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sábado, 30 de novembro de 2024

Escrito por em 30.11.24 com 0 comentários

Kull da Atlântida

Conan é o personagem mais famoso de Robert E. Howard, mas não foi seu primeiro. Na verdade, ele não foi nem seu primeiro bárbaro. Na verdade mesmo, existe outro personagem que, sem ele, Conan nem teria existido. Esse personagem se chama Kull da Atlântida, e é o tema do post de hoje.

A versão mais famosa sobre a origem de Conan conta que, em 1932, aos 26 anos, Howard estava viajando por seu Texas natal e teve uma inspiração súbita, criando uma terra fictícia habitada por bárbaros destemidos, a qual chamou de Ciméria, e, pensando em como aproveitá-la, criou toda uma época mítica, chamada Era Hiboriana, fazendo de um cimério o herói que iria viver aventuras nesse tempo. O que acontece, e que muita gente não sabe, é que o nome Ciméria não foi uma criação de Howard, sendo antigamente usado para se referir à região hoje conhecida como Crimeia, aquela que está em disputa entre a Ucrânia e a Rússia. A Ciméria de Howard, evidentemente, não tem nada a ver com a Crimeia, sendo um criação própria. Só que, alguns anos antes, ele tinha feito a mesmíssima coisa, apenas usando uma terra fictícia ao invés de uma real, e não obtendo o mesmo sucesso.

No final da década de 1920, pouco após completar 20 anos, Howard já era considerado um autor de sucesso, podendo viver exclusivamente da venda de suas histórias e fazendo amizade com outros dois famosos escritores da época, H.P. Lovecraft e Clark Ashton Smith. As histórias de Howard diferiam das de Lovecraft e Smith, entretanto, principalmente porque as dos dois tinham muitos elementos de horror, enquanto as de Howard eram pura ação, tendo como protagonistas espadachins, soldados, piratas, pistoleiros, e até mesmo marinheiros brigões. Um dia, porém, Howard estava conversando com Lovecraft, e teve a ideia de uma história de ação com elementos de terror, protagonizada por um bárbaro que enfrentaria feitiçaria, tendo que contar também com sua inteligência para sobrepujar seus inimigos, ao invés de apenas com sua espada. Assim surgiria O Reino das Sombras.

O Reino das Sombras era protagonizada pelo Rei Kull, governante da Valúsia, mas que não era natural de lá, tendo chegado ao trono após derrotar em combate o rei anterior. Com a ajuda de Brule, um lanceiro picto, ele descobre uma conspiração para não somente removê-lo do trono, mas também para escravizar toda a humanidade; por trás dela, estão os homens-serpente, que governavam o mundo antes da ascensão dos humanos, e agora querem voltar ao lugar que consideram seu por direito. Os homens-serpente, que em sua forma original têm corpo humano mas cabeça de serpente, são criaturas de feitiçaria, capazes de assumir a aparência de qualquer ser humano. Usando desse poder, eles planejam substituir a corte de Kull pouco a pouco, até conseguir matá-lo, substituí-lo, e governar a Valúsia, partindo, então para a conquista dos demais reinos humanos, até se tornarem os governantes de tudo. Os pictos descobrem esse estratagema e enviam Brule para alertar Kull, com a dupla precisando descobrir quais conselheiros de Kull já foram substituídos e impedir os homens-serpente antes que seja tarde demais.

Publicada na revista Weird Tales em agosto de 1929, O Reino das Sombras seria aclamada, considerada uma das melhores histórias já apresentadas na revista, e se tornando o primeiro exemplar do estilo que posteriormente, ao ser popularizado por Conan, receberia o nome de Espada e Magia. Com o sucesso da história, Howard passaria a desenvolver o personagem Kull, determinando os acontecimentos mais relevantes de seu passado, e delimitando como seria o mundo no qual ele vive.

Kull é nascido na Atlântida, segundo o próprio Howard, cerca de 100 mil anos antes do nascimento de Cristo. Nas histórias de Kull, não somente a Atlântida era uma ilha normal, e não um reino submarino, como também a Atlântida de Howard é completamente diferente de suas descrições feitas por outros autores: ao invés de uma civilização altamente avançada para a sua época, a ilha é esparsamente povoada e habitada por tribos bárbaras que rejeitam a civilização. A oeste da Atlântida fica um continente conhecido como Thúria, onde estão localizados os reinos humanos civilizados, com o mais poderoso deles sendo a Valúsia. Outras ilhas de destaque, também com nomes inspirados em civilizações que podem ter existido ou não, são a Lemúria, terra de piratas sanguinários, e a distante Mu. E, a leste da Atlântida, ficam as ilhas habitadas pelos pictos, que, ao contrário de nas histórias de Conan, onde são selvagens que servem apenas como antagonistas, nas histórias de Kull são um povo bárbaro semelhante aos atlantes e inspirados nos indígenas norte-americanos. Brule, um picto eloquente e corajoso, após os eventos de O Reino das Sombras se tornaria o melhor amigo de Kull.

Antes de prosseguirmos, vale explicar que, após criar Conan e a Era Hiboriana, Howard definiria que as épocas de Kull e de Conan estariam separadas por alguns milhares de anos. Nesse intervalo de tempo, ocorreria um cataclisma (o que faria com que a época de Kull se tornasse oficialmente a "pré-cataclísmica") que levaria ao afundamento da Atlântida e à derrocada das civilizações humanas, que reverteriam à selvageria e levariam séculos para se tornar civilizadas novamente, com os pictos jamais passando do estágio de selvageria ao qual foram regredidos, e povos como os aquilônios e hirkanianos sendo descendentes diretos dos antigos thuranianos. Em termos gerais, portanto, a época de Kull está tão distante da época de Conan quanto a época de Conan está distante da nossa.

Voltando à história de Kull, ele nasceu na Atlântida, mas um evento ocorrido em sua adolescência faria com que ele fosse exilado, tendo de fugir para o continente. No meio do caminho, ele seria capturado e escravizado, forçado a trabalhar como remador em um navio. Depois disso, ele seria vendido como gladiador, e, ao recuperar sua liberdade, se tornaria mercenário, e então soldado no exército da Valúsia, onde iria subindo na hierarquia até se tornar general. Envolvido em uma trama para derrubar o rei, ele mataria o monarca e decidiria ele mesmo assumir a coroa, se tornando o novo Rei da Valúsia. Quase todas as histórias escritas por Howard são ambientadas nessa última fase da vida do personagem, o que faz com que ele seja bastante conhecido como Rei Kull - embora atualmente o nome Kull da Atlântida seja considerado o oficial, principalmente porque, na década de 1950, a Fawcett Comics criaria um vilão para o Capitão Marvel também chamado King Kull.

Também vale citar que o arqui-inimigo de Kull é o feiticeiro Thulsa Doom - que, curiosamente, seria o vilão do primeiro filme do Conan. Um feiticeiro que tem no lugar da cabeça uma caveira com fogo dentro das órbitas, Doom é aparentemente invulnerável, com Kull jamais conseguindo destruí-lo, apenas aprisioná-lo até que ele escape e volte a atormentá-lo. O objetivo de Doom, assim como o dos homens-serpente, é tomar para si o trono da Valúsia e então conquistar o restante do continente, se tornando praticamente o governante do mundo.

Apesar de toda a aclamação conseguida por O Reino das Sombras, Howard só conseguiria vender duas outras histórias de Kull em vida: Os Espelhos de Tuzun Thune, publicada pela Weird Tales no mês seguinte, em setembro de 1929, não faria muito sucesso, o que levaria a revista a rejeitar todas as histórias de Kull seguintes que ele enviasse, exceto Os Reis da Noite, publicada em novembro de 1930.

Seria por causa dessa rejeição que Howard pegaria uma história de Kull, Por esse Machado eu Reino, e a transformaria em A Fênix na Espada, história que marcaria a estreia de Conan. A história de Conan tem mais ação, mais elementos sobrenaturais e menos debates filosóficos, mas algumas passagens de ambas são idênticas; é por essa razão, inclusive, que, em sua primeira história, Conan é Rei da Aquilônia, e somente nas seguintes é mostrada sua carreira como ladrão, pirata e soldado. Aliás, nesse ponto as "carreiras" de Kull e Conan também se assemelham, com ambos tendo tido várias "profissões" antes de matar um rei tirano e assumir o trono. Não há registro sobre se isso foi proposital, ou seja, se Howard quis fazer de Conan o "novo Kull", ou se ele simplesmente achou que esse era o método mais interessante para contar histórias.

Apesar das semelhanças, Kull e Conan são personagens muito diferentes. O cimério é proativo, sempre em busca de aventura, entre uma e outra se diverte em tavernas, com cerveja e mulheres, e está sempre acompanhado de uma bela dama, com a qual planeja ter envolvimento romântico. Já o atlante é soturno, reservado, e costuma ser levado pela vida, apenas reagindo aos desafios que são colocados diante dele, além de não mostrar interesse em suas parceiras femininas, embora em algumas histórias seja seduzido. Após se tornarem reis, Conan vê o trono como seu direito, planeja mantê-lo a qualquer custo, e pensa em conquistar uma rainha e formar uma dinastia, enquanto Kull vê o trono como um fardo, parece mantê-lo apenas para que a humanidade não seja dominada, e não pretende se casar nem constituir família. Finalmente, Conan é solitário, e, exceto por Bêlit, jamais teve um parceiro duradouro, enquanto Kull tem em Brule seu melhor amigo, confidente e irmão em armas, pelo qual daria a vida se necessário.

Ao todo, Howard escreveria apenas 14 histórias protagonizadas por Kull - para efeitos de comparação, de Conan ele escreveria 21 completas e 4 incompletas. Das 14 de Kull, três estavam incompletas, sendo concluídas para publicação por Lin Carter; essas três, mais Por esse Machado eu Reino e as outras sete que não foram publicadas pela Weird Tales fariam sua estreia em um livro, chamado King Kull, lançado pela Lancer Books em 1967, e que também incluía Os Espelhos de Tuzun Thune e O Reino das Sombras. As demais ficariam inéditas até 1978, à exceção de A Maldição do Crânio Dourado, publicada no fanzine The Howard Collector também em 1967. Desde a década de 1980, todas as 14 histórias de Kull foram republicadas por várias editoras em diversos países, mas jamais alcançaram o mesmo nível de popularidade que as de Conan.

No final da década de 1960, quando a Marvel começou a procurar por um herói de espada e magia, o preferido de Stan Lee para o cargo era Thongor, bárbaro que vivia em uma espécie de mundo pré-histórico criado por Carter. O roteirista escolhido para a empreitada, Roy Thomas, entraria em contato com Carter, mas jamais obteria uma resposta. Stan Lee, então, pediria para que ele tentasse obter os direitos de Kull, que estava em voga porque King Kull havia acabado de ser lançado, por razões puramente estéticas: ele achava que o nome Kull chamaria atenção no título de uma revista. Nem Stan Lee, nem Thomas pensariam em Conan de primeira porque, na época, ele já era o personagem mais famoso de Howard, Thomas imaginou que ele seria muito caro, e Martin Goodman, o editor-chefe da Marvel, reservaria uma quantia muito baixa pelo licenciamento - porém, ao entrar em contato com o então detentor dos direitos, o advogado Glen Lord, Thomas conseguiria licenciar Conan, e o resto é história.

O enorme sucesso que Conan fez nos quadrinhos, que inclusive ajudaria a popularizar o personagem de forma jamais vista, levaria a Marvel a se interessar por outros personagens de Howard, e assim, mais uma vez, Thomas se viu com a missão de negociar os direitos de Kull. A estreia do atlante na Marvel seria na revista Creatures on the Loose! 10, de março de 1971, em uma história curta, dividindo a revista com uma reimpressão, curiosamente chamada Trull the Inhuman, sobre uma criatura que vivia na selva. Com roteiro de Thomas e arte de Bernie Wrightson, a história de Kull seria uma adaptação de O Crânio do Silêncio, uma das histórias que Howard escreveu mas não conseguiu publicar em vida, tendo sido publicada pela primeira vez em King Kull.

O sucesso da revista convenceria a Marvel a lançar uma série regular de Kull; como a de Conan era Conan the Barbarian, eles optariam por chamá-la de Kull the Conqueror. Com roteiros de Thomas até a quinta edição e de Gerry Conway a partir da sexta, e arte dos irmãos John e Marie Severin, a revista, totalmente em cores e seguindo os preceitos do Comics Code Authority, seria lançada em junho de 1971, e traria apenas histórias inéditas - ou seja, nenhuma delas adaptação das de Howard - ambientadas já na época em que Kull era Rei da Valúsia. Infelizmente a revista não teve as boas vendas que a Marvel esperava, e chegou a ser cancelada após apenas duas edições (a segunda de setembro de 1971); contudo, muitas cartas continuaram chegando à redação pedindo por mais histórias de Kull, e, após testar as águas publicando uma, com roteiro de Thomas e arte dos Severin, na revista Monsters in the Prowl 16, de abril de 1972, a Marvel decidiria retomar a Kull the Conqueror, recomeçando da edição 3, em julho de 1972.

A revista seria publicada de forma bimestral, mas ainda com baixas vendas, até ser cancelada em setembro de 1973, após apenas 10 edições. Kull não ficaria de fora do mercado das revistas coloridas por muito tempo, entretanto: o cancelamento na verdade fazia parte de uma estratégia, com uma nova revista, Kull the Destroyer, sendo lançada já em novembro de 1973 - o mês no qual a Kull the Conqueror 11 deveria ter sido lançada se não tivesse sido cancelada. Assim como a de Conan fazia originalmente, essa revista apostaria em adaptações das histórias de Howard - começando já por Por esse Machado eu Reino - e na rivalidade entre Kull e Thulsa Doom, com inclusive uma saga que abrangeria três edições.

A Kull the Destroyer seguiria a numeração da Kull the Conqueror, ou seja, seu primeiro número seria o 11. O número 12 atrasaria, e seria lançado apenas em fevereiro de 1974; a partir daí, a revista seria bimestral, mas, como as vendas não subiriam, seria novamente cancelada, após a edição 15, de agosto de 1974. A edição 11 teria roteiro de Thomas, as outras quatro de Steve Englehart, e a arte em todas as cinco edições seria de Mike Ploog.

Entre a Kull the Conqueror e a Kull the Destroyer, em outubro de 1973, a adaptação de O Crânio do Silêncio seria republicada na revista Savage Tales, voltada para o público adulto, em preto e branco, e sem a censura do CCA, em sua segunda edição. Quando a nova revista em preto e branco voltada para o público adulto de Conan, The Savage Sword of Conan the Barbarian, fosse lançada, em agosto de 1974 - mesmo mês do cancelamento da Kull the Destroyer - Kull passaria a ser habitué dela, com histórias publicadas em várias edições. As primeiras seriam continuação direta das publicadas em Kull the Destroyer, encerrando a história na qual Kull confronta Doom pelo trono da Valúsia, que havia ficado sem final, mas logo Kull passaria a ter histórias curtas de oito páginas, usadas para preencher o espaço que sobrava na revista após as histórias de Conan, bem mais longas e que eram o chamariz principal de cada edição.

Duas fases de Kull na Savage Sword ficariam famosas. A primeira contaria com roteiros de Chuck Dixon, o roteirista que mais escreveu Kull em preto e branco, e arte de Geoff Isherwood; essas histórias eram mais ou menos seguidas e lidavam com um novo plano dos homens-serpente, que chegaram a sitiar a capital da Valúsia. A outra tinha roteiros de John Arcudi e arte de Dale Eaglesham; Arcudi introduziria um novo personagem, Bakas, que foi escravo remador junto com Kull, e o tratava como se fosse seu irmão mais novo. Perto do fim da revista, já na década de 1990, Thomas retornaria aos roteiros, mas escreveria apenas histórias que contavam o passado de Kull, antes de ele se tornar rei, que cobriram sua infância e adolescência em Atlântida e parte de sua juventude como escravo remador; seria com essas histórias que o nome Kull da Atlântida se popularizaria, já que elas não podiam trazer no título o nome "Rei Kull", pois Kull ainda não era Rei.

Além de suas muitas aparições na Savage Sword, em 1975 Kull ganharia uma revista em preto e branco com seu nome no título, graças a um mal-entendido: após o cancelamento da Kull the Destroyer, Thomas pediria autorização a Stan Lee para lançar quatro minisséries, em preto e branco e voltadas para o público adulto, cada uma estrelada por um personagem criado por Howard: Kull, Red Sonja, Solomon Kane e Bran Mak Morn. Stan Lee daria autorização e informaria o editor da Marvel na época, Jim Steranko, do projeto. Por alguma falha na comunicação, Steranko entendeu que Thomas estava trabalhando em uma nova revista em preto e branco para adultos que, a cada edição, traria histórias desses quatro personagens, e publicaria essa informação em seu fanzine, Mediascene. Logo começariam a chegar na redação da Marvel cartas querendo saber mais sobre essa nova revista, e Thomas, achando que essa era uma ideia melhor do que as quatro minisséries, decidiria trabalhar nessa ideia. Assim nasceria a revista Kull and the Barbarians.

A primeira edição da Kull and the Barbarians traria apenas material republicado, sendo três histórias em quadrinhos, duas delas de Kull (sendo uma O Reino das Sombras) e uma adaptação de O Vale do Verme, considerada uma das melhores histórias escritas por Howard, protagonizada pelo bárbaro Niord, além das matérias costumeiramente apresentadas nesse tipo de revista, como resenhas e pin ups. A segunda edição, de julho, e a terceira, de setembro, trariam apenas material inédito, incluindo, em cada uma, uma história de Kull, uma de Solomon Kane e uma de Red Sonja, e, na segunda, um trecho de um livro ainda inédito do herói Blackmark, criado por Gil Kane. As vendas seriam dentro do esperado, mas, mesmo assim, após a terceira edição a Marvel decidiria cancelar a revista, alegando que ela era muito cara. A história de Kull da segunda edição teria roteiro de Gerry Conway e arte de Jess Jodloman, e a da terceira roteiro de Doug Moench e arte de Vicente Alcalzar.

O sucesso de Kull nas revistas em preto e branco, entretanto, motivaria a Marvel a relançar a Kull the Destroyer, como se nada tivesse acontecido, em agosto de 1976, recomeçando da edição 16. Com roteiros de Doug Moench e arte de Ed Hannigan até a edição 20, e roteiros de Don Glut e arte de vários artistas, dentre eles dois nomes conhecidos dos fãs de Conan, Ernie Chan e Alfredo Alcalá, a partir da 21, a revista voltaria a investir apenas em histórias inéditas, mas a maioria delas tendo Thulsa Doom como antagonista. Ela seguiria sendo bimestral até outubro de 1978, quando seria definitivamente cancelada, na edição 29.

Em junho de 1979, Kull seria o astro da Marvel Preview 19, outra revista em preto e branco voltada para o público adulto, em uma história com roteiro de Thomas e arte de Sal Buscema, que prometia ser seu embate definitivo contra Thulsa Doom. Após a edição 24, a Marvel Preview seria renomeada para Bizarre Adventures, mantendo a numeração. Kull estrelaria a edição 26, de maio de 1981, com roteiro de Moench e belíssima arte de John Bolton, na qual o Rei da Valúsia deve frustrar mais um plano dos homens-serpente para tomar seu trono. Ainda em 1981, Kull participaria da revista Marvel Team Up, nas edições 111 e 112, de novembro e dezembro, em uma história na qual os homens-serpente tentam dominar o mundo na época atual, com o Homem-Aranha tentando detê-los e o Doutor Estranho usando um feitiço para enviar sua forma astral ao passado e conseguir a ajuda de Kull.

Essa história traria Kull de volta aos holofotes, e faria com que a Marvel planejasse o lançamento de uma minissérie em quatro partes estrelada pelo herói, que seria lançada em 1982. Sucessivos atrasos, entretanto, fariam com que a minissérie, chamada, assim como a primeira revista do atlante, Kull the Conqueror, tivesse apenas duas edições, uma lançada em dezembro de 1982, com roteiro de Alan Zelenetz e arte de John Buscema, a outra em março de 1983, com roteiro de Moench e arte de Bolton. As vendas seriam acima do esperado, e a Marvel decidiria transformar a minissérie em uma série regular, mas, por algum motivo, decidiria recomeçar a numeração do 1, com uma nova Kull the Conqueror sendo lançada em maio de 1983. A periodicidade também não era lá muito forte, com a edição 2 sendo lançada em julho, mas a 3 apenas em dezembro, da 4 a 7 em fevereiro, agosto, outubro e dezembro de 1984, e as três últimas em fevereiro, abril e junho de 1985. As vendas nunca agradaram à Marvel, que decidiria cancelar a revista após a décima edição. Em quase todas as edições, os roteiros seriam de Zelenetz e a arte de John Buscema.

A última revista estrelada por Kull publicada pela Marvel seria a graphic novel Kull: The Vale of Shadow, de novembro de 1989, com roteiro de Zelenetz e arte de Tony DeZuniga, na qual o Rei Kull é dado como morto e seus conselheiros mais próximos relembram suas histórias favoritas vividas ao lado do monarca. Depois disso, ele teria histórias publicadas apenas na Savage Sword, até o cancelamento da revista, em 1995, quando a série de aventuras de Kull antes de se tornar rei seria interrompida antes de chegar na parte em que ele matava o antigo rei e assumia o trono. Vale citar também que, nas décadas de 1970 e 1980, Kull faria algumas improváveis participações especiais em histórias do Conan publicadas na Conan the Barbarian - normalmente em flashbacks, mas houve uma história que envolveu uma viagem no tempo, que fez com que Conan e Kull se enfrentassem.

Assim como Conan, após deixar a Marvel, Kull iria para a Dark Horse, onde protagonizaria três minisséries: Kull, com roteiro de Arvid Nelson e arte de Will Conrad e José Villarubia, em seis edições lançadas entre novembro de 2008 e maio de 2009, adaptando O Reino das Sombras; Kull: The Hate Witch, em quatro edições entre novembro de 2010 e fevereiro de 2011, com uma história inédita de David Lapham e arte de Gabriel Guzman; e Kull: The Cat and the Skull, que adaptava a história de Howard A Gata de Delcardes em quatro edições lançadas entre outubro de 2011 e janeiro de 2012, mais uma vez por Lapham e Guzman. Em 2017, Kull estrelaria Kull Eternal, da IDW Publishing, na qual ele viajava no tempo e vivia aventuras em vários períodos da história; com roteiro de Tom Waltz e arte de Luca Pizzari, a revista não faria sucesso, e teria apenas três edições, lançadas entre junho e agosto. Hoje, os direitos sobre Kull pertencem à Kull Productions Inc., mas o personagem não é tão procurado quanto Conan, com seu principal material atualmente sendo republicações das histórias de Howard em livros, incluindo um lançado recentemente no Brasil pela editora Pipoca & Nanquim.

Kull também foi astro de um filme para o cinema, lançado em 1997, sobre o qual eu falei brevemente quando fiz o post sobre os filmes de Conan - e que é tão ruim que eu prefiro não ter que abordar novamente, então vamos encerrar por aqui.
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domingo, 10 de dezembro de 2023

Escrito por em 10.12.23 com 0 comentários

Conan (III)

Mês passado eu falei sobre Conan nos filmes, hoje vou falar sobre Conan nos quadrinhos. Hoje, de novo, é dia de Conan no átomo! Por Crom!

A história de Conan nos quadrinhos começa em 1969, mais de 30 anos após a morte de seu criador, Robert E. Howard. Na época, tanto a Marvel quanto a DC publicavam, além de quadrinhos estrelados por seus próprios personagens, os chamados quadrinhos licenciados, adaptações para os quadrinhos de histórias de personagens famosos da literatura, da TV e do cinema. No caso específico da Marvel, todos os anos a redação era inundada de cartas que pediam que a editora licenciasse obras como O Senhor dos Anéis, de J.R.R. Tolkien, ou Tarzan, de Edgar Rice Burroughs, mas, ainda não tendo completado uma década de vida, a Marvel simplesmente não tinha dinheiro suficiente para pagar pelas licenças. Mais do que todas essas cartas, porém, a redação da Marvel recebia centenas que pediam que ela licenciasse "algum herói de espada e magia", estilo que estava passando por uma gigantesca onda de popularidade no final dos anos 1960. Stan Lee, então o editor executivo da Marvel, não conhecia nenhum herói de espada e magia, mas, fiel à sua crença de que os verdadeiros editores da Marvel eram os leitores, e que, se eles quisessem alguma coisa, ele deveria pelo menos tentar oferecê-la a eles, decidiria chamar um de seus roteiristas e conversar com ele sobre qual herói eles deveriam licenciar.

O roteirista escolhido para a conversa seria Roy Thomas, na época responsável pela revista dos Vingadores, para quem Stan Lee repassou as cartas com as exigências. Por acaso, três anos antes, Thomas havia comprado uma edição de Conan the Adventurer, coletânea de várias histórias de Conan escritas por Howard - embora ele mesmo tenha confessado que comprou o livro mais pela capa de Frank Frazetta, não tendo nenhum conhecimento prévio de Conan - o qual decidiu ler após ser incumbido da tarefa. Thomas adorou as histórias e achou que Conan seria o personagem ideal para o licenciamento, mas não o ofereceu diretamente para Stan Lee devido a um pensamento equivocado: no final dos anos 1960, graças aos livros da Lancer Books, Conan já era o mais popular personagem de espada e magia da literatura, e Thomas achou que, por causa disso, ele seria muito caro. De fato, após entregar várias opções para Stan Lee, este lhe pediria para que escrevesse um memorando para o então editor-chefe da Marvel, Martin Goodman, explicando o que os dois pretendiam fazer e pedindo dinheiro para a empreitada. Goodman autorizaria, e estipularia o pagamento de 150 dólares mensais pelo licenciamento - que, se vocês estiverem achando que "na época, era uma fortuna", não era não, era pouco mesmo, ou pelo menos bem menos do que Thomas esperava poder oferecer.

O personagem preferido de Stan Lee para o licenciamento era Thongor, bárbaro que vivia em uma espécie de mundo pré-histórico criado pelo escritor Lin Carter - que também viria a escrever algumas histórias de Conan ao longo de sua carreira. A razão pela qual Thongor era o preferido foi que Stan Lee gostou mais do nome, achando que ficaria bonito no título de uma revista; Thomas entrou em contato com o agente de Carter, que compreensivelmente pediu por mais que 150 dólares, ou pelo menos por uma porcentagem das vendas, algo com o que Thomas sabia que Goodman jamais concordaria. As negociações se estenderiam durante semanas, até que um dia o agente diria que ligaria de volta, e não ligaria nunca mais.

O segundo preferido de Stan Lee era outro herói criado por Howard, Kull, e mais uma vez por motivos estéticos, já que ele achava que, nos títulos das revistas, nomes com K se destacavam mais que nomes com C. Thomas acreditava que os direitos sobre Conan e Kull pertenciam a L. Sprague de Camp, que passou a escrever as histórias de Conan após a morte de Howard, e estava evitando ligar para seu agente achando que ocorreria o mesmo que ocorreu com o de Carter. Enquanto esperava a resposta do agente de Carter, entretanto, Thomas estava lendo Conan the Cimmerian quando viu que, ao final da introdução, havia o endereço do responsável pelas obras de Howard após seu falecimento, o advogado Glen Lord. Thomas decidiria enviar uma carta para Lord sobre o licenciamento não de Kull, mas de Conan - que, afinal, era o preferido do roteirista - perguntando o que ele acharia de licenciar o personagem para a Marvel por 200 dólares mensais. Pois é, não somente Thomas não negociaria o personagem que Stan Lee queria, como também ofereceria mais dinheiro do que Goodman havia autorizado. Para sua surpresa, Lord aceitaria a oferta sem negociar: uma semana depois de Thomas colocar a carta para Lord no correio, ele receberia uma carta do advogado pedindo que eles enviassem o contrato.

Thomas, então, se veria numa saia justa, não tanto por ter conseguido os direitos de Conan, já que o objetivo era licenciar um herói de espada e magia, e Conan era o primeiro e mais famoso deles, mas porque teria de convencer Goodman a aumentar o valor pago pelo licenciamento. Thomas, então, decidiria ele mesmo escrever uns dois ou três roteiros para histórias de Conan, porque, se Goodman chiasse, ele poderia convencê-lo dizendo que escreveria os roteiros de graça - a política da Marvel era entregar os títulos licenciados para roteiristas iniciantes, e o próximo da fila era Gerry Conway, mas isso significaria que Goodman teria que pagar Conway, o que o deixaria ainda mais irado. No fim, talvez porque Conan realmente era um personagem famoso, pelo qual eles não esperavam conseguir os direitos, Goodman não obrigaria Thomas a escrever de graça, aceitando pagá-lo por seus roteiros e pagar os 200 dólares de licenciamento - mas exigiria um desenhista barato, para compensar o gasto extra no licenciamento.

Quando Stan Lee anunciou que a Marvel havia conseguido os direitos de Conan, todos já sabiam quem seria o desenhista: John Buscema, que odiava desenhar super-heróis, mas adorava desenhar bárbaros, vikings, feiticeiros e mulheres em poses sensuais. Quando ainda estava negociando os direitos de um heróis de espada e magia, Thomas emprestaria um dos livros de Conan para Buscema, que o devolveria dizendo que esse era o tipo de coisa que ele mais gostava de desenhar. A decisão de Goodman por um desenhista barato, entretanto, jogou um balde de água fria na empolgação de Big John, como o desenhista era conhecido, já que ele era simplesmente o mais caro de todos os que trabalhavam para a Marvel na época - e a segunda opção de Stan Lee, Gil Kane, também seria considerado muito caro e vetado. Stan Lee, então, sugeriria alguns desenhistas para Thomas, como Don Heck e Dick Ayers, mas daria carta branca para o roteirista escolher quem ele quisesse, desde que ficasse dentro do orçamento.

Thomas acabaria optando por Barry Windsor-Smith, que na época assinava apenas Barry Smith, então um jovem desenhista inglês que havia feito alguns trabalhos como freelancer para a Marvel antes de ser deportado para a Inglaterra devido a problemas com seus documentos de imigração. Thomas gostava do estilo de Smith e achava que uma história de espada e magia em seu traço ficaria muito melhor que nos de Ayers ou Heck, mais acostumados com o estilo dos super-heróis; além disso, sendo iniciante e freelancer, Smith seria o mais barato que eles iriam conseguir, com a única desvantagem sendo que ele teria de fazer os desenhos lá na Inglaterra e então enviá-los pelos correios. Mesmo com esse empecilho, tanto Stan Lee quanto Martin Goodman aprovariam a escolha, e Smith seria contratado como o desenhista oficial da revista. No início das aventuras Marvel de Conan, o bárbaro tem por volta de 17 anos; Smith o faria mais magro e com uma expressão mais deslumbrada que o brutamontes normalmente desenhado por Frazetta, que calçava sandálias, usava um capacete com chifres e trazia no pescoço um colar típico de sua Ciméria natal, o que causaria estranhamento em quem já estava acostumado com o Conan dos livros, mas os planos de fundo detalhados e as expressões faciais realísticas do desenhista logo conquistariam o público, com muitas cartas considerando-o o desenhista ideal para Conan.

Com um roteirista (Thomas) e um desenhista (Smith) contratados, a revista precisava de um título. Na época, era comum que os livros que traziam republicações das histórias de Howard se chamassem "Conan, o alguma coisa", como Conan the Conqueror ("Conan, o Conquistador"), Conan the Adventurer ("Conan, o Aventureiro") ou Conan the Warrior ("Conan, o Guerreiro"), com o "apelido oficial" do personagem entre os fãs sendo "Conan, o Bárbaro", nome que só havia sido usado para um livro uma vez, publicado pela Gnome Press em 1954 e há mais de dez anos fora de catálogo. Thomas checaria, e descobriria que a Marvel não teria nenhum problema com direitos de qualquer natureza se decidisse lançar uma revista com esse nome; ele o sugeriria a Stan Lee, que o aceitaria, e a revista, oficialmente, ganharia o nome de Conan the Barbarian.

A primeira edição de Conan the Barbarian seria publicada em outubro de 1970. Assim como muitas revistas da Marvel na época, ela era bimestral; também como era comum na época, os números das vendas demoravam para serem recebidos pela editora, e, quando eles chegaram, já estava indo para a gráfica a edição 4. Os números seriam fenomenais, e Stan Lee determinaria que a revista passaria a ser mensal; as vendas das edições 2, 3 e 4, porém, não seriam tão bons, e ele decidiria cancelar a revista no número 7. Thomas o convenceria a não cancelar, e se mostraria certo: apesar de alguns percalços, como pular um mês entre a edição 14 e a 15 e precisar republicar histórias antigas em algumas edições para as quais a arte não ficaria pronta a tempo, Conan the Barbarian seria uma das revistas de maior vendagem da Marvel nos anos 1970, dando origem a uma ampla gama de produtos licenciados e apresentando Conan a toda uma nova geração de leitores.

O sucesso de Conan levaria a Marvel a licenciar mais personagens de Howard, como Kull e Solomon Kane, que também ganhariam suas próprias revistas. Até mesmo Carter decidiria procurar a Marvel e licenciar Thongor, que ganharia algumas histórias na revista Tower of Shadows; Elric de Melniboné, famoso personagem de fantasia do escritor Michael Moorcock, também seria licenciado, mas não ganharia histórias próprias, apenas fazendo uma participação especial em uma história publicada em duas partes nas edições 14 e 15 (em março e maio de 1972) de Conan the Barbarian. Red Sonja, personagem criada por Thomas inspirada em Sonya de Rogatino, personagem criada por Howard para uma história que não era de espada e magia, estrearia na edição 23, de fevereiro de 1973, de Conan the Barbarian, mas faria tanto sucesso que ganharia suas próprias histórias, primeiro na Marvel Feature, e a partir de 1975 em sua própria revista, sendo hoje uma das personagens mais famosas dos quadrinhos. Até mesmo a DC tentou pegar carona nesse sucesso, inventando o personagem Garra, praticamente uma cópia de Conan com uma mão amaldiçoada, que seria publicado na revista Claw the Unconquered entre 1975 e 1978.

Conforme previsto no contrato assinado com Lord, inicialmente Thomas só poderia escrever histórias originais, mas o sucesso da revista logo garantiria que ele conseguisse um novo contrato para adaptar as histórias de Conan escritas por Howard; versões subsequentes do contrato expandiriam essas adaptações para histórias de Howard que não fossem de Conan (substituindo o protagonista por Conan e fazendo as alterações necessárias) e, mais tarde, para histórias de Conan escritas por de Camp e Carter. As cartas recebidas pela Marvel mostrariam que o público ficaria dividido em relação às adaptações, com parte preferindo as histórias originais, mas a maioria dos que conheciam as histórias de Howard preferindo que elas fossem adaptadas.

Smith seria o desenhista da série até a edição 24, exceto nas edições 17 e 18, ilustradas por Gil Kane. Na verdade, Smith havia decidido sair após a 15, mas Thomas daria um jeito para que a 16 também tivesse sua arte; a reação dos leitores à mudança para Kane seria mista, mas tendendo para o negativo, e o próprio desenhista decidiria fazer não mais que duas edições, o que acabaria convencendo Smith a voltar - mas ele ficaria irredutível quanto a sair após a 24, de março de 1973. Na época, John Buscema estava disponível, e seu salário já não era mais um entrave, já que a revista estava fazendo um enorme sucesso, o que fez com que Thomas não pensasse duas vezes antes de chamá-lo. Big John desenharia nada menos que 148 edições, a maior parte delas com arte final de Ernie Chan; a arte dos dois se pareceria mais com o Conan das pinturas de Frazetta, um bárbaro extremamente musculoso, de longos cabelos pretos, vestindo apenas uma tanga e botas. Eventualmente, devido a estar trabalhando em outras revistas, Big John não poderia se comprometer com alguma das edições de Conan the Barbarian; artistas que foram convidados quando isso aconteceu incluíam seu irmão Sal Buscema, Neal Adams, Rich Buckler, Mike Ploog, Jim Starlin, Gary Kwapisz, Bob Camp, Dave Simons e Howard Chaykin, que desenhou da edição 77 à 83.

Já Thomas seria o único roteirista até a edição 115, lançada em outubro de 1980, comemorativa de dez anos da revista. Tendo começado quase que por acidente, para que a Marvel pudesse economizar dinheiro, Thomas logo se veria completamente apaixonado por Conan, e traçaria um plano ambicioso, adaptando as histórias de Howard, de Camp e Carter em ordem cronológica, enquanto Conan envelhecia progressivamente - pelas contas de Thomas, um ano para cada dois ou três anos da revista, o que significava que ele tinha pouco mais de 20 anos quando a revista completou 10. No início de 1980, entretanto, Thomas estava insatisfeito com algumas políticas da Marvel e receberia uma proposta irrecusável da DC, o que faria com que ele tivesse de deixar o projeto nas mãos de outro. Ele ainda adiaria sua saída precisamente até a edição de aniversário, amarrando quantas pontas soltas conseguisse.

Thomas seria substituído por J.M. DeMatteis, na época um jovem escritor cujos principais trabalhos haviam sido histórias de terror para a DC, que ficou extremamente surpreso com o convite. DeMatteis preferiria investir em roteiros originais, não adaptando nenhuma história já existente de Conan, o que dividiu opiniões - muitas cartas elogiavam o "sangue novo" e as histórias originais, mas igual parte criticava a nova direção que a revista estava tomando. Dentre os insatisfeitos estava Buscema, que não achava o Conan de DeMatteis tão interessante quanto o de Thomas, e pediria para deixar a revista na edição 126, de setembro de 1981, sendo substituído por Kane na 127. O próprio DeMatteis só ficaria na revista até a 130, de janeiro de 1982; também escrevendo os roteiros de Marvel Team Up, The Defenders e Captain America, ele se sentiria com excesso de trabalho e pediria para sair.

Com a saída de DeMatteis, assumiria como roteirista Bruce Jones, então roteirista de Ka-Zar the Savage; chamado por muitos de "o Tarzan da Marvel", Ka-Zar era um personagem da Era de Ouro que foi reformulado na década de 1960 para ser um personagem coadjuvante dos X-Men, em suas histórias ambientadas na Terra Selvagem, e que também havia ganhado revista própria de carona no sucesso de Conan. Assim como DeMatteis, Jones teria carreira curta na Conan the Barbarian, ficando apenas até a edição 149, de agosto de 1983, quando decidiria sair para se dedicar à sua própria empresa, a Bruce Jones Associates, ligada à editora Pacific Comics. Enquanto Jones foi roteirista, três edições teriam autores convidados: Steven Grant escreveria a 135, Alan Zelenetz a 145, e Mary Jo Duffy a 146. Na arte, Kane deixaria a revista na edição 134, com Marc Silvestri fazendo a 135, Alfredo Alcalá a 137, Val Mayerik a 138 e a 139, e Big John Buscema, após fazer a 136, retornando na 140 para ficar até a 190, de janeiro de 1987.

No lugar de Jones, entraria Michael Fleischer, que tinha feito grande sucesso na DC escrevendo histórias do Espectro e de Jonah Hex, além de criar a origem do vilão Pinguim. Fleischer escreveria da edição 150 à 171, de junho de 1985, exceto pela 164 (escrita por "Larry Yakata", provavelmente um pseudônimo de Christopher Priest), e sairia para escrever para a revista em quadrinhos britânica 2000 A.D.; ele retornaria em 1989 para escrever duas edições, a 223 e a 225. Priest, que na época assinava Jim Owlsley, assumiria na edição 172 e ficaria até a 213, de dezembro de 1988, nesse período apenas não escrevendo a 186, por Don Kraar. Com a saída de Buscema na 190, Geof Isherwood assumiria na 191, ficando até a 216, com Val Semekis sendo responsável pela arte até a 220, e vários desenhistas, que incluíram Kwapisz, Alcalá, Geoff Senior, Jose Delbo, Dwayne Turner, Frank Springer, Ron Lim, Rodney Ramos, Gary Hartle, Ricardo Villagrán, Sandy Plunkett, Dave Hoover, E.R. Cruz e John Watkiss se revezando até Mike Docherty assumir na 248 e ficar na série até o final.

As histórias de Fleischer foram extremamente elogiadas, enquanto as de Owlsley dividiram os leitores, mas a verdade é que, na década de 1980, histórias em quadrinhos de espada e magia já não tinham o mesmo apelo que na década anterior, então as vendas de Conan the Barbarian caíam ano após ano. Owlsley seria substituído por Chales Santino, que ficaria apenas por sete edições. Larry Hama, Don Perlin e Fleischer fariam as cinco seguintes, até Gerry Conway assumir na 226, de dezembro de 1989, ficando por mais seis. Michael Higgins assumiria na 232 com uma estratégia arriscada, fazendo uma espécie de reboot, que começaria com o nascimento de Conan e seguiria contando aventuras que ele teria vivido em sua adolescência, mas, sem conseguir levantar as vendas, só ficaria até a 239, de dezembro de 1990. Então, surpreendentemente, Thomas retornaria, na 240, com uma estratégia ousada: tudo o que vimos entre a 116 e a 239 foram "suposições", histórias ambientadas em universos paralelos ou exercícios de imaginação sobre como poderia ter sido a vida de Conan, com a carreira do cimério sendo retomada de onde havia parado quando Thomas saiu. Isso garantiu uma sobrevida à revista, com as vendas aumentando ligeiramente, mas, mesmo assim, a Marvel decidiria cancelar a revista em dezembro de 1993, no número 275.

Além das 275 edições mensais, Conan the Barbarian teve 12 edições anuais, a primeira, de 1973, trazendo republicações das melhores histórias, e as demais, lançadas uma por ano entre 1976 e 1987 (exceto em 1980), trazendo histórias inéditas. Em 1974 e 1975 também seriam lançadas cinco edições de Giant-Size Conan the Barbarian, que se propunham a adaptar a história de A Hora do Dragão, único livro de Conan escrito por Howard (as demais histórias eram curtas e publicadas em revistas, como era comum na época), mas que acabou ficando sem final, já que a revista, de 68 páginas por edição, era considerada muito cara e foi cancelada antes de a história acabar. Conan também seria o astro de sete edições da revista Marvel Graphic Novel (19, 28, 42, 53, 59, 69 e 73), de quatro da Marvel Comics Super Special (2, 9, 21 e 35, as duas últimas adaptando para os quadrinhos os filmes Conan, o Bárbaro e Conan, o Destruidor) e de quatro edições da What If...? (a 13, de fevereiro de 1979, "o que aconteceria se Conan, o Bárbaro, andasse sobre a Terra hoje?", a 39, de junho de 1983, "o que aconteceria se Thor lutasse contra Conan, o Bárbaro?", a 43, de fevereiro de 1984, "o que aconteceria se Conan, o Bárbaro, ficasse preso no século XX?", que era uma nova versão para a história da 13, e a 16 da segunda série, de agosto de 1990, "o que aconteceria se Conan, o Bárbaro, enfrentasse Wolverine?"), além de estrelar a edição 31 da Power Records, uma série na qual cada revista vinha com um disquinho de vinil com as histórias sendo narradas e encenadas. "Moanin the Bavarian" (algo como "Gemedor, o Bávaro"), uma paródia de Conan, seria o astro da What the--? número 12, de maio de 1991.

Uma das reclamações que a Marvel mais recebia por carta era que as histórias de Conan the Barbarian não eram tão violentas, sangrentas ou cheias de mulheres seminuas quanto as escritas por Howard; a razão para isso era que, na época, existia o Comics Code Authority, órgão que impunha censura aos quadrinhos, avaliando previamente as histórias e determinando mudanças - se a editora não fizesse as mudanças pedidas pela CCA, a revista ainda podia ser publicada, mas sem o selo da organização na capa, o que era tipo uma sentença de morte, já que o selo era a primeira coisa que os pais olhavam quando uma criança estava lendo uma revista. Para tentar agradar aos leitores que queriam um Conan mais fiel sem desrespeitar a CCA, Stan Lee decidiria lançar uma nova revista, chamada Savage Tales; para que ela não precisasse se submeter ao CCA, deveria ser "voltada para adultos", o que significava que ela tinha de ser em formato magazine (do tamanho de uma revista "normal", não de uma revista em quadrinhos), ter a maioria das ilustrações em preto e branco, e trazer, além de quadrinhos, artigos e crônicas. A Savage Tales seria a segunda tentativa da Marvel no mundo dos "quadrinhos adultos", com a primeira, The Sensational Spider-Man, tendo sido cancelada após apenas duas edições lançadas em 1968.

A ideia original de Stan Lee era que a Savage Tales não fosse uma revista de espada e magia, trazendo também histórias de terror, ficção científica e blaxploitation; além de uma história de Conan com roteiro de Thomas e arte de Smith, a primeira edição, lançada em maio de 1971, trouxe uma história de Ka-Zar, a estreia do Homem-Coisa, e histórias estreladas pelas Femizons e pelo herói afro-americano Joshua, que jamais voltariam a dar as caras. Desde o início, Goodman seria contra o projeto, com Stan Lee decidindo bancá-lo, recebendo autorização com a condição de que o segundo número só seria produzido após chegarem as vendas do primeiro. As vendas foram até razoáveis, mas não o sucesso que Stan Lee esperava, o que deu a Goodman a desculpa para cancelar a revista após apenas uma edição.

Em 1973, porém, Goodman havia deixado o cargo de editor-chefe da Marvel, sendo substituído justamente por Stan Lee, que decidiria dar mais uma chance à revista, produzindo sua segunda edição. Com o título de Savage Tales featuring Conan the Barbarian, o número 2 seria lançado em outubro de 1973, e traria apenas histórias de espada e magia, estreladas por Conan, Kull e o bárbaro Brak, herói de romances escritos por John Jakes. Mais uma vez, Stan Lee esperaria os números das vendas chegarem antes de decidir pela continuidade da revista; dessa vez, entretanto, eles seriam excelentes, e a Savage Tales número 3 seria lançada em fevereiro de 1974, com a revista se tornando regular e bimestral em maio. Conan, porém, só estaria presente até a edição 5; a partir da 6, a revista seria renomeada para Savage Tales featuring Ka-Zar, Lord of the Hidden Jungle, e voltaria a ter histórias de terror e ficção científica. As vendas cairiam, e ela seria cancelada no número 11, de julho de 1975.

Stan Lee não tiraria Conan da Savage Tales por ter ficado maluco, mas porque queria aproveitar a popularidade do bárbaro para lançar uma segunda revista adulta. Com o nome de The Savage Sword of Conan the Barbarian (A Espada Selvagem de Conan, o Bárbaro, no Brasil), ela assumiria o posto de revista dedicada a espada e magia, para que a Savage Tales pudesse retornar às suas origens. Além de histórias de Conan, artigos e crônicas sobre Howard e a Era Hiboriana, a Savage Sword of Conan também traria histórias estreladas por Kull e Red Sonja. A primeira edição seria lançada em agosto de 1974 (um mês depois da Savage Tales número 5), e a princípio a revista seria bimestral, se tornando mensal na edição 19, em junho de 1977. A revista faria um enorme sucesso, e motivaria a Marvel a lançar mais revistas adultas, como The Deadly Hands of Kung Fu, Crazy, Epic Comics e The Rampaging Hulk.

Ao todo, The Savage Sword of Conan teria 235 edições, a última publicada em julho de 1995, mais uma anual, lançada em 1975, que trazia republicações das melhores histórias. Thomas seria o roteirista principal até a edição 60, última produzida antes de ele trocar a Marvel pela DC; outros roteiristas incluiriam Jones, Fleischer, Zelenetz, Owlsley, Chris Claremont, Don Kraar e Chuck Dixon. Os desenhistas incluíam Smith, os dois Buscema, Kane, Adams, Starlin, Mayerik, Kwapisz, Ernie Chan, Alcalá, Docherty, Mary Wilshire, Al Milgrom, Dick Giordano, Pablo Marcos, Armando Gil, Frank Brunner, Mark Vosburg, Rudy Nebres e Esteban Maroto. Vale dizer que, diferentemente do que ocorria na Conan the Barbarian, em The Savage Sword of Conan as histórias não seguiam uma ordem cronológica; assim como as histórias escritas por Howard, elas iam e voltavam na vida do cimério, cada uma focando em um diferente ponto de sua carreira como ladrão, pirata, soldado, líder de um grupo de nômades do deserto foras da lei e Rei da Aquilônia. A maioria das histórias era inédita, mas algumas eram adaptações das obras de Howard que ainda estavam muito a frente na cronologia para aparecer na Conan the Barbarian tão cedo. Após o cancelamento de Conan the Barbarian, Thomas voltaria a ser o roteirista principal da Savage Sword of Conan, na qual concluiria a história que ficaria em aberto com o cancelamento da outra revista.

Falando nisso, quando a Conan the Barbarian Annual passou a publicar histórias inéditas, Thomas optaria por explorar a parte da vida de Conan após ele se tornar Rei da Aquilônia. Essas histórias fariam sucesso, e a Marvel decidiria lançar uma terceira revista, chamada King Conan, em março de 1980. Thomas seria o roteirista até a edição 8, de dezembro de 1981; ele sairia da Marvel um ano antes, mas deixaria as edições prontas porque, inicialmente, a revista seria bimestral, mas depois foi mudada para trimestral. Doug Moench assumiria após a saída de Thomas, com Marc Silvestri assumindo na edição 16, Zelenetz na 21, Kraar na 29, e Madeleine Blaustein na 46. John Buscema seria o desenhista até a 15, com Silvestri assumindo na 16, Docherty na 31, e Fraja Bator na 46; algumas edições teriam arte de Michael Wim Kaluta, Isherwood, Simons, Wilshire, Armando Gil, Judith Hunt e Ron Wagner. A revista passaria a ser bimestral na edição 9, e na edição 20 mudaria de nome para Conan the King, mantendo a numeração. Ela seria cancelada na edição 55, de novembro de 1989,  que faria com que a última das três revistas regulares de Conan a ser lançada se tornasse a primeira a ser cancelada.

Em maio de 1987, a Marvel lançaria Conan Saga, revista mensal que não trazia histórias inéditas, mas republicações de histórias da Conan the Barbarian, The Savage Sword of Conan e King Conan - vale lembrar que, na época, não havia o hábito de as editoras lançarem encadernados como hoje, e era difícil e caro comprar edições esgotadas, então essas revistas de republicações eram a única forma de os novos leitores lerem as histórias mais antigas. Conan Saga teria 97 edições, a última lançada em abril de 1995 - poderiam ter tido um pouco mais de boa vontade e tentado chegar na edição 100. Em junho de 1994, a Marvel voltaria a republicar as primeiras histórias de Conan the Barbarian em Conan Classic, que teria 11 edições, também sendo cancelada em abril de 1995. Histórias da Conan the Barbarian também seriam republicadas nas edições 4, 15, 19 e 23 da Marvel Treasury Edition, revista mensal dedicada apenas a republicações.

Após o cancelamento de Conan the Barbarian, a Marvel lançaria Conan the Adventurer, série mensal com roteiro de Thomas e arte de Rafael Kayanan que explorava os primeiríssimos dias da carreira de Conan, logo após ele deixar a Ciméria. A série não faria muito sucesso e teria apenas 14 edições, publicadas entre junho de 1994 e julho de 1995. No mês seguinte, a Marvel lançaria duas novas séries; uma, chamada simplesmente Conan, trazia histórias em ordem cronológica começando de onde a Conan the Barbarian havia parado, enquanto a outra, chamada Conan the Savage, trazia histórias abordando várias fases da vida do bárbaro fora de ordem, ao estilo da Savage Sword of Conan. Assim como suas antecessoras, Conan era em cores, e Conan the Savage era em preto e branco. As vendas também não seriam boas, e ambas seriam canceladas no ano seguinte; Conan após 11 edições, em julho de 1996, e Conan the Savage após 10, em maio.

Depois disso, ao invés de uma série mensal, a Marvel optaria por lançar oito minisséries, cada uma com 3 edições e cada seguinte continuando a história da anterior: Conan the Barbarian: Stalker in the Woods (de julho a outubro de 1997), Conan the Barbarian: The Usurper (de dezembro de 1997 a fevereiro de 1998), Conan the Barbarian: Lord of the Spiders (de março a maio de 1998), Conan the Barbarian: River of Blood (de junho a agosto de 1998), Conan the Barbarian: Return of Styrm (de setembro a novembro de 1998), Conan the Barbarian: Scarlet Sword (de dezembro de 1998 a fevereiro de 1999), Conan the Barbarian: Death Covered in Gold (de setembro a novembro de 1999) e Conan the Barbarian: Flame and the Fiend (de agosto a outubro de 2000). A Marvel ainda seguiria pagando o licenciamento do personagem até 2002, quando a editora Dark Horse faria uma proposta mais vantajosa à Conan Properties, e, como a Marvel não publicava nada do herói há dois anos, eles decidiriam aceitar.

O primeiro lançamento da Dark Horse seria Conan: The Legend, número 0, com roteiro de Kurt Busiek e arte de Cary Nord, lançada em novembro de 2003. A história era na verdade uma conversa entre dois personagens, o Príncipe e o Vizir, que viveram séculos após Conan, relatando as aventuras do bárbaro como se fossem fábulas; esse artifício narrativo seria mantido na série regular, chamada simplesmente Conan, também inicialmente a cargo de Busiek e Nord, lançada em fevereiro de 2004. As histórias da Dark Horse eram em sua maioria inéditas, com apenas algumas sendo adaptações das histórias de Howard, e nenhuma tendo a ver com as histórias da Marvel ou de outros autores da literatura como de Camp e Carter; as histórias também tinham um tom mais adulto, e as capas eram bem mais ousadas, mais até do que as de The Savage Sword of Conan, com algumas trazendo cenas de violência explícita e mulheres com seios à mostra - a edição 24, inclusive, com arte de Tony Harris, trazia uma mulher totalmente nua, o que desagradou os donos de lojas de quadrinhos; uma segunda tiragem traria um retoque, mas a primeira, de 4 mil cópias, teve de ser vendida dentro de um plástico preto.

Busiek ficaria na revista até a edição 28, de maio de 2006, que trazia o retrato de Howard na capa e a legenda "Centenário 1906-2006". As três edições seguintes teriam roteiros de Mike Mignola, criador do Hellboy, com Busiek retornando na 32 antes de ser substituído por Tim Truman a partir da 33, de novembro de 2006; Truman ficaria até o final, exceto pelas edições 39, 45 e 46, de Busiek. Nord só não desenharia 15 edições, com os artistas eventuais sendo o próprio Truman (que desenharia as edições 26 e 27), Greg Ruth (que faria a maioria das que não foram de Nord), Eric Powell, Paul Lee e Tomás Giorello (responsável pelas quatro últimas). A revista seria cancelada na edição 50, de maio de 2008, que teria 64 páginas e traria uma adaptação da história The Hand of Nergal.

Um mês após o cancelamento, a Dark Horse lançaria uma segunda série regular, chamada Conan the Cimmerian, começando do número 0, que trazia aventuras de um Conan mais jovem, recém-saído da Ciméria, o que dava mais liberdade para a equipe criativa. A série teria 26 edições, a última (a número 25, já que a primeira foi a 0) de novembro de 2010, todas com roteiro de Truman e arte de Giorello, exceto as edições 14, com arte de Truman, e 15, de Paul Lee. Conan the Cimmerian seria substituída por Conan: Road of Kings, que teve 12 edições mensais lançadas entre dezembro de 2010 e janeiro de 2012, com roteiro de ninguém menos que Roy Thomas e arte de Mike Hawthorn (exceto nas edições 9 e 10, de Dan Panosian). Essa série começava com Conan em seus tempos de pirata e o acompanhava até se tornar rei, seguindo um único arco de história, como se fosse uma minissérie.

Em fevereiro de 2011, a Dark Horse também começaria a publicar uma série chamada King Conan, que adaptava histórias de Howard da época em que Conan foi Rei da Aquilônia. Todas as edições tiveram roteiros de Truman e arte de Giorello, mas, ao invés de uma série regular, tratava-se de uma "série de cinco minisséries", com numeração contínua - por exemplo, a última de The Scarlet Citadel foi a edição 4, e a primeira de The Phoenix on the Sword foi a 5, mesmo tendo se passado quase um ano entre uma e outra. As histórias adaptadas e seus meses de lançamento foram: The Scarlet Citadel (4 edições, fevereiro a maio de 2011), The Phoenix on the Sword (4 edições, janeiro a abril de 2012), Hour of the Dragon (6 edições, maio a outubro de 2013), Conan the Conqueror (6 edições, fevereiro a julho de 2014) e Wolves Beyond the Border (4 edições, dezembro de 2015 a março de 2016, a última trazia o número 24).

Depois de Conan: Road of Kings, a Dark Horse lançaria uma revista chamada Conan the Barbarian que seguia o mesmo estilo, começando com uma adaptação de Queen of the Black Coast e seguindo em ordem cronológica, em 25 edições lançadas entre fevereiro de 2012 e fevereiro de 2014; todos os roteiros seriam de Brian Wood, e a arte contaria com nomes como Becky Cloonan e Paul Azaceta. A série seguinte seria Conan the Avenger, com roteiros de Fred Van Lente e arte, dentre outros, de Eduardo Francisco e Brian Ching, com mais 25 edições lançadas entre abril de 2014 e abril de 2016, que mostravam a vida de Conan após se separar da pirata Bêlit. A última série regular da Dark Horse seria Conan the Slayer, com 12 edições lançadas entre julho de 2016 e agosto de 2017, com roteiros de Cullen Bunn e arte de Sergi Davila e Dheeraj Verma.

Além das séries regulares, a Dark Horse lançaria um monte de one shots e minisséries estreladas por Conan: Conan and the Daughters of Midora (outubro de 2004), Conan and the Jewels of Gwahlur (3 edições, abril a junho de 2005), Conan and the Demons of Khitai (4 edições, outubro de 2005 a janeiro de 2006), Conan: Book of Thoth (4 edições, março a junho de 2006), Star Wars / Conan (maio de 2006), Conan and the Songs of the Dead (5 edições, julho a novembro de 2006), Conan and the Midnight God (5 edições, janeiro a julho de 2007), Conan: Trophy (julho de 2008), Conan and the Mad King of Gaul (2 edições, novembro e dezembro de 2009), Conan: The Weight of the Crown (janeiro de 2010), Conan: Kiss of the Undead (novembro de 2010), Conan: Island of No Return (2 edições, junho e julho de 2011), Conan the Barbarian: The Mask of Acheron (julho de 2011), Conan: The Phantoms of the Black Coast (5 edições, outubro de 2012 a fevereiro de 2013), Conan and the People of the Black Circle (4 edições, outubro de 2013 a janeiro de 2014), Conan / Red Sonja (4 edições, janeiro a abril de 2015), Groo vs. Conan (abril de 2015), Red Sonja / Conan (4 edições, agosto a novembro de 2015), e Wonder Woman / Conan (6 edições, setembro de 2017 a fevereiro de 2018). Conan também seria a estrela da revista Dark Horse Presents (terceira série), número 21, de abril de 2016.

Em 2018, os direitos de Conan retornariam para a Marvel, que relançaria as revistas Conan the Barbarian e Savage Sword of Conan (com esse nome mais curto); dessa vez, ambas seriam em cores e trariam histórias do mesmo tipo, seguindo uma ordem cronológica de uma edição para a seguinte - na prática, não havia diferença nenhuma entre Conan e, por exemplo, o Homem-Aranha ou os X-Men, que também tinham mais de uma revista mensal contando histórias diferentes. Ambas teriam vida bem mais curta que suas antecessoras: Conan the Barbarian teria 25 edições, lançadas entre março de 2019 e novembro de 2021, enquanto Savage Sword of Conan teria apenas 12, lançadas entre abril de 2019 e fevereiro de 2020. Conan the Barbarian teria roteiros de Jason Aaron (até a edição 12) e Jim Zubkavich (da 13 à 25), e arte de Mahmud Asrar, Gerardo Zaffino, Roge Antonio, Robert Gill, Luca Pizzari e Cory Smith; Savage Sword of Conan teria roteiros de Gerry Duggan, Meredith Finch, Zubkavich, Roy Thomas e Frank Tieri, e arte de Ron Garney, Luke Ross, Patrick Zircher, Alan Davis e Andrea di Vito.

A Marvel também lançaria dois novos one shots, Conan the Barbarian: Exodus (outubro de 2019) e Conan: The Barbarian 2099 (janeiro de 2020), e duas novas minisséries, Conan: Serpent War (4 edições quinzenais em fevereiro e março de 2020) e Conan: Battle for the Serpent Crown (5 edições, duas em abril e maio, depois três de setembro a novembro de 2020); essa última colocando Conan contra vários heróis e vilões da Marvel. Sim, porque, graças a uma magia, Conan foi trazido para o tempo presente, inclusive participando de uma equipe dos Vingadores chamada Savage Avengers, cuja revista teve 28 edições lançadas entre julho de 2019 e março de 2022 (mais uma número zero, de abril de 2020).

Em fevereiro de 2021, a Marvel lançaria King-Size Conan, uma edição comemorativa de 64 páginas que trazia cinco histórias inéditas (escritas por Thomas, Kevin Eastman, Claremont, Busiek e Steven S. DeKnight, arte de Steve McNiven, Eastman, Roberto de la Torre, Pete Woods e Jesus Saiz), por ocasião do aniversário de 50 anos do lançamento da Conan the Barbarian original. O último lançamento da Marvel seria uma nova revista King Conan, com roteiros de Aaron e arte de Asrar, que teria vida curta, com apenas 6 edições lançadas entre fevereiro e julho de 2022. Desde agosto de 2022, os direitos de Conan pertencem à Titan Comics, que lançou uma nova revista chamada Conan the Barbarian em agosto de 2023, com roteiros de Zubkavich e arte de de la Torre.

Antes de terminar, também vale dizer que, além de todas essas revistas em quadrinhos, Conan também já foi estrela de uma tira de jornal, distribuída pela King Features Syndicate e publicada diariamente nos principais jornais dos Estados Unidos (em preto e branco de segunda a sábado, a cores e com mais quadrinhos aos domingos), entre 1978 e 1981, totalizando 974 tiras. As tiras apresentariam um total de 15 histórias, com uma nova começando no dia seguinte à conclusão da anterior. A primeira história, publicada entre 4 de setembro e 22 de outubro de 1978, teve roteiros de Roy Thomas e arte de John Buscema, mas Big John achou que não conseguiria conciliar os prazos de produção da tira com os dos quadrinhos com os quais já havia se comprometido, e passaria o trabalho para Ernie Chan, que faria dez histórias seguidas, sendo substituído, no início da décima-segunda, em 23 de junho de 1980, por Alfredo Alcalá, que faria as duas seguintes.

A décima-quarta história possui duas curiosidades: primeiro, foi a única das tiras a ser adaptação de uma das histórias de Howard, The Tower of the Elephant, que já havia sido adaptada na Conan the Barbarian, com roteiro de Thomas e arte de Barry Smith, e na Savage Sword, com roteiro de Thomas e arte de John Buscema. Segundo, ela seria feita por nada menos que seis pares de mãos: a história teria dez tiras dominicais, sendo que as quatro primeiras seriam desenhadas por Alcalá, as quatro últimas por Alan Kupperberg, e as duas do meio por Rudy Nebres, que seria originalmente o desenhista das tiras diárias, sendo substituído após doze delas por Pablo Marcos - que, por sua vez, seria substituído por Kupperberg nas doze últimas. Essa seria a última história escrita por Thomas para as tiras, que entregaria o roteiro antes de sair da Marvel; as mudanças de desenhistas, entretanto, prejudicariam o ritmo da história, e seu substituto, Doug Moench, teria que escrever doze tiras diárias adicionais para resolver o problema.

Moench assumiria definitivamente como roteirista em 5 de janeiro de 1981, para a décima-quinta e última história, na qual a arte seria revezada entre Kupperberg, Pablo Marcos e Tom Yeates. Moench decidiria sair após apenas uma história por não conseguir se adaptar aos estranhos prazos exigidos pela King: as tiras que seriam publicadas de segunda a sábado deveriam ser entregues, todas as seis, na segunda feira da semana anterior à da sua publicação, enquanto as tiras dominicais deveriam ser entregues, todas as do mês, na segunda-feira anterior à publicação da primeira - por causa disso, várias tiras, como a do Fantasma, apresentavam uma história nas tiras de segunda a sábado e outra diferente aos domingos, mas não a de Conan, o que fazia com que o planejamento tivesse de ser bem amarrado, já que as tiras dominicais eram entregues antes das outras. Após a saída de Moench, a Marvel não conseguiria encontrar outro roteirista, e decidiria cancelar a série. A última tira seria publicada em 12 de abril de 1981.
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domingo, 29 de outubro de 2023

Escrito por em 29.10.23 com 0 comentários

What If...?

Uma das ideias da Marvel que eu sempre achei mais geniais foi a revista What If...?. Eu adorava quando aparecia alguma história dela nas revistinhas da Abril que eu comprava, e às vezes penso que deve ser por isso que eu gosto tanto da saga A Era do Apocalipse - que, se a gente for parar pra pensar, é um gigantesco What If...?. Na década de 1990, quando eu era adolescente e o mercado de quadrinhos importados estava bombando aqui no Brasil, eu até pensei em fazer uma coleção completa, mas desisti depois de descobrir que era impossível para o meu patamar financeiro encomendar as edições originais das décadas de 1970 e 1980. Ainda hoje eu torço pelo lançamento de um Omnibus nacional.

Já faz um bom tempo que eu penso em fazer um post sobre What If...? aqui no átomo; me lembro que pensei em fazer um lá nos primórdios, quando comecei a falar sobre as coisas que eu gosto, e novamente depois que a série baseada em What If...? estreou no Disney+. De todas as vezes em que pensei, acabei desistindo por um motivo ou outro, mas dessa vez decidi começar a escrever para ver se conseguiria formar um post completo. Aparentemente eu consegui, porque hoje é dia de What If...? no átomo!

Segundo conta a lenda, a revista What If...? (que jamais foi lançada aqui no Brasil, mas que, quando suas histórias eram publicadas, tinha seu nome traduzido para "O Que Aconteceria Se...?") surgiria devido a incontáveis cartas dos leitores; todo mês chegavam à Marvel cartas perguntando o que teria acontecido caso o Homem-Aranha tivesse aceitado o convite do Sr. Fantástico para se unir ao Quarteto Fantástico, se Bruce Banner não tivesse impedido que Rick Jones recebesse a radiação gama da bomba que o transformou no Hulk, se o Capitão América não tivesse sido congelado ao final da Segunda Guerra Mundial, enfim, todo mês tinha alguém querendo saber como seria o Universo Marvel caso algum momento-chave não tivesse acontecido da forma como foi mostrado nos quadrinhos.

Frequentemente, os roteiristas que tinham acesso a essas cartas se pegavam imaginando as respostas para essas perguntas, até que, em medos da década de 1970, o roteirista Roy Thomas, que havia substituído Stan Lee como editor-chefe da Marvel, e já havia trabalhado escrevendo para três dos quatro principais títulos da editora - The Avengers, Fantastic Four e The Uncanny X-Men - decidiria colocar essa ideia em prática, e escreveria justamente uma história na qual o Homem-Aranha decide se unir ao Quarteto Fantástico. Depois de uma breve reunião editorial, Thomas convidaria o desenhista Jim Craig para fazer a arte de sua história, e ficaria decidido que a Marvel lançaria uma nova série bimestral, que, a cada edição, traria uma história completa, ambientada em uma realidade alternativa na qual um pequeno detalhe era diferente do que havia acontecido no Universo Marvel original, aquele mostrado mensalmente aos leitores. O nome dessa revista seria What If...?, mas seu título sempre traria a pergunta que ela responderia naquele mês - por exemplo, na capa da primeira edição, o título é What If Spider-Man Joined the Fantastic Four? ("O Que Aconteceria Se o Homem-Aranha se unisse ao Quarteto Fantástico?").

A primeira edição de What If...? seria publicada em fevereiro de 1977. Cada uma delas começava com Uatu, o Vigia, normalmente em sua casa na Lua, recontando os fatos que os leitores já viram nas histórias da continuidade normal da Marvel, cada uma delas até chegar a um determinado momento, quando ocorria um "ponto de divergência", no qual um personagem tomava uma decisão diferente da que havia tomado na história original, ou simplesmente algo não ocorria da forma como ocorreu da primeira vez, mudando totalmente o restante da história. Curiosamente, a maioria das história de What If...? terminava em tragédia, como que para mostrar que aquilo que ocorreu da primeira vez era o "certo", e que as coisas não estariam nos eixos nos cenários alternativos.

Muita gente imagina que, dessa forma, a revista What If...? teria criado o que hoje é amplamente chamado de Multiverso, um sem número de realidades alternativas, cada uma contendo diferenças em relação à "realidade principal", aquela na qual a maior parte das histórias é ambientada. Na verdade, o Multiverso, embora ainda não com esse nome, foi criado nos quadrinhos na concorrente da Marvel, a DC Comics, em uma história do Flash escrita por Gardner Fox, na qual Barry Allen, o Flash da Era de Prata, descobre uma forma de viajar para uma outra Terra, e se encontra com Jay Garrick, o Flash da Era de Ouro. Publicada na revista Flash 123, de setembro de 1961, essa história seria o ponto de partida não somente para que personagens da Era de Ouro, praticamente abandonados pela DC desde os anos 1940, voltassem a ser introduzidos na cronologia do Universo DC, agora como habitantes de uma Terra paralela, mas também para que futuros roteiristas criassem suas próprias Terras paralelas, com novas versões dos personagens DC, como o Sindicato do Crime da América, contrapartes malignas da Liga da Justiça habitantes de uma Terra paralela conhecida como Terra-3, também criadas por Fox e introduzidas na revista Justice League of America 29, de agosto de 1964.

Antes de prosseguirmos, cabe falar que a história do Flash de Fox não foi a primeira da DC a mostrar uma Terra paralela, com uma história da Mulher Maravilha, publicada na revista Wonder Woman 59, de maio de 1953, escrita por Robert Kanigher, mostrando a Princesa Amazona viajando para uma Terra paralela e tendo de enfrentar a Mulher Maravilha de lá; embora a heroína tenha voltado a revisitar essa Terra paralela alguns meses depois, essa história, ao contrário da de Fox, não teve grandes repercussões, até porque o início da década de 1950 foi uma época na qual ninguém parecia se interessar por quadrinhos de super-heróis. E vale dizer também que a criação do Multiverso foi o que acabou levando a DC a ter de publicar a saga Crise nas Infinitas Terras para colocar ordem na casa, já que, em meados da década de 1980, o Universo DC já tinha tantas Terras paralelas que era quase impossível compreender em qual delas cada história era ambientada.

Embora também se possa argumentar que What If...? tenha criado o Multiverso Marvel, a verdade é que, apesar de o Vigia dizer no início de cada história que ele estava "vislumbrando uma realidade alternativa", cada edição era autocontida, trazendo uma história que jamais voltaria a ser revisitada - as únicas exceções na série original foram as edições 4, "O Que Aconteceria Se os Invasores tivessem continuado juntos após a Segunda Guerra Mundial?", e 9, "O Que Aconteceria Se os Vingadores tivessem sido formados na década de 1950?" (essa última trazendo uma equipe formada por Homem 3D, Homem-Gorila, Vênus, Robô Humano e Marvel Boy, cinco heróis da Atlas Comics, editora que, em 1961, mudaria de nome para Marvel Comics); pouco após a publicação de cada uma, a Marvel anunciaria que elas eram parte de seu cânone, ou seja, que ocorriam em realidades alternativas que faziam parte do Universo Marvel e poderiam ser revisitadas, embora nunca tenham sido. As demais, aparentemente, eram apenas exercícios da imaginação do Vigia.

Ao todo, a série original de What If...? teria 47 edições, com a última sendo publicada em outubro de 1984; a série não possuía roteirista, desenhista ou arte-finalista fixos, com cada edição sendo produzida por uma equipe diferente - embora Thomas também tenha escrito a segunda, "O Que Aconteceria Se o Hulk tivesse a mente de Bruce Banner?", ilustrada por Herb Trimpe. No início, a série seria um grande sucesso de vendas, e motivaria ainda mais cartas sugerindo novas histórias - vale dizer que, apesar de algumas das histórias de What If...? realmente terem sido motivadas por cartas de leitores, a maioria delas eram ideias originais dos roteiristas, já que usar uma ideia de um leitor poderia trazer complicadores na hora de publicar a revista. Conforme os anos 80 avançavam, infelizmente, as vendas da revista cairiam, e os leitores passariam a reclamar que as histórias já não tinham mais a mesma criatividade das primeiras, o que acabaria levando ao cancelamento.

Além das já citadas, podemos listar como destaque a edição 3, O Que Aconteceria Se os Vingadores nunca tivessem existido?, na qual, após o Hulk sair da equipe, Hank Pym, Vespa e Thor também decidem sair, deixando o Homem de Ferro sozinho; a 8, O Que Aconteceria Se todos soubessem que o Demolidor é cego?; a 10, O Que Aconteceria Se Jane Foster tivesse encontrado o martelo do Thor?, publicada em agosto de 1978, uma espécie de prenúncio do que realmente viria a acontecer com a personagem quase quarenta anos depois; a 18, O Que Aconteceria Se o Dr. Estranho tivesse sido discípulo de Dormmamu?; a 19, O Que Aconteceria Se o Homem-Aranha jamais tivesse se tornado um combatente do crime?, na qual Peter Parker consegue impedir o assassinato do Tio Ben, e, ao invés de um super-herói, se torna um ator de Hollywood; a 20, O Que Aconteceria Se os Vingadores tivessem de lutar a Guerra Kree-Skrull sem Rick Jones?, na qual Jones, um dos maiores responsáveis pela vitória da equipe, é morto antes de o conflito começar; a 22, O Que Aconteceria Se o Dr. Destino tivesse se tornado um herói?, na qual o maior vilão da Marvel decide usar seus poderes para combater o crime ao invés de dominar o mundo; a 26, O Que Aconteceria Se o Capitão América fosse eleito Presidente?; a 27, O Que Aconteceria Se a Fênix não tivesse morrido?; e a 31, O Que Aconteceria Se Wolverine tivesse matado o Hulk?.

Nem todas as edições tinham apenas uma história, com algumas trazendo duas ou três histórias curtas ao invés de uma comprida. E nem todas eram "sérias", com a primeira edição a fazer uma paródia da Marvel sendo a 11, O Que Aconteceria Se o bullpen original da Marvel ganhasse os poderes do Quarteto Fantástico?, na qual o Sr. Fantástico, a Garota Invisível, o Tocha Humana e o Coisa são, respectivamente, Stan Lee, Flo Steinberg, Sol Brodsky e Jack Kirby; bullpen é um termo do beisebol usado para se referir aos arremessadores que não estão jogando mas podem entrar no decorrer da partida, e Marvel's Bullpen era um termo usado por Stan Lee, principalmente na seção de cartas, para se referir à sua equipe, tendo sido esse quarteto, por assim dizer, o primeiro bullpen da Marvel. Já a edição 34 foi uma "edição especial de humor", somente com grandes questões como "o que aconteceria se a Garota Invisível tingisse o cabelo?", "o que aconteceria se o Vigia fosse um comediante de stand up?", "o que aconteceria se o Homem-Aranha se casasse com a Mulher-Aranha?", "o que aconteceria se Raio Negro tivesse soluços", "o que aconteceria se todos os heróis Marvel, ao invés de em Nova Iorque, morassem em Toledo, Ohio" e "o que aconteceria se Magnum fosse uma mulher e Luke Cage fosse uma garota?" - essa última um trocadilho com o fato de o nome de Magnum em inglês ser Wonder Man e o de Luke Cage ser Power Man, o que mudaria seus nomes para Wonder Woman e Power Girl, os nomes em inglês da Mulher Maravilha e da Poderosa, da DC.

Assim como a 34, a edição 38, publicada em abril de 1983, era uma edição especial - no caso, não de humor, mas de futurologia: ambientada no ano de 2013, ela traria três histórias, acompanhando o Capitão América, o Demolidor e o casal Visão e Feiticeira Escarlate 30 anos no futuro. Hoje, já tendo se passado dez anos a mais do que a ambientação dessa edição, é curioso ver como as histórias desses heróis não chegaram nem perto do mostrado, o que comprova que se tratava de uma realidade alternativa.

Também merece ser citada, mas por outros motivos, a edição 16, O Que Aconteceria Se Shang-Chi, o Mestre do Kung Fu, lutasse ao lado de Fu Manchu?. Originalmente, Shang-Chi era filho de Fu Manchu, se rebelava e decidia combater o império criminoso do pai; acontece que Fu Manchu não era um personagem Marvel, e sim uma criação do escritor inglês Sax Rohmer, um supervilão que comandava uma organização criminosa chamada Si-Fan, e foi estrela de 13 romances e 3 contos publicados entre 1913 e 1959, posteriormente adaptados para o cinema, rádio e TV. Assim como, por exemplo, Conan, Fu Manchu foi licenciado para a Marvel, que, além de usá-lo como vilão em diversos de seus títulos, decidiu criar o personagem Shang-Chi, estrela da revista The Deadly Hands of Kung Fu (voltada para o público adulto, assim como The Savage Sword of Conan), intrinsecamente ligado a ele. Uma desvantagem que talvez não tenha sido levada em conta na época foi que, a partir do momento em que a Marvel perdeu os direitos sobre Fu Manchu, nenhuma das histórias que traziam o vilão pôde ser republicada, incluindo essa What If...?, na qual Shang-Chi, ao invés de se rebelar contra o pai, fica a seu lado e se torna um de seus principais generais. Vale dizer também que, após a Marvel perder os direitos sobre Fu Manchu, Shang-Chi ficaria anos sem dar as caras, voltando após uma retcon que mudaria o nome de seu pai para Zheng Zu e o da organização criminosa para Sociedade das Cinco Armas.

Mas a edição mais comentada de todas foi a 24, O Que Aconteceria Se o Homem-Aranha tivesse resgatado Gwen Stacy?, cuja capa já dava uma dica: "faça o que fizer, Homem-Aranha... não a salve!". Uma das mais pedidas pelos leitores nas cartas, a edição revisita um dos momentos mais chocantes e emblemáticos da Marvel (e da história dos quadrinhos, já que, para muitos estudiosos, foi essa história que marcou a transição da Era de Prata para a Era de Bronze): a morte de Gwen Stacy, a namorada de Peter Parker, enquanto ele a tentava salvar do Duende Verde. Na What If...?, ele consegue salvá-la, os dois se casam, mas, a partir daí, nada acontece conforme o esperado - em mais uma prova de que, se aconteceu daquela forma, foi porque tinha de acontecer. A edição seria a de maior vendagem de toda a série, e só não foi um sucesso de crítica porque não existia crítica de quadrinhos na época, mas é até hoje apontada como um dos melhores roteiros da Marvel e uma das melhores soluções da What If...? - que, afinal de contas, tinha que encontrar uma resposta satisfatória para cada pergunta. Lançada em dezembro de 1980, essa edição teve roteiro de Ralph Macchio e arte de Gil Kane.

Quatro anos após o cancelamento, em junho de 1988, a Marvel lançaria uma edição especial, com número 1, chamada What If Iron Man Had Been a Traitor? ("o que aconteceria se o Homem de Ferro fosse um traidor"), ambientada durante os primeiros dias dos Vingadores, quando é descoberto que o Homem de Ferro, na verdade, é um agente secreto do governo soviético. As vendas seriam boas e a Marvel receberia diversas cartas pedindo o retorno de What If...?, o que aconteceria em uma segunda série, com numeração recomeçando do 1, em julho de 1989. Essa segunda série seria mensal e mais longeva que a primeira, se encerrando na edição 114, publicada em novembro de 1998. A Marvel nega, mas se comenta que um dos motivos pelos quais ela trouxe de volta a What If...? foi o início da publicação pela DC da linha Elseworlds, que também trazia histórias ambientadas em realidades alternativas, da qual o primeiro título, Gotham by Gaslight, uma aventura do Batman na Era Vitoriana, foi lançado em fevereiro de 1989; diferentemente de What If...?, Elseworlds não era uma série regular, e sim uma linha composta por diversas edições especiais lançadas esporadicamente.

Enquanto na primeira série cada história tinha seu começo, meio e fim na mesma edição, na segunda série algumas histórias foram publicadas em partes (como O Que Aconteceria Se os Vingadores tivessem perdido a Operação Tempestade Galáctica, em duas partes nas edições 55 e 56). Além disso, algumas das histórias da segunda série eram novas versões de histórias da primeira, com desdobramentos diferentes (como a edição 32, O Que Aconteceria Se a Fênix não tivesse morrido? e a 50, O Que Aconteceria Se o Hulk tivesse matado Wolverine?). Algumas histórias eram no formato "você decide", com vários finais dentre os quais o leitor podia escolher, dependendo do que preferisse que algum personagem fizesse (como a 63, O Que Aconteceria Se o Máquina de Combate não tivesse destruído o Laser Vivo?). Em algumas das edições, a história principal era séria, mas as restantes eram de humor (como a 9, O Que Aconteceria Se os Novos X-Men tivessem morrido em sua primeira missão?, que também trazia a história "o que aconteceria se Raio Negro falasse enquanto dorme?"), e a edição 34 (cujo título era O Que Aconteceria Se ninguém vigiasse o Vigia?) seria uma nova versão da edição 34 da primeira série, toda de humor - incluindo as incríveis histórias "o que aconteceria se o Dr. Destino fosse um pediatra?" e "o que aconteceria se Galactus enfrentasse o Homem-Formiga?".

Além das já citadas, os destaques da segunda série incluem a edição 2, O Que Aconteceria Se o Demolidor tivesse matado o Rei do Crime?; a 4, O Que Aconteceria Se o uniforme alienígena tivesse possuído o Homem-Aranha?; a 10, O Que Aconteceria Se a família do Justiceiro não tivesse sido assassinada?; a 24, O Que Aconteceria Se Wolverine fosse o Senhor dos Vampiros?; a 28, O Que Aconteceria Se o Capitão América tivesse liderado um exército de Supersoldados na Segunda Guerra Mundial?; a 30, O Que Aconteceria Se a segunda criança do Quarteto Fantástico tivesse sobrevivido? (uma menina filha do Sr. Fantástico com a Mulher Invisível que, na história original, morreu no parto); a 58, O Que Aconteceria Se o Justiceiro tivesse matado o Homem-Aranha?; a 66, O Que Aconteceria Se Vampira absorvesse o poder do Thor?; a 77, O Que Aconteceria Se Legião tivesse matado Magneto? (no evento que deu origem à Era do Apocalipse); e a 78, O Que Aconteceria Se o Novo Quarteto Fantástico tivesse continuado sendo uma equipe? (com o Novo Quarteto Fantástico sendo o Homem-Aranha, o Hulk cinza, o Motoqueiro Fantasma e Wolverine).

Entre as edições 76, de agosto de 1995, e 86, de junho de 1996, a What If...? traria na capa o selo "Marvel Alterniverse", usado para identificar histórias que não se passavam na continuidade normal do Universo Marvel, como as minisséries Ruínas e A Última História dos Vingadores. Também a partir da edição 76, a revista deixaria de ter um narrador, com as histórias sendo apresentadas como se fossem histórias comuns do Universo Marvel, e não eventos recontados, e, a partir da edição 87, as histórias da revista, tanto na capa quanto no miolo, deixariam de ter o título padronizado What If...?; a capa passaria a trazer What If... starring e o nome do personagem que estrelava a história principal daquela edição, e cada história, exceto as de humor, passaria a ter um título normal (por exemplo, na edição 109, estrelada pelo Quarteto Fantástico, a capa trazia What If... starring The Fantastic Four, a história principal se chamava Tragedy in a Tiny Town, mas a história secundária, de humor, era "o que aconteceria se Vampira fosse feia?"). As histórias dessas 28 últimas edições também eram menos dependentes, por assim dizer, de momentos de destaque do Universo Marvel, simplesmente trazendo histórias ambientadas fora da cronologia do Universo Marvel regular.

Uma das edições preferidas dos fãs, que rendeu mais cartas para a Marvel, foi a 75, O Que Aconteceria Se Blink, da Geração X, não tivesse morrido?. Blink foi uma personagem criada para aparecer apenas na primeira história da Geração X, e que depois acabou incluída como uma personagem regular na Era do Apocalipse. Ela acabaria fazendo tanto sucesso que a Marvel receberia cartas todos os meses pedindo para que ela retornasse à continuidade normal - se Jean Grey pôde voltar, por que não Blink? A princípio, a Marvel não estava muito disposta a fazer isso, então publicou essa edição da What If...? para fazer um teste, optando por trazer a personagem de volta diante da boa repercussão - curiosamente, porém, ao invés de ressuscitar a Blink original, ela transportaria a Blink da Era do Apocalipse para a continuidade regular.

Mas a edição de maior impacto seria a 105, de fevereiro de 1998, What If... starring Spider-Man?, estrelada pela Garota-Aranha, a filha de Peter Parker e Mary Jane, que nasceu mutante, com os poderes do pai. Ambientada em um futuro alternativo, no qual a menina é adolescente e super-heroína, a revista seria um sucesso tão grande que levaria a Marvel a criar toda uma linha, chamada MC2, ambientada no mesmo universo, que contava com as revistas Spider-Girl, A-Next (com os sucessores dos Vingadores), J2 (estrelada pelo filho do Fanático, que era um super-herói ao invés de um vilão), Fantastic Five (o "quinteto fantástico", versão futura do Quarteto) e Wild Child (estrelada pela filha de Wolverine e Elektra). As quatro últimas revistas tiveram venda curta (A-Next e J2 tiveram 12 edições cada, Fantastic Five e Wild Child apenas cinco), mas Spider-Girl teve boas vendas, e se manteve no mercado de outubro de 1998 a setembro de 2006, em redondas 100 edições. O universo MC2 seria usado pela Marvel em diversas minisséries até 2015, quando seria destruído na minissérie Guerras Secretas.

A segunda série de What If...? também teria duas edições especiais. A primeira seria a "edição -1", lançada em julho de 1997 (entre as edições 98 e 99), que traria uma história na qual Bishop tem de impedir o vilão Fitzroy de voltar no tempo e impedir a criação dos X-Men. A segunda seria lançada somente em fevereiro de 2011, teria o número 200, e traria duas histórias: "o que aconteceria se Norman Osborn tivesse vencido o cerco de Asgard?" e "o que aconteceria se o Vigia matasse Galactus?", além de uma retrospectiva de todas as edições anteriores de What If...?, feita por Roy Thomas.

Entre o cancelamento da segunda série e o lançamento da edição 200, a Marvel lançaria nada menos que sete novas séries de What If...?. A terceira série seria composta por seis edições, todas lançadas em fevereiro de 2005, e todas elas com o número 1 - em suma, eram seis one-shots. A ideia de reviver What If...? partiria do roteirista CB Cebulski, mas Justin Gabrie, editor da Marvel na época, optaria por esse formato ao invés de uma série regular ou minissérie. Uma curiosidade sobre a terceira série é que cada roteirista atua como narrador de sua própria história. Os títulos da terceira série foram O Que Aconteceria Se Jessica Jones se unisse aos Vingadores?, O Que Aconteceria Se Karen Page tivesse sobrevivido?, O Que Aconteceria Se a Tia May tivesse morrido ao invés do Tio Ben?, O Que Aconteceria Se o Dr. Destino fosse o Coisa?, O Que Aconteceria Se Magneto e o Professor X tivessem fundado os X-Men juntos? e O Que Aconteceria Se o General Ross tivesse se transformado no Hulk?. Junto com essas seis edições, seria lançada uma edição de humor chamada Wha... Huh?, que responderia a grandes questões como "o que aconteceria se todos os Vingadores usassem barba?", "o que aconteceria se o Pantera Negra fosse branco?" e "o que aconteceria se MODOK tivesse uma coceira?".

A quarta série seria lançada em fevereiro de 2006, mais uma vez composta por seis one-shots, cada um com um nome que começava por What If? featuring e trazia em seguida o nome do herói que estrelava a edição: Demolidor, Capitão América, Namor, Thor, Quarteto Fantástico e Wolverine. Curiosamente, essa série seguia uma estrutura similar à de Elseworlds: todas eram ambientadas em uma mesma Terra alternativa, com os heróis tendo ganhado seus poderes e vivido suas aventuras em lugares e épocas diferentes da do Universo Marvel regular - o Capitão América na época da Guerra Civil, o Demolidor no Japão Feudal, Wolverine na Chicago da década de 1920, Namor foi criado por seu pai na superfície, o Quarteto Fantástico é uma equipe soviética na época da Guerra Fria, e Thor é arauto de Galactus. Todas as edições da quarta série têm novamente o Vigia como narrador.

A quinta série seria publicada em janeiro de 2007; cada uma de suas cinco edições era relacionada a uma saga da Marvel e trazia o nome dessa saga no título - por exemplo, a dos Vingadores era relacionada à saga A Queda, e trazia o título What If? Avengers Disassembled, enquanto a dos X-Men, relacionada à Era do Apocalipse, era What If? Age of Apocalypse. Mais uma vez, todas as cinco eram numeradas com o número 1. A sexta série seguia a mesma estrutura, mas suas cinco edições foram lançadas mensalmente, entre outubro de 2007 e janeiro de 2008 (duas em dezembro). Dentre os destaques, What If? Planet Hulk, What If? Annihilation e What If? Civil War. Uma sexta edição, estrelada pelo Novo Quarteto Fantástico, faria parte dessa série, mas acabaria adiada devido à morte do desenhista Mike Wieringo, sendo posteriormente ampliada e lançada em junho de 2008 como uma edição especial de 48 páginas chamada What If: This Was the Fantastic Four, cujas vendas foram totalmente revertidas para a ONG The Hero Initiative, que ajuda artistas dos quadrinhos que estejam passando por necessidades financeiras.

A sétima série, lançada em fevereiro de 2009, teria mais cinco edições seguindo o modelo estabelecido pela quinta e sexta, que incluíam What If? House of M (na qual a Feiticeira Escarlate tira os poderes de todos os heróis e vilões, não só dos mutantes) e What If? Secret Wars (na qual o Dr. Destino mantém o poder do Beyonder). Cada edição tinha duas histórias, sendo a segunda em cinco partes, uma por edição, e estrelada pelos Fugitivos e pelos Jovens Vingadores. Já a oitava série, lançada em fevereiro de 2010, que incluiria What If? Secret Invasion e What If? World War Hulk, traria em cada uma de suas cinco edições dois finais possíveis, com o leitor podendo escolher. Finalmente, a nona série, lançada em fevereiro de 2011, teria quatro edições, incluindo What If? Dark Reign, cada uma com duas histórias, a segunda em quatro partes com a interessante premissa "o que aconteceria se o simbionte do Venom se unisse a Deadpool?".

A partir daí, a Marvel decidiria mudar o modelo de What If...? e lançar minisséries ligadas cada uma a uma saga. Em setembro de 2013, seria lançada a minissérie em quatro edições What If? AvX, que mostrava caminhos alternativos para os acontecimentos da saga Vingadores vs. X-Men. Em abril de 2014, seria a vez de What If? Age of Ultron, minissérie em cinco edições com cada uma removendo um dos Vingadores do Universo Marvel antes de Hank Pym criar Ultron - respectivamente, Vespa, Homem de Ferro, Thor, Capitão América e Hank Pym, o que cria um mundo sem Ultron, mas também sem o Visão. E em outubro de 2015 seria a vez de What If? Infinity, na qual cada uma de suas cinco edições trazia um final diferente para a saga - uma delas com a vitória de Thanos, outra com Norman Osborn se apoderando da Manopla do Infinito.

Três anos se passariam antes que a Marvel decidisse lançar uma décima-terceira série (contando cada minissérie como uma série), que seria também uma volta às origens: apesar de todas as edições serem número 1 e cada uma trazer o nome de um herói (What If? Spider-Man, What If? X-Men, What If? The Punisher, What If? Ghost Rider, What If? Thor e What If? Magik), cada história era baseada em uma mudança importante em um momento-chave do Universo Marvel - Flash Thompson sendo mordido pela aranha radioativa ao invés de Peter Parker, Peter Parker decide se tornar o Justiceiro após a morte do Tio Ben, Thor foi criado pelos gigantes do gelo ao invés de Loki ser criado em Asgard etc.

Após mais três anos sem What If...?, entre junho e outubro de 2021 seria lançada a minissérie em cinco edições What If? Spider-Man: The Spider's Shadow, que, revisitando uma história da segunda série, mostrava Peter Parker se entregando ao simbionte e se transformando em Venom. Entre março e setembro de 2022, seria a vez de What If? Miles Morales, minissérie na qual, em cada uma de cinco edições, Miles Morales ganha os poderes de um herói diferente ao invés dos do Homem-Aranha (Capitão América, Wolverine, Hulk e Thor, na quinta edição os cinco Miles têm de se unir para enfrentar uma ameaça grande demais para um só). A por enquanto última série de What If...? se chama What If...? Dark, e teve quatro edições, duas lançadas em julho e duas em agosto de 2023, cada uma trazendo "versões sombrias" de acontecimentos do Universo Marvel - em uma delas, o Homem-Aranha consegue salvar Gwen Stacy, mas morre em seguida.

Antes de terminar, já que eu falei sobre as edições de humor e sobre Wha... Huh?, eu gostaria de falar sobre duas outras revistas de humor da Marvel que eu acho sensacionais. Em ordem cronológica, a primeira é Not Brand Echh, uma revista de sátira e paródia, no estilo da revista MAD. O nome da revista tem uma explicação curiosa: nas propagandas dos Estados Unidos, ao invés de falar o nome de suas concorrentes, as empresas costumam usar o termo Brand X, a "marca X", pronunciado "brend éks". Nas seções de cartas e outros avisos da Marvel, quando era necessário falar sobre sua principal concorrente, a DC, antes de Stan Lee criar o termo Distinta Concorrência (em inglês, Distinguished Competition), também era usado o Brand X, que os funcionários da Marvel pronunciavam Brand Echh - com esse echh sendo aquele som que a gente faz quando está com nojo de alguma coisa - nome que acabaria, durante um tempo, também sendo usado para se referir à DC nas páginas das revistas Marvel.

A revista seria criada por Roy Thomas e Gary Friedrich, que criaram o nome Not Brand Echh porque, em sua concepção original, seria uma revista que faria paródia dos heróis de outras editoras, principalmente da DC; ao apresentar a ideia a Stan Lee, ele decidiria que a revista faria mais sucesso - e talvez seria menos propensa a um processo - se os alvos das paródias fossem as histórias da própria Marvel. Ao longo de sua história, a Not Brand Echh chegaria a apresentar paródias envolvendo personagens da DC, da Gold Key Comics, da Tower Comics e da Warren Publishing, mas o foco principal era mesmo os personagens da própria Marvel. O lema da revista, estampado acima de seu título era "quem disse que quadrinhos precisam ser bons?".

O primeiro número de Not Brand Echh introduziria um novo personagem, Forbush Man (algo como "Homem Fuleiro"), um combatente do crime meio atrapalhado e sem nenhum superpoder, que usava como uniforme um pijama daqueles antigos, que são uma peça inteira, cobrindo os pés e com uma abertura no bumbum, e uma panela na qual ele abriu dois buracos para os olhos como máscara - e, na edição 5, seria revelado que sua identidade secreta seria Irving Forbush, o office boy da Marvel, que na verdade não existia na vida real, tendo sido criado para a revista. A maioria das histórias, entretanto, não eram estreladas pelo Forbush Man, e sim pelas já citadas paródias dos super-heróis, como Ironed Man (o "Homem Passado a Ferro"), Dr. Deranged (ou "Dr. Depravado", paródia do Dr. Estranho), Spidey-Man (sendo Spidey o apelido do Homem-Aranha em inglês, o equivalente a quando o chamam de Aranha nas histórias traduzidas para o português), o Incrível Bulk e Charlie America. Uma das histórias de maior sucesso seria Rent A Super-Hero, na qual crianças contratavam super-heróis para fazer por elas tarefas como arrumar o quarto e lavar a louça.

Not Brand Echh teria 13 edições, publicadas entre agosto de 1967 e maio de 1969, e contaria dentre seus roteiristas e desenhistas com grandes nomes da Marvel, como Stan Lee, Jack Kirby, Roy Thomas, Gene Colan, Bill Everett, e os irmãos John e Marie Severin. A partir da edição 9, ela passaria a ter formato grande e 68 páginas, ao invés das 32 habituais, uma estratégia para alavancar as vendas, que infelizmente não foram boas desde o início, e acabariam levando a seu cancelamento. Em 2017, a Marvel lançaria uma edição comemorativa dos 50 anos de lançamento da revista, com número 14, trazendo novas histórias de Forbush Man, novas paródias dos heróis e uma aventura de Deadpool - que, de certa forma, já é uma paródia por si só.

Em 1988, a Marvel decidiria tentar novamente, e lançaria uma minissérie em quatro edições chamada What The--?! - segundo a campanha publicitária, "se você procura por mais que What If...?, mas menos que WHAT THE HELL???, essa revista é pra você". A minissérie faria sucesso e seria seguida por uma série regular, mantendo a numeração. No total, somando a minissérie e a série regular, seriam lançadas 26 edições, entre agosto de 1988 e outubro de 1993. Assim como Not Brand Echh, What The--?! era uma revista de paródia escrita e desenhada por grandes nomes da Marvel, como John Byrne, Kurt Busiek, Peter David e Scott Lobdell. Além de trazer de volta Forbush Man, ela investiria em paródias como o Fantastical Four, os X-Persons, Wulvoream e Pulverizer (o "Pulverizador", paródia do Justiceiro). Seria em What The--?! que estrearia Spider-Ham, a versão porco de desenho animado do Homem-Aranha mais tarde incorporada ao Universo Marvel e lançada ao estrelato pela saga do Aranhaverso.

Para terminar de vez, vale dizer que, apesar de terem o selo da Marvel na capa, tanto Not Brand Echh quanto What The--?! alegavam ser publicadas pela Marble Comics, e que suas histórias ocorriam no Universo Marble. What The--?!, inclusive, tinha uma seção de cartas falsa, na qual cartas inventadas comentavam sobre outras histórias da Marble (jamais publicadas pela Marvel, evidentemente), e propagandas falsas, paródias de produtos que eram anunciados em revistas em quadrinhos da Era de Ouro, como o método para ganhar músculos criado pelo fisiculturista Charles Atlas.
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