Eu Sou a Lenda

Semana passada, enquanto eu escrevia sobre O Enigma de Outro Mundo, me lembrei de outro filme que também foi baseado em uma história, possui uma primeira versão em preto e branco, uma segunda que meus amigos assistiram quando eu era criança, e uma terceira mais recente. Pelo título do post, você deve ter achado que o nome desse filme é Eu Sou a Lenda. Na verdade, Eu Sou a Lenda é o nome tanto da versão mais recente quanto da história original, e, por isso, eu decidi usar como título do post; o filme em preto e branco se chama (pelo menos no Brasil) Mortos que Matam, e a segunda versão se chama The Omega Man - A Última Esperança da Terra. Apesar de ser bem mais velho que eu, Omega Man passava direto na TV quando eu era criança, e, diferentemente de O Enigma de Outro Mundo, meus pais me deixavam assistir; apesar de não ser um dos meus filmes favoritos, está dentre aqueles dos quais eu tenho boas memórias. Ao me lembrar dele, portanto, claro que eu ia querer escrever um post. Consequentemente, hoje é dia de Omega Man, ou melhor, de Eu Sou a Lenda no átomo.

Eu Sou a Lenda, o livro, seria escrito por Richard Matheson e publicado pela Gold Medal Books, com o título original de I Am Legend, em 1954. Seu protagonista é Robert Neville, aparentemente o único sobrevivente de uma epidemia de uma misteriosa doença, cujas vítimas se tornam uma espécie de mistura de zumbi com vampiro: sentem extrema dor quando expostos à luz solar e são repelidos por alho e espelhos, mas possuem apenas um raciocínio primal, tentando matar todos os que não são como eles. Isolado em sua casa, após perder sua mulher e filha, Neville tenta encontrar uma cura para a doença, se protegendo dos vampiros durante a noite e matando todos os que conseguir durante o dia. Um dia, ele encontra acidentalmente uma mulher chamada Ruth, que aparentemente não está infectada, e que desafiará muitas de suas convicções sobre a doença.

O livro é considerado um dos mais revolucionários e influentes da ficção científica. Apesar de Matheson se referir às criaturas como "vampiros", elas são consideradas zumbis pelos estudiosos desse gênero da literatura, o que faz com que Eu Sou a Lenda, apesar de não ter sido o primeiro a trazê-lo, seja considerado o responsável pela popularização do tema "apocalipse causado por vírus", hoje presente em vários filmes, livros, e até mesmo em games como Resident Evil. O livro também pode ser considerado como a primeira obra a trazer um apocalipse zumbi, já que um dos que frequentemente o citam como influência é George A. Romero, diretor de A Noite dos Mortos Vivos, que confessa que sua primeira versão do roteiro era pouco mais que um plágio da obra de Matheson, e sendo A Noite dos Mortos Vivos considerada a primeira "verdadeira" obra a trazer os zumbis da forma como costumam ser caracterizados hoje - cadáveres putrefatos com fome de cérebros - já que todas as anteriores (com exceção de Eu Sou a Lenda) usavam a caracterização original caribenha dos zumbis, ou seja, cadáveres reanimados por vodu, mas indistinguíveis de uma pessoa viva, e controlados por um feiticeiro. Finalmente, Eu Sou a Lenda foi a primeira obra a trazer uma explicação científica, e não mística, para zumbis e vampiros.

A primeira adaptação de Eu Sou a Lenda para o cinema começaria a tomar forma quando o produtor Anthony Hinds, da Hammer Productions, comprou de Matheson os direitos de adaptação. A Hammer, para quem não sabe, era uma produtora britânica especializada em filmes de terror, responsável, por exemplo, pela versão de Drácula estrelada por Christopher Lee, e planejava fazer a versão para o cinema de Eu Sou a Lenda o mais horrível e sangrenta possível - tão horrível e sangrenta que o governo do Reino Unido decidiu intervir e proibir que a Hammer a fizesse, a menos que a atenuasse. A Hammer considerou que isso era censura e se recusou, e, para não perder o dinheiro, Hinds venderia os direitos de adaptação para outro produtor, Robert L. Lippert.

O roteiro do filme foi escrito para a Hammer pelo próprio Matheson, e, para convencê-lo a permitir que ele o usasse, Lippert prometeu que o diretor seria Fritz Lang (de Metrópolis). Ele nunca entraria em contato com Lang, porém, e acabaria escolhendo Sidney Salkow para a direção; além disso, o roteiro original de Matheson seria várias vezes reescrito por William Leicester, Furio M. Monetti e Ubaldo Ragona, os dois últimos devido ao fato de que, para conseguir dinheiro para a realização do filme, Lippert recorreria a patrocinadores italianos não divulgados, que exigiriam que a produção fosse filmada em Roma, na Itália, com a maioria do elenco e equipe sendo formada por italianos. Irritado com os acontecimentos, Matheson pediria para que seu nome não aparecesse nos créditos do filme, sendo creditado como Logan Swanson.

O filme é bastante fiel ao livro, com apenas algumas diferenças, como o fato de que o livro é ambientado na década de 1970, cerca de 20 anos após seu lançamento, enquanto o filme é ambientado em um futuro próximo, cerca de cinco anos depois de seu lançamento. No filme, o protagonista é o Dr. Robert Morgan (Vincent Price), que já era um renomado cientista e estudava a doença antes da epidemia, e Ben Cortman (Giacomo Rossi-Stuart), o líder do grupo de infectados que toda noite tenta invadir a casa de Morgan, era seu melhor amigo antes da epidemia. No filme não é dada nenhuma explicação para o surgimento da doença, e Morgan conjectura que é imune a ela por ter sido mordido por um morcego anos antes, no Panamá; no livro, já é o contrário, com a doença sendo causada por um vírus criado em laboratório espalhado durante uma guerra, mas nenhuma explicação sendo dada para a imunidade de Neville. No livro, os infectados são ágeis, conseguindo correr e escalar, e apenas rosnam, enquanto no filme eles se parecem com os zumbis de A Noite dos Mortos Vivos (que só seria lançado quatro anos depois), se movendo lentamente e gemendo, mas capazes de balbuciar algumas palavras. No filme, os infectados ficam inativos e caídos pelas ruas durante o dia, o que faz com que seja muito mais fácil para Morgan matá-los, enquanto no livro eles se escondem nas sombras. Finalmente, Ruth (Franca Bettoia) é bem mais amistosa em relação a Neville no livro do que a Morgan no filme, agindo com desconfiança e tentando fugir do cientista.

O filme seria lançado em 8 de março de 1964; seu título original seria The Last Man on Earth ("o último homem na Terra"), mas, no Brasil, ele ganharia o curioso título de Mortos que Matam - o nome Eu Sou a Lenda não seria usado a pedido de Matheson. Não seria um sucesso nem de público, nem de crítica, com as principais críticas focando no que consideraram más atuações da direção e do elenco italiano; como costuma acontecer, entretanto, anos mais tarde as críticas se tornariam bem mais favoráveis, e hoje o filme é considerado um dos melhores da carreira de Price.

Em 1970, o produtor Walter Seltzer, que não gostou do filme de Price, decidiu ele mesmo fazer uma adaptação, com roteiro escrito por John William Corrington e Joyce H. Corrington. Ao invés de um filme de terror com elementos de ficção científica, como o primeiro, Seltzer decidiria fazer um filme de ação ambientado em um futuro distópico, e, para isso, convidaria Charlton Heston, protagonista do mais famoso filme desse estilo, O Planeta dos Macacos, para o papel principal. Lançado em 1o de agosto de 1971, esse filme receberia o título de The Omega Man (e, no Brasil, o subtítulo A Última Esperança da Terra). Matheson mão teve nenhum envolvimento na produção, mas, mesmo assim, acabou creditado na forma de "inspirado em uma história de Richard Matheson".

O filme é ambientado em 1975 (mais uma vez, cerca de cinco anos após seu lançamento), na cidade de Los Angeles, e o vírus é novamente uma arma biológica, liberada em uma guerra entre a China e a União Soviética. O Coronel Robert Neville (Heston) recebe uma vacina experimental que poderá servir de base para uma cura, mas, ao ser exposto acidentalmente à doença, a inocula em si mesmo, tornando-se imune. O vírus mata mais da metade da população da Terra, transformando aparentemente toda a outra metade em uma nova raça, noturna, albina e com extrema sensibilidade à luz. Neville acredita ser o único a não ter se transformado, e, enquanto se protege em sua casa, a qual transformou em uma verdadeira fortaleza, tenta usar seu próprio sangue para recriar a vacina.

Em The Omega Man, os infectados retém a mobilidade e a inteligência que tinham antes da doença, mas adquirem um tremendo ódio pela tecnologia, destruindo qualquer artefato tecnológico que encontram; assim como no livro, eles se escondem em locais onde a luz do sol não alcança durante o dia, se tornando ativos durante a noite. O líder de um grupo que se esconde próximo à casa de Neville, chamado Matthias (Anthony Zerbe) considera Neville um "usuário da tecnologia" e responsável pelo mundo ter ficado do jeito que está, por isso, todas as noites, seu grupo, ao qual ele chama de Família, tenta invadir a casa de Neville para matá-lo. Um dia, Neville comete um erro e é capturado, mas é salvo da morte por Lisa (Rosalind Cash), que lhe revela que há outros que ainda não foram infectados, mas que não são imunes, e que ela precisa da ajuda de Neville para tentar curar seu irmãozinho, Richie (Eric Laneuville), infectado recentemente. Neville e Lisa, então, decidem que, após curar Richie, deixarão a cidade junto com os demais não-infectados, se estabelecendo em algum lugar onde a Família não irá persegui-los.

Mais uma vez, o filme não seria um sucesso nem de crítica, nem de público; até hoje, The Omega Man é visto como apenas mais um filme de futuro distópico, sem nenhum apelo em especial. O filme tem, porém, pelo menos um crédito positivo, o de ter sido o primeiro filme de ampla distribuição a trazer um beijo interracial, na cena em que Neville e Lisa se descobrem apaixonados; até hoje, esse beijo é considerado por ativistas negros como um marco na história do cinema.

The Omega Man foi produzido pela Walter Seltzer Productions, mas os direitos sobre Eu Sou a Lenda pertenciam à Warner Bros., que distribuiu o filme nos cinemas, e que os adquiriu em 1970, junto com outras licenças que pertenciam a Lippert. Em meados dos anos 1990, uma onda de interesse do público por filmes que misturassem terror e ficção científica fez com que a Warner se lembrasse de que ainda detinha os direitos, e, em 1995, começasse a pré-produção de uma terceira versão do filme. Mark Protosevich, de A Cela, foi escolhido para escrever o roteiro, e Neal H. Moritz foi encarregado da produção.

A Warner chegou a entrar em contato com Tom Cruise, Michael Douglas e Mel Gibson para conversar sobre a possibilidade de um deles protagonizar o filme, mas, como Moritz exigia que a direção ficasse a cargo de Ridley Scott, na época envolvido com as filmagens de Tormenta e Até o Limite da Honra, todos os três acabaram se envolvendo com outros projetos e ficando indisponíveis. Em 1997, quando Scott finalmente ficou livre, a Warner entrou em contato com Arnold Schwarzenegger, que aceitou o papel. Scott, porém, não aceitou o roteiro de Protosevich, e trouxe para a produção seu amigo John Logan, que escreveu uma história intensamente psicológica, sem nenhum diálogo na primeira hora de filme, e com um final soturno e sombrio. Essa versão não agradou aos executivos da Warner, que convenceram Scott a deixar Protosevich reescrever o roteiro.

No final de 1997, porém, uma estimativa orçamentária chegou a absurdos 108 milhões de dólares, valor que a Warner se recusou a pagar. O próprio Scott chegou a reescrever o roteiro e diminuir a estimativa para 88 milhões, mas, como tanto os dois últimos filmes de Scott (os já citados Tormenta e Até o Limite da Honra) quanto os dois últimos de Schwarzenegger (Queima de Arquivo e Batman e Robin) e mais os dois últimos filmes de grande orçamento da Warner (Esfera e O Mensageiro) foram todos fracassos de crítica e público, a Warner decidiu engavetar o projeto em março de 1998, ao invés de arriscar não receber o dinheiro investido de volta mais uma vez. Em agosto de 1998, o diretor Rob Bowman ainda convenceria a Warner a deixá-lo tentar produzir uma versão protagonizada por Nicolas Cage e com roteiro de Protosevich, mas a demora na resposta da Warner fez com que ele decidisse começar as gravações de Reino de Fogo, interrompendo as negociações.

Em março de 2002, Schwarzenegger conseguiria convencer a Warner a produzir uma versão que tivesse ele como produtor, Michael Bay como diretor e Will Smith como protagonista; a pré-produção já havia começado quando o presidente da Warner em pessoa, Alan F. Horn, decidiria cancelar o projeto, alegando não ter gostado do roteiro de Protosevich. Mais dois anos se passariam até que, em 2004, o executivo Jeff Robinov convenceria Horn a dar a luz verde para o filme, com Akiva Goldsman como produtor. Goldsman manteria Smith no papel principal e convidaria Guillermo del Toro para a direção; como este não pôde aceitar, por estar envolvido com as filmagens de Hellboy II: O Exército Dourado, Goldsman chamaria Francis Lawrence, que já havia dirigido outro filme produzido por ele, Constantine, com Keanu Reeves. Protosevich reescreveria o roteiro mais uma vez, dessa vez em conjunto com Goldsman, dessa vez porque o produtor achou que o filme estava muito parecido com Extermínio, então recém-lançado.

Essa reescritura do roteiro atrasaria a produção mais um pouco, com as filmagens só começando em setembro de 2006. E durante as filmagens o roteiro seria reescrito várias outras vezes, primeiro porque Smith, que passava a primeira hora sozinho com um cachorro, improvisava demais, e muitas de suas improvisações acabariam dando origem a novas cenas criadas pelo roteirista; segundo porque Lawrence frequentemente sugeriria que uma ou outra cena ficaria melhor se não tivesse nenhum diálogo. Goldsman também se consultaria com especialistas em doenças infectocontagiosas e em confinamento solitário, reescrevendo várias cenas para que o comportamento de Neville e dos infectados ficasse mais realístico. Para complicar ainda mais, Lawrence, após uma semana de filmagens, achou que os infectados, interpretados por atores maquiados, não estavam realísticos o suficiente, e exigiu que eles fossem substituídos por criaturas feitas de computação gráfica.

No terceiro filme, ambientado cerca de vinte anos no futuro, o vírus é uma forma geneticamente alterada do vírus do sarampo, modificado pela Dra. Alice Krippin (Emma Thompson) para servir como uma cura para o câncer; no início, ele funciona bem, mas, depois, começa ou a matar as pessoas ou a transformá-las em criaturas extremamente propensas à violência e suscetíveis à luz, que se encarregam de matar os que ainda não morreram da doença - assim como no livro, eles são ágeis e velozes, apenas rosnam (com os rosnados ficando a cargo de Mike Patton, vocalista da banda Faith no More), e se escondem em locais mal-iluminados durante o dia, embora não sejam repelidos por alho ou espelhos. Por algum motivo desconhecido, o Dr. Robert Neville (Smith), cientista do exército, é imune ao vírus, e, após perder sua esposa (Salli Richardson) e filha (Willow Smith, filha de Will na vida real), fica sozinho na cidade de Nova Iorque, tendo como companhia apenas sua cachorra Sam e os infectados.

Usando seus conhecimentos de biologia, Neville decide usar seu sangue para tentar encontrar uma cura para o vírus, usando infectados como cobaias. Um dia, ele se descuida e é atacado pelos infectados, sendo salvo por Anna (Alice Braga) e seu protegido Ethan (Charlie Tahan), que estão tentando chegar a uma cidade fundada pelos sobreviventes, que não conta com a presença de infectados. Neville, então, decide acelerar seus esforços para encontrar uma cura, para que ele, Anna e Ethan a levem até essa cidade.

Lançado em 14 de dezembro de 2007, finalmente com o título de Eu Sou a Lenda, o filme seria um grande sucesso, quebrando o recorde de bilheteria para o dia de estreia de um filme que estreie em dezembro, e chegando a ser o sexto filme mais assistido nos cinemas dos Estados Unidos com estreia em 2007 (atrás só de gigantes: Homem-Aranha 3, Shrek Terceiro, Transformers, Piratas do Caribe: No Fim do Mundo e Harry Potter e a Ordem da Fênix). A crítica também foi bastante favorável, elogiando a interpretação de Smith e o clima do filme, mas com alguns críticos reclamando do final.

Graças ao sucesso do filme, a Warner cogitaria fazer uma "prequência", também estrelada por Smith e dirigida por Lawrence, que, em 2008, declararia em uma entrevista que o novo filme mostraria como Neville sobreviveu sozinho em Nova Iorque entre o dia que sua esposa morreu e o início de Eu Sou a Lenda; Smith mais tarde declararia que o novo filme também contaria com uma equipe de militares, que ajudaria Neville a enfrentar os infectados. D.B. Weiss chegaria a ser contratado para escrever o roteiro, mas, de repente, notícias sobre a "prequência" deixariam de aparecer, até Lawrence declarar, em maio de 2011, que ela estava oficialmente cancelada.

Em 2014, a Warner começaria a pré-produção de A Garden at the End of the World ("um jardim no fim do mundo"), que seria uma versão pós-apocalíptica de Rastros de Ódio, grande clássico da década de 1950 estrelado por John Wayne, Jeffrey Hunter e Natalie Wood, considerado um dos melhores filmes de faroeste da história. Durante a pré-produção, os executivos notariam semelhanças entre essa história e a de Eu Sou a Lenda, e decidiriam transformá-la em uma espécie de reboot, que daria origem a uma franquia de filmes protagonizados por Neville e ambientados em um mundo povoado pelos infectados. Smith jamais confirmou se estaria disposto a protagonizar esses filmes, e, até agora, a Warner ainda não deu novas notícias sobre seu desenvolvimento.
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O Enigma de Outro Mundo

Eu tenho pais zelosos. Quando eu era criança, por exemplo, eles não me deixavam ver um monte de filmes que consideravam inapropriados para a minha idade. Meus colegas de escola não tinham essas restrições, e chegavam na aula comentando sobre Hellraiser ou Re-Animator, enquanto eu era proibido de assisti-los. Só bem mais tarde, durante a adolescência, foi que consegui finalmente assistir tudo o que meus pais consideravam escabroso demais para uma criança. Por causa disso, eu nunca acreditei nessa tal de classificação indicativa: se os pais não disserem para os filhos que eles não podem ver um filme - ou se disserem, mas eles não obedecerem - de que adianta um quadradinho colorido com um número dentro?

Um dos filmes que meus pais jamais me deixaram assistir quando criança foi O Enigma de Outro Mundo. Quando ele foi lançado, eu tinha uns quatro anos; todos os meus amigos, inclusive meus primos, assistiram quando tinham uns sete; eu, por outro lado, só fui assisti-lo pela primeira vez quando já tinha 22. Isso mesmo, até os 22 anos, eu jamais tinha assistido O Enigma de Outro Mundo, e não por falta de vontade, já que ele era estrelado por Kurt Russell, que também protagonizava um dos filmes preferidos da minha infância, Aventureiros do Bairro Proibido. Toda vez que eu pedia para assistir, meus pais diziam que era muito violento, que o alienígena era nojento, e que não era filme para crianças - e, se eu dissesse que meus amigos já tinham visto, ouvia aqueles argumentos clássicos do tipo "se seus amigos comerem cocô, você vai comer também?".

Enfim, após muitas reclamações na infância, eu acabei não dando muita bola pra esse filme na adolescência, e somente quando ele foi lançado em DVD foi que eu decidi comprá-lo e a assisti-lo. Confesso que fiquei meio decepcionado, porque o filme é bem menos nojento e escabroso do que meus pais diziam que era, mas, ainda assim, achei um excelente filme, e lamentei não ter visto antes - Hellraiser, por exemplo, eu vi pela primeira vez aos 14, e também não achei tão tenebroso assim.

Essa semana eu me lembrei dessa história porque um grupo de alunos meus, que devem ter entre sete e oito anos, estavam comentando que assistiram Invocação do Mal. Eu ainda não assisti, mas não acho que seja um filme apropriado para a idade deles, o que confirma minha teoria de que a classificação indicativa não serve pra nada. Como vocês sabem, toda vez que eu me lembro de uma história desse tipo, fico com vontade de escrever um post. Por conseguinte, hoje é dia de O Enigma de Outro Mundo no átomo!

Poucos sabem - inclusive, até bem pouco tempo, nem eu sabia - mas O Enigma de Outro Mundo (cujo título original é The Thing, "A Coisa", que, no Brasil, é o título de outro filme que meus pais não deixaram eu assistir quando criança) é a refilmagem de um outro filme, lançado em 1951, e que ganhou, no Brasil, o nome de O Monstro do Ártico, que, por sua vez, é a adaptação de uma história chamada Who Goes There? ("Quem Vem Lá?"), escrita por John W. Campbell Jr., sob o pseudônimo de Don A. Stuart, e publicada na revista Astounding Stories de agosto de 1938.

Na história de Campbell, um grupo de cientistas isolado em uma base da Antártida descobre uma nave alienígena no meio do gelo, resgata seu piloto e o leva de volta à base para estudá-lo. Sem que eles saibam, porém, o piloto está vivo, e tem a habilidade de assumir a forma, memórias e personalidade de qualquer criatura que consuma. Quando eles descobrem, são tomados por uma profunda paranoia, imaginando que qualquer um deles pode ser o alienígena disfarçado, e começam a traçar um plano para identificá-lo e destruí-lo antes que ele consiga partir rumo à civilização.

Em 1950, o diretor de cinema Howard Hawks, que a havia lido Who Goes There? quando de seu lançamento, sugeriria à RKO Radio Pictures (o estúdio responsável pela versão original de King Kong) que a história fosse transformada em filme, lançado no ano seguinte com o nome de O Monstro do Ártico (The Thing from Another World, "A Coisa de Outro Mundo", no original, bizarramente bem mais parecido com o título em português do segundo filme). Oficialmente, Hawks não teria nenhum envolvimento com o filme, com o roteiro tendo sido escrito por Charles Lederer, a produção ficando a cargo de Edward Lasker, e a direção sendo de Christian Nyby, então estreando como diretor; segundo pessoas envolvidas na produção, porém, dentre elas parte do elenco, Hawks é que teria não somente dirigido o filme, tendo Nyby como seu assistente, mas também teria sido o verdadeiro produtor, e teria reescrito parte do roteiro, junto com Ben Hecht, após este ter sido entregue por Lederer. Se isso for verdade, não se sabe por que Hawks teria decidido não ter seu nome associado ao filme, embora haja a especulação de que Nyby teria sido creditado como diretor para poder ser aceito como membro da Director's Guild of America (era necessário pelo menos um crédito como diretor para que alguém fosse aceito como membro) e poder passar a dirigir seus próprios filmes para grandes estúdios como Warner e United Artists, que só contratavam membros da Guild. Nyby sempre negou esse fato, dizendo que gostava de ter Hawks junto a ele no set apenas porque estava começando na profissão e "queria aprender com um dos melhores".

Seja como for, o filme de Nyby é bem diferente da história original, embora parta da mesma premissa: um grupo isolado no meio do gelo trava contato com uma entidade alienígena que ameaça suas vidas. Como o título deixa a perceber, porém, O Monstro do Ártico não é ambientado na Antártida, e sim no Ártico, no caso, no Alasca; além disso, o grupo não é de pesquisadores, e sim de militares da Força Aérea norte-americana, liderado pelo Capitão Patrick Hendry (Kenneth Tobey) e formado pelo Tenente Eddie Dykes (James Young), o Tenente Ken MacPherson (Robert Nichols) e o Cabo Barnes (William Self, que, na década de 1960, seria produtor da série de TV do Batman, e, mais tarde, viria a se tornar presidente da Fox), além do cozinheiro Bob (Dewey Martin), do médico Dr. Arthur Carrington (Robert Cornthwaite) e de Nikki Nicholson (Margaret Sheridan), sua secretária. Ao perceber a queda de uma aeronave não identificada, alguns membros do grupo, junto com o repórter Ned Scott (Douglas Spencer), partem para tentar identificá-la. Ao perceberem que se trata de uma espaçonave alienígena, os militares e o repórter retornam para a base trazendo o corpo de seu piloto, congelado. O alienígena é uma forma de vida humanoide, mas de origem vegetal, e não animal, precisando, porém, consumir sangue animal para poder sobreviver, de forma que, após ser (acidentalmente) descongelado e acordar, começa a matar os membros da base, então isolados por uma tempestade de neve, em busca de sustento. Como se isso não fosse ruim o suficiente, ele ainda está "grávido" de várias sementes que darão origem a um verdadeiro exército de alienígenas, capaz de dizimar a vida na Terra. Os militares e o repórter, então, têm de encontrar uma forma de deter o monstro, antes que ele mate a todos e parta rumo à civilização.

O monstro seria interpretado por James Arness, na época já conhecido por ter participado de vários filmes de faroeste, e que, alguns anos mais tarde, ficaria famoso por interpretar o delegado Matt Dillon na série de TV Gunsmoke; no filme, porém, Arness está irreconhecível, com uma pesada maquiagem que alterava não somente suas feições, mas também o formato de sua cabeça e de suas mãos. Vale citar que, nessa versão, o monstro não é capaz de mudar de forma, embora possua superforça e seja imune a balas.

O Monstro do Ártico seria lançado em 27 de abril de 1951, e se tornaria o filme de ficção científica de maior bilheteria daquele ano, superando O Dia em que a Terra Parou e When Worlds Collide (lançado no Brasil como O Fim do Mundo), ambos hoje considerados dentre os maiores clássicos da ficção científica de todos os tempos. Cinquenta anos após seu lançamento, em 2001, ele seria selecionado para preservação na Biblioteca do Congresso dos Estados Unidos, honra concedida apenas aos filmes considerados culturalmente significativos. Hoje, embora seja pouco conhecido aqui no Brasil, ele é considerado um dos melhores filmes de ficção científica dos anos 1950 - aliás, o melhor de todos, segundo a revista Time.

A partir da década de 1970, entretanto, o filme começaria a ser criticado por pessoas ligadas à ficção científica, como Lester del Rey, editor da Del Rey Books, editora voltada à publicação de livros desse gênero. Segundo del Rey e aqueles que concordavam com ele, o fato de o filme ser tão diferente da história original tirava muito de seu valor, reduzindo-o a um filme de monstro comum, sem a tensão ou a profundidade presentes na história. Dentre os que pensavam assim estavam Tobe Hooper e Kim Henkel, criadores do filme O Massacre da Serra Elétrica, que decidiriam escrever um roteiro mais fiel à história original e oferecê-lo aos principais estúdios.

A Universal se interessaria pela história, mas não gostaria do roteiro de Hooper e Henkel, que acabaria reescrito por Bill Lancaster, filho do ator Burt Lancaster. Após ter o roteiro pronto, a Universal convidaria para a direção John Carpenter, que já havia dirigido sete filmes, mas todos para estúdios pequenos, incluindo Fuga de Nova Iorque, da AVCO Embassy Pictures; como essa seria sua chance de estreia em um dos grandes estúdios, ele aceitaria sem sequer ler o roteiro, fazendo a única exigência de que queria Russell, com quem já havia trabalhado em Fuga, no papel principal. As filmagens ocorreriam na cidade de Stewart, no norte do Canadá, fronteira com o Alasca, e estariam totalmente completas em três meses, para alívio do elenco e da equipe de produção, que tiveram de trabalhar sob frio intenso durante todo o período, incluindo uma nevasca nas últimas semanas.

No filme de Carpenter, a ação retorna para a Antártida, onde um grupo composto por pesquisadores e militares se prepara para passar o inverno isolado do restante do planeta. A equipe é liderada por Garry (Donald Moffat), e conta com o piloto de helicóptero R.J. MacReady (Kurt Russell), o médico Dr. Copper (Richard Dysart), o biólogo Dr. Blair (A. Wilford Brimley), seu assistente Fuchs (Joel Polis), o mecânico Childs (Keith David), seu assistente Palmer (David Clennon), o cozinheiro Nauls (T.K. Carter), o geofísico Vance Norris (Charles Hallahan), o meteorologista George Bennings (Peter Maloney), o veterinário Clark (Richard Masur) e o operador de rádio Windows (Thomas G. Waites). O elenco é totalmente masculino; as únicas presenças femininas no filme são algumas mulheres que aparecem na TV em uma cena na qual a equipe está assistindo a uma fita gravada do programa Let's Make a Deal e a voz de um programa de computador que joga xadrez, interpretada pela então esposa de Carpenter, a atriz Adrienne Barbeau - que acabaria sendo a única mulher nos créditos do filme.

Dessa vez, não é a equipe da base norte-americana que encontra o alienígena, e sim a equipe de uma outra base, pertencente à Noruega. No início do filme, dois noruegueses estão em um helicóptero aparentemente tentando matar um cachorro, que é acolhido pelos norte-americanos e adicionado a seu canil - sendo os cachorros usados para puxar trenós de neve, caso alguém esteja imaginando. Devido a um acidente, ambos os noruegueses morrem, e MacReady e Copper são enviados para a base norueguesa para tentar descobrir o que aconteceu. Eles encontram a base destruída e todos mortos, mas vídeos e anotações que levam a equipe a crer que os noruegueses encontraram uma forma de vida alienígena capaz de assumir a aparência de qualquer outra criatura. ao descobrir que o alienígena está dentre eles na base norte-americana, e que já substituiu um de seus colegas, eles começam a desconfiar uns dos outros, enquanto buscam uma forma de destruí-lo antes que ele consiga escapar rumo à civilização - algo que, segundo o Dr. Blair, pode levar à extinção da raça humana em um intervalo de poucos anos.

O Enigma de Outro Mundo estrearia em 25 de junho de 1982, e seria massacrado pela crítica, que o consideraria decepcionante, depressivo e perturbador, dentre outros termos nada agradáveis; os efeitos especiais das transformações do alienígena, obtidos através de uma mistura de maquiagem, modelos e animatronics, seriam considerados brilhantes, mas excessivamente repulsivos. O enredo foi considerado fraco, as atuações pífias, e o desenrolar da história, forçado. Com orçamento de 15 milhões de dólares e bilheteria nos Estados Unidos de 19, o filme seria considerado também um fracasso de público, embora isso tenha sido atribuído por Carpenter não à sua qualidade, mas ao fato de ele ter estreado apenas duas semanas após E.T. - O Extraterrestre (também da Universal) e no mesmo dia que Blade Runner: O Caçador de Androides (da Warner), que representaram uma grande concorrência em termos de público.

Com o passar do tempo, entretanto, a opinião geral foi mudando. Dez anos após seu lançamento, em 1992, o crítico Peter Nicholls escreveu em seu livro The Encyclopedia of Science Fiction que o filme era memorável, e que ainda seria visto como um clássico. A partir de então, ele ganharia status de cult, sendo redescoberto por vários cinéfilos e passando a ser considerado um dos melhores filmes de ficção científica dos anos 1980. Até mesmo Carpenter, excessivamente criticado na época do lançamento, seria redimido, com críticos escrevendo que esse seria seu melhor filme, mas o mais incompreendido. Hoje, O Enigma de Outro Mundo é considerado um grande clássico tanto da ficção científica quanto do horror.

Essa descoberta tardia levaria a um interesse de vários estúdios por fazer uma refilmagem, uma sequência ou uma "prequência" do filme, embora a própria Universal tenha demorado a se manifestar sobre o assunto. O primeiro passo concreto para isso seria dado em 2003, quando o canal a cabo SyFy entraria em contato com Carpenter para negociar a produção de uma minissérie em quatro episódios de uma hora recontando e expandindo a história do filme; por razões jamais divulgadas, entretanto, esse projeto seria engavetado durante a pré-produção. No ano seguinte, Carpenter anunciaria ter tido uma boa ideia para uma sequência, também estrelada por Kurt Russell, mas que também não sairia do papel. Em 2006, começariam a surgir rumores de que a Universal havia dado luz verde para uma "prequência" - um novo filme ambientado antes dos eventos do filme de Carpenter. Carpenter, porém, não se interessaria por dirigir a "prequência", e cinco anos se passariam antes que ela fosse realmente produzida.

A ideia de filmar a "prequência" partiria de Marc Abraham e Eric Newman, produtores do remake de Madrugada dos Mortos, de 2004, produzido pela Strike Entertainment e distribuído pela Universal. Após sua conclusão, Abraham e Newman começaram a pesquisar de qual outro filme antigo do estúdio poderiam fazer um remake; ao descobrir que O Enigma de Outro Mundo também pertencia à Universal, mas acreditando que o filme era tão bom que não precisava de um remake - segundo Newman, seria como se alguém resolvesse fazer um remake de Tubarão - eles começaram a negociar com o estúdio um filme que contasse o que aconteceu na base norueguesa desde a descoberta da espaçonave alienígena até o início do filme de Carpenter.

Após anos de pré-produção, um roteiro de Ronald D. Moore finalmente foi aprovado, e o holandês Matthijs van Heijningen Jr. praticamente se escolheu para a direção: originalmente, ele tinha contrato com a Strike Entertainment para dirigir uma sequência do remake de Madrugada dos Mortos, que seria descartada durante a pré-produção; ao saber que um novo O Enigma de Outro Mundo estava em produção, sendo fã do primeiro filme, e sempre tendo tido curiosidade para saber como os noruegueses morreram, ele entraria em contato com Newman e o convenceria a escolhê-lo. Após a chegada de van Heijningen Jr., Eric Heisserer seria contratado para reescrever o roteiro de Moore. Diferentemente do filme de 1982, o de 2011 seria filmado quase integralmente em estúdios em Toronto. Durante as filmagens, foram usados maquiagem e animatronics para representar o monstro - além de uma fantasia vestida pelo ator Tom Woodruff - mas, na pós-produção, eles acabariam substituídos por efeitos de computação gráfica, o que irritou Alec Gillis, o responsável pelos efeitos.

No novo filme, a equipe é liderada pelo biólogo dinamarquês Dr. Sander Halvorson (Ulrich Thomsen) e composta por seu assistente norte-americano Adam Finch (Eric Christian Olsen), pela paleontóloga norte-americana Kate Lloyd (Mary Elizabeth Winstead), a geóloga francesa Juliette (Kim Bubbs), o operador de rádio inglês Colin (Jonathan Lloyd Walker), e oito noruegueses: o cuidador do canil Lars (Jørgen Langhelle), o pesquisador de gelo Jonas (Kristofer Hivju, de Game of Thrones), o piloto de helicóptero Matias (Ole Martin Aune Nilsen), o guia Olav (Jan Gunnar Røise), o geólogo Edvard Wolner (Trond Espen Seim) e seus assistentes Peder (Stig Henrik Hoff), Henrik (Jo Adrian Haavind) e Karl (Carsten Bjørnlund). A eles se unem uma equipe de norte-americanos que chega de helicóptero trazendo suprimentos pouco antes da descoberta da nave, e que inclui o piloto Sam Carter (Joel Edgerton), o co-piloto Derek Jameson (Adewale Akinnuoye-Agbaje) e o Chefe Griggs (Paul Braunstein). O filme começa com a descoberta da nave pela equipe de Wolner, e termina com os dois únicos sobreviventes partindo de helicóptero atrás do cachorro; entre uma coisa e outra, a equipe descobre os poderes do alienígena e conclui que ele precisa ser destruído antes de alcançar a civilização - e seus membros vão morrendo um a um nas mãos do monstro. O fato de os norte-americanos não falarem norueguês e os noruegueses falarem mal ou não falarem inglês contribui para a sensação de paranoia, pois torna mais difícil saber quem é realmente humano e quem é a criatura se fazendo passar por humano.

Os produtores optariam por dar ao novo filme o mesmo nome do anterior (e quem traduziu aqui no Brasil decidiu fazer a mesma coisa) como uma espécie de homenagem; assim, o novo O Enigma de Outro Mundo (ou The Thing, em inglês) estrearia em 14 de outubro de 2011. Com orçamento de 38 milhões de dólares, rendeu somente 17 milhões nos Estados Unidos - ou seja, nem a metade - sendo considerado um gigantesco fracasso. A crítica também não foi receptiva, considerando-o inferior ao de 1982, e com pouco a acrescentar à história original.

Mas, como isso já aconteceu uma vez, quem sabe em 2021 alguém resolve falar bem do filme e ele vire cult? Não que mereça.
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Os Nomes dos Dias da Semana

Hoje vamos à última adaptação de um post do Almanaque BLOGuil para o átomo, a do que falava sobre os nomes dos dias da semana - e que, curiosamente, foi justamente o primeiro do Almanaque BLOGuil. Depois de hoje, o único post do Almanaque BLOGuil que não terá virado post para o átomo será justamente o último, que falava sobre Territórios e Dependências, mas esse não somente era o que eu achava mais chato, mas também tem a desvantagem de que suas informações mudam a toda hora, então eu vou me abster de adaptá-lo. Entretanto, ter adaptado todos os posts do Almanaque BLOGuil (menos o dos Territórios e Dependências) não significa que a categoria Almanaque acabou por aqui: quem sabe, no futuro, ao me deparar com outros temas interessantes no mesmo estilo, eu não decida ampliá-la?

O post original do Almanaque BLOGuil sobre os nomes dos dias da semana surgiu em decorrência de um post feito no BLOGuil por mim, no qual eu comentava que o nome da cor vermelha em português destoa de seu nome em outros idiomas (red em inglês, rouge em francês, rojo em espanhol, rosso em italiano, rot em alemão e rood em holandês). Uma das Entusiastas do BLOGuil, chamada Angelrose, comentou que também achava interessante os nomes dos dias da semana em alguns idiomas, mas não em português, serem "em homenagem aos planetas". Intrigado com esse fato, resolvi pesquisar sobre o assunto, como de costume, e transformar as informações que encontrei em um post assinado pelo Ombudsman. Hoje, os leitores do átomo também terão a oportunidade de descobrir por que alguns idiomas usam nomes chiques para os dias da semana, enquanto nós ficamos com um monte de feiras.

No início, cada civilização usava formas diferentes de contar o tempo; ciclos solares e lunares eram usados para determinar a duração de dias, meses e anos e facilitar o gerenciamento de eventos como caça, pesca e colheita. Ninguém sabe com certeza qual povo teria inventado a semana de sete dias; uma das teorias mais aceitas é a de que teriam sido os hebreus, pois, na Bíblia, está escrito que Deus criou o mundo em seis dias, descansando no sétimo. Esta teoria, porém, é contestada por pesquisadores que alegam que povos como os babilônios e os persas já usavam semanas de sete dias antes dos hebreus, em contraposição, por exemplo, aos egípcios, que usavam uma semana de dez dias.

De qualquer forma, na semana dos hebreus, nenhum dos dias tinha um nome próprio; eles eram conhecidos, simplesmente, como "primeiro dia", "segundo dia", "terceiro dia", e assim por diante - exceto o último dia da semana, que não era o "sétimo dia", e sim o "dia do descanso", justamente em alusão à já citada passagem bíblica. Essa nomenclatura com dias numerados era usada também por outros povos da região, como os persas, com a exceção de que, para eles, o sétimo dia realmente se chamava "Sétimo Dia". Até hoje, no idioma hebraico, os dias da semana possuem os nomes originais numerados; em árabe é usada uma nomenclatura semelhante, com o sétimo dia sendo o "dia do descanso", mas apenas os cinco primeiros dias sendo numerados em ordem, do primeiro ao quinto, sendo o sexto o "dia da reunião", em alusão à Jumu'ah, a oração coletiva que ocorre todas as sextas-feiras nas mesquitas.

 

Hebraico

Árabe

Persa

Dom

Yom Rishon

Al-Ahad

Mehr Ruz

Seg

Yom Sheyni

Al-Ithnayn

Maah Ruz

Ter

Yom Shlishi

Ath-Thulatha

Bahraam Ruz

Qua

Yom Revi'i

Al-Arbi'a

Tir Ruz

Qui

Yom Khamishi

Al-Khamis

Hormazd Ruz

Sex

Yom Shishi

Al-Jum'ah

Naahid Ruz

Sab

Yom Shabbat

As-Sabt

Keyvaan Ruz


Na Babilônia, entretanto, alguém deve ter achado que essa coisa de dias da semana numerados era muito chata. Os babilônios, ao contrário dos hebreus, não acreditavam em um Deus único, e sim em um panteão de vários deuses; além disso, eles eram um povo cientificamente avançado para a época, e já haviam observado que, no céu, nem todos os pontinhos brilhantes eram estrelas, com alguns sendo planetas. Para os babilônios, entretanto, os planetas não eram corpos celestes semelhantes à Terra, e sim os deuses de seu panteão, que moravam na abóbada celeste e de lá decidiam o rumo das vidas dos humanos; na época, eles já haviam identificado "sete" planetas, pois consideravam que a Lua e o Sol eram planetas, e, a olho nu, é possível visualizar no céu Mercúrio, Vênus, Marte, Júpiter e Saturno - para visualizar Urano e Netuno é preciso um telescópio, por isso o primeiro só seria descoberto em 1781 e o segundo em 1846 (Plutão, que originalmente era um planeta mas depois foi rebaixado, só seria descoberto bem mais recentemente, em 1930). Aproveitando a coincidência entre sete planetas no céu e sete dias da semana, eles decidiriam dar o nome de um dos deuses que imaginavam ser os planetas para cada um dos dias da semana.

Os antigos gregos eram um pouco mais espertos que os babilônios, e sabiam que os planetas não eram deuses - afinal, os deuses moravam no Monte Olimpo, e não na abóbada celeste. Os gregos, contudo, já usavam também a semana de sete dias - não se sabe se por influência de outro povo ou por ideia própria - e, graças ao comércio com os babilônios, ficariam sabendo que eles haviam decidido usar os nomes dos deuses para os dias da semana. Não importa se eles gostaram da ideia ou se simplesmente passaram a usá-la para facilitar o comércio, mas o evidente é que os gregos não iriam usar os nomes dos deuses babilônios - pois os deuses babilônios eram claramente inventados, sendo os gregos os verdadeiros. Assim, os gregos começariam a usar os nomes de seus próprios deuses para os dias da semana, fazendo, para esse fim, uma substituição simples: sendo Nergal o deus da guerra babilônio, ele seria substituído por Ares, o deus da guerra grego; a deusa do amor babilônia Ishtar seria substituída por Afrodite, a deusa do amor grega, e assim por diante. Os gregos também adicionariam a cada nome a palavra hemera, que significa "dia", para que os nomes não fossem idênticos aos dos deuses, e sim uma espécie de homenagem; o domingo, portanto, era o "dia de Hélios", o sábado era o "dia de Cronos" etc.

Um dia, a Grécia Antiga foi invadida pelo Império Romano, e a cultura grega acabaria influenciando vários aspectos do dia a dia romano, dentre eles, os dias da semana. Originalmente, os romanos usavam uma semana de oito dias, conhecida como nundinum; sob influência da cultura grega, eles começariam a usar também uma semana de sete dias, nomeados de acordo com os deuses - evidentemente, de acordo com os deuses romanos, não os gregos. Mais uma vez, foi uma questão de simples substituição, trocando-se Zeus por Júpiter, Hermes por Mercúrio e por aí vai.

 

Babilônia

Grécia Antiga

Roma

Dom

Shamash

Hemera Helios

Dies Solis

Seg

Sin

Hemera Selenes

Dies Lunae

Ter

Nergal

Hemera Areos

Dies Martes

Qua

Nabu

Hemera Hermes

Dies Mercurii

Qui

Marduk

Hemera Zeus

Dies Jovis

Sex

Ishtar

Hemera Aphrodites

Dies Veneris

Sab

Ninurta

Hemera Khronus

Dies Saturni


É importante comentar duas coisas sobre essa nomenclatura: em primeiro lugar, aparentemente os dias da semana estão fora da ordem, ou seja, não correspondem à ordem dos planetas no céu; isso ocorre porque os babilônios, por algum motivo, resolveram dar os nomes começando a sequência pela segunda-feira e sempre "pulando um", o que fez com que a ordem ficasse segunda-quarta-sexta-domingo-terça-quinta-sábado; a essa ordem, eles atribuíram os nomes dos planetas na ordem de distância em relação à Terra, do mais próximo para o mais distante, ou seja, Lua-Mercúrio-Vênus-Sol-Marte-Júpiter-Saturno (eu sei que Vênus fica mais perto da Terra do que Mercúrio, mas, aparentemente, os babilônios achavam que era o contrário). Em segundo lugar, os gregos não acreditavam que os planetas eram os deuses, mas na Grécia Antiga já existia a astrologia, que buscava determinar a influência dos corpos celestes sobre a vida das pessoas; não se sabe se por influência dos babilônios, a astrologia logo começaria a usar os nomes dos deuses gregos para se referir aos planetas, com esses nomes sendo "convertidos" para os dos deuses romanos durante a época do Império Romano. Talvez por falta de nomes melhores, essa convenção seria mantida pelos astrônomos modernos, e é por isso que, até hoje, nos referimos aos planetas por nomes de deuses romanos - vale citar que, curiosamente, Urano, batizado pelo astrônomo alemão Johann Elert Bode, não seguiria essa convenção, já que Urano é um deus grego, cujo equivalente romano é Caelus; os nomes romanos voltariam a ser usados, porém, para Netuno (cujo equivalente grego era Poseidon) e Plutão (cujo equivalente era Hades).

Enfim, seria no Império Romano que os dias da semana ganharia nomes "em homenagem aos planetas", embora não fosse essa a intenção original. Começando pelo domingo, na ordem, eles seriam conhecidos como Dia do Sol, Dia da Lua, Dia de Marte, Dia de Mercúrio, Dia de Júpiter, Dia de Vênus e Dia de Saturno.

Ao longo do tempo, no dia a dia, dois desses nomes seriam alterados. Assim como em outras civilizações, em Roma havia, uma vez por semana, um "dia do descanso", no qual as pessoas não trabalhavam e ficavam com suas famílias. Após a adoção da semana de sete dias, por influência dos hebreus, ficaria determinado que esse dia seria o sétimo, o Dia de Saturno. Essa coincidência levaria ao surgimento de uma nova palavra, sabatum, uma corruptela do hebraico shabbat. que significava "descanso" (e de onde vem o termo "sabático", usado hoje quando alguém quer ficar um período sem fazer alguma coisa, tipo quando um atleta "tira um ano sabático", ou seja, fica um ano sem competir). Como o sétimo dia, em hebraico, era o yom shabbat, logo os romanos começaram a chamar o sétimo dia de Dies Sabatum, o "dia do descanso", ao invés de Dies Saturni.

Após a ascensão do cristianismo, ocorreu algo parecido. Segundo os cristãos, Jesus Cristo morreu no sexto dia de uma semana, e ressuscitou no primeiro dia da semana seguinte; o primeiro dia da semana para os cristãos, portanto, era um dia de reflexão e oração, o que os levava a trabalhar no sétimo dia e folgar no primeiro. Logo, o primeiro dia, ao invés de Dies Solis, começaria a ser chamado de Dies Dominicus, o "Dia de Louvar ao Senhor". Esses dois nomes (Dies Sabatum e Dies Dominicus) não eram "oficiais", sendo usados apenas no dia a dia; nos idiomas que tiveram sua origem no latim, entretanto, eles é que foram mantidos, o que nem chega a ser surpreendente, já que a população que usava esses termos é que foi a responsável pelo surgimento das novas línguas. Assim, nos idiomas latinos, cinco dos dias da semana têm nomes que são corruptelas dos nomes dos deuses romanos, mas o primeiro e o sétimo usam corruptelas, respectivamente, de Dominicus e Sabatum.

 

Italiano

Espanhol

Francês

Romeno

Dom

Domenica

Domingo

Dimanche

Duminica

Seg

Lunedi

Lunes

Lundi

Luni

Ter

Martedi

Martes

Mardi

Marti

Qua

Mercoledi

Miércoles

Mercredi

Miercuri

Qui

Giovedi

Jueves

Jeudi

Joi

Sex

Venerdi

Viernes

Vendredi

Vineri

Sab

Sabato

Sábado

Samedi

Simbata


O Império Romano chegou a conquistar quase toda a Europa, de modo que não somente a semana de sete dias, mas também os nomes dos dias em homenagem aos deuses se espalhou por vários outros idiomas. Os povos nórdicos, entretanto, tinham seus próprios deuses, e, assim como os gregos fizeram em relação aos deuses babilônios, decidiram usar os correspondentes nórdicos dos deuses romanos para nomear seus dias. Como a correspondência não era perfeita, porém, aconteceram algumas divergências: Marte, o deus romano da guerra, foi substituído por Tyr, e Vênus, a deusa romana do amor, por Freiya sem problemas, mas Júpiter, para os romanos, era tanto o "chefe" dos deuses quanto o deus do trovão, enquanto para os nórdicos o pai dos deuses era Odin, enquanto o deus do trovão era Thor; como Thor era um deus muito popular e não poderia ficar de fora, eles acabaram optando por substituir Hermod, que correspondia a Mercúrio e não era muito venerado, por Odin, fazendo com que o quarto dia fosse em homenagem a Odin e o quinto em homenagem a Thor. Os dias em homenagem ao Sol e à Lua, que não eram personificados no panteão nórdico, foram mantidos.

Esses nomes surgiram na região hoje conhecida como Escandinávia, que corresponde à Dinamarca, Noruega e Suécia, de forma que, nesses três países, os nomes dos dias da semana até hoje são os mesmos, apenas com algumas diferenças de acentuação (o domingo é søndag em norueguês, mas söndag em sueco, por exemplo); vale citar, nesse caso, uma curiosidade envolvendo o sábado: assim como ocorreu em Roma, na Escandinávia o sétimo dia da semana ganhou um apelido que depois acabou virando seu nome oficial; nesse caso, porém, o apelido foi lørdag (lördag em Sueco), que significa "Dia de Tomar Banho".

Os nomes surgidos na Escandinávia acabariam adotados também nos idiomas anglo-germânicos, com algumas adaptações: em inglês e em holandês, por exemplo, não surgiu o "Dia de Tomar Banho", de forma que o sábado continuou sendo o "Dia de Saturno", que não tinha um equivalente no panteão nórdico; também nesses idiomas, Odin era conhecido como Woden, por isso a quarta-feira é Wednesday em inglês e woensdag em holandês. Já em alemão e holandês, a terça-feira não seria o "Dia de Tyr", e sim o "Dia da Ding", uma espécie de assembleia formada por representantes do povo, comum nos governos germânicos, da qual Tyr era o patrono. Em alemão, aliás, os nomes dos dias da semana ainda têm duas outras peculiaridades: o sábado é Samstag, que também seria o "dia do descanso", por influência dos judeus, e a quarta-feira é Mittwoch, que significa, literalmente, "meio da semana".

 

Escandinávia

Inglês

Alemão

Holandês

Dom

Sondag

Sunday

Sonntag

Zondag

Seg

Mandag

Monday

Montag

Maandag

Ter

Tirsdag

Tuesday

Dienstag

Dinsdag

Qua

Onsdag

Wednesday

Mittwoch

Woensdag

Qui

Torsdag

Thursday

Donnerstag

Donderdag

Sex

Fredag

Friday

Freitag

Vrijdag

Sab

Lordag

Saturday

Samstag

Zaterdag


Eventualmente, a semana de sete dias chegaria à Índia; como lá a astrologia era bastante popular, a primeira coisa na qual eles pensaram ao ver os nomes dos dias da semana não foi nos deuses, e sim nos planetas, de forma que a adaptação não ocorreria com a correspondência entre os deuses romanos e os deuses hindus, e sim entre os nomes dos planetas e os nomes dos vara, entidades que, segundo a astrologia indiana, regem a vida dos seres humanos, cada uma delas associada a um planeta. Assim, o Sol, a Lua, Mercúrio, Vênus, Marte, Júpiter e Saturno seriam substituídos, respectivamente, por Ravi, Soma, Budha, Shukra, Mangala, Guru e Shani. Todos os idiomas da Índia e mais alguns do sul e sudeste asiático (como o tailandês e o nepalês) usam nomes dos dias da semana baseados nos vara; os nomes exatos, porém, variam entre um idioma e outro.

Já no extremo oriente as coisas sairiam um pouco diferentes. No Japão, por exemplo, os dias da semana não são nomeados em homenagem a deuses ou planetas, e sim em homenagem aos cinco elementos da mitologia japonesa. Os dois primeiros dias ainda são do Sol e da Lua, mas os cinco seguintes são o dia, respectivamente, do Fogo, Água, Madeira, Ouro e Terra. Essa mesma nomenclatura é usada nas Coreias, embora evidentemente, com os nomes dos dias em coreano, e não em japonês. Essa nomenclatura foi copiada de uma usada na antiguidade na China, que associava cada um dos planetas a um elemento, fazendo a correspondência entre esses elementos e os nomes usados em Roma, embora não se saiba como os chineses tiveram contato com a nomenclatura romana; de qualquer forma, em 1911 a nomenclatura tradicional chinesa foi substituída por uma numerada, na qual o Domingo e o "Semana Sol", mas, a partir da segunda, temos o "Semana Um", "Semana Dois", e assim por diante até o "Semana Seis", que é o sábado.

 

Hindi

Japonês

Chinês

Dom

Ravivar

Nichi Yobi

Xing Qi Ri

Seg

Somavar

Getsu Yobi

Xing Qi Yi

Ter

Mangalvar

Ka Yobi

Xing Qi Er

Qua

Budhvar

Sui Yobi

Xing Qi San

Qui

Guruvar

Moku Yobi

Xing Qi Si

Sex

Shukravar

Kim Yobi

Xing Qi Wu

Sab

Shanivar

Do Yobi

Xing Qi Liu


A nomenclatura usada hoje na Grécia também já não é a mesma da antiguidade; hoje, os gregos usam dias da semana numerados, com três exceções: o primeiro dia, por influência do cristianismo, é o "Dia do Senhor", o sétimo, por influência dos hebreus, é o "Dia do Descanso", e o sexto é o "Dia da Preparação". Poucos idiomas, como o estoniano, o letão e o lituano, usam nomenclaturas nas quais todos os dias são numerados; em lituano, a contagem começa pela segunda-feira, e temos o "Primeiro Dia", "Segundo Dia", e assim por diante até o "Sétimo Dia". Muitos idiomas, como turco, armênio, geórgico, swahili, somali, amárico, vietnamita, indonésio, malaio, farsi, mongol e todos os do Leste Europeu usam uma nomenclatura mista, com alguns dias tendo nomes numerados e outros tendo nomes próprios. Em russo, por exemplo, o domingo é o "Dia da Ressurreição" e a segunda-feira é o "Dia Após o Fim de Semana"; aí temos o "Segundo Dia", o "Meio", o "Quarto Dia", o "Quinto Dia" e o "Dia do Descanso".

 

Grego

Lituano

Russo

Dom

Kyriaki

Sekmadienis

Voskresen'ye

Seg

Deftera

Pirmadienis

Ponedel'nik

Ter

Triti

Antradienis

Vtornik

Qua

Tetarti

Treciadienis

Sreda

Qui

Pempti

Ketvirtadienis

Chetverg

Sex

Paraskevi

Penktadienis

Pyatnitsa

Sab

Savato

Sestadienis

Subbota


Em português também é usada uma nomenclatura mista, com alguns dias sendo numerados e outros tendo nomes próprios. Essa nomenclatura é usada desde a fundação de Portugal, no ano 868; há registros, porém, de que, na mesma região, até cerca de 300 anos antes, era usada uma nomenclatura parecida com a do espanhol. Ninguém sabe o porquê de o português ser a única língua latina a usar a nomenclatura mista, com a teoria mais aceita sendo a de que isso teria sido causado por São Martinho de Duma, entre o ano 550 e 580, período no qual ele foi o arcebispo da cidade de Bracara Augusta, no Reino da Galícia, hoje cidade de Braga, Portugal.

Como os nomes dos dias da semana eram em homenagem aos deuses romanos, eram considerados por alguns membros da Igreja Católica como adoração a deuses pagãos. Dentre essas pessoas estavam São Martinho e o Papa Silvestre I, que, no século IV, determinou que a Igreja, em sua liturgia, utilizasse uma nomenclatura semelhante à do hebraico, com dias numerados excetuando-se o sábado e o domingo, mas usando nomes em latim. Assim, o domingo seria o primeiro dia, mas com o nome de "Dia de Louvar o Senhor", e o sábado o sétimo, mas com o nome de "Dia do Descanso", estando, dentre eles, o "Segundo Dia", "Terceiro Dia", "Quarto Dia", "Quinto Dia" e "Sexto Dia", todos os sete com seus nomes em latim, mas, para representar a palavra "dia", ao invés de dies, a Igreja escolheria a palavra feria, que literalmente significava "dia de festa" (de onde também surgiu a palavra "feriado"), mas que, na época, estava associada ao trabalho, pois eram nas feiras que os comerciantes expunham seus produtos para venda - até hoje, aliás, o comércio utiliza a palavra féria para se referir ao dinheiro ganho em um dia de trabalho. Ao contrário do que se possa pensar, porém, a Igreja não proferiu uma ordem para que todos os povos cristãos utilizassem estes nomes; o Papa Silvestre I apenas determinou que, na liturgia, ou seja, nos atos da Igreja relativos à própria Igreja - como missas, registros de batizados etc. - fossem utilizados os nomes numerados ao invés dos pagãos.

Por volta do ano de 572, São Martinho escreveria um livro chamado De Correctione Rusticorum ("a correção dos rústicos"), no qual lista várias práticas pagãs ainda encontradas dentre a população rural da Galícia, e sugere as melhores formas de abordagem por parte da Igreja para que sejam abandonadas em prol das práticas cristãs. Dentre estas práticas está a de se chamar os dias da semana por nomes de deuses pagãos, o que seria condenável porque, segundo ele, "não se pode nomear por demônios os dias que Deus fez". Imagina-se que, graças à sua influência no Reino da Galícia, São Martinho tenha conseguido implementar o costume na região, que depois se espalhou para o sul, e acabou oficializado quando da fundação de Portugal - corrobora para essa teoria o fato de que, no idioma galego, ainda falado na Galícia, que hoje faz parte da Espanha, os dias da semana também têm nomenclatura mista, com os numerados terminando em "feira".

 

Português Arcaico

Latim
Eclesiástico

Galego

Dom

Domingo

Dominica

Domingo

Seg

Lues

Feria Secunda

Segunda Feira

Ter

Martes

Feria Tertia

Terza Feira

Qua

Mércores

Feria Quarta

Corta Feira

Qui

Joves

Feria Quinta

Quinta Feira

Sex

Vernes

Feria Sexta

Sexta Feira

Sab

Sábado

Sabbatum

Sábado

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Jiu-Jitsu

Hoje eu vou falar sobre jiu-jitsu. Porque eu já falei sobre judô, caratê e sumô, então falta falar sobre jiu-jitsu.

Aliás, aqui no Brasil, se popularizou a grafia "jiu-jitsu", que será usada ao longo desse post. A grafia mais próxima do original japonês, e que atualmente é a mais usada internacionalmente, porém, é jujutsu. E, ao longo dos anos, em diversos países, também foram usadas as grafias ju-jutsu, jiu jitsu, jiujitsu, ju-jitsu e jujitsu, de forma que ainda é possível encontrar todas essas em textos e academias por aí.

E aliás também, assim como o judô e o caratê, o jiu-jitsu possui vários estilos, chamados ryu. Estima-se que, no século XVIII, existiam mais de dois mil estilos diferentes só no Japão; hoje, não se sabe ao certo quantos estilos ainda seriam praticados, mas estima-se que existam entre cem e duzentos, incluindo uma boa parcela criada fora da Terra do Sol Nascente - sendo os mais famosos o Hontai Yoshin-ryu (também conhecido como Takagi-ryu), o Danzan-ryu, o Jigo Tensin-ryu e o Hakko-ryu. Todos eles usam os mesmos fundamentos, com apenas algumas diferenças em relação a quais golpes seriam válidos ou uma certa preferência pela luta "de pé" ou no solo. O que interessa nessa história é que, por incrível que pareça, nesse post eu não vou abordar nenhum desses estilos; a razão para isso é que, diferentemente do judô (no qual o estilo adotado pela Federação Internacional reconhecida pelo COI, a IJF, é o Judô Kodokan) e do caratê (no qual o no qual o estilo adotado pela Federação Internacional reconhecida pelo COI, a WKF, é o Caratê Shotokan), a Federação Internacional de Jiu-Jitsu reconhecida pelo COI, a JJIF, não utiliza nenhum dos estilos originais, e sim um estilo híbrido, conhecido como "Jiu-Jitsu Moderno", "Jiu-Jitsu Internacional" ou "Jiu-Jitsu da JJIF". Assim como a Federação Internacional de Taekwondo (WTF), entretanto, a JJIF permite que lutadores de qualquer estilo do jiu-jitsu participem dos torneios que ela organiza, desde que eles sejam filiados a uma federação nacional que seja membro da JJIF e siga as regras da JJIF durante a competição em questão, o faz com que não existam "escolas de Jiu-Jitsu da JJIF". Se você leu meus outros posts sobre lutas desportivas, já deve ter deduzido que, ao longo desse post, toda vez que eu falar de regras, estarei me referindo às regras da JJIF, e não às de um estilo específico.

E um terceiro e último aliás antes de começarmos de vez: o jiu-jitsu mais praticado no Brasil, aquele fortemente associado à família Gracie, não é considerado um ryu. Conhecido internacionalmente como "Jiu-Jitsu Brasileiro" ou "Gracie Jiu-Jitsu", ele é considerado uma arte marcial totalmente diferente, derivada do jiu-jitsu (assim como, por exemplo, o judô), possuindo, inclusive, uma federação internacional própria, a Federação Internacional de Jiu-Jitsu Desportivo (SJJIF, da sigla em inglês), que conta com 45 membros, incluindo, evidentemente, o Brasil. Entretanto, como o Brasil, através da Federação Brasileira de Jiu-Jitsu, também é filiado à JJIF, os atletas brasileiros podem participar das competições da JJIF normalmente, desde que, como já foi dito, sigam as regras da JJIF enquanto estiverem competindo nelas - em outras palavras, lutem Jiu-Jitsu Internacional, e não Jiu-Jitsu Brasileiro. Se você está mais familiarizado com o Jiu-Jitsu Brasileiro, portanto, não estranhe as regras apresentadas em um primeiro momento nesse post - eu até vou falar sobre Jiu-Jitsu Brasileiro também, mas no final.

Enfim, chega de aliás e comecemos.

Segundo registros históricos encontrados no Japão, o jiu-jitsu foi criado durante o período conhecido como Sengoku, que compreende o espaço de tempo entre 1467 e 1603. Nesse período, o Japão vivia uma guerra civil (sengoku, inclusive, significa "feudos em guerra"), e alguns soldados começaram a combinar elementos de diversas artes marciais da época para criar uma que pudesse ser usada no campo de batalha. Essa arte marcial combinada acabaria tendo poucos golpes, mas muitos movimentos de arremesso, imobilização e estrangulamento, já que não era muito efetivo golpear um oponente de armadura, sendo mais fácil derrubá-lo e estrangulá-lo - os primeiros estilos do jiu-jitsu, aliás, como o Takenouchi-ryu, também eram bastante focados em movimentos que permitissem desarmar um oponente que estivesse carregando uma lança ou espada.

A popularização do jiu-jitsu, entretanto, só se daria em meados do século XVII, quando as guerras diminuíram e armas e armaduras passaram a ser peças decorativas; tendo pouco o que fazer, os soldados se reuniam e praticavam o randori, uma espécie de "luta amistosa", na qual os golpes eram cuidadosamente escolhidos para não ferir ou matar, apenas para demonstrar a superioridade de um dos lutadores sobre o outro. Foi nessa época que surgiu o termo jujutsu, que significa "arte gentil", mas no sentido de que ela era gentil para o praticante, e não para seu oponente, pois as técnicas do jiu-jitsu usavam a própria força e peso do oponente para derrubá-lo e sobrepujá-lo, o que era menos cansativo do que usar a força do praticante para golpear o oponente até derrotá-lo. De início, o nome jiu-jitsu não se referia a uma arte marcial em si, sendo usado como um termo genérico usado para se referir a qualquer arte marcial que envolvesse arremesso e imobilização (tanto que, no início, até o judô era considerado uma forma de jiu-jitsu); ainda hoje, no Japão, jujutsu é um termo genérico, com os estilos (ryu) sendo considerados as artes marciais em si.

Em pouco tempo, o jiu-jitsu se popularizaria também dentre os civis, que viam nas artes marciais não só um bom exercício físico, mas também uma excelente forma de aprender autodefesa. Começariam a surgir, portanto, as escolas de jiu-jitsu (ryuha), pequenos grupos liderados por um lutador já experiente, que pegava um pequeno grupo de alunos e lhes ensinava suas técnicas, com os melhores alunos, mais tarde, também se tornando professores - é essa, aliás, a razão pela qual existiam tantos estilos diferentes, já que cada professor costumava fazer modificações na arte que ensinava, de acordo com seu gosto pessoal ou visando torná-la, em sua opinião, mais efetiva.

O jiu-jitsu seria a arte marcial mais popular no Japão durante dois séculos, até ocorrer a chamada Restauração Meiji, que durou de 1868 até 1912. Nesse período, o Imperador Meiji decidiu fazer profundas mudanças políticas e sociais no Japão, que acabaram fazendo com que elementos tradicionais da cultura japonesa, como o teatro kabuki, a cerimônia do chá e o jiu-jitsu, fossem vistas como "de segunda classe", com a maioria da população japonesa não se interessando mais por elas. Ainda assim, um pequeno grupo de praticantes dessas artes resistiu, e, graças a alguns professores de jiu-jitsu que continuaram aceitando novos alunos, surgiria uma nova arte marcial, que acabaria sendo, inclusive, responsável pela ressurreição do jiu-jitsu: o judô.

Como vocês devem ter visto no meu post sobre judô, o judô foi inventado por Jigoro Kano, que, quando adolescente, sofria bullying na escola, e pensou em aprender jiu-jitsu para se defender; como o jiu-jitsu estava malvisto, ele demorou para encontrar um professor, só conseguindo quando já era um universitário. Ainda assim, Kano decidiu iniciar seu treinamento, estudaria com três professores diferentes e, em 1882, decidiria se tornar também um professor. Mas, ao invés de ensinar um dos estilos que havia aprendido, ou de criar um estilo novo, Kano decidiria criar uma arte marcial totalmente nova, a qual chamaria de judô. O judô logo se tornaria extremamente popular, permitiria um renascimento das artes marciais no Japão, e acabaria influenciando até mesmo artes mais antigas que ele, como o caratê e o próprio jiu-jitsu; isso porque, com a popularização do judô, essas artes também voltariam a ser bastante procuradas, e passariam a adotar os elementos do judô que consideravam responsáveis por sua popularização - como o sistema de faixas coloridas para determinar a experiência do lutador, ou o conceito de que uma arte marcial é uma filosofia de vida, e não somente um tipo de luta.

Kano era contra a prática do judô como esporte, mas pouco pôde fazer para impedi-la, já que, com tantos praticantes, era meio que óbvio que eles iriam querer uma forma de determinar qual era o melhor, e, assim, no final do século XIX, já surgiriam os primeiros torneios. No início, o judô era visto como um estilo do jiu-jitsu, e, portanto, os torneios tinham, ao mesmo tempo, competições de judô e jiu-jitsu; em 1899, Kano seria convidado para fazer parte de uma comissão montada pelo governo do Japão que criaria as regras para esses torneios, efetivamente transformando não só o judô, mas também o jiu-jitsu, em esportes.

O judô começaria a se popularizar fora do Japão na década de 1920, quando surgiriam escolas, torneios e federações em vários países da Europa. O jiu-jitsu demoraria um pouco mais, com as primeiras escolas e torneios surgindo na Europa apenas na década de 1970. Com a união das federações nacionais de Alemanha, Suíça e Suécia, seria formada, em 1977, a Federação Europeia de Jiu-Jitsu; dez anos depois, com a adição de membros não-europeus, ela mudaria de nome para Federação Internacional de Jiu-Jitsu (IJJF), mudando para sua sigla atual (JJIF) em 1998 (quando houve uma mudança de lugar na palavra international no nome da federação em inglês, de antes para depois do nome ju-jitsu). Hoje, a JJIF conta com 121 membros dos cinco continentes, incluindo, como já vimos, o Brasil, e, desde 1990, é a única federação internacional que regula o jiu-jitsu reconhecida pelo Comitê Olímpico Internacional, sendo um de seus principais objetivos a inclusão do jiu-jitsu nas Olimpíadas.

Enquanto não estreia nas Olimpíadas, o jiu-jitsu faz parte dos World Games, nos quais estreou, no masculino e no feminino, em 1997, em Lahti, Finlândia. Curiosamente, a principal competição da JJIF, o Campeonato Mundial de Jiu-Jitsu, só começaria a ser realizado, também no masculino e no feminino, um ano depois, em 1998. O Mundial seria realizado a cada dois anos, sempre nos anos pares, de 2000 a 2008, quando passaria a ser disputado de quatro em quatro anos, sempre no mesmo ano das Olimpíadas.

O jiu-jitsu faz uso de três tipos de técnicas. O primeiro é conhecido como atemi-waza, ou as "técnicas traumatizantes"; esse grupo é composto por socos e chutes que não visam lesionar o adversário, e sim desequilibrá-lo para que fique mais fácil derrubá-lo e partir para as técnicas de solo. O segundo grupo é o das chamadas nage-waza, as "tecnicas de arremesso", com as quais o lutador efetivamente projetará o oponente em direção ao solo. Finalmente, temos as ne-waza ou "técnicas de solo", os movimentos que serão usados quando ambos os lutadores estiverem deitados no chão, que visam imobilizar o oponente, impedindo que ele contra-ataque. A maior parte da luta de jiu-jitsu ocorre no chão com o uso das ne-waza, sendo as demais técnicas usadas apenas para se alcançar esse estágio; por causa disso, assim como os lutadores de judô, os lutadores de jiu-jitsu (conhecidos no japão como jitsuka) treinam várias ukemi-waza, as "técnicas de queda", usadas para que, quando forem arremessados, não sofram nenhuma lesão ao atingir o chão.

Vale dizer também que, assim como os demais esportes baseados em artes marciais, o jiu-jitsu possui uma lista de "movimentos válidos", os golpes que podem ser usados durante uma competição; usar um "movimento inválido" normalmente só resulta em não se obter pontuação, mas, dependendo de alguns critérios, como colocar em risco a integridade física do oponente, ou usar movimentos inválidos reiteradas vezes, o lutador pode sofrer uma punição. A lista de movimentos válidos depende do estilo de jiu-jitsu que está sendo praticado, com a JJIF possuindo sua própria lista de quais movimentos seriam válidos em seus torneios.

A JJIF reconhece três modalidades do jiu-jitsu, conhecidas como duo, luta e ne-waza. Uma competição de duo funciona mais ou menos como uma competição de kata do caratê: nela, sempre em duplas, dois jitsucas da mesma equipe irão demonstrar as técnicas do jiu-jitsu aplicadas a situações simuladas de ataque e defesa. As duplas podem ser pareadas duas a duas, com aquela que obtiver mais pontos avançando e a outra sendo eliminada, até que só reste a dupla campeã, ou divididas em grupos, com aquelas de maior pontuação em cada grupo avançando para a fase eliminatória. Existem competições de duo de duplas masculinas, de duplas femininas e de duplas mistas; todas as três fazem parte do Mundial desde 1998, mas, nos World Games, as duplas masculinas e mistas estrearam em 1997, mas as duplas femininas apenas em 2001.

A cada etapa de uma competição de duo, cada dupla deve demonstrar 12 técnicas, sorteadas por um árbitro de um grupo de 20 possíveis - existem muito mais técnicas que isso, mas apenas 20 são selecionadas para cada etapa, para que os atletas possam se preparar propriamente. Essas técnicas são divididas em quatro grupos: ataque armado, no qual um dos jitsucas fingirá que está atacando o outro com uma faca (de borracha) ou bastão (de madeira, com entre 50 e 70 cm); ataque desarmado, no qual um atacará o outro com um soco ou chute; ataque corporal, no qual um atacará o outro agarrando um de seus braços ou pernas; e ataque de estrangulamento, no qual um atacará o outro com uma técnica de arremesso visando derrubá-lo e aplicar uma técnica de solo. O jitsuca atacado deverá usar uma técnica do jiu-jitsu apropriada para a situação sorteada para se defender e contra-atacar, ganhando pontos por isso. A demonstração é julgada por um painel de cinco árbitros, com cada um conferindo uma nota de 0 a 10, valendo meios pontos, com base em sete critérios: potência do ataque, realismo da situação, controle da técnica, efetividade, atitude, velocidade e capacidade de adaptação. A menor e a maior nota são descartadas, e as outras três são somadas para se determinar a nota daquela apresentação; as doze notas, então, são somadas para se determinar a nota final da dupla (sendo a nota máxima, portanto, 360 pontos).

A competição de luta é o que o próprio nome sugere, uma luta entre dois jitsucas de equipes diferentes, cada um visando marcar mais pontos que o adversário. Uma luta de jiu-jitsu dura três minutos, e é oficiada por três árbitros, sendo um árbitro central, que acompanha a luta próximo aos lutadores, tendo autoridade para interrompê-la (parando, também, o cronômetro) sempre que achar necessário, e sendo reponsável por atribuir os pontos e as punições a cada lutador. Os outros dois árbitros acompanham a luta de fora da área válida, sempre um seguindo o lado da área de luta pela horizontal e o outro pela vertical, e podem alertar o árbitro central quando perceberem uma pontuação ou penalidade que não foi marcada por ele - não podendo, porém, interromper a luta para isso.

O processo de luta no jiu-jitsu é dividido em três Fases, com movimentos válidos e pontuações diferentes para cada uma delas. Quando ambos os lutadores estão de pé e separados um do outro, como, por exemplo, no início ou reinício da luta, está acontecendo a Fase 1. Nessa Fase, são permitidas apenas técnicas de atemi-waza, e apenas as aplicadas acima da linha da cintura (chutes nas pernas, por exemplo, não são permitidos). Assim que um dos lutadores conseguir uma pegada firme no uniforme do adversário, se inicia a Fase 2, na qual são usadas as nage-waza e algumas ne-waza que podem ser usadas com o oponente de pé, sendo qualquer atemi-waza proibido - exceto no caso de o oponente atingir o adversário enquanto ele está efetuando a pegada. Assim que um dos lutadores estiver sentado ou deitado no chão, ou caso ambos os lutadores toquem com seus dois joelhos no chão, se inicia a Fase 3, na qual são válidas apenas as ne-waza. Não há limite de vezes em que cada fase pode ocorrer; toda vez que o árbitro interromper a luta durante a Fase 2 ou 3 com um comando de matte, a luta recomeça da Fase 1.

A pontuação é conferida da seguinte forma: durante a Fase 1, um golpe válido e que o oponente não tentou bloquear vale 2 pontos, enquanto um que ele tentou bloquear, mas não foi bem sucedido, vale 1 ponto. Na Fase 2, quando o oponente é arremessado ou derrubado com um golpe válido, o lutador recebe 1 ponto; exceto se o oponente bater com as costas ou com a barriga no chão antes de qualquer outra parte do corpo, quando ele recebe 2 pontos ao invés de 1. Caso o lutador consiga usar uma técnica de estrangulamento e o oponente esteja sentindo dor ou desconforto, o oponente pode bater com a mão no chão para pedir a interrupção da técnica; caso ele não consiga, e o árbitro note que ele está perdendo a consciência, pode interromper a luta com um comando de matte. Ambas essas situações conferem 2 pontos ao lutador caso ocorram na Fase 2, e 3 pontos caso ocorram na Fase 3.

Na Fase 3 também pode ocorrer, durante uma técnica de imobilização, uma situação chamada Osae-komi, que deve seguir os seguintes requisitos para ser validada: o imobilizado deve estar deitado no chão, sem conseguir se mover livremente, e ambas as pernas do imobilizador devem estar totalmente livres. Caso o imobilizador consiga manter a Osae-komi durante 10 segundos, ganhará 1 ponto; caso consiga mantê-la durante 15 segundos, ganhará 2 pontos; e, caso o imobilizado esteja sentindo dor ou desconforto e bata com a mão no chão, ou caso o árbitro note que ele vá perder a consciência e interrompa a luta, o imobilizador ganha 3 pontos. Caso o árbitro perceba que os requisitos da Osae-komi não estão mais sendo cumpridos, ele dá um comando de toketa; nesse caso, o tempo do Osae-komi para de ser contado, mas a luta não é interrompida, com ambos os lutadores continuando da mesma posição em que estavam - o fato de o imobilizado conseguir virar de lado, girar em seu próprio eixo, ou conseguir pegar uma das pernas do imobilizador depois que o tempo já estiver sendo contado, entretanto, não interrompe o Osae-komi.

É possível vencer uma luta de jiu-jitsu por ippon, o que ocorre toda vez que um lutador receber uma pontuação de 2 ou 3 pontos nas três fases de forma seguida - ou seja, uma pontuação de 2 pontos na Fase 1, uma de 2 pontos na Fase 2 que se iniciou imediatamente depois, e uma de 2 ou 3 pontos na Fase 3 que se iniciou imediatamente depois. Caso isso ocorra, a luta é interrompida imediatamente e o lutador que conseguiu o ippon é declarado vencedor, independentemente do tempo restante. Também é importante dizer que uma luta jamais vai para a prorrogação; caso um empate em pontos ocorra, vence o lutador que teve menos punições; se o empate persistir, vence o que conseguiu as pontuações mais altas (duas pontuações de 2 pontos valem mais que quatro pontuações de 1 ponto, por exemplo); persistindo, quem pontuou mais na Fase 3; então na 2; então na 1; e, se nem assim o empate for quebrado, os três árbitros se reúnem e decidem quem mereceu vencer.

O árbitro central inicia e reinicia a luta com o comando de hajime. Ele pode interromper a luta com dois comandos diferentes: deve ser usado o matte quando um ou ambos os lutadores deixam a área de luta durante as Fases 1 ou 2, ou quando ambos saem dela durante a Fase 3; quando ele vai aplicar uma punição a um dos lutadores durante a Fase 1; quando um dos lutadores precisa de atendimento médico; quando um dos lutadores está em risco de perder a consciência durante um estrangulamento; quando se passam 15 segundos em Osae-komi; quando acaba o contato entre os lutadores nas Fases 2 ou 3 e eles não retornam para a posição de Fase 1 sozinhos; ou quando um dos três árbitros julgar absolutamente necessário - sendo o motivo mais comum o uniforme de um ou de ambos os lutadores estar desarrumado a ponto de impedir o andamento correto da luta (sem a faixa ou com a camisa toda aberta, por exemplo). Já quando o árbitro deseja aplicar uma advertência ou punição a um dos lutadores durante as Fases 2 e 3, ele deve interromper a luta com o comando de sonomama. A diferença entre o matte e o sonomama é que, quando o árbitro anuncia matte, a luta sempre reinicia da Fase 1, mas, quando ele anuncia sonomama, a luta continua do mesmo ponto onde estava quando parou - sendo reiniciada com o comando de yoshi.

Para que um lutador receba uma punição, pelo menos dois dos três árbitros devem concordar que o comportamento inadequado ocorreu; caso isso ocorra, o lutador faltoso recebe um shido ou chui. Um shido é usado para uma falta leve, e vale 1 ponto para o oponente, sendo conferido em caso de falta de combatividade (caso o lutador apenas se defenda ou fuja da luta, sem efetivamente atacar o adversário), caso o lutador corra na direção do oponente sem intenção de desferir um golpe durante a Fase 1 (o que é conhecido como mubobe), ponha sua própria integridade física em risco com seu comportamento, saia voluntariamente da área válida de luta, empurre o oponente para fora da área válida de luta, use atemi-waza durante as Fases 2 ou 3, ataque o oponente após o comando de matte ou sonomama, tente machucar o oponente deliberadamente, ou execute ações que não servem a nenhum propósito a não ser ganhar tempo - demore para se levantar após um comando de matte ou ajuste o uniforme sem o comando do árbitro, por exemplo. Já um chui é usado para uma falta grave, e vale 2 pontos para o oponente (não contando, porém, para o ippon), sendo conferido no caso de o lutador usar socos, chutes, empurrões ou outros tipos de golpes com o claro intuito de ferir o oponente, jogar o oponente deliberadamente para fora da área de luta, falhar repetidamente em seguir as instruções do árbitro, usar golpes inválidos ou que possam ferir o oponente repetidamente, ou no caso de conduta antidesportiva - provocar o adversário ou a plateia, por exemplo.

Não há limite para o número de shido que um lutador pode receber durante uma luta, mas um lutador que receba dois chui em uma mesma luta é desclassificado por hansoku make ("derrota por desonestidade"). Um lutador que execute uma das seguintes quatro ações também é desclassificado, instantaneamente, por hansoku make: ferir o oponente propositalmente, erguer o oponente do chão durante um estrangulamento, usar golpes que "travem" o pescoço ou coluna do oponente, ou usar golpes que "torçam" os joelhos ou pés do oponente. Um lutador desclassificado por hansoku make termina a luta com 0 pontos, e seu oponente recebe 14 pontos, exceto no caso de ele já ter mais de 14 pontos quando o hansoku make ocorreu, quando se mantém o placar atual. Um lutador desclassificado por hansoku make duas vezes no mesmo torneio é expulso do torneio.

Um lutador que precise de atendimento médico por ter se ferido em condições normais de luta - ou seja, sem que tenha sido ferido deliberadamente pelo oponente - tem um total de 2 minutos por luta para recebê-lo - ou seja, se for atendido várias vezes, a soma de todos os atendimentos não pode ultrapassar 2 minutos. Caso esse tempo seja ultrapassado, ou caso o médico prestando atendimento conclua que o lutador não pode continuar, o lutador é desclassificado, e o placar final da luta é o mesmo do hansoku make: zero para o lutador desclassificado, 14 para o outro, ou seu placar atual caso ele já tivesse mais de 14. Um lutador que perca a consciência durante um estrangulamento também é automaticamente desclassificado, não só da luta, mas de todo o torneio, mesmo que ele ainda tenha lutas a fazer; por isso é importante o árbitro parar a luta quando percebe que um lutador vai perder a consciência, antes que isso efetivamente ocorra.

Assim como nas demais lutas desportivas, no jiu-jitsu os lutadores são divididos em categorias de peso, para que haja maior justiça nas competições. Atualmente, a JJIF utiliza sete categorias de peso no masculino e cinco no feminino. Para os homens, as categorias de peso são até 56 kg, até 62 kg, até 69 kg, até 77 kg, até 85 kg, até 94 kg e mais de 94 kg; para as mulheres, são até 49 kg, até 55 kg, até 62 kg, até 70 kg e mais de 70 kg.

Além de competições de luta individuais, a JJIF permite competições de luta de jiu-jisu por equipes. As equipes podem ser de três ou de cinco jitsucas, cada um de uma categoria de peso diferente, com direito a um reserva, que só pode substituir quem seja de de uma categoria de peso igual ou superior à dele. As regras da competição por equipes são as mesmas da individual, com cada vitória valendo um ponto para a equipe vencedora, e a primeira a obter a maioria dos pontos (dois no caso de equipes de três, três no caso de equipes de cinco) sendo a vencedora daquele embate. A competição por equipes ainda não faz parte dos World Games, mas está presente no Mundial, no masculino e no feminino, desde 2008.

Competições de luta também podem ser eliminatórias desde o início, com o lutador ou equipe vencedores avançando e os perdedores sendo eliminados até que só reste o campeão, ou com uma primeira fase de grupos seguida por uma fase eliminatória para a qual se classificam os melhores de cada grupo. Diferentemente do que ocorre com outras lutas desportivas, nos World Games e no Mundial as competições de jiu-jitsu não possuem repescagem, e os dois lutadores ou equipes derrotados nas semifinais devem se enfrentar pela única medalha de bronze disponível.

Finalmente, temos a competição de ne-waza, que é semelhante à competição de luta, mas muito mais centrada na luta de chão, por isso o nome. Uma luta de ne-waza dura 6 minutos ao invés de 3, e não é dividida em Fases; em compensação, atemi-waza nunca são permitidos, apenas nage-waza e ne-waza. A arbitragem conta com um quarto árbitro, que assiste à luta sentado, e pode fazer uso do recurso de vídeo (ou seja, assistir a um replay instantâneo) para dirimir dúvidas. A pontuação é marcada da seguinte forma: derrubar o oponente no chão mantendo seus próprios dois pés no chão, e em seguida imobilizá-lo passando ambos os braços por sua cintura, mantendo um dos joelhos em sua barriga, ou usando os dois braços e pelo menos uma perna, vale 2 pontos; derrubar o oponente e em seguida imobilizar apenas as suas pernas, apenas os seus braços, ou apenas o seu tronco de forma que ele não consiga se mover livremente vale 3 pontos; imobilizar os braços do oponente com seus braços e as pernas do oponente com as suas pernas vale 4 pontos; e imobilizar o oponente de forma que cada uma das pernas do imobilizador fique de um dos lados do corpo do imobilizado, com o imobilizador mantendo os dois joelhos ou um joelho e um pé no chão simultaneamente (ou seja, "montando" no oponente) vale 4 pontos. Todas essas pontuações só são aplicadas caso a imobilização dure no mínimo três segundos, e é possível obter mais de uma pontuação por imobilização (começar imobilizando as pernas do oponente e depois conseguir montar nele, por exemplo, vale 7 pontos). As categorias de peso são as mesmas da luta, e os torneios também podem ser eliminatórios desde o início ou com uma fase de grupos seguida de uma fase eliminatória.

As competições de ne-waza foram instituídas pela JJIF em 2010, e, segundo boatos, foram uma tentativa da entidade de criar um evento parecido com as competições de Jiu-Jitsu Brasileiro, que vêm ganhando cada vez mais popularidade no mundo. Ele foi incluído nos World Games, no masculino e no feminino, em 2013 (fazendo parte também da edição de 2017), e em 2014 foi realizado um Campeonato Mundial de Ne-Waza; até hoje, entretanto, o ne-waza ainda não foi incluído no Mundial de Jiu-Jitsu, nem tem outra edição programada de seu próprio Mundial.

O jiu-jitsu usa a mesma área de competição para todas as três disciplinas. Chamada tatami, ela é um quadrado de 12 m de lado, feita de material macio e antiderrapante. A área válida de luta do tatami é um quadrado de 8 m de lado, com o restante sendo a área de segurança, não podendo ter qualquer elemento. A cor da área de segurança deve sempre ser contrastante com a da área de luta; a JJIF recomenda verde para a área de luta e vermelho para a de segurança, mas a maioria das competições usa amarelo para a área de luta e azul para a de segurança. Um movimento que comece dentro da área de luta mas termine na área de segurança é considerado válido. Em torneios oficiais, até dois tatami podem ser usados simultaneamente, devendo haver uma área de pelo menos três metros entre um e outro.

O uniforme do jiu-jitsu se chama jitsugi, ou apenas gi, e é semelhante ao do judô e do caratê, sendo composto de uma camisa aberta, de mangas compridas, e de uma calça comprida presa na cintura por um cordão interno que deve ser amarrado; as mulheres devem usar uma camiseta branca justa por baixo da camisa para evitar indecências. Todos os jitsugi são feitos de algodão e sempre na cor branca; para se fechar a camisa, é usada uma faixa amarrada na cintura, sendo que, em competições oficiais de luta ou ne-waza, um dos competidores sempre usa uma faixa azul e o outro sempre usa uma faixa vermelha, para que os árbitros e o público possam identificar mais facilmente qual é qual. E competições de luta, também são usados protetores para as costas das mãos, para os pés (semelhantes a meias sem dedos e sem o calcanhar), caneleiras, protetores bucais semelhantes aos do boxe e, no caso das mulheres, protetores de seios; todas essas proteções, exceto o protetor de seios, devem ser da mesma cor da faixa que o lutador está usando (azul ou vermelha).

Falando em faixas, o jiu-jitsu também usa o sistema do kyu-dan, criado por Kano para o judô, no qual os lutadores usam na cintura faixas coloridas que denotam seu grau de proficiência naquela luta. Cada estilo de jiu-jitsu tem sua própria quantidade de kyu (os níveis iniciais), mas todos eles possuem 10 dan (os níveis mais avançados), com as cores das faixas também variando de estilo para estilo. A título de ilustração, no Jiu-Jitsu Brasileiro, a primeira faixa é a branca (que seria equivalente ao quarto kyu), seguida da azul (terceiro), roxa (segundo) e marrom (primeiro); um estudante faixa-marrom de no mínimo 19 anos e um ano nessa faixa pode fazer o teste para a faixa preta, que vai do primeiro ao sexto dan. O sétimo dan usa uma faixa listrada de preto e vermelho conhecida como "coral", e o sétimo pode usar essa mesma faixa ou uma listrada de branco e vermelho; o nono e o décimo dan usam uma faixa vermelha - apenas os cinco pioneiros do Jiu-Jitsu Brasileiro, porém, possuem o décimo dan, sendo o nono, atualmente, o nível mais alto que um estudante pode almejar.

Já que eu toquei no assunto, vamos falar um pouco sobre o Jiu-Jitsu Brasileiro antes de o post acabar. As origens do Jiu-Jitsu Brasileiro podem ser traçadas até 1914, quando o japonês Mitsuyo Maeda chegou ao Brasil, enviado por Kano, para ajudar a difundir o judô. Em 1917, Carlos Gracie viu uma apresentação de Maeda em um circo do qual seu pai, Gastão Gracie, era sócio, e pediu ao pai para aprender judô. Maeda aceitou Carlos como aluno, e logo também estava ensinando a arte marcial não só para Carlos e seus irmãos Osvaldo, Jorge, Gastão Jr. e Hélio, mas também para Luiz França, que havia sido aluno do imigrante japonês Geo Omori, que, em 1909, abriu a primeira escola de jiu-jitsu do Brasil. Hélio Gracie era o mais fraco dos alunos de Maeda, e não conseguia vencer seus oponentes apenas com as técnicas de projeção; diante disso, ele se concentrou no uso da alavanca e nas técnicas de imobilização, para que obtivesse uma vantagem ao lutar contra eles no solo. Essa nova técnica interessou a França, que começou também a praticá-la; ao longo dos anos seguintes, Hélio e França criariam várias novas técnicas inspiradas nas do judô e do jiu-jitsu, passando-as, também para seus próprios alunos. Hélio começaria a lutar profissionalmente na década de 1930, e logo seu estilo se tornaria conhecido no mundo todo como Jiu-Jitsu Brasileiro.

O Jiu-Jitsu Brasileiro é muito mais focado nas ne-waza que qualquer estilo do jiu-jitsu - mais, até, do que as competições de ne-waza da JJIF. O número de técnicas de ne-waza é bem maior, o de nage-waza é bem menor, e atemi-waza nunca são usados em competições, embora sejam nos treinos. O objetivo é sempre levar a luta para o chão, inclusive usando técnicas que não são permitidas no jiu-jitsu, como se jogar após conseguir a pegada, ou abraçar o oponente com os dois braços e as duas pernas e derrubá-lo com seu peso. Aliás, eu usei aqui os termos em japonês para título de comparação com o que foi apresentado até agora, mas, no Jiu-Jitsu Brasileiro, todos os termos, incluindo os nomes das técnicas, são em português - para iniciar e reiniciar a luta, por exemplo, o árbitro fala "lutem", e não hajime.

A pontuação é a mesma do ne-waza da JJIF (não por acaso, já que a JJIF copiou o sistema de pontuação), mas uma luta dura 10 minutos, e a luta é oficiada por apenas um árbitro. Não são usadas as proteções nas mãos, pés, canelas, boca e seios, e o gi é bem mais justo que o do jiu-jitsu, para tornar a pegada mais difícil - nas competições, aliás, não existe a obrigatoriedade de gi branco com faixa azul ou vermelha, podendo ser usado, para identificação, gi colorido (Kyra Gracie costumava usar um cor de rosa) ou faixas de outras cores (lutadores brasileiros costumam usar uma verde e amarela). As categorias de peso no masculino são até 57 kg, até 64 kg, até 70 kg, até 76 kg, até 82 kg, até 88 kg, até 94 kg, até 100 kg, acima de 100 kg e absolutos (da qual podem participar lutadores de qualquer peso); no feminino, são até 48 kg, até 53 kg, até 58 kg, até 64 kg, até 69 kg, até 74 kg, até 80 kg, acima de 80 kg e absolutas.

O principal campeonato do Jiu-Jitsu Brasileiro é o Campeonato Mundial de Jiu-Jitsu, realizado anualmente desde 1996 e totalmente dominado pelos brasileiros - das 220 medalhas de ouro disputadas até hoje no masculino, apenas três não foram conquistadas pelo Brasil, com duas ficando com os Estados Unidos e uma com Angola; no feminino o domínio é menor, mas, mesmo assim, de 123 ouros, somente 19 não ficaram com as brasileiras. O Mundial é organizado pela Federação Internacional de Jiu-Jitsu Brasileiro (IBJJF), uma organização particular filiada à SJJIF responsável pela organização de torneios e manutenção das regras do esporte.
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