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domingo, 25 de setembro de 2022

Escrito por em 25.9.22 com 1 comentário

Dhoom

Hoje eu vou voltar ao cinema indiano, para falar de uma trilogia de filmes de ação. Hoje é dia de Dhoom no átomo!

Dhoom (palavra que significa algo como "euforia") é uma espécie de Velozes e Furiosos de Bollywood, mas, ao invés de carros, usa motos. O filme foi uma criação do produtor Aditya Chopra, que, por mais que negue, deve ter sim se inspirado em Velozes e Furiosos, lançado três anos antes, porque não é possível que todos os pontos em comum tenham sido coincidência - inclusive, originalmente, ele queria usar carros, sendo convencidos a usar motos pelo diretor do filme, Sanjay Gadhvi, que foi fanático por motos em sua juventude, e usou o argumento de que, com motos, os rostos dos atores apareceriam na tela por mais tempo. O roteiro ficaria a cargo de Vijay Krishna Acharya, em sua estreia como roteirista de Bollywood. Apesar de esse roteiro ter sido criticado e considerado fraco, Dhoom seria extremamente elogiado por suas cenas de ação, se tornaria um marco do cinema de ação indiano, e daria origem a duas sequências, todas bem sucedidas. Inclusive, há anos que rolam boatos de que estaria sendo produzido um quarto filme, e ninguém entende por que ele jamais saiu do papel.

Na cidade de Mumbai, uma gangue de motociclistas, liderada pelo carismático Kabir Sharma (John Abraham, que, apesar do nome, é filho de indianos, nascido e criado em Mumbai), comete crimes audaciosos, usando motos customizadas de última geração para roubar caminhões de carga, bancos e lojas, desaparecendo ao chegar à Western Express Highway, a principal rodovia da cidade. O policial Jai Dixit (Abhishek Bachchan) é designado para o caso, mas todas as suas ideias para capturar os bandidos falham, e logo a imprensa começa a questionar se ele está mesmo preocupado em solucionar o caso ou se ainda está em lua de mel com sua namorada de adolescência, Sweety (Rimi Sen), com quem acabou de se casar.

Para tentar obter uma vantagem sobre os criminosos, Dixit recruta Ali Akbar Fateh Khan (o comediante Uday Chopra, em seu primeiro papel em um filme de ação), dono de uma oficina de customização de motocicletas, que participa de corridas de rua ilegais, e acaba se apaixonando pela bela e perigosa Sheena Rai (Esha Deol), sem saber que ela é membro da gangue de Kabir. A dupla se vê em maus lençóis quando Kabir desafia Dixit na TV, dizendo a hora e o local de seu próximo crime, e, mesmo assim, o policial não consegue impedi-lo - durante a ação, entretanto, um dos membros da gangue, Rohit (Rohit Chopra), é morto por Dixit. Culpando Ali pelo fracasso da ação, Dixit decide desfazer a parceria; Kabir, sabendo do envolvimento de Ali com Sheena, o convida para substituir o falecido na gangue - para desespero do segundo em comando, Rahul (Aarav Chowdhary), irmão de Rohit, que não confia em Ali e acha que ele é um policial infiltrado. Kabir, porém, precisa de Ali porque precisa de quatro motoqueiros para fazer funcionar seu próximo plano, aquele que será o roubo mais ambicioso de todos, rendendo tanto dinheiro a cada membro da gangue que também será o último, após o qual eles se aposentarão: invadir e roubar o maior cassino da Índia, na cidade de Goa, exatamente na virada do ano, quando todos estiverem ocupados comemorando.

Com 129 minutos de duração (pouco mais de duas horas, pra quem não quiser fazer a conta), considerado curto para um filme de Bollywood, Dhoom estrearia nos cinemas indianos em 27 de agosto de 2004. Produzido pela Yash Raj Films, seria o primeiro filme de ação do estúdio desde Vijay, de 1988, com a Yash Raj se concentrando apenas em dramas e comédias românticas ao longo desses 16 anos. Com orçamento de 110 milhões de rúpias, renderia nada menos que 724,7 milhões apenas na Índia, mais 157 milhões em bilheteria internacional, sendo 330 mil dólares nos Estados Unidos, valor considerado alto para um filme de ação indiano naquele país. A crítica indiana, como já foi dito, caiu de pau em cima do roteiro, e comparou Dhoom desfavoravelmente a filmes norte-americanos como Velozes e Furiosos e Onze Homens e um Segredo; a execução das sequências de ação e o ritmo frenético do filme, por outro lado, foram extremamente elogiados, assim como as atuações do trio masculino de protagonistas, em especial de Uday Chopra, que, segundo os críticos, roubou o filme. Dhoom ganharia dois Filmfare Awards, de Melhor Edição e Melhor Edição de Som, sendo indicado também a Melhor Filme, Melhor Vilão, Melhor Diretor Musical e Melhor Playback Singer Feminina.

Falando nisso, a música-tema do filme, chamada Dhoom Machale (algo como "ficando eufórico"), interpretada por Sunidhi Chauhan, seria um gigantesco sucesso, se tornando uma das mais tocadas nas rádios e festas indianas e ganhando o prêmio de Música do Ano do Zee Cine Awards, além de dois prêmios de Melhor Playback Singer Feminina para Chauhan, o do Zee Cine Awards e o International Indian Film Academy Awards (IIFA), só faltando mesmo o Filmfare. Dhoom Machale também ganharia uma versão internacional, cantada em inglês pela cantora tailandesa Tata Young e chamada Dhoom Dhoom, cujo clipe, incluído nos créditos do filme, se tornaria um dos mais exibidos nas TVs indianas em 2004 e 2005. Contando com essas duas, a trilha sonora do filme teria sete músicas, todas compostas por Pritam com letras de Sameer Anjaan, interpretadas por grandes nomes da música indiana como KK, Shreya Ghoshal e Abhijeet Bhattacharya, o que faria com que o álbum da trilha sonora de Dhoom fosse o terceiro mais vendido de 2004 na Índia.

Além de ser um sucesso de público, Dhoom causaria um gigantesco impacto cultural na Índia, sendo considerado responsável por um aumento na venda e nos serviços de customização de motocicletas, bem como de incidentes envolvendo corridas de rua, roubo de motos e realização de manobras perigosas em rodovias. Na cidade de Chelembra, no estado de Kerala, uma gangue de quatro motociclistas conseguiu invadir um banco e roubar 2,5 milhões de rúpias e 80 kg de ouro, no que foi considerado o maior roubo da história de Kerala; os criminosos acabaram presos, e, na delegacia, confessaram que tiveram a inspiração para realizar o roubo após assistir o filme, com a história se tornando um prato cheio para a imprensa indiana.

O grande sucesso de Dhoom nas bilheterias motivaria Aditya Chopra a começar a trabalhar em uma sequência quase que imediatamente após seu lançamento, mantendo Gadhvi como diretor e Acharya como roteirista. Yash Chopra, pai de Aditya e dono do Yash Raj Films, pediria para que nem Kabir, nem Sheena estivessem no filme, para dar a oportunidade a Dixit de trabalhar em outros casos, e Aditya sugeriria que o vilão fosse um criminoso internacional, para que o filme fosse mais grandioso que o primeiro; com isso em mente, Yash Chopra escalaria para o elenco dois dos maiores nomes do cinema indiano, Hrithik Roshan e Aishwarya Rai. Curiosamente, Rai havia acabado de ganhar peso para seu papel em Bride & Prejudice, e Yash Chopra deu um prazo para que ela se tornasse "sensual e curvilínea" ou seria cortada do filme, ainda usando Deol como exemplo, alegando que ela "cumpriu o que foi pedido pelo papel, e isso fez bem à sua carreira". Para que isso não se tornasse um escândalo, Aditya Chopra divulgaria para a imprensa que Roshan também teve de perder 5 kg para o papel, e que a exigência feita a ele e a Rai decorria das sequências de ação do filme.

Em Dhoom 2, o antagonista é o criminoso internacional conhecido apenas como A. (Hrithik Roshan), que consegue executar roubos impossíveis ao redor do planeta, e está a caminho de Mumbai para roubar um enorme diamante em exposição em um museu da cidade. A agente da Interpol responsável pela investigação é Shonali Bose (Bipasha Basu), que foi colega de Dixit na academia de polícia, e, ao saber que o criminoso está a caminho de Mumbai, pede ajuda a seu antigo colega e a seu novo parceiro Ali, promovido a sub-inspetor de polícia - quem não gosta muito da história é Sweety, que está grávida e cheia de desejos, porque Dixit e Shonali foram namorados na época da academia. Enquanto está em Mumbai, A. também acaba encontrando uma parceira: Sunehri Rawat (Aishwarya Rai), ladra ao estilo Mulher-Gato que sempre teve admiração pelo criminoso internacional, e, após demonstrar suas habilidades superando-o em um roubo, o convence a levá-la junto em seu assalto seguinte.

E agora vem a razão pela qual eu resolvi falar sobre Dhoom no átomo: o golpe seguinte de A. é no Rio de Janeiro. Isso mesmo, na segunda metade do filme, A. e Sunehri vêm à Cidade Maravilhosa para roubar um conjunto de moedas raras em exposição no Museu de História Natural; Dixit fica sabendo, vem também, e traz Ali junto. Shonali não vem, mas é como se viesse, porque ela tem uma irmã gêmea, chamada Monali Bose (também interpretada por Bipasha Basu), que mora no Rio de Janeiro há vários anos, e se oferece para hospedar os dois policiais. Monali é, digamos, menos esperta que Shonali, e Ali, que já tinha uma quedinha pela agente, se apaixona por ela; Sweety também não vem, por estar grávida, e fica morrendo de ciúmes. Enfim, uma vez no Rio de Janeiro, cabe a Dixit descobrir qual será o alvo de A. e tentar deter o ladrão de uma vez por todas, encerrando sua carreira de crimes.

Dhoom 2 seria o primeiro filme de Bollywood a ser gravado no Brasil, com cenas rodadas na Lapa, no Aterro do Flamengo e na Praia de Copacabana, em frente ao Hotel Copacabana Palace. Curiosamente, alguns dos locais que, no filme, ficam no Rio de Janeiro, como um shopping que Dixit visita, um restaurante onde A. almoça, um estádio de futebol e o tal Museu de História Natural onde acontecerá o roubo, na verdade ficam em Durban, na África do Sul, onde o filme também foi gravado - também ocorreram gravações na Namíbia, onde foi filmada a sequência inicial e cenas bizarras segundo as quais o Rio de Janeiro conta com um cânion e cachoeiras. Falando em cenas bizarras, o filme tem um festival de dança com passistas de escola de samba, tochas fincadas na areia, open bar e DJ no meio da praia de Copacabana como se isso fosse a coisa mais normal do mundo e um desfile de escolas de samba na Marquês de Sapucaí fora do Carnaval, mas talvez o detalhe mais inacreditável de todos é que Monali mora em um barraco de madeira construído na areia da praia, a poucos passos da água - quem diz que Caminho das Índias não retratou a verdadeira Índia pode acreditar que Dhoom 2 deu o troco ao retratar o Rio de Janeiro. Outra curiosidade é que uma sequência que no filme é ambientada em Fiji também foi filmada no Rio de Janeiro, para aproveitar que a equipe já estava aqui.

Dhoom 2 seria muito mais caro que seu antecessor, custando 350 milhões de rúpias, em parte por causa das gravações internacionais. A pedido de Ghadvi, para que o filme não parecesse mais do mesmo, muito poucas cenas trariam motocicletas; em compensação, os golpes de A. seriam extremamente fantásticos, fazendo uso de paraquedas, pranchas de snowboarding e cordas de rapel - tanto Roshan quanto Rai fariam suas próprias cenas de ação, com apenas Bachchan e Uday Chopra usando dublês. Dhoom 2 também usaria bastante chroma key e computação gráfica para as sequências mais, digamos, absurdas, como a de abertura, na qual A. luta contra a polícia em cima de um trem em movimento, e uma na qual Dixit pula de um lago pilotando um jet ski. Os efeitos especiais ficariam a cargo de Allan Amin e Tata Elxsi, que trabalhavam para a própria Yash Raj, sem envolvimento de companhias externas à produção.

A trilha sonora mais uma vez ficaria a cargo de Pritam e Sameer, com exceção de Dhoom Again, nova versão de Dhoom Machale, com arranjo e letra levemente diferentes, composta por Pritam e Asif Ali Beg e interpretada por Vishal Dadlani e Dominique Cerejo. Com seis faixas, cantadas, dentre outros, por Sunidhi Chauhan, KK, Sonu Nigam e Suzanne D'Mello, a trilha sonora de Dhoom 2 seria o álbum mais vendido do ano na Índia em 2007, embora nenhuma de suas músicas tenha tido tanta exposição quanto Dhoom Machale.

Com 152 minutos de duração (praticamente duas horas e meia), Dhoom 2 estrearia em 24 de novembro de 2006, na época batendo o recorde de maior número de salas para uma estreia na Índia, com 1800, sendo 250 cópias em formato digital, o que também foi um recorde. Ajudou o fato de que, além de ser lançado em hindi, o filme seria dublado em tâmil e telugo para lançamento simultâneo, quando o normal é as versões dubladas estrearem depois. O filme seria muito melhor recebido pela crítica que o primeiro, com quase todos os críticos concordando que se tratava de um dos melhores filmes de ação da história de Bollywood, e elogiando especialmente a atuação de Roshan - que ganharia um Filmfare Award de Melhor Ator, único conquistado por Dhoom 2 em meio a oito indicações, que incluíam Melhor Filme, Melhor Atriz (Rai), Melhor Diretor, Melhor Diretor Musical, Melhor Trilha Sonora, Melhores Efeitos Especiais e Melhor Sequência de Ação.

Dhoom 2 quebraria vários recordes de bilheteria quando de sua estreia, incluindo maior bilheteria para o primeiro dia, para o primeiro fim de semana e para a primeira semana. O filme renderia 803 milhões de rúpias na Índia e 1,5 bilhão ao se somar a bilheteria do mundo inteiro, incluindo 979 mil dólares nos Estados Unidos, onde seria exibido em um número recorde de 63 salas, se tornando a terceira maior bilheteria no fim de semana de estreia para um filme de Bollywood e 17o filme estrangeiro de maior bilheteria nos Estados Unidos em todos os tempos. Vale citar como curiosidade que os cartazes do filme, mesmo na Índia, traziam um subtítulo para o filme (Dhoom: 2 - Back in Action, "de volta à ação"), mas esse subtítulo não aparece na tela, nem faz parte do registro do filme no governo indiano.

Com medo de que o filme desse origem a mais uma onda de crimes e de comportamento irresponsável de jovens em rodovias, causando acidentes, o Comissariado de Polícia de Mumbai pediria para que todas as cenas que envolvessem veículos em alta velocidade fossem censuradas nos cinemas da cidade, o que não foi atendido pela Yash Raj, que ainda soltou um comunicado no qual dizia que as sequências de ação do filme não eram inspiradas em crimes reais, e que, por sua natureza, sequer deveriam ser tentadas por imitadores. De fato, diferentemente do que ocorreu na época do primeiro filme, não se notou nenhum aumento de qualquer atividade lícita ou ilícita envolvendo motocicletas ou relacionadas a quaisquer das cenas do filme; o único incidente registrado foi um jovem que se vestiu como A. e deixou "na cena do crime" a marca do criminoso do filme ao roubar seu próprio tio.

Com todo o sucesso de Dhoom 2, era esperado que uma sequência viesse em seguida, mas apesar de boatos sobre o elenco e sobre a história rolarem durante vários anos, Aditya Chopra sempre negava que um Dhoom 3 estivesse em produção, e, quando perguntado sobre o motivo, dizia simplesmente ainda não ter encontrado a história certa. Passariam-se sete anos até que Dhoom 3 finalmente saísse do papel e se tornasse realidade.

O vilão do terceiro filme é Sahir Khan (Aamir Khan), artista circense de profissão e criminoso nas horas vagas, que consegue efetuar roubos com escapadas aparentemente impossíveis. Após um audacioso roubo a um banco em Chicago, a policial encarregada do caso, Victoria Williams (a atriz australiana Tabrett Bethell) decide pedir ajuda a Dixit e Ali, por sua experiência no caso envolvendo A. Ao perceber que o criminoso é também dono de um circo, Dixit recruta a dançarina Aaliya Hussain (Katrina Kaif) para conseguir um papel no espetáculo e informar os policiais sobre os passos de Sahir - o que se torna uma dificuldade quando Aaliya e Sahir se apaixonam. O filme também conta com a participação especial do famoso ator de Bollywood Jackie Shroff como Iqbal Haroon Khan, pai de Sahir e dono original do circo; Rimi Sen, por outro lado, havia se aposentado da carreira de atriz, o que fez com que Sweety e o bebê que ela estava esperando no segundo filme desaparecessem por completo, sequer sendo citados.

Outro que não retornou para a sequência foi Gadhvi, envolvido com as filmagens da comédia romântica Ajab Gazabb Love; Acharya, ainda responsável pelo roteiro, seria promovido então a diretor - muitos acham que essa foi sua estreia no cargo, mas ele também havia dirigido a comédia de ação Tashan ("estilo"), de 2008, da qual também foi roteirista. Aditya Chopra queria que o filme fosse filmado em 3D, mas seria convencido do contrário pelo ator Aamir Khan, que acreditava que o formato não iria contribuir em nada para as cenas de ação do filme, e ainda poderia encarecê-lo. Inicialmente, a protagonista feminina seria interpretada por Deepika Padukone, substituída por Katrina Kaif após pedir para sair do projeto alegando razões pessoais. E, dessa vez, quem teve de emagrecer foi Bachchan, que teve de perder 9 kg para poder voltar ao papel do policial Dixit. Bachchan, aliás, foi responsável por uma entrevista polêmica: em todos os três filmes de Dhoom, o nome do ator que interpreta o vilão vem primeiro nos créditos; perguntado se isso significava que os vilões eram mais importantes para a história que o policial, Bachchan responderia que "Dhoom é meu filme, e ninguém vai tirar isso de mim, é um filme sobre Jai e Ali, e, se eles não estiverem lá, não é Dhoom".

Inicialmente, Dhoom 3 teria lançamento programado para o Natal de 2012, mas as filmagens demorariam para começar, primeiro porque Uday Chopra estava de licença paternidade, depois porque Aamir Khan tinha compromissos com o programa de TV Satyamev Jayate e com a promoção do filme Talaash. Previstas para começarem em novembro de 2011, as filmagens se iniciariam apenas em junho de 2012, o que tornaria impossível sua conclusão antes do fim do ano e forçaria seu adiamento para o Natal de 2013. Enquanto o primeiro filme é ambientado totalmente na Índia, e o segundo metade na Índia, metade no exterior, Dhoom 3 é totalmente ambientado no exterior, mais especificamente em Chicago, com apenas as cenas em estúdio e as do circo tendo sido filmadas em Mumbai; as demais gravações ocorreriam em Chicago, Los Angeles, Orlando, Nova Iorque e na Suíça, nas cidades de Zurique e Ticino, onde fica localizada a represa na qual foi gravado o clímax do filme.

A trilha sonora, mais uma vez, seria obra de Pritam e Sameer, exceto por duas músicas, uma composta por Amitabh Bhattacharya e outra por Kausar Munir. Mais uma vez, a música-tema ganharia uma nova versão com arranjo e letra levemente diferentes, dessa vez chamada Dhoom Machale Dhoom, interpretada pela cantora Aditi Singh Sharma. No total, a trilha sonora teria nove músicas, mas duas eram instrumentais (uma presente em um número de sapateado interpretado por Aamir Khan) e outras duas eram "versões internacionais" de Dhoom Machale Dhoom, uma em árabe, interpretada pela cantora libanesa Naya, e uma em espanhol, interpretada pela cantora peruana Mia Mont. A única intérprete presente nas trilhas sonoras dos três filmes seria Sunidhi Chauhan, que, em Dhoom 3, canta a música-tema de Aaliya. Assim como Dhoom 2, Dhoom 3 teria versões dubladas em tâmil e telugo para seu lançamento; Dhoom 3, porém, também teria trilhas sonoras lançadas em tâmil e telugo, o que faria com que Dhoom Machale Dhoom tivesse um total de cinco versões (com tanto a versão em tâmil quanto a em telugo também sendo interpretadas por Sharma).

Com 172 minutos de duração (quase três horas), Dhoom 3 estrearia em 20 de dezembro de 2013. Seria o primeiro filme de Bollywood distribuído exclusivamente em formato digital, e o primeiro a ser lançado no formato IMAX. O filme mais uma vez seria recordista de salas na estreia, com 4500 apenas na Índia; no exterior, sem contar a China, seriam 750, também um recorde - somente na China seriam 2000, em 400 cidades, recorde para um filme estrangeiro no país. E esses números todos eram necessários porque Dhoom 3 foi um filme absurdamente caro, custando 1,75 bilhão de rúpias; na Índia, ele seria recordista de bilheteria no primeiro dia, no primeiro fim de semana, na primeira semana, e o filme mais rápido da história a atingir a marca de 1 bilhão de rúpias na bilheteria, o que conseguiu em quatro dias. Ao todo, o filme renderia 5,892 bilhões de rúpias no mundo inteiro, sendo 3,72 bilhões na Índia, 2,4 bilhões na China, e 639 milhões nos Estados Unidos - o equivalente a aproximadamente 8 milhões de dólares, novo recorde para um filme de Bollywood no país. Vale citar que o filme também seria recordista de bilheteria na história do Paquistão, onde renderia 121 milhões de rúpias indianas (ou 245 milhões de rúpias paquistanesas), o que foi considerado uma grande proeza.

A crítica também ficaria extremamente empolgada com o filme, elogiando principalmente a direção de arte, cenas de ação, efeitos especiais, trilha sonora e a atuação de Aamir Khan, que, segundo os críticos, "carrega o filme nas costas"; apesar disso, o roteiro mais uma vez foi considerado fraco, com as motivações do vilão sendo consideradas rasas e infantis, o filme foi considerado longo demais, com a edição sendo especialmente criticada, e muito se comentou que Uday Chopra tem menos tempo de tela que nos dois filmes anteriores, o que foi considerado um desperdício do personagem Ali, até então um dos destaques da franquia. Dhoom 3 seria indicado a apenas um Filmfare Award, o de Melhores Efeitos Especiais (que ficaram a cargo, mais uma vez, de Tata Elxsi), ganhando a estatueta; no Golden Kela Awards (uma espécie de Troféu Framboesa indiano; kela significa "banana" em hindi), Dhoom 3 seria indicado aos "prêmios" de Pior Filme, Pior Sequência ou Remake, e Aamir Khan ganharia o de Pior Ator.

Devido ao imenso sucesso nas bilheterias de Dhoom 3, volta e meia surgem boatos de que estaria sendo produzido um Dhoom 4 - os primeiros ainda em 2014, quando foi noticiado que Akshay Kumar seria o vilão, o que foi desmentido pela Yash Raj em uma declaração oficial. Em 2018, seria a vez de Shah Rukh Khan ser noticiado como o vilão, o que seria desmentido pelo próprio ator. No mesmo ano, estrearia Thugs of Hindostan, filme épico também escrito e dirigido por Acharya, e que também contava com Bachchan, Aamir Khan e Katrina Kaif no elenco; aí seria a vez de os jornais noticiarem que a produção de Dhoom 4 dependeria do sucesso desse filme, o que Aditya Chopra desmentiu dizendo que isso não fazia o menor sentido. Ano que vem, Dhoom 3 completa dez anos de lançamento, e, daqui a dois anos, Dhoom completa vinte, o que, aliado ao fato de que Bachchan já passou dos 45 anos, parece indicar que Aditya Chopra está satisfeito com o fato de que Dhoom é uma trilogia, e não está pensando em novos vilões ousados para serem detidos por Jai Dixit e Ali Akbar Fateh Khan.
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domingo, 15 de maio de 2022

Escrito por em 15.5.22 com 0 comentários

Rani Mukerji

Quando eu comecei a assistir filmes indianos no Prime Video, não sabia muito bem o que estava fazendo, e não comecei pelos de Bollywood. A maioria dos que eu assistia era marata ou punjabi, e só comecei os de Bollywood quando já fazia uns seis meses que eu estava assistindo. Por causa disso, os atores que eu conhecia e identificava eram todos, digamos, regionais, como Sonalee Kulkarni, Sai Tamhankar, Gippy Grewal e Diljit Dosanjh; esse foi um dos motivos, inclusive, que me levaram a eleger Sonalee como minha favorita e escrever um post sobre ela (pensei em escrever um sobre Dosanjh também, talvez um dia).

O catálogo do Prime Video, porém, tem muito mais filmes de Bollywood do que regionais - atualmente, por exemplo, eles só têm dois filmes e uma série com Sonalee no catálogo, até os outros que eu tinha assistido estão marcados como "indisponível para sua região" - o que está fazendo com que eu veja muito mais filmes com atores como SRK, Kajol, Saif Ali Khan e Kareena Kapoor do que com os que eu conheci primeiro, o que pouco a pouco está mudando minha lista de favoritos. No momento, no topo dessa lista, está Rani Mukerji, que vai ganhar um post hoje.

Rani Mukerji nasceu em 21 de março de 1978 em Mumbai, que na época se chamava Bombaim, e foi a segunda filha do diretor e produtor de cinema Ram Mukherjee com a cantora Krishna Mukherjee, nascida Krishna Roy. O irmão mais velho de Rani, Raja Mukherjee, também é diretor e produtor de cinema; vale citar como curiosidade que, em hindi, raja significa "rei", e rani significa "rainha". Ram Mukherjee é primo de Shomu Mukherjee, também diretor e produtor de cinema e pai da atriz Kajol, o que faz com que Rani e Kajol sejam primas de seguindo grau e que Rani seja membro da famosa família Mukherjee-Samarth, uma das mais poderosas de Bollywood, na qual todo mundo é diretor, produtor, ator ou tem algum outro cargo na indústria cinematográfica indiana - antes que vocês estranhem, já que o hindi não é originalmente escrito com o nosso alfabeto, tanto Mukherjee quanto Mukerji são grafias aceitas para o sobrenome da família (e ambas são pronunciadas da mesma forma, "mucardjí"), e aparentemente cada um escolhe a que gosta mais; a irmã de Kajol, por exemplo, assim como Rani, prefere a grafia Mukerji, usando o nome Tanisha Mukerji.

A primeira oferta que Rani receberia para um papel seria aos 16 anos, em 1994, quando o diretor Hamid Ali Khan a convidaria para protagonizar seu filme Aa Gale Lag Jaa ("venha e me abrace"), um thriller policial cheio de cenas românticas. Apesar de já ter praticamente nascido com uma profissão garantida, na adolescência Rani não queria ser atriz, e, durante um tempo, pensaria em ser dançarina, se especializando na dança clássica indiana Odissi; oficialmente, ela declarava que já havia muitas atrizes em sua família e ela queria fazer algo diferente, mas, em seu íntimo, ela temia não ter a aparência e o porte necessários para brilhar em Bollywood, devido à sua altura (1,56 m), por sempre achar que estava fora do peso e brigando com a balança, e por causa de sua voz rouquinha - que hoje, ironicamente, é considerada uma de suas características distintivas e adorada por seus fãs. Ela recusaria o papel, sendo inclusive parabenizada por seu pai, que acreditava que ela era jovem demais para esse tipo de filme.

Quando Rani tinha 18 anos, porém, receberia uma nova oferta, mais uma vez para protagonista (e tem gente que diz que sobrenome não ajuda), no drama Raja Ki Aayegi Baraat ("os homens do rei estão chegando"), dirigido por Ashok Gaikwad. Ainda em dúvida, ela decidiria aceitar a sugestão de sua mãe, para que ela aceitasse alguns papéis para ver se gostava de atuar, e fizesse da atuação uma carreira secundária enquanto cursava a universidade - Rani se formaria em economia doméstica pela Universidade para Mulheres Shreemati Nathibai Damodar Thackersey. Ela aceitaria o conselho e faria sua estreia no cinema no papel de uma jovem professora que sonha com um romance perfeito que culmine em um casamento grandioso, e acaba se envolvendo com um desajustado filho de um milionário. Ram Mukherjee acompanharia as gravações e ficaria muito impressionado com o talento da filha - que, após aceitar o papel, faria um treinamento relâmpago na escola de atuação Roshan Taneja, uma das mais famosas de Bollywood - e a escalaria também para protagonizar o filme que ele estava rodando naquele ano, e que ainda não tinha atriz principal, Biyer Phool ("flores de casamento"), um drama familiar falado em bengali - que Rani não falava, tendo de ser dublada - e com distribuição restrita ao estado de Bengala Ocidental.

Por coincidência, tanto Biyer Phool quanto Raja Ki Aayegi Baraat estreariam no mesmo dia, 18 de outubro de 1996. O filme bengali faria um relativo sucesso, mas o de Bollywood seria um gigantesco fracasso; a atuação de Rani, entretanto, seria bastante elogiada pela crítica, e lhe renderia um prêmio de Reconhecimento Especial na cerimônia do Screen Awards, premiação na qual os melhores são escolhidos por membros dos próprios estúdios de Bollywood. Esse prêmio despertaria o bichinho da atuação dentro de Rani, e, quando ela visse o sucesso que sua prima Kajol estava fazendo com Dilwale Dulhania Le Jayenge ("quem tiver o coração mais puro fica com a noiva"), lançado um ano antes, decidiria se tornar atriz em tempo integral.

O primeiro papel que ela aceitaria depois dessa decisão seria o da namorada de um jovem boxeador interpretado por Aamir Khan em Ghulam ("escravo"), dirigido por Vikram Bhatt e remake de outro filme do próprio Bhatt, Kabzaa ("captura"), de 1988. O filme seria um grande sucesso de público e crítica, e uma das músicas de sua trilha sonora, Aati Kya Khandala ("venha para Khandala"), composta pela dupla Jatin-Lalit e cantada por Khan e Alka Yagnik, se tornaria um hit instantâneo e é hoje considerada uma das músicas mais famosas da história de Bollywood; seu clipe seria tão executado na TV indiana que Rani ganharia o apelido de Khandala Girl, o que contribuiria para torná-la conhecida em todo o país. Curiosamente, Bhatt, durante a pós-produção, não gostou da forma como a voz de Rani soava no filme, e contratou a atriz Mona Ghosh Shetty para dublá-la, o que foi um duro golpe em sua autoestima.

Felizmente, o convite seguinte que Rani receberia seria para interpretar a sensual, popular e extrovertida Tina - tudo o que ela achava que ela mesma não era - no gigantesco sucesso Kuch Kuch Hota Hai ("alguma coisa está acontecendo"), no qual contracenaria com Shah Rukh Khan e Kajol; Rani participa somente da primeira metade do filme, com Tina sendo a melhor amiga de Anjali (Kajol), se casando com Rahul (SRK), por quem a amiga é secretamente apaixonada, e morrendo pouco após dar a luz a uma menina, que ela decide também chamar de Anjali (Sana Saeed), à qual dá a missão, através de cartas que ela deve ler uma por ano a cada aniversário seu, de reunir novamente o casal que ela involuntariamente separou. O filme seria escrito e dirigido por Karan Johar, que escreveu o papel para a atriz Twinkle Khanna, o oferecendo a Rani por sugestão de SRK quando Khanna o recusou; Johar também pensaria em dublar Rani, mas seria convencido também por SRK a manter sua voz original. No fim, a atuação de Rani seria elogiadíssima pelos críticos, e lhe renderia um Filmfare Award, uma das principais premiações do cinema indiano, de Melhor Atriz Coadjuvante.

Ainda em 1998, Rani receberia um novo convite de Hamid Ali Khan, dessa vez para interpretar uma noiva presa a um casamento infeliz em Mehndi, e, no ano seguinte, estaria na comédia de ação Hello Brother, além de fazer uma participação especial no clipe da música Kaali Naagin Ke Jaisi ("como uma serpente negra"), trilha sonora do filme Mann ("psiquê"), no qual voltaria a contracenar com Aamir Khan. Infelizmente, nenhum desses filmes seria um sucesso comercial ou de crítica, o que faria com que o interesse dos estúdios por ela diminuísse, e ela não estivesse em nenhum filme em 1999.

Em 2000, ela estaria em nada menos que seis filmes, mas em nenhum como protagonista. Ela começaria o ano com Badal ("nuvem") e Bichhoo ("escorpião"), curiosamente ambos estrelados por Bobby Deol e ambos versões indianas de filmes estrangeiros, o primeiro de Inimigo Íntimo, de 1997, com Harrison Ford e Brad Pitt, o segundo de O Profissional, de 1994, dirigido por Luc Besson, com Jean Reno e Natalie Portman; ambos seriam fracassos de bilheteria, e em ambos os críticos diriam que Rani não deu tudo de si. Em seguida ela faria as comédias Hadh Kar Di Aapne ("você passou dos limites"), no papel de uma detetive contratada por uma mulher que desconfia que seu marido a está traindo, sem saber que ele também contratou um detetive (interpretado pelo famoso comediante indiano Govinda) por desconfiar que ela o está traindo; e Kahin Pyaar Na Ho Jaaye ("cuidado para não se apaixonar"), versão indiana estrelada por Salman Khan de Afinado no Amor, de 1998, com Adam Sandler e Drew Barrymore. Rani voltaria a contracenar com Salman Kahn na comédia romântica Har Dil Jo Pyar Karega ("todo coração que ama"), versão indiana com papéis trocados de Enquanto Você Dormia, de 1995, com Sandra Bullock, na qual Rani fazia papel de uma moça em coma e Khan o do rapaz que a salvou de ser atropelada por um trem e fingiu ser seu noivo, com Preity Zinta fechando o triângulo amoroso no papel que no filme norte-americano foi de Bill Pullman. Apesar de sua personagem passar a maior parte do filme em coma, Rani seria indicada a mais um Filmfare Award de Melhor Atriz Coadjuvante, que perderia para a lendária Jaya Bachchan.

Mas o principal papel de Rani em 2000 seria em Hey Ram, dirigido, produzido e estrelado por Kamal Haasan. O filme é uma versão parcialmente ficcional do assassinato de Mahatma Ghandi, e originalmente seria filmado em tâmil, mas acabaria se tornando uma Produção em Múltiplos Idiomas, algo que não é raro no cinema indiano atual e não era tão incomum no cinema norte-americano da década de 1930, e consiste em rodar o mesmo filme em múltiplos idiomas simultaneamente, usando os mesmos cenários e o mesmo elenco, parte do elenco do original, ou um elenco totalmente diferente; o exemplo mais famoso de Hollywood é Drácula, da Universal, de 1931, que teve as versões em inglês e espanhol filmadas simultaneamente usando os mesmos cenários mas elencos diferentes - no caso de Hey Ram, o filme acabaria tendo também o mesmo elenco, e sendo filmado simultaneamente em tâmil e hindi. Rani interpreta uma professora bengali que é estuprada e morta durante os protestos em Calcutá; para maior realismo, ela atuaria sem nenhuma maquiagem, o que foi considerado bastante corajoso pelos críticos. Hey Ram seria um fracasso de bilheteria, mas aclamado pela crítica, e escolhido o representante da Índia na disputa pelo Oscar de Melhor Filme em Língua Estrangeira.

Em 2001, Rani continuaria sendo coadjuvante, e em papéis de cada vez menos relevância: no drama Chori Chori Chupke Chupke ("secretamente e furtivamente"), ela voltaria a fazer um triângulo amoroso com Salman Khan e Preity Zinta como uma esposa que é trocada pela amante por não conseguir engravidar, em um papel muito apagado, com Zinta tendo muito mais tempo de tela que ela. Em outro drama, Bas Itna Sa Khwaab Hai ("apenas um pequeno sonho"), ela seria o interesse amoroso do personagem de Abhishek Bachchan, um rapaz do interior que vai a Mumbai estudar na universidade, e no policial Nayak ("herói"), seria a namorada de Anil Kapoor, que interpreta um cameraman que grava acidentalmente um político se envolvendo em um ato de corrupção e passa a ser perseguido. Ela fecharia o ano participando do épico familiar de três horas e meia Kabhi Khushi Kabhie Gham ("às vezes há alegria, às vezes há tristeza"), no papel da namorada do personagem de SRK, a qual ele abandona para se casar com a personagem de Kajol. Todos esses papéis levariam a um consenso na crítica de que, após Kuch Kuch Hota Hai, Rani se tornaria um talento desperdiçado em personagens irrelevantes.

Isso começaria a mudar em 2002, quando ela assinaria um contrato para gravação de três filmes como protagonista com o estúdio Yash Raj Films. O primeiro, Mujhse Dosti Karoge! ("seja meu amigo!"), escrito por Aditya Chopra, no qual ela fazia um triângulo amoroso com Hrithik Roshan e Kareena Kapoor, seria mais um grande fracasso de bilheteria, assim como duas outras comédias que ela protagonizaria naquele ano por outros estúdios, em ambas contracenando com Govinda, Pyaar Diwana Hota Hai ("o amor é louco"), no qual ela fazia a moça pela qual o personagem dele, que era analfabeto, ingênuo e facilmente manipulável, se apaixonava, e Chalo Ishq Ladaaye ("vamos nos apaixonar"), no qual ela interpretava uma atriz de Bollywood e ele seu fã número 1, convencido por ela a matar seu namorado (Sanjay Suri). Mas aí, em dezembro, viria seu segundo filme pela YRF, Saathiya ("companheiro"). Refilmagem do filme Alaipayuthey ("as ondas estão vindo"), Saathiya é um dramalhão daqueles bem choroso, no qual Rani e Vivek Oberoi interpretam um casal apaixonado, mas que vive um casamento cheio de problemas conjugais e muitas brigas. O filme seria um sucesso estrondoso - com orçamento de 75 milhões de rúpias, renderia 291 milhões - e renderia a Rani uma indicação ao Filmfare Award de Melhor Atriz, que ela não ganharia - mas sua interpretação seria considerada tão poderosa que ela acabaria levando um prêmio especial, de "Melhor Atriz Escolhida pelos Críticos".

2003 pareceria ser mais um ano morno, com Rani participando de Chori Chori ("silenciosamente"), refilmagem de Como Agarrar um Marido, de 1992, com Steve Martin e Goldie Hawn, no qual contracenava com Ajay Devgn, o marido de Kajol, substituindo Kareena Kapoor, que teria de desistir do papel por conflito de agenda; Calcutta Mail, suspense no qual ela interpretava uma escritora que está fazendo pesquisa para seu novo livro e acaba se envolvendo com um homem misterioso interpretado por Anil Kapoor; e fazendo duas participações especiais, em um dos números musicais de Kal Ho Naa Ho ("o amanhã pode nunca chegar"), dirigido por Johar e estrelado por SRK e Zinta; e como a namorada de um militar no épico LOC: Kargil, que retratava a guerra entre a Índia e o Paquistão pelo controle da Caxemira em 1999. Mas nesse ano ela também estaria em Chalte Chalte ("a caminho"), último filme da Dreamz Unlimited, produtora fundada por SRK, que também o protagonizava; as publicações especializadas da época apontavam Aishwarya Rai como a estrela do filme, e noticiaram que ela foi desligada após brigar com seu então namorado Salman Khan no set de filmagem, com SRK sugerindo Rani para substituí-la, mas, em entrevistas posteriores ao lançamento do filme, SRK diria que Rani sempre havia sido sua primeira escolha para o papel. Chalte Chalte seria mais um grande sucesso, e renderia a Rani mais uma indicação ao Filmfare Award de Melhor Atriz, sendo considerado pela crítica como responsável por seu retorno ao primeiro time de Bollywood.

Em 2004 Rani meteria os dois pés na porta, se tornando a única atriz da história do cinema indiano ao ganhar o Filmfare Award de Melhor Atriz e o de Melhor Atriz Coadjuvante na mesma edição da premiação. O de Coadjuvante ela ganharia por Yuva ("juventude"), sobre três rapazes de diferentes classes sociais que vivem em Kolkata, cujas vidas se entrelaçam após um acidente de trânsito. Rani viveria uma dona de casa que era abusada pelo marido (Abhishek Bachchan), e diria ter se baseado em uma das moças que trabalhavam em sua casa, que uma vez lhe confessou também ser abusada; ela prestaria atenção nos modos e maneirismos da moça, e tentaria imitá-los com sua atuação. Em entrevistas a respeito do filme, ela declararia esperar que seu papel servisse para encorajar outras mulheres indianas que sofriam abusos nas mãos de seus maridos a denunciá-los. A atuação de Rani seria aclamada pela crítica, que a elegeria como a melhor do elenco, e diria que, mesmo o papel sendo tão exigente, ela corresponderia ao que se esperava em todos os aspectos.

Já o prêmio de Melhor Atriz ela receberia por Hum Tum ("eu e você"), seu terceiro filme pela YRF, na qual ela fazia par romântico com Saif Ali Khan, que interpretava um cartunista bon vivant. Ele se interessa por ela, mas ela, uma mulher forte e independente, não tem o menor interesse em se envolver com alguém como ele; os dois passam, então, por várias idas e vindas ao longo do filme, até descobrirem que, na verdade, têm muito em comum. Hum Tum seria um dos filmes de maior sucesso da YRF até então - com orçamento de 85 milhões de rúpias, renderia quase 427 milhões - e, além do Filmfare Award de Melhor Atriz para Rani, renderia um de Melhor Diretor para Kunal Kohli, um de Melhor Comediante para Ali Khan, um de Melhor Playback Singer Feminina para Alka Yagnik - que cantava a música-tema do filme, também chamada Hum Tum, que se tornaria uma das mais tocadas no ano e uma das mais famosas de Bollywood - e um National Film Award, o prêmio mais importante do cinema indiano, de Melhor Ator para Ali Khan. Curiosamente, apesar de ser uma comédia romântica sem nenhuma cena de espionagem, Hum Tum é considerado parte oficial do YRF's Spy Universe, uma espécie de Universo Cinematográfico no qual vários filmes de ação da YRF são ambientados.

Rani ainda faria mais um filme pela YRF em 2004, dessa vez como coadjuvante, no papel de uma advogada que defende um militar indiano (SRK) que se apaixona por uma moça paquistanesa (Zinta) e é acusado de espionagem em Veer-Zaara, e que se tornaria a maior bilheteria do ano na Índia, rendendo nada menos que 976,4 milhões de rúpias e uma segunda indicação para Rani ao Filmafare Awards de Melhor Atriz Coadjuvante - infelizmente, ela só podia ganhar um. Curiosamente, o roteiro previa que o advogado fosse um homem, mas SRK, que parece ser uma espécie de padrinho de Rani para conseguir bons papéis, convenceria a YRF de que o filme seria mais interessante se fosse uma mulher, e a sugeriria para o papel; Yash Chopra, dono do estúdio e diretor do filme, que já havia se impressionado com Rani em Saathiya, aceitaria a sugestão e ordenaria a mudança.

Rani começaria 2005 mais uma vez fazendo cair o queixo dos críticos ao interpretar uma moça cega e surda que recebe a ajuda de um alcóolatra (Amitabh Bachchan, uma das maiores lendas de Bollywood, com quem ela já havia contracenado em Kabhi Khushi Kabhie Gham) para aprender a se comunicar em Black, dirigido por Sanjay Leela Bhansali. O filme se tornaria o quinto da história (após Guide, de 1965, Devdas, de 2002, e os já citads Dilwale Dulhania Le Jayenge Kuch Kuch Hota Hai) a ganhar os quatro prêmios principais do Filmfare Awards (Melhor Filme, Melhor Diretor, Melhor Ator e Melhor Atriz), além de estabelecer um recorde de 11 estatuetas (somente quebrado em 2019, quando Gully Boy levaria 13) e de ganhar dois National Film Awards, o de Melhor Filme em Hindi e de Melhor Ator. Rani não somente ganharia seu segundo Filmfare Award de Melhor Atriz como se tornaria a única atriz na história a ganhar, na mesma cerimônia, o de Melhor Atriz Escolhida pelos Críticos - que, aparentemente, acharam que um prêmio só não seria suficiente por sua atuação, considerada de outro mundo. Para se preparar para o papel, que entraria para a lista das 80 Interpretações mais Icônicas do Cinema Indiano da Filmfare, Rani aprenderia a língua indiana de sinais no Instituto Helen Keller, em Mumbai.

Para quem achava que Rani já tinha gastado toda sua atuação, ela ainda receberia uma segunda indicação ao Filmfare Award de Melhor Atriz de 2005 pelo papel de uma trambiqueira em Bunty Aur Babli ("Bunty e Babli"), mais uma produção da YRF, na qual ela contracenava novamente com Amitabh e Abhishek Bachchan (que são pai e filho; Abhishek é filho de Jaya Bachchan, que é esposa de Amitabh), e que seria a segunda maior bilheteria do ano na Índia. Seu filme seguinte, Paheli ("a charada"), remake do filme Duvidha, de 1973, no qual ela contracenava mais uma vez com SRK, no papel de uma moça pela qual um fantasma se apaixona, seria um fracasso de bilheteria, mas aclamado pela crítica, que descreveria sua atuação como perfeita, e seria escolhido como representante da Índia na disputa pelo Oscar de Melhor Filme em Língua Estrangeira. Ainda em 2005, ela faria uma participação em Mangal Pandey: The Rising, filme sobre a vida do soldado indiano que iniciou a Rebelião de 1857, no papel de uma prostituta pela qual Pandey (interpretado por Aamir Khan) se apaixona.

Em 2006, Rani receberia um convite da cineasta Mira Nair para participar do filme britânico The Namesake, mas recusaria para trabalhar mais uma vez com Johar, SRK, Zinta e os dois Bachchan homens em Kabhi Alvida Naa Kehna ("nunca diga adeus"), que se tornaria o filme de Bollywood com maior bilheteria fora da Índia em todos os tempos, no qual ela interpretava uma órfã que se casa com seu melhor amigo de infância (Abhishek Bachchan) e acaba tendo um caso com um jogador de futebol que tem de abandonar a carreira após sofrer um acidente (SRK). Apesar de sua personagem ser alvo do ódio das plateias, sua atuação seria mais uma vez elogiadíssima, e lhe renderia mais uma indicação ao Filmfare Award de Melhor Atriz. Também em 2006, ela estaria em Baabul (palavra usada para nomear o amor de um pai por seus filhos), um drama familiar no qual ela contracenaria mais uma vez com Amitabh Bachchan, que dividiria a crítica e não seria bem sucedido nas bilheterias.

Depois dessa, digamos, sequência vitoriosa, a carreira de Rani começaria a entrar em declínio. Ela começaria 2007 fazendo Ta Ra Rum Pum, no papel da esposa de um piloto da Nascar (Saif Ali Khan) que fica com medo de correr após um acidente; esse seria o primeiro papel no qual ela retrataria uma mãe, e se diria bastante animada com a experiência, se inspirando em sua própria mãe para compor a personagem. O filme seria um sucesso de público, mas massacrado pela crítica, que consideraria o roteiro fraco e os personagens unidimensionais. Em seguida, ela estaria no drama Laaga Chunari Mein Daag ("meu véu está manchado"), no papel de uma jovem que tem de se prostituir para sustentar a família, que lhe renderia mais uma indicação ao Filmfare Award de Melhor Atriz; apesar disso, o filme seria bastante criticado, com os críticos sendo unânimes em considerar que a atuação de Rani é a única coisa que vale a pena nele, e não teria boa bilheteria.

Em seu filme seguinte, Saawariya ("meu amado"), ela voltaria a interpretar uma prostituta, dessa vez como coadjuvante e narrando o caso de amor entre os protagonistas, interpretados por Ranbir Kapoor (filho de Rishi Kapoor com Neetu Singh) e Sonam Kapoor (filha de Anil Kapoor). O filme seria bastante aguardado por ser a estreia de ambos, que gerariam expectativa por serem a segunda geração de duas famílias de atores famosos, por ser o primeiro filme indiano produzido por um estúdio de Hollywood (Sony Pictures), e por ser o último filme de duas grandes atrizes de Bollywood que faleceram durante sua produção, Zohra Sehgal e Begum Para; ele acabaria sendo considerado um balde de água fria, extremamente criticado, e um desastre de bilheteria - com orçamento de 310 milhões de rúpias, renderia apenas 390 milhões. A atuação de Rani, porém, mais uma vez se destacaria, sendo considerada "divina" pelos críticos, e lhe renderia mais uma indicação ao Filmfare Award de Melhor Atriz Coadjuvante. A ser perguntada porque aceitaria dois papéis seguidos "tão semelhantes", ela argumentaria que as personagens não tinham nada a ver uma com a outra, com a de Laaga Chunari Mein Daag sendo prostituta por necessidade e a de Saawariya por opção, inclusive gostando do que fazia.

A série de insucessos faria com que os convites rareassem, e as duas aparições seguintes de Rani seriam participações especiais em números musicais, dos filmes Om Shanti Om e Rab Ne Bana Di Jodi ("um par criado por Deus"), ambos estrelados por SRK. Ela acabaria aceitando um papel em uma comédia infantil, Thoda Pyaar Thoda Magic ("um pouco de amor, um pouco de mágica"), como um anjo que vem à Terra ajudar quatro crianças cujos pais foram mortos pelo milionário Ranbir Talwar (Saif Ali Khan) em um acidente automobilístico, com o juiz determinando que Ranbir deveria criá-las então. O filme seria mais um fracasso de crítica e público, com os críticos declarando que nem Rani conseguiu salvá-lo. Esse novo fracasso faria com que os convites para Rani desaparecessem, e que ela perdesse vários contratos de publicidade.

Após aparecer como ela mesma em uma pequeniníssima ponta no filme Luck by Chance, de 2009, Rani decidiria se submeter a um pedido da YRF e fazer algo com o qual ela nunca havia concordado antes: perder peso para fazer papel de gostosona. E ela só aceitaria porque seria para uma comédia na qual ela passaria a maior parte do tempo vestida de homem: Dil Bole Hadippa! ("o coração grita hadippa!, que é uma expressão de felicidade em hindi usada, especialmente, por torcedores durante partidas esportivas), também de 2009, no qual ela interpreta uma jovem artista circense de uma cidade do interior que sonha em ser jogadora de críquete, mas sua única chance de conseguir uma vaga no time é fingindo ser um homem - o que se complica quando ela se apaixona pelo treinador (Shahid Kapoor), que acaba se tornando o melhor amigo de sua "versão masculina". O filme seria um novo fracasso de público e crítica, com alguns críticos declarando que ela não conseguiria ser engraçada nem como mulher, nem como homem.

Já com mais de 30 anos e em uma encruzilhada na carreira, Rani aceitaria um convite para ser jurada no reality show Dance Premier League, apenas para se manter em visibilidade, enquanto tomava uma decisão arriscada, mas que, no futuro, se mostraria extremamente acertada: ela evitaria tanto quanto possível os papéis tradicionais em filmes de drama e romance que a tornaram conhecida até então, dando preferência a filmes nos quais pudesse interpretar mulheres fortes e independentes. Isso faria com que ela passasse todo o ano de 2010 sem gravar um único filme, mas também com que voltasse ao estrelato em 2011 em grande estilo: em No One Killed Jessica, inspirado na história real do assassinato da modelo indiana Jessica Lal em 1999, escrito e dirigido por Raj Kumar Gupta, Rani interpretaria uma jornalista que ficou obcecada pelo caso, investigando-o até que os verdadeiros culpados fossem punidos, nada menos que oito anos depois do crime, o que levaria a uma grande reformulação no sistema judiciário e penal indianos; a personagem de Rani é fictícia, e representa um amálgama de vários jornalistas que cobriram o caso. O filme ficaria famoso por não ter nenhum homem em papel de destaque - a protagonista é Vidya Balan no papel de Sabrina Lal, a irmã de Jessica, que empreende uma verdadeira cruzada para tentar colocar os assassinos na cadeia - e renderia a Rani seu terceiro Filmfare Award de Melhor Atriz Coadjuvante. O sucesso do filme também renderia a Rani um convite para repetir o papel da jornalista em um dos episódios de CID, a mais famosa série policial da TV indiana, no ar desde 1998.

Ser mais criteriosa também faria com que Rani, apesar de voltar a receber muitos convites, fizesse bem menos filmes nos anos seguintes - em 2012, por exemplo, ela faria apenas dois. O primeiro seria mais um grande fracasso de público e crítica, Aiyyaa (expressão que significa algo como "minha nossa"), no qual ela interpretava uma bibliotecária com olfato super desenvolvido que se apaixonava por um artista plástico (Prithviraj Sukumaran) que não lhe dava a menor bola. O segundo, porém, seria um grande sucesso: Talaash ("a busca"), no qual ela interpretava a esposa de um detetive (Aamir Khan) que se envolve com uma prostituta (Kareena Kapoor) enquanto investiga uma série de assassinatos misteriosos; o detalhe é que o papel de Rani era de uma mãe em luto, já que, alguns anos antes, o filho do casal havia morrido em um acidente, após o qual o casal se tornou distante, o detetive amargurado, e a mãe inconformada e obcecada por encontrar uma razão para sua perda. Talaash renderia a impressionante marca de 1,74 bilhão de rúpias, se tornando o oitavo filme mais rentável da história da Índia - e um dos mais caros, já que seu orçamento foi de 500 milhões de rúpias - e a interpretação poderosa de Rani lhe renderia mais uma indicação ao Filmfare Award de Melhor Atriz Coadjuvante.

Em 2013, Rani participaria de apenas um projeto, Bombay Talkies, um filme composto por quatro episódios independentes, que tinham como única coisa em comum suas histórias serem ambientadas em Mumbai. O episódio de Rani seria dirigido por Johar, e nele ela interpretaria uma jornalista que, ao investigar uma história, descobriria acidentalmente que seu marido (Randeep Hooda) é secretamente homossexual. O filme seria um sucesso moderado, mas a atuação de Rani mais uma vez seria extremamente elogiada pelos críticos; vale citar que Bombay Talkies seria exibido no Festival de Cannes, se tornando um dos poucos filmes indianos a serem escolhidos para a mostra.

Em 2014, Rani interpretaria uma das personagens mais famosas de sua carreira, a policial Shivani Shivaji Roy, que tenta desbaratar uma quadrilha de traficantes de meninas ligada a uma rede de prostituição infantil em Mumbai em Mardaani ("corajosa"). Ela se prepararia para o papel passando seus dias em uma delegacia de Mumbai e acompanhando os policiais em vários casos nas ruas, além de treinar krav magá; o resultado seria uma interpretação que, sem deixar de mostrar o lado terno da policial, que se envolve com a investigação após descobrir que uma das vítimas é uma amiga de sua filha, transborda força física e psicológica, e que surpreenderia os críticos, acostumados a vê-la no papel da mocinha sofredora. Dirigido por Pradeep Sarkar, Mardaani seria um grande sucesso de público e crítica, e renderia a Rani sua oitava indicação ao Filmfare Award de Melhor Atriz.

Também em 2014, ela daria um novo passo em sua vida pessoal: após um número jamais especificado de anos de namoro, já que ela sempre manteve sua vida pessoal separada da profissional e longe do escrutínio da mídia, Rani se casaria com o produtor de cinema Aditya Chopra, filho de Yash Chopra, em uma cerimônia particular na Itália. O namoro e casamento de Rani seriam tema de múltiplas reportagens fervorosas das revistas de fofoca indianas, embora tanto ela quanto ele sempre tenham se recusado a tornar públicos detalhes do relacionamento. No ano seguinte, ela daria luz à sua primeira (e, até agora, única) filha, Adira. Após o nascimento de Adira, ela decidiria dar um tempo em sua carreira de atriz para se dedicar à família, e ficaria quatro anos sem se envolver com nenhum projeto; inicialmente ela decidiria ficar cinco, mas seria convencida a deixar sua "aposentadoria" por seu marido, que a ofereceria o papel principal em Hichki (a onomatopeia indiana para um soluço).

Baseado na autobiografia do professor e pesquisador norte-americano Brad Cohen, portador de uma forma severa da Síndrome de Tourette, Hichki, de 2018, traz Rani como uma jovem de Mumbai que sonha em ser professora, mas nunca é contratada por ter Tourette. Ela acaba conseguindo um emprego de professora substituta na mesma escola onde estudou, mas para pegar a pior turma de todas, formada por alunos que moram em uma favela e não têm interesse nenhum nos estudos. Para se preparar para o papel, ela passaria horas conversando com Cohen, e treinaria para que os tiques nervosos da personagem parecessem espontâneos, e não ensaiados - o diretor Siddharth P. Malhotra daria liberdade para que ela fizesse os tiques sempre que quisesse, sem que os momentos nos quais eles apareciam estivessem previstos no roteiro. Com orçamento de 200 milhões de rúpias, Hichki renderia 591 milhões na Índia, mas 2,15 bilhões quando somada a bilheteria internacional, a maior parte desse valor vindo da China, país onde as produções de Bollywood não costumam ser grandes sucessos. A interpretação de Rani seria mais uma vez aclamada, e lhe renderia mais uma indicação ao Filmfare Award de Melhor Atriz.

Ainda em 2018, Rani faria uma participação como ela mesma em Zero, o controverso filme no qual SRK interpreta um anão. Em 2019, ela voltaria a interpretar Shivani Shivaji Roy em Mardaani 2, escrito e dirigido por Gopi Puthran, que foi o roteirista do primeiro filme. Dessa vez, Roy, transferida para o Rajastão e promovida a Superintendente de Polícia na cidade de Kota, investiga uma série de assassinatos brutais dos quais as vítimas são sempre jovens bonitas. O assassino é o sociopata Sunny (Vishal Jethwa), que, após ver Roy na televisão, decide fazer com ela um jogo de gato e rato. Rani mais uma vez treinaria pesado para o papel, mas manteria a ternura que Roy tinha no primeiro filme, mostrando-a agora conturbada por estar longe de sua família e por enfrentar um criminoso tão cruel. Essa interpretação lhe renderia sua décima indicação ao Filmfare Award de Melhor Atriz, número que poucas atrizes de Bollywood já conseguiram alcançar. O filme também seria mais um grande sucesso de bilheteria - com orçamento de 210 milhões de rúpías, renderia 1,7 bilhão - o que faria com que a YRF já encomendasse uma sequência, que deveria ter suas filmagens iniciadas em 2020, mas seria adiada por causa da pandemia.

Também devido à pandemia, 2020 não teria nenhum lançamento com Rani nos cinemas. Ela voltaria às telas, interpretando mais uma vez a trambiqueira Babli, em 2021, com Bunty aur Babli 2. Seu mais recente trabalho, que estreará em breve, é Mrs. Chaterjee vs Norway, filmado na Estônia e inspirado na história real de uma mãe indiana que teve de recorrer à justiça recuperar seus filhos, apreendidos pelo equivalente norueguês do Conselho Tutelar e entregues à adoção sem seu consentimento.

Assim como outras celebridades indianas, Rani é envolvida com várias causas sociais. Ela é uma das embaixadoras da Shiksha, ONG dedicada à educação infantil, e fundadora do Stroke Treatment Fund, que arrecada fundos para auxiliar no tratamento de pacientes que sofrem derrames. Ela costuma comemorar seu aniversário fazendo visitas-surpresa; em 2004 e 2014 a comemoração foi junto a soldados aquartelados no Rajastão, próximo à fronteira com o Paquistão, e em 2006 ela celebrou junto com crianças deficientes que estudavam no Instituto Helen Keller. Um ano antes, ela participaria de um show beneficente, ao lado de vários outros atores e atrizes de Bollywood, cuja renda foi revertida para o Centro Nacional de Promoção e Emprego para Pessoas Deficientes. Em 2014, devido à sua participação em Mardaani, Rani seria convidada para um jantar que arrecadaria fundos para combater o abuso infantil e ajudar suas vítimas, na qual foi homenageada pelo Príncipe Charles.

Tendo começado como "a prima da Kajol" e passado por uma fase "bonita, mas esquisita", na qual as revistas especializadas em cinema chamavam mais atenção para o fato de ela ser "gordinha, baixinha e ter a voz de quem parece que está se recuperando de uma gripe forte" do que para a qualidade de suas atuações, Rani hoje é considerada uma das maiores atrizes de Bollywood, celebrada por seu talento, versatilidade, e por aceitar sem medo papéis que outras atrizes do primeiro time não querem nem chegar perto - aqueles nas quais as personagens fazem sexo fora do casamento, fumam, bebem, falam palavrões, coisas que ainda são extremamente malvistas na Índia quando feitas por uma mulher. Ela também é conhecida por sua obsessão pelas personagens que interpreta; diretores que trabalharam com ela disseram em entrevistas que ela chegava a se reunir com eles um mês antes do início das gravações, querendo saber tudo sobre as personagens, incluindo detalhes muitas vezes considerados irrelevantes, como "como ela foi criada" e "que tipo de sotaque ela tem" - isso sem falar na extrema dedicação na preparação para o papel, da qual eu citei exemplos ao longo do texto.

O imenso talento de Rani já é reconhecido mundialmente, com ela tendo recebido em 2013 um prêmio especial da Embaixada dos Estados Unidos na Índia por sua contribuição para o cinema indiano; em 2015 um da Universidade de Mumbai por sua contribuição à indústria de Bollywood; em 2017 um do Governo de Maurício por sua contribuição ao cinema como um todo; e em 2018 o prêmio de Excelência em Cinema no Festival Cinematográfico de Melbourne, na Austrália.
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domingo, 20 de março de 2022

Escrito por em 20.3.22 com 0 comentários

SRK & Kajol

O Prime Video me fez fã de filmes indianos. E, como todo fã, eu já escolhi meus preferidos. De um deles, Kuch Kuch Hota Hai, eu gostei tanto que decidi que, na minha lista, ele seria o numero um - e, depois disso, me deu vontade de escrever um post sobre ele. Como não havia muito o que se falar, eu decidi fazer um post duplo, combinando-o com outro do qual gostei muito, e que tem o mesmo casal como protagonista. Enquanto desenvolvia o post, decidi levá-lo em uma outra direção, fazendo-o predominantemente sobre o casal, e falando sobre esses dois filmes no meio do texto. Hoje, portanto, é dia de SRK & Kajol no átomo!

SRK é como o ator Shah Rukh Khan (algumas vezes grafado Shahrukh Khan) costuma ser chamado pela mídia indiana. Nascido em uma família muçulmana em Nova Délhi, em 2 de novembro de 1965, Khan foi o segundo filho de Meer Taj Mohammed Khan, engenheiro que se mudou de Peshawar para Nova Délhi quando ocorreu a Partição, que resultou em parte do território indiano se transformar no Paquistão (com Peshawar ficando do lado paquistanês), após ter lutado ativamente pela independência da Índia, inclusive se filiando e concorrendo a deputado pelo partido chamado Congresso Nacional Indiano, e de Lateef Fatima, filha de um engenheiro que trabalhava para o governo indiano, nascida em Hyderabad, que se mudou para Nova Délhi logo após a independência, quando seu pai foi transferido para lá. Após se casar, Mohammed Khan teria vários negócios próprios, sendo o mais bem sucedido deles um restaurante, o que permitiria à família levar uma vida de classe média alta, inclusive com SRK estudando em um colégio particular católico, o St. Columbia, onde se destacaria como atleta, no hóquei e no futebol.

SRK pretendia ser jogador de hóquei, mas uma lesão faria com que ele tivesse de se afastar dos treinos por seis meses, durante os quais ele substituiria as aulas de educação física pelas de teatro. Ele seria extremamente elogiado por seus professores e colegas, principalmente por suas imitações de atores de Bollywood. Mohammed Khan, que faleceria de câncer em 1981, não via futuro na carreira de ator, e pediria para que SRK procurasse ter também uma profissão com diploma universitário; por causa disso, após concluir o colégio, ele se matricularia na Universidade de Délhi, onde se formaria em economia. Sua paixão, entretanto, era mesmo o teatro, e, paralelamente à universidade, ele tinha aulas no Delhi's Theatre Action Group, com um dos mais prestigiados diretores de teatro da Índia, Barry John. Após concluir a universidade, ele começaria um mestrado em comunicação na Jamia Millia Islamia, universidade islâmica localizada em Nova Délhi; em 1991, contudo, sua mãe faleceria, vítima de complicações de diabetes, e SRK decidiria abandonar o mestrado para cuidar de sua irmã mais velha, Shahnaz Lalarukh, que desenvolveu depressão - os dois moram juntos até hoje, na mansão do ator em Mumbai.

Após a morte de sua mãe, SRK também decidiria se casar com sua namorada de longa data, Gauri Chibber, a quem conheceu na universidade enquanto ele cursava economia e ela estudava moda, e que hoje é a decoradora preferida das estrelas de Bollywood. O casal ainda está junto, e tem três filhos, Aryan, nascido em 1997, Suhana, nascida em 2000, e Abram, nascido de inseminação artificial em uma barriga de aluguel em 2013. Aryan se formou em cinema pela universidade californiana USC, e planeja se tornar roteirista e diretor, enquanto Suhana quer seguir os passos do pai e se tornar atriz, tendo feito sua estreia em 2019 em um curta-metragem. Gauri é de ascendência punjabi e segue o hinduísmo; o casal se casaria em uma cerimônia tradicional hindu, mas SRK não se converteria, ainda professando o islamismo. Segundo ele, seus filhos são livres para seguir qualquer uma das duas religiões, que coexistem em harmonia em sua casa, onde há um altar para os deuses hindus no qual está colocada uma cópia do Corão.

A estreia de SRK como ator não seria no teatro, e sim na televisão, após ele passar em um teste para a série Dil Dariya ("o rio do coração"), que começaria a ser gravada em 1988; atrasos na produção fariam com que outra série, Fauji, na qual ele também atuou, estreasse antes, se tornando sua estreia oficial. Em Fauji ("soldado"), SRK interpretava um jovem tenente durante o treinamento de um grupo recém-alistado de soldados do exército indiano; seu sucesso nessa série faria com que ele fosse convidado para papéis semelhantes em outras séries, em algumas por apenas um episódio, e até lhe renderia um convite para fazer cinema, que ele recusaria por acreditar não estar pronto. Ele só aceitaria fazer cinema após a morte de sua mãe, como uma forma de lidar com o luto; no final de 1991, ele, a esposa e a irmã se mudariam para Mumbai, após SRK assinar contrato para nada menos que quatro filmes.

Seu primeiro papel em Bollywood seria no filme de estreia da famosa atriz Hema Malini como diretora, Dil Aashna Hai ("o coração sabe a verdade"), de 1992, no qual ele interpretava um rapaz que ajudava a namorada, adotada, a descobrir quem era sua verdadeira mãe. O filme seria um sucesso moderado, mas a atuação de Divya Bharti, a protagonista, também estreante em Bollywood, mas vinda de uma carreira no cinema telugo, seria bastante elogiada, bem como a química entre ela e SRK. O segundo filme de SRK seria Deewana ("obessão"), no qual Bharti também era a protagonista, e também dirigido por um estreante, Raj Kanwar. No filme, a personagem de Bharti fica viúva, e logo em seguida o de SRK se apaixona por ela, mas ela reluta em aceitar o relacionamento. Esse filme seria um gigantesco sucesso, e catapultaria tanto SRK quanto Bharti para o estrelato, com ambos ganhando o Filmfare Award, um dos principais prêmios do cinema indiano, de Melhor Ator Revelação e Melhor Atriz Revelação. Infelizmente, em abril de 1993, Bharti cairia da sacada de seu apartamento em Mumbai e faleceria, aos 19 anos; o diretor Sajid Nadiadwala, com quem ela se casou exatos 11 meses antes, chegaria a ser investigado por assassinato, mas a polícia concluiria que a queda foi acidental.

Voltando a SRK, após o sucesso de Deewana, choveriam convites para que ele participasse dos mais variados filmes, com logo seu terceiro sendo seu primeiro como protagonista, Chamatkar ("milagre"), também de 1992, no qual ele interpretava um rapaz recém-formado que tentava realizar o sonho de seu falecido pai de construir uma escola para crianças carentes em seu vilarejo. Ainda em 1992, ele estaria na comédia Raju Ban Gaya Gentleman ("Raju se torna um cavalheiro"), inspirada no filme norte-americano O Segredo do Meu Sucesso. A partir desses dois filmes, para se destacar em meio a outros atores jovens de Bollywood, SRK passaria a sempre atuar como que se ligado na tomada, com todos os seus personagens sendo atléticos e cheios de energia e entusiasmo; ele mesmo sugeriria cenas nas quais os personagens andavam de bicicleta, praticavam snowboarding, viravam cambalhotas, escorregavam pelo corrimão das escadas e outros atos semelhantes. A estratégia daria certo, e logo os roteiristas estariam escrevendo personagens elétricos especialmente para ele.

Mas já em 1993 SRK daria uma guinada em sua carreira, para não ficar marcado como um ator de um personagem só, e passaria a aceitar somente papéis de vilão ou anti-herói. Ele seria um assassino em Baazigar ("o apostador"), um amante que enreda uma mulher num relacionamento abusivo em Darr ("medo"), e faria uma cena de nu frontal em Maya Memsaab ("a ilusão de maya"), algo ousadíssimo no cinema indiano ainda hoje, e impensável naquela época, tanto que a cena seria censurada em quase todas as exibições. Baazigar seria o primeiro filme no qual SRK faria par romântico com Kajol, da qual vamos falar em breve, lhe renderia seu primeiro Filmfare Award de Melhor Ator, e seria um choque para as plateias e os críticos, porque ele era o protagonista, e protagonistas jamais cometiam assassinatos em filmes de Bollywood.

Em 1994, ele faria a comédia romântica Kabhi Haan Kabhi Naa ("às vezes sim, às vezes não"), no papel de um músico apaixonado, atuação considerada por ele mesmo e por muitos críticos como a melhor de sua carreira; ele seria indicado mais uma vez ao Filmfare Award de Melhor Ator, mas perderia para o veterano Nana Patekar - talvez como compensação, receberia um Filmfare Award de "Melhor Ator Escolhido pelos Críticos". No mesmo ano, ele faria mais um amante obsessivo em Anjaam ("consequências"), que lhe renderia um Filmfare Award de Melhor Vilão. Em 1995, ele faria sete filmes, incluindo o curioso filme de ação Karan Arjun, no qual SRK, que mais uma vez fazia par romântico com Kajol, e Salman Khan (da série Tiger) eram dois estranhos que, na verdade, eram a reencarnação de dois irmãos traídos e assassinados no passado. Karan Arjun seria um enorme sucesso de crítica e público, se tornando a segunda maior bilheteria do ano na Índia, atrás apenas de Dilwale Dulhania Le Jayenge.

Dilwale Dulhania Le Jayenge ("quem tiver o coração mais puro fica com a noiva") é centrado em dois indianos que cresceram em Londres. A família de Simran Singh (Kajol) é pobre, com seu pai, Baldev (Amrish Puri) sendo dono de uma lojinha de conveniência. Sua mãe, Lajwanti (Farida Jalal), criou Simran e a irmã, Chutki (Pooja Ruparel), para serem mulheres fortes e independentes, mas não tem coragem de ir contra os desejos do marido, extremamente tradicionalista, que incluem casar Simran com Kuljeet (Parmeet Sethi), filho de seu melhor amigo, Ajit (Satish Shah), com quem tratou todos os detalhes do casamento quando os noivos ainda eram crianças e a família Singh morava na Índia. Para que o casamento se consume, Simral, que está prestes a concluir seus estudos na universidade, terá de se mudar para a Índia e abrir mão de sua carreira, duas coisas que ela não aceita. Para tentar dobrar a vontade da filha, Baldev concorda em deixar que ela viaje com as amigas em um passeio de trem por toda a Europa, que será seu presente de formatura, ao fim do qual eles voltarão para a Índia para o casamento. Nessa viagem, ela conhecerá o irresponsável e brincalhão Raj Malhotra (SRK), que foi criado pelo pai viúvo e riquíssimo, Dharamvir (Anupam Kher), e só quer saber de curtir a vida. Evidentemente, os dois se apaixonam - não sem antes se odiarem - e Raj passa a ter a missão de melar o casamento de Simran para poder ficar com ela.

Com estreia em 20 de outubro de 1995, Dilwale Dulhania Le Jayenge é uma comédia romântica de 189 minutos - três horas e nove minutos! - o que não é incomum para a Índia, um país no qual ir ao cinema é um programa para uma tarde inteira, e no qual cada sala tem no máximo três exibições por dia, com a média de duração de um filme de Bollywood sendo de duas horas e vinte minutos. Por serem tão longos, esses filmes têm um intervalo no meio, de cerca de 15 minutos, durante o qual os espectadores podem ir ao banheiro, comer e esticar as pernas; normalmente, as partes que vêm antes e depois do intervalo também são bem distintas, como se fossem dois filmes, um continuação do outro: aqui, a primeira parte apresenta Simran e Raj, mostra como eles se conheceram e sua viagem pela Europa, enquanto a segunda é ambientada na Índia, onde está sendo preparado o casamento de Simran e para onde Raj vai para tentar impedi-lo.

Dilwale Dulhania Le Jayenge foi a estreia na direção de Aditya Chopra, que também foi responsável por seu roteiro, e que é filho de Yash Chopra, um dos mais famosos produtores de cinema da Índia e um dos donos do estúdio que o produziu, a Yash Raj Films. Filmado na Índia, na Inglaterra e na Suíça, o filme teria orçamento de 400 milhões de rúpias, e renderia, só na Índia, 1,06 bilhão (mais ou menos 32 milhões de dólares na época), mais 160 milhões no exterior, se tornando o filme indiano mais rentável de 1995 e um dos mais rentáveis de toda a história - Dilwale Dulhania Le Jayenge seria apenas o segundo filme de Bollywood a ultrapassar a marca do bilhão, após Hum Aapke Hain Koun ("quem sou eu para você?"), de 1994, que renderia 1,27 bilhão. Sua trilha sonora, composta pelos irmãos Jatin e Lalit Pandit, e que contava com quatro canções da maior cantora da história da Índia, Lata Mangeshkar (que fazia a voz cantada de Simran, com a voz cantada de Raj ficando com Udit Narayan), seria um dos álbuns de maior vendagem no ano no país, com 20 milhões de cópias vendidas, cerca de 1 milhão antes mesmo da estreia do filme.

O filme também seria elogiadíssimo pela crítica, que destacaria seu retrato de diferentes seguimentos da sociedade - as famílias de Simran, Raj e Kuljeet são de três classes sociais distintas - e sua mensagem sobre a importância da família e de seguir seu próprio coração; Simran se tornaria um modelo não somente para outros personagens fictícios, mas também para várias moças indianas que tentavam provar para seus pais que poderiam se casar por amor ao invés de terem de se submeter a casamentos arranjados. O núcleo de sua história - rapaz tenta impedir casamento arranjado de moça pela qual está apaixonado - se tornaria um verdadeiro clichê em Bollywood, e inspiraria vários outros filmes, incluindo alguns da própria Yash Raj. Um elemento que seria considerado por muitos como o principal fator para o sucesso do filme é que Raj faz de tudo para convencer o pai de Simran a aceitar que ela se case com ele, quando o normal em filmes indianos até então era que os apaixonados fugissem e se casassem contra o desejo de suas famílias.

Dilwale Dulhania Le Jayenge seria indicado a nada menos que 14 Filmfare Awards, ganhando dez, um recorde na época, incluindo Melhor Filme, Melhor Diretor, Melhor Roteiro, Melhor Ator para SRK e Melhor Atriz para Kajol. Na cerimônia do National Film Awards, o prêmio mais importante do cinema indiano, ele receberia a estatueta de Melhor Filme para Toda a Família, e no Screen Awards, equivalente ao Globo de Ouro na Índia, ganharia os de Melhor Filme, Melhor Diretor e Melhor Ator. Dilwale Dulhania Le Jayenge seria eleito um dos "10 filmes de Bollywood que você precisa assistir antes de morrer" pelo jornal The Times of India, e seria um dos três filmes indianos a serem listados no livro 1001 Filmes Para Ver Antes de Morrer, com os outros dois sendo Mother India (1957) e Deewaar ("o muro", 1975). Ele é hoje considerado o filme de maior sucesso da história da Índia: quando de sua estreia, todas as salas de cinema de Mumbai, exceto uma, ficaram com lotação esgotada durante toda a primeira semana; em São Francisco, Estados Unidos, a procura foi tanta que o único cinema que o estava exibindo, que planejava ter apenas uma sessão por dia, teve de aumentar para duas; e no Reino Unido ele ficaria em cartaz por um ano. Mas talvez o mais impressionante seja que, na Índia, ele ficaria em cartaz durante 1251 semanas ininterruptas, com o cinema Maratha Mandir, em Mumbai, o exibindo do dia de sua estreia até 16 de março de 2020 - e somente o tirando de cartaz porque teve de fechar devido à pandemia.

Após esse início bombástico, a carreira de SRK passaria a ter altos e baixos. Seus quatro filmes lançados em 1996 seriam grandes fracassos de bilheteria, mas seus dois principais filmes de 1997, a comédia romântica Yes Boss e o drama Pardes ("terra estrangeira"), dirigido, escrito e produzido por Subhash Ghai, seriam grandes sucessos de crítica e público. Filmado nos Estados Unidos, Canadá e Índia, Pardes, no qual SRK interpreta um jovem que cresceu na América e tem de voltar à Índia para um casamento arranjado tendo dificuldades para se adaptar, seria um dos primeiros filmes de Bollywood a fazer sucesso nos Estados Unidos, rendendo 1,7 milhão de dólares. Em 1998, mais dois fracassos de bilheteria, incluindo um filme de terror, e um gigantesco sucesso, Kuch Kuch Hota Hai, sobre o qual eu vou dar detalhes em breve. Em 1999, ele faria apenas um filme, Baadshah (algo como "o chefão"), uma comédia na qual ele interpreta uma espécie de Inspetor Bugiganga, um detetive que faz uso de vários equipamentos bizarros para solucionar crimes; o filme seria bastante bem recebido pela crítica, inclusive lhe rendendo uma indicação ao Filmfare Award de Melhor Ator, mas seria um gigantesco fracasso de público - mesmo assim, seria a origem de um dos apelidos pelos quais SRK costuma ser chamado, "o Baadshah de Bollywood".

No final dos anos 1990, devido a suas participações em comédias românticas, SRK era considerado um ídolo adolescente, mesmo já estando à beira dos 35 anos, com seus filmes atraindo milhares de menininhas apaixonadas, o que fazia com que a maioria dos papéis oferecidos a ele fossem para esse tipo de filme. SRK se sentia incomodado com isso, e, junto com a atriz Juhi Chawla e o diretor Aziz Mirza, decidiria fundar uma produtora chamada Dreamz Unlimited. Sua primeira produção, Phir Bhi Dil Hai Hindustani ("e ainda assim, o coração é indiano"), lançado em 2000, no qual ele interpretava um repórter sem papas na língua que uma rival tentava tirar do ar, seria um gigantesco fracasso de crítica e público, assim como o segundo, Asoka, de 2001, um épico que contava de forma romanceada a vida do Imperador Asoka, que governou a Índia entre os anos 268 e 232 a.C., que foi caríssimo e concorreu nos festivais de cinema de Veneza e Toronto. Incapaz de viver apenas de suas próprias produções, ele continuaria fazendo filmes para outros estúdios, como a comédia romântica Mohabbatein (algo mais ou menos equivalente ao nosso "amar de paixão"), de 2000, e o drama familiar Kabhi Khushi Kabhie Gham ("às vezes há alegria, às vezes há tristeza"), de 2001, um épico de três horas e meia no qual interpretava um jovem rico que desafiava a família para se casar com uma moça pobre, interpretada por Kajol. Em 2002, ao lado de Aishwarya Rai, uma das mais famosas atrizes de Bollywood, ele estrelaria Devdas, filme ambientado na virada do século XIX para o XX no qual SRK interpretava um alcóolatra cujo pai envia para Londres com o sonho de que ele se torne advogado; o filme seria um sucesso colossal de crítica e público, ganhando nada menos que dez Filmfare Awards, incluindo um de Melhor Ator para SRK, e um BAFTA, o maior prêmio da indústria do cinema do Reino Unido, de Melhor Filme em Língua Estrangeira.

No final de 2001, enquanto gravava o filme de ação Shakti ("poder"), ele sofreria uma queda que faria com que ele sentisse dores horríveis na coluna, sendo diagnosticado com hérnia de disco, e tendo de suspender todas as suas gravações para 2002. Ele tentaria retornar a gravar em janeiro de 2003, mas, seguindo com as dores, teve de se submeter a uma cirurgia, e só pôde retomar a carreira em junho. Seu primeiro filme após esse retorno seria o drama Kal Ho Naa Ho ("o amanhã pode nunca chegar"), no qual interpretava um homem com uma doença terminal; ambientado em Nova Iorque, o filme seria a segunda maior bilheteria na Índia naquele ano. Ainda em 2003, devido a divergências criativas, ele decidiria abandonar a Dreamz Unlimited e fundar uma nova produtora, a Red Chillies Entertainment, com sua esposa Gauri como sócia e produtora. Seu primeiro filme, Main Hoon Na ("eu não sou"), estreia da atriz Farah Khan (que não é parente de SRK) como roteirista e diretora, no qual SRK interpreta um oficial do exército indiano envolvido em uma troca de prisioneiros com o Paquistão, seria um grande sucesso de público e crítica, se tornando o segundo filme de maior bilheteria da Índia no ano - o primeiro seria outro com SRK, Veer-Zaara, no qual ele interpreta um piloto da Força Aérea Indiana que se apaixona por uma garota paquistanesa e acaba ficando preso por 22 anos no Paquistão, acusado de espionagem.

Em 2006, SRK estaria no drama Kabhi Alvida Naa Kehna ("nunca diga adeus"), o filme de Bollywood com maior bilheteria fora da Índia em todos os tempos, no qual ele interpretava um jogador de futebol frustrado por ter de abandonar a carreira após um atropelamento. No ano seguinte, ele faria mais um filme ligado a esportes, Chak De! India (algo como "manda ver, Índia!"), no qual ele é um jogador de hóquei que caiu em desgraça após ser acusado de entregar um jogo de propósito para o Paquistão, e, para se redimir, aceita treinar a seleção feminina, repleta de jogadoras que se odeiam e não querem jogar juntas, e está prestes a disputar o Campeonato Mundial; com um elenco multi-étnico - pois as jogadoras vêm de todas as regiões da Índia - o filme seria extremamente elogiado pela crítica por abordar de forma sensível temas como racismo, feminismo e preconceito regional, rendendo a SRK mais uma Filmfare Award de Melhor Ator. Em 2008, ele estaria em Rab Ne Bana Di Jodi ("um par criado por Deus"), no qual contracenava com Anushka Sharma, hoje uma das mais famosas atrizes de Bollywood, mas na época uma estreante, no papel de um homem tímido que cria uma segunda personalidade para ter coragem de cortejá-la. Ainda em 2008, ele recusaria o papel que ficaria com Anil Kapoor em Quem Quer Ser um Milionário? para poder gravar My Name is Khan, drama lançado em 2010 que lida com como os muçulmanos passaram a ser tratados nos Estados Unidos após os ataques do 11 de Setembro, que lhe rendeu seu oitavo Filmfare Award de Melhor Ator, tornando-o o recordista da premiação, empatado com Dilip Kumar.

A pedido de seus filhos, em 2011 SRK estrelaria o filme de super-heróis Ra.One, no qual ele interpreta um desenvolvedor de videogames que cria um vilão que escapa para o mundo real, e o herói criado por esse mesmo desenvolvedor para detê-lo; o filme seria o mais caro da história da Índia, com orçamento de 1,25 bilhão de rúpias, e, apesar das críticas negativas, seria um sucesso de bilheteria. No ano seguinte, ele voltaria às comédias românticas com Jab Tak Hai Jaan ("enquanto eu viver"), contracenando com Katrina Kaif e Anushka Sharma, um sucesso moderado. Em 2013 ele estaria em mais uma produção da Red Chillies, Chennai Express, que recebeu muitas críticas pela forma como retratou o Sul da Índia, mas foi um grande sucesso de bilheteria, principalmente fora da Índia. Essa seria uma constante na carreira de SRK a partir de então, com a comédia de ação Happy New Year (2014), a comédia Dilwale ("coração puro", 2015), o drama Dear Zindagi (2016), e o policial Raees ("rico", 2017), todos sendo massacrados pela crítica, mas tendo rendimentos excelentes na bilheteria.

Por outro lado, seus dois mais recentes filmes, além de extremamente criticados, foram grandes fracassos de bilheteria: Jab Harry Met Sejal ("quando Harry conheceu Sejal"), da Red Chillies, de 2017, que, apesar do título, não tem nada a ver com a comédia norte-americana Harry & Sally: Feitos Um para o Outro (cujo título original é When Harry Met Sally), na qual SRK interpreta um guia turístico em Amsterdam que se apaixona pela personagem de Anushka Sharma, a quem inicialmente está ajudando a encontrar seu anel de noivado, que perdeu durante a viagem; e Zero, de 2018, no qual, acreditem ou não, ele interpreta um anão que se apaixona pelo personagem de Katrina Kaif. Uma das maiores críticas que SRK recebe é que ele já passou dos 50 anos, mas segue fazendo filmes de romance tendo como par atrizes bem mais jovens - Anushka Sharma, seu par romântico mais frequente depois de Kajol (são sete filmes com Kajol, cinco com Anushka), tem 33.

Além de ator, SRK é cantor, frequentemente se apresentando ao vivo ao lado de outros cantores e cantoras indianos desde 1997; ele seria um dos primeiros artistas indianos a se apresentar fora da Índia, ao fazer uma turnê pelo Reino Unido, Canadá e Malásia em 1998. Embora não faça mais séries de TV, ele é presença frequente em vários programas de sucesso da TV indiana, como entrevistado, jurado ou até mesmo apresentador. Ele também é dono de um time de críquete, o Kolkata Knight Riders, que joga na India Premier League, principal competição de T20 do planeta. Assim como outras celebridades indianas, ele é envolvido com várias causas sociais, sendo embaixador dos programas Water Supply and Sanitation Collaborative Council, National AIDS Control Organisation, e diretor da Make-A-Wish Foundation indiana, além de todo ano doar milhões de rúpias para causas como evitar a mortalidade infantil, aumentar a presença das crianças indianas na escola, e, recentemente, combater a pandemia de covid-19.

Com mais de 80 filmes e uma centena de premiações no currículo, incluindo o Padma Shri, uma das mais importantes honras conferidas pelo governo indiano, a qual ganhou em 2005, SRK é considerado não somente o maior ator indiano de todos os tempos, mas uma das maiores celebridades mundiais fora dos Estados Unidos - onde ele é referenciado, humoristicamente, como "a pessoa mais famosa da qual você nunca ouviu falar". Na Ásia, ele é mais famoso até do que celebridades norte-americanas, com uma pesquisa feita em 2011 indicando que, naquele continente, mais gente era capaz de citar filmes com SRK do que com Tom Cruise. O fã-clube oficial de King Khan, como ele é chamado pelos fãs, tem mais de um bilhão de membros, e, todos os anos, em datas como seu aniversário, entre 10 e 20 mil desses fãs se aglomeram em frente ao portão de sua casa em Mumbai, apenas para vê-lo chegar na varanda e dar um tchauzinho.

Agora vamos falar de Kajol, o nome artístico de Kajol Devgn, nascida Kajol Mukherjee em 5 de agosto de 1974 em Mumbai, que na época se chamava Bombaim, filha do diretor e produtor de cinema Shomu Mukherjee com a atriz Tanuja Samarth. A família Mukherjee-Samarth é uma das mais poderosas de Bollywood: Joy Mukherjee e Deb Mukherjee, irmãos de Shomu, são produtores; Ayan Mukerji, filho de Deb, é diretor; Sashadar Mukherjee, pai de Shomu, Joy e Deb e avô de Kajol, foi cineasta e fundador de um estúdio de cinema; e três primos de Kajol, Rani Mukerji, Sharbani Mukherjee e Mohnish Bahl, além de sua irmã, Tanisha Mukerji, também são atores - aliás, vale dizer que tanto Mukherjee quanto Mukerji são grafias aceitas para o nome da família, e aparentemente cada um escolhe a que gosta mais. Nesse cenário, era claro, desde cedo, que a moça também iria enveredar pelo cinema, jamais pensando em fazer outra coisa da vida.

Os pais de Kajol se separariam quando ela tinha apenas cinco anos, e ela e Tanisha seriam criadas pela avó materna, Shobhna Samarth, que também era atriz, diretora e produtora, além de ser filha de outra grande atriz, Rattan Bai. Kajol era uma espoleta, sempre se metendo em confusões e em brigas com os meninos; para tentar controlá-la, sua mãe a matricularia em um colégio interno e religioso, o St. Joseph's Convent School, na cidade de Panchgani. Quando ela tinha 16 anos, foi participar de uma sessão de fotos com o fotógrafo Gautam Rajadhyaksha, que estava escrevendo um roteiro para um filme do diretor Rahul Rawail, e, ao saber que ela era da família Mukherjee-Samarth, a convidou para um teste. Ela acabaria ficando com o papel, e, inicialmente, planejaria voltar aos estudos após as gravações; Kajol gostaria tanto de atuar, porém, que decidiria abandonar a escola para se tornar atriz em tempo integral - decisão que foi apoiada por sua mãe, mas da qual ela, hoje, diz se arrepender.

A estreia de Kajol seria no drama Bekhuji ("insensatez"), lançado em 1992, no qual ela contracenava com sua mãe, escalada após ela ganhar o papel, e com outro ator estreante, Kamal Sadanah, no qual ela interpretava uma moça que se apaixona por um rapaz e tem de enfrentar a família para ficar com ele. O filme seria um fracasso de bilheteria, mas a atuação de Kajol seria elogiada pelos críticos, e renderia a ela um convite para atuar no grande sucesso Baazigar ao lado de SRK, no papel de uma moça que se apaixona pelo assassino de sua irmã sem saber que foi ele quem cometeu o crime. No ano seguinte, 1994, ela estrelaria o dramalhão Udhaar Ki Zindagi ("vida em dívida"), no papel de uma órfã que vai morar com os avós; o filme seria mais um fracasso de bilheteria, e o papel seria tão extenuante para Kajol que ela decidiria que a partir de então só aceitaria atuar em comédias românticas ou papéis minúsculos, pois terminaria as gravações à beira de um colapso nervoso.

Curiosamente, seria essa decisão que a colocaria no papel responsável por alavancar sua carreira, o da jovem Sapna no filme Yeh Dillagi (algo como "isso é uma piada"). Versão indiana do clássico Sabrina, o filme trazia Kajol no papel de uma moça pobre disputada por dois rapazes ricos, um trabalhador, o outro um bon vivant, seria um gigantesco sucesso de bilheteria, renderia à atriz sua primeira indicação ao Filmfare Award de Melhor Atriz, e faria com que toda a Índia comentasse sua beleza - até então, ela era vista como uma menina sapeca, mas, após a transformação de Sapna, muitos diretores passariam a convidá-la para interpretar mulheres bonitas, fortes e independentes. Seria assim que ela chegaria a seus dois filmes seguinte com SRK, ambos de 1995, Karan Arjun e Dilwale Dulhania Le Jayenge, pelo qual ela ganharia seu primeiro Filmfare Award de Melhor Atriz. Entre os dois, ela faria três filmes que seriam fracassos de bilheteria, dois deles com seu futuro marido, Ajay Devgn - e, curiosamente, a crítica atribuiria o fracasso dos filmes à falta de química entre o casal.

Em 1997, Kajol surpreenderia Bollywood ao aceitar o papel de uma assassina serial psicopata em Gupt ("segredo"), sendo extremamente elogiada por sua atuação. No mesmo ano, ela voltaria aos filmes de romance em Hameshaa ("eterno"), no qual formava com Saif Ali Khan um casal que se encontrava em várias reencarnações. Ela também aceitaria interpretar uma estudante que sonha entrar para um convento e se tornar freira, mas que tem um amigo que é apaixonado por ela desde a infância e contrata um guru para convencê-la a desistir, no filme tâmil Minsara Kanavu ("sonho elétrico"); o filme seria um musical, e Kajol teria muita dificuldade com as cenas de dança, tendo de repetir as coreografias várias vezes - além disso, como ela não fala tâmil (ela é fluente "somente" em inglês, hindi, bengali e marata), teve de ser dublada pela atriz Revathi. O filme seria um grande sucesso na parte tâmil da Índia, mas sua versão dublada em hindi seria um fracasso. Para fechar 1997, ela faria Ishq ("amar"), comédia romântica na qual interpretava a namorada pobre de um rapaz rico cuja família não aceitava o romance, e que foi uma das maiores bilheterias do ano.

Em 1998, ela faria o papel de duas irmãs gêmeas em Dushman ("inimigo"): uma é estuprada e morta, e a outra tenta encontrar o assassino para se vingar. Esse filme enlouqueceria os críticos, que elogiariam efusivamente a atuação de Kajol; ao ler o roteiro, porém, ela quase não o aceitaria, só o fazendo após a produção garantir que ela teria uma dublê de corpo para a cena do estupro. Em seguida, ela estaria simplesmente nas três maiores bilheterias do ano, três filmes indicados para o Filmfare Award de Melhor Filme. Em Pyaar Kiya To Darna Kya ("por que ter medo de amar alguém?"), ela seria uma menina órfã do interior cujo irmão tenta "proteger" de potenciais namorados. Em Pyaar To Hona Hi Tha ("o amor está prestes a acontecer"), ela seria uma moça que cresceu em Paris e volta à Índia para um casamento arranjado, mas acaba se apaixonando por outro homem (interpretado por Devgn). E, em Kuch Kuch Hota Hai, ela contracenaria com sua prima, Rani Mukerji, e mais uma vez com SRK.

Kuch Kuch Hota Hai ("alguma coisa está acontecendo") é a história de Rahul (SRK) e Anjali (Kajol), que se conheceram na universidade e se tornaram melhores amigos. Anjali é o que em inglês é chamado de tomboy, uma menina que não se interessa por "coisas de menina", como vestidos e maquiagem, gosta de praticar esportes e age como se fosse um menino; por causa disso, mesmo ela sendo completamente apaixonada por Rahul, ele nunca percebeu, já que a vê como um de seus amigos homens. Um dia, Rahul se apaixona por Tina (Rani Mukerji), a filha do reitor (Anupam Kher), que vem transferida de Londres, e logo se torna amiga de Anjali. Envergonhada e se sentindo incapaz de competir com a amiga, que é linda, sexy e extrovertida, Anjali volta para sua cidade natal no interior, deixando o caminho livre para que Rahul e Tina se casem. Só que Tina morre de complicações no parto, ao dar a luz a uma menina que ela decide chamar também de Anjali, e para quem decide deixar oito cartas, uma para que ela leia a cada ano em seu aniversário. A pequena Anjali (Sana Saeed), então, é criada por seu pai e por sua avó (Farida Jalal), e a cada ano espera ansiosamente por seu aniversário, pois conhece intimamente a mãe através das cartas. Na oitava e última, Tina revela à filha a história da outra Anjali, e pede para que ela ajude Rahul e Anjali a ficarem juntos. A menina, então, descobre que sua homônima estará trabalhando em uma colônia de férias, e faz de tudo para que sei pai a matricule. Seu plano, evidentemente, é fazer com que Rahul e Anjali fiquem juntos, mas ela possui um grande obstáculo: após anos rejeitando vários noivos, Anjali finalmente aceitou se casar, com o rico e bem-sucedido Aman Mehra (Salman Khan) - e o casamento ocorrerá poucos dias após o fim da colônia de férias.

Escrito e dirigido por Karan Johar, que foi assistente de Aditya Chopra durante as filmagens de Dilwale Dulhania Le Jayenge, Kuch Kuch Hota Hai estrearia em 16 de outubro de 1998, e logo se tornaria um grande sucesso: com orçamento de 100 milhões de rúpias, renderia 8,7 milhões apenas no dia da estreia, 27,4 milhões apenas no primeiro fim de semana, e mais de 800 milhões somente na Índia, com sua bilheteria total chegando a 1,06 bilhão de rúpias ao ser adicionada a bilheteria internacional. Kuch Kuch Hota Hai seria o filme mais assistido do ano na Índia, o primeiro filme indiano a render mais de 5 milhões de dólares em bilheteria internacional, o filme de Bollywood com a maior bilheteria internacional até então, e o terceiro filme de Bollywood a render mais de 1 bilhão de rúpias - embora tenha sido o primeiro a precisar da bilheteria internacional para chegar a esse número. Houve uma grande expectativa pelo filme, pois seria a primeira vez em que SRK e Kajol atuariam juntos desde Dilwale Dulhania Le Jayenge, e seria a estreia como diretor e roteirista de Johar, que já era um nome famoso em Bollywood, o que fez com que 240 cinemas o pré-reservassem, um recorde na época.

A trilha sonora ficaria mais uma vez a cargo dos irmãos Jatin e Lalit Pandit, com Udit Narayan mais uma vez fazendo a voz cantada do personagem de SRK, Rahul; a voz cantada de Tina seria de Kavita Krishnamurthy, e a de Anjali ficaria com Alka Yagnik, que também gravaria a versão solo da elogiadíssima música-título. Kuch Kuch Hota Hai seria uma produção da Dharma Productions, que, após seu sucesso, transformaria os primeiros acordes dessa música-título no tema oficial de seu logotipo, aquele que aparece antes de seus filmes - mais ou menos como a fanfarra da 20th Century Fox. A Dharma era, então, um estúdio pequeno, e a maior parte da equipe do filme era inexperiente, com SRK tendo de ajudar com dicas sobre posicionamento de câmeras e questões técnicas de equipamentos de filmagem. Apesar disso, as filmagens ocorreriam sem problemas, e se encerrariam em nove meses e meio; Kuch Kuch Hota Hai seria o primeiro filme indiano a ter cenas gravadas na Escócia e nas Ilhas Maurício, e teria a maior parte de suas cenas ambientadas na Índia gravadas no estado de Tamil Nadu, o que também não era normal para um filme de Bollywood - que até hoje costumam ser filmados em Délhi ou Mumbai.

Com 185 minutos de duração, Kuch Kuch Hota Hai também é dividido em duas partes, mas começa com Tina já morta, contando os eventos ocorridos na universidade em flashback enquanto a pequena Anjali lê sua oitava carta; o filme retorna ao presente pouco antes do intervalo, com a segunda parte lidando com a colônia de férias e o casamento da Anjali mais velha. Curiosamente, a crítica, quando de seu lançamento, não se mostrou muito empolgada, dizendo que era apenas um filme legalzinho de romance; a atuação de Kajol, porém, seria elogiadíssima, com todos concordando que ela rouba o filme toda vez que aparece. Apesar da recepção morna da crítica, Kuch Kuch Hota Hai seria indicado a um recorde de 18 Filmfare Awards; ganharia oito, inclusive sendo o primeiro filme da história a ganhar os quatro prêmios de atuação: Melhor Ator (SRK), Melhor Atriz (Kajol), Melhor Ator Coadjuvante (Salman Khan) e Melhor Atriz Coadjuvante (Rani Mukerji) - os outros quatro seriam os de Melhor Diretor, Melhor Roteiro, Melhor Direção de Arte e o mais cobiçado, o de Melhor Filme. Assim como Dilwale Dulhania Le Jayenge, ele ganharia o National Film Award de Melhor Filme para Toda a Família, com Alka Yagnik ganhando também o National Film Award de Melhor Playback Singer Feminina pela versão solo da música-título.

Voltando a Kajol, no início de 1999, ela interpretaria uma secretária que aceita se casar com o filho do patrão por dinheiro, mas acaba se apaixonando por ele, em Hum Aapke Dil Mein Rehte Hain ("eu vivo em seu coração"), remake de um filme telugo que seria um grande sucesso. Logo depois, Kajol e Devgn se casariam, o que causaria grande rebuliço na imprensa especializada, que considerou um erro ela se casar no auge da carreira, e frequentemente acusava o ator de ter casos extraconjugais, o que ela sempre considerou "fofocas às quais ela não dá atenção" - ela raramente fala sobre seu casamento em entrevistas, porém, e, quando perguntada sobre o motivo, diz que seria uma perda de tempo. Kajol e Devgn teriam um casal de filhos: Nysa, nascida em 2003, e Yug, nascido em 2010.

Após o casamento, sua carreira entraria numa espiral descendente. Ela recusaria o papel de esposa do personagem de Devgn na comédia romântica de 1999 Dil Kya Kare ("o que deve fazer o coração?"), preferindo interpretar sua amante (com a esposa ficando com Mahima Chaudhry), por achar que o papel de esposa não traria nenhum desafio; o filme seria um fracasso de crítica e público, e o roteiro seria bastante criticado. Em Raju Chacha ("tio Raju"), de 2000, ela interpretava a governanta de uma família rica, que é enganada por um trambiqueiro que finge estar apaixonado por ela mas está de olho no dinheiro dos patrões; produzido por Devgn, que também interpretava o trambiqueiro, o filme seria um dos mais caros da história da Índia e um grande fracasso, com o roteiro sendo considerado fraco e raso. Em 2001 ela estaria em Kuch Khatti Kuch Meethi ("um pouco azedo, um pouco doce"), mais uma vez interpretando irmãs gêmeas, dessa vez separadas no nascimento, numa comédia considerada fraca e sem graça, com baixa bilheteria. Ela conseguiria se redimir com Kabhi Khushi Kabhie Gham, com o qual ganharia seu terceiro Filmfare Award de Melhor Atriz; seu papel exigia que ela falasse punjabi, mas, ao invés de ser dublada, ela pediria ajuda a um professor do idioma para decorar e repetir as frases com perfeição, mesmo sem saber o que estava dizendo,  que faria com que ela ganhasse pontos com a crítica, e que se destacasse em meio a um elenco de peso-pesados que contava com SRK, Amitabh Bachchan, Jaya Bachchan, Hrithik Roshan e Kareena Kapoor.

Logo após terminarem as filmagens de Kabhi Khushi Kabhie Gham, Kajol anunciaria que passaria a ser mais seletiva em sua escolha de papéis, para se dedicar ao casamento - deixando claro que não estava se aposentando. Ela só voltaria a filmar, entretanto, cinco anos depois, quando estaria em Fanaa ("destruída"), no papel de uma moça cega da Caxemira que se apaixona por um guia turístico sem saber que ele também é um terrorista separatista; o filme seria um grande sucesso de público e crítica, com Kajol, que pediu para que ele não fosse anunciado como seu "retorno", fazendo sua estreia como cantora, interpretando duas canções, e ganhando mais um Filmfare Award de Melhor Atriz. Em 2007, ela começaria a gravar o épico Ramayana, que teria problemas durante as filmagens e jamais seria lançado. No ano seguinte, ela interpretaria uma mulher que sofre de Mal de Alzheimer em U Me Aur Hum ("você, eu e nós"), a estreia de Devgn na direção, que seria um fracasso de bilheteria, mas bem recebido pela crítica. Seu papel seguinte de destaque seria como a esposa do personagem de SRK em My Name is Khan, de 2010, papel que lhe renderia seu quinto Filmfare Award de Melhor Atriz, recorde na categoria empatada com Nutan, que era irmã de Tanuja, e, portanto, tia de Kajol. Ainda em 2010, ela estaria em We Are Family, remake do filme norte-americano Lado a Lado, que seria um sucesso moderado no qual sua atuação (interpretando a personagem que no original foi de Susan Sarandon) seria extremamente elogiada, e em Toonpur Ka Superrhero, filme que misturava atores e animação por computação gráfica que foi um retumbante fracasso de público e crítica, no qual ela interpretava uma desenhista presa em um mundo que ela mesma criou.

Após o nascimento de seu segundo filho, Kajol ficaria mais cinco anos fora das telas, retornando em Dilwale, de 2015, como a filha de um mafioso que se apaixona pelo filho de um rival (interpretado por SRK); o filme seria massacrado pela crítica, mas teria excelente bilheteria. No mesmo ano, ela estrearia como produtora, ao lado do marido, no drama Vitti Dandu, filmado em marata e que retratava o relacionamento entre um avô e um neto no ano da independência de Índia. Em 2017, ela seria a dona de uma construtora em Velaiilla Pattadhari 2 ("recém-formado e desempregado 2"; o título é também uma brincadeira com a sigla VIP), no qual antagonizava o jovem engenheiro interpretado por Dhanush e protagonista também do primeiro filme, de 2014; o filme era falado em tâmil, mas mais uma vez Kajol preferiria decorar e repetir as frases ao invés de ser dublada, sendo extremamente elogiada pela equipe de produção por seu esforço. O filme também seria recebido mal pelos críticos, mas se sairia extremamente bem nas bilheterias, principalmente nas regiões que falam tâmil. Infelizmente, não seria o caso da comédia Helicopter Eela, de 2018, na qual ela interpretava uma mãe superprotetora (conhecidas na Índia como "helicopter mothers"), e que seria um fracasso tanto de crítica quanto de público.

Em 2020, Kajol voltaria a estar em evidência. Ela começaria o ano contracenando com Devgn e Saif Ali Khan no épico Tanhaji, sobre a vida do líder do Império Marata; o filme seria o mais rentável do ano na Índia, e sua atuação seria muito elogiada. Em seguida, ela faria o curta de suspense Devi, sobre nove mulheres presas em um quarto, vencedor do Filmfare Awards de Melhor Curta. Ela terminaria o ano fazendo seu primeiro filme para a Netflix, Tribhanga ("clã"), sobre as relações entre três mulheres de gerações diferentes, avó, mãe e filha. Kajol, SRK, Rani Mukerji, Anupam Kher e Farida Jalal também atuariam como dubladores em Koochie Koochie Hota Hai, versão em animação de Kuch Kuch Hota Hai com animais antropomórficos ao invés de seres humanos, dirigido por Tarun Mansukhani; originalmente, o filme seria lançado em 2008 para comemorar os dez anos de Kuch Kuch Hota Hai, mas sucessivos atrasos na produção fariam com que ele só fosse lançado em 2021, oficialmente para comemorar os 20 anos do original.

Assim como SRK, Kajol é envolvida com várias ações humanitárias, sendo embaixadora da Shiksha e da Pratham, ONGs indianas devotadas à educação infantil, e do Loomba Trust, organização devotada a apoiar viúvas e órfãos na Índia e ao redor do mundo. Ela também faz doações regulares ao Cancer Patients Aid Association, e sua atuação junto ao Governo de Maharashtra (estado indiano onde se localiza Mumbai) para a proteção das meninas na infância e adolescência, inclusive com a produção de um documentário chamado Save the Girl Child, lhe renderia os importantes prêmios Karmaveer Puraskar e Swabhimani Mumbaikar. Também como SRK, ela receberia o Padma Shri, por sua contribuição ao cinema indiano, em 2011.

Pra terminar de vez, a lista dos sete filmes que SRK e Kajol fizeram juntos: Baazigar (1993), Karan Arjun (1995), Dilwale Dulhania Le Jayenge (1995), Kuch Kuch Hota Hai (1998), Kabhi Khushi Kabhie Gham (2001), My Name is Khan (2008) e Dilwale (2015); Kajol também faria aparições especiais em números musicais de três filmes de SRK, Kal Ho Naa Ho (2003), Om Shanti Om (2007) e Rab Ne Bana Di Jodi (2008).
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