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sábado, 8 de junho de 2024

Escrito por em 8.6.24 com 0 comentários

Claire Danes

Essa semana eu estava pensando em como a Claire Danes é uma atriz excepcional, que conseguiu um grande sucesso na TV, mas não teve no cinema papéis à altura de seu talento. Como eu não costumo fazer muitos posts sobre atores e atrizes, achei que seria legal aproveitar essa vontade para escrever sobre ela. Hoje, portanto, é dia de Claire Danes no átomo!

Claire Catherine Danes nasceu em 12 de abril de 1979 na cidade de Nova Iorque. Sua mãe, nascida Carla Hall, era escultora, e seu pai, Christopher Danes, fotógrafo. Ela é a filha mais nova do casal, mas seu irmão mais velho, Asa, não quis seguir a carreira artística, e é advogado. Quando ela era criança, sua mãe, para tentar equilibrar o orçamento da casa, decidiu criar uma creche dentro de seu próprio apartamento, a qual chamou de Danes Tribe - um trocadilho com seu sobrenome, já que dane é uma das palavras usadas para se referir aos dinamarqueses, embora danish seja mais popular, então Danes Tribe seria a "tribo dos dinamarqueses". Mais tarde, seu pai também teria que arrumar um outro emprego, trabalhando primeiro como consultor de informática e depois como empreiteiro - nos Estados Unidos, o responsável por contratar todos os profissionais que vão trabalhar em uma obra, como pedreiros, pintores, bombeiros hidráulicos e eletricistas - se tornando tão bem sucedido nesse ramo que abriria sua própria empresa, a Overall Construction, a qual comandou por 20 anos.

A família Danes era do que se chama Classe Média Alta, então Claire pôde se dedicar às artes desde muito cedo, sempre em escolas e com professores de alto nível. Aos 6 anos de idade, ela começaria a ter aulas de dança com Ellen Robbins na prestigiada Dance Theater Workshop, e, aos 10, começaria a ter aulas de atuação no HB Studio e no Lee Strasberg Theatre and Film Institute, onde começaria a fazer seus primeiros filmes independentes já no ano seguinte, após ser avaliada pelo diretor Milos Forman. Ela assinaria com sua primeira agente, Karen Friedman, da Writers & Artists Talent Agency, aos 12 anos, sendo considerada uma atriz prodígio pela agência. Paralelamente a isso, ela estudaria em duas das melhores escolas dos Estados Unidos, a New York City Lab School for Collaborative Studies, em Manhattan, onde foi colega de turma de outra atriz, Morena Baccarin, e a PPAS (de Professional Performing Arts School), middle school (aqui no Brasil, o equivalente ao 6o ao 9o ano do Ensino Fundamental) voltada para quem quer se dedicar ao mundo artístico.

Danes conseguiria seu primeiro papel na TV já aos 13 anos de idade, no piloto da série Dudley, estrelada por Dudley Moore. Sua personagem acabaria não retornando para a série, mas sua boa atuação lhe renderia um convite para interpretar uma adolescente assassina em um episódio da terceira temporada de Law & Order, e a irmã da protagonista de um dos episódios da série da HBO Lifestories: Families in Crisis - que só iria ao ar mais de um ano após filmado. Ela também faria a filha da protagonista do filme para a TV No Room for Opal.

Mas seria com seu papel seguinte que Danes explodiria para o mundo: o da protagonista Angela Chase, na série My So-Called Life (exibida aqui no Brasil, no canal Multishow, com o nome de Minha Vida de Cão, e no SBT, como Meus Quinze Anos). A série era filmada em Hollywood, o que obrigou Danes e sua mãe a se mudarem para a cidade de Santa Monica, Califórnia, e fez a atriz, então com 15 anos, ter de mudar de escola, inicialmente para a Dalton School, e, depois de um ano, para o Lycée Français de Los Angeles, onde se formou.

A série seria uma criação de Winnie Holzman, que havia sido roteirista de Anos Incríveis e Thirtysomething, duas séries dramáticas muito famosas nos Estados Unidos, a primeira centrada em crianças prestes a entrar na adolescência, a segunda em adultos por volta dos 30 anos. No final dos anos 1980, um dos co-criadores de Thirtysomething, Marshall Herskovitz, seria convidado pelo canal Showtime para criar uma série semelhante, mas centrada em adolescentes, e escreveria um piloto de uma série praticamente autobiográfica, protagonizada por um menino de 17 anos, chamada Secret Seventeen. A série acabaria não sendo aprovada pelo canal, mas, em 1991, após o cancelamento de Thirtysomething, Herskovitz e seu outro co-criador, Edward Zwick, decidiriam voltar ao tema, e convidariam Holzman para um brainstorming. Holzman diria ter interesse em fazer uma série sobre adolescentes "sem censura", pois, segundo ela, as séries sobre adolescentes nos anos 1990, como Barrados no Baile, eram cheias de conteúdo sexual velado, mas faziam muito pouco para mostrar a vivência dos personagens sobre o assunto, ou o que realmente significava ser adolescente.

E ser adolescente nos anos 1990, pelo menos nos Estados Unidos, não era uma tarefa fácil: ao invés de ver a adolescência como uma época divertida, leve, de transição entre a infância e a vida adulta, para os adolescentes norte-americanos da década de 1990, principalmente devido à recessão econômica, a adolescência era uma época atormentada, confusa e cheia de incertezas, que levava a episódios de depressão e a muitos deles não verem um sentido em continuar estudando ou obedecendo aos pais. Basta comparar as produções voltadas para adolescentes dos anos 1980, onde o maior desafio era ser popular, inevitavelmente alguém dava uma festa em casa porque os pais estava viajando, ou viajava de carro para o outro lado do país nas férias escolares, com as dos anos 1990, nas quais todo mundo era triste e melancólico - condições que espelhavam como os adolescentes viam a adolescência na época em que cada produção foi realizada. Nesse sentido, My So-Called Life foi pioneira, com até seu título (algo como "minha assim chamada vida") espelhando o vazio interior onipresente nos adolescentes da época.

Para se preparar para escrever a série, Holzman seria professora substituta na Fairfax High School, em Los Angeles; ao conversar com os alunos, ela manteria um diário, escrito pela ótica de uma garota adolescente, que serviria como base para a narração dos episódios. A personagem principal da série se chamaria Angela porque uma das coordenadoras de roteiro de Thirtysomething tinha uma sobrinha com esse nome, e, ao conversar com ela, Holzman ficaria muito impressionada com sua visão de mundo, principalmente com a frase "para os meninos, tudo é mais fácil", que ela faria Angela Chase dizer já no piloto. Holzman também optaria por inverter os papéis tradicionais dos pais de Angela, uma condição que vinha se tornando comum na década de 1990, com a mãe trabalhando fora e sendo vista como provedora, enquanto o pai trabalha de casa e é responsável pelos serviços domésticos.

Ambientada na fictícia cidade de Three Rivers, próxima a Pittsburgh, Pensilvânia, a série acompanhava Angela (Danes) em sua escola, a Liberty High School, e suas relações com seus colegas, professores e família, que nem sempre eram as melhores. Angela normalmente atuava como narradora de cada episódio, conduzindo os acontecimentos conforme seu ponto de vista. Quando a série começa, Angela tem 15 anos e está iniciando o equivalente ao Ensino Médio, e mora com seus pais, Patty (Bess Armstrong) e Graham (Tom Irwin), e com sua irmã, Danielle (Lisa Wilhoit), de 12 anos. Seus melhores amigos são a descolada Rayanne Graff (A.J. Langer) e Rickie Vazquez (Wilson Cruz), porto-riquenho homossexual de família interracial. Completam o elenco dois colegas de Angela na escola, Brian Krakow (Devon Gummersail) e Sharon Cherski (Devon Odessa), e seu interesse amoroso, Jordan Catalano (Jared Leto).

A preferida da produção para o papel de Angela era Alicia Silverstone, que já começava a ganhar fama na época, e era emancipada, o que significava que poderia trabalhar o mesmo número de horas que uma adulta; Holzman, entretanto, a consideraria muito "princesinha" para o papel, achando que os temas escabrosos que seriam abordados poderiam não ser levados a sério devido à sua aparência. Danes, que tinha 14 anos quando fez o teste, além de ter de obedecer o cronograma de filmagens próprio de menores de idade, ainda estava na escola, o que significava que teria que conciliar ambas as atividades; isso faria com que a produção torcesse o nariz para ela - até o teste. Holzman se diria arrebatada pela forma como ela conduziu uma cena de alto teor emocional, encerrando-a como se tivesse desligado um interruptor; diante disso, toda a escala de filmagens seria alterada para que ela estivesse sempre descansada e bem disposta ao filmar, para que sempre rendesse o máximo.

Danes, aliás, não seria a única a ter a carreira alavancada pela série: Cruz, cujo personagem foi inspirado em amigos de adolescência de Holzman, e pôde contribuir com experiências próprias para o personagem, já que foi expulso de casa pelo pai ao se revelar homossexual, também seria considerado um grande destaque, e receberia vários convites para o cinema após o fim da série; já Leto, hoje considerado um ator de primeiro time, inicialmente estaria só no piloto, mas sua química com Danes seria considerada tão boa que Holzman decidiria manter o personagem pelo resto da série.

My So-Called Life lidava com temas polêmicos e complexos, como abuso moral e sexual, homofobia, alcoolismo, não ter onde morar, violência escolar, adultério, censura e uso de drogas; enquanto outras séries da época abordavam esses temas apenas em episódios "muito especiais", My So-Called Life os mostrava de forma escancarada, quase como o foco da série inteira. Essas características fizeram com que a série fosse um gigantesco sucesso de público e crítica, mas também criariam um problema para o canal que a exibia, a ABC, que é um canal aberto, mais preocupado com certos temas do que os canais fechados e a cabo. Por causa disso, apesar do grande sucesso, My So-Called Life teria apenas uma temporada, de 19 episódios, exibidos entre 25 de agosto de 1994 e 26 de janeiro de 1995. A série seria indicada a quatro Emmys, de Melhor Atriz Principal em uma Série de Drama (Danes), Melhor Direção para uma Série de Drama, Melhor Roteiro para uma Série de Drama e Melhor Canção de Abertura, além de render a Danes um Globo de Ouro de Melhor Atriz em uma Série de TV de Drama.

My So-Called Life seria uma das primeiras séries a mobilizar uma campanha pela internet para reverter seu cancelamento; diante da mobilização dos fãs, a ABC chamaria Holzman para conversar sobre a possibilidade de uma segunda temnporada. Danes, entretanto, diria não desejar renovar contrato, por achar o ritmo de gravações muito extenuante, e seus pais sequer permitiriam que ela e Holzman conversassem. Sem Danes, Holzman não veria razão para continuar, e informaria à ABC que o cancelamento seria definitivo. Curiosamente, o sucesso da série inspiraria uma versão alemã, produzida pela RTL, chamada Mein Leben und Ich ("minha vida e eu") que teria 6 temporadas, totalizando 74 episódios de meia hora cada, exibidos entre 2001 e 2009.

Após seu cancelamento, principalmente devido a reprises na Mtv, a série se tornaria cult, e é até hoje citada como uma das melhores séries dramáticas da televisão norte-americana em todos os tempos. Segundo os críticos, ela seria a responsável por afastar as séries juvenis do estilo novela adotado até então em direção a uma abordagem mais realística; Melissa Maerz escreveria que o maior mérito da série era o de que nenhum episódio tinha uma lição muito importante aprendida por algum personagem, nem terminava com Angela dizendo "eu te amo, pai", características onipresentes em produções da época voltadas para adolescentes, que sempre tentavam ser educativas ou promover os valores familiares. My So-Called Life seria a primeira série da TV norte-americana na qual meninas adolescentes falavam abertamente sobre sexo, Rickie seria o primeiro personagem abertamente gay na história da televisão norte-americana, e um dos episódios abordaria a questão da violência com armas de fogo nas escolas cinco anos antes do Massacre de Columbine. Criadores de séries como 13 Reasons Why, Gossip Girl e Andi Mack citam My So-Called Life como sua principal influência, e Greg Berlanti, criador do Arrowverso, a considera "a mais honesta representação da adolescência na história da televisão".

O sucesso de Danes na série renderia um convite para que ela estreasse no cinema, contracenando com Susan Sarandon e Winona Ryder em uma das muitas adaptações de Little Women, de Louisa May Alcott, essa chamada no Brasil de Adoráveis Mulheres, lançada em 1994. Ela também seria convidada pela banda Soul Asylum para atuar no clipe da música Just Like Anyone, de 1995, interpretando uma garota deformada. Depois disso, Danes daria preferência para papéis no cinema, atuando em Feriados em Família (1995), Bem-Me-Quer, Mal-Me-Quer e Para Gillian, no Seu Aniversário (ambos de 1996), nesse último contracenando com Michelle Pfeiffer.

A grande chance de estourar nos cinemas viria com Romeu + Julieta, também de 1996. Aos 16 anos, Danes seria chamada pelo diretor, Baz Luhrman, de "a Meryl Streep de sua geração", e não somente seria a protagonista e interpretaria uma das mulheres mais famosas da literatura mundial como faria par com Leonardo DiCaprio, na época em meteórica ascensão e objeto de desejo de praticamente todas as adolescentes que foram ao cinema ver o filme. Apesar de um grande sucesso de público, o filme não seria bem recebido pela crítica, por ambientar a história na época atual mas manter os diálogos escritos por Shakespeare - o que levava a situações bizarras, como um personagem sacando um revólver enquanto diz "usarei minha espada". Nos anos seguintes, o filme passaria a ser visto como "esquisito", e hoje não costuma ser considerado dos melhores. Danes também ficaria insatisfeita com o filme, e, segundo boatos, recusaria o papel de Rose em Titanic por não querer contracenar novamente com DiCaprio.

Mas ela continuava sendo considerada uma atriz talentosa, e logo receberia convites de dois dos maiores diretores da história do cinema, Francis Ford Coppola, que lhe deu o papel de uma esposa que era abusada pelo marido em O Homem que Fazia Chover, e Oliver Stone, que lhe deu um papel secundário em Reviravolta, ambos de 1997. No mesmo ano, ela seria convidada por Neil Gaiman para escrever a introdução da edição encadernada da minissérie em quadrinhos Morte: O Grande Momento da Vida. Em sua festa de aniversário de 18 anos, ela conheceria o cantor australiano Ben Lee, com quem namoraria até 2003. Pouco depois, ela daria uma contorversa entrevista na qual diria que Manila, a capital das Filipinas, "cheira a ratos e baratas", e lá as pessoas "não têm braços, pernas ou olhos". Essa entrevista faria com que o governo do país a considerasse persona non grata, com a atriz sendo impedida de viajar para lá e seus filmes sendo banidos de todos os cinemas filipinos; Danes já se retrataria várias vezes, pedindo desculpas e alegando ser jovem e inconsequente quando deu a declaração, mas o banimento está em vigor até hoje.

Em 1998, ela estaria em dois filmes, interpretando Cosette, em uma das muitas adaptações da obra Os Miseráveis, de Vitor Hugo, e a filha grávida de um casal de imigrantes poloneses em Casamento Polonês. No ano seguinte, 1999, ela faria sua estreia como dubladora, na versão em inglês do desenho japonês Princesa Mononoke, e seria aclamada pela crítica em duas produções que não fizeram muito sucesso com o público. A primeira foi a versão para o cinema da série de TV The Mod Squad, originalmente exibida entre 1968 e 1973, na qual ela interpretava Julie Barnes, adolescente hippie contratada para fazer parte, junto com dois rapazes, um branco e um negro, de um esquadrão especial da polícia que trabalharia infiltrado, combatendo crimes como tráfico de drogas e prostituição. A segunda seria A Viagem, na qual Danes e Katie Beckinsale são duas amigas que, durante uma viagem à Tailândia, se envolvem com um homem sedutor que na verdade é um traficante de drogas, que acaba fazendo com que elas sejam presas e passem por maus lençóis enquanto tentam se explicar.

Em 2000, ela aceitaria dois convites para fazer teatro, o primeiro para estrelar Os Monólogos da Vagina em abril, o segundo, de Bess Armstrong, que interpretava a mãe de Angela em My So-Called Life, para uma apresentação única do grande clássico Nossa Cidade em novembro. Após fazer 13 filmes em cinco anos, Danes decidiria fazer uma pausa em sua carreira e tentar uma vaga na prestigiada Universidade de Yale, onde seria aceita para cursar psicologia; na metade do curso, entretanto, ela chegaria à conclusão de que não queria ser psicóloga, e que tanto tempo parada poderia fazer com que ela não fosse mais chamada para bons papéis, decidindo abandonar a faculdade para se dedicar à carreira de atriz em tempo integral. Seu retorno aos cinemas se daria já em 2002, com duas produções: A Estranha Família de Igby e As Horas, onde interpretaria a filha de Meryl Streep. Embora recebessem críticas favoráveis, nenhum dos dois seria um grande sucesso de público.

Em 2003, ela decidiria pela primeira vez aceitar um convite para um blockbuster e interpretar a futura esposa de John Connor em O Exterminador do Futuro 3: A Rebelião das Máquinas, no qual contracenaria com Arnold Schwarzenegger. Embora o filme tenha sido um sucesso de bilheteria, seria bastante criticado, e Danes não gostaria da experiência de trabalhar em uma produção tão grandiosa, preferindo voltar aos filmes menores. No mesmo ano, ela estaria em Dogma do Amor e faria uma pequena participação em A Grande Virada.

Danes começaria 2004 estrelando A Bela do Palco, filme que não fez muito sucesso, mas hoje é considerado uma pérola a ser descoberta; seu papel é o de uma jovem atriz que trabalha como figurinista porque, na época em que o filme é ambientado, mulheres não podiam ser atrizes de teatro. Durante as filmagens, ela começaria a namorar o ator Billy Crudup, o protagonista masculino do filme; esse romance chamaria muita atenção sobre Danes, não somente por ele ser 11 anos mais velho, mas porque, na época, Crudup namorava a também atriz Mary-Louise Parker, que estava grávida de sete meses quando ele decidiu trocá-la por Danes. O namoro terminaria em 2006, e, sempre que questionada sobre ele, ela diria que "estava completamente apaixonada, ao ponto de não pensar em nenhuma consequência".

Em 2005 ela voltaria ao teatro, dessa vez com uma apresentação de dança, em Christina Olson: American Model. Essa apresentação ocorreria no Performance Space 122, teatro em Manhattan onde ela tinha se apresentado com três peças durante a infância, antes de iniciar oficialmente sua carreira de atriz. Também em 2005, Danes seria aclamada pela crítica por seu papel em A Garota da Vitrine, no qual interpretava uma jovem vendedora por quem o personagem de Steve Martin se apaixona, e teria um papel menor no confuso filme de Natal Tudo em Família. No ano seguinte, ela conheceria o ator inglês Hugh Dancy, enquanto filmava Ao Entardecer, lançado em 2007. Danes e Dancy namorariam três anos, se casariam na França em 2009, e teriam três filhos: Cyrus, nascido em 2012, Rowan, de 2018, e Lynde Jayne, de 2023.

Ela começaria 2007 retornando ao Performance Space 122, para interpretar Edith and Jenny. No final do ano, ela faria sua estreia na Broadway, interpretando Elisa Doolittle em uma montagem de Pigmaleão. Nos cinemas, ela estaria em Stardust: O Mistério da Estrela, baseado no livro de Neil Gaiman, no qual interpreta a estrela Yvaine; e em Justiça a Qualquer Preço, no qual contracenava com Richard Gere, no papel de uma jovem agente treinada por ele para assumir como uma espécie de caçadora de abusadores sexuais quando ele se aposentar. Sua última aparição no cinema antes de um longo hiato seria em Eu e Orson Welles, de 2008.

Em 2010, Danes mais uma vez arrebataria os críticos ao protagonizar o filme para a TV da HBO Temple Grandin, interpretando a cientista australiana de mesmo nome, que é autista, e tem mostrada no filme sua luta para conseguir se formar e trabalhar, até se tornar uma das maiores autoridades da Austrália em seu campo. O filme renderia um segundo Globo de Ouro para Danes, de Melhor Atriz em uma Minissérie ou Filme Feito para a Televisão - sendo indicado também ao de Melhor Minissérie ou Filme Feito para a Televisão e ao de Melhor Ator Coadjuvante em uma Minissérie ou Filme Feito para a Televisão (para David Strathairn) - e seria indicado a nada menos que 14 Emmys, ganhando os de Melhor Filme Feito para a Televisão; Melhor Atriz Principal em uma Minissérie ou Filme Feito para a Televisão (Danes); Melhor Ator Coadjuvante em uma Minissérie ou Filme Feito para a Televisão (Strathairn); Melhor Atriz Coadjuvante em uma Minissérie ou Filme Feito para a Televisão (Julia Ormond); Melhor Direção para uma Minissérie, Filme Feito para a Televisão ou Especial de Drama; Melhor Composição Musical Dramática para uma Minissérie, Filme Feito para a Televisão ou Especial; e Melhor Edição para uma Minissérie ou Filme Feito para a Televisão de Única Câmera - os demais seriam para Melhor Atriz Coadjuvante em uma Minissérie ou Filme Feito para a Televisão (Catherine O'Hara); Melhor Roteiro para uma Minissérie, Filme Feito para a Televisão ou Especial de Drama; Melhor Direção de Arte para uma Minissérie ou Filme Feito para a Televisão; Melhor Elenco para uma Minissérie, Filme Feito para a Televisão ou Especial; Melhor Cabeleireiro para uma Minissérie ou Filme Feito para a Televisão; Melhor Sequência de Abertura; Melhor Maquiagem Não-Prostética para uma Minissérie ou Filme Feito para a Televisão; e Melhor Edição de Som para uma Minissérie, Filme Feito para a Televisão ou Especial. Além de ganhar esses prêmios todos, o filme seria um grande sucesso de audiência, e a própria Grandin elogiaria a atuação de Danes.

A partir de 2011, Danes teria mais um papel de grande destaque em Homeland, ao interpretar a agente da CIA Carrie Mathison, que sofre de transtorno bipolar. Inspirada na série israelense Hatufim, nas três primeiras temporadas Homeland lida com o relacionamento de Carrie com Nicholas Brody (Damian Lewis), militar que retorna do Afeganistão após passar anos como prisioneiro de guerra e é recebido como herói nacional, com Carrie desconfiando que ele foi convertido pelos sequestradores e agora atua como espião. Com a resolução dessa história ao final da terceira temporada, a partir da quarta a série se torna "As Aventuras de Carrie", com a agente se vendo envolvida em várias situações que envolvem terrorismo internacional. Homeland teria um total de 96 episódios em 8 temporadas, exibidas entre 2 de outubro de 2011 e 26 de abril de 2020, e renderia a Danes cinco indicações ao Emmy de Melhor Atriz Principal em uma Série de Drama (dos quais ela ganharia dois) e três indicações ao Globo de Ouro de Melhor Atriz em uma Série de Televisão de Drama (dos quais também ganharia dois).

Enquanto estava em Homeland, Danes faria participações nos filmes Tão Descolada Quanto Eu (2013), As Aventuras de Brigsby Bear (2017) e Um Garoto como Jake (2018), além de participar de episódios das séries Master of None, em 2015, e Portlandia, em 2017. Em março de 2016, ela estaria no teatro, na peça Dry Powder, ao lado de John Krasinski; um ano antes, ela receberia uma estrela na Calçada da Fama de Hollywood.

Após Homeland, Danes preferiria se dedicar integralmente à televisão. Em 2022, ela estaria ao lado de Tom Hiddleston em A Serpente de Essex, drama de época baseado no livro de mesmo nome de Sarah Perry, em seis episódios exibidos entre 13 de maio e 10 de junho na AppleTV+, no papel de uma viúva que estuda misticismo e vai até Essex investigar relatos do aparecimento de uma serpente sobrenatural, se envolvendo com o pároco local e sendo apontada como culpada quando a criatura começa a fazer vítimas.

Também em 2022, ela estaria em A Nova Vida de Toby, série com 8 episódios exibidos entre 17 de novembro e 29 de dezembro no serviço de streaming Hulu, como a ex-mulher do médico Toby Fleishman (Jesse Eisenberg), que, recém-divorciado aos 40 anos, decide usar aplicativos para conseguir encontros amorosos, se envolvendo em várias confusões. O papel daria a Danes mais uma indicação ao Emmy e mais uma ao Globo de Ouro, ambos na categoria Melhor Atriz Coadjuvante em uma Série de Antologia ou Limitada ou Filme para a Televisão.

O mais recente papel de Danes foi na minissérie Círculo Fechado, exibida em 6 episódios no serviço de streaming Max entre 13 e 27 de julho de 2023, na qual um sequestro fracassado expõe segredos de vários moradores de Nova Iorque. Com nada menos que quatro Globos de Ouro na estante, todos devido a seus papéis na TV, não parece provável que ela se anime a voltar a fazer cinema. Pior para o cinema.
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domingo, 15 de maio de 2022

Escrito por em 15.5.22 com 0 comentários

Rani Mukerji

Quando eu comecei a assistir filmes indianos no Prime Video, não sabia muito bem o que estava fazendo, e não comecei pelos de Bollywood. A maioria dos que eu assistia era marata ou punjabi, e só comecei os de Bollywood quando já fazia uns seis meses que eu estava assistindo. Por causa disso, os atores que eu conhecia e identificava eram todos, digamos, regionais, como Sonalee Kulkarni, Sai Tamhankar, Gippy Grewal e Diljit Dosanjh; esse foi um dos motivos, inclusive, que me levaram a eleger Sonalee como minha favorita e escrever um post sobre ela (pensei em escrever um sobre Dosanjh também, talvez um dia).

O catálogo do Prime Video, porém, tem muito mais filmes de Bollywood do que regionais - atualmente, por exemplo, eles só têm dois filmes e uma série com Sonalee no catálogo, até os outros que eu tinha assistido estão marcados como "indisponível para sua região" - o que está fazendo com que eu veja muito mais filmes com atores como SRK, Kajol, Saif Ali Khan e Kareena Kapoor do que com os que eu conheci primeiro, o que pouco a pouco está mudando minha lista de favoritos. No momento, no topo dessa lista, está Rani Mukerji, que vai ganhar um post hoje.

Rani Mukerji nasceu em 21 de março de 1978 em Mumbai, que na época se chamava Bombaim, e foi a segunda filha do diretor e produtor de cinema Ram Mukherjee com a cantora Krishna Mukherjee, nascida Krishna Roy. O irmão mais velho de Rani, Raja Mukherjee, também é diretor e produtor de cinema; vale citar como curiosidade que, em hindi, raja significa "rei", e rani significa "rainha". Ram Mukherjee é primo de Shomu Mukherjee, também diretor e produtor de cinema e pai da atriz Kajol, o que faz com que Rani e Kajol sejam primas de seguindo grau e que Rani seja membro da famosa família Mukherjee-Samarth, uma das mais poderosas de Bollywood, na qual todo mundo é diretor, produtor, ator ou tem algum outro cargo na indústria cinematográfica indiana - antes que vocês estranhem, já que o hindi não é originalmente escrito com o nosso alfabeto, tanto Mukherjee quanto Mukerji são grafias aceitas para o sobrenome da família (e ambas são pronunciadas da mesma forma, "mucardjí"), e aparentemente cada um escolhe a que gosta mais; a irmã de Kajol, por exemplo, assim como Rani, prefere a grafia Mukerji, usando o nome Tanisha Mukerji.

A primeira oferta que Rani receberia para um papel seria aos 16 anos, em 1994, quando o diretor Hamid Ali Khan a convidaria para protagonizar seu filme Aa Gale Lag Jaa ("venha e me abrace"), um thriller policial cheio de cenas românticas. Apesar de já ter praticamente nascido com uma profissão garantida, na adolescência Rani não queria ser atriz, e, durante um tempo, pensaria em ser dançarina, se especializando na dança clássica indiana Odissi; oficialmente, ela declarava que já havia muitas atrizes em sua família e ela queria fazer algo diferente, mas, em seu íntimo, ela temia não ter a aparência e o porte necessários para brilhar em Bollywood, devido à sua altura (1,56 m), por sempre achar que estava fora do peso e brigando com a balança, e por causa de sua voz rouquinha - que hoje, ironicamente, é considerada uma de suas características distintivas e adorada por seus fãs. Ela recusaria o papel, sendo inclusive parabenizada por seu pai, que acreditava que ela era jovem demais para esse tipo de filme.

Quando Rani tinha 18 anos, porém, receberia uma nova oferta, mais uma vez para protagonista (e tem gente que diz que sobrenome não ajuda), no drama Raja Ki Aayegi Baraat ("os homens do rei estão chegando"), dirigido por Ashok Gaikwad. Ainda em dúvida, ela decidiria aceitar a sugestão de sua mãe, para que ela aceitasse alguns papéis para ver se gostava de atuar, e fizesse da atuação uma carreira secundária enquanto cursava a universidade - Rani se formaria em economia doméstica pela Universidade para Mulheres Shreemati Nathibai Damodar Thackersey. Ela aceitaria o conselho e faria sua estreia no cinema no papel de uma jovem professora que sonha com um romance perfeito que culmine em um casamento grandioso, e acaba se envolvendo com um desajustado filho de um milionário. Ram Mukherjee acompanharia as gravações e ficaria muito impressionado com o talento da filha - que, após aceitar o papel, faria um treinamento relâmpago na escola de atuação Roshan Taneja, uma das mais famosas de Bollywood - e a escalaria também para protagonizar o filme que ele estava rodando naquele ano, e que ainda não tinha atriz principal, Biyer Phool ("flores de casamento"), um drama familiar falado em bengali - que Rani não falava, tendo de ser dublada - e com distribuição restrita ao estado de Bengala Ocidental.

Por coincidência, tanto Biyer Phool quanto Raja Ki Aayegi Baraat estreariam no mesmo dia, 18 de outubro de 1996. O filme bengali faria um relativo sucesso, mas o de Bollywood seria um gigantesco fracasso; a atuação de Rani, entretanto, seria bastante elogiada pela crítica, e lhe renderia um prêmio de Reconhecimento Especial na cerimônia do Screen Awards, premiação na qual os melhores são escolhidos por membros dos próprios estúdios de Bollywood. Esse prêmio despertaria o bichinho da atuação dentro de Rani, e, quando ela visse o sucesso que sua prima Kajol estava fazendo com Dilwale Dulhania Le Jayenge ("quem tiver o coração mais puro fica com a noiva"), lançado um ano antes, decidiria se tornar atriz em tempo integral.

O primeiro papel que ela aceitaria depois dessa decisão seria o da namorada de um jovem boxeador interpretado por Aamir Khan em Ghulam ("escravo"), dirigido por Vikram Bhatt e remake de outro filme do próprio Bhatt, Kabzaa ("captura"), de 1988. O filme seria um grande sucesso de público e crítica, e uma das músicas de sua trilha sonora, Aati Kya Khandala ("venha para Khandala"), composta pela dupla Jatin-Lalit e cantada por Khan e Alka Yagnik, se tornaria um hit instantâneo e é hoje considerada uma das músicas mais famosas da história de Bollywood; seu clipe seria tão executado na TV indiana que Rani ganharia o apelido de Khandala Girl, o que contribuiria para torná-la conhecida em todo o país. Curiosamente, Bhatt, durante a pós-produção, não gostou da forma como a voz de Rani soava no filme, e contratou a atriz Mona Ghosh Shetty para dublá-la, o que foi um duro golpe em sua autoestima.

Felizmente, o convite seguinte que Rani receberia seria para interpretar a sensual, popular e extrovertida Tina - tudo o que ela achava que ela mesma não era - no gigantesco sucesso Kuch Kuch Hota Hai ("alguma coisa está acontecendo"), no qual contracenaria com Shah Rukh Khan e Kajol; Rani participa somente da primeira metade do filme, com Tina sendo a melhor amiga de Anjali (Kajol), se casando com Rahul (SRK), por quem a amiga é secretamente apaixonada, e morrendo pouco após dar a luz a uma menina, que ela decide também chamar de Anjali (Sana Saeed), à qual dá a missão, através de cartas que ela deve ler uma por ano a cada aniversário seu, de reunir novamente o casal que ela involuntariamente separou. O filme seria escrito e dirigido por Karan Johar, que escreveu o papel para a atriz Twinkle Khanna, o oferecendo a Rani por sugestão de SRK quando Khanna o recusou; Johar também pensaria em dublar Rani, mas seria convencido também por SRK a manter sua voz original. No fim, a atuação de Rani seria elogiadíssima pelos críticos, e lhe renderia um Filmfare Award, uma das principais premiações do cinema indiano, de Melhor Atriz Coadjuvante.

Ainda em 1998, Rani receberia um novo convite de Hamid Ali Khan, dessa vez para interpretar uma noiva presa a um casamento infeliz em Mehndi, e, no ano seguinte, estaria na comédia de ação Hello Brother, além de fazer uma participação especial no clipe da música Kaali Naagin Ke Jaisi ("como uma serpente negra"), trilha sonora do filme Mann ("psiquê"), no qual voltaria a contracenar com Aamir Khan. Infelizmente, nenhum desses filmes seria um sucesso comercial ou de crítica, o que faria com que o interesse dos estúdios por ela diminuísse, e ela não estivesse em nenhum filme em 1999.

Em 2000, ela estaria em nada menos que seis filmes, mas em nenhum como protagonista. Ela começaria o ano com Badal ("nuvem") e Bichhoo ("escorpião"), curiosamente ambos estrelados por Bobby Deol e ambos versões indianas de filmes estrangeiros, o primeiro de Inimigo Íntimo, de 1997, com Harrison Ford e Brad Pitt, o segundo de O Profissional, de 1994, dirigido por Luc Besson, com Jean Reno e Natalie Portman; ambos seriam fracassos de bilheteria, e em ambos os críticos diriam que Rani não deu tudo de si. Em seguida ela faria as comédias Hadh Kar Di Aapne ("você passou dos limites"), no papel de uma detetive contratada por uma mulher que desconfia que seu marido a está traindo, sem saber que ele também contratou um detetive (interpretado pelo famoso comediante indiano Govinda) por desconfiar que ela o está traindo; e Kahin Pyaar Na Ho Jaaye ("cuidado para não se apaixonar"), versão indiana estrelada por Salman Khan de Afinado no Amor, de 1998, com Adam Sandler e Drew Barrymore. Rani voltaria a contracenar com Salman Kahn na comédia romântica Har Dil Jo Pyar Karega ("todo coração que ama"), versão indiana com papéis trocados de Enquanto Você Dormia, de 1995, com Sandra Bullock, na qual Rani fazia papel de uma moça em coma e Khan o do rapaz que a salvou de ser atropelada por um trem e fingiu ser seu noivo, com Preity Zinta fechando o triângulo amoroso no papel que no filme norte-americano foi de Bill Pullman. Apesar de sua personagem passar a maior parte do filme em coma, Rani seria indicada a mais um Filmfare Award de Melhor Atriz Coadjuvante, que perderia para a lendária Jaya Bachchan.

Mas o principal papel de Rani em 2000 seria em Hey Ram, dirigido, produzido e estrelado por Kamal Haasan. O filme é uma versão parcialmente ficcional do assassinato de Mahatma Ghandi, e originalmente seria filmado em tâmil, mas acabaria se tornando uma Produção em Múltiplos Idiomas, algo que não é raro no cinema indiano atual e não era tão incomum no cinema norte-americano da década de 1930, e consiste em rodar o mesmo filme em múltiplos idiomas simultaneamente, usando os mesmos cenários e o mesmo elenco, parte do elenco do original, ou um elenco totalmente diferente; o exemplo mais famoso de Hollywood é Drácula, da Universal, de 1931, que teve as versões em inglês e espanhol filmadas simultaneamente usando os mesmos cenários mas elencos diferentes - no caso de Hey Ram, o filme acabaria tendo também o mesmo elenco, e sendo filmado simultaneamente em tâmil e hindi. Rani interpreta uma professora bengali que é estuprada e morta durante os protestos em Calcutá; para maior realismo, ela atuaria sem nenhuma maquiagem, o que foi considerado bastante corajoso pelos críticos. Hey Ram seria um fracasso de bilheteria, mas aclamado pela crítica, e escolhido o representante da Índia na disputa pelo Oscar de Melhor Filme em Língua Estrangeira.

Em 2001, Rani continuaria sendo coadjuvante, e em papéis de cada vez menos relevância: no drama Chori Chori Chupke Chupke ("secretamente e furtivamente"), ela voltaria a fazer um triângulo amoroso com Salman Khan e Preity Zinta como uma esposa que é trocada pela amante por não conseguir engravidar, em um papel muito apagado, com Zinta tendo muito mais tempo de tela que ela. Em outro drama, Bas Itna Sa Khwaab Hai ("apenas um pequeno sonho"), ela seria o interesse amoroso do personagem de Abhishek Bachchan, um rapaz do interior que vai a Mumbai estudar na universidade, e no policial Nayak ("herói"), seria a namorada de Anil Kapoor, que interpreta um cameraman que grava acidentalmente um político se envolvendo em um ato de corrupção e passa a ser perseguido. Ela fecharia o ano participando do épico familiar de três horas e meia Kabhi Khushi Kabhie Gham ("às vezes há alegria, às vezes há tristeza"), no papel da namorada do personagem de SRK, a qual ele abandona para se casar com a personagem de Kajol. Todos esses papéis levariam a um consenso na crítica de que, após Kuch Kuch Hota Hai, Rani se tornaria um talento desperdiçado em personagens irrelevantes.

Isso começaria a mudar em 2002, quando ela assinaria um contrato para gravação de três filmes como protagonista com o estúdio Yash Raj Films. O primeiro, Mujhse Dosti Karoge! ("seja meu amigo!"), escrito por Aditya Chopra, no qual ela fazia um triângulo amoroso com Hrithik Roshan e Kareena Kapoor, seria mais um grande fracasso de bilheteria, assim como duas outras comédias que ela protagonizaria naquele ano por outros estúdios, em ambas contracenando com Govinda, Pyaar Diwana Hota Hai ("o amor é louco"), no qual ela fazia a moça pela qual o personagem dele, que era analfabeto, ingênuo e facilmente manipulável, se apaixonava, e Chalo Ishq Ladaaye ("vamos nos apaixonar"), no qual ela interpretava uma atriz de Bollywood e ele seu fã número 1, convencido por ela a matar seu namorado (Sanjay Suri). Mas aí, em dezembro, viria seu segundo filme pela YRF, Saathiya ("companheiro"). Refilmagem do filme Alaipayuthey ("as ondas estão vindo"), Saathiya é um dramalhão daqueles bem choroso, no qual Rani e Vivek Oberoi interpretam um casal apaixonado, mas que vive um casamento cheio de problemas conjugais e muitas brigas. O filme seria um sucesso estrondoso - com orçamento de 75 milhões de rúpias, renderia 291 milhões - e renderia a Rani uma indicação ao Filmfare Award de Melhor Atriz, que ela não ganharia - mas sua interpretação seria considerada tão poderosa que ela acabaria levando um prêmio especial, de "Melhor Atriz Escolhida pelos Críticos".

2003 pareceria ser mais um ano morno, com Rani participando de Chori Chori ("silenciosamente"), refilmagem de Como Agarrar um Marido, de 1992, com Steve Martin e Goldie Hawn, no qual contracenava com Ajay Devgn, o marido de Kajol, substituindo Kareena Kapoor, que teria de desistir do papel por conflito de agenda; Calcutta Mail, suspense no qual ela interpretava uma escritora que está fazendo pesquisa para seu novo livro e acaba se envolvendo com um homem misterioso interpretado por Anil Kapoor; e fazendo duas participações especiais, em um dos números musicais de Kal Ho Naa Ho ("o amanhã pode nunca chegar"), dirigido por Johar e estrelado por SRK e Zinta; e como a namorada de um militar no épico LOC: Kargil, que retratava a guerra entre a Índia e o Paquistão pelo controle da Caxemira em 1999. Mas nesse ano ela também estaria em Chalte Chalte ("a caminho"), último filme da Dreamz Unlimited, produtora fundada por SRK, que também o protagonizava; as publicações especializadas da época apontavam Aishwarya Rai como a estrela do filme, e noticiaram que ela foi desligada após brigar com seu então namorado Salman Khan no set de filmagem, com SRK sugerindo Rani para substituí-la, mas, em entrevistas posteriores ao lançamento do filme, SRK diria que Rani sempre havia sido sua primeira escolha para o papel. Chalte Chalte seria mais um grande sucesso, e renderia a Rani mais uma indicação ao Filmfare Award de Melhor Atriz, sendo considerado pela crítica como responsável por seu retorno ao primeiro time de Bollywood.

Em 2004 Rani meteria os dois pés na porta, se tornando a única atriz da história do cinema indiano ao ganhar o Filmfare Award de Melhor Atriz e o de Melhor Atriz Coadjuvante na mesma edição da premiação. O de Coadjuvante ela ganharia por Yuva ("juventude"), sobre três rapazes de diferentes classes sociais que vivem em Kolkata, cujas vidas se entrelaçam após um acidente de trânsito. Rani viveria uma dona de casa que era abusada pelo marido (Abhishek Bachchan), e diria ter se baseado em uma das moças que trabalhavam em sua casa, que uma vez lhe confessou também ser abusada; ela prestaria atenção nos modos e maneirismos da moça, e tentaria imitá-los com sua atuação. Em entrevistas a respeito do filme, ela declararia esperar que seu papel servisse para encorajar outras mulheres indianas que sofriam abusos nas mãos de seus maridos a denunciá-los. A atuação de Rani seria aclamada pela crítica, que a elegeria como a melhor do elenco, e diria que, mesmo o papel sendo tão exigente, ela corresponderia ao que se esperava em todos os aspectos.

Já o prêmio de Melhor Atriz ela receberia por Hum Tum ("eu e você"), seu terceiro filme pela YRF, na qual ela fazia par romântico com Saif Ali Khan, que interpretava um cartunista bon vivant. Ele se interessa por ela, mas ela, uma mulher forte e independente, não tem o menor interesse em se envolver com alguém como ele; os dois passam, então, por várias idas e vindas ao longo do filme, até descobrirem que, na verdade, têm muito em comum. Hum Tum seria um dos filmes de maior sucesso da YRF até então - com orçamento de 85 milhões de rúpias, renderia quase 427 milhões - e, além do Filmfare Award de Melhor Atriz para Rani, renderia um de Melhor Diretor para Kunal Kohli, um de Melhor Comediante para Ali Khan, um de Melhor Playback Singer Feminina para Alka Yagnik - que cantava a música-tema do filme, também chamada Hum Tum, que se tornaria uma das mais tocadas no ano e uma das mais famosas de Bollywood - e um National Film Award, o prêmio mais importante do cinema indiano, de Melhor Ator para Ali Khan. Curiosamente, apesar de ser uma comédia romântica sem nenhuma cena de espionagem, Hum Tum é considerado parte oficial do YRF's Spy Universe, uma espécie de Universo Cinematográfico no qual vários filmes de ação da YRF são ambientados.

Rani ainda faria mais um filme pela YRF em 2004, dessa vez como coadjuvante, no papel de uma advogada que defende um militar indiano (SRK) que se apaixona por uma moça paquistanesa (Zinta) e é acusado de espionagem em Veer-Zaara, e que se tornaria a maior bilheteria do ano na Índia, rendendo nada menos que 976,4 milhões de rúpias e uma segunda indicação para Rani ao Filmafare Awards de Melhor Atriz Coadjuvante - infelizmente, ela só podia ganhar um. Curiosamente, o roteiro previa que o advogado fosse um homem, mas SRK, que parece ser uma espécie de padrinho de Rani para conseguir bons papéis, convenceria a YRF de que o filme seria mais interessante se fosse uma mulher, e a sugeriria para o papel; Yash Chopra, dono do estúdio e diretor do filme, que já havia se impressionado com Rani em Saathiya, aceitaria a sugestão e ordenaria a mudança.

Rani começaria 2005 mais uma vez fazendo cair o queixo dos críticos ao interpretar uma moça cega e surda que recebe a ajuda de um alcóolatra (Amitabh Bachchan, uma das maiores lendas de Bollywood, com quem ela já havia contracenado em Kabhi Khushi Kabhie Gham) para aprender a se comunicar em Black, dirigido por Sanjay Leela Bhansali. O filme se tornaria o quinto da história (após Guide, de 1965, Devdas, de 2002, e os já citads Dilwale Dulhania Le Jayenge Kuch Kuch Hota Hai) a ganhar os quatro prêmios principais do Filmfare Awards (Melhor Filme, Melhor Diretor, Melhor Ator e Melhor Atriz), além de estabelecer um recorde de 11 estatuetas (somente quebrado em 2019, quando Gully Boy levaria 13) e de ganhar dois National Film Awards, o de Melhor Filme em Hindi e de Melhor Ator. Rani não somente ganharia seu segundo Filmfare Award de Melhor Atriz como se tornaria a única atriz na história a ganhar, na mesma cerimônia, o de Melhor Atriz Escolhida pelos Críticos - que, aparentemente, acharam que um prêmio só não seria suficiente por sua atuação, considerada de outro mundo. Para se preparar para o papel, que entraria para a lista das 80 Interpretações mais Icônicas do Cinema Indiano da Filmfare, Rani aprenderia a língua indiana de sinais no Instituto Helen Keller, em Mumbai.

Para quem achava que Rani já tinha gastado toda sua atuação, ela ainda receberia uma segunda indicação ao Filmfare Award de Melhor Atriz de 2005 pelo papel de uma trambiqueira em Bunty Aur Babli ("Bunty e Babli"), mais uma produção da YRF, na qual ela contracenava novamente com Amitabh e Abhishek Bachchan (que são pai e filho; Abhishek é filho de Jaya Bachchan, que é esposa de Amitabh), e que seria a segunda maior bilheteria do ano na Índia. Seu filme seguinte, Paheli ("a charada"), remake do filme Duvidha, de 1973, no qual ela contracenava mais uma vez com SRK, no papel de uma moça pela qual um fantasma se apaixona, seria um fracasso de bilheteria, mas aclamado pela crítica, que descreveria sua atuação como perfeita, e seria escolhido como representante da Índia na disputa pelo Oscar de Melhor Filme em Língua Estrangeira. Ainda em 2005, ela faria uma participação em Mangal Pandey: The Rising, filme sobre a vida do soldado indiano que iniciou a Rebelião de 1857, no papel de uma prostituta pela qual Pandey (interpretado por Aamir Khan) se apaixona.

Em 2006, Rani receberia um convite da cineasta Mira Nair para participar do filme britânico The Namesake, mas recusaria para trabalhar mais uma vez com Johar, SRK, Zinta e os dois Bachchan homens em Kabhi Alvida Naa Kehna ("nunca diga adeus"), que se tornaria o filme de Bollywood com maior bilheteria fora da Índia em todos os tempos, no qual ela interpretava uma órfã que se casa com seu melhor amigo de infância (Abhishek Bachchan) e acaba tendo um caso com um jogador de futebol que tem de abandonar a carreira após sofrer um acidente (SRK). Apesar de sua personagem ser alvo do ódio das plateias, sua atuação seria mais uma vez elogiadíssima, e lhe renderia mais uma indicação ao Filmfare Award de Melhor Atriz. Também em 2006, ela estaria em Baabul (palavra usada para nomear o amor de um pai por seus filhos), um drama familiar no qual ela contracenaria mais uma vez com Amitabh Bachchan, que dividiria a crítica e não seria bem sucedido nas bilheterias.

Depois dessa, digamos, sequência vitoriosa, a carreira de Rani começaria a entrar em declínio. Ela começaria 2007 fazendo Ta Ra Rum Pum, no papel da esposa de um piloto da Nascar (Saif Ali Khan) que fica com medo de correr após um acidente; esse seria o primeiro papel no qual ela retrataria uma mãe, e se diria bastante animada com a experiência, se inspirando em sua própria mãe para compor a personagem. O filme seria um sucesso de público, mas massacrado pela crítica, que consideraria o roteiro fraco e os personagens unidimensionais. Em seguida, ela estaria no drama Laaga Chunari Mein Daag ("meu véu está manchado"), no papel de uma jovem que tem de se prostituir para sustentar a família, que lhe renderia mais uma indicação ao Filmfare Award de Melhor Atriz; apesar disso, o filme seria bastante criticado, com os críticos sendo unânimes em considerar que a atuação de Rani é a única coisa que vale a pena nele, e não teria boa bilheteria.

Em seu filme seguinte, Saawariya ("meu amado"), ela voltaria a interpretar uma prostituta, dessa vez como coadjuvante e narrando o caso de amor entre os protagonistas, interpretados por Ranbir Kapoor (filho de Rishi Kapoor com Neetu Singh) e Sonam Kapoor (filha de Anil Kapoor). O filme seria bastante aguardado por ser a estreia de ambos, que gerariam expectativa por serem a segunda geração de duas famílias de atores famosos, por ser o primeiro filme indiano produzido por um estúdio de Hollywood (Sony Pictures), e por ser o último filme de duas grandes atrizes de Bollywood que faleceram durante sua produção, Zohra Sehgal e Begum Para; ele acabaria sendo considerado um balde de água fria, extremamente criticado, e um desastre de bilheteria - com orçamento de 310 milhões de rúpias, renderia apenas 390 milhões. A atuação de Rani, porém, mais uma vez se destacaria, sendo considerada "divina" pelos críticos, e lhe renderia mais uma indicação ao Filmfare Award de Melhor Atriz Coadjuvante. A ser perguntada porque aceitaria dois papéis seguidos "tão semelhantes", ela argumentaria que as personagens não tinham nada a ver uma com a outra, com a de Laaga Chunari Mein Daag sendo prostituta por necessidade e a de Saawariya por opção, inclusive gostando do que fazia.

A série de insucessos faria com que os convites rareassem, e as duas aparições seguintes de Rani seriam participações especiais em números musicais, dos filmes Om Shanti Om e Rab Ne Bana Di Jodi ("um par criado por Deus"), ambos estrelados por SRK. Ela acabaria aceitando um papel em uma comédia infantil, Thoda Pyaar Thoda Magic ("um pouco de amor, um pouco de mágica"), como um anjo que vem à Terra ajudar quatro crianças cujos pais foram mortos pelo milionário Ranbir Talwar (Saif Ali Khan) em um acidente automobilístico, com o juiz determinando que Ranbir deveria criá-las então. O filme seria mais um fracasso de crítica e público, com os críticos declarando que nem Rani conseguiu salvá-lo. Esse novo fracasso faria com que os convites para Rani desaparecessem, e que ela perdesse vários contratos de publicidade.

Após aparecer como ela mesma em uma pequeniníssima ponta no filme Luck by Chance, de 2009, Rani decidiria se submeter a um pedido da YRF e fazer algo com o qual ela nunca havia concordado antes: perder peso para fazer papel de gostosona. E ela só aceitaria porque seria para uma comédia na qual ela passaria a maior parte do tempo vestida de homem: Dil Bole Hadippa! ("o coração grita hadippa!, que é uma expressão de felicidade em hindi usada, especialmente, por torcedores durante partidas esportivas), também de 2009, no qual ela interpreta uma jovem artista circense de uma cidade do interior que sonha em ser jogadora de críquete, mas sua única chance de conseguir uma vaga no time é fingindo ser um homem - o que se complica quando ela se apaixona pelo treinador (Shahid Kapoor), que acaba se tornando o melhor amigo de sua "versão masculina". O filme seria um novo fracasso de público e crítica, com alguns críticos declarando que ela não conseguiria ser engraçada nem como mulher, nem como homem.

Já com mais de 30 anos e em uma encruzilhada na carreira, Rani aceitaria um convite para ser jurada no reality show Dance Premier League, apenas para se manter em visibilidade, enquanto tomava uma decisão arriscada, mas que, no futuro, se mostraria extremamente acertada: ela evitaria tanto quanto possível os papéis tradicionais em filmes de drama e romance que a tornaram conhecida até então, dando preferência a filmes nos quais pudesse interpretar mulheres fortes e independentes. Isso faria com que ela passasse todo o ano de 2010 sem gravar um único filme, mas também com que voltasse ao estrelato em 2011 em grande estilo: em No One Killed Jessica, inspirado na história real do assassinato da modelo indiana Jessica Lal em 1999, escrito e dirigido por Raj Kumar Gupta, Rani interpretaria uma jornalista que ficou obcecada pelo caso, investigando-o até que os verdadeiros culpados fossem punidos, nada menos que oito anos depois do crime, o que levaria a uma grande reformulação no sistema judiciário e penal indianos; a personagem de Rani é fictícia, e representa um amálgama de vários jornalistas que cobriram o caso. O filme ficaria famoso por não ter nenhum homem em papel de destaque - a protagonista é Vidya Balan no papel de Sabrina Lal, a irmã de Jessica, que empreende uma verdadeira cruzada para tentar colocar os assassinos na cadeia - e renderia a Rani seu terceiro Filmfare Award de Melhor Atriz Coadjuvante. O sucesso do filme também renderia a Rani um convite para repetir o papel da jornalista em um dos episódios de CID, a mais famosa série policial da TV indiana, no ar desde 1998.

Ser mais criteriosa também faria com que Rani, apesar de voltar a receber muitos convites, fizesse bem menos filmes nos anos seguintes - em 2012, por exemplo, ela faria apenas dois. O primeiro seria mais um grande fracasso de público e crítica, Aiyyaa (expressão que significa algo como "minha nossa"), no qual ela interpretava uma bibliotecária com olfato super desenvolvido que se apaixonava por um artista plástico (Prithviraj Sukumaran) que não lhe dava a menor bola. O segundo, porém, seria um grande sucesso: Talaash ("a busca"), no qual ela interpretava a esposa de um detetive (Aamir Khan) que se envolve com uma prostituta (Kareena Kapoor) enquanto investiga uma série de assassinatos misteriosos; o detalhe é que o papel de Rani era de uma mãe em luto, já que, alguns anos antes, o filho do casal havia morrido em um acidente, após o qual o casal se tornou distante, o detetive amargurado, e a mãe inconformada e obcecada por encontrar uma razão para sua perda. Talaash renderia a impressionante marca de 1,74 bilhão de rúpias, se tornando o oitavo filme mais rentável da história da Índia - e um dos mais caros, já que seu orçamento foi de 500 milhões de rúpias - e a interpretação poderosa de Rani lhe renderia mais uma indicação ao Filmfare Award de Melhor Atriz Coadjuvante.

Em 2013, Rani participaria de apenas um projeto, Bombay Talkies, um filme composto por quatro episódios independentes, que tinham como única coisa em comum suas histórias serem ambientadas em Mumbai. O episódio de Rani seria dirigido por Johar, e nele ela interpretaria uma jornalista que, ao investigar uma história, descobriria acidentalmente que seu marido (Randeep Hooda) é secretamente homossexual. O filme seria um sucesso moderado, mas a atuação de Rani mais uma vez seria extremamente elogiada pelos críticos; vale citar que Bombay Talkies seria exibido no Festival de Cannes, se tornando um dos poucos filmes indianos a serem escolhidos para a mostra.

Em 2014, Rani interpretaria uma das personagens mais famosas de sua carreira, a policial Shivani Shivaji Roy, que tenta desbaratar uma quadrilha de traficantes de meninas ligada a uma rede de prostituição infantil em Mumbai em Mardaani ("corajosa"). Ela se prepararia para o papel passando seus dias em uma delegacia de Mumbai e acompanhando os policiais em vários casos nas ruas, além de treinar krav magá; o resultado seria uma interpretação que, sem deixar de mostrar o lado terno da policial, que se envolve com a investigação após descobrir que uma das vítimas é uma amiga de sua filha, transborda força física e psicológica, e que surpreenderia os críticos, acostumados a vê-la no papel da mocinha sofredora. Dirigido por Pradeep Sarkar, Mardaani seria um grande sucesso de público e crítica, e renderia a Rani sua oitava indicação ao Filmfare Award de Melhor Atriz.

Também em 2014, ela daria um novo passo em sua vida pessoal: após um número jamais especificado de anos de namoro, já que ela sempre manteve sua vida pessoal separada da profissional e longe do escrutínio da mídia, Rani se casaria com o produtor de cinema Aditya Chopra, filho de Yash Chopra, em uma cerimônia particular na Itália. O namoro e casamento de Rani seriam tema de múltiplas reportagens fervorosas das revistas de fofoca indianas, embora tanto ela quanto ele sempre tenham se recusado a tornar públicos detalhes do relacionamento. No ano seguinte, ela daria luz à sua primeira (e, até agora, única) filha, Adira. Após o nascimento de Adira, ela decidiria dar um tempo em sua carreira de atriz para se dedicar à família, e ficaria quatro anos sem se envolver com nenhum projeto; inicialmente ela decidiria ficar cinco, mas seria convencida a deixar sua "aposentadoria" por seu marido, que a ofereceria o papel principal em Hichki (a onomatopeia indiana para um soluço).

Baseado na autobiografia do professor e pesquisador norte-americano Brad Cohen, portador de uma forma severa da Síndrome de Tourette, Hichki, de 2018, traz Rani como uma jovem de Mumbai que sonha em ser professora, mas nunca é contratada por ter Tourette. Ela acaba conseguindo um emprego de professora substituta na mesma escola onde estudou, mas para pegar a pior turma de todas, formada por alunos que moram em uma favela e não têm interesse nenhum nos estudos. Para se preparar para o papel, ela passaria horas conversando com Cohen, e treinaria para que os tiques nervosos da personagem parecessem espontâneos, e não ensaiados - o diretor Siddharth P. Malhotra daria liberdade para que ela fizesse os tiques sempre que quisesse, sem que os momentos nos quais eles apareciam estivessem previstos no roteiro. Com orçamento de 200 milhões de rúpias, Hichki renderia 591 milhões na Índia, mas 2,15 bilhões quando somada a bilheteria internacional, a maior parte desse valor vindo da China, país onde as produções de Bollywood não costumam ser grandes sucessos. A interpretação de Rani seria mais uma vez aclamada, e lhe renderia mais uma indicação ao Filmfare Award de Melhor Atriz.

Ainda em 2018, Rani faria uma participação como ela mesma em Zero, o controverso filme no qual SRK interpreta um anão. Em 2019, ela voltaria a interpretar Shivani Shivaji Roy em Mardaani 2, escrito e dirigido por Gopi Puthran, que foi o roteirista do primeiro filme. Dessa vez, Roy, transferida para o Rajastão e promovida a Superintendente de Polícia na cidade de Kota, investiga uma série de assassinatos brutais dos quais as vítimas são sempre jovens bonitas. O assassino é o sociopata Sunny (Vishal Jethwa), que, após ver Roy na televisão, decide fazer com ela um jogo de gato e rato. Rani mais uma vez treinaria pesado para o papel, mas manteria a ternura que Roy tinha no primeiro filme, mostrando-a agora conturbada por estar longe de sua família e por enfrentar um criminoso tão cruel. Essa interpretação lhe renderia sua décima indicação ao Filmfare Award de Melhor Atriz, número que poucas atrizes de Bollywood já conseguiram alcançar. O filme também seria mais um grande sucesso de bilheteria - com orçamento de 210 milhões de rúpías, renderia 1,7 bilhão - o que faria com que a YRF já encomendasse uma sequência, que deveria ter suas filmagens iniciadas em 2020, mas seria adiada por causa da pandemia.

Também devido à pandemia, 2020 não teria nenhum lançamento com Rani nos cinemas. Ela voltaria às telas, interpretando mais uma vez a trambiqueira Babli, em 2021, com Bunty aur Babli 2. Seu mais recente trabalho, que estreará em breve, é Mrs. Chaterjee vs Norway, filmado na Estônia e inspirado na história real de uma mãe indiana que teve de recorrer à justiça recuperar seus filhos, apreendidos pelo equivalente norueguês do Conselho Tutelar e entregues à adoção sem seu consentimento.

Assim como outras celebridades indianas, Rani é envolvida com várias causas sociais. Ela é uma das embaixadoras da Shiksha, ONG dedicada à educação infantil, e fundadora do Stroke Treatment Fund, que arrecada fundos para auxiliar no tratamento de pacientes que sofrem derrames. Ela costuma comemorar seu aniversário fazendo visitas-surpresa; em 2004 e 2014 a comemoração foi junto a soldados aquartelados no Rajastão, próximo à fronteira com o Paquistão, e em 2006 ela celebrou junto com crianças deficientes que estudavam no Instituto Helen Keller. Um ano antes, ela participaria de um show beneficente, ao lado de vários outros atores e atrizes de Bollywood, cuja renda foi revertida para o Centro Nacional de Promoção e Emprego para Pessoas Deficientes. Em 2014, devido à sua participação em Mardaani, Rani seria convidada para um jantar que arrecadaria fundos para combater o abuso infantil e ajudar suas vítimas, na qual foi homenageada pelo Príncipe Charles.

Tendo começado como "a prima da Kajol" e passado por uma fase "bonita, mas esquisita", na qual as revistas especializadas em cinema chamavam mais atenção para o fato de ela ser "gordinha, baixinha e ter a voz de quem parece que está se recuperando de uma gripe forte" do que para a qualidade de suas atuações, Rani hoje é considerada uma das maiores atrizes de Bollywood, celebrada por seu talento, versatilidade, e por aceitar sem medo papéis que outras atrizes do primeiro time não querem nem chegar perto - aqueles nas quais as personagens fazem sexo fora do casamento, fumam, bebem, falam palavrões, coisas que ainda são extremamente malvistas na Índia quando feitas por uma mulher. Ela também é conhecida por sua obsessão pelas personagens que interpreta; diretores que trabalharam com ela disseram em entrevistas que ela chegava a se reunir com eles um mês antes do início das gravações, querendo saber tudo sobre as personagens, incluindo detalhes muitas vezes considerados irrelevantes, como "como ela foi criada" e "que tipo de sotaque ela tem" - isso sem falar na extrema dedicação na preparação para o papel, da qual eu citei exemplos ao longo do texto.

O imenso talento de Rani já é reconhecido mundialmente, com ela tendo recebido em 2013 um prêmio especial da Embaixada dos Estados Unidos na Índia por sua contribuição para o cinema indiano; em 2015 um da Universidade de Mumbai por sua contribuição à indústria de Bollywood; em 2017 um do Governo de Maurício por sua contribuição ao cinema como um todo; e em 2018 o prêmio de Excelência em Cinema no Festival Cinematográfico de Melbourne, na Austrália.
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domingo, 20 de março de 2022

Escrito por em 20.3.22 com 0 comentários

SRK & Kajol

O Prime Video me fez fã de filmes indianos. E, como todo fã, eu já escolhi meus preferidos. De um deles, Kuch Kuch Hota Hai, eu gostei tanto que decidi que, na minha lista, ele seria o numero um - e, depois disso, me deu vontade de escrever um post sobre ele. Como não havia muito o que se falar, eu decidi fazer um post duplo, combinando-o com outro do qual gostei muito, e que tem o mesmo casal como protagonista. Enquanto desenvolvia o post, decidi levá-lo em uma outra direção, fazendo-o predominantemente sobre o casal, e falando sobre esses dois filmes no meio do texto. Hoje, portanto, é dia de SRK & Kajol no átomo!

SRK é como o ator Shah Rukh Khan (algumas vezes grafado Shahrukh Khan) costuma ser chamado pela mídia indiana. Nascido em uma família muçulmana em Nova Délhi, em 2 de novembro de 1965, Khan foi o segundo filho de Meer Taj Mohammed Khan, engenheiro que se mudou de Peshawar para Nova Délhi quando ocorreu a Partição, que resultou em parte do território indiano se transformar no Paquistão (com Peshawar ficando do lado paquistanês), após ter lutado ativamente pela independência da Índia, inclusive se filiando e concorrendo a deputado pelo partido chamado Congresso Nacional Indiano, e de Lateef Fatima, filha de um engenheiro que trabalhava para o governo indiano, nascida em Hyderabad, que se mudou para Nova Délhi logo após a independência, quando seu pai foi transferido para lá. Após se casar, Mohammed Khan teria vários negócios próprios, sendo o mais bem sucedido deles um restaurante, o que permitiria à família levar uma vida de classe média alta, inclusive com SRK estudando em um colégio particular católico, o St. Columbia, onde se destacaria como atleta, no hóquei e no futebol.

SRK pretendia ser jogador de hóquei, mas uma lesão faria com que ele tivesse de se afastar dos treinos por seis meses, durante os quais ele substituiria as aulas de educação física pelas de teatro. Ele seria extremamente elogiado por seus professores e colegas, principalmente por suas imitações de atores de Bollywood. Mohammed Khan, que faleceria de câncer em 1981, não via futuro na carreira de ator, e pediria para que SRK procurasse ter também uma profissão com diploma universitário; por causa disso, após concluir o colégio, ele se matricularia na Universidade de Délhi, onde se formaria em economia. Sua paixão, entretanto, era mesmo o teatro, e, paralelamente à universidade, ele tinha aulas no Delhi's Theatre Action Group, com um dos mais prestigiados diretores de teatro da Índia, Barry John. Após concluir a universidade, ele começaria um mestrado em comunicação na Jamia Millia Islamia, universidade islâmica localizada em Nova Délhi; em 1991, contudo, sua mãe faleceria, vítima de complicações de diabetes, e SRK decidiria abandonar o mestrado para cuidar de sua irmã mais velha, Shahnaz Lalarukh, que desenvolveu depressão - os dois moram juntos até hoje, na mansão do ator em Mumbai.

Após a morte de sua mãe, SRK também decidiria se casar com sua namorada de longa data, Gauri Chibber, a quem conheceu na universidade enquanto ele cursava economia e ela estudava moda, e que hoje é a decoradora preferida das estrelas de Bollywood. O casal ainda está junto, e tem três filhos, Aryan, nascido em 1997, Suhana, nascida em 2000, e Abram, nascido de inseminação artificial em uma barriga de aluguel em 2013. Aryan se formou em cinema pela universidade californiana USC, e planeja se tornar roteirista e diretor, enquanto Suhana quer seguir os passos do pai e se tornar atriz, tendo feito sua estreia em 2019 em um curta-metragem. Gauri é de ascendência punjabi e segue o hinduísmo; o casal se casaria em uma cerimônia tradicional hindu, mas SRK não se converteria, ainda professando o islamismo. Segundo ele, seus filhos são livres para seguir qualquer uma das duas religiões, que coexistem em harmonia em sua casa, onde há um altar para os deuses hindus no qual está colocada uma cópia do Corão.

A estreia de SRK como ator não seria no teatro, e sim na televisão, após ele passar em um teste para a série Dil Dariya ("o rio do coração"), que começaria a ser gravada em 1988; atrasos na produção fariam com que outra série, Fauji, na qual ele também atuou, estreasse antes, se tornando sua estreia oficial. Em Fauji ("soldado"), SRK interpretava um jovem tenente durante o treinamento de um grupo recém-alistado de soldados do exército indiano; seu sucesso nessa série faria com que ele fosse convidado para papéis semelhantes em outras séries, em algumas por apenas um episódio, e até lhe renderia um convite para fazer cinema, que ele recusaria por acreditar não estar pronto. Ele só aceitaria fazer cinema após a morte de sua mãe, como uma forma de lidar com o luto; no final de 1991, ele, a esposa e a irmã se mudariam para Mumbai, após SRK assinar contrato para nada menos que quatro filmes.

Seu primeiro papel em Bollywood seria no filme de estreia da famosa atriz Hema Malini como diretora, Dil Aashna Hai ("o coração sabe a verdade"), de 1992, no qual ele interpretava um rapaz que ajudava a namorada, adotada, a descobrir quem era sua verdadeira mãe. O filme seria um sucesso moderado, mas a atuação de Divya Bharti, a protagonista, também estreante em Bollywood, mas vinda de uma carreira no cinema telugo, seria bastante elogiada, bem como a química entre ela e SRK. O segundo filme de SRK seria Deewana ("obessão"), no qual Bharti também era a protagonista, e também dirigido por um estreante, Raj Kanwar. No filme, a personagem de Bharti fica viúva, e logo em seguida o de SRK se apaixona por ela, mas ela reluta em aceitar o relacionamento. Esse filme seria um gigantesco sucesso, e catapultaria tanto SRK quanto Bharti para o estrelato, com ambos ganhando o Filmfare Award, um dos principais prêmios do cinema indiano, de Melhor Ator Revelação e Melhor Atriz Revelação. Infelizmente, em abril de 1993, Bharti cairia da sacada de seu apartamento em Mumbai e faleceria, aos 19 anos; o diretor Sajid Nadiadwala, com quem ela se casou exatos 11 meses antes, chegaria a ser investigado por assassinato, mas a polícia concluiria que a queda foi acidental.

Voltando a SRK, após o sucesso de Deewana, choveriam convites para que ele participasse dos mais variados filmes, com logo seu terceiro sendo seu primeiro como protagonista, Chamatkar ("milagre"), também de 1992, no qual ele interpretava um rapaz recém-formado que tentava realizar o sonho de seu falecido pai de construir uma escola para crianças carentes em seu vilarejo. Ainda em 1992, ele estaria na comédia Raju Ban Gaya Gentleman ("Raju se torna um cavalheiro"), inspirada no filme norte-americano O Segredo do Meu Sucesso. A partir desses dois filmes, para se destacar em meio a outros atores jovens de Bollywood, SRK passaria a sempre atuar como que se ligado na tomada, com todos os seus personagens sendo atléticos e cheios de energia e entusiasmo; ele mesmo sugeriria cenas nas quais os personagens andavam de bicicleta, praticavam snowboarding, viravam cambalhotas, escorregavam pelo corrimão das escadas e outros atos semelhantes. A estratégia daria certo, e logo os roteiristas estariam escrevendo personagens elétricos especialmente para ele.

Mas já em 1993 SRK daria uma guinada em sua carreira, para não ficar marcado como um ator de um personagem só, e passaria a aceitar somente papéis de vilão ou anti-herói. Ele seria um assassino em Baazigar ("o apostador"), um amante que enreda uma mulher num relacionamento abusivo em Darr ("medo"), e faria uma cena de nu frontal em Maya Memsaab ("a ilusão de maya"), algo ousadíssimo no cinema indiano ainda hoje, e impensável naquela época, tanto que a cena seria censurada em quase todas as exibições. Baazigar seria o primeiro filme no qual SRK faria par romântico com Kajol, da qual vamos falar em breve, lhe renderia seu primeiro Filmfare Award de Melhor Ator, e seria um choque para as plateias e os críticos, porque ele era o protagonista, e protagonistas jamais cometiam assassinatos em filmes de Bollywood.

Em 1994, ele faria a comédia romântica Kabhi Haan Kabhi Naa ("às vezes sim, às vezes não"), no papel de um músico apaixonado, atuação considerada por ele mesmo e por muitos críticos como a melhor de sua carreira; ele seria indicado mais uma vez ao Filmfare Award de Melhor Ator, mas perderia para o veterano Nana Patekar - talvez como compensação, receberia um Filmfare Award de "Melhor Ator Escolhido pelos Críticos". No mesmo ano, ele faria mais um amante obsessivo em Anjaam ("consequências"), que lhe renderia um Filmfare Award de Melhor Vilão. Em 1995, ele faria sete filmes, incluindo o curioso filme de ação Karan Arjun, no qual SRK, que mais uma vez fazia par romântico com Kajol, e Salman Khan (da série Tiger) eram dois estranhos que, na verdade, eram a reencarnação de dois irmãos traídos e assassinados no passado. Karan Arjun seria um enorme sucesso de crítica e público, se tornando a segunda maior bilheteria do ano na Índia, atrás apenas de Dilwale Dulhania Le Jayenge.

Dilwale Dulhania Le Jayenge ("quem tiver o coração mais puro fica com a noiva") é centrado em dois indianos que cresceram em Londres. A família de Simran Singh (Kajol) é pobre, com seu pai, Baldev (Amrish Puri) sendo dono de uma lojinha de conveniência. Sua mãe, Lajwanti (Farida Jalal), criou Simran e a irmã, Chutki (Pooja Ruparel), para serem mulheres fortes e independentes, mas não tem coragem de ir contra os desejos do marido, extremamente tradicionalista, que incluem casar Simran com Kuljeet (Parmeet Sethi), filho de seu melhor amigo, Ajit (Satish Shah), com quem tratou todos os detalhes do casamento quando os noivos ainda eram crianças e a família Singh morava na Índia. Para que o casamento se consume, Simral, que está prestes a concluir seus estudos na universidade, terá de se mudar para a Índia e abrir mão de sua carreira, duas coisas que ela não aceita. Para tentar dobrar a vontade da filha, Baldev concorda em deixar que ela viaje com as amigas em um passeio de trem por toda a Europa, que será seu presente de formatura, ao fim do qual eles voltarão para a Índia para o casamento. Nessa viagem, ela conhecerá o irresponsável e brincalhão Raj Malhotra (SRK), que foi criado pelo pai viúvo e riquíssimo, Dharamvir (Anupam Kher), e só quer saber de curtir a vida. Evidentemente, os dois se apaixonam - não sem antes se odiarem - e Raj passa a ter a missão de melar o casamento de Simran para poder ficar com ela.

Com estreia em 20 de outubro de 1995, Dilwale Dulhania Le Jayenge é uma comédia romântica de 189 minutos - três horas e nove minutos! - o que não é incomum para a Índia, um país no qual ir ao cinema é um programa para uma tarde inteira, e no qual cada sala tem no máximo três exibições por dia, com a média de duração de um filme de Bollywood sendo de duas horas e vinte minutos. Por serem tão longos, esses filmes têm um intervalo no meio, de cerca de 15 minutos, durante o qual os espectadores podem ir ao banheiro, comer e esticar as pernas; normalmente, as partes que vêm antes e depois do intervalo também são bem distintas, como se fossem dois filmes, um continuação do outro: aqui, a primeira parte apresenta Simran e Raj, mostra como eles se conheceram e sua viagem pela Europa, enquanto a segunda é ambientada na Índia, onde está sendo preparado o casamento de Simran e para onde Raj vai para tentar impedi-lo.

Dilwale Dulhania Le Jayenge foi a estreia na direção de Aditya Chopra, que também foi responsável por seu roteiro, e que é filho de Yash Chopra, um dos mais famosos produtores de cinema da Índia e um dos donos do estúdio que o produziu, a Yash Raj Films. Filmado na Índia, na Inglaterra e na Suíça, o filme teria orçamento de 400 milhões de rúpias, e renderia, só na Índia, 1,06 bilhão (mais ou menos 32 milhões de dólares na época), mais 160 milhões no exterior, se tornando o filme indiano mais rentável de 1995 e um dos mais rentáveis de toda a história - Dilwale Dulhania Le Jayenge seria apenas o segundo filme de Bollywood a ultrapassar a marca do bilhão, após Hum Aapke Hain Koun ("quem sou eu para você?"), de 1994, que renderia 1,27 bilhão. Sua trilha sonora, composta pelos irmãos Jatin e Lalit Pandit, e que contava com quatro canções da maior cantora da história da Índia, Lata Mangeshkar (que fazia a voz cantada de Simran, com a voz cantada de Raj ficando com Udit Narayan), seria um dos álbuns de maior vendagem no ano no país, com 20 milhões de cópias vendidas, cerca de 1 milhão antes mesmo da estreia do filme.

O filme também seria elogiadíssimo pela crítica, que destacaria seu retrato de diferentes seguimentos da sociedade - as famílias de Simran, Raj e Kuljeet são de três classes sociais distintas - e sua mensagem sobre a importância da família e de seguir seu próprio coração; Simran se tornaria um modelo não somente para outros personagens fictícios, mas também para várias moças indianas que tentavam provar para seus pais que poderiam se casar por amor ao invés de terem de se submeter a casamentos arranjados. O núcleo de sua história - rapaz tenta impedir casamento arranjado de moça pela qual está apaixonado - se tornaria um verdadeiro clichê em Bollywood, e inspiraria vários outros filmes, incluindo alguns da própria Yash Raj. Um elemento que seria considerado por muitos como o principal fator para o sucesso do filme é que Raj faz de tudo para convencer o pai de Simran a aceitar que ela se case com ele, quando o normal em filmes indianos até então era que os apaixonados fugissem e se casassem contra o desejo de suas famílias.

Dilwale Dulhania Le Jayenge seria indicado a nada menos que 14 Filmfare Awards, ganhando dez, um recorde na época, incluindo Melhor Filme, Melhor Diretor, Melhor Roteiro, Melhor Ator para SRK e Melhor Atriz para Kajol. Na cerimônia do National Film Awards, o prêmio mais importante do cinema indiano, ele receberia a estatueta de Melhor Filme para Toda a Família, e no Screen Awards, equivalente ao Globo de Ouro na Índia, ganharia os de Melhor Filme, Melhor Diretor e Melhor Ator. Dilwale Dulhania Le Jayenge seria eleito um dos "10 filmes de Bollywood que você precisa assistir antes de morrer" pelo jornal The Times of India, e seria um dos três filmes indianos a serem listados no livro 1001 Filmes Para Ver Antes de Morrer, com os outros dois sendo Mother India (1957) e Deewaar ("o muro", 1975). Ele é hoje considerado o filme de maior sucesso da história da Índia: quando de sua estreia, todas as salas de cinema de Mumbai, exceto uma, ficaram com lotação esgotada durante toda a primeira semana; em São Francisco, Estados Unidos, a procura foi tanta que o único cinema que o estava exibindo, que planejava ter apenas uma sessão por dia, teve de aumentar para duas; e no Reino Unido ele ficaria em cartaz por um ano. Mas talvez o mais impressionante seja que, na Índia, ele ficaria em cartaz durante 1251 semanas ininterruptas, com o cinema Maratha Mandir, em Mumbai, o exibindo do dia de sua estreia até 16 de março de 2020 - e somente o tirando de cartaz porque teve de fechar devido à pandemia.

Após esse início bombástico, a carreira de SRK passaria a ter altos e baixos. Seus quatro filmes lançados em 1996 seriam grandes fracassos de bilheteria, mas seus dois principais filmes de 1997, a comédia romântica Yes Boss e o drama Pardes ("terra estrangeira"), dirigido, escrito e produzido por Subhash Ghai, seriam grandes sucessos de crítica e público. Filmado nos Estados Unidos, Canadá e Índia, Pardes, no qual SRK interpreta um jovem que cresceu na América e tem de voltar à Índia para um casamento arranjado tendo dificuldades para se adaptar, seria um dos primeiros filmes de Bollywood a fazer sucesso nos Estados Unidos, rendendo 1,7 milhão de dólares. Em 1998, mais dois fracassos de bilheteria, incluindo um filme de terror, e um gigantesco sucesso, Kuch Kuch Hota Hai, sobre o qual eu vou dar detalhes em breve. Em 1999, ele faria apenas um filme, Baadshah (algo como "o chefão"), uma comédia na qual ele interpreta uma espécie de Inspetor Bugiganga, um detetive que faz uso de vários equipamentos bizarros para solucionar crimes; o filme seria bastante bem recebido pela crítica, inclusive lhe rendendo uma indicação ao Filmfare Award de Melhor Ator, mas seria um gigantesco fracasso de público - mesmo assim, seria a origem de um dos apelidos pelos quais SRK costuma ser chamado, "o Baadshah de Bollywood".

No final dos anos 1990, devido a suas participações em comédias românticas, SRK era considerado um ídolo adolescente, mesmo já estando à beira dos 35 anos, com seus filmes atraindo milhares de menininhas apaixonadas, o que fazia com que a maioria dos papéis oferecidos a ele fossem para esse tipo de filme. SRK se sentia incomodado com isso, e, junto com a atriz Juhi Chawla e o diretor Aziz Mirza, decidiria fundar uma produtora chamada Dreamz Unlimited. Sua primeira produção, Phir Bhi Dil Hai Hindustani ("e ainda assim, o coração é indiano"), lançado em 2000, no qual ele interpretava um repórter sem papas na língua que uma rival tentava tirar do ar, seria um gigantesco fracasso de crítica e público, assim como o segundo, Asoka, de 2001, um épico que contava de forma romanceada a vida do Imperador Asoka, que governou a Índia entre os anos 268 e 232 a.C., que foi caríssimo e concorreu nos festivais de cinema de Veneza e Toronto. Incapaz de viver apenas de suas próprias produções, ele continuaria fazendo filmes para outros estúdios, como a comédia romântica Mohabbatein (algo mais ou menos equivalente ao nosso "amar de paixão"), de 2000, e o drama familiar Kabhi Khushi Kabhie Gham ("às vezes há alegria, às vezes há tristeza"), de 2001, um épico de três horas e meia no qual interpretava um jovem rico que desafiava a família para se casar com uma moça pobre, interpretada por Kajol. Em 2002, ao lado de Aishwarya Rai, uma das mais famosas atrizes de Bollywood, ele estrelaria Devdas, filme ambientado na virada do século XIX para o XX no qual SRK interpretava um alcóolatra cujo pai envia para Londres com o sonho de que ele se torne advogado; o filme seria um sucesso colossal de crítica e público, ganhando nada menos que dez Filmfare Awards, incluindo um de Melhor Ator para SRK, e um BAFTA, o maior prêmio da indústria do cinema do Reino Unido, de Melhor Filme em Língua Estrangeira.

No final de 2001, enquanto gravava o filme de ação Shakti ("poder"), ele sofreria uma queda que faria com que ele sentisse dores horríveis na coluna, sendo diagnosticado com hérnia de disco, e tendo de suspender todas as suas gravações para 2002. Ele tentaria retornar a gravar em janeiro de 2003, mas, seguindo com as dores, teve de se submeter a uma cirurgia, e só pôde retomar a carreira em junho. Seu primeiro filme após esse retorno seria o drama Kal Ho Naa Ho ("o amanhã pode nunca chegar"), no qual interpretava um homem com uma doença terminal; ambientado em Nova Iorque, o filme seria a segunda maior bilheteria na Índia naquele ano. Ainda em 2003, devido a divergências criativas, ele decidiria abandonar a Dreamz Unlimited e fundar uma nova produtora, a Red Chillies Entertainment, com sua esposa Gauri como sócia e produtora. Seu primeiro filme, Main Hoon Na ("eu não sou"), estreia da atriz Farah Khan (que não é parente de SRK) como roteirista e diretora, no qual SRK interpreta um oficial do exército indiano envolvido em uma troca de prisioneiros com o Paquistão, seria um grande sucesso de público e crítica, se tornando o segundo filme de maior bilheteria da Índia no ano - o primeiro seria outro com SRK, Veer-Zaara, no qual ele interpreta um piloto da Força Aérea Indiana que se apaixona por uma garota paquistanesa e acaba ficando preso por 22 anos no Paquistão, acusado de espionagem.

Em 2006, SRK estaria no drama Kabhi Alvida Naa Kehna ("nunca diga adeus"), o filme de Bollywood com maior bilheteria fora da Índia em todos os tempos, no qual ele interpretava um jogador de futebol frustrado por ter de abandonar a carreira após um atropelamento. No ano seguinte, ele faria mais um filme ligado a esportes, Chak De! India (algo como "manda ver, Índia!"), no qual ele é um jogador de hóquei que caiu em desgraça após ser acusado de entregar um jogo de propósito para o Paquistão, e, para se redimir, aceita treinar a seleção feminina, repleta de jogadoras que se odeiam e não querem jogar juntas, e está prestes a disputar o Campeonato Mundial; com um elenco multi-étnico - pois as jogadoras vêm de todas as regiões da Índia - o filme seria extremamente elogiado pela crítica por abordar de forma sensível temas como racismo, feminismo e preconceito regional, rendendo a SRK mais uma Filmfare Award de Melhor Ator. Em 2008, ele estaria em Rab Ne Bana Di Jodi ("um par criado por Deus"), no qual contracenava com Anushka Sharma, hoje uma das mais famosas atrizes de Bollywood, mas na época uma estreante, no papel de um homem tímido que cria uma segunda personalidade para ter coragem de cortejá-la. Ainda em 2008, ele recusaria o papel que ficaria com Anil Kapoor em Quem Quer Ser um Milionário? para poder gravar My Name is Khan, drama lançado em 2010 que lida com como os muçulmanos passaram a ser tratados nos Estados Unidos após os ataques do 11 de Setembro, que lhe rendeu seu oitavo Filmfare Award de Melhor Ator, tornando-o o recordista da premiação, empatado com Dilip Kumar.

A pedido de seus filhos, em 2011 SRK estrelaria o filme de super-heróis Ra.One, no qual ele interpreta um desenvolvedor de videogames que cria um vilão que escapa para o mundo real, e o herói criado por esse mesmo desenvolvedor para detê-lo; o filme seria o mais caro da história da Índia, com orçamento de 1,25 bilhão de rúpias, e, apesar das críticas negativas, seria um sucesso de bilheteria. No ano seguinte, ele voltaria às comédias românticas com Jab Tak Hai Jaan ("enquanto eu viver"), contracenando com Katrina Kaif e Anushka Sharma, um sucesso moderado. Em 2013 ele estaria em mais uma produção da Red Chillies, Chennai Express, que recebeu muitas críticas pela forma como retratou o Sul da Índia, mas foi um grande sucesso de bilheteria, principalmente fora da Índia. Essa seria uma constante na carreira de SRK a partir de então, com a comédia de ação Happy New Year (2014), a comédia Dilwale ("coração puro", 2015), o drama Dear Zindagi (2016), e o policial Raees ("rico", 2017), todos sendo massacrados pela crítica, mas tendo rendimentos excelentes na bilheteria.

Por outro lado, seus dois mais recentes filmes, além de extremamente criticados, foram grandes fracassos de bilheteria: Jab Harry Met Sejal ("quando Harry conheceu Sejal"), da Red Chillies, de 2017, que, apesar do título, não tem nada a ver com a comédia norte-americana Harry & Sally: Feitos Um para o Outro (cujo título original é When Harry Met Sally), na qual SRK interpreta um guia turístico em Amsterdam que se apaixona pela personagem de Anushka Sharma, a quem inicialmente está ajudando a encontrar seu anel de noivado, que perdeu durante a viagem; e Zero, de 2018, no qual, acreditem ou não, ele interpreta um anão que se apaixona pelo personagem de Katrina Kaif. Uma das maiores críticas que SRK recebe é que ele já passou dos 50 anos, mas segue fazendo filmes de romance tendo como par atrizes bem mais jovens - Anushka Sharma, seu par romântico mais frequente depois de Kajol (são sete filmes com Kajol, cinco com Anushka), tem 33.

Além de ator, SRK é cantor, frequentemente se apresentando ao vivo ao lado de outros cantores e cantoras indianos desde 1997; ele seria um dos primeiros artistas indianos a se apresentar fora da Índia, ao fazer uma turnê pelo Reino Unido, Canadá e Malásia em 1998. Embora não faça mais séries de TV, ele é presença frequente em vários programas de sucesso da TV indiana, como entrevistado, jurado ou até mesmo apresentador. Ele também é dono de um time de críquete, o Kolkata Knight Riders, que joga na India Premier League, principal competição de T20 do planeta. Assim como outras celebridades indianas, ele é envolvido com várias causas sociais, sendo embaixador dos programas Water Supply and Sanitation Collaborative Council, National AIDS Control Organisation, e diretor da Make-A-Wish Foundation indiana, além de todo ano doar milhões de rúpias para causas como evitar a mortalidade infantil, aumentar a presença das crianças indianas na escola, e, recentemente, combater a pandemia de covid-19.

Com mais de 80 filmes e uma centena de premiações no currículo, incluindo o Padma Shri, uma das mais importantes honras conferidas pelo governo indiano, a qual ganhou em 2005, SRK é considerado não somente o maior ator indiano de todos os tempos, mas uma das maiores celebridades mundiais fora dos Estados Unidos - onde ele é referenciado, humoristicamente, como "a pessoa mais famosa da qual você nunca ouviu falar". Na Ásia, ele é mais famoso até do que celebridades norte-americanas, com uma pesquisa feita em 2011 indicando que, naquele continente, mais gente era capaz de citar filmes com SRK do que com Tom Cruise. O fã-clube oficial de King Khan, como ele é chamado pelos fãs, tem mais de um bilhão de membros, e, todos os anos, em datas como seu aniversário, entre 10 e 20 mil desses fãs se aglomeram em frente ao portão de sua casa em Mumbai, apenas para vê-lo chegar na varanda e dar um tchauzinho.

Agora vamos falar de Kajol, o nome artístico de Kajol Devgn, nascida Kajol Mukherjee em 5 de agosto de 1974 em Mumbai, que na época se chamava Bombaim, filha do diretor e produtor de cinema Shomu Mukherjee com a atriz Tanuja Samarth. A família Mukherjee-Samarth é uma das mais poderosas de Bollywood: Joy Mukherjee e Deb Mukherjee, irmãos de Shomu, são produtores; Ayan Mukerji, filho de Deb, é diretor; Sashadar Mukherjee, pai de Shomu, Joy e Deb e avô de Kajol, foi cineasta e fundador de um estúdio de cinema; e três primos de Kajol, Rani Mukerji, Sharbani Mukherjee e Mohnish Bahl, além de sua irmã, Tanisha Mukerji, também são atores - aliás, vale dizer que tanto Mukherjee quanto Mukerji são grafias aceitas para o nome da família, e aparentemente cada um escolhe a que gosta mais. Nesse cenário, era claro, desde cedo, que a moça também iria enveredar pelo cinema, jamais pensando em fazer outra coisa da vida.

Os pais de Kajol se separariam quando ela tinha apenas cinco anos, e ela e Tanisha seriam criadas pela avó materna, Shobhna Samarth, que também era atriz, diretora e produtora, além de ser filha de outra grande atriz, Rattan Bai. Kajol era uma espoleta, sempre se metendo em confusões e em brigas com os meninos; para tentar controlá-la, sua mãe a matricularia em um colégio interno e religioso, o St. Joseph's Convent School, na cidade de Panchgani. Quando ela tinha 16 anos, foi participar de uma sessão de fotos com o fotógrafo Gautam Rajadhyaksha, que estava escrevendo um roteiro para um filme do diretor Rahul Rawail, e, ao saber que ela era da família Mukherjee-Samarth, a convidou para um teste. Ela acabaria ficando com o papel, e, inicialmente, planejaria voltar aos estudos após as gravações; Kajol gostaria tanto de atuar, porém, que decidiria abandonar a escola para se tornar atriz em tempo integral - decisão que foi apoiada por sua mãe, mas da qual ela, hoje, diz se arrepender.

A estreia de Kajol seria no drama Bekhuji ("insensatez"), lançado em 1992, no qual ela contracenava com sua mãe, escalada após ela ganhar o papel, e com outro ator estreante, Kamal Sadanah, no qual ela interpretava uma moça que se apaixona por um rapaz e tem de enfrentar a família para ficar com ele. O filme seria um fracasso de bilheteria, mas a atuação de Kajol seria elogiada pelos críticos, e renderia a ela um convite para atuar no grande sucesso Baazigar ao lado de SRK, no papel de uma moça que se apaixona pelo assassino de sua irmã sem saber que foi ele quem cometeu o crime. No ano seguinte, 1994, ela estrelaria o dramalhão Udhaar Ki Zindagi ("vida em dívida"), no papel de uma órfã que vai morar com os avós; o filme seria mais um fracasso de bilheteria, e o papel seria tão extenuante para Kajol que ela decidiria que a partir de então só aceitaria atuar em comédias românticas ou papéis minúsculos, pois terminaria as gravações à beira de um colapso nervoso.

Curiosamente, seria essa decisão que a colocaria no papel responsável por alavancar sua carreira, o da jovem Sapna no filme Yeh Dillagi (algo como "isso é uma piada"). Versão indiana do clássico Sabrina, o filme trazia Kajol no papel de uma moça pobre disputada por dois rapazes ricos, um trabalhador, o outro um bon vivant, seria um gigantesco sucesso de bilheteria, renderia à atriz sua primeira indicação ao Filmfare Award de Melhor Atriz, e faria com que toda a Índia comentasse sua beleza - até então, ela era vista como uma menina sapeca, mas, após a transformação de Sapna, muitos diretores passariam a convidá-la para interpretar mulheres bonitas, fortes e independentes. Seria assim que ela chegaria a seus dois filmes seguinte com SRK, ambos de 1995, Karan Arjun e Dilwale Dulhania Le Jayenge, pelo qual ela ganharia seu primeiro Filmfare Award de Melhor Atriz. Entre os dois, ela faria três filmes que seriam fracassos de bilheteria, dois deles com seu futuro marido, Ajay Devgn - e, curiosamente, a crítica atribuiria o fracasso dos filmes à falta de química entre o casal.

Em 1997, Kajol surpreenderia Bollywood ao aceitar o papel de uma assassina serial psicopata em Gupt ("segredo"), sendo extremamente elogiada por sua atuação. No mesmo ano, ela voltaria aos filmes de romance em Hameshaa ("eterno"), no qual formava com Saif Ali Khan um casal que se encontrava em várias reencarnações. Ela também aceitaria interpretar uma estudante que sonha entrar para um convento e se tornar freira, mas que tem um amigo que é apaixonado por ela desde a infância e contrata um guru para convencê-la a desistir, no filme tâmil Minsara Kanavu ("sonho elétrico"); o filme seria um musical, e Kajol teria muita dificuldade com as cenas de dança, tendo de repetir as coreografias várias vezes - além disso, como ela não fala tâmil (ela é fluente "somente" em inglês, hindi, bengali e marata), teve de ser dublada pela atriz Revathi. O filme seria um grande sucesso na parte tâmil da Índia, mas sua versão dublada em hindi seria um fracasso. Para fechar 1997, ela faria Ishq ("amar"), comédia romântica na qual interpretava a namorada pobre de um rapaz rico cuja família não aceitava o romance, e que foi uma das maiores bilheterias do ano.

Em 1998, ela faria o papel de duas irmãs gêmeas em Dushman ("inimigo"): uma é estuprada e morta, e a outra tenta encontrar o assassino para se vingar. Esse filme enlouqueceria os críticos, que elogiariam efusivamente a atuação de Kajol; ao ler o roteiro, porém, ela quase não o aceitaria, só o fazendo após a produção garantir que ela teria uma dublê de corpo para a cena do estupro. Em seguida, ela estaria simplesmente nas três maiores bilheterias do ano, três filmes indicados para o Filmfare Award de Melhor Filme. Em Pyaar Kiya To Darna Kya ("por que ter medo de amar alguém?"), ela seria uma menina órfã do interior cujo irmão tenta "proteger" de potenciais namorados. Em Pyaar To Hona Hi Tha ("o amor está prestes a acontecer"), ela seria uma moça que cresceu em Paris e volta à Índia para um casamento arranjado, mas acaba se apaixonando por outro homem (interpretado por Devgn). E, em Kuch Kuch Hota Hai, ela contracenaria com sua prima, Rani Mukerji, e mais uma vez com SRK.

Kuch Kuch Hota Hai ("alguma coisa está acontecendo") é a história de Rahul (SRK) e Anjali (Kajol), que se conheceram na universidade e se tornaram melhores amigos. Anjali é o que em inglês é chamado de tomboy, uma menina que não se interessa por "coisas de menina", como vestidos e maquiagem, gosta de praticar esportes e age como se fosse um menino; por causa disso, mesmo ela sendo completamente apaixonada por Rahul, ele nunca percebeu, já que a vê como um de seus amigos homens. Um dia, Rahul se apaixona por Tina (Rani Mukerji), a filha do reitor (Anupam Kher), que vem transferida de Londres, e logo se torna amiga de Anjali. Envergonhada e se sentindo incapaz de competir com a amiga, que é linda, sexy e extrovertida, Anjali volta para sua cidade natal no interior, deixando o caminho livre para que Rahul e Tina se casem. Só que Tina morre de complicações no parto, ao dar a luz a uma menina que ela decide chamar também de Anjali, e para quem decide deixar oito cartas, uma para que ela leia a cada ano em seu aniversário. A pequena Anjali (Sana Saeed), então, é criada por seu pai e por sua avó (Farida Jalal), e a cada ano espera ansiosamente por seu aniversário, pois conhece intimamente a mãe através das cartas. Na oitava e última, Tina revela à filha a história da outra Anjali, e pede para que ela ajude Rahul e Anjali a ficarem juntos. A menina, então, descobre que sua homônima estará trabalhando em uma colônia de férias, e faz de tudo para que sei pai a matricule. Seu plano, evidentemente, é fazer com que Rahul e Anjali fiquem juntos, mas ela possui um grande obstáculo: após anos rejeitando vários noivos, Anjali finalmente aceitou se casar, com o rico e bem-sucedido Aman Mehra (Salman Khan) - e o casamento ocorrerá poucos dias após o fim da colônia de férias.

Escrito e dirigido por Karan Johar, que foi assistente de Aditya Chopra durante as filmagens de Dilwale Dulhania Le Jayenge, Kuch Kuch Hota Hai estrearia em 16 de outubro de 1998, e logo se tornaria um grande sucesso: com orçamento de 100 milhões de rúpias, renderia 8,7 milhões apenas no dia da estreia, 27,4 milhões apenas no primeiro fim de semana, e mais de 800 milhões somente na Índia, com sua bilheteria total chegando a 1,06 bilhão de rúpias ao ser adicionada a bilheteria internacional. Kuch Kuch Hota Hai seria o filme mais assistido do ano na Índia, o primeiro filme indiano a render mais de 5 milhões de dólares em bilheteria internacional, o filme de Bollywood com a maior bilheteria internacional até então, e o terceiro filme de Bollywood a render mais de 1 bilhão de rúpias - embora tenha sido o primeiro a precisar da bilheteria internacional para chegar a esse número. Houve uma grande expectativa pelo filme, pois seria a primeira vez em que SRK e Kajol atuariam juntos desde Dilwale Dulhania Le Jayenge, e seria a estreia como diretor e roteirista de Johar, que já era um nome famoso em Bollywood, o que fez com que 240 cinemas o pré-reservassem, um recorde na época.

A trilha sonora ficaria mais uma vez a cargo dos irmãos Jatin e Lalit Pandit, com Udit Narayan mais uma vez fazendo a voz cantada do personagem de SRK, Rahul; a voz cantada de Tina seria de Kavita Krishnamurthy, e a de Anjali ficaria com Alka Yagnik, que também gravaria a versão solo da elogiadíssima música-título. Kuch Kuch Hota Hai seria uma produção da Dharma Productions, que, após seu sucesso, transformaria os primeiros acordes dessa música-título no tema oficial de seu logotipo, aquele que aparece antes de seus filmes - mais ou menos como a fanfarra da 20th Century Fox. A Dharma era, então, um estúdio pequeno, e a maior parte da equipe do filme era inexperiente, com SRK tendo de ajudar com dicas sobre posicionamento de câmeras e questões técnicas de equipamentos de filmagem. Apesar disso, as filmagens ocorreriam sem problemas, e se encerrariam em nove meses e meio; Kuch Kuch Hota Hai seria o primeiro filme indiano a ter cenas gravadas na Escócia e nas Ilhas Maurício, e teria a maior parte de suas cenas ambientadas na Índia gravadas no estado de Tamil Nadu, o que também não era normal para um filme de Bollywood - que até hoje costumam ser filmados em Délhi ou Mumbai.

Com 185 minutos de duração, Kuch Kuch Hota Hai também é dividido em duas partes, mas começa com Tina já morta, contando os eventos ocorridos na universidade em flashback enquanto a pequena Anjali lê sua oitava carta; o filme retorna ao presente pouco antes do intervalo, com a segunda parte lidando com a colônia de férias e o casamento da Anjali mais velha. Curiosamente, a crítica, quando de seu lançamento, não se mostrou muito empolgada, dizendo que era apenas um filme legalzinho de romance; a atuação de Kajol, porém, seria elogiadíssima, com todos concordando que ela rouba o filme toda vez que aparece. Apesar da recepção morna da crítica, Kuch Kuch Hota Hai seria indicado a um recorde de 18 Filmfare Awards; ganharia oito, inclusive sendo o primeiro filme da história a ganhar os quatro prêmios de atuação: Melhor Ator (SRK), Melhor Atriz (Kajol), Melhor Ator Coadjuvante (Salman Khan) e Melhor Atriz Coadjuvante (Rani Mukerji) - os outros quatro seriam os de Melhor Diretor, Melhor Roteiro, Melhor Direção de Arte e o mais cobiçado, o de Melhor Filme. Assim como Dilwale Dulhania Le Jayenge, ele ganharia o National Film Award de Melhor Filme para Toda a Família, com Alka Yagnik ganhando também o National Film Award de Melhor Playback Singer Feminina pela versão solo da música-título.

Voltando a Kajol, no início de 1999, ela interpretaria uma secretária que aceita se casar com o filho do patrão por dinheiro, mas acaba se apaixonando por ele, em Hum Aapke Dil Mein Rehte Hain ("eu vivo em seu coração"), remake de um filme telugo que seria um grande sucesso. Logo depois, Kajol e Devgn se casariam, o que causaria grande rebuliço na imprensa especializada, que considerou um erro ela se casar no auge da carreira, e frequentemente acusava o ator de ter casos extraconjugais, o que ela sempre considerou "fofocas às quais ela não dá atenção" - ela raramente fala sobre seu casamento em entrevistas, porém, e, quando perguntada sobre o motivo, diz que seria uma perda de tempo. Kajol e Devgn teriam um casal de filhos: Nysa, nascida em 2003, e Yug, nascido em 2010.

Após o casamento, sua carreira entraria numa espiral descendente. Ela recusaria o papel de esposa do personagem de Devgn na comédia romântica de 1999 Dil Kya Kare ("o que deve fazer o coração?"), preferindo interpretar sua amante (com a esposa ficando com Mahima Chaudhry), por achar que o papel de esposa não traria nenhum desafio; o filme seria um fracasso de crítica e público, e o roteiro seria bastante criticado. Em Raju Chacha ("tio Raju"), de 2000, ela interpretava a governanta de uma família rica, que é enganada por um trambiqueiro que finge estar apaixonado por ela mas está de olho no dinheiro dos patrões; produzido por Devgn, que também interpretava o trambiqueiro, o filme seria um dos mais caros da história da Índia e um grande fracasso, com o roteiro sendo considerado fraco e raso. Em 2001 ela estaria em Kuch Khatti Kuch Meethi ("um pouco azedo, um pouco doce"), mais uma vez interpretando irmãs gêmeas, dessa vez separadas no nascimento, numa comédia considerada fraca e sem graça, com baixa bilheteria. Ela conseguiria se redimir com Kabhi Khushi Kabhie Gham, com o qual ganharia seu terceiro Filmfare Award de Melhor Atriz; seu papel exigia que ela falasse punjabi, mas, ao invés de ser dublada, ela pediria ajuda a um professor do idioma para decorar e repetir as frases com perfeição, mesmo sem saber o que estava dizendo,  que faria com que ela ganhasse pontos com a crítica, e que se destacasse em meio a um elenco de peso-pesados que contava com SRK, Amitabh Bachchan, Jaya Bachchan, Hrithik Roshan e Kareena Kapoor.

Logo após terminarem as filmagens de Kabhi Khushi Kabhie Gham, Kajol anunciaria que passaria a ser mais seletiva em sua escolha de papéis, para se dedicar ao casamento - deixando claro que não estava se aposentando. Ela só voltaria a filmar, entretanto, cinco anos depois, quando estaria em Fanaa ("destruída"), no papel de uma moça cega da Caxemira que se apaixona por um guia turístico sem saber que ele também é um terrorista separatista; o filme seria um grande sucesso de público e crítica, com Kajol, que pediu para que ele não fosse anunciado como seu "retorno", fazendo sua estreia como cantora, interpretando duas canções, e ganhando mais um Filmfare Award de Melhor Atriz. Em 2007, ela começaria a gravar o épico Ramayana, que teria problemas durante as filmagens e jamais seria lançado. No ano seguinte, ela interpretaria uma mulher que sofre de Mal de Alzheimer em U Me Aur Hum ("você, eu e nós"), a estreia de Devgn na direção, que seria um fracasso de bilheteria, mas bem recebido pela crítica. Seu papel seguinte de destaque seria como a esposa do personagem de SRK em My Name is Khan, de 2010, papel que lhe renderia seu quinto Filmfare Award de Melhor Atriz, recorde na categoria empatada com Nutan, que era irmã de Tanuja, e, portanto, tia de Kajol. Ainda em 2010, ela estaria em We Are Family, remake do filme norte-americano Lado a Lado, que seria um sucesso moderado no qual sua atuação (interpretando a personagem que no original foi de Susan Sarandon) seria extremamente elogiada, e em Toonpur Ka Superrhero, filme que misturava atores e animação por computação gráfica que foi um retumbante fracasso de público e crítica, no qual ela interpretava uma desenhista presa em um mundo que ela mesma criou.

Após o nascimento de seu segundo filho, Kajol ficaria mais cinco anos fora das telas, retornando em Dilwale, de 2015, como a filha de um mafioso que se apaixona pelo filho de um rival (interpretado por SRK); o filme seria massacrado pela crítica, mas teria excelente bilheteria. No mesmo ano, ela estrearia como produtora, ao lado do marido, no drama Vitti Dandu, filmado em marata e que retratava o relacionamento entre um avô e um neto no ano da independência de Índia. Em 2017, ela seria a dona de uma construtora em Velaiilla Pattadhari 2 ("recém-formado e desempregado 2"; o título é também uma brincadeira com a sigla VIP), no qual antagonizava o jovem engenheiro interpretado por Dhanush e protagonista também do primeiro filme, de 2014; o filme era falado em tâmil, mas mais uma vez Kajol preferiria decorar e repetir as frases ao invés de ser dublada, sendo extremamente elogiada pela equipe de produção por seu esforço. O filme também seria recebido mal pelos críticos, mas se sairia extremamente bem nas bilheterias, principalmente nas regiões que falam tâmil. Infelizmente, não seria o caso da comédia Helicopter Eela, de 2018, na qual ela interpretava uma mãe superprotetora (conhecidas na Índia como "helicopter mothers"), e que seria um fracasso tanto de crítica quanto de público.

Em 2020, Kajol voltaria a estar em evidência. Ela começaria o ano contracenando com Devgn e Saif Ali Khan no épico Tanhaji, sobre a vida do líder do Império Marata; o filme seria o mais rentável do ano na Índia, e sua atuação seria muito elogiada. Em seguida, ela faria o curta de suspense Devi, sobre nove mulheres presas em um quarto, vencedor do Filmfare Awards de Melhor Curta. Ela terminaria o ano fazendo seu primeiro filme para a Netflix, Tribhanga ("clã"), sobre as relações entre três mulheres de gerações diferentes, avó, mãe e filha. Kajol, SRK, Rani Mukerji, Anupam Kher e Farida Jalal também atuariam como dubladores em Koochie Koochie Hota Hai, versão em animação de Kuch Kuch Hota Hai com animais antropomórficos ao invés de seres humanos, dirigido por Tarun Mansukhani; originalmente, o filme seria lançado em 2008 para comemorar os dez anos de Kuch Kuch Hota Hai, mas sucessivos atrasos na produção fariam com que ele só fosse lançado em 2021, oficialmente para comemorar os 20 anos do original.

Assim como SRK, Kajol é envolvida com várias ações humanitárias, sendo embaixadora da Shiksha e da Pratham, ONGs indianas devotadas à educação infantil, e do Loomba Trust, organização devotada a apoiar viúvas e órfãos na Índia e ao redor do mundo. Ela também faz doações regulares ao Cancer Patients Aid Association, e sua atuação junto ao Governo de Maharashtra (estado indiano onde se localiza Mumbai) para a proteção das meninas na infância e adolescência, inclusive com a produção de um documentário chamado Save the Girl Child, lhe renderia os importantes prêmios Karmaveer Puraskar e Swabhimani Mumbaikar. Também como SRK, ela receberia o Padma Shri, por sua contribuição ao cinema indiano, em 2011.

Pra terminar de vez, a lista dos sete filmes que SRK e Kajol fizeram juntos: Baazigar (1993), Karan Arjun (1995), Dilwale Dulhania Le Jayenge (1995), Kuch Kuch Hota Hai (1998), Kabhi Khushi Kabhie Gham (2001), My Name is Khan (2008) e Dilwale (2015); Kajol também faria aparições especiais em números musicais de três filmes de SRK, Kal Ho Naa Ho (2003), Om Shanti Om (2007) e Rab Ne Bana Di Jodi (2008).
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