Alfabeto (II)

Hoje eu vou adaptar mais um post do Almanaque BLOGuil para o átomo, o que falava sobre acentos e pontuação. Como os assuntos são relacionados, eu planejava juntá-lo ao post sobre o alfabeto e fazer um só, mas, como o do alfabeto acabou ficando maior que o esperado, acabei decidindo fazer o contrário: adicionar a ele mais informações sobre alfabetos, que eu acabei deixando de fora do primeiro, e transformá-lo em um Alfabeto (II).

Assim, vamos começar falando sobre as letras cursivas. Talvez você não saiba, mas atualmente está sendo travado um grande debate sobre a necessidade ou a importância de se ensinar às crianças a escrever em cursiva - também conhecidas como as letras "de mãozinhas dadas". Segundo aqueles que são contra, a maior parte das pessoas hoje digita (seja no computador, no smartphone, no tablet etc.) ao invés de escrever à mão livre, então não seria necessário que se aprendesse a escrita cursiva. A essas pessoas eu digo que, hoje em dia, a maior parte das pessoas faz contas usando uma calculadora, e nem por isso se está discutindo se devemos deixar de ensinar matemática nas escolas. Mas isso talvez fuja um pouco do propósito desse post, já que eu não pretendo explorar a validade ou a necessidade da escrita cursiva, e sim apenas a sua origem.

A escrita cursiva foi criada por volta do século II a.C., em Roma, mas, no início, era usada apenas por comerciantes, ao registrar suas transações. É importante notar que essas letras cursivas não eram as mesmas que usamos hoje, com a maioria tendo uma aparência bastante diferente, e até mesmo irreconhecível para nós; por isso, esse primeiro conjunto de letras cursivas ficaria conhecido como "romano cursivo arcaico".

A escrita cursiva não foi inventada porque os comerciantes não tinham mais o que fazer, e sim visando um propósito prático: as letras do alfabeto latino, com suas formas angulares, eram fáceis de se escrever, por exemplo, em uma gravação em pedra ou bronze, mas complicadas de se usar no dia a dia - na época, evidentemente, ninguém usava papel, e sim papiros, e, ao invés de lápis ou caneta, se usava uma pena de ave, cuja ponta era mergulhada em tinta. Apesar de a ponta da pena ter uma boa absorção - sendo este o motivo pelo qual era usada uma pena, e não, por exemplo, uma vareta de madeira - a quantidade de tinta que ela retinha não era suficiente para escrever durante um longo tempo, devendo a pena ser mergulhada na tinta inúmeras vezes cada vez que se fosse escrever alguma coisa. O fato de a pena ter que ser retirada do papiro para se fazer cada traço de cada letra piorava a situação, já que, para não escorrer e borrar o papiro todo, a tinta era de secagem rápida, o que significava que, cada vez que a pena deixava de encostar no papiro, a tinta em sua ponta secava um pouco.

Para tentar tanto economizar tinta quanto escrever mais rápido, os comerciantes, então, começaram a criar letras que, ao mesmo tempo em que lembrassem as letras originais, podiam ser escritas "de uma vez só", sem que a pena deixasse de encostar no papiro enquanto a letra estava sendo escrita. O nome "cursivo", portanto, não vem de "curso", "porque essa é a letra ensinada nas escolas", como eu já li uma vez: cursivus, em latim, significa "rápido e direto", como em uma viagem na qual você não faz escalas para chegar mais depressa. Como escrever em cursivo era mais rápido que escrever com as letras existentes até então, e cada letra era escrita "direto", sem a pena ser retirada do papiro, logo a escrita ganharia esse apelido, que acabaria pegando e se tornando seu nome oficial.

Apesar de suas vantagens, o romano cursivo arcaico tinha um sério defeito: suas letras eram quase ilegíveis. Muitas delas, como o E e o F, eram quase idênticas, enquanto outras, como o B e o R, em nada lembravam as letras originais. Conforme o uso da escrita cursiva foi se popularizando, portanto, um novo conjunto de letras seria criado pelos acadêmicos romanos, conhecido hoje como "novo romano cursivo". Esse conjunto também não é o mesmo que usamos hoje, mas a maioria de suas letras é bem semelhante às atuais, de forma que é bem mais fácil para nós ler algo escrito em novo romano cursivo do que em romano cursivo arcaico. Seu uso se popularizaria a partir do século III d.C., quando o novo romano cursivo começaria a ser usado nas escolas para se ensinar as crianças a escrever em latim.

Tanto no romano cursivo arcaico quanto no novo romano cursivo, as letras ainda não eram todas ligadas umas às outras como na escrita cursiva atual, já que o intuito era apenas escrever cada letra, e não cada palavra, sem retirar a pena do papiro - pois, se a pena fizesse muitos movimentos contínuos enquanto pressionada à superfície, o papiro poderia se romper. A escrita cursiva que usamos hoje começaria a surgir apenas no século VII, quando novos materiais, como o pergaminho e o velino, substituíssem o papiro como a forma preferencial de se registrar a linguagem escrita. A diferença na superfície desses materiais, feitos de couro de animais, em relação á do papiro, feito de fibras vegetais, permitiria que palavras inteiras fossem escritas de uma vez sem romper o material, o que resultou em maior economia de tinta, maior velocidade na escrita, e em um novo conjunto de letras diferentes. A principal característica desse novo conjunto seria que ele possui dois tipos de letras, as ascendentes e as descendentes, sendo que, nas descendentes (f, g, j, p, q, y e z) parte da letra deve ser escrita abaixo da linha, o que é feito para facilitar na hora de ligar a letra à anterior e à seguinte.

Curiosamente, não existe um modelo cursivo "oficial" para o alfabeto latino: ao longo desses séculos todos, várias formas diferentes de se escrever as letras em cursivo foram criadas, com algumas se tornando mais populares que outras, e sendo consideradas o padrão durante um tempo, até serem substituídas. Nos Estados Unidos, por exemplo, o padrão entre 1850 e 1925 era a chamada "escrita spenceriana", criada em 1840 pelo professor Platt Rogers Spencer, que desejava uma escrita que fosse, ao mesmo tempo, bonita, veloz e facilmente legível. Exemplos de palavras que são ainda hoje escritas usando a escrita spenceriana são os logotipos da Ford e da Coca-Cola - reparem como os C da Coca-Cola são diferentes dos que usamos hoje. A escrita spenceriana seria substituída pelo Método Palmer, criado pelo empresário Austin Palmer em 1888, e que começou a ser introduzido em 1920 como uma forma de escrita "apropriada para o mundo dos negócios". Hoje, o Método Palmer é o padrão para escrita cursiva nos Estados Unidos, embora outros modelos também sejam usados por grande parte da população, como o D'Neliano, criado pelo professor Donald Neal Thurber em 1978 para ajudar no ensino de letras cursivas para crianças, e o Zaner-Bloser, criado em 1888 pelo professor Charles Paxton Zaner, que em 1891 se associou a outro professor, Elmer Ward Bloser, e em 1895 fundou a Zaner-Bloser Company, devotada à publicação e venda de materiais que auxiliem no ensino da escrita cursiva.

Aqui no Brasil, o modelo ensinado nas escolas desde o início do século XX é conhecido como "letra vertical redonda", pois tem formas arredondadas e todas as letras ficam perfeitamente na vertical - na escrita spenceriana, por exemplo, as letras são levemente inclinadas para a direita, o que, no Brasil da época, se acreditava ser responsável, acreditem ou não, por deixar as crianças com miopia, estrabismo, ou até mesmo escoliose. A letra vertical redonda não foi criada no Brasil, e sim na França (onde se chama vertical ronde), e sua criação é atribuída à escritora George Sand, que a usava em seus manuscritos - vale citar como curiosidade que Sand faleceu em 1876, mas a vertical ronde só se tornou padrão na França a partir de 1881; antes disso, o padrão na França era o round hand, criado na Inglaterra em 1680 pelos editores John Ayres e William Banson, e foi padrão em muitos países europeus, mas gradativamente abandonado por ser considerado muito rebuscado.

É importante registrar que, apesar de existirem diferentes modelos de escrita cursiva, em todos eles as letras são semelhantes - mais ou menos como ocorre com as fontes com as quais escrevemos no computador, as letras podem ter aparência diferente, mas é fácil reconhecê-las. Assim, embora algumas letras possam parecer estranhas em relação ao que estamos acostumados - sempre achei o G maiúsculo usado nos Estados Unidos muito esquisito - para quem conhece um dos modelos de escrita cursiva não é difícil ler textos escritos usando outros.

Evidentemente, o alfabeto latino não é o único que pode ser escrito em cursivo; o número de sistemas de escrita que tem pelo menos um método de escrita cursiva é, porém, bastante reduzido: em apenas sete deles alguém, em algum momento, teve a ideia ou a necessidade de se escrever sem tirar a pena do papel - nos alfabetos latino, grego e cirílico, no abjad hebraico, na abugida bengali, no silabário cherokee e nos ideogramas chineses. Os abjads árabe e siríaco também costumam ser incluídos nessa lista, mas eles possuem uma característica que os diferencia dos outros sete: neles, a única forma de se escrever é ligando uma letra à outra, ou seja, em árabe e siríaco, só existe a forma cursiva, não existindo letras-bastão.

Depois do latino, o alfabeto grego foi o primeiro a ganhar uma escrita cursiva, que surgiu no século IV, provavelmente através de relações comerciais entre gregos e romanos. Assim como ocorreu com o alfabeto latino, as primeiras letras gregas cursivas eram tentativas de se escrever as letras já existentes sem retirar a pena do papiro ou pergaminho; ao longo do tempo essas letras foram evoluindo, até se chegar no modelo atual, criado no século XIX. Também como ocorre com o alfabeto latino, o grego cursivo é cada vez menos usado, estando restrito, praticamente, às escolas. Isso também ocorre com o bengali cursivo, cujas letras são mais arredondadas que as tradicionais, e têm pequenos apêndices que permitem que elas se liguem umas às outras; criado no século XVIII, o bengali cursivo é ensinado nas escolas de Bangladesh, mas pouco usado no dia a dia.

Com o alfabeto cirílico, porém, o panorama é diferente: em países como Rússia e Ucrânia, no dia a dia a população praticamente só escreve em cursivo, ficando as letras-bastão reservadas para documentos impressos. Isso costuma causar muitas dificuldades àqueles que não estão habituados com a escrita cursiva do cirílico, pois, além de muitas letras serem completamente diferentes de suas versões em letra-bastão (como o д), e de outras serem extremamente parecidas entre si (como o и e o м), ainda há o problema de que algumas letras cursivas cirílicas se parecem com letras cursivas latinas sem qualquer relação com elas (o т cirílico é idêntico ao m latino). O alfabeto cirílico cursivo (oficialmente chamado rukopisnoye pis'mo, "escrita à mão livre") foi criado na Rússia, no século XVIII, pela Escola Russa de Taquigrafia, para se tornar o modelo oficial para se escrever em russo de forma cursiva, substituindo vários modelos conhecidos como skoropis, usados pela população em geral entre os séculos XIV e XVII, e que, assim como o romano cursivo arcaico, surgiram com os comerciantes e suas anotações. Graças ao poderio da Rússia e da União Soviética, esse modelo se tornaria padrão em todos os países que usam o alfabeto cirílico, exceto na Sérvia e na Macedônia, já que, na Iugoslávia, da qual ambas faziam parte, ele sofreria algumas modificações, que deixariam as letras б, г, д, п e т com aparências diferentes.

Outro país no qual a escrita cursiva é mais usada que as letras-bastão é Israel, o que significa que a forma cursiva do abjad hebraico ainda vai bem, obrigado. Assim como no alfabeto latino, existem vários modelos diferentes de hebraico cursivo, os mais antigos datando do século V, sendo que um deles, chamado ashkenazi, criado na Europa Central no século XIII, é hoje considerado o padrão para se escrever de forma cursiva em hebraico e em ídiche. Uma curiosidade do hebraico cursivo é que suas letras são bastante diferentes das letras-bastão, o que causa estranheza em quem não está acostumado com elas. Diferentemente dos alfabetos latino, grego e cirílico, no hebraico cursivo as letras não se ligam umas às outras, sendo seu único propósito a possibilidade de se escrever cada letra com um único traço.

Já a escrita cursiva dos ideogramas chineses atualmente quase não é usada, exceto como arte. Ela surgiu durante a Dinastia Han, entre os anos 265 e 420 d.C., com o intuito de permitir que se escrevesse com mais velocidade; os principais métodos para que isso fosse alcançado foram omitir parte dos ideogramas, juntar dois traços em um só, juntar vários pontos em um traço e modificar os estilos dos traços - dessa forma, era possível, por exemplo, reduzir um ideograma de 14 traços para apenas três. Ao longo do tempo, a escrita cursiva chinesa foi se modificando, e hoje temos dois modelos, o chamado cursivo moderno e o chamado cursivo livre, que é ilegível para a maior parte da população, e por isso seu uso é reduzido. O cursivo moderno deu origem aos ideogramas usados no chinês simplificado e, segundo alguns historiadores, ao hiragana japonês, mas jamais se tornou popular.

Vamos passar agora para as letras maiúsculas e minúsculas. Já estamos tão acostumados a usar letras maiúsculas e minúsculas que muita gente sequer para para se perguntar por que elas existem - ou por que algumas delas são tão diferentes em cada versão, como, por exemplo, G e g. Entretanto, parece óbvio que as letras maiúsculas e minúsculas não existem desde a invenção do alfabeto, então talvez seja interessante descobrirmos como elas surgiram e para que propósito.

De fato, quando os alfabetos grego e latino surgiram, todas as suas letras não somente eram maiúsculas, como também seguiam um padrão, tendo todas a mesma altura. As letras também eram todas angulares, ou seja, com poucas ou nenhuma curva, para facilitar sua gravação em em pedra, bronze ou madeira. Esteticamente, as letras angulares e todas do mesmo tamanho produziam um belo efeito, mesmo quando escritas em papiro, mas, no dia a dia, fazer todas as letras do mesmo tamanho e cheias de ângulos e linhas retas era extremamente complicado; exceto por textos oficiais e religiosos, mesmo aqueles que não escreviam com letras cursivas eram mais relaxados na hora de escrever, o que produzia letras mais arredondadas e de diferentes tamanhos. Alguns escribas começaram a experimentar usar essas letras em seus trabalhos, mas fazer letras arredondadas bonitas em papiros era extremamente difícil, devido à sua superfície áspera, de forma que as tentativas resultavam em aparência pouco profissional, sendo rapidamente descartadas.

Isso começaria a mudar no século IV, quando o pergaminho e o velino começassem a ser introduzidos para o registro de textos religiosos. Como o material do pergaminho era mais suave que o do papiro, os escribas podiam trabalhar em lindas letras arredondadas, muitas vezes escritas sem retirar a pena do pergaminho, como na escrita cursiva. Isso daria origem a um estilo de escrita hoje conhecido como uncial, nome cunhado no início do século XVIII pelo monge e linguista francês Jean Mabillon, que a retirou de um prefácio escrito em latim por São Jerônimo para uma versão comentada do Livro de Jó - curiosamente, São Jerônimo usa o termo uncialibus, que seria "uncial" em latim; como ninguém sabe o que é "uncial", acredita-se que, originalmente, ele escreveu inicialibus ("inicial"), e o termo foi corrompido durante uma cópia.

Seja como for, a escrita uncial visava imitar as letras latinas existentes na época, mas usando formas arredondadas, e sempre buscando fazer cada letra com um único traço. Ela jamais se popularizaria dentre a população em geral, que se sentia mais à vontade escrevendo em cursiva, e para quem o pergaminho só estaria disponível em larga escala três séculos mais tarde, mas, por sua beleza, logo se tornaria a escrita preferida dos escribas e copistas, que a usavam em seus textos oficiais e religiosos, algumas vezes ainda decorando-os com versões maiores e finamente trabalhadas das letras iniciais de cada parágrafo.

A escrita uncial seria a mais popular para o alfabeto latino até o final do século VIII, quando seria substituída pela escrita carolina, criada por monges beneditinos da abadia de São Pedro de Corbie, na França, sob a patronagem do Imperador Carlos Magno (por isso o nome "carolina"), que, apesar de ser quase analfabeto, era defensor ferrenho da disseminação da cultura através da leitura e da escrita. Baseada na escrita uncial usada na Inglaterra e Irlanda, e visando, a mando de Carlos Magno, ser o mais legível possível - para que o maior número possível de pessoas pudesse compreendê-la - a escrita carolina mesclava linhas grossas e finas, curvas e retas, criando letras fáceis não somente de ler, como também de escrever. Além disso, a escrita carolina possuía uma característica hoje considerada banal, mas que, na época, não era o padrão nem na escrita uncial, nem na tradicional: o espaçamento. Pois é, até então, as palavras eram escritas extremamente próximas umas das outras, algumas vezes como se todo o texto fosse uma palavra só, sendo difícil determinar onde terminava uma palavra e começava a outra se o leitor não estivesse habituado com o vocabulário usado; a escrita carolina acabou com esse problema, colocando espaços bem definidos entre uma palavra e outra.

Além do espaçamento, a escrita carolina trazia letras maiores e bem demarcadas, mas sem nenhuma decoração, no início de cada parágrafo. É interessante notar, porém, que nem a escrita carolina, nem a escrita uncial, tinham letras maiúsculas e minúsculas; todas as letras eram idênticas, com as do início dos parágrafos sendo maiores apenas para demarcá-los. Nesse estágio da evolução da escrita, ainda não se misturavam letras maiúsculas e minúsculas no mesmo texto; cada modelo de escrita era considerado um "alfabeto separado", e, quando se escolhia um modelo, apenas as letras daquele modelo eram usadas.

Por ordem de Carlos Magno, a escrita carolina se tornaria o padrão na Europa - embora outros modelos, como a uncial e a chamada merovíngia, ainda fossem usadas em menor escala por alguns rebeldes. Conforme se espalhava pelo continente, a escrita carolina evoluiria, ganhando diferentes características: na França as letras tinham traços finos e longos, enquanto na Alemanha as letras costumavam ser mais largas e mais altas. Foi esse segundo tipo, inclusive, que acabaria substituindo a escrita carolina: em meados do século XII, conforme as universidades se popularizavam, a demanda por livros crescia, e as letras carolinas, após mais de três séculos de domínio, se viram incapazes de supri-la devido a um problema prático - as letras carolinas tradicionais, largas, levavam muito tempo, davam muito trabalho, consumiam muita tinta e ocupavam muito papel. Enquanto eram usadas apenas para documentos e textos religiosos, isso não era um problema, mas quando as universidades passaram a precisar de várias cópias de seus livros de direito, gramática, história e outros assuntos, os escribas e copistas se viram sem tempo nem material para atender à demanda adequadamente.

As letras usadas na Alemanha, por outro lado, sendo estreitas e menos decoradas, podiam ser escritas em menos tempo, gastando menos tinta e ocupando menos papel que suas "rivais", e logo se tornariam o padrão para os livros universitários. No século XV, durante a Renascença, esse tipo de letra seria batizado como "gótica", palavra que, à época, era sinônimo de "bárbara", porque a letra era considerada muito feia, como se tivesse sido escrita por bárbaros, e não por homens letrados ("gótico", aliás, é uma espécie de erro de tradução: em português, o correto seria "godo", o nome de uma das tribos bárbaras que habitavam a Alemanha na época da queda do Império Romano; em italiano, porém, "godo" é "gotico", nome que foi mantido em português para a letra, mas não para a tribo). E é essa a parte que nos interessa, já que a escrita gótica foi a primeira a ter maiúsculas e minúsculas bem definidas.

Lembram-se das letras grandes e decoradas do início de cada parágrafo na escrita uncial? A escrita gótica também as tinha, mas com uma diferença: as do início de cada frase, bem como as do início de nomes próprios, também era maior e decorada - embora as do início de cada parágrafo, às vezes, fossem mais finamente decoradas ainda. Outra diferença era que, enquanto nas escritas uncial e carolina as letras maiores eram idênticas às menores, na escrita gótica elas eram diferentes: as menores lembravam a escrita carolina, enquanto as maiores lembravam as letras originais do alfabeto latino. Não se sabe como essa característica surgiu, mas, a partir do século XV, durante a Renascença, ela começou a ser imitada por escribas que usavam outros tipos de letras. Como a Renascença ditava a moda na Europa, esse costume se espalhou, e acabou dando origem às letras maiúsculas e minúsculas. E é por isso que as minúsculas (pelo menos no alfabeto latino) não são simplesmente versões menores das maiúsculas.

Assim como ocorre com a escrita cursiva, o alfabeto latino, obviamente, não é o único a ter letras maiúsculas e minúsculas. O nome técnico para um sistema de escrita que tem letras maiúsculas e minúsculas é bicameral, e, atualmente, seis sistemas de escrita são bicamerais: os alfabetos latino, grego, cirílico e armênio, o silabário cherokee e a abugida varang kshiti (usada para escrever em um idioma chamado ho, falado em partes da Índia e de Bangladesh); no passado, os alfabetos húngaro antigo, glagolítico e cóptico (um alfabeto derivado do grego, oficial no Egito até o século XIII, quando foi substituído pelo árabe), também eram bicamerais, mas hoje só podem ser encontrados em textos antigos preservados, não sendo usados no dia a dia.

As letras minúsculas do alfabeto grego, assim como as cursivas do hebraico, possuem a distinção de serem, salvo algumas exceções, completamente diferentes de suas versões maiúsculas. Sua primeira versão surgiu no século VII, quando escribas gregos criaram uma versão da escrita uncial para o alfabeto grego, partindo do mesmo princípio: letras arredondadas e que pudessem ser escritas com um único traço cada. A escrita uncial grega foi mais duradoura que a latina, resistindo até o século XII, quando assumiu as formas usadas até hoje - que, evidentemente, não apareceram da noite pro dia, e sim foram resultado de uma evolução da escrita ao longo desses séculos. Assim como no alfabeto latino, originalmente em grego não se misturavam maiúsculas e minúsculas; essa prática começou a ser usada por volta de 1300, provavelmente inspirada pelas letras góticas. Uma característica interessante do alfabeto grego, que vale ser citada, é que a letra sigma (equivalente ao nosso S) possui duas versões minúsculas, sendo que uma delas só é usada quando tal letra aparece no final de uma palavra. Isso também existia na escrita uncial do alfabeto latino, que tinha uma versão do s, hoje conhecida como "s longo" (ſ), própria para se usar no meio das palavras, com a que usamos hoje aparecendo apenas no final; com a escrita carolina, o s longo foi abandonado, passando o "s comum" a ser usado em qualquer posição.

Já as minúsculas dos alfabetos cirílico e armênio surgiram pela imitação de seus pares. Ambos foram inventados por apenas uma pessoa cada, o cirílico por São Clemente de Ocrida, o armênio por Mesrop Mashtots, estudioso da corte do Rei Vramshapuh, que, no final do século IV, foi ordenado por seu monarca a criar um alfabeto para substituir a escrita cuneiforme usada pelo povo armênio até então. Estudando os alfabetos existentes na época, Mashtots chegou à conclusão de que o melhor método era o do grego, no qual cada letra correspondia a exatamente um som; com isso em mente, ele criou um conjunto de 39 letras, cada uma correspondendo a um dos sons do idioma armênio. Originalmente, nem esse alfabeto armênio, nem o primeiro alfabeto cirílico (hoje conhecido como cirílico arcaico) tinham maiúsculas e minúsculas; somente a partir do século XII, quando os alfabetos grego e latino começaram a misturar letras maiúsculas e minúsculas, é que começaram a surgir os primeiros textos em cirílico e em armênio também com letras maiúsculas e minúsculas. Por essa razão, nesses alfabetos, quase todas as letras minúsculas são apenas versões menores das maiúsculas, sem formatos diferentes - em cirílico, apenas A, б, E, Ë e ф têm letras minúsculas que diferem das maiúsculas, e, mesmo assim, A, E e Ë são copiadas das minúsculas latinas.

O silabário cherokee também foi inventado por uma única pessoa, o Chefe Sequóia dos Cherokee, entre 1809 e 1824 no Canadá, e ele resolveu fazer o serviço completo: inventou tanto as letras maiúsculas e minúsculas quanto a escrita cursiva - talvez por isso tenha levado quase 20 anos. Quase todas as letras minúsculas são apenas versões menores das maiúsculas, mas as letras cursivas são totalmente diferentes de suas correspondentes em bastão, sendo todas extremamente trabalhadas e cheias de "voltinhas" - o que faz com que a maioria dos cherokee prefira escrever apenas em bastão, já estando a escrita cursiva considerada fadada ao desaparecimento. Finalmente, o varang kshiti também foi inventado por uma única pessoa, o líder religioso Dhawan Turi, no século XIII, que já o inventou com maiúsculas e minúsculas, embora, mais uma vez, as minúsculas sejam apenas versões menores das maiúsculas.

Nosso terceiro assunto de hoje é a acentuação gráfica. Ninguém sabe ao certo quem inventou a acentuação, mas sabe-se que ela foi inventada pelos gregos, já que os primeiros textos contendo acentos, datados do século I a.C., estão escritos em grego, usando o alfabeto grego. O motivo pelo qual a acentuação foi inventada, por outro lado, é evidente: quando o alfabeto grego foi criado, cada letra correspondia a um som presente no idioma grego, e com elas era possível escrever todas as palavras desse idioma sem dúvidas; conforme a língua evoluía, porém, novos sons eram adicionados, sendo que alguns deles mudavam o sentido de uma palavra, o que fez com que já não fosse possível ler um texto sem nenhuma dúvida (por exemplo, se você ler "vovo fez um bolo", não saberá se é "vovó" ou "vovô"). Ao invés de inventar letras novas para esses sons, optou-se por criar pequenos sinais, que seriam adicionados às letras cada vez que elas tivessem um som diferente do original.

É importante ter em mente que pouquíssimas pessoas sabiam ler ou escrever na época, então a adição desses sinais não foi um ato governamental de grande importância, e sim uma iniciativa das próprias pessoas responsáveis por registrar as palavras de forma escrita, como os escribas. Inclusive, acredita-se que foram criados diversos sistemas de acentuação gráfica diferentes, cada um por um grupo interessado em acabar com as dúvidas na hora de se ler um texto escrito; o que se tornou mais famoso e mais usado foi o que continha os três acentos que usamos ainda hoje: o agudo, o grave e o circunflexo. Também não se sabe por que justamente esse sistema prevaleceria, mas suspeita-se que foi porque ele era o mais simples, com os acentos sendo usados para demarcar a sílaba tônica de uma palavra, e diferentes acentos fazendo com que ela tivesse diferentes sons (como no já usado exemplo da vovó e do vovô). Com o tempo, os acentos grave e circunflexo deixaram de ser usados, mas o acento agudo é usado no idioma grego até hoje, principalmente para diferenciar palavras que têm grafia igual mas significado diferente.

Quando os romanos inventaram seu próprio alfabeto, mais uma vez cada letra correspondia a um som, o que eliminava a necessidade de acentos; mas, conforme as línguas derivadas do latim foram surgindo, mais uma vez novos e diferentes sons seriam incorporados aos já existentes, o que trouxe esta necessidade de volta. Como, na época, ainda havia muitos textos escritos em grego no Império Romano, foi adotada a solução mais simples: importar do grego os acentos agudo, grave e circunflexo. Como novos sons não pararam de surgir, seriam inventados outros sinais, como o til, que indica som nasal, e o macron, que indica que o som de uma vogal é mais longo que o normal.

A palavra "acento", originalmente, dizia respeito não aos sinais em si, e sim à característica de cada palavra possuir uma sílaba mais forte (tônica) que as demais. Hoje, em português, usamos o termo acentuação tônica quando queremos nos referir ao fato de cada palavra ter uma sílaba tônica, e acentuação gráfica para nos referirmos ao costume de usar sinais gráficos para demarcar os sons de uma palavra. Nesse último caso, entretanto, o termo "acentuação" não é totalmente correto, já que nem todos os sinais gráficos que usamos são verdadeiramente acentos. Os acentos são um dos subgrupos dos sinais gráficos conhecidos como diacríticos - palavra que vem do grego diakrino, "distinguir", nome que lhes foi dado justamente porque eram usados para que fosse possível distinguir o som de cada letra. O subgrupo dos acentos, além do agudo, do grave e do circunflexo, conta com o hacek (também conhecido como carom), um circunflexo de cabeça para baixo muito usado nos idiomas eslavos, e os estranhos agudo duplo e grave duplo, comuns no idioma húngaro. Os outros subgrupos são o dos pontos (que inclui o pingo, o ponto inferior e o trema), o das curvas (que inclui o breve, o breve invertido e o til), o das linhas (que inclui a barra, o slash e o macron), o dos anéis (cujo único representante é o angstrom) e o das ondulações, que por sua vez é subdividido em sobrescritas (que incluem o apóstrofo e o gancho) e em subscritas (que incluem a cedilha, a vírgula e o ogonek).

Pouca gente sabe, mas o pingo também é um diacrítico - em turco, por exemplo, existe o i sem pingo (ı), cujo som é diferente do i com pingo. A história de por que todos os nossos i (e j) levam pingo é bem interessante, e a culpa é da escrita cursiva: lá no Império Romano, quando se começou a escrever em cursivo, frequentemente, quando o i era escrito antes ou depois de outro i, u, m ou n, as pessoas ficavam em dúvida sobre qual seria a palavra (confundindo, por exemplo, ingenii com ingenu). Para solucionar esse problema, no século XI, se estabeleceu a prática de se colocar um pingo sobre os i que pudessem ser confundidos com outra letra, que, depois, se alastrou não somente para todos os i, mas também para todos os j, já que o j, originalmente, era um derivado do i. Como a confusão só ocorria com o i minúsculo, somente os i e j minúsculos têm pingos - exceto em turco, já que, como existem palavras que começam com o i com pingo, é necessário existir um i com pingo maiúsculo (İ).

Nem todos os idiomas usam todos os diacríticos, e cada idioma possui regras próprias que determina o que cada um deles faz. Em português, por exemplo, só usamos o acento agudo, o grave, o circunflexo, o til, a cedilha e o apóstrofo (antes da última reforma ortográfica, usávamos também o trema), e, mesmo assim, nenhum deles é usado em conjunto com todas as letras (não colocamos acento circunflexo em I ou U, por exemplo). Outros idiomas têm suas próprias regras, muitas vezes bastante diferentes das nossas: enquanto em português o acento agudo pode ser colocado sobre qualquer vogal, para indicar som aberto, em francês, por exemplo, ele só pode ser colocado sobre o E, e indica som fechado (ou seja, em francês, um "é" tem som de "ê"). Um dos motivos pelos quais não usamos outros diacríticos foi que a língua portuguesa deu preferência aos dígrafos para representar sons que não poderiam ser representados por uma única letra. Em relação à palatalização, por exemplo, em português usa-se o H logo após a letra que terá seu som palatalizado - criando os pares CH, LH e NH. Em outros idiomas, a palatalização é indicada por diacríticos, como no espanhol, no qual é usado um til sobre o N (ou seja, o som do ñ espanhol é o mesmo do nosso "nh"), e no romeno, no qual é usada uma vírgula sob o S e sob o T (ou seja, ș e ț ao invés de sh e th).

Alguns idiomas usam muitos diacríticos, como o vietnamita, que, para marcar a tonalidade das vogais, chega a usar mais de um diacrítico na mesma letra, como na palavra cất ("construir"), que tem um agudo e um circunflexo ao mesmo tempo sobre o "a". Por outro lado, há os que não usam diacrítico nenhum, ou usam um número muito reduzido deles. O inglês, por exemplo, não tem nenhuma palavra nativa que use diacríticos, embora tenha algumas palavras em seu vocabulário que foram "emprestadas" de outros idiomas, principalmente do francês, que os usam (como naïve e façade). O que determina a mudança do som ou a marcação da sílaba tônica em inglês são as letras dobradas - o som do A de apple é diferente daquele do A de staple por causa do p dobrado, por exemplo. Outro bom exemplo é o holandês, que só usa o acento agudo e o trema, e, mesmo assim, muito raramente, preferindo usar dígrafos - um "e" tem som de "ê", enquanto um "ai" tem som de "é", por exemplo.

Também é interessante registrar que, em português, as letras com diacríticos não são consideradas letras novas, apenas versões diferentes de letras já existentes; esse não é o caso, porém, em muitos idiomas, nos quais uma letra com diacrítico é considerada uma letra totalmente nova, com seu próprio lugar na ordem alfabética. O alfabeto usado no idioma polonês, por exemplo, possui 32 letras, sendo 23 das 26 que usamos (as exceções sendo Q, V e X, que jamais aparecem em palavras de origem polonesa), e mais 9 "novas" (ą ć ę ł ń ó ś ź ż), que vêm na ordem alfabética logo após suas versões sem diacríticos (o Ł vem entre o L e o M, por exemplo). Isso ocorre, também, no alfabeto cirílico usado para o idioma russo, no qual Ë e й são letras diferentes de E e и, e vêm na ordem alfabética logo depois delas.

A essa altura, acho que já é evidente que o alfabeto latino não é o único que usa diacríticos: o alfabeto grego, como já vimos, ainda usa o acento agudo, e, em algumas de suas diversas versões, o alfabeto cirílico usa o acento agudo (como no Ѓ do macedônio), o acento grave (como no Ѝ do búlgaro), o breve (como no Ў do bielorrusso) e o trema (como no ï do ucraniano). Em russo, em dicionários, livros didáticos voltados para crianças, e materiais voltados a estrangeiros que não estejam familiarizados com o idioma, o acento agudo também é usado para indicar qual seria a sílaba tônica de cada palavra, embora esse uso não esteja presente no dia a dia. Também podemos citar os diacríticos que não representam acentuação gráfica, como os dos abjads árabe e siríaco, os niqqudot do hebraico, e o ten-ten (dois traços) e o maru (círculo), presentes no hiragana e no katakana japoneses, e que, adicionados ao canto superior direito de certas letras, mudam a sílaba que aquela letra representa ("ha" com ten-ten vira "ba" e com maru vira "pa", por exemplo).

Para terminar por hoje, falta falar sobre pontuação. Conforme vimos anteriormente, no início, todos os textos eram escritos integralmente em maiúsculas e sem qualquer espaço entre as palavras, o que tornava meio difícil para alguns copistas copiá-los corretamente - com muitos dividindo as palavras no meio ao terminar uma linha, por exemplo. No século III, o grego Zenódoto de Éfeso, responsável pela Biblioteca de Alexandria, teve a ideia de criar o espaçamento, colocando um pequeno espaço entre uma palavra e outra, para facilitar a leitura, e ordenou a todos os copistas da Biblioteca que usassem o espaçamento quando copiassem seus textos. Um dos discípulos de Zenódoto, chamado Aristófales de Bizâncio, foi mais além, e decidiu colocar pequenos sinais junto às palavras, que facilitassem a tarefa na hora de copiar os textos: um ponto no alto da linha significava o fim de um grupo de palavras, um ponto no meio da linha significava que mais tarde algo seria adicionado àquele trecho, e um ponto na base da linha indicava que o significado daquela frase se completaria adiante. Como esse é o primeiro sistema de pontuação do qual se tem registro, o grego Aristófales é considerado o inventor da pontuação. O nome "pontuação", aliás, vem do fato de que cada grupo de copistas tinha uma espécie de "cola", uma lista dos sinais que deveriam ser usados por todo o grupo; essa lista se chamava punktus ("ponto"), nome que recebeu porque o sistema original, criado por Aristófales, usava apenas pontos.

Como a Biblioteca de Alexandria era a mais famosa do mundo, o sistema de pontuação logo passaria a ser usado por outros escribas e copistas. Nesse primeiro momento, entretanto, a pontuação tinha um propósito bem diferente da que tem hoje, sendo destinada não a quem lia o texto, mas sim a quem o escrevia; em outras palavras, a pontuação era um sistema de instruções para que quem copiasse o texto não mudasse seu sentido. Isso começaria a mudar, entretanto, já no século IV, quando começariam a circular os primeiros textos destinados à leitura em voz alta - em especial, a Bíblia. Para que tais textos fossem lidos na cadência correta, e mantivessem o sentido pretendido pelo autor, eles vinham acompanhados de uma série de símbolos, que especificavam paradas, entonação e outras características do texto. Não havia uma padronização, porém, com cada grupo usando seus próprios símbolos.

A padronização da pontuação ocorreria somente mais de mil anos depois de sua criação, com a invenção da prensa de tipos móveis no século XIV, que permitiu que cópias de livros fossem produzidas em maior velocidade e quantidade do que no sistema de cópias à mão usado até então. O sistema de pontuação que usamos hoje foi criação do editor Aldus Manutius, da cidade de Veneza, que, em parceria com seu neto (também chamado Aldus Manutius), criou o ponto final, a vírgula, o ponto-e-vírgula, os dois pontos e os parênteses. O sistema criado pelos Manutius era bem mais simples que a maioria dos usados até então, o que levou a uma rápida popularização, com praticamente todos os editores italianos passando a adotá-lo até o final do século XV. Ao longo dos anos seguintes, também seriam inventados, por diversas pessoas, e incorporados ao sistema-padrão, o ponto de interrogação, o ponto de exclamação, as reticências, o hífen e as aspas. No final do século XVII, o sistema de pontuação padrão da Europa já estava implementado, sendo usado em todos os países do continente.

Aparentemente, o sistema de pontuação inventado pelos Manutius era tão bom que se alastrou até mesmo para os outros sistemas de escrita - os alfabetos grego e cirílico, os abjads árabe e hebraico, e até mesmo o hiragana e o katakana, todos usam o mesmo sistema de pontuação que o alfabeto latino. Podem ocorrer, entretanto, algumas variações quanto a qual símbolo é usado para qual situação, ou na aparência dos símbolos: em grego, por exemplo, o ponto-e-vírgula é usado no final de cada pergunta, ao invés do ponto de interrogação; em armênio a função dos dois pontos e do ponto final são invertidas (o fim de cada frase é marcado com os dois pontos); em árabe, como a escrita é da direita para a esquerda, o ponto de interrogação e a vírgula são espelhados (؟); e, é claro, existem os famosos ponto de exclamação e de interrogação "de cabeça para baixo" (¿), usados no início de exclamações e perguntas no idioma espanhol.
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Caratê

Quando eu fui escrever o post sobre judô, confesso que originalmente pensei em escrever um sobre caratê. Mudei de ideia porque, obviamente, o judô já faz parte do programa olímpico, enquanto o caratê ainda está na fase de promessa do COI (só considerarei que ele está mesmo no programa quando a primeira luta começar em 2020). Mas, mesmo assim, a vontade de escrever sobre caratê continuou forte, e será saciada hoje.

Talvez essa fosse toda a introdução da qual eu precisasse, mas vou estendê-la mais um pouquinho, porque de vez em quando eu gosto de incluir alguns pequenos detalhes da minha vida pessoal na introdução dos posts. E, dessa vez, esse detalhe será o de que eu simplesmente não sabia o que era judô até Rogério Sampaio ganhar uma medalha de ouro para o Brasil nas Olimpíadas de 1992. Caratê, por outro lado, eu conheço desde sempre, porque meus primos faziam (um deles faz até hoje, já tem Dan e tudo), porque o Ryu e o Ken de Street Fighter II lutavam (ou pelo menos o jogo dizia que sim), e porque existia um monte de filmes sobre caratê (incluindo Karate Kid). Por causa disso, eu nunca entendi muito bem por que tinha judô nas Olimpíadas e caratê não, e espero que realmente o COI corrija esse erro em 2020, colocando o caratê no programa olímpico para não mais tirar.

Enfim, chega de introdução. Hoje é dia de caratê no átomo.

Diferentemente do que muitos acreditam, o caratê não surgiu no Japão. Ele surgiu em Okinawa, que, tudo bem, hoje em dia faz parte do Japão, mas, na época do surgimento do caratê, fazia parte de um outro país, o Reino de Ryukyu, que era composto por uma centena de ilhas localizadas entre o Japão e Taiwan, e foi independente entre 1429 e 1879, quando foi oficialmente anexado ao Império Japonês. Antes de sua independência, essas ilhas pertenciam à China, e, no final do século XIV, várias famílias chinesas decidiriam se mudar para a ilha de Okinawa, levando consigo várias artes marciais. Conforme os anos se passaram, essas artes marciais sofreram modificações, ganhando novos elementos e perdendo outros; para diferenciá-las daquelas praticadas na China continental, era usado para cada uma um nome que era simplesmente o sufixo "-tê" (palavra que, no idioma de Okinawa, significava "luta") adicionado ao nome da cidade onde elas haviam surgido, dando origem, por exemplo, ao shuritê, ao nahatê e ao tomaritê.

No final do século XVIII, um professor de artes marciais chamado Kanga Sakukawa decidiria ir treinar na China, e, ao retornar a Okinawa, em 1806, começaria a ensinar, na cidade de Shuri, uma arte marcial bem diferente do shuritê, a qual ele chamou de tudi, ou "mão chinesa" no idioma local. Um dos melhores alunos de Sakukawa era Soukon Matsumara, que, em 1820, decidiria abrir sua própria escola de tudi, adicionando ao estilo criado por Sakukawa elementos do shuritê e do tomaritê. Um dos alunos de Matsumara, Itosu Anko, também decidiria, por volta de 1875, se basear no estilo de Sakukawa e criar um estilo totalmente novo, o qual chamaria de karate - palavra que significava exatamente o mesmo que tudi, "mão chinesa", mas em japonês, pois, começando em 1872, o Japão já tinha uma presença muito mais forte que a China em Ryukyu, tanto que, nos últimos oito anos de independência, a mesma era considerada apenas fictícia, com o Rei de Ryukyu sendo um monarca de fachada.

Sendo o Rei de fachada ou não, Anko seria seu secretário de 1870 até o Japão anexar Ryukyu, e, mesmo após o fim da monarquia local, ele continuaria sendo muito influente em Okinawa, tanto que, em 1901, conseguiria convencer o governador local, indicado por Tóquio, a incluir o caratê na grade curricular de todas as escolas da ilha, atuando ele mesmo como professor, e criando o primeiro método sistemático de ensino do caratê, do qual algumas técnicas são empregadas até hoje. Por causa disso, Anko hoje é conhecido como "o avô do caratê moderno".

Isso porque o "pai do caratê moderno" é Gichin Funakoshi, também natural de Okinawa, que foi aluno de Anko, e, em 1917, introduziu modificações fundamentais na arte marcial. A principal delas foi que, inspirado em Jigoro Kano, o criador do judô, Funakoshi ensinaria a seus alunos que o caratê não é uma luta, e sim um estilo de vida, através do qual o carateca (nome pelo qual são conhecidos os praticantes de caratê, do japonês karateka, palavra obtida adicionando ao nome da arte marcial a partícula -ka, que significa "praticante") pode alcançar o auto-aperfeiçoamento, contribuindo para uma sociedade mais justa e mais civilizada. Outra contribuição considerada fundamental foi que Funakoshi traduziu todos os nomes de todos os golpes, técnicas e kata do caratê, que originalmente eram em chinês ou no idioma de Okinawa, para o japonês. Até mesmo o próprio significado de karate seria alterado por Funakoshi: como o Japão já tinha uma grande rivalidade com a China, criada por uma guerra entre os dois países que ocorreu entre 1894 e 1895, e acreditando que nenhum japonês iria querer aprender uma arte marcial chamada "mão chinesa", Funakoshi aproveitaria que kara tinha um homônimo, e passaria a divulgar que karate significava "mãos vazias" - significado hoje considerado o oficial para o nome.

Graças às modificações feitas por Funakoshi - nem todas políticas, algumas em seus fundamentos, como as noções de distância e tempo corretos para a aplicação do golpe, inspiradas por outra arte marcial, o kendô - o caratê rapidamente se tornaria uma das artes marciais mais praticadas no Japão. Em 1924, a Universidade de Keio seria a primeira do Japão a ter o caratê como parte de seu currículo, e, em 1932, todas as principais universidades japonesas já o incluíam, e dojo onde era possível aprender o caratê se espalhavam pelas cidades do país. Nas décadas de 1960 e 1970, principalmente graças aos filmes norte-americanos, o caratê se popularizaria em todo o mundo, e, hoje, em muitos lugares, a palavra "caratê" é usada como sinônimo de "artes marciais".

O caratê usa três tipos de golpes; os principais são os chutes, sempre feitos de forma suavemente lateral, girando a perna na direção do oponente, e com as pernas bem abertas - nada de pontapés ou pisões. Com as mãos, podem ser efetuados dois tipos de golpe, os tsuki, feitos com a mão fechada, como se fosse um soco direto, sendo o oponente atingido com os dedos; e os uchi, feitos com a mão aberta, sendo o adversário atingido pela base da mão, onde ela se encontra com o punho - e não pelo lado desta como nos filmes. Em relação à posição em que acertam, os golpes podem ser jodan, feitos contra o rosto do adversário, ou chudan, feitos contra seu tórax - existem ainda os gedan, feitos contra a linha da cintura, mas, atualmente, na prática esportiva, todos os golpes devem atingir da cintura para cima. Os golpes podem ser combinados de diversas formas, como no sanbon zuki, uma sequência de três socos, sendo o primeiro jodan e os outros dois chudan. É permitido a um oponente atacado esquivar ou bloquear, sendo que o bloqueio é feito com o antebraço, com a mão estando aberta. Após um bloqueio, pode ser feito um contra-ataque.

O caratê faz uso de três disciplinas em seu treinamento: o kihon ("básico"), no qual é treinada a forma correta de se respirar durante cada soco ou chute, assim como a postura correta a ser adotada durante cada golpe; o kata ("modelo"), uma espécie de luta coreografada, que pode ser feito por um carateca sozinho contra um "oponente invisível", ou por grupos de até quatro pessoas; e o kumite ("encontro das mãos"), que é a aplicação dos golpes do caratê em uma luta real, usando de improviso ao invés dos movimentos coreografados do kata. Funakoshi era contra o uso do caratê como forma de luta ou competição esportiva, e apregoava que o kumite só deveria ser praticado entre amigos, respeitosamente, e visando não a vitória, mas o aperfeiçoamento do corpo e da mente.

Apesar da oposição de Funakoshi, o caratê começaria a ser disputado de forma esportiva na década de 1950, quando, após ser levado para a Europa por caratecas japoneses que desejavam demonstrá-lo, se tornaria bastante popular na França, o que levaria à criação da Federação Francesa de Caratê em 1961; à organização do primeiro torneio internacional de caratê da história, em Paris, 1963, com participação de caratecas da França, Grã-Bretanha e Bélgica; e à fundação, em 1965, da Federação Europeia de Caratê. Cinco anos depois, em 1970, o presidente da Federação Europeia e ex-presidente da Federação Francesa, Jacques Delcourt, decidiria fundar, também a União Internacional de Caratê, que, a princípio, congregava apenas membros europeus. Após negociações com a Federação Japonesa, fundada em 1969, o Japão também se tornaria membro, e, por sugestão dos japoneses, o nome da federação internacional seria alterado para União Mundial das Organizações de Caratê (WUKO, da sigla em inglês).

Um dos motivos pelos quais o caratê demorou tanto tempo para ser incluído nas Olimpíadas foi que, ao contrário do judô e do taekwondo, só para citar as duas artes marciais atualmente olímpicas, o caratê não possui apenas uma federação internacional. A atual federação reconhecida pelo COI é a Federação Mundial de Caratê (WKF), que é a que tem mais membros (130 dos cinco continentes, incluindo o Brasil), e foi fundada em 1990, após uma tentativa malsucedida da WUKO de se fundir à Federação Internacional de Caratê Tradicional (ITKF), fundada no Japão em 1978, e que não concordava com a filiação da Federação Japonesa à WUKO. Tanto a ITKF quanto a WUKO existem até hoje (sendo que a WUKO mudou de nome em 2008 para WUKF, União Mundial das Federações de Caratê), assim como a Confederação Mundial de Caratê (WKC), fundada em 1996 por dissidentes da WKF. Cada uma dessas federações tem regras ligeiramente diferentes em relação ao formato dos torneios, à pontuação das lutas, e a outros detalhes. Para todos os efeitos, as regras discutidas nesse post serão as da WKF.

Da mesma forma, assim como o judô, o caratê possui diversas vertentes, oficialmente conhecidas como estilos, como o Goju-ryu, considerado o "original", por ser o mais próximo do criado por Sakukawa; o Shonin-ryu, nome dado em 1933 ao estilo criado por Matsumara; ou o Kyokushin, criado em 1957 por Masutatsu Oyama, de técnicas e golpes mais poderosos, no qual o objetivo não é vencer o oponente por pontos, e sim nocauteá-lo. Ao todo, estima-se que já existam por volta de 30 estilos de caratê, alguns mais famosos e mais praticados que os outros; de todos, o mais famoso é o Caratê Shotokan (segundo a descrição dos personagens de Street Fighter II, o estilo usado por Ryu e Ken), que é o estilo criado pelo próprio Funakoshi. A palavra shotokan significa "casa dos pinheiros ao vento", e era o nome do primeiro dojo fundado por Funakoshi, que não usava esse nome para seu estilo, chamando-o, simplesmente, de "caratê"; com a necessidade de diferenciá-lo dos demais estilos, o nome Shotokan acabou sendo usado também para esse fim. Como o Shotokan é o estilo considerado "oficial" pela WKF (e esse foi o principal motivo do surgimento da WKC, já que a WKF só aceita como membros federações nacionais de Caratê Shotokan, enquanto a WKC aceita de qualquer estilo), as referências doravante feitas ao caratê nesse post dizem respeito ao Caratê Shotokan.

A WKF reconhece duas disciplinas esportivas do caratê, o kumite e o kata. O kata, como já foi dito, é uma sequência de movimentos coreografada, cujo objetivo é ilustrar os princípios básicos do caratê, demonstrar a forma correta de se executar os golpes, e ensinar os conceitos filosóficos sobre os quais o caratê é embasado. Atualmente, a WKF reconhece um total de 75 kata diferentes; em teoria, é obrigação de todo carateca saber executar todos eles com perfeição.

Competições de kata podem ser individuais ou por equipes. Na competição individual, o carateca executa a sequência de movimentos do kata diante de um painel de cinco juízes, que atribui notas baseadas em três quesitos: performance técnica (que inclui a avaliação das posturas, dos golpes, dos movimentos transitórios, da respiração correta, do foco nos movimentos, do tempo de execução dos movimentos e da dificuldade do kata escolhido), performance atlética (força, velocidade, equilíbrio e ritmo) e conformidade (se os movimentos foram executados na ordem e na forma correta do kata). Diferentemente de, por exemplo, uma competição de patinação artística, os caratecas não se apresentam todos e o de maior nota ganha, e sim dois a dois, com o de maior nota daquela dupla avançando e o outro sendo eliminado, até que só restem dois, e o vencedor seja o campeão. É o próprio carateca quem escolhe quais kata irá apresentar, e não poderá repetir um mesmo kata em diferentes fases da competição; em uma competição com 32 caratecas diferentes, por exemplo, os que disputarem as medalhas terão apresentado cinco kata diferentes cada um. Cada apresentação deve durar seis minutos, com pontos sendo descontados caso termine antes, e o carateca sendo desclassificado caso ultrapasse esse tempo.

A competição por equipes segue as mesmas regras da individual, mas cada apresentação tem duas partes de três minutos cada: na primeira, os caratecas apresentam o kata de forma sincronizada, sendo a sincronia também avaliada pelos juízes como parte da performance técnica; na segunda parte (chamada bunkai), os caratecas devem apresentar o kata como se estivessem lutando entre si, sendo o controle dos movimentos também avaliado pelos juízes como parte da performance técnica. Uma equipe é sempre composta por três membros, sendo sempre três homens ou três mulheres, nunca equipes mistas.

Já o kumite é a "luta de caratê", na qual os caratecas se enfrentarão buscando pontuar. Para que a pontuação seja válida, o golpe deve ser efetuado conforme os princípios do caratê, com o árbitro levando em conta nada menos que seis quesitos: golpe válido, execução correta do golpe, força e velocidade corretas do golpe, distância correta em relação ao oponente para aplicar aquele golpe, desportividade (ou seja, o carateca quis pontuar, não ferir o adversário) e o zanshin, que é o carateca continuar focado na luta após aplicar o golpe, sem, por exemplo, dar as costas ao oponente ou provocá-lo. Caso o árbitro considere que algum destes seis quesitos não foi atendido, ele simplesmente não confere a pontuação ao carateca - exceto nos casos de golpe válido e desportividade: caso o carateca atinja o oponente com um golpe inválido, ou o árbitro considere que sua conduta foi antidesportiva, ele receberá uma punição, e um carateca com quatro punições está automaticamente desclassificado. Também são motivo para punição atingir o oponente abaixo da cintura; a falta de combatividade, que é quando o carateca fica só fugindo da luta, sem iniciar nenhuma ação; e sair da área de luta voluntariamente, ou seja, sem ter sido por desequilíbrio ou em decorrência de um golpe do oponente.

Caso o árbitro considere que os seis quesitos estavam presentes, a pontuação é conferida da seguinte forma: qualquer tsuki e qualquer uchi com o oponente de pé vale um ponto; um chute chudan vale dois pontos; e um chute jodan e qualquer tsuki ou uchi com o oponente caído (desde, evidentemente, que ele tenha caído em decorrência de um golpe válido, e não por ter tropeçado, perdido o equilíbrio ou ter sido empurrado) valem três pontos. Bloquear um golpe não vale nada, mas o golpe bloqueado também não. Pode ocorrer - e, aliás, é muito comum - de ambos os caratecas pontuarem simultaneamente, com um deles aproveitando o momento em que o oponente abriu a guarda para atacar para também atingi-lo; também pode ocorrer de um deles não alcançar os seis quesitos durante sua ação, e, nesse caso, ambos se atacarão simultaneamente, mas apenas um deles pontuará. Essa explicação é necessária porque, caso um dos caratecas pontue sem que o outro sequer tenha esboçado reação para bloqueá-lo ou contra-atacá-lo, diz-se que ele tem um senshu, o que é importante no caso de um desempate.

Uma luta de kumite tem duração de três minutos no masculino e dois minutos no feminino, sendo que o relógio para toda vez que a luta é interrompida, e um sinal sonoro soa quando faltam 15 segundos para o final. Caso um dos caratecas atinja 8 pontos de diferença em relação ao adversário, a luta termina imediatamente com sua vitória; caso isso não ocorra, o vencedor será aquele que tiver mais pontos ao final do tempo. Caso a luta chegue ao final empatada, será vencedor aquele que tiver o senshu; caso ambos tenham ou nenhum dos dois tenha, os juízes e o árbitro escolherão o vencedor, levando em conta as táticas e técnicas empregadas por cada carateca.

A luta é oficiada por um árbitro, que pode caminhar livremente pelo tatami, e por quatro juízes, cada um sentado em uma cadeira posicionada em cada um dos quatro cantos do mesmo; apenas o árbitro tem o poder de interromper a luta - para pedir, por exemplo, atendimento médico ou que os caratecas arrumem seus karategi - devendo os juízes apenas assisti-la, agindo apenas em caso de empate. Caso um dos lutadores precise de atendimento médico, terá direito a um minuto, sendo desclassificado caso não retorne à sua posição no tatami antes de esse tempo se esgotar.

No kumite, os caratecas são divididos em categorias de acordo com seu peso, para que as lutas sejam mais justas. Atualmente, a WKF reconhece cinco categorias de peso para o masculino (até 60 Kg, até 67 Kg, até 75 Kg, até 84 Kg e mais de 84 Kg) e cinco no feminino (até 50 Kg, até 55 Kg, até 61 Kg, até 68 Kg e mais de 68 Kg). A WKF também organiza competições de kumite por equipes, com cada equipe sendo composta por cinco caratecas, um de cada categoria de peso; a cada embate, a equipe a obter três vitórias primeiro será a vencedora.

O local onde o caratê é disputado se chama tatami, e deve ser perfeitamente quadrado. A área efetivamente usada deve ter oito metros de lado; essa área é demarcada por uma linha de um metro de espessura, conhecida como "área de segurança", e que, no kumite, também faz parte da área de luta (o que faz com que, efetivamente, a área de luta tenha 9 m de lado). Em competições de kumite, próximo ao centro do tatami há dois retângulos, de 1 m de largura por 2 m de comprimento e espaçados 1 m um do outro, da mesma cor da área de segurança; a cada início e reinício da luta, cada carateca deve ficar dentro de um desses retângulos. Em torneios oficiais, até dois tatami podem ser usados simultaneamente, devendo haver uma área de dois metros entre um e outro. No kumite, um movimento que comece dentro da área válida de luta mas termine fora dela é considerado válido, e ser empurrado para fora da área válida em decorrência de um golpe do oponente não é considerado falta. No kata, toda a apresentação deve ser feita dentro da área de 8 m de lado, sendo o carateca desclassificado caso pise na linha que a delimita ou além dela.

Torneios da WKF, tanto no kumite quanto no kata, usam a mesma fórmula dos torneios de judô da IJF, com sistema de mata-mata e repescagem. Neles, os competidores são emparelhados dois a dois, por sorteio ou por ranqueamento, sendo que, dependendo do número de competidores, os mais bem ranqueados podem estrear diretamente na segunda ou na terceira fase, e, a cada fase, os vencedores avançam para a fase seguinte, até chegar à final, na qual o vencedor será o campeão; os perdedores não são automaticamente eliminados, pois, caso o oponente que derrotou um carateca vença novamente na fase seguinte, este carateca terá direito a participar da repescagem, para tentar ganhar uma medalha de bronze contra um dos perdedores das semifinais. Assim, torneios de caratê da WKF conferem uma medalha de ouro e uma de prata, mas duas de bronze.

A roupa usada para a prática do caratê não se chama quimono, e sim karategi (pronunciado "carateguí", gi significando roupa, então é a "roupa de caratê"). O karategi é bem parecido com o judogi, sendo feito de algodão e consistindo de uma camisa aberta, de mangas compridas, e uma calça comprida que se ajusta na cintura através de um cordão interno, que deve ser amarrado, com as mulheres também podendo usar uma camiseta branca por baixo, para evitar exposições indesejadas. Como o caratê é um esporte de contato, são usados protetores de gengiva, semelhantes aos do boxe, e proteções acolchoadas nas mãos e nos pés, feitas de plástico recheado com espuma - não somente para proteger as mãos e os pés do carateca, mas também para evitar danos severos ao adversário que ele vai socar e chutar. Diferentemente do que ocorre no judô, no caratê ambos os caratecas usam karategi branco; para diferenciá-los, as proteções das mãos e pés são de cores diferentes - um usa azul, o outro usa vermelho. As faixas que os caratecas usam na cintura, cuja principal função é fechar a camisa, também seguem essas cores, sendo sempre a de um carateca azul, a do outro, vermelha, independentemente do kyudan de cada um.

O caratê, aliás, usa o mesmo sistema de kyudan do judô, mas com cores diferentes para as faixas - de fato, inicialmente Funakoshi usou o exato mesmo sistema criado por Kano para o judô, que, ao longo dos anos, sofreu modificações, até chegar ao que o caratê usa hoje. O caratê possui dez níveis iniciais chamados kyu ("classe"), contados em ordem decrescente, seguidos de outros dez níveis chamados dan ("etapa"), contados em ordem crescente; assim, todo carateca começa sua carreira no décimo kyu, passando para o nono, então para o oitavo, e assim sucessivamente, até chegar ao primeiro dan, quando então passará ao segundo, ao terceiro, e assim por diante.

Caratecas do décimo kyu devem usar uma faixa branca, para os do nono a faixa é laranja, oitavo vermelha, sétimo amarela e para os do sexto a faixa é verde. Caratecas do quinto e quarto kyu usam uma faixa azul ou roxa, enquanto os do terceiro, segundo e primeiro usam uma faixa marrom. Para todos os dan a faixa é preta. Do décimo kyu ao oitavo dan, a progressão é feita através de uma espécie de prova, sendo que o carateca deve ter uma idade mínima, um período mínimo naquele nível, e saber executar com perfeição um número mínimo de kata para poder pedir para fazer a prova; o nono e o décimo dan, por outro lado, são conferidos diretamente pelas federações nacionais com base no merecimento e contribuição do carateca para o caratê. Caratecas de nono e décimo dan também recebem o título de shihan, que significa algo como "exemplo", no sentido de que eles são um exemplo para os demais.

O principal campeonato de caratê atualmente é o Campeonato Mundial, realizado a cada dois anos desde 1970 (até 1990 organizado pela WUKO, e, desde então, pela WKF). Atualmente o Mundial conta com nada menos que 16 provas, sendo 10 do kumite individual (uma para cada categoria de peso masculina e feminina), duas do kumite por equipes (masculina e feminina) e quatro do kata (individual e por equipes, masculino e feminino). O caratê também faz parte do programa dos World Games desde a primeira edição, em 1981; já está confirmado no programa de 2017, mas, caso entre mesmo nas Olimpíadas em 2020, provavelmente não estará em 2021, já que só podem participar dos World Games esportes que não estejam nas Olimpíadas. O programa atual dos World Games conta com 12 provas, as 10 do kumite individual e as duas do kata individual; ainda não foi definido quais provas estarão no programa das Olimpíadas, mas o mais provável é que sejam essas 12.

O caratê também possui uma versão paralímpica, regulada pela própria WKF e conhecida como paracaratê. No paracaratê, os "paracaratecas" são dividos em três categorias, que, diferentemente do que ocorre com outros esportes, não são referenciadas por códigos, e sim pelo tipo de deficiência do atleta; assim, temos uma categoria para cadeirantes (na qual competem paraplégicos e amputados das pernas), uma para deficientes visuais, e uma para deficientes intelectuais (na qual estão incluídos os paralisados cerebrais, os autistas e os portadores da Síndrome de Down). Dentro de cada categoria, os paratletas são classificados por cores, de acordo com o grau de sua deficiência: os da cor azul são os que têm a deficiência menos severa, seguidos dos de cor verde, amarela, e dos de cor vermelha, que são os de deficiência mais severa - assim, por exemplo, na categoria cadeirantes, um amputado de uma das pernas abaixo do joelho seria azul, um biamputado acima do joelho seria verde, um paraplégico com controle comprometido do tronco seria amarelo, e um paraplégico com controle comprometido do tronco e dos braços seria vermelho. Todos os paratletas de uma mesma categoria competem juntos, sendo que há um modificador aplicado à nota de acordo com a classificação por cor do paratleta: paratletas de cor azul não recebem qualquer modificador, os de cor verde têm um ponto somado à sua nota final, os de cor amarela têm dois, e os de cor vermelha têm três pontos somados à sua nota final.

Todas as competições de paracaratê são de kata individual. A competição transcorre exatamente da mesma forma que uma competição de kata individual não-paralímpica, mas cada paratleta é julgado por um painel de sete juízes, sendo que a maior e a menor nota são descartadas. Evidentemente, os cadeirantes não conseguirão realizar os movimentos do kata relativos às pernas, sendo estes substituídos por movimentos próprios da cadeira de rodas, também avaliados pelos juízes como parte da performance técnica. Para garantir que todos estejam em igualdade de condições, paratletas da categoria deficientes visuais devem competir vendados, sendo usada uma faixa de cor preta sobre seus olhos.

O paracaratê faz parte do Campeonato Mundial, com seis provas disputadas (masculina e feminina de cada uma das três categorias), desde 2014. Ainda não há previsão para que ele seja incluído nas Paralimpíadas, mas a inclusão do caratê nas Olimpíadas pode ser um bom incentivo para que isso ocorra.
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Lady Gaga

Lady Gaga é uma das maiores cantoras de sua geração. E eu acho que nunca comecei um post do átomo com uma frase tão polêmica.

Eu iria começar esse segundo parágrafo com "falando sério", mas eu juro que falei seriíssimo. Eu nunca dei muita bola pra Lady Gaga, nunca vi nada de especial nas músicas que ela canta, nunca achei nada de mais ela se apresentar vestida de carne ou de balões. Até 2015, quando a vi cantando The Sound of Music na cerimônia do Oscar. Ali, eu formulei uma teoria: as roupas de carne, as letras chocantes, o comportamento tresloucado, enfim, tudo o que faz Lady Gaga ser Lady Gaga - incluindo o nome "Lady Gaga" - é uma personagem, inventado por ela para chamar atenção e impulsioná-la rumo ao sucesso. Porque, às vezes, o mundo do entretenimento pode ser muito cruel, e, mesmo com talento - que ela tem de sobra - pode ser que ainda falte alguma coisa para um artista chegar ao sucesso. E ela concluiu que essa "alguma coisa" era se transformar em Lady Gaga.

Enfim, não sei se estou certo, é apenas a minha teoria, mas o fato é que, desde aquela cerimônia do Oscar, eu tenho prestado bem mais atenção em Lady Gaga, e tenho notado que ela não somente é talentosa, mas também muito, muito inteligente. Ainda não gosto de suas músicas o suficiente para dizer que sou fã, mas já para ter vontade de escrever sobre ela para o átomo. E será hoje. Hoje é dia de Lady Gaga no átomo.

Gaga nasceu Stefani Joanne Angelina Germanotta, em 28 de março de 1986, em Nova Iorque. Seus pais trabalhavam no ramo de telecomunicações, e, apesar de serem ambos de famílias pobres (seu pai de origem italiana, sua mãe de franco-canadense), conseguiram subir na vida, já sendo de classe média alta quando ela e sua irmã, a estilista Natali, nasceram. Isso possibilitou que Gaga estudasse em uma escola particular católica do bairro Upper East Side, de Manhattan, na qual ela pôde desenvolver seu amor pelas artes, mas onde também se sentia um tanto insegura, sendo frequentemente criticada por ser ou excêntrica demais, ou provocante demais. Gaga foi uma aluna-modelo, com notas altas e se destacando em tudo o que fazia.

No campo da música, ela foi bastante precoce, aprendendo a tocar piano aos quatro anos de idade, escrevendo sua primeira canção aos 13, e começando a se apresentar como cantora amadora aos 14. Ela também estudou teatro no famoso Lee Strasberg Theatre and Film Institute, o que a ajudou a conseguir o papel de protagonista em duas peças encenadas em sua escola, o que, por sua vez, chamou a atenção de um produtor da HBO (que provavelmente tinha um filho no mesmo colégio), que a convidou para um pequeno papel, aos 15 anos, em um episódio da série Os Sopranos. Isso motivou Gaga a fazer testes para diversas peças e musicais da Broadway, mas ela não seria aprovada em nenhum. Quando ela terminou o colégio, sua mãe sugeriu que ela tentasse vaga no CAP21, um prestigiado curso de teatro ligado à Escola de Artes da Universidade de Nova Iorque; aos 17 anos, Gaga se tornaria uma das poucas a passar no teste e ingressar no curso antes dos 18, e conseguiu uma autorização especial para se mudar para um dormitório da universidade. Durante o período no qual morou no dormitório, ela não somente compôs várias canções, como também escreveu ensaios e trabalhos analíticos sobre artes, religião, política e questões sociais. Ela também continuaria fazendo testes para teatro e TV, e conseguiria mais um pequeno papel, como uma freguesa de uma lanchonete, na série da Mtv Boiling Points.

Após dois anos no CAP21, aos 19, Gaga decidiria que sua paixão era a música, não o teatro, e decidiria largar o curso para investir em uma carreira musical. Ela chegaria a gravar algumas músicas em parceria com o cantor de hip hop Grandmaster Melle Mel, e montaria, com amigos da universidade, uma banda chamada The Stefani Germanotta Band, que se apresentaria em vários clubes de Nova Iorque. Um dia, ao retornar de uma apresentação, Gaga seria atacada e estuprada, o que faria com que ela desenvolvesse Síndrome do Pânico, passando vários dias com medo de sair de casa e tendo até hoje problemas com fãs que querem tocá-la. Somente após muito apoio da família, dos amigos e de profissionais especializados, ela conseguiria voltar ao mundo da música, mas, primeiro, apenas como compositora.

Em 2006, Gaga apresentaria uma de suas canções em um evento para jovens compositores. A caça-talentos Wendy Starland se impressionaria com ela, e a recomendaria ao produtor Rob Fusari. Ao descobrir que, além de compositora, ela desejava ser cantora, Fusari começaria a trabalhar com Gaga em algumas músicas que ela pudesse gravar como demo e apresentar às gravadoras quando, por uma jogada do destino, eles se apaixonariam. Seria Fusari, aliás, quem acabaria criando, sem querer, o nome artístico de sua namorada: o escritório de Fusari ficava em Nova Jérsei, e Gaga é que ia até lá passar as tardes com ele trabalhando e namorando; como ambos eram fãs da música Radio Ga Ga, da banda Queen, toda vez que ela chegava, ele a recebia cantando um trecho. Um dia, ela não pôde ir, e, para alegrá-la, Fusari quis mandar uma mensagem de texto pelo celular dizendo "Radio Gaga" - mas o corretor ortográfico alterou para "Lady Gaga". Coincidentemente, ela, que não queria se lançar como cantora com o nome "Stefani Germanotta", estava fazendo uma lista de possíveis nomes artísticos quando recebeu a mensagem - e respondeu dizendo "é esse; não me chame de Stefani nunca mais".

Como eram um casal, ao invés de simplesmente gravar uma demo, Fusari e Gaga decidiriam criar uma empresa, chamada Team Lovechild (a "equipe filha do amor"), para gravar canções que seriam enviadas a executivos da indústria musical. Essas canções chamariam a atenção da Def Jam Records, com a qual Gaga assinaria em setembro de 2006; menos de três meses após a assinatura do contrato, porém, ela seria demitida, sob a alegação de que a gravadora não estaria mais disposta a investir em electropop, estilo musical no qual Gaga desejava se lançar. Desolada, ela largaria tudo e voltaria a morar com a família.

Gaga ficaria tão abalada com o episódio da demissão que decidiria terminar o namoro com Fusari e se entregar ao sexo e às drogas, passando a trabalhar como go-go girl em um bar erótico e se envolvendo em um relacionamento com um baterista de uma banda de heavy metal - segundo ela, era hora de experimentar tudo o que ela não havia feito durante sua criação católica. Seria nessa época que ela conheceria a artista performática Lady Starlight e as duas decidiriam formar uma dupla, se apresentando em vários clubes noturnos da cidade em um show chamado Lady Gaga and the Starlight Revue, anunciado como "o show pop definitivo de rock burlesco". Suas apresentações seriam bastante elogiadas e renderiam um convite para uma apresentação no festival Lollapalooza de 2007, aclamada pela crítica.

Apesar de seu namoro ter terminado, Fusari não desistiria de investir na carreira de Gaga, e continuaria mostrando suas músicas para executivos de gravadoras; em 2007, um deles, Vincent Herbert, da Interscope Records, estava querendo fundar um selo próprio, e concordaria em contratar Gaga para ser a primeira artista da sua Streamline Records. Gaga passaria a considerar Herbert como o homem que a descobriu, e, seguindo uma sugestão dele, se inscreveria em um curso para jovens compositores da Famous Music Publishing - que, pouco tempo depois de ela começar, seria comprada pela Sony. As composições de Gaga no curso chamariam tanta atenção que a Sony decidiria contratá-la, e logo ela estaria escrevendo músicas para Britney Spears, New Kids on the Block, Fergie, The Pussycat Dolls e para o rapper Akon - que, ao vê-la cantando durante uma passagem de som de uma das músicas que ela havia escrito para ele, ficaria tão impressionado que convenceria o presidente da Interscope, Jimmy Iovine, a permitir que ela também fizesse parte do selo Kon Live, que lançaria jovens artistas supervisionados por Akon.

Com um empurrãozinho de Akon, Gaga começaria a trabalhar em seu primeiro álbum, junto com os produtores e compositores Nadir Al-Khayat (mais conhecido como RedOne) e Martin Kierszebaum, que, impressionado com suas composições, convenceria Iovine a também incluí-la em seu selo Cherrytree Records - o que faria com que o primeiro álbum de Gaga fosse um lançamento conjunto da Interscope, Streamline, Kon Live e Cherrytree. Mesmo com todas essas recomendações, Iovine ainda chegou a se preocupar que o tipo de música feito por Gaga fosse muito alternativo, incapaz de fazer sucesso no mercado mainstream; apesar de ainda se ver atormentada pelo episódio da demissão da Def Jam, ela reuniria forças e o convenceria respondendo: "meu nome é Lady Gaga, eu trabalho com música há anos, e estou lhe dizendo: isso é o que vem a seguir".

E ela estava certa: lançado em 19 de agosto de 2008, The Fame seria aclamado pela crítica e teria vendagem fenomenal, alcançando o topo da parada de música eletrônica da Billboard, chegando ao segundo lugar no Top 200 (só ficando atrás de I Dreamed a Dream, do fenômeno Susan Boyle) e rendendo três Discos de Platina e dois Grammys (Melhor Álbum de Música Dance ou Eletrônica e Melhor Canção Dance para Poker Face), de um total de seis indicações (perdendo o de Álbum do Ano para Fearless, de Taylor Sweet; Just Dance perdendo Melhor Canção Eletrônica para Harder, Better, Faster, Stronger do Daft Punk; e Poker Face perdendo o de Gravação do Ano para Use Somebody, do Kings of Leon, e o de Canção do Ano para Single Ladies, de Beyoncé). Suas duas primeiras músicas de trabalho, Just Dance e Poker Face, seriam igualmente aclamadas, com o single da primeira rendendo oito Discos de Platina e o da segunda rendendo nada menos que dez, e ambas chegando ao topo do Top 40 da Billboard. As outras músicas de trabalho, igualmente elogiadas pela crítica, seriam Eh, Eh (Nothing Else I Can Say), LoveGame e Paparazzi - que também chegaria ao topo do Top 40, e renderia mais quatro Discos de Platina.

Quando ocorreu o lançamento de The Fame, Gaga estava em turnê, abrindo para as Pussycat Dolls durante sua Doll Domination Tour. Assim que terminou, ela emendou sua própria turnê, The Fame Ball Tour, que contou com 83 shows distribuídos entre América do Norte, Europa, Ásia e Oceania. Mesmo em plena turnê, ela negociaria para abrir um dos shows da turnê This Is It, de Michael Jackson, que seria realizado na O2 Arena, em Londres - e que, infelizmente, teve de ser cancelado devido ao falecimento do artista.

Gaga estava fazendo tanto sucesso que a Interescope decidiria lançar nada menos que três EPs (álbuns com menos músicas ou duração total menor que o usual) para tentar lucrar mais sobre sua fama. O primeiro, chamado The Cherrytree Sessions, lançado em 3 de fevereiro de 2009, traria versões acústicas de Poker Face, Just Dance e Eh, Eh. O segundo, Hitmixes, de 25 de agosto do mesmo ano, traria versões remixadas de faixas de The Fame. Nenhum dos dois seria especialmente bem sucedido.

Com o terceiro, entretanto, a história seria diferente. Com o nome de The Fame Monster, e lançado em 18 de novembro de 2009, o EP, temático, falaria sobre o "lado ruim" da fama, com cada uma de suas oito faixas - todas inéditas e criadas por Gaga especialmente para o lançamento - usando metáforas para mostrar os "monstros" que acompanham a fama. Junto com The Fame Monster, seria lançado The Fame Deluxe, álbum que continha todas as faixas de The Fame e de The Fame Monster.

The Fame Monster faria um sucesso assombroso, chegando ao topo da parada de música eletrônica da Billboard e ao quinto lugar do Top 200, rendendo mais um disco de platina à coleção de Gaga. O álbum ainda ganharia o Grammy de Melhor Álbum Pop com Vocais, seria mais uma vez indicado ao de Álbum do Ano (que perderia para The Suburbs, do Arcade Fire) e suas músicas de trabalho estão hoje dentre as mais conhecidas da cantora: Telephone (na qual faz dueto com Beyoncé, e foi indicada ao Grammy de Melhor Colaboração Pop com Vocais, perdendo para Imagine, de Herbie Hancock, Pink, India.Arie, Seal, Konono No1, Jeff Beck e Oumou Sangaré), Alejandro (cujo clipe gerou uma nota de protesto da Igreja Católica, já que nele Gaga aparece vestida de freira), Dance in the Dark (indicada ao Grammy de Melhor Canção Dance, que perderia para Only Girl, de Rihanna) e Bad Romance, cujo single vendeu o equivalente a nada menos que 11 Discos de Platina, chegou ao topo do Top 40 da Billboard, e ganhou mais dois Grammys, de Melhor Performance Pop Vocal Feminina e Melhor Vídeo Musical Curta-Metragem.

O sucesso de The Fame Monster faria com que Gaga emendasse uma turnê na outra mais uma vez, começando sua The Monster Ball Tour poucas semanas após encerrar a The Fame Ball Tour. A turnê incluiria nada menos que 203 shows realizados entre novembro de 2009 e maio de 2011, um deles, no Madison Square Garden, em Nova Iorque, sendo filmado e exibido em esquema de pay per view no canal a cabo HBO com o nome de Lady Gaga Presents the Monster Ball Tour: At Madison Square Garden. Essa apresentação receberia cinco indicações ao Emmy Awards, por Especial Excepcional de Variedades, Música ou Comédia; Direção Técnica, Filmagem ou Controle de Vídeo Excepcional para uma Minissérie, Filme ou Especial; Design ou Direção de Iluminação Excepcional para um Especial de Variedades, Música ou Comédia; Direção Excepcional para um Especial de Variedades, Música ou Comédia; e Edição de Imagens Excepcional de um Especial com Única ou Múltiplas Câmeras, vencendo este último.

The Monster Ball Tour também seria considerada a turnê mais rentável da história para um artista estreante (embora, na minha opinião, como já era a segunda turnê dela, não deveria contar como estreante). Em meio à turnê, em 2010, Gaga se apresentaria na cerimônia do Grammy, em janeiro, e, em março, lançaria o álbum de remixes The Remix, que alcançaria o topo da parada de música eletrônica e o sexto lugar no Top 200 da Billboard, e se tornaria o sétimo álbum de remixes mais vendido da história. Também em meio à turnê, em fevereiro de 2011, Gaga lançaria o primeiro single de seu segundo álbum, Born This Way, que já estrearia no Top 40 da Billboard na primeira posição e renderia mais quatro discos de Platina, além de gerar uma certa polêmica por ter sido considerada por alguns críticos como plágio de Express Yourself, da Madonna - embora a própria Madonna nunca tenha acusado Gaga de plágio, e tenha declarado que não considera as músicas tão parecidas assim.

O álbum, também chamado Born This Way, seria lançado em 23 de maio de 2011, e já estrearia no topo do Top 200 e da parada de música eletrônica da Billboard, além de render mais dois discos de platina e três indicações ao Grammy, todas perdidas para Adele (Álbum do Ano e Melhor Álbum Pop com Vocais, ambas perdidas para 21, e Melhor Performance Pop Solo para Yoü and I, perdida para Someone Like You). As outras quatro músicas de trabalho, Judas, Edge of Glory, Yoü and I e Marry the Night até teriam números expressivos, mas não chegariam perto dos que Gaga vinha conquistando até então. O álbum teria duas novas versões lançadas ainda em 2011: uma de remixes, chamada Born This Way: The Remix, e uma edição tripla chamada Born This Way: The Collection, que continha Born This Way, Born This Way: The Remix e um álbum ao vivo com o registro de Lady Gaga Presents the Monster Ball Tour: At Madison Square Garden. Sua turnê de lançamento, chamada Born This Way Ball, teria Gaga se apresentando pela primeira vez na América do Sul (incluindo três shows no Brasil) e na África, mas 17 dos 98 shows previstos (sendo 16 nos Estados Unidos e um no Canadá) acabariam cancelados devido a uma lesão no quadril que a obrigaria a passar por uma pequena cirurgia.

Gaga é extremamente perfeccionista em relação a todas as suas apresentações, fazendo questão de que cada minuto delas saia exatamente como o planejado, seja em suas turnês, seja em eventos como o Grammy ou o Video Music Awards - para o qual, em 2011, criaria um novo personagem, Jo Calderone, se apresentando vestida de homem e bebendo cerveja no gargalo. Segundo ela, ao compor as músicas ela já imagina quais roupas usará nos videoclipes e nas apresentações; Gaga conta com uma equipe, chamada Haus of Gaga, dedicada apenas a criar as roupas exóticas que ela gosta de vestir enquanto canta - que lhe renderiam, em 2011, o Fashion Icon Lifetime Award, um prêmio especial conferido pelo Conselho de Estilistas de Moda da América (CFDA) a indivíduos cujo estilo tenham impacto significativo na cultura popular internacional. A forma como ela se veste e se comporta no palco daria origem até mesmo a um curso livre da faculdade de sociologia da Universidade da Califórnia, ministrado em 2011 sob o nome "Lady Gaga e a sociologia da fama".

No final de 2011, Gaga estrelaria o especial A Very Gaga Thanksgiving, criado e dirigido por ela mesma, e exibido pelo canal de TV ABC no Dia de Ação de Graças, no qual ela falava sobre sua vida e sobre a inspiração para suas músicas em segmentos intercalados com interpretações em versão acústica de Born This Way, Marry the Night, Yoü and I e Edge of Glory, das canções de Natal White Christmas e Orange Colored Sky, e da canção da Broadway The Lady is a Tramp, na qual ela fazia um dueto com Tony Bennett. Com um total de 90 minutos, o especial receberia críticas bastante favoráveis, e daria à ABC sua audiência mais alta no Dia de Ação de Graças desde 2008, quando o canal exibiu o especial da turma do Snoopy A Charlie Brown Thanksgiving. O sucesso do especial motivaria a Interscope a lançar as gravações feitas para o programa de White Christmas, Orange Colored Sky, Yoü and I e Edge of Glory na forma de um EP, chamado A Very Gaga Holiday, lançado em 22 de novembro de 2011, e que alcançaria a nona posição na parada de álbuns natalinos da Billboard, e a posição 52 no Top 200. Bennett também gostaria bastante de trabalhar com Gaga, e pediria para usar as imagens das gravações do especial no documentário The Zen of Bennett, dirigido por Unjoo Moon e que mostrava o cantor gravando duetos com diversos outros artistas, lançado por ocasião de seu 85o aniversário, em novembro de 2012.

No início de 2013, Gaga se aventuraria no cinema, ao ser convidada pelo diretor Robert Rodriguez para interpretar um dos disfarces de um espião mestre nessa arte no filme Machete Kills; a interpretação de Gaga seria abaixo da média, entretanto, e ela acabaria indicada para um Troféu Framboesa (o Golden Raspberry Awards) de Pior Atriz Coadjuvante - o qual "perdeu" para Kim Kardashian e sua "interpretação" no filme Temptation: Confessions of a Marriage Counselor. Rodriguez, entretanto, gostaria muito de trabalhar com ela, e a ofereceria um pequeno papel em Sin City: A Dama Fatal, de 2014 - esse menos criticado.

O terceiro álbum de Gaga, Artpop, seria lançado em 6 de novembro de 2013, após uma festa de lançamento chamada ArtRave, que durou dois dias. O álbum foi recebido pela crítica com menos entusiasmo que seus antecessores, e não vendeu o suficiente para obter Certificação, mas, talvez pelo hype criado em torno de Gaga, estreou, assim como Born This Way, já na primeira posição do Top 200 e da parada de música eletrônica da Billboard. Sua primeira música de trabalho, Applause, chegou ao quarto lugar no Top 40 e rendeu três discos de Platina, mas as duas seguintes, Do What U Want (com participação de R. Kelly), e G.U.Y., não foram tão bem sucedidas. Artpop não receberia indicações ao Grammy, e sua turnê, ArtRave: The Artpop Ball, contaria com apenas 79 shows na América do Norte, Europa, Ásia e Oceania.

Ainda em 2013, Gaga apresentaria uma edição do programa Saturday Night Live, no qual se apresentou cantando Do What U Want (ao lado de R. Kelly) e Gypsy. Em novembro, ela participaria de mais um especial do Dia de Ação de Graças do canal ABC, dessa vez ao lado dos Muppets em Lady Gaga and the Muppets Holiday Spectacular, que também contou com a participação de Joseph Gordon-Levitt, Elton John, RuPaul e Kristen Bell, e no qual ela cantou algumas canções de Artpop em "duetos" com os Muppets.

Em 2014, Gaga e Bennett gravariam um álbum de duetos, lançado em 19 de setembro, chamado Cheek to Cheek. Terceiro seguido de Gaga a estrear já no topo do Top 200 da Billboard, o álbum seria extremamente elogiado pela crítica, principalmente as interpretações de Gaga para as canções escolhidas pela dupla, todas clássicos do jazz. Cheek to Cheek também alcançaria o topo da parada de jazz da Billboard, e ganharia um Disco de Ouro e um Grammy, de Melhor Álbum Pop Tradicional com Vocais. Gaga e Bennett também gravariam um especial para a TV, exibido no canal PBS e lançado posteriormente em DVD e Blu-ray, chamado Tony Bennett and Lady Gaga: Cheek to Cheek Live! (que seria indicado ao Emmy de Especial Excepcional de Variedades, Música ou Comédia), onde cantavam as músicas do álbum, e sairiam em uma turnê de 36 shows pela América do Norte e Europa, chamada Cheek to Cheek Tour, para promovê-lo.

Gaga começaria 2015 com a já citada performance na cerimônia do Oscar, na qual interpretou um pout pourri de canções do filme A Noviça Rebelde antes de apresentar Julie Andrews. No mesmo ano, ela interpretaria Imagine, de John Lennon, na abertura dos Jogos Europeus, em Baku, Azerbaijão. Gaga voltaria a fazer um dueto com Bennett, para a campanha de Natal da livraria Barnes & Noble, na qual a dupla interpretaria a canção natalina Baby, It's Cold Outside. Finalmente, em 2015 ela seria convidada para atuar na quinta temporada da série American Horror Story, no papel de Elizabeth, a dona do hotel onde a temporada é ambientada; diferentemente de sua performance em Machete Kills, dessa vez Gaga seria elogiada por parte da crítica - embora outra parte tenha torcido o nariz - e ganharia até mesmo um Globo de Ouro de Melhor Atriz Coadjuvante em Minissérie ou Filme para a TV.

Em 2016, Gaga retornaria à cerimônia do Oscar, dessa vez como indicada ao prêmio de Melhor Canção Original por Til It Happens to You, que compôs em parceria com Diane Warren para o documentário The Hunting Ground, sobre ataques sexuais que ocorrem nos campi das universidades norte-americanas, mas acabaria perdendo para Writings on the Wall, composta por Jimmy Napes e interpretada por Sam Smith em 007 contra Spectre. Ela pode não ter ganhado o Oscar, mas, ao longo do ano, ganharia dois importantes prêmios: o Contemporary Icon Award, conferido pelo Songwriters Hall of Fame para compositores que influenciem de forma positiva o mundo musical como um todo, na primeira vez em que um artista que interpreta suas próprias músicas levaria esse prêmio; e o Jane Ortner Education Award, conferido a artistas que demonstrem paixão e dedicação à educação através das artes. Ela também seria editora convidada da revista V durante o mês de março, e, por seu trabalho, ganharia o prêmio de Editora do Ano no Fashion Awards, prêmio dedicado ao mundo da moda.

Além de se apresentar na cerimônia do Oscar - na qual cantou acompanhada de 50 sobreviventes de ataques sexuais em universidades - em 2016 Gaga se apresentaria na cerimônia do Grammy, como parte de uma homenagem a David Bowie, que havia falecido no início do ano; e antes do Super Bowl 50, interpretando o hino nacional dos Estados Unidos - em uma performance tão inspirada que lhe renderia um convite da NFL para realizar o show do intervalo do Super Bowl LI (todos os Super Bowl são numerados em romanos, menos o 50). Ela também renovaria seu contrato para atuar em American Horror Story, interpretando, na sexta temporada, uma bruxa chamada Scathach (cada temporada de American Horror Story é uma história completa, com enredo, ambientação e personagens diferentes, embora alguns atores se repitam; por esse motivo, ela concorre no Globo de Ouro e no Emmy como minissérie, e não como série).

O mais recente álbum de Gaga, Joanne, seria lançado em 21 de outubro de 2016; seu nome é uma referência a uma tia de Gaga, irmã de seu pai, a quem a cantora era muito ligada, e que faleceu no início de 2016. Muitas das canções falam sobre família e emoções, e têm mais ênfase na voz de Gaga que no ritmo; segundo a própria Gaga, o álbum também é bem mais sombrio que os anteriores, o que foi motivado, principalmente, por sua participação em American Horror Story. Joanne alcançaria mais uma vez o topo do Top 200 da Billboard, mas sua primeira música de trabalho, Perfect Illusion, não empolgaria, e estacionaria na posição 22 do Top 40; a segunda, Million Reasons, chegaria à posição 52, e seria executada por Gaga em uma apresentação memorável durante o desfile da Victoria's Secret.

No momento, Gaga planeja a turnê de Joanne, e se prepara para participar da refilmagem de Nasce uma Estrela, prevista para estrear nos cinemas no ano que vem. Ela também é engajada em atividades sociais, principalmente contra o bullying e em favor da comunidade LGBT. Seus detratores dizem que ela é um produto da mídia, uma artista que canta para os párias fingindo ser um deles quando na verdade não é. Eu não me importo. Ela canta bem e, na minha opinião, isso é tudo o que uma cantora precisa para obter meu respeito; as perucas e os vestidos de carne são meros detalhes.
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Justiceiro

Logo após escrever o post sobre Nick Fury, pensei em fazer um sobre o Justiceiro. O Justiceiro não é exatamente um dos meus heróis preferidos - para falar a verdade, na adolescência, eu o detestava, e fiquei revoltado quando a Editora Abril incluiu uma sequência de histórias dele nas revistinhas dos X-Men, e justamente nas que vinham trazendo as histórias da Era do Apocalipse - mas, não sei se vocês já repararam, eu gosto de fazer posts sobre super-heróis. Então vamos lá.

Criado na década de 1970, o Justiceiro não é exatamente um herói, e sim um anti-herói - enquanto um herói clássico segue um rígido código de conduta, muitas vezes até mesmo salvando a vida do vilão ou sacrificando a própria vida para salvar inocentes, o anti-herói, apesar de também ter um código de honra próprio, é mais maleável em relação ao que aceita ou não fazer para alcançar seus objetivos, incluindo matar sem remorso. Hoje em dia os quadrinhos estão cheios de anti-heróis, mas, quando o Justiceiro surgiu, o conceito era até mesmo visto com desprezo, com um personagem não podendo ser considerado um herói a menos que tivesse uma conduta verdadeiramente heroica. Como era comum na década de 1970, porém, a Marvel mais uma vez não teve medo de ousar, e acabou colhendo bons frutos.

O Justiceiro foi uma criação de Gerry Conway, na época roteirista da revista The Amazing Spider-Man. A ideia de Conway era introduzir um novo personagem que, de imediato, seria reconhecido como um vilão, mas, aos poucos, iria se mostrando heroico, até que, ao final da história, estaria estabelecido como o mais novo herói Marvel. Conway tinha o hábito de, ao criar um personagem, fazer um esboço de como seria seu uniforme; no caso do justiceiro, ele criaria um uniforme majoritariamente negro, com detalhes em branco, e um pequeno crânio estilizado no peito. Ele então mostraria o esboço ao artista John Romita, à época diretor de arte de Marvel, para que ele efetivamente desenhasse o personagem, antes de mostrá-lo a Stan Lee, na época editor-chefe da Marvel, para aprovação; Romita, entretanto, faria o crânio estilizado gigantesco, tomando todo o tórax do personagem, e com uma composição que usava uma fileira de balas na frente do cinto como os dentes de baixo. A "Caveira do Justiceiro" logo se tornaria um dos elementos mais icônicos dos quadrinhos, o que faria com que Conway e Romita fossem considerados co-criadores do personagem.

O nome "Justiceiro", entretanto, não seria criação de nenhum dos dois. Quando Conway apresentasse o personagem a Lee, ele o apresentaria com o nome de Assassino, com o qual Lee não concordaria justamente por causa da ideia de transformá-lo em um herói depois - na época, era praticamente impossível vender um herói chamado Assassino, devido à conotação extremamente negativa da palavra. Lee, então, se lembraria de uma das histórias que havia escrito no passado, na qual Galactus possuía um robô chamado Punisher (algo como "castigador", e o nome original do Justiceiro em inglês); Lee gostava do nome, mas jamais havia voltado a usá-lo, então sugeriu que ele fosse usado para o herói criado por Conway, que concordou.

O Justiceiro faria sua estreia na revista The Amazing Spider-Man 129, de fevereiro de 1974, com roteiro de Conway e arte de Ross Andru. Tudo o que se sabia sobre ele era que ele era um ex-fuzileiro, com treinamento de atirador de elite, extremamente forte e ágil, estrategista competente, e que, por algum motivo, havia decidido matar todos os criminosos da cidade. Na época, o Homem-Aranha era o principal suspeito da morte de Norman Osborn (que, na verdade, matou a si mesmo enquanto agia como o Duende Verde, mas, como ninguém sabia que ambos eram a mesma pessoa, sobrou para o Aranha, visto por testemunhas junto ao corpo do industrial), e, principalmente graças a uma campanha de J. Jonah Jameson, editor do Clarim Diário, era visto pela maior parte da população como um criminoso; dessa forma, foi fácil para o Chacal, um dos inimigos do Aranha, convencer o Justiceiro de que o herói deveria ser seu próximo alvo. Inicialmente, o Justiceiro seria apresentado como mais um vilão na cola do Aranha, mas, conforme a história se desenrolava, algumas dúvidas começavam a ser colocadas na cabeça dos leitores, até que, no fim, o próprio Aranha percebe que o Justiceiro está sendo manipulado pelo Chacal, e usa seu senso de honra para mostrá-lo de que ele está do lado errado.

O Justiceiro seria um personagem controverso desde o início; por exemplo, ele não via problema em matar criminosos, algo que a maioria dos heróis de então evitava fazer. Muitos dos principais traços da personalidade do herói também seriam determinados por Conway logo em sua primeira história, como seu grande senso de honra e justiça, e o fato de que ele não gosta que o vejam como mais um dos heróis fantasiados que combatem o crime na cidade. Devido a todas essas características, Conway imaginava que ele seria usado apenas como um personagem secundário, aparecendo em algumas poucas histórias; para sua surpresa, entretanto, o Justiceiro também se tornaria extremamente popular dentre os leitores desde sua primeira aparição, e, ao longo da década de 1970, faria participações não somente em mais histórias do Homem-Aranha, mas também do Capitão América e dos X-Men, sempre lutando ao lado dos heróis, e não contra eles.

O ápice da popularidade do personagem se daria no final dos anos 1980 e início dos anos 1990. Tudo começaria em 1982, quando, durante sua época como roteirista e desenhista do Demolidor, Frank Miller decidiria incluir o Justiceiro em suas histórias, sempre usando sua personalidade esquentada e visão de como o crime deveria ser erradicado para contrastar com as atitudes do Homem Sem Medo em relação aos criminosos. Dois anos depois, em 1984, o roteirista Steven Grant e o desenhista Mike Zeck - na época em alta por ter desenhado Guerras Secretas - ficariam sabendo que o editor da Marvel de então, Carl Potts, estava interessado em projetos de minisséries. Inspirados na visão que Miller tinha do personagem, Grant e Zeck apresentariam um projeto para uma minissérie do Justiceiro, que seria aceito por Potts, apesar de protestos do então editor-chefe, Roger Stern, que não considerava o Justiceiro um personagem de apelo junto ao público.

Chamada simplesmente The Punisher (mas hoje conhecida como The Punisher: Circle of Blood, devido ao nome da história, "Círculo de Sangue"), a minissérie em cinco edições seria lançada entre janeiro e maio de 1986, e seria um gigantesco sucesso, ajudando a cimentar o nome do Justiceiro no rol dos mais populares heróis Marvel, e a estabelecê-lo definitivamente como um dos primeiros anti-heróis da história dos quadrinhos - muitos creditam ao sucesso do Justiceiro, aliás, a onda de anti-heróis que surgiria no início da década de 1990, e que faria com que até o Wolverine, que, apesar de esquentado e violento, até então ainda era retratado como um herói tradicional, passasse a ser um anti-herói. Vale citar como curiosidade que, embora a minissérie estivesse prevista para ter cinco edições desde o início, um erro na capa das quatro primeiras edições faria com que ela fosse anunciada como uma "minissérie em quatro partes", o que confundiu alguns leitores quando a história não se concluiu na quarta edição, e levou muitos a imaginarem que ela havia sido "estendida" devido ao seu sucesso.

O sucesso da minissérie levou ao lançamento de uma série regular, também chamada The Punisher, inicialmente com roteiros de Mike Baron e arte de Klaus Jensen, que estrearia em julho de 1987. Para vocês terem uma ideia de como o Justiceiro foi popular na época, não somente essa série durou 104 edições (a última sendo publicada em julho de 1995), mas também teve oito edições anuais (entre 1988 e 1994), quatro "edições especiais de verão" (chamadas The Punisher Summer Special, entre 1991 e 1994), três edições especiais de Natal (The Punisher Holiday Special, entre 1992 e 1994) e, acreditem ou não, três "edições especiais de volta às aulas" (The Punisher: Back to School Special, também entre 1992 e 1994).

Foi na série regular que finalmente ficamos sabendo as origens do Justiceiro: ele era um ex-fuzileiro naval chamado Frank Castle, que lutou na Guerra do Vietnã, e, ao voltar para casa, recusou um emprego de instrutor das Forças Especiais para poder passar mais tempo com a família. Durante um piquenique no Central Park, seus filhos acidentalmente foram testemunhas enquanto mafiosos executavam um rival; para não correr riscos, os mafiosos decidiram, também matar a família de Castle, que sobreviveu graças a seu treinamento, mas perdeu a esposa e os filhos. Amargurado, com desejo de vingança, e descrente na justiça corrupta que deixou os mafiosos livres após um julgamento comprado, ele decidiria dedicar a sua vida a acabar com o crime de uma vez por todas.

Uma característica curiosa do Justiceiro era que, diferentemente dos demais heróis Marvel, ele não possuía uma galeria própria de vilões - o que era justificado pelo seu próprio modus operandi, já que, como ele matava seus inimigos, era meio difícil que viesse a enfrentar o mesmo vilão mais de uma vez. Um dos poucos que podem ser considerados um arqui-inimigo do Justiceiro é Retalho, um gangster que, após uma luta contra o herói, sofreu um acidente que o deixou desfigurado; outros vilões recorrentes das histórias do Justiceiro eram originários das revistas de outros heróis, como o Rei do Crime, o Mercenário, ou os Carniceiros. Contudo, por não ter superpoderes, e por seu desejo de querer livrar a cidade do crime a qualquer custo, a maior parte das histórias do Justiceiro não o coloca contra supervilões, e sim contra criminosos tradicionais, como gangsters, mafiosos, traficantes, psicopatas e policiais corruptos, o que logo se tornaria mais um diferencial do herói em relação a seus pares.

Apesar de ser um "lobo solitário", preferindo agir sozinho, o Justiceiro também tem seus aliados, sendo o principal deles Microchip; no início da série regular, Microchip era uma espécie de Q (o do James Bond, não o de Jornada nas Estrelas: A Nova Geração), sendo o responsável por fornecer os equipamentos e armas que o Justiceiro usava em sua luta contra o crime, incluindo vans especiais blindadas e equipadas com a mais moderna tecnologia. Ao longo dos anos, porém, o papel de Microchip foi diminuindo, até ele passar a ser uma espécie de contato, acionado apenas quando o Justiceiro precisava saber do paradeiro de algum criminoso ou informações sobre algum caso no qual a polícia estivesse trabalhando. Diversos heróis, como o Homem-Aranha, o Capitão América, o Demolidor, o Motoqueiro Fantasma, o Hulk, o Cavaleiro da Lua, Nick Fury e Wolverine, também participariam das histórias do Justiceiro, lutando a seu lado ou o enfrentando, e frequentemente servindo de contraponto aos métodos violentos do herói.

Assim como outros heróis de grande sucesso da Marvel, como o Homem-Aranha e os X-Men, o Justiceiro teria mais de uma revista mensal durante algum tempo. Isso começaria em novembro de 1988, com o lançamento de The Punisher: War Journal, inicialmente com roteiros e arte de Potts, e que duraria 80 edições, a última lançada em julho de 1995. Em março de 1992 ele ganharia uma terceira série mensal, The Punisher: War Zone, com roteiros de Chuck Dixon e arte de John Romita Jr., que seria o desenhista por quase todas as suas 41 edições, a última de julho de 1995.

O fato de todas as três séries mensais do Justiceiro terem sido encerradas em julho de 1995 não foi coincidência: desde o início daquele ano, as três estavam com vendas baixas, o que levaria a Marvel a acreditar que o personagem já estava gasto, e a tentar reformulá-lo. Assim, as três séries mensais foram canceladas, e o Justiceiro se tornou protagonista de uma saga chamada Over the Edge, na qual ele é capturado pela S.H.I.E.L.D. e acaba assassinando Nick Fury, que, segundo uma sugestão hipnótica do vilão Spook, que se infiltrou na organização, foi quem deu a ordem para que a família de Castle fosse morta - na verdade, porém, o Justiceiro assassinaria apenas um androide, com Fury continuando vivo. Essa saga começaria na edição especial Double Edge: Alpha, de julho de 1995, seguiria pelas revistas mensais Daredevil, Ghost Rider, The Incredible Hulk e Doctor Strange, e se concluiria com mais uma edição especial, Double Edge: Omega, de novembro de 1995.

Uma nova revista chamada The Punisher, com numeração recomeçando do 1, também seria lançada em novembro de 1995, com roteiros de John Ostrander e arte de Tom Lyle. Após ser condenado à morte por assassinar Nick Fury, o Justiceiro consegue escapar da S.H.I.E.L.D., e, após uma série de eventos controversos, se tornaria o chefe de um cartel do crime organizado, o que faria com que ele enfrentasse novamente Fury, assim como Wolverine. Essa nova série não faria sucesso, e seria cancelada após apenas 18 edições, em abril de 1997.

A Marvel, então, tentaria uma reformulação ainda mais ousada: em uma minissérie em 4 edições também chamada The Punisher (mas hoje conhecida como The Punisher: Purgatory), lançada entre novembro de 1998 e fevereiro de 1999, o Justiceiro morre e faz um acordo com os anjos e demônios, retornando à vida com poderes sobrenaturais para atuar como um mercenário a seu serviço. Essa versão sobrenatural do Justiceiro também estrelaria uma segunda minissérie, Wolverine/Punisher: Revelation, lançada entre junho e setembro de 1999, na qual ele se une a Wolverine para investigar quem estaria matando inocentes nas ruas de Nova Iorque. Nenhuma das duas minisséries teria boa vendagem, e a versão sobrenatural do Justiceiro iria para a geladeira.

O Justiceiro voltaria a fazer sucesso pelas mãos de Garth Ennis, que, em parceria com o desenhista Steve Dillon, produziria uma nova minissérie chamada The Punisher (hoje conhecida como The Punisher: Welcome Back Frank, "bem-vindo de volta Frank"), lançada em 12 edições entre abril de 2000 e março de 2001 pelo selo Marvel Knights, dedicado a histórias mais adultas que as habituais da editora. Ennis faria com que Frank perdesse os poderes sobrenaturais e se livrasse dos contratos com os anjos e demônios, e retornaria o personagem à sua essência, colocando-o contra uma família mafiosa liderada pela terrível Ma Gnucci; além disso, o Justiceiro de Ennis seria mais solitário que nunca, sempre se mudando para não dar a seus inimigos a chance de encontrá-lo, e evitando fazer amizades para não colocar a vida de inocentes em risco - vale citar que a minissérie também traria a estreia de um dos inimigos mais populares do Justiceiro, um homem gigantesco, superforte mas não muito inteligente, conhecido apenas como "o Russo".

A minissérie faria um enorme sucesso, e daria origem a mais uma série mensal chamada The Punisher, mais uma vez com numeração recomeçando do 1, que teve 37 edições escritas por Ennis, a maioria delas com arte de Dillon, lançadas entre agosto de 2001 e fevereiro de 2004. Essa série seria cancelada não por baixas vendas, e sim porque as histórias mais adultas e violentas escritas por Ennis faziam cada vez mais sucesso, mas, mesmo no selo Marvel Knights, havia um limite para o que Ennis poderia fazer nesse sentido; a saída, então, foi mover o Justiceiro para um novo selo, o Marvel MAX, esse sim dedicado a todo tipo de história considerada adulta, com direito, por exemplo, a violência extrema e cenas de sexo - sendo que um dos motivos pelos quais isso era possível era que as histórias do selo MAX ocorriam em uma espécie de universo alternativo, sem qualquer ligação com o Universo Marvel original. A estreia do Justiceiro no selo MAX ocorreria com uma minissérie chamada Born ("nascido"), escrita por Ennis e com arte de Darick Robertson, publicada em 4 edições entre agosto e novembro de 2003, seguida de uma série mensal.

Lançada em março de 2004, mês seguinte ao do último número da série do selo Marvel Knights, a série mensal do Justiceiro no selo MAX se chamaria, mais uma vez, The Punisher, mas ficaria conhecida como The Punisher MAX. Ao todo, ela teria 75 edições, com Ennis sendo o roteirista até a 60; na 66, ela mudaria de nome para Frank Castle: The Punisher, por razões editoriais. A edição 75 seria lançada em dezembro de 2009, mas, de certa forma, não seria a última: em janeiro de 2010, com a numeração recomeçando do 1, seria lançada a série Punisher MAX (sem o "The", e com o "MAX" agora fazendo parte do título oficial), que continuava a história exatamente de onde parou. Punisher MAX tinha roteiros de Jason Aaron e arte de Dillon, que também desenhou quase todas as edições de The Punisher MAX e Frank Castle: The Punisher, sendo hoje considerado o "desenhista oficial" do herói; a nova série duraria 22 edições, a última lançada em abril de 2012, e seria cancelada por opção editorial da Marvel. Na penúltima edição, o Justiceiro é morto, e na última, durante seu enterro, a população se revolta e passa ela mesma a caçar os criminosos da cidade como ele fazia.

A razão pela qual a The Punisher (MAX) teve de mudar de nome para Frank Castle: The Punisher foi que, com o personagem fazendo cada vez mais sucesso, a Marvel não desejava que ele ficasse restrito aos leitores adultos, e resolveria relançar sua série ambientada no Universo Marvel tradicional. Ela começaria a fazer isso com o lançamento de uma nova série chamada Punisher: War Journal, (sem o "The", e com numeração começando do 1), que estreou bem em meio à saga Guerra Civil, em janeiro de 2007. Essa série teria 26 edições, a última lançada em fevereiro de 2009; no mês seguinte, ela seria substituída (mas com a história começando de onde havia parado) por uma nova série mensal chamada apenas The Punisher (por isso a MAX teve de mudar de nome), que durou mais 16 edições, a última lançada em junho de 2010.

Na edição 11, lançada em janeiro de 2010, ocorreria mais uma reformulação controversa do personagem, pelas mãos do roteirista Rick Remender: após morrer decapitado pelo vilão Daken durante os eventos da saga Reinado Sombrio, Frank é ressuscitado pelo vilão Morbius na forma de uma criatura semelhante ao Monstro de Frankenstein, chamada FrankenCastle. Depois disso, ele decide se unir a Morbius e sua Legião de Monstros e protegê-los dos humanos que querem exterminá-los. Com isso, a série mensal seria renomeada para FrankenCastle, com a numeração começando no 17. Como provavelmente era de se esperar, a nova versão do personagem não fez sucesso, e FrankenCastle foi cancelada em novembro de 2010, na edição 21 - na qual Frank deixa de ser um monstro e volta a ser um humano, reassumindo o manto do Justiceiro e voltando a enfrentar criminosos.

A primeira aventura do Justiceiro após voltar a ser humano seria em uma minissérie chamada simplesmente Punisher (mas hoje conhecida como Punisher: In the Blood), lançada em cinco edições entre janeiro e maio de 2011, com roteiro de Remender e arte de Roland Boschi, na qual o Justiceiro enfrenta mais uma vez seu arqui-inimigo Retalho. A essa minissérie se seguiria mais uma série mensal chamada The Punisher, com roteiros de Greg Rucka e arte de Marco Checchetto; a Marvel apostaria alto nessa nova série, que colocaria o Justiceiro às voltas com o Homem-Aranha e os Vingadores enquanto tenta interromper uma guerra de gangues, mas ela seria cancelada após apenas 16 edições, em novembro de 2012, devido a baixas vendas. Sua história se concluiria em uma minissérie em seis edições chamada Punisher: War Zone (mais uma vez, sem o "The"), lançada entre dezembro de 2012 e abril de 2013, mais uma vez a cargo de Rucka, com arte de Carmine di Giandomenico.

Depois dessa minissérie, o Justiceiro integraria brevemente a equipe dos Thunderbolts, ficando sem revista própria pelo resto de 2013. Como parte do selo All-New Marvel NOW!, em abril de 2014, seria lançada uma nova série mensal chamada The Punisher (a sétima no total, sem contar as minisséries), na qual o Justiceiro atua não em Nova Iorque, e sim na Costa Oeste dos Estados Unidos. Com roteiros de Nathan Edmondson e arte de Mitch Gerads, a série teria apenas 20 edições, a última lançada em setembro de 2015.

Após participar das sagas Pecado Original e da segunda Guerras Secretas, o Justiceiro retornaria em uma nova revista mensal, mais uma vez chamada The Punisher. Lançada em julho de 2016, com roteiros de Becky Cloonan e arte de Dillon, que a desenharia até falecer, em outubro daquele ano, quando seria substituído por Matt Horak, essa é a séria atual do herói, que o traz mais uma vez enfrentando criminosos, mas agora sendo perseguido pelo DEA, o departamento de controle de narcóticos dos Estados Unidos, por ter atrapalhado uma investigação. Mais uma vez, as histórias são mais adultas que o costumeiro da Marvel, e agora as revistas trazem na capa um aviso de que não são apropriadas para crianças (o famoso "parental advisory").

Talvez o único jeito de o Justiceiro funcionar seja assim mesmo. Se não for proibido para menores, fica difícil mostrar de forma realista um herói que mata pessoas - e aí acabam tendo que colocá-lo para matar demônios, monstros, robôs, alienígenas...
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