regulado pela ASA é conhecido como sambô estilo livre, e tem uma ampla variedade de técnicas de estrangulamento, inclusive algumas que não existem no judô ou jiu-jitsu. Finalmente, temos o sambô de combate (boyevoye sambo), o mais parecido com o sambô original criado para o Exército Vermelho, e que faz uso não somente de arremessos e de técnicas de solo, mas também de chutes, socos, cotoveladas, joelhadas e cabeçadas. Originalmente, o sambô de combate não era esporte, mas, em 2001, foi reconhecido como tal pela FIAS, e, desde 2004, é regulado também pela Federação Mundial de Sambô de Combate (WCSF, da sigla em inglês).

O uniforme do sambô se chama kurtka ("jaqueta" em russo), mas também é conhecido como sambovka, palavra que significa "roupa de sambô". à primeira vista, ele se parece com um judogi, mas com shorts ao invés de calças; na verdade, o kurtka tem esse nome porque sua parte principal é uma jaqueta, até parecida com a camisa do judogi, mas bem mais justa, mais curta e mais rígida. A jaqueta deve ter mangas que vão somente até os punhos, e seu comprimento abaixo da cintura deve ser o mesmo comprimento das mangas; ela é totalmente aberta na frente, devendo ser fechada com uma faixa amarrada na cintura, que, diferentemente do que ocorre com um gi, para maior firmeza no fechamento, passa por aberturas na jaqueta, semelhantes às que existem nas nossas calças para passarmos o cinto. O restante do uniforme é composto por um short curto de lycra e sapatilhas especiais do mesmo tipo usado na luta olímpica - mulheres podem usar uma camiseta branca por baixo da jaqueta, para evitar exposições indesejadas. No sambô, um dos lutadores sempre usa uniforme azul, enquanto o outro sempre usa uniforme vermelho. A jaqueta, o short e a faixa devem ser da mesma cor, mas as sapatilhas podem ser pretas. O sambô não possui um sistema de faixas como o do judô ou caratê, mas lutadores cuja grande técnica seja reconhecida podem ser nomeados Mestre do Esporte pela FIAS ou WCSF; Mestres do Esporte não possuem nenhum elemento em seu uniforme para caracterizá-los como tal.

Assim como em outras lutas desportivas, no sambô os lutadores são divididos em categorias de peso, para assegurar o equilíbrio das lutas. Atualmente a FIAS reconhece nove categorias de peso para o masculino e nove para o feminino. Para o masculino, as categorias são até 52 kg, até 57 kg, até 62 kg, até 68 kg, até 74 kg, até 82 kg, até 90 kg, até 100 kg e acima de 100 kg. No feminino são até 48 kg, até 52 kg, até 56 kg, até 60 kg, até 64 kg, até 68 kg, até 72 kg, até 80 kg e acima de 80 kg.

Uma luta de sambô é oficiada por um árbitro que fica na área de luta junto com os atletas; diferentemente de em outras lutas desportivas, o árbitro não sinaliza seus comandos com palavras, mas sim soprando em um apito. O árbitro pode interromper a luta e ordenar que os lutadores voltem para as posições iniciais toda vez que um ou ambos os lutadores saiam da área de luta, quando um dos lutadores necessitar de atendimento médico ou de arrumar seu uniforme, caso ambos os lutadores estejam deitados mas nenhuma ação efetiva esteja sendo tomada, ou caso um lutador use um golpe inválido ou quebre as regras e precise ser advertido. Além do árbitro principal, a luta conta com um árbitro assistente que a acompanha ao lado da área de luta, auxiliando o árbitro no caso de punições e infrações, e com uma mesa de três juízes que acompanham a luta sentados e fazem o registro da pontuação.

A área de luta do sambô não tem um nome próprio, e costuma ser chamada, por influência da luta olímpica, de mat. O mat deve ser um quadrado de no mínimo 11 e no máximo 14 m de lado, feito de material sintético anti-derrapante com no mínimo 5 cm de espessura; dentro desse quadrado é traçado um círculo de 9 m de diâmetro, que será a área válida de luta. A linha que traça esse círculo faz parte da área válida, e deve ter entre 10 cm e 1m de largura. No centro do círculo deve haver um outro círculo, de 1 m de diâmetro, que determina as posições iniciais dos lutadores - um de frente para o outro, cada um com um dos pés sobre o círculo menor. Assim como na luta olímpica, cada lutador tem direito a um canto do quadrado, o do lado esquerdo da mesa sendo o do lutador de vermelho e o diagonalmente em frente a este sendo o do de azul, com os lutadores se dirigindo para seus cantos antes do início e após o final da luta e toda vez que precisarem de atendimento médico. A FIAS permite que sejam usados mats elevados, desde que eles tenham no máximo 1 m de altura e as laterais façam um ângulo de 45 graus com o solo. Ao redor do mat, contando do ponto onde a lateral toca o solo no caso de ele ser elevado, deve haver uma área de segurança de 1 m sem qualquer elemento. A FIAS permite que até dois mats sejam usados simultaneamente em torneios oficiais.

Durante a luta, os lutadores podem assumir duas posições, a posição de pé e a posição deitado. A posição de pé ocorre quando o lutador está tocando o solo apenas com as solas dos pés; se ele tocar o solo com qualquer outra parte do corpo, estará na posição deitado - mesmo que esteja, por exemplo, ajoelhado ou sentado. Alguns golpes e ações só podem ser tomadas com ambos os lutadores na posição de pé, e outras com ambos na posição deitado, sendo advertido o lutador que usar um golpe ou executar uma ação consigo ou com o oponente na posição incorreta.

Os principais golpes do sambô são os arremessos, técnicas usadas quando o lutador está na posição de pé e que visam desequilibrar e derrubar o oponente, colocando-o na posição deitado. Uma vez que um arremesso tenha sido bem sucedido, o lutador que o utilizou deve também passar para a posição deitado, não sendo permitido que um dos lutadores lute de pé e o outro deitado. Um arremesso é considerado "perfeito" quando o lutador permanece na posição de pé após o oponente assumir a posição deitado, e "imperfeito" caso ambos terminem a ação deitados. Existem também os contra-arremessos, com os quais um lutador que está sendo arremessado, antes de ficar em posição deitado, pode tentar derrubar o lutador que o estava derrubando, sendo o contra-arremesso bem sucedido caso o lutador que usou o arremesso originalmente passe para a posição deitado antes do que foi arremessado. Para efeitos de pontuação, um contra-arremesso é considerado um arremesso imperfeito.

Uma vez que ambos os lutadores estejam deitados, eles podem tentar as técnicas de imobilização, que consistem em segurar ou puxar um braço ou perna do oponente usando uma técnica válida do sambô. Com ambos os lutadores deitados, um deles também pode tentar o hold down, uma técnica na qual ele se deita por cima do oponente e não permite que o oponente escape; o objetivo é manter o hold down, sem o oponente escapar, por 20 segundos, após os quais o árbitro interromperá a luta e ordenará que ambos voltem às posições iniciais, podendo também, entretanto, um lutador ganhar pontos por um hold down incompleto, do qual o oponente conseguiu escapar antes dos 20 segundos. Considera-se que um lutador escapou da imobilização assim que ele reassume a posição de pé, e que ele escapou do hold down assim que não estiver mais imobilizado sob o oponente, mesmo que continue deitado. Um lutador que esteja sentindo dor durante uma imobilização pode desistir da luta por "imobilização dolorida", bastando, para isso, gritar a palavra yes ou bater no chão duas vezes seguidas com a mão espalmada ou a sola do pé enquanto está sendo imobilizado.

Uma luta de sambô dura 5 minutos no masculino, 4 minutos no feminino, ou 3 minutos se for uma luta da repescagem, não importando se for masculina ou feminina. O relógio para toda vez que o árbitro interrompe a luta, voltando a correr quando ele a reinicia; no caso de atendimento médico, há um tempo limite de dois minutos, com o lutador sendo desclassificado caso não esteja apto a lutar após esse período - além disso, cada lutador só pode pedir atendimento médico uma vez por luta, sendo desclassificado caso peça mais de um. Se, a qualquer momento, um dos lutadores tiver oito pontos a mais que o outro, o árbitro deve interromper a luta imediatamente, declarando o lutador com mais pontos vencedor, independentemente do tempo restante. Ao fim do tempo regulamentar, o lutador com mais pontos será o vencedor da luta; caso ambos estejam empatados, vence o que ganhou mais pontos por arremessos, seguido de mais pontos por imobilizações, quem conseguiu uma imobilização por último, quem teve menos penalidades, e quem não recebeu a primeira penalidade. Caso o empate persista, a mesa escolhe o vencedor baseada na técnica apresentada por cada um.

Para pontuar no sambô, um lutador deve primeiro realizar um arremesso e, antes de o oponente se levantar, usar uma técnica de imobilização com sucesso. Caso, antes de usar a técnica de imobilização, o lutador consiga um arremesso perfeito com o qual o oponente caiu de lado, ou um arremesso imperfeito com o qual o oponente caiu de costas, ele ganhará 4 pontos. Caso, antes de usar a técnica de imobilização, o lutador consiga um arremesso perfeito com o qual o oponente caiu em qualquer posição que não seja de costas ou de lado, ou um arremesso imperfeito com o qual o oponente caiu de lado, ele ganha 2 pontos. Caso, antes de usar a técnica de imobilização, o lutador consiga um arremesso imperfeito com o qual o oponente caiu em qualquer posição que não seja de costas ou de lado, ele ganha 1 ponto. Se não conseguir uma imobilização bem sucedida, mas conseguir um hold down, o lutador também pode ganhar pontos, que independem de como o arremesso foi feito: um hold down completo, que dure os 20 segundos, vale 4 pontos, enquanto um hold down que dure entre 10 e 19 segundos vale 2 pontos - holds down entre 1 e 9 segundos não valem pontos.

Durante a luta, um lutador também pode ser penalizado por falta de desportividade (ficar apenas esperando o oponente atacar, ou claramente fugir para que não seja atacado), por sair voluntariamente (e não em decorrência de um golpe) da área de luta, por falso ataque (fingir que vai atacar apenas para quebrar a defesa do oponente), por passar para a posição deitado sem tentar executar um arremesso, ou por "enrolar" enquanto estiver na posição deitado, sem claramente tentar imobilizar o oponente. Em qualquer dessas condutas, o lutador deve primeiro ser advertido, e, se efetuar novamente a mesma conduta, receberá uma penalidade. Caso o lutador use um golpe inválido, receberá a penalidade instantaneamente, sem direito a advertência; já se ele sair da área de luta para evitar ter que desistir por imobilização dolorida, terá direito a duas advertências, somente recebendo a penalidade na terceira vez em que o fizer. Da primeira vez em que um lutador recebe uma penalidade, seu oponente ganhará um ponto. Caso o lutador receba uma segunda penalidade, o oponente ganhará dois pontos, para um total de três. Um lutador que receba uma terceira penalidade é automaticamente desclassificado. Um lutador também pode ser desclassificado instantaneamente, independentemente de quantas penalidades tenha, por usar golpes que atinjam o oponente, como socos ou chutes; por desrespeitar o árbitro ou as regras do sambô; ou por executar golpes que exponham o oponente a risco de lesões ou morte, como arremessá-lo de cabeça no chão, torcer seus membros, ou sufocá-lo durante uma imobilização.

É possível vencer uma luta de sambô por nocaute, o que nesse esporte é chamado de "vitória total". Existem quatro tipos de vitória total: quando o oponente é desclassificado, seja por penalidades ou por ultrapassar o tempo do atendimento médico; quando o oponente desiste da luta devido a uma imobilização dolorida; quando o lutador tem oito pontos a mais que o oponente; ou quando o lutador consegue um "arremesso total" - que consiste em um arremesso perfeito com o qual o oponente cai de costas. Um arremesso total interrompe a luta e dá a vitória total imediatamente ao lutador que o executou, mas só é assim considerado caso os três membros da mesa concordem que o arremesso foi perfeito e o oponente caiu claramente de costas.

Torneios de sambô da FIAS podem ser realizados no sistema de mata-mata ou de grupos. No sistema de mata-mata, os lutadores são emparelhados dois a dois, e os vencedores vão avançando; os perdedores, por outro lado, não necessariamente serão eliminados, já que a FIAS utiliza um sistema de repescagem, permitindo, inclusive, que se escolha entre dois métodos: no primeiro, todo mundo que perde uma luta vai para a repescagem, enquanto no segundo somente aqueles cujo adversário que os derrotou ganhar sua luta seguinte é que vão (como no judô). Em ambos os casos, a repescagem dará direito a duas Medalhas de Bronze, cada uma delas disputada contra um dos perdedores das semifinais - sendo que a luta da Medalha de Bronze não conta como uma luta de repescagem, e, portanto, não dura 3 minutos, e sim 4 ou 5. Dependendo do número de lutadores em um torneio, os mais bem ranqueados podem começar direto na segunda ou na terceira rodada.

Já no sistema de grupos, os lutadores, na primeira fase, são divididos em grupos, e devem enfrentar todos os demais lutadores de seu grupo, ganhando pontos por suas vitórias. Após todos terem se enfrentado, o melhor ou os dois melhores, de cada grupo passa para uma segunda fase de mata-mata. O sistema de grupos não dá direito a repescagem, e ambos os perdedores das semifinais ganham uma Medalha de Bronze cada; caso sejam apenas dois grupos, é possível que os primeiros colocados dos grupos disputem a Medalha de Ouro e os segundos colocados disputem a Medalha de Bronze, sem fase de mata-mata. Uma curiosidade do sistema de grupos é a pontuação conferida às lutas para se determinar o melhor de cada grupo: um lutador que ganhe uma luta por vitória total recebe 4 pontos, enquanto o perdedor não recebe nada; um lutador que ganhe uma luta por vitória no número de pontos recebe 3 pontos, e o perdedor, caso tenha pontuado, recebe 1 ponto, e, caso não ("perdeu de zero"), não recebe nada; um lutador que ganhe uma luta no desempate recebe 2 pontos, e o perdedor, 1 ponto.

Além do sambô individual, a FIAS reconhece o sambô por equipes e o sambô por times. No sambô por equipes, que podem ser masculinas ou femininas, mas não mistas, cada equipe é formada por cinco lutadores, cada um de uma categoria de peso diferente, com as categorias válidas sendo determinadas pela organização do torneio; a cada embate, a equipe vencedora será aquela cujos integrantes vencerem três lutas primeiro. Já a competição por times consiste em simplesmente atribuir uma pontuação aos lutadores de cada país igual à sua posição na competição individual do mesmo campeonato (primeiro lugar 1 ponto, segundo lugar 2 pontos etc.); ao fim da competição individual, o país com menos pontos será o campeão da competição por times.

O mais importante campeonato de sambô é o Campeonato Mundial, disputado anualmente desde 1973 (exceto nos anos de 1976, 1977, 1978 e 1980); entre 1973 e 1984, ele foi organizado pela FILA, entre 1985 e 1993 pela primeira versão da FIAS, entre 1994 e 2004 pela "FIAS oriental", e desde 2005 pela FIAS atual - entre 1994 e 2004 houve um segundo Campeonato Mundial de Sambô, mas, hoje, essas edições são consideradas parte do Campeonato Mundial de Sambô Estilo Livre da ASA, não tendo nada a ver com a FILA ou a FIAS. A Rússia, nada surpreendentemente, é a maior vencedora sem qualquer sombra de dúvida, com mais de 200 medalhas de ouro conquistadas até hoje, contra apenas 15 (sim, quinze, não esqueci nenhum dígito) de Belarus, a segunda colocada.

O sambô não é um esporte reconhecido pelo Comitê Olímpico Internacional, e, portanto, ainda não pode pleitear um lugar nas Olimpíadas; um dos motivos para o acordo firmado entre FILA e FIAS em 2014 era tentar encontrar uma "brecha na lei" que permitisse que o sambô entrasse no programa das Olimpíadas de 2016, no Rio de Janeiro, pela janela, como disciplina da luta olímpica, e não como um esporte novo - como isso não colou, e como atualmente a FILA está mais preocupada em garantir que a luta greco-romana e a luta livre continuem no programa, ao invés de incluir uma luta nova, a FIAS vai ter de se conformar e fazer o caminho normal para os esportes que desejam ser reconhecidos e incluídos. Atualmente, a FIAS também não faz parte da IWGA, e, portanto, o sambô não pode ser incluído nos World Games; no passado, porém, ela já fez, entre sua fundação em 1985 e o racha que deu origem às versões ocidental e oriental da federação, em 1993 - com isso, o sambô fez parte do programa de duas edições dos World Games, justamente as de 1985, em Londres, Inglaterra, e de 1993, em Haia, Holanda.

Para terminar, vale citar que a FIAS também regula, desde 2001, o sambô de combate, e, desde 2014, o sambô de praia. O sambô de combate da FIAS segue as mesmas regras do sambô desportivo, mas se parece com uma luita de MMA, podendo ser usados socos, chutes, cotoveladas, joelhadas, cabeçadas, estrangulamentos e até mesmo técnicas de imobilização com o oponente de pé. As únicas partes do corpo que não podem ser atingidas são a nuca, o pescoço, o cóccix, o ânus e as genitais. Os golpes que atingem o oponente são usados apenas para derrubá-lo, pois, assim como no sambô desportivo, só há pontuação caso o oponente sofra uma imobilização bem sucedida na posição deitado. Devido aos golpes que atingem o oponente, o uniforme do sambô de combate é mais protegido, contando - além da jaqueta, short, sapatilhas, faixa e da camiseta das mulheres - com um capacete do mesmo tipo usado no kickboxing, luvas especiais que protegem as mãos mas deixam o movimento dos dedos livre para efetuar as imobilizações, caneleiras, e protetores para gengiva, virilhas e, no caso das mulheres, seios. As categorias de peso são as mesmas do masculino, inclusive para o feminino.

Já o sambô de praia é disputado em um quadrado de 8 m de lado, com os ângulos demarcados por bandeirolas vermelhas, em uma superfície feita de areia. A jaqueta de ambos os lutadores é sempre branca, e, ao invés de sapatilhas, são usadas meias especiais abertas nos dedos e no calcanhar; faixas, shorts e meias são sempre azuis para um lutador, vermelhas para o outro. As categorias de peso para o masculino são até 52 kg, até 62 kg, até 74 kg, até 90 kg e acima de 90 kg, e para o feminino são até 48 kg, até 56 kg, até 64 kg, até 72 kg e acima de 72 kg. A luta é sempre feita na posição de pé, e o objetivo é levar o oponente para a posição deitado com um arremesso ou contra-arremesso válido; não há pontuação, o primeiro a ser arremessado com sucesso perde. Cada luta dura no máximo 3 minutos; se, após 2 minutos, não houver um vencedor, a mesa escolherá qual lutador está mais ativo, ou seja, tentando realizar mais arremessos com a melhor técnica, e, se a luta permanecer sem ninguém ser arremessado, esse escolhido como mais ativo será o vencedor.
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David Bowie

Eu já pensei em falar aqui sobre Bowie duas vezes. A primeira eu não lembro quando foi, e também não lembro por que eu desisti. A segunda foi quando ele faleceu, mas eu estava viajando, só cheguei na semana seguinte, e achei que o momento havia passado. Eu gosto pra caramba de suas músicas, então, é até de certa forma estranho que, perto do post 750, eu ainda não tenha feito um sobre ele. Para corrigir essa injustiça, hoje é dia de David Bowie no átomo!


Bowie nasceu David Robert Jones, em 8 de janeiro de 1947, em Brixton, Inglaterra; sua mãe, de origem irlandesa, era garçonete, e seu pai trabalhava em uma organização de caridade que ajudava crianças pobres. Desde criança, ele sempre foi considerado muito criativo, e, aos seis anos, já fazia parte do coral da escola e chamava atenção tocando flauta doce. Aos nove, ele decidiria entrar também para o grupo de dança da escola, com seus passos sendo considerados imaginativos e suas interpretações musicais vividamente artísticas por seus professores. Vendo o interesse do filho por música, seu pai decidiria comprar vários discos de artistas norte-americanos, como Elvis Presley e Little Richard, em uma liquidação, e presenteá-lo. Ele ficaria extremamente empolgado com as músicas, e se interessaria em aprender piano e ukulele. Aos 11 anos, ele ingressaria na Bromley Technical High School, onde cursaria artes, música e design. Três anos depois, ele se interessaria por jazz, e decidiria fazer aulas de saxofone. No ano seguinte, ocorreria um episódio que marcaria para sempre sua vida: brigando com seu melhor amigo, George Underwood, por causa de uma garota, ele receberia um soco no olho esquerdo que faria com que ele ficasse quatro meses hospitalizado e tivesse de passar por quase dez cirurgias para não perder a visão; mesmo assim, ele ficaria com o senso de profundidade prejudicado, e sua pupila esquerda ficaria permanentemente dilatada, o que passava a impressão de que cada um de seus olhos era de uma cor diferente. Apesar disso, ele e Underwood continuariam amigos, e Underwood até seria o artista responsável pelas capas de alguns álbuns de Bowie.

Aos 15 anos, Bowie montaria sua primeira banda, The Konrads (da qual Underwood também faria parte), que tocava rock em casamentos e outros eventos destinados a jovens. Desanimado com a falta de ambição de seus colegas de banda, e já tendo decidido que se tornaria um artista famoso, após concluir a escola Bowie começaria a trabalhar como assistente de eletricista, sairia dos Konrads e se uniria a uma segunda banda, The King Bees. Ele escreveria uma carta ao empresário John Bloom, do ramo de máquinas de lavar roupa, pedindo para que ele "fizesse com os King Bees o que Brian Epstein fez com os Beatles", ou seja, financiá-los no início de sua carreira; Bloom não atenderia ao pedido, mas apresentaria Bowie ao produtor Leslie Conn, que, gostando da música da banda, conseguiria que ele gravasse um single pela gravadora Dick James Music - curiosamente, a dona do selo Northern Songs, que lançava as músicas dos Beatles.

Esse single, chamado Liza Jane e creditado a Davie Jones and the King Bees, não faria nenhum sucesso. Insatisfeito com a insistência de outros membros da banda em querer gravar blues, Bowie deixaria os King Bees um mês após seu lançamento, e se uniria a outra banda, The Manish Boys, que também lançaria um single pela DJM, I Pity the Fool, um cover de Bobby Bland, que faria ainda menos sucesso que Liza Jane. Um mês após o lançamento, ele deixaria os Manish Boys e se uniria a The Lower Third, um trio de blues com forte influência da banda The Who, que também lançaria um single pela DJM, You've Got a Habit of Leaving, que também não faria sucesso nenhum, o que levaria Conn a desistir de investir nas bandas de Bowie. Ele ainda ficaria um ano com o Lower Third, antes de mudar de banda de novo e se unir à The Buzz, que lançaria um single, Do Anything You Say, pela Pye Records.

O single seria mais um fracasso, mas Ralph Horton, o empresário da Buzz, veria talento em Bowie, que havia escrito as duas faixas do single, e o convenceria a seguir carreira solo. Até então, ele usava o nome artístico de Davie Jones, mas já estava insatisfeito com esse nome há algum tempo, por acreditar que as pessoas poderiam confundi-lo com Davy Jones, vocalista da banda The Monkees. Ele escolheria se chamar David Bowie em homenagem ao explorador norte-americano do século XIX James Bowie, que, inclusive, tem um modelo de faca batizada com seu nome, a bowie knife. Horton também apresentaria Bowie a Ken Pitt, que seria seu empresário no início da carreira e conseguiria para ele um contrato com a gravadora Deram. Seu primeiro trabalho solo lançado pela Deram seria um single, The Laughing Gnome, lançado em abril de 1967, e que seria mais um fracasso. Em junho do mesmo ano, ele lançaria seu primeiro álbum, chamado simplesmente David Bowie, que teria um estilo psicodélico e traria como músicas de trabalho Rubber Band e Love You till Tuesday. Infelizmente, o álbum, lançado no mesmo dia que Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band, também seria um fracasso, o que levaria a Deram a encerrar o contrato com Bowie no ano seguinte.

Pouco antes do lançamento de seu primeiro álbum, Bowie começaria a fazer aulas de dança com Lisa Kemp, durante as quais conheceria Hermione Farthingale, com quem se envolveria romanticamente até o início de 1969, e com quem formaria um trio folk, acompanhados de Josh Hutchinson. Pouco antes de terminarem o relacionamento, para que ela se mudasse para a Noruega, onde começaria uma carreira de atriz, Bowie e Farthingale atuariam juntos em um filme também chamado Love You till Tuesday, que contaria com várias canções de Bowie na trilha sonora, mas que, devido a um imbróglio contratual, não seria lançado até 1984. Após terminar com Farthingale, Bowie começaria a atuar em comerciais, e participaria de shows acompanhando a banda Tyrannosaurus Rex. Durante esses shows, ele conseguiria um contrato com a gravadora Philips, pela qual lançaria seu segundo álbum, em novembro de 1969.

Achando que o segundo álbum seria o começo definitivo de sua carreira, Bowie optaria por também chamá-lo de David Bowie. Acreditando que isso causaria confusão nos Estados Unidos, a Mercury, gravadora que o lançaria por lá, decidiria chamá-lo de Man of Words/Man of Music. Em 1972, ao relançar a discografia de Bowie até então, a gravadora RCA o rebatizaria para Space Oddity, nome de sua principal música de trabalho, e pelo qual o álbum é mais conhecido hoje. Além de Space Oddity (a famosa música do Major Tom, uma das mais conhecidas de Bowie), o álbum continha a música de trabalho Memory of a Free Festival, Letter to Hermione, motivada por seu relacionamento com Farthingale, e uma "faixa secreta", Don't Sit Down - da qual, aparentemente, ninguém avisou a Mercury, já que ela ficaria de fora da versão norte-americana do álbum. O álbum, de fato, era totalmente diferente do anterior, trazendo uma mistura de folk e rock progressivo, e, apesar de Space Oddity, a música, ter alcançado o quinto lugar na parada britânica, o álbum, quando de seu lançamento, não fez muito sucesso - embora o relançamento de 1972 tenha tido vendagem bem melhor.

Em abril de 1969, Bowie conheceria a modelo e atriz Angie Barnett, com quem, durante a gravação de seu segundo álbum, começaria um relacionamento amoroso. Eles se casariam no início de 1970, e ela exerceria grande influência sobre suas decisões profissionais, o que irritaria Pitt. Bowie também sentia falta de uma banda fixa, com quem pudesse formar amizades, e convidaria um baterista, um guitarrista e um baixista para formar uma banda chamada The Hype. A primeira apresentação da banda seria desastrosa, porém, e todos concordariam que Bowie deveria se apresentar como um artista solo, com a banda apenas dando suporte, sem um nome próprio. Pouco depois disso, Bowie se desentenderia com Pitt e o demitiria, contratando Tony Defries. Pitt o processaria pedindo uma gorda compensação financeira, e o processo se arrastaria durante anos.

Em novembro de 1970, Bowie lançaria seu terceiro álbum, The Man Who Sold the World, pela Mercury. Novamente com uma grande mudança de estilo, ele traria um som pesado e psicodélico, com letras que falavam de esquizofrenia, paranoia e alucinações. O álbum mais uma vez não seria especialmente bem sucedido, embora sua faixa-título seja hoje um dos maiores sucessos da carreira de Bowie. A faixa-título, aliás, seria a única música de trabalho, com a gravadora preferindo levar Bowie para ser entrevistado em diversas rádios para promovê-lo, ao invés de usar suas faixas. Bowie comparecia a essas entrevistas vestido de mulher, com o mesmo visual que usava na capa da versão britânica do álbum, em uma estratégia da gravadora, que queria explorar sua imagem, considerada andrógina.

Logo após o lançamento de The Man Who Sold the World, Bowie assinaria com a RCA, pela qual lançaria seu quarto álbum, Hunky Dory, em dezembro de 1971. Com um estilo mais pop e letras mais calmas, o álbum tinha como músicas de trabalho Changes, Andy Warhol e Life on Mars?, essa última ainda motivada por seu relacionamento com Farthingale. Uma das músicas, Kooks, Bowie escreveria em homenagem a seu filho, Duncan Zowie Haywood Jones (hoje conhecido como o diretor de cinema Duncan Jones, de Lunar, Contra o Tempo e Warcraft: O Primeiro Encontro entre Dois Mundos), que nasceria em 30 de maio de 1971.

Em 1971, durante sua turnê pelos Estados Unidos para promover The Man Who Sold the World, Bowie criaria um personagem chamado Ziggy Stardust, o "ídolo pop definitivo", uma mistura, segundo ele, de Iggy Pop com Lou Reed, que havia viajado pelo espaço e acabara de chegar de Marte. Bowie se apresentaria pela primeira vez fantasiado como Stardust - com o cabelo pintado de vermelho e maquiagem quase feminina - em fevereiro de 1972, com sua banda sendo renomeada para The Spiders from Mars ("as aranhas de Marte"). O show faria um gigantesco sucesso, e catapultaria Bowie finalmente para o estrelato. Seu quinto álbum, The Rise and Fall of Ziggy Stardust and the Spiders from Mars, lançado em junho de 1972, combinaria a energia de The Man Who Sold the World com o pop melódico de Hunky Dory, e se tornaria o primeiro álbum bem sucedido da carreira de Bowie, alcançando o quinto lugar na parada britânica e quase entrando para o Top 20 da Billboard, chegando à 21a posição; em vendas, o álbum ganharia um Disco de Platina no Reino Unido e um Disco de Ouro nos Estados Unidos. Sua primeira música de trabalho, Starman, seria um dos maiores sucessos da carreira de Bowie, e seu single alcançaria o décimo lugar da parada britânica; as outras músicas de trabalho foram Suffragette City e Rock 'n' Roll Suicide, mas também merecem ser citadas Ziggy Stardust e Hang On to Yourself.

Enquanto estava em turnê pelos Estados Unidos promovendo Ziggy Stardust, Bowie escreveria as canções que fariam parte de seu sexto álbum, Aladdin Sane, lançado em abril de 1973, e que tinha Bowie, na capa, com o que é talvez seu visual mais icônico, aquele no qual ele tem um raio colorido pintado no rosto. Trazendo The Jean Genie, Drive-In Saturday, Time e Let's Spend the Night Together como músicas de trabalho, o álbum não agradaria à crítica, que o consideraria pouco inspirado, mas, como era o primeiro álbum de Bowie pós-estrelato, teria excelentes vendas, se tornando seu primeiro a alcançar o topo da parada britânica e a entrar para o Top 20 da Billboard (na 17a posição), rendendo Disco de Ouro tanto no Reino Unido quanto nos Estados Unidos. Em outubro de 1973, ele lançaria Pin Ups, um álbum somente de covers, que também alcançaria o topo da parada britânica e renderia um Disco de Ouro no Reino Unido, mas não seria tão bem sucedido no restante do planeta.

Os shows de Bowie começavam a ficar cada vez mais teatrais, e ele começaria a se cansar de interpretar Ziggy Stardust. Em julho de 1973, ele declararia estar aposentando o personagem após um show em Londres. Esse show seria gravado e se tornaria um documentário, chamado Ziggy Stardust and the Spiders from Mars, e um álbum ao vivo, Ziggy Stardust: The Motion Picture; ambos, porém, permaneceriam inéditos por dez anos, com o filme somente estreando nos cinemas em dezembro de 1983 (após uma pré-estreia mal sucedida em agosto de 1979), dois meses após a RCA finalmente concordar em lançar o álbum - o que, segundo boatos, ainda não havia feito por não ter concordado com a decisão de Bowie de abandonar o personagem.

No início de 1974, Bowie se mudaria para os Estados Unidos, morando um tempo em Nova Iorque antes de se mudar para Los Angeles. A música norte-americana, especialmente o soul e o funk, exerceria grande influência sobre seu sétimo álbum, Diamond Dogs, lançado em maio de 1974, com as músicas de trabalho Rebel Rebel, Diamond Dogs e 1984. O álbum alcançaria mais uma vez o topo da parada britânica, e chegaria ao quinto lugar na parada da Billboard, rendendo Disco de Ouro nos Estados Unidos e no Reino Unido. Sua turnê pelos Estados Unidos seria gravada para se transformar em um álbum ao vivo, David Live, lançado em outubro de 1974, e um documentário, Cracked Actor, exibido em janeiro de 1975 pela BBC. Desde o início da década de 1970, Bowie já era viciado em cocaína; a turnê de Diamond Dogs seria o período no qual ele estaria mais drogado, se apresentando em muitos shows como se nem estivesse lá.

Durante um intervalo entre os shows que passou na Filadélfia, Bowie escreveria as canções de seu oitavo álbum, Young Americans, lançado em março de 1975. Mais uma guinada radical em sua carreira, o álbum tinha forte influência do soul e do rhythm and blues, soando quase como o de um artista negro. Muitos dos fãs antigos deixariam de acompanhá-lo após esse lançamento, mas, em compensação, toda uma nova leva de fãs seria conquistada, com Bowie alcançando expressiva popularidade também nos Estados Unidos. Sua segunda música de trabalho (sendo a primeira a faixa-título), Fame, escrita em co-autoria com John Lennon, seria o primeiro single de Bowie a alcançar o topo da parada da Billboard. O álbum seria nono lugar na Billboard e segundo na parada britânica, rendendo mais um Disco de Ouro no Reino Unido e um nos Estados Unidos.

Em 1976, Bowie ganharia seu primeiro papel no cinema ao estrelar o filme O Homem que Caiu na Terra, dirigido por Nicolas Roeg e adaptado de um romance de Walter Tevis, no papel de Thomas Jerome Newton, um alienígena que fica rico morando na Terra e vendendo sua tecnologia avançada para os humanos. Inspirado nesse personagem, Bowie criaria uma nova personalidade, chamada The Thin White Duke ("o duque magro e branco"), passando a se apresentar em seus shows a interpretando, como fazia com Ziggy Stardust. Seu vício em cocaína, porém, começava a cobrar um preço, com suas performances cada vez deixando mais a desejar, e suas entrevistas ficando cada vez mais desconexas - ele elogiaria Hitler em uma delas, e, ao saber que o ditador espanhol Francisco Franco havia sido deposto enquanto estava sendo entrevistado na TV, se recusou a permitir que a entrevista fosse interrompida para que o jornalista falasse ao vivo com o correspondente na Espanha. Ele também demitiria Defries sem mais nem menos, sendo alvo de uma segunda ação ao mesmo estilo da de Pitt, e colocaria seu advogado, Michael Lippman, para ser seu novo empresário - apenas para demiti-lo um ano depois e ser alvo de uma terceira ação.

O nono álbum de Bowie, Station to Station, seria lançado em janeiro de 1976, trazendo uma mistura de rock com ritmos negros norte-americanos como o soul e o funk. Suas músicas de trabalho seriam Golden Years, Station to Station, TVC 15, Stay e Wild Is the Wind. O álbum renderia mais um Disco de Ouro nos Estados Unidos e um no Reino Unido, alcançando o quinto lugar na parada britânica e o terceiro na Billboard. A turnê de promoção do álbum, mesmo com Bowie já tendo abandonado o Thin White Duke, seria pontuada de várias polêmicas, nas quais Bowie seria frequentemente apontado como apoiador do fascismo e simpatizante do nazismo - incidentes que ele atribuiria a seu vício em cocaína, que, segundo ele, nublava seu pensamento e fazia com que ele falasse coisas com as quais, na verdade, não concordava.

Para tentar se livrar do vício, Bowie se mudaria para a Suíça, adotaria a pintura e a fotografia como hobbies, patrocinaria várias mostras de arte, e começaria a trabalhar em uma auto-biografia. No final de 1976, ele se mudaria para Berlim Ocidental, para trabalhar em seu álbum seguinte junto com Iggy Pop, com quem decidiu dividir um apartamento - Bowie e Pop acabariam sendo co-autores de várias músicas não somente do álbum seguinte de Bowie, mas também dos dois primeiros álbuns solo de Pop - e com Brian Eno, com quem começaria uma parceria duradoura. Com o nome de Low, o décimo álbum de Bowie seria minimalista e experimental, influenciado pelo som de bandas alemãs como Neu! e Kraftwerk. A RCA torceria o nariz para o álbum, acreditando que ele venderia pouco, e Defries, que tinha interesse nos rendimentos de Bowie, tentaria impedir seu lançamento. Surpreendentemente, porém, Low alcançaria o segundo lugar na parada britânica e renderia um Disco de Ouro no Reino Unido, chegando também à 11a posição da Billboard. Suas músicas de trabalho seriam Sound and Vision, A New Career in a New Town, Be My Wife e Speed of Life.

Em outubro de 1977, Bowie lançaria mais um álbum, "Heroes", no mesmo estilo de Low mas incorporando elementos de rock. Suas músicas de trabalho seriam Beauty and the Beast e a faixa-título, um dos maiores sucessos de sua carreira. O álbum chegaria ao terceiro lugar da parada britânica e ganharia mais um Disco de Ouro, mas alcançaria apenas o 15o lugar na Billboard. Livre do vício em cocaína, ele faria a maior turnê de sua vida até então, em 1978, para promover tanto "Heroes" quanto Low; algumas das apresentações dessa turnê seriam gravadas e dariam origem a mais um álbum ao vivo, Stage, lançado em setembro de 1978. Também em 1978, Bowie protagonizaria o filme Apenas um Gigolô, de David Hemmings, no papel do oficial prusso Paul von Przygodski, que, sem conseguir emprego após retornar para casa depois de lutar na Primeira Guerra Mundial, decide se prostituir no bordel da Baronesa von Semering (Marlene Dietrich).

Em maio de 1979, Bowie lançaria Lodger, álbum bem menos minimalista, mas bem mais experimental que os outros dois, com uma mistura de new wave e world music. Gravado na Suíça, Lodger formaria com Low e "Heroes" uma trilogia que seria conhecida dali por diante como The Berlin Trilogy. Suas músicas de trabalho seriam Boys Keep Swinging, DJ, Yassassin e Look Back in Anger. O álbum alcançaria o quarto lugar na parada britânica e o 20o na Billboard, rendendo mais um Disco de Ouro no Reino Unido. Pouco após seu lançamento, Bowie e Angie se divorciariam.

O álbum seguinte de Bowie, Scary Monsters (and Super Creeps), seria lançado em setembro de 1980. Mesclando art rock, new wave e pós-punk, ele traia Ashes to Ashes, que contava o que aconteceu com Major Tom após os eventos de Space Oddity. A música faria um grande sucesso, alcançando o topo da parada britânica, chamaria atenção para um movimento incipiente conhecido como new romantic, e seu clipe seria extremamente elogiado como um dos mais inovativos da história. As demais músicas de trabalho do álbum, que chegaria ao topo da parada britânica, 12o lugar na Billboard, e renderia um Disco de Platina no Reino Unido, foram a faixa-título, Fashion e Up the Hill Backwards.

Em setembro de 1980, Bowie estrearia na Broadway, protagonizando o musical O Homem-Elefante, Personagem que interpretaria em 157 apresentações. Em 1981, ele gravaria Under Pressure em parceria com o Queen, música que faria grande sucesso em todo o planeta e cujo single alcançaria o topo da parada britânica. No ano seguinte, ele protagonizaria Baal, adaptação da peça de Bertolt Brecht produzida para a TV pela BBC, cuja trilha sonora, toda composta por Bowie, seria lançada em fevereiro de 1982 com o nome de David Bowie in Bertolt Brecht's Baal. Em abril do mesmo ano, estrearia o filme A Marca da Pantera, de Paul Schrader, para o qual Bowie contribuiria para a trilha sonora com a canção Cat People (Putting Out Fire), que faria grande sucesso nos Estados Unidos.

Adotando um estilo mais dançante e mais pop, o álbum seguinte de Bowie, Let's Dance, lançado em abril de 1983, seria o mais bem sucedido de sua carreira, ganhando Disco de Platina nos Estados Unidos e no Reino Unido, chegando ao topo da parada britânica e ao quarto lugar da Billboard. Três de suas músicas de trabalho, Let's Dance, China Girl e Modern Love, entrariam para o Top 20 da Billboard, com Let's Dance alcançando o topo da parada britânica e as outras duas a segunda posição; Without You, lançada já no final de 1983, seria a única a não fazer tanto sucesso. A faixa-título ainda contaria com a luxuosa presença de Stevie Ray Vaughan como guitarrista. Let's Dance também renderia a Bowie seu primeiro Brit Award, o mais importante prêmio conferido aos artistas britânicos, de Melhor Artista Masculino.

Ainda em 1983, Bowie protagonizaria dois filmes. Em Fome de Viver, de Tony Scott, ele seria John, amante da vampira Miriam Blaylock (Catherine Deneuve), que, após ser também transformado em vampiro, descobre que ainda está envelhecendo lentamente, e procura a gerontologista Dra. Sarah Roberts (Susan Sarandon), por quem acaba se apaixonando e formando um triângulo amoroso. Já em Furyo: Em Nome da Honra de Nagisa Oshima, inspirado no livro autobiográfico The Seed and the Sower, de Laurens van der Post, ele seria o Major Jack Celliers, oficial sul-africano parte de um campo de prisioneiros japonês durante a Segunda Guerra Mundial, que luta para se manter vivo.

O décimo-quinto álbum de Bowie, Tonight, de setembro de 1984, teria o mesmo estilo dançante de Let's Dance, e traria colaborações de Bowie com Iggy Pop e com Tina Turner. Sua principal música de trabalho, Blue Jean, seria responsável pelo único Grammy competitivo que Bowie ganhou em vida - e, ainda assim, não por causa da música, mas porque, inspirados nela, Bowie e o diretor Julien Temple fariam um curta-metragem de 20 minutos, lançado diretamente em vídeo, chamado Jazzin' for Blue Jean, que ganharia o Grammy de Melhor Vídeo Musical. As outras músicas de trabalho seriam Tonight e Loving the Alien. O álbum alcançaria o topo da parada britânica e o 11o lugar na Billboard, e seria seu primeiro a vender mais nos Estados Unidos que no Reino Unido, rendendo Disco de Platina na Terra do Tio Sam e Disco de Ouro na Terra da Rainha.

Em 1985, Bowie se apresentaria no concerto Live Aid, para angariar fundos para as crianças famintas da África; gravaria um dueto com Mick Jagger, Dancing in the Street, que alcançaria o topo da parada britânica e o 7o lugar na Billboard; gravaria a música This is Not America para o filme The Falcon and the Snowman, de John Schlesinger; e participaria do filme Um Romance Muito Perigoso, de John Landis, com Jeff Goldblum e Michelle Pfeiffer, em um pequeno papel, como um assassino de aluguel. Em 1986, ele participaria de dois filmes: em abril, teria um pequeno papel em Absolute Beginners, ambientado em 1958, que mostrava as mudanças culturais pelas quais a Inglaterra passava no período, e que seria um fracasso de público e crítica - por outro lado, a canção que Bowie fez para a trilha sonora, também chamada Absolute Beginners, chegaria ao segundo lugar da parada britânica. Já em junho de 1986, ele faria um dos papéis mais famosos de sua carreira, o de Jareth, Rei dos Duendes, antagonista de Labirinto: A Magia do Tempo, de Jim Henson, contribuindo também para sua trilha sonora com com cinco músicas.

O último álbum solo de Bowie na década de 1980, Never Let Me Down, seria lançado em abril de 1987, e considerado pelo próprio músico como o pior de sua carreira. Primeiro lançado pela EMI, para onde Bowie foi após o fim de seu contrato com a RCA em 1985, o álbum renderia Disco de Ouro nos Estados Unidos e Reino Unido, mas não entraria para o Top 20 da Billboard, e chegaria somente ao 7o lugar da parada britânica. Suas músicas de trabalho seriam Day-In Day-Out, Time Will Crawl e Never Let Me Down. A turnê que Bowie faria para promovê-lo, chamada The Glass Spider Tour, e que contaria com Peter Frampton na guitarra, seria a maior de sua carreira; na época, ele seria criticado por usar efeitos especiais e dançarinos demais, mas hoje essa turnê é considerada uma precursora dos shows grandiosos que se popularizariam a partir da década de 1990 com U2 e Madonna. Bowie faria uma pequena parada em sua turnê para interpretar Pôncio Pilates em A Última Tentação de Cristo, de 1988, dirigido por Martin Scorcese.

Em 1989, Bowie decidiria abandonar sua carreira solo e montar uma banda chamada Tin Machine, que faria canções políticas e de protesto. Seu primeiro álbum, Tin Machine, lançado em maio de 1989, alcançaria o terceiro lugar na parada britânica devido à popularidade de Bowie, mas seria um fracasso de crítica, e a turnê para promovê-lo não atrairia muito público. Logo após seu lançamento, Bowie se desentenderia com a EMI e romperia seu contato, assinando com a Victory Music. A banda logo começaria a trabalhar em um segundo álbum, mas Bowie, insatisfeito com o processo criativo, decidiria sair em uma turnê solo chamada Sound + Vision, que faria grande sucesso. A Tin Machine ainda lançaria mais um álbum de estúdio, Tin Machine II, em setembro de 1991, e um álbum ao vivo, Tin Machine Live: Oy Vey, Baby, em julho de 1992, ambos fracassos de crítica e público. Bowie acabaria concluindo que foi um erro abandonar sua carreira solo e a retomaria no final de 1992, com a banda se desfazendo.

Em 1991, Bowie protagonizaria o filme The Linguini Incident, ao lado de Rosana Arquette, como um barman que ajuda a mudar a vida de uma estressada garçonete. Em 1992, ele participaria de um tributo a Freddie Mercury, que falecera um ano antes, no qual interpretou "Heroes", All the Young Dudes e Under Pressure, essa última em dueto com Annie Lennox, que cantou a parte originalmente de Mercury. Pouco depois, ele se casaria com a modelo somali Iman, a quem foi apresentado por um amigo em comum dois anos antes. Após o casamento, ele voltaria a morar nos Estados Unidos; Iman queria morar em Los Angeles, mas eles chegaram à cidade bem no dia em que uma série de protestos praticamente a destruíram, o que fez com que eles tivessem de passar vários dias confinados no hotel, e acabassem mudando de ideia e indo morar em Nova Iorque. Ainda em 1992, ele atuaria em Twin Peaks: Os Últimos Dias de Laura Palmer, de David Lynch, "prequência" da série de TV, no papel do agente do FBI Phillip Jeffries.

Black Tie White Noise, primeiro álbum solo de Bowie na década de 1990, seria lançado em abril de 1993 pela gravadora Savage, e traria um som muito mais eletrônico, tendendo levemente para o rock alternativo. O álbum seria um grande sucesso no Reino Unido, alcançando o topo da parada britânica e rendendo um Disco de Ouro, e teria como músicas de trabalho Jump, They Say, Black Tie White Noise e Miracle Goodnight. Em novembro de 1993, seria lançado, pela BMG, The Buddha of Suburbia, trilha sonora da adaptação para a TV do romance de Hanif Kureishi feita pela BBC, para a qual Bowie compôs nove músicas, sendo que apenas uma delas, a faixa-título, que contava com Lenny Kravitz na guitarra, seria efetivamente usada no programa.

Após o lançamento da trilha sonora, Bowie assinaria com a BMG, e seu primeiro álbum pela nova gravadora seria Outside, lançado em setembro de 1995, uma nova colaboração com Brian Eno, extremamente experimental e com som próximo ao do rock industrial. Todas as músicas seguiam uma história envolvendo arte e assassinato, com personagens criados por Bowie para um conto. Contra todos os prognósticos, o álbum faria até bastante sucesso, alcançando o oitavo lugar no Reino Unido e o 21o na Billboard; suas músicas de trabalho seriam The Hearts Filthy Lesson, Strangers When We Meet e Hallo Spaceboy. Para a turnê que promovia Outside, Bowie escolheria a banda Nine Inch Nails para acompanhá-lo, o que causou certa controvérsia devido ao choque de estilos - e diferença entre os públicos - de um e outro. Em janeiro de 1996, Bowie seria incluído no Rock and Roll Hall of Fame, e ganharia mais um Brit Awards, dessa vez o de Contribuição Excepcional para a Música Britânica; no mesmo ano, ele interpretaria Andy Warhol em Basquiat, filme de Julian Schnabel sobre a vida do pintor norte-americano Jean-Michel Basquiat.

Em janeiro de 1997, Bowie comemoraria seus 50 anos com um grande show no Madison Square Garden, em Nova Iorque, acompanhado de Lou Reed, Dave Grohl (dos Foo Fighters), Robert Smith (do Cure), Billy Corgan (dos Smashing Pumpkins), Black Francis (dos Pixies) e do Sonic Youth. No mês seguinte, ele ganharia uma estrela na Calçada da Fama, e lançaria mais um álbum, Earthling, de estilo parecido ao de Outside. Sua principal música de trabalho, I'm Afraid of Americans, havia sido originalmente gravada em 1995 para a trilha sonora do filme Showgirls, de Paul Verhoeven, e remixada por Trent Reznor, do Nine Inch Nails, para ser incluída no álbum, se tornando um grande sucesso, figurando 16 semanas consecutivas no Top 100 da Billboard, um recorde para Bowie. As demais músicas de trabalho seriam Telling Lies, Little Wonder e Dead Man Walking.

Em 1998, Bowie participaria do faroeste italiano Il Mio West, no papel do pistoleiro mais temido da cidade. Em 1999, ele estrelaria o filme Everybody Loves Sunshine, no papel de um gangster que está ficando velho e procura um sucessor, e faria a trilha sonora do jogo Omikron: The Nomad Soul, lançado para PC e Dreamcast, no qual ele e Iman também dublariam personagens para os quais emprestavam suas aparências. Em agosto do mesmo ano, ele faria um dueto com a banda Placebo, na canção Without You I'm Nothing, de seu segundo álbum, que tinha o mesmo nome. Um mês depois, ele lançaria Hours, seu vigésimo álbum, no qual voltava ao pop rock. O álbum alcançaria o quinto lugar na parada britânica, mas não chamaria muita atenção, tendo como músicas de trabalho Thursday's Child, The Pretty Things Are Going to Hell, Survive e Seven.

Em 2000, Bowie receberia a medalha da Ordem do Império Britânico, mas recusaria a honraria, sequer comparecendo à cerimônia - ele também recusaria o título de sir, após ser indicado para ser nomeado cavaleiro em 2003, declarando não saber para que isso servia, e que não era um objetivo de sua vida. Também em 2000, em 15 de agosto, nasceria a filha de Bowie e Iman, Alexandria Zahra Jones. Em 2001, ele cantaria America, de Simon & Garfunkel, e "Heroes" em um concerto em homenagem às vítimas dos atentados terroristas de 11 de setembro. Em junho de 2002, ele lançaria mais um álbum, Heathen, pela gravadora Columbia, que teria como músicas de trabalho Slow Burn, Everyone Says "Hi" e I've Been Waiting for You; o álbum seria ligeiramente melhor sucedido que o anterior, alcançando o 14o lugar na Billboard e o quinto na parada britânica, e rendendo Disco de Ouro no Reino Unido. Seu álbum seguinte, Reality, seria lançado pouco mais de um ano depois, em setembro de 2003, traria as músicas de trabalho New Killer Star e Never Get Old, e alcançaria o terceiro lugar na parada britânica, rendendo mais um Disco de Ouro, embora não tenha conseguido entrar para o Top 20 da Billboard.

Durante a turnê para promover Reality, Bowie sentiria fortes dores no peito, e teria que passar por uma angioplastia de emergência em Hamburgo, Alemanha. Depois disso, ele decidiria reduzir drasticamente suas gravações e apresentações ao vivo. Ele regravaria Changes, dessa vez em um dueto com a cantora australiana Butterfly Boucher, para a trilha sonora de Shrek 2, de 2004, e gravaria (She Can) Do That para a trilha sonora de Stealth, de 2005. Em 2006, ele ganharia um Grammy honorário pelo conjunto da obra (o Lifetime Achievement Award), e faria um dos papéis mais elogiados de sua carreira, interpretando Nikola Tesla no filme O Grande Truque, de Christopher Nolan, no qual Hugh Jackman e Christian Bale interpretam mágicos rivais. No mesmo ano, ele dublaria Sua Alteza Real, no filme do Bob Esponja, e o vilão Maltazard na animação Arthur e os Minimoys, de Luc Besson. Em 2008, ele faria seu último papel de destaque, o de Cyrus Ogilvie no filme Agosto, de Austin Chick - seu último papel no cinema de fato seria uma pequena participação como ele mesmo em High School Band, de 2009.

Também em 2008, ele faria um dueto com Scarlett Johansson do cover de Tom Watts Anywhere I Lay My Head, incluído no primeiro álbum da atriz. Em junho do mesmo ano, a EMI lançaria Live Santa Monica '72, álbum ao vivo que continha a gravação de um show feito por Bowie na cidade de Santa Monica, na Califórnia, Estados Unidos, em 1972. Em julho de 2009 seria a vez de VH1 Storytellers, gravação de uma apresentação ao vivo que Bowie fez em agosto de 1999 no canal musical VH1. E, em janeiro de 2010, seria lançado A Reality Tour, álbum duplo ao vivo que continha gravações feitas durante a turnê de Reality, de 2003.

Após dez anos sem um novo álbum de inéditas, em março de 2013 seria lançado The Next Day, que traria como músicas de trabalho Where Are We Now?, The Stars (Are Out Tonight), The Next Day, Valentine's Day e Love Is Lost. The Next Day seria o primeiro álbum de Bowie em vinte anos (desde Black Tie White Noise) a estrear no topo da parada britânica, alcançando também o segundo lugar na Billboard e rendendo Disco de Platina no Reino Unido, e seria responsável por ele conquistar mais um Brit Award de Melhor Artista Masculino, se tornando o mais velho artista a receber tal prêmio - ele não compareceria à cerimônia, porém, enviando a modelo Kate Moss para receber a estatueta em seu lugar. Também em 2013, seria inaugurada a exposição David Bowie Is, com objetos pessoais do artista, no Victoria and Albert Museum de Londres; a mostra atrairia mais de 300 mil visitantes, se tornando uma das mais bem sucedidas do museu, antes de sair em turnê pelo mundo, sendo montada em mais de dez países.

Em setembro de 2014 seria lançada Nothing Has Changed, coletânea de faixas raras (em sua maioria faixas-bônus de seus álbuns anteriores) que continha algumas canções anteriormente gravadas mas jamais lançadas, e uma nova e inédita, Sue (Or in a Season of Crime). E, em dezembro de 2015, Bowie faria sua última aparição pública, na estreia do musical Lazarus, em Nova Iorque, para a qual Bowie escreveu todas as músicas, inspirado no filme O Homem que Caiu na Terra.

O vigésimo quarto e último álbum de Bowie, Blackstar, que tinha como músicas de trabalho a faixa-título, Lazarus e I Can't Give Everything Away, seria lançado em 8 de janeiro de 2016, no dia de seu aniversário de 69 anos. Dois dias depois, Bowie faleceria, em decorrência de um câncer no fígado. O produtor do álbum, Tony Visconti, revelaria que Bowie já sabia da doença há pelo menos um ano e meio, mas teria optado por não torná-la pública, e gravar Blackstar como se fosse seu "canto do cisne", um presente de despedida para os fãs. Talvez justamente pelo impacto de sua morte, Blackstar se tornaria o álbum mais bem sucedido de sua carreira, já estreando no topo da parada britânica e da parada da Billboard, e rendendo, até agora, Disco de Platina no Reino Unido e Disco de Ouro nos Estados Unidos. Blackstar seria responsável por Bowie ganhar cinco Grammys póstumos, de Melhor Álbum Alternativo, Melhor Engenharia de Álbum Não-Clássico, Melhor Apresentação Visual, Melhor Performance de Rock e Melhor Canção de Rock (esses dois últimos para a música Blackstar), além de três Brit Awards, de Melhor Cantor Solo Masculino, Álbum do Ano, e o Brits Icon Awards, equivalente ao Grammy de conjunto da obra. Em 8 de janeiro de 2017, no dia em que Bowie completaria 70 anos, seria lançado um EP, No Plan, que trazia Lazarus e outras três faixas gravadas para Blackstar mas não incluídas no álbum.

Bowie é considerado um dos artistas mais influentes de todos os tempos, principalmente por ter sido bem sucedido em diferentes estilos musicais. Também é considerado o principal responsável pela guinada que o rock britânico deu na década de 1970, e um dos artistas mais transformadores da música no mundo inteiro. Sua vida se encerrou, mas sua obra viverá para sempre.
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