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sábado, 8 de agosto de 2026

Escrito por em 8.8.26 com 0 comentários

Hanna-Barbera (I)

Quando eu era criança, eu adorava os desenhos da Hanna-Barbera, mais do que os da Disney. Ao escrever o post sobre os Flintstones, eu tive que pesquisar algumas coisas sobre a Hanna-Barbera, e acabei ficando com vontade de escrever um post sobre eles também. Assim, hoje é dia de Hanna-Barbera no átomo!

Outro dia eu li alguém falando que, quando era criança, imaginava que o Zé Colmeia e outros personagens tinham sido criados por uma mulher chamada "Hanna Barbera"; embora eu até ache que esse engano seja comum, na verdade o estúdio foi fundado por dois homens, William Denby Hanna e Joseph Roland Barbera, ambos nascidos nos Estados Unidos.

Hanna nasceu em Melrose, no então Território do Novo México, em 14 de julho de 1910. Seu pai, William John Hanna, um imigrante irlandês, trabalhava como supervisor na construção de uma estrada de ferro, o que faria com que a familia se mudasse com frequência, até se estabelecer na Califórnia em 1919. Terceiro de sete filhos, ele chegaria a cursar a faculdade de jornalismo, mas acabaria tendo de abandonar para trabalhar durante a Grande Depressão. Ele arrumaria um trabalho na construção do Pantages Theatre, em Hollywood, depois em um lava-carros, e, indicado por um namorado de uma de suas irmãs, iria trabalhar na Pacific Title and Art desenhando intertítulos, aqueles cartazes que aparecem em filmes mudos com as falas dos personagens. Lá, seu talento para desenhar ficaria evidente, e ele receberia uma proposta para trabalhar na Harman and Ising, onde seria rapidamente promovido a chefe do departamento de tinta e pintura, aos 20 anos de idade. Hanna trabalharia em desenhos das séries Merry Melodies e Looney Tunes, e, em 1936, dirigiria seu primeiro desenho, The Spring, encomendado pela MGM para sua série Happy Harmonies. No ano seguinte, a MGM decidiria criar seu próprio estúdio de animação, e ofereceria uma das vagas a Hanna, que seria escolhido como diretor para a série Os Sobrinhos do Capitão, adaptação da tira de jornal de mesmo nome. A série não faria sucesso e seria cancelada após poucos episódios, mas a MGM decidiria manter Hanna, dando a ele um cargo de roteirista.

Já Barbera, filho de imigrantes sicilianos, nasceu em Nova Iorque, no bairro conhecido como Little Italy, em 24 de março de 1911. Seu pai era dono de três barbearias, mas era viciado em jogo, e perdeu tudo. Quando Barbera tinha 15 anos, seu pai abandonou a familia, o que fez com que ele e seus dois irmãos fossem criados por um tio, irmão de sua mãe. Na escola, ele demonstrava talento para o desenho e para o boxe, chegando a ganhar títulos como boxador amador; ao terminar os estudos, ao invés de cursar uma faculdade, ele decidiria tentar um emprego como cartunista, enquanto isso trabalhando como entregador de um alfaiate e como caixa de banco. Aos 18 anos, ele conseguiria que alguns de seus cartuns fossem publicados nas revistas Redbook, The Saturday Evening Post e Collier's, e, com o dinheiro que recebeu, se matriculou na Art Students League de Nova Iorque, através da qual conseguiu um emprego no departamento de tinta e pintura dos Fleischer Studios. Em 1932, ele conseguiria um emprego nos Van Beuren Studios, onde seria responsável pelos storyboards de várias séries, dentre elas Tom and Jerry, que não tinha nada a ver com o gato e o rato que conhecemos, sendo protagonizada por dois humanos. Em 1936, os Van Beuren Studios fecharam as portas, mas recomendaram Barbera para Paul Terry, que o contrataria para seu estúdio Terrytoons. Quando a MGM decidisse criar seu estúdio de animação próprio, convidaria Barbera, que cruzaria o país, trocando Nova Iorque por Los Angeles. Ele começaria na MGM também fazendo storyboards, mas logo seria transferido para o departamento de roteiristas.

Na MGM, Hanna e Barbera seriam parte da equipe do animador Tex Avery, com suas mesas ficando uma de frente para a outra; eles conversavam muito, e logo perceberam que poderiam obter mais sucesso se trabalhassem em dupla. Os dois escreveriam o roteiro para um desenho chamado Puss Gets the Boot, inspirado pela fábula O Gato e o Rato, de Esopo; o chefe do departamento de animação da MGM, Fred Quimby, achou que a produção seria um desperdício de material, pois o público já estaria saturado de desenhos de gato e rato, mas Rudolf Ising, um dos donos da Hardman and Ising, conhecendo o talento de Hanna, se ofereceria para bancar o projeto, ainda deixando que os próprios Hanna e Barbera o dirigissem. Puss Gets the Boot acabaria sendo um gigantesco sucesso, indicado ao Oscar de Melhor Curta Metragem de Animação; ele também seria o primeiro desenho da dupla de gato e rato que acabaria conhecida como Tom e Jerry, embora, nele, nenhum dos dois seja identificado por esses nomes. Infelizmente para Hanna e Barbera, devido à prática da época, eles não seriam creditados nem como roteiristas, nem como diretores, com o único crédito em tela sendo Ising como "produtor".

Como agradecimento a Ising, Hanna pensaria em deixar a MGM e voltar para a Hardman and Ising, convidando Barbera para ir com ele; Quimby, porém, diria que Ising, na verdade, pagou para ter seu nome no projeto, com todo o trabalho tendo ficado a cargo da MGM, sem nenhum envolvimento da Hardman and Ising. Agora confiando no talento da dupla, ele faria uma oferta tentadora: se continuassem na MGM, eles teriam total liberdade para fazer sua série de gato e rato, sem estarem mais subordinados a Avery, podendo dirigi-la se quisessem, e recebendo os devidos créditos. Hanna e Barbera aceitariam a proposta, e, refinando os personagens de Puss Gets the Boot, chegariam a Tom e Jerry - com a origem dos nomes jamais sendo creditada ao desenho no qual Barbera trabalhou quando era da Van Beuren, a versão oficial sendo que os nomes foram retirados de Life in London, romance do inglês Pierce Egan publicado em 1821; vale dizer que, após o sucesso dos Tom e Jerry gato e rato, o desenho dos Tom e Jerry humanos seria renomeado para Dick and Larry.

A estreia oficial de Tom e Jerry seria no desenho The Midnight Snack, de 1941. A série se tornaria tão popular que renderia um total de 114 desenhos, e, ao longo de 17 anos, Hanna e Barbera não trabalhariam em mais nada a não ser Tom & Jerry, exceto filmes de treinamento encomendados pelas Forças Armadas dos Estados Unidos durante a Segunda Guerra Mundial. Se valendo de movimento ao invés de diálogos para contar uma história, Tom & Jerry seria considerado revolucionário, sendo indicado a 13 Oscars e ganhando sete, um recorde até hoje para qualquer série de animação; apesar disso, o desenho também sempre foi alvo de duras críticas, principalmente por ser considerado muito violento. Quimby receberia todos os Oscars conquistados por Tom & Jerry em nome da MGM, sem jamais chamar Hanna ou Barbera ao palco, mas, pior que isso, ele não cumpriria sua promessa, e eles não seriam creditados em nenhum dos 92 primeiros desenhos, com apenas Quimby recebendo crédito como produtor. Quimby se aposentaria em maio de 1955, com Hanna e Barbera sendo promovidos a chefes do departamento de animação e finalmente sendo creditados - mas, mais uma vez, como produtores, não como roteiristas ou diretores - nos 22 desenhos lançados desde então.

Em 1957, a televisão já era uma realidade nos lares norte-americanos, e os desenhos produzidos para o cinema começariam a perder público. Percebendo que ganhava mais dinheiro licenciando seus desenhos antigos para a televisão do que produzindo novos para lançar nos cinemas, a MGM decidiria fechar todo o seu departamento de animação, demitindo todo mundo por telefone. Hanna e Barbera ficariam extremamente surpresos com o telefonema, já que Tom & Jerry era um dos poucos desenhos para o cinema que ainda faziam muito sucesso e vendiam um número considerável de ingressos; eles não conseguiram reverter a decisão da cúpula da MGM com esse argumento, mas conseguiriam que três desenhos que já estavam prontos fossem lançados nos cinemas ao longo de 1958. Esses desenhos não teriam tanto público quanto os lançados até 1957, e a MGM se valeria desse fato para argumentar que sua decisão havia sido a correta. Esses seriam os últimos desenhos de Tom e Jerry para o cinema criados por Hanna e Barbera, com a série passando para Gene Deich em 1961 e para Chuck Jones em 1963, antes de ser definitivamente cancelada em 1967, com um total de 161 episódios.

Desempregados, Hanna e Barbera trabalhariam fazendo comerciais para a televisão e títulos de episódios para seriados como I Love Lucy. Antes de serem demitidos pela MGM, eles teriam uma ideia para um novo desenho, estrelado por um gato e um cachorro, que seriam amigos ao invés de rivais; enquanto estavam trabalhando em um comercial, eles se encontrariam acidentalmente com George Sidney, diretor da MGM que também tinha contatos nos estúdios Screen Gems e Columbia Pictures, e ofereceriam a ideia para que ele a negociasse com esses estúdios. Mas Sidney daria aos dois uma ideia melhor: fundar seu próprio estúdio de animação, voltado exclusivamente para produções para a televisão. Hanna e Barbera não tinham dinheiro para isso, mas Sidney convenceria o presidente da Columbia Pictures, Harry Cohn, a injetar capital na sociedade, e a Screen Gems a ficar responsável pelo merchandising associado aos desenhos criados por Hanna e Barbera.

Assim, após jogar uma moeda para decidir qual nome viria primeiro, seria fundada, em 7 de julho de 1957, a H-B Enterprises, tendo como sócios Hanna, Barbera, Sidney e Cohn. A maior parte da equipe seria composta por animadores e artistas de layout e de storyboards demitidos da MGM; Hanna, Barbera e Sidney seriam os diretores dos episódios, e Cohn conseguiria contratar vários animadores e roteiristas da Screen Gems, permitindo que eles trabalhassem em ambos os estúdios. Sem sede própria, a H-B Enterprises inicialmente funcionaria em um espaço alugado nos Kling Studios, fundados por Charlie Chaplin, conseguido com desconto graças a contatos de Cohn.

O primeiro desenho da H-B Enterprises seria The Ruff and Reddy Show (conhecido no Brasil como Jambo e Ruivão), estrelado por um gato espertinho e um cachorro meio bobo que são melhores amigos. Graças à Screen Gems, a H-B Enterprises conseguiria um contrato para que o canal de televisão NBC o exibisse aos sábados pela manhã, horário que normalmente era ocupado por reprises de desenhos originalmente produzidos para o cinema, o que faria com que The Ruff and Reddy Show entrasse para a história como a primeira animação produzida exclusivamente para a televisão a estrear nos Estados Unidos. Embora, na época, todos os aparelhos de televisão do país fossem em preto e branco, Hanna e Barbera fariam questão de que The Ruff and Reddy Show fosse produzido em cores, usando o argumento "logo os televisores terão cor, e os desenhos duram para sempre" - de fato, quando começassem as reprises do desenho, em 1962, grande parte dos aparelhos já seria em cores, o que garantiu uma sobrevida aos episódios.

Diferentemente do que ocorria em Tom & Jerry, Jambo e Ruivão falavam, o que fez com que a H-B Enterprises tivesse de contratar dubladores. Hanna e Barbera convidaram os que eles já conheciam da MGM, e, dentre os que responderam, escolheram Don Messick para dublar Jambo, e Daws Butler para Ruivão; ambos acabariam se tornando parceiros de longa data do estúdio, dublando várias de suas produções. Para cortar custos, Hanna e Barbera criariam várias técnicas que permitiriam reutilizar acetatos produzidos para um episódio em vários outros, o que ficaria conhecido como limited animation, e se tornaria uma das principais características de suas produções - segundo cálculos da Screen Gems, um desenho de seis minutos produzido para o cinema custava 35 mil dólares, mas um produzido para a televisão usando o método criado por Hanna e Barbera custava apenas 3 mil. Por falar nisso, os episódios de The Ruff and Reddy Show eram extremamente curtos, tendo por volta de 4 minutos cada um, com dois ou três episódios sendo exibidos por sábado, normalmente abrindo e fechando a programação infantil da NBC. Ao todo, The Ruff and Reddy Show, teria três temporadas de 52 episódios cada, para um total de 156, exibidos entre 14 de dezembro de 1957 e 2 de abril de 1960.

Como era comum na época, cada programa de televisão tinha um patrocinador próprio, com o de The Ruff and Reddy Show sendo a fabricante de cereais Post Consumer Brands, que viu sua receita quase dobrar no final da década de 1950 graças aos comerciais inseridos nos intervalos do desenho. Esse gigantesco sucesso faria com que a principal rival da post, a Kellogg (fabricante dos Sucrilhos), procurasse a H-B Enterprises em 1958 e pedisse para que eles criassem um novo desenho, com a Screen Gems conseguindo um contrato com outro canal, a ABC, que, entretanto, não estava interessada em desenhos curtos de 4 minutos, querendo algo por volta de meia hora. Ao invés de fazer um desenho com episódios mais longos, porém, Hanna e Barbera decidiriam fazer um programa composto por episódios curtos de vários personagens diferentes. Assim surgiria The Huckleberry Hound Show, que, com 22 minutos de duração, era, na verdade, composto por episódios de três desenhos diferentes, cada um com 7 minutos: Huckleberry Hound (Dom Pixote, no Brasil), estrelado por um cachorro azul com sotaque do Sul, que canta Oh Querida Clementina e está sempre a procura de emprego, sendo incompetente em todos; Pixie and Dixie and Mr. Jinks (Chuvisco & Plic e Ploc), uma nova versão de Tom & Jerry, mas com dois ratos e muitos diálogos; e Yogi Bear (Zé Colmeia), sobre um urso que mora dentro de um Parque Nacional e está sempre tentando roubar a comida dos turistas. O desenho seria um sucesso ainda maior que seu antecessor, e seria a primeira animação a ganhar um Emmy, de Melhor Programa Infantil.

Um dos motivos para o sucesso foi que, enquanto o desenho estava em produção, a Kellogg decidiu que seu lucro seria maior caso ele fosse exibido em syndication, podendo ser transmitido por vários canais de todos os Estados Unidos simultaneamente, e rompeu o contrato com a ABC, negociando individualmente com diversos canais pequenos; talvez por achar que isso ficaria muito caro, ela acabaria desistindo do patrocínio, mas Hanna e Barbera gostaram da ideia de lançar o desenho diretamente em syndication, e perguntaram à Screen Gems se isso era possível. A Screen Gems conseguiu a proeza de fazer contrato com mais de 150 canais, o que representou um grande gasto mas um lucro estratosférico. Ao todo, The Huckleberry Hound Show teria 68 episódios divididos em quatro temporadas, exibidas entre 29 de setembro de 1958 e 1 de dezembro de 1961. Ao final da terceira temporada, Zé Colmeia já era o personagem mais popular da H-B Enterprises, que decidiu dar a ele um programa próprio; em seu lugar, na quarta temporada, entraria Hokey Wolf (Joca e Dingue-Lingue), estrelado por dois lobos sabichões que estão sempre tentando entrar em algum lugar restrito, normalmente para comer de graça.

Antes do desenho do Zé Colmeia, entretanto, a H-B Entrprises passaria por várias mudanças. Primeiro, eles decidiriam mudar seu nome para Hanna-Barbera Productions; em seguida, contratariam vários novos talentos, como Joe Ruby e Ken Spears, que, anos mais tarde, seguiriam os passos de Hanna e Barbera e fundariam seu próprio estúdio, o Ruby-Spears, responsável por desenhos como Bicudo, o Lobisomem e Os Bárbaros. A primeira produção dessa nova fase seria The Quick Draw McGraw Show, que, assim como The Huckleberry Hound Show, seria lançado diretamente em syndication e composto por três segmentos por programa: Quick Draw McGraw (Pepe Legal), ambientado no Velho Oeste e protagonizado por um cavalo xerife e seu parceiro, o burrinho Babalu; Augie Doggie and Doggie Daddy, (Bibo Pai e Bobi Filho), sobre um cachorro criança que tem o pai como maior ídolo; e Snooper and Blabber (Olho Vivo e Faro Fino), que acompanhava uma dupla de detetives particulares composta por um gato e um rato. Com patrocínio da Kellogg, que deve ter se arrependido, The Quick Draw McGraw Show teria 45 episódios divididos em três temporadas, exibidas entre 28 de setembro de 1959 e 20 de outubro de 1961.

Em 1959, após o fracasso de A Bela Adormecida nos cinemas, a Disney demitiria vários de seus animadores, que prontamente seriam contratados pela Hanna-Barbera; isso motivaria o estúdio a produzir sua primeira série para o cinema, Loopy de Loop (Loopy Le Beau), sobre um lobo bem educado que pratica boas ações para tentar apagar a má fama dos lobos. Ao todo, seriam produzidos 48 episódios de 7 minutos cada, exibidos nos cinemas entre 5 de novembro de 1959 e 17 de junho de 1965, sempre antes de outros lançamentos da Columbia Pictures; em 1969, Loopy de Loop seria negociado em syndication e transmitido também na televisão. Durante a produção de Loopy de Loop, em 1960, a Hanna-Barbera finalmente conseguiria um estúdio próprio, em Los Angeles, mas ele era tão pequeno que a maior parte dos animadores tinha de trabalhar de casa.

A década de 1960 seria a Era de Ouro da Hanna-Barbera, começando com Os Flintstones. Primeiro desenho da Hanna-Barbera protagonizado por seres humanos, criado para ser uma sitcom em desenho animado, Os Flintstones seguia a estrutura normal desse tipo de seriado, mostrando o dia a dia de dois casais vizinhos, Fred Flintstone e sua esposa Wilma, Barney Rubble e sua esposa Betty, mas ambientado na pré-história, com versões pré-históricas de vários elementos da vida cotidiana dos norte-americanos da época. Exibido pela ABC em horário nobre durante seis temporadas, totalizando 166 episódios, que foram ao ar entre 30 de setembro de 1960 e 1 de abril de 1966, Os Flintstones seria um gigantesco sucesso e quebraria várias barreiras, como mostrar a primeira personagem de desenho animado a engravidar e ter um bebê, quando nasceu a filha de Fred e Wilma, Pedrita, e a tratar de temas como planejamento familiar, infertilidade e adoção, quando Barney e Betty decidissem adotar o menino Bam-Bam porque ela não conseguia engravidar. Inicialmente voltado para o público adulto, conforme a audiência entre as crianças crescia, os roteiros de Os Flintstones ficariam cada vez mais voltados para elas, o que causaria uma queda na audiência e levaria ao seu cancelamento.

Após Os Flintstones, a Hanna-Barbera produziria The Yogi Bear Show, considerado um spin-off de The Huckleberry Hound Show, já que sua principal atração seria o desenho do Zé Colmeia, que originalmente fazia parte daquele. Lançado diretamente em syndication, The Yogi Bear Show era composto por três segmentos: Yogi Bear, no qual Zé Colmeia e Catatau viviam aventuras no Parque Jellystone, tendo como antagonista o Guarda Florestal; Snagglepuss (Leão-da-Montanha), no qual um puma cor de rosa só quer viver sua vida, mas tem que fugir de um caçador; e Yakky Doodle (O Patinho Duque), estrelado por um patinho cujo melhor amigo era um buldogue. Apesar de o Zé Colmeia ser extremamente popular, os outros dois segmentos eram considerados fracos, e The Yogi Bear Show acabaria cancelado após apenas duas temporadas, com um total de 33 episódios, exibidos entre 30 de janeiro de 1961 e 6 de janeiro de 1962.

O sucesso de Os Flintstones faria com que a ABC, canal que exibia a série, encomendasse uma nova, para também ser exibida em horário nobre. Assim surgiria Top Cat (Manda-Chuva), estrelada por uma turma de gatos de rua liderada pelo malandro Manda-Chuva, que está sempre aplicando golpes para melhorar de vida, acompanhado por seu parceiro Batatinha e tendo de fugir da fiscalização do Guarda Belo. Um total de 30 episódios seriam produzidos, exibidos pela ABC entre 27 de setembro de 1961 e 25 de abril de 1962, às quartas-feiras às 20h30. O desenho não faria sucesso no horário nobre, mas seria uma das maiores audiências da NBC, rival da ABC, que compraria a série para ser exibidas aos sábados pela manhã a partir de 1965.

O próximo lançamento em syndication composto por três segmentos seria The Hanna-Barbera New Cartoon Series, com 52 episódios exibidos em duas temporadas, entre 3 de setembro de 1962 e 26 de agosto de 1963. Curiosamente, The Hanna-Barbera New Cartoon Series não era o nome do programa, e sim um nome criado pela Screen Gems para diferenciá-lo dos outros programas que ela ainda estava negociando na época; por causa disso, alguns canais o exibiram com nomes inventados por eles mesmos, como Cartoon Zoo e The Wally Gator Show. Os três segmentos eram Wally Gator, estrelado por um jacaré que nasceu e morou a vida toda no zoológico, e tem como sonho fugir para ver como é a vida lá fora; Touché Turtle and Dum Dum (Tartaruga Touché), sobre uma tartaruga espadachim que defendia os fracos e oprimidos em companhia de seu parceiro, o cachorro Dum-Dum; e Lippy the Lion and Hardy Har Har (Lippy & Hardy), protagonizado por um leão otimista e uma hiena pessimista, ambos muito pobres, com Lippy, o leão, sempre inventando formas de enriquecer rápido, e Hardy, a hiena, sempre achando que nada dará certo.

Apesar do pouco sucesso de Manda-Chuva, a ABC encomendaria mais uma série à Hanna-Barbera, dessa vez planejando inaugurar com ela sua programação em cores no horário nobre. Ao invés de investir em mais animais antropomórficos, dessa vez Hanna e Barbera decidiriam fazer algo parecido com Os Flintstones, e criaram Os Jetsons, uma família que vive no futuro, com direito a carros voadores, robôs, hologramas, e todas as tecnologias absurdas nas quais os roteiristas conseguissem pensar, formada pelo pai, George, a mãe, Jane, uma filha adolescente, Judy, um filho criança, Elroy, um cachorro, Astro, e uma empregada-robô, Rose, com os principais personagens coadjuvantes sendo Cosmo Spacely, dono da empresa em que George trabalha (na maior parte do tempo apertando botões), e seu rival, W.C. Cogswell, dono de uma empresa concorrente. Originalmente, Os Jetsons teriam apenas uma temporada, de 24 episódios, exibidos pela ABC entre 23 de setembro de 1962 e 3 de março de 1963. A NBC exibiria reprises aos sábados de manhã entre 1964 e 1967 e a partir de 1971. Quando o desenho foi originalmente exibido pela ABC, a audiência foi muito baixa e as críticas extremamente negativas, mas, no início da década de 1980, na NBC, a audiência era uma das maiores do bloco, o que faria o canal encomendar novos episódios. A NBC acabaria desistindo da encomenda quando nada menos que 41 episódios estavam prontos, todos contando com os dubladores originais da década de 1960; a Hanna-Barbera, então, os negociaria em syndication com cerca de 80 canais de todos os Estados Unidos, com esses 41 episódios sendo considerados a segunda temporada, exibida entre 16 de setembro e 13 de dezembro de 1985. 10 episódios que já estavam em processo de finalização seriam terminados e exibidos como uma terceira temporada, também em syndication, entre 19 de outubro e 13 de novembro de 1987, para um total de 75.

Em 1963, a Hanna-Barbera, colhendo os frutos de seu sucesso, se mudaria para um amplo estúdio em Hollywood, desenhado pelo arquiteto Arthur Froehlich, com design ultra moderno e que contava com uma "torre dos Jetsons". Com agora todos os animadores podendo trabalhar no estúdio, o primeiro desenho produzido lá seria The Magilla Gorilla Show, com 31 episódios exibidos em syndication entre 14 de janeiro de 1964 e 25 de dezembro de 1965, mais uma vez composto por três segmentos: Magilla Gorilla (Maguila, o Gorila), sobre um gorila que faz parte do acervo de uma loja de animais e sempre é comprado por quem quer se aproveitar de sua grande força, normalmente para fins criminosos, cooperando por ingenuidade e sempre sendo devolvido ao final do episódio; Ricochet Rabbit & Droop-a-Long (Coelho Richochete), assim como Pepe Legal, ambientada no Velho Oeste e protagonizada por um xerife, no caso um coelho com a habilidade de sair quicando pelas paredes, que combate o crime com a ajuda do coiote Bláu-Bláu; e Punkin' Puss & Mushmouse (Bacamarte & Chumbinho), sobre um gato e um rato caipiras e rivais.

Também em 1964, estrearia The Peter Potamus Show, com 27 episódios exibidos em syndication em três temporadas, entre 16 de setembro de 1964 e 6 de fevereiro de 1966. Seus segmentos eram Peter Potamus and So-So (Peter Potamus), no qual um hipopótamo explorador e seu companheiro, o macaco Tico Mico, viajavam o mundo em um balão; Breezly and Sneezly (Matraca Trica e Fofoquinha), sobre um urso polar e uma foca que vivem aventuras no Ártico, normalmente tentando invadir um quartel do exército para roubar remédios para Fofoquinha, que vive gripado; e Yippee, Yappee and Yahooey (Mosquete, Mosquito e Moscardo), inspirado em Os Três Mosqueteiros, no qual três cachorros trapalhões fazem parte da Guarda Real, jurando proteger o Rei de todos os perigos. Curiosamente, para as reprises, Coelho Ricochete e Matraca Trica e Fofoquinha foram trocados de lugar, com o primeiro passando para The Peter Potamus Show e o segundo para The Magilla Gorilla Show.

Ainda em 1964, estrearia o primeiro desenho da Hanna-Barbera que não seria criado por Hanna e Barbera: Jonny Quest. Inspirado pelas aventuras pulp da década de 1930, Jonny Quest seria criado por Doug Wildey, que havia sido roteirista de quadrinhos, principalmente de faroeste; durante anos ele tentou produzir a série em forma de quadrinhos, sem que nenhuma editora aceitasse, o que faria com que Wildey decidisse oferecer a ideia à Hanna-Barbera. Jonny Quest acompanhava um grupo formado pelo menino Jonny; seu melhor amigo, o indiano Hadji; o pai de Jonny, o cientista Dr. Benton C. Quest; o agente Race Bannon; e o buldogue de Jonny, Bandit. O Dr. Quest trabalha para o governo dos Estados Unidos, sendo enviado para perigosas missões ao redor do globo, normalmente em locais exóticos, para deter espiões ou recuperar artefatos, e tem de levar Jonny e Hadji aparentemente por não ter com quem deixá-los, com Race sendo um agente da Inteligência Um (a versão desse desenho da CIA), designado para proteger os meninos. Jonny Quest teria 26 episódios, exibidos pela ABC em horário nobre entre 18 de setembro de 1964 e 11 de março de 1965, e seria um gigantesco sucesso de público e crítica; acabaria cancelado após apenas uma temporada, porém, porque sua produção, de qualidade muito superior aos demais trabalhos da Hanna Barbera, era caríssima - de fato, Jonny Quest é até hoje a série de animação mais cara da história da Hanna-Barbera - e a ABC não aceitaria arcar com os custos para uma segunda temporada.

Além de produzir essas séries todas, em 1964 a Hanna-Barbera decidiria investir em seu primeiro longa-metragem animado para o cinema, escolhendo para a empreitada seu personagem mais famoso, o Zé Colmeia. Com o nome de Hey There, It's Yogi Bear! (Oi Galera, Sou o Zé Colmeia! no Brasil), o filme, um musical de 89 minutos de duração contando com todos os dubladores originais do desenho, seria apenas o segundo longa-metragem de cinema estrelado por um personagem criado especificamente para a televisão (o primeiro sendo 1001 Arabian Nights, de 1959, estrelado por Mister Magoo) com o normal sendo personagens desse tipo ficarem restritos a participações especiais e segmentos curtos dentro de outros filmes. O filme do Ze Colmeia seria um sucesso moderado, que motivaria a Hanna-Barbera a repetir a dose com os Flintstones, lançando The Man Called Flintstone (O Homem Chamado Flintstone), também um musical, em 1966.

Antes disso, em 1965, Hanna e Barbera surpreenderiam o mundo da animação e venderiam seu estúdio para a Taft Enterprises, mantendo seus cargos de presidentes e total controle criativo sobre suas obras. A venda seria contestada pela viúva de Harry Cohn, a atriz Joan Perry, e pelos filhos do casal, que se consideravam herdeiros das ações de Cohn e teriam direito a opinar sobre o assunto, mas a justiça decidiria a favor de Hanna e Barbera, que eram os acionistas majoritários. Após a venda, a distribuição dos novos desenhos da Hanna-Barbera ficaria a cargo da Taft, mas um acordo seria feito para que a Screen Gems continuasse distribuindo os desenhos criados antes da venda. Com o dinheiro da Taft, a Hanna-Barbera conseguiria contratar muito mais pessoal e aumentar ainda mais seu volume de produção, que já era alto quando comparado aos dos demais estúdios de animação.

Isso foi bom, porque o sucesso de Jonny Quest teria duas consequências: primeiro, a NBC encomendaria um novo programa à Hanna-Barbera, mas para ser exibido aos sábados de manhã, e com uma hora de duração. Assim surgiria The Atom Ant / Secret Squirrel Show, que, na verdade, eram dois programas de meia hora cada (The Atom Ant Show e The Secret Squirrel Show), que seriam exibidos pela NBC um após o outro, mas depois poderiam ser separados para syndication e reprises. Os seis segmentos (três de cada programa) seriam Atom Ant (Formiga Atômica), sobre uma formiga com superforça, supervelocidade, invulnerável e capaz de voar, vivendo aventuras de super-herói; The Hillbilly Bears (Zé Buscapé), sobre uma família de ursos caipiras; Precious Pupp (Xodó da Vovó), estrelado por Vovó Dulcina, uma velhinha um tanto atrapalhada, e seu cachorro, Precioso; Secret Squirrel and Morocco Mole (Esquilo sem Grilo), uma paródia do 007 protagonizada por um esquilo agente secreto e seu parceiro, uma toupeira marroquina; Squiddly Diddly (Lula Lelé), sobre uma lula que vive num parque aquático e sonha em ser um astro da música; e Winsome Witch (Feiticeira Faceira), estrelado por uma bruxa bondosa, mas muito atrapalhada. The Atom Ant / Secret Squirrel Show teria 26 episódios divididos em duas temporadas, exibidas entre 2 de outubro de 1965 e 7 de setembro de 1967.

A segunda seria toda uma leva de desenhos de aventura, começando por Sinbad Jr. and His Magic Belt, criado por Sam Singer, uma adaptação das histórias do marinheiro Simbad, mas como se suas aventuras tivessem ocorrido quando ele era criança. No desenho, Simbad possui um cinto mágico que lhe confere superpoderes, e está sempre acompanhado de seu papagaio, Calado. Cada episódio era composto por três segmentos de 5 minutos cada, e a série era distribuida pela American International Pictures, que a encomendou, vendendo-a em syndication para canais que já exibiam outros desenhos negociados por ela. Ao todo, foram produzidos 35 episódios, originalmente exibidos entre 11 de setembro de 1965 e 28 de maio de 1966.

Outros desenhos de aventura da Hanna-Barbera na década de 1960 foram Frankenstein Jr. and The Impossibles, com 18 episódios exibidos pela CBS entre 10 de setembro de 1966 e 17 de janeiro de 1967, composto por dois segmentos, Frankenstein Jr., no qual o menino Buzz Conroy combate o crime em Civic City ao lado de um robô gigante chamado Frankenstein Jr., e The Impossibles (Os Impossíveis, criado por Michael Maltese), que acompanhava um trio de super-heróis composto por Multi-Homem, Homem-Fluído e Coil, o Homem-Mola; Space Ghost, criado por Alex Toth, com 20 episódios exibidos pela CBS entre 10 de setembro de 1966 e 16 de setembro de 1967, também composto por dois segmentos, Space Ghost, que acompanhava as aventuras do herói de mesmo nome, no espaço, e Dino Boy of the Lost Valley (somente Dino Boy no Brasil), que acompanhava um menino chamado Todd, que cai de paraquedas em uma selva pré-histórica perdida na América do Sul, na qual tenta sobreviver com a ajuda do brontossauro Bronty; The Space Kidettes (Os Brasinhas do Espaço, com 20 episódios exibidos pela NBC entre 10 de setembro de 1966 e 4 de fevereiro de 1967, estrelado por escoteiros espaciais; Birdman and the Galaxy Trio, também criado por Toth, com 20 episódios exibidos pela NBC entre 9 de setembro de 1967 e 20 de janeiro de 1968, com dois segmentos, Birdman (Homem-Pássaro), um agente secreto com superpoderes conferidos pelo deus Ra, e Galaxy Trio, que acompanhava três heróis extraterrestres, Homem-Vapor, Homem-Meteoro e Flutuadora, em aventuras no espaço; The Herculoids (Os Herculoides), mais uma criação de Toth, que acompanhava uma família de bárbaros, composta pelo pai, Zandor, a mãe, Tara, e o filho criança, Dorno, e cinco criaturas que faziam parte da família, as bolhas amorfas Gloop e Gleep, o gorila Igoo, o rinoceronte Tundro e o dragão Zok, que viviam no planeta Amzot e estavam sempre combatendo invasores e colonizadores, que teve uma temporada de 18 episódios, exibidos pela CBS entre 9 de setembro de 1967 e 6 de janeiro de 1968; Shazzan, outra criação de Toth, que acompanhava os irmãos Chuck e Nancy, transportados para um mundo mágico das Mil e Uma Noites após encontrar um par de anéis que conjuravam o gênio Shazzan, com uma temporada de 18 episódios exibidos pela CBS entre 9 de setembro de 1967 e 20 de janeiro de 1968; Moby Dick and Mighty Mightor, com 18 episódios exibidos pela CBS entre 9 de setembro de 1967 e 6 de janeiro de 1968, com dois segmentos, Mightor, um super-herói pré-histórico, e Moby Dick, no qual os irmãos Tom e Tubb são salvos pela famosa baleia e passam a viver aventuras com ela no mar; e Samson & Goliath (O Jovem Sansão), que acompanhava as aventuras de um jovem Sansão e seu leão de estimação Golias nos tempos bíblicos, com 20 episódios exibidos pela NBC entre 9 de setembro de 1967 e 31 de agosto de 1968.

Em meados da década de 1960, a Hanna-Barbera produziria dois especiais para a TV baseados em histórias infantis de grande sucesso, ambos com cerca de 50 minutos cada, e ambos musicais, o que já estava se tornando uma tradição nos "filmes" produzidos pelo estúdio. O primeiro seria Alice in Wonderland or What's a Nice Kid like You Doing in a Place like This?, exibido pela ABC em 30 de março de 1966, uma versão moderna das obras de Lewis Carroll, na qual Alice, ao invés de passar por um espelho, passava pela tela de uma televisão. Todos os personagens fantásticos eram baseados em celebridades da televisão da época - a Rainha de Copas era Zsa Zsa Gabor, o Gato era Sammy Davis, Jr. - e um dos segmentos contava com participação especial de Fred Flintstone e Barney Rubble. O segundo seria Jack and the Beanstalk, adaptação de João e o Pé de Feijão exibida pela NBC em 27 de fevereiro de 1967 e estrelada por Gene Kelly, que misturava cenas filmadas com personagens de animação e ganharia o Emmy de Melhor Programa Infantil.

Também em meados da década de 1960, a Hanna-Barbera começaria a trabalhar com licenciamentos, o primeiro sendo Laurel and Hardy (O Gordo e o Magro), criado por Larry Harmon e inspirada na série de filmes para o cinema, com 39 episódios exibidos pela NBC entre 10 de setembro de 1966 e 25 de março de 1967. Outros licenciamentos foram The Abbott and Costello Cartoon Show, criado por Lee Orgel e estrelado pelos comediantes Bud Abbott e Lou Costello, com 39 episódios exibidos em syndication entre 9 de setembro de 1967 e 1 de junho de 1968; The Fantastic Four, desenho do Quarteto Fantástico com 20 episódios exibidos pela ABC entre 9 de setembro de 1967 e 21 de setembro de 1968; e The Adventures of Gulliver (As Aventuras de Gulliver), com 17 episódios exibidos pela ABC entre 14 de setembro de 1968 e 4 de janeiro de 1969.

No final da década de 1960, a Hanna-Barbera decidiria investir em produções live action, filmadas com atores, ao invés de apenas animação. Após produzir We'll Take Manhattan, piloto de uma série com Dwayne Hickman e Ben Blue que foi ao ar em 10 de abril de 1967 na NBC mas acabou não sendo aprovado para se tornar uma série, seu primeiro lançamento nesse estilo seria The Banana Splits Adventure Hour, programa de uma hora exibido também pela NBC em duas temporadas, para um total de 31 episódios, entre 7 de setembro de 1968 e 5 de setembro de 1970. The Banana Splits Adventure Hour era composto por quatro segmentos, um deles em live action, Danger Island (A Ilha do Perigo), que acompanhava o Professor Irwin Hayden (Frank Aletter), seu assistente, Link (Michael Vincent), e sua filha, Leslie (Ronne Troup), explorando uma ilha na costa do México onde, anos antes, o irmão do Professor desapareceu enquanto procurava a mítica cidade de Tobanya. Os outros três segmentos eram de animação: Arabian Knights (Os Cavaleiros da Arábia), sobre cinco amigos vivendo aventuras na Arábia das Mil e Uma Noites; The Three Musketeers (Os Três Mosqueteiros), inspirado na obra de Alexandre Dumas; e Micro Ventures (Micro-Aventuras), estrelado por um cienstista e seus dois filhos adolescentes, que usam uma máquina para encolher até o tamanho de um inseto e explorar o mundo sob essa perspectiva. Intercalados com os segmentos, eram apresentados curtas estrelados pela banda The Banana Splits, também em live action, com quatro atores vestidos como bichos de pelúcia gigantes - o cachorro Fleegle, o macaco Bingo, o leão Drooper e o elefante Snorky.

1968 também seria o ano de estreia de The New Adventures of Huckleberry Finn, inspirado na obra de Mark Twain, primeira série da história da televisão norte-americana a combinar atores em live action com personagens de animação. Com 20 episódios exibidos pela NBC entre 15 de setembro de 1968 e 23 de fevereiro de 1969, a série seria estrelada por Michael Shea como Huckleberry Finn, LuAnn Haslam como Becky Thatcher e Kevin Schultz como Tom Sawyer, que, ao entrar numa caverna misteriosa, vão parar em um mundo de desenho animado, e passam a ter como objetivo encontrar o caminho de volta para casa. A série seria uma das mais caras da época, e acabaria cancelada após apenas uma temporada porque a NBC não aceitaria financiar uma segunda, mesmo com altos índices de audiência e críticas favoráveis.

Também em 1968, a Hanna-Barbera lançaria um de seus maiores clássicos, Wacky Races (Corrida Maluca), no qual 11 carros disputavam provas em vários cenários dos Estados Unidos; os carros eram personalizados e contavam com vários dispositivos que ajudavam seus pilotos durante o percurso, um deles sendo o famoso Dick Vigarista, que, acompanhado de seu cachorro Muttley, sempre preferia tentar fazer alguma trapaça para tirar os demais carros da prova do que correr para tentar ganhar honestamente - uma piada recorrente era que, se não parasse para fazer sua trapaça, Dick Vigarista provavelmente ganharia a prova. Corrida Maluca teria 17 episódios, cada um mostrando duas provas, exibidos pela CBS entre 14 de setembro de 1968 e 4 de janeiro de 1969, e dois de seus personagens fariam tanto sucesso que a Hanna-Barbera decidiria, ao invés de fazer uma segunda temporada, apostar em spin-offs protagonizados por eles.

O primeiro desses spin-offs seria The Perils of Penelope Pitstop (Os Apuros de Penélope), no qual a piloto Penélope Charmosa recebe uma grande herança, com o vilão Grão de Bico planejando matá-la para ficar com o dinheiro, e a Quadrilha de Morte (também de Corrida Maluca) decidindo protegê-la - normalmente se envolvendo em uma confusão tamanha que resulta em Penélope tendo de salvá-los. O segundo seria Dastardly and Muttley in Their Flying Machines (Dick Vigarista & Muttley e suas Máquinas Voadoras), no qual Dick Vigarista deixa de ser piloto de corridas para ser piloto de avião na Alemanha da Primeira Guerra Mudial, líder de um esquadrão que recebe a missão de evitar que planos secretos levados por um pombo-correio sejam entregues aos inimigos. Cada episódio era formado por cinco segmentos curtos, intercalados com piadas conhecidas como Wing Dings; dois desses segmentos, chamados Magnificent Muttley, eram estrelados por Muttley sonhando ser herói em alguma situação na qual Dick Vigarista era o vilão. Os spin-offs teriam 17 episódios cada, exibidos pela CBS entre 13 de setembro de 1969 e 17 de janeiro de 1970.

O penúltimo lançamento da Hanna-Barbera na década de 1960 foi Cattanooga Cats (A Turma da Gatolândia). Semelhante a The Banana Splits Adventure Hour, mas apenas com segmentos de animação, o programa era composto por quatro segmentos, o primeiro estrelado pelos Cattanooga Cats, uma banda formada por gatos hippies, que também apareciam em piadas curtas entre os demais segmentos, que eram Around the World in 79 Days (A Volta ao Mundo em 79 dias), inspirado na obra de Júlio Verne; It's the Wolf! (É o Lobo!), no qual o Lobo Bobo tenta sequestrar um carneirinho, mas sempre tem seus planos frustrados pelo cão-pastor Cachorrão; e Motormouse and Autocat (Juca Bala e Zé Bolha), uma espécie de mistura de Tom & Jerry com Corrida Maluca, no qual um gato num carro de corrida persegue um rato numa moto Harley-Davidson. Inicialmente, Cattanooga Cats tinha uma hora de duração, mas, após 9 episódios, o programa seria dividido em dois de meia hora de duração cada, com A Turma da Gatolândia fazendo par com A Volta ao Mundo em 79 Dias (mantendo o nome Cattanooga Cats), e É o Lobo com Juca Bala e Zé Bolha (sob o nome It's the Wolf!). Por causa disso, Cattanooga Cats teria apenas uma temporada, de 17 episódios, exibidos entre 6 de setembro e 27 de dezembro de 1969, mas It's the Wolf! ganharia uma segunda, com mais 17, para um total de 34, exibida entre 12 de setembro de 1970 e 9 de janeiro de 1971.

Fechando a década, em 1969, atendendo a uma encomenda do canal CBS para a Hanna-Barbera, Joe Ruby e Ken Spears criariam Scooby-Doo, Where Are You!. Protagonizado por um grupo de adolescentes - o corajoso Fred, a bela Daphne, a inteligente Velma e o covarde e comilão, porém bondoso e divertido, Salsicha - e seu cachorro Scooby, que cruzavam o país numa van resolvendo casos aparentemente sobrenaturais, mas sempre perpetrados por criminosos disfarçados. Scooby-Doo seria um dos maiores sucessos da Hanna-Barbera, mas essa sua série original acabaria tendo apenas duas temporadas, com um total de 25 episódios, exibidos entre 13 de setembro de 1969 e 31 de outubro de 1970 pela CBS, que optou pelo cancelamento após reformular sua grade de programação. Em meados da década de 1970, as reprises seriam exibidas na ABC, com tanto sucesso que o canal encomendaria uma terceira temporada, de mais 16 episódios, exibidos entre 9 de setembro e 23 de dezembro de 1978.

Scooby-Doo modelaria quase toda a produção da Hanna-Barbera na década de 1970. Mas esse post já está grande demais, então eu vou parar por aqui, e a década de 1970 vai ficar para uma próxima ocasião.
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sábado, 29 de junho de 2024

Escrito por em 29.6.24 com 0 comentários

Ziraldo

Pode não parecer, mas eu às vezes fico procurando assuntos nacionais para abordar aqui no átomo, porque, ao contrário do que muitos de vocês imaginam, eu não me interesso só por assuntos estrangeiros. O problema é que, como eu já falei aqui algumas vezes, é bem mais difícil encontrar as informações que eu quero para esses assuntos, o que me leva, quase sempre, a desistir. Essa semana (na qual eu estou escrevendo, não na qual eu estou postando, já que escrevo com antecedência), porém, eu decidi tentar bancar esse post, porque o Ziraldo morreu, e seus livros foram uma parte indissociável da minha infância. Se tem alguém que merece um post no átomo, mas que ainda não tinha ganhado um, esse alguém é o Ziraldo. Então, hoje é dia de Ziraldo no átomo!

Ziraldo Alves Pinto nasceu em 24 de outubro de 1932 em Caratinga, Minas Gerais. Seu nome diferente foi uma ideia de seu pai, Geraldo, que decidiu trocar a primeira sílaba de seu próprio nome pela primeira do apelido de sua esposa, Zizinha - cujo nome de batismo era Eufrazina. Ziraldo foi o mais velho de sete irmãos, com o terceiro sendo o também desenhista, cartunista, jornalista e escritor Zélio Alves Pinto - vale citar como curiosidade que, entre Ziraldo e Zélio, nasceu Ziralzi, que recebeu esse nome porque, segundo o pai, "era um Zi de Zizinha e um Zi de Ziraldo". Felizmente, depois desse ele passou a escolher nomes normais.

Ziraldo viveria em Caratinga até 1949, quando iria com a avó para o Rio de Janeiro. Moraria na cidade apenas um ano, entretanto, retornando a Caratinga para cursar o Ensino Médio, na época chamado Módulo Científico. Após concluir a escola, decidiria fazer faculdade de direito na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), em Belo Horizonte, onde se formou em 1957. Mas sua paixão sempre foram os desenhos, com os quais começou muito cedo: aos 6 anos de idade, convenceu seu pai a enviar um de seus cartuns para o jornal Folha de Minas, que gostou tanto da arte do menino que a publicou. Enquanto estava na faculdade, começou a trabalhar na revista Era Uma Vez, o que o levou, em 1954, a ser contratado pelo jornal Folha da Manhã (atual Folha de São Paulo), para escrever uma coluna semanal de humor. Esse trabalho, por sua vez, o levou a conseguir um emprego, em 1957, na prestigiada revista O Cruzeiro, para a qual escrevia charges e cartuns. Em 1960, antes dos trinta anos de idade, Ziraldo ganharia dois importantes prêmios em reconhecimento ao seu trabalho: o Nobel Internacional do Humor, do Salão Internacional de Caricaturas de Bruxelas, Bélgica, e o Prêmio Merghantealler, principal premiação da imprensa da América Latina, na categoria Melhor Cartum.

Em 1958, Ziraldo se casaria com Vilma Costa Gontijo, com quem teve três filhos: a cineasta Daniela Thomas, o compositor Antônio Pinto e a diretora de teatro Fabrízia Alves Pinto. Eles ficariam casados até a morte dela, em 2000; dois anos depois, ele se casaria pela segunda vez, com a produtora Márcia Martins, 18 anos mais jovem que ele.

Em outubro de 1960, Ziraldo lançaria a primeira revista em quadrinhos brasileira colorida e de um só autor, Pererê, na qual publicaria novas histórias e republicações de tiras originalmente publicadas, desde o ano anterior, em preto e branco, em O Cruzeiro. Ambientadas na fictícia Mata do Fundão, as histórias acompanhavam personagens genuinamente brasileiros, tendo como protagonista um saci-pererê, chamado simplesmente Pererê, e seus amigos, o índio Tininim, a onça Galileu, o tapiti (espécie brasileira de coelho) Geraldinho, o jabuti Moacir, o macaco Alan, e o tatu Pedro Vieira. Mais tarde, seriam adicionadas duas personagens femininas, a Boneca de Pixe, namorada de Pererê, e sua melhor amiga, a indiazinha Tuiuiú, apaixonada por Tininim. Os principais antagonistas eram os fazendeiros Tonico Macedo e Seu Neném, donos de terras vizinhas à Mata do Fundão que tinham o sonho de caçar Galileu e expandir suas fazendas; e os meninos Rufino e Flecha-Firme, rivais de Pererê e Tininim. Outro personagem de destaque era a coruja General (mais tarde renomeada para Professor Nogueira), que tirava dúvidas dos personagens, ensinando diversos assuntos às crianças leitoras.

Pererê seria um grande sucesso de vendas e conseguiria uma das maiores tiragens para revistas nacionais de sua época, mas acabaria cancelada em 1964, logo após a instauração do regime militar, quando a gráfica que a imprimia seria fechada pelo governo; ao todo, seriam publicadas 46 edições. Em 1975, a Editora Abril lançaria A Turma do Pererê, nova revista com histórias inéditas, que, devido a baixas vendas, acabaria cancelada após apenas 10 edições. Desde então, as histórias da Turma do Pererê seriam publicadas apenas em almanaques lançados ocasionalmente. A Turma do Pererê também teria três encarnações na TV, todas com atores de carne e osso: um especial de Dia das Crianças exibido pela Globo em 1983, e duas séries exibidas na TVE, a primeira com 20 episódios, entre 2002 e 2004, a segunda com 26, entre 2010 e 2012.

Um ano antes da instauração do regime militar, em 1963, Ziraldo seria contratado como cartunista pelo Jornal do Brasil, uma das mais prestigiadas publicações da época. Lá, ele criaria os personagens Supermãe, Mineirinho e Jeremias, o Bom, homem que estava sempre disposto a ajudar os outros. Em plena ditadura militar, ele usaria esses personagens para criticar os modos e costumes da época, sempre com muito humor e de forma disfarçada. Enquanto trabalhava no Jornal do Brasil, ele também seria o criador do logotipo oficial do Festival Internacional da Canção, popular competição entre cantores da época, organizada pelo governo, que mostrava um galo cantando.

Em 1967, Ziraldo seria contratado pelo Jornal dos Sports, outra prestigiada publicação da época, para criar um suplemento de humor. Chamado Cartum JS, o suplemento, semanal, revelaria vários nomes que se tornariam referência no futuro, como Henfil, Miguel Paiva e Juarez Machado. Em 1969, ele lançaria seu primeiro livro infantil, que também se tornaria um dos mais famosos: Flicts, que contava a história de uma cor diferente de todas as outras, infeliz por não encontrar mais nada no mundo igual a ela. Durante a década de 1970, ele faria vários trabalhos como ilustrador, desenhando desde peças publicitárias a capas de LPs, e criaria, para um álbum de figurinhas, versões para todos os mascotes dos times da primeira divisão do Campeonato Brasileiro de futebol.

Ziraldo também seria um dos fundadores, junto com o cartunista Jaguar e os jornalistas Tarso de Castro e Sérgio Cabral, da revista O Pasquim, lançada em 22 de junho 1969. "Pasquim", então, era uma gíria usada para se referir a jornais de pouca qualidade, que não traziam notícias relevantes, semelhantes aos tabloides dos Estados Unidos e Reino Unido; o nome seria uma sugestão de Jaguar, que diria que seus detratores teriam de inventar outro nome se quisessem xingá-los. Definindo a si mesma como "um hebdomadário", O Pasquim era publicado uma vez por semana (que é exatamente o que hebdomadário significa), e, inicialmente, era uma publicação de humor, mas, conforme o tempo passava, grandes nomes do humorismo e do jornalismo, como Millôr Fernandes, Manoel Ciribelli Braga, Miguel Paiva, Henfil, Paulo Francis e Ivan Lessa, se uniam à equipe, e a publicação passaria a ter um tom cada vez mais político, sendo considerada como a principal oposição escrita ao regime militar.

O Pasquim acabaria sendo o responsável pela instauração da censura no Brasil, com a Lei de Imprensa, que a previa, sendo publicada pelo governo após Castro e Cabral publicarem uma entrevista que fizeram com a polêmica atriz Leila Diniz. Em novembro 1970, após a publicação de uma charge de Pedro Américo que mostrava D. Pedro I às margens do Ipiranga, o governo decretaria a prisão não só do cartunista como de toda a redação, incluindo Ziraldo, com base no Ato Institucional número 5 (AI-5). A intenção do governo era que a publicação saísse de circulação, mas Millôr, que não foi preso, assumiu a editoria, e, contando com colaboradores como Chico Buarque, Antônio Callado, Rubem Fonseca, Odete Lara e Gláuber Rocha, faria com que as vendas aumentassem ainda mais. Em fevereiro de 1971, quando Ziraldo, Jaguar, Castro e Cabral foram soltos, O Pasquim já vendia cerca de 100 mil exemplares por semana, mais do que as duas principais revistas de jornalismo da época, a Veja e a Manchete, somadas.

Ziraldo fez de tudo no Pasquim: desenhou, escreveu, entrevistou, diagramou, fez capas, inventou seções etc. Chegaria até mesmo a inventar uma palavra: dica, que ele usava no lugar de "indicação", que achava muito comprida, e acabaria entrando para o vernáculo, sendo hoje uma palavra usada por todos, em várias ocasiões. Também seriam criações suas as expressões "pô", "é duca", "ih, cacilda" e "é ford", que ele usava no lugar de palavrões, para que seus textos não fossem censurados; somente a última não passaria a ser de uso geral da população. Um de seus trabalhos mais memoráveis foi a homenagem feita ao ex-presidente Juscelino Kubitschek, que faleceria em um misterioso acidente de automóvel em 1976, para muitos obra do governo militar; caberia a Ziraldo criar a capa da edição que noticiava a morte, que trazia um alfabeto no qual as letras J e K eram destacadas, e o texto que cobria o ocorrido.

Ziraldo deixaria O Pasquim em 1982, após uma briga com Jaguar - diz a lenda que, na disputa pelo Governo do Rio de Janeiro, Jaguar apoiava o candidato Leonel Brizola, enquanto Ziraldo apoiava Miro Teixeira, e os dois apostaram que quem perdesse pediria demissão. O Pasquim ainda seria publicado até 11 de novembro de 1991; mais de seis anos após o fim da ditadura, ele já não se sustentava como publicação política, e, em suas últimas tiragens, já daria prejuízo, o que motivaria Jaguar, o único da equipe original ainda na redação, a decidir encerrá-lo.

Na década de 1980, Ziraldo começaria uma gloriosa carreira como autor de livros infantis, se tornando talvez o principal nome brasileiro nessa área durante mais de vinte anos. O primeiro dessa empreitada seria O Planeta Lilás, de 1979, no qual um extraterrestre de um planeta pequenino constrói uma espaçonave para conhecer o universo. Então, no ano seguinte, ele lançaria aquele que se tornaria seu livro mais famoso: O Menino Maluquinho, que contava a história de um menino um tanto levado, um tanto doidinho, mas de bom coração - o qual o autor diria ter criado por acaso, enquanto conversava consigo mesmo ao fazer a barba diante do espelho.

O livro daria origem a histórias em quadrinhos, peças de teatro, filmes para o cinema, uma série de TV, desenhos animados e até mesmo uma ópera; além do protagonista, conhecido apenas como "Maluquinho", a chamada Turma do Maluquinho conta hoje, dentre outros, com Julieta, apelido Juju, menina alegre, energética e decidida, namorada oficial do Maluquinho; o ingênuo Bocão, melhor amigo do menino; o pessimista e mal-humorado Junim; a idealista Carol, melhor amiga de Juju, que está sempre preocupada com a natureza e lutando pela ecologia; o valentão Herman, às vezes amigo, às vezes rival de Maluquinho; Nina, a irmã mais nova de Bocão, que, apesar de ter apenas cinco anos, é mais madura que ele; o intelectual Lúcio; Sugiro Fernando, entusiasta da informática; e Shirley Valéria, a menina mais bonita da turma. Com mais de três milhões de exemplares vendidos até hoje, vencedor do Prêmio Jabuti, o mais importante da literatura brasileira, e já traduzido para mais de 20 idiomas, sendo um sucesso no mundo inteiro, O Menino Maluquinho seria lançado no dia do aniversário de 48 anos do autor, 24 de outubro de 1980.

Em 1982, Ziraldo publicaria mais um grande sucesso, O Bichinho da Maçã, cujo protagonista era uma minhoquinha que morava dentro de uma fruta. No ano seguinte, ele lançaria Pelegrino & Petrônio, cujos protagonistas eram dois pés, primeiro de uma série sobre partes do corpo humano, que contaria, também, com Os Dez Amigos (dedos das mãos), Um Sorriso Chamado Luiz, Rolim (um cabelinho encaracolado), Dodó (um bumbum), O Joelho Juvenal e O Calcanhar de Aquiles. Em 1985, seria a vez de O Pequeno Planeta Perdido, no qual um astronauta é enviado a um planeta tão distante que o combustível acaba antes de ele chegar lá, e, em 1986, de O Menino Marrom, cujo protagonista é um menino negro que tem como melhor amigo um menino branco (o Menino Cor-de-Rosa). Ele encerraria a década com O Menino Quadradinho, de 1989, sobre um menino viciado em histórias em quadrinhos.

Também na década de 1980, Ziraldo começaria a se envolver ativamente com política, se tornando militante e fazendo campanha para vários candidatos, principalmente em Minas Gerais; ele também seria o criador do logotipo de dois partidos políticos: o PMDB, principal partido de oposição ao regime militar, e o PSOL, fundado em 2004 por dissidentes do PT, ao qual se filiou em 2005. Durante a ditadura, ele seria filiado ao Partido Comunista do Brasil, o PCB, do qual saiu em 1989 após o partido se renomear para PPS.

Na década de 1990, Ziraldo seguiria investindo em sua carreira de autor infantil, expandindo as séries do Bichinho da Maçã, do Menino Maluquinho e Corpim. Em 1990, O Menino Maluquinho ganharia o Prêmio Angelo Agostini de Melhor Lançamento, e Ziraldo o de Mestre do Quadrinho Nacional; em 1993, ele ganharia o Troféu HQ Mix de Grande Mestre. Seu principal destaque dessa década seria Uma Professora Muito Maluquinha, de 1995, sobre uma professora que cativava sua turma com seus métodos diferentes e seu jeito de ser despreocupado, com a história sendo contada do ponto de vista de seus alunos, que se lembravam dela com carinho; o livro seria adaptado para um filme, em 2011, estrelado por Paolla Oliveira. Dois anos depois, em 1997, Ziraldo se envolveria em uma polêmica ao lançar Vovó Delícia, que mostrava que as avós do final do milênio não ficavam só na cadeira de balanço fazendo crochê, mas frequentando academias e praias e sofrendo por amor; houve quem achasse que o livro não era apropriado para crianças, e que a avó seria um mau exemplo.

Em 1999, Ziraldo lançaria mais duas revistas, a humorística Bundas, paródia da revista de celebridades Caras, extremamente popular na época, e a mais séria A Palavra; devido a mudanças nos gostos dos leitores e a um grande número de concorrentes nas bancas, nenhuma das duas teria boas vendas, e ambas acabariam canceladas em pouco tempo. Em 2001, Ziraldo e seu irmão Zélio fariam uma tentativa de ressuscitar O Pasquim, com o nome de OPasquim21; mais uma vez, a publicação teve vida curta, se encerrando em 2004. A partir do ano 2000, ele participaria da Oficina do Texto, projeto que reunia textos escritos por alunos de escolas de todo o Brasil, que eram então ilustrados por Ziraldo para serem lançados em coletâneas. Em 2003, ele seria homenageado no Carnaval de São Paulo pela escola de samba Nenê de Vila Matilde, que teria sua vida como enredo. Em 2004, ele ganharia o prêmio Andersen, na Itália, pela publicação naquele país de Flicts; em 2005, receberia a Ordem do Mérito Cultural, por sua contribuição para a cultura brasileira; e, em 2008, receberia o Prêmio Ibero-Americano de Humor Gráfico.

Na primeira década dos anos 2000, Ziraldo publicaria três livros de grande sucesso voltados para meninas: Menina Nina: Duas Razões para não Chorar (2002), que lidava com o tema da perda e do luto, inspirado pela reação de sua própria neta ao falecimento da avó; Menina das Estrelas (2007), segundo de uma série que começou com O Menino da Lua, do ano anterior, sobre uma menina neta de um escritor, que questiona o avô sobre o porquê de ele só escrever livros protagonizados por meninos; e Uma Menina Chamada Julieta, protagonizado pela namorada de Maluquinho. Também são destaques dessa década Os Meninos Morenos (2004), inspirado na infância do poeta guatemalteco Humberto Ak'abal, e O Menino e Seu Amigo (2003), sobre a amizade de um menino com seu avô.

O Menino da Lua daria origem a uma série com um total de 11 livros, nove deles dedicados a meninos oriundos de diferentes planetas do sistema solar: O Namorado da Fada ou Menino de Urano; O Menino da Terra; O Capetinha do Espaço ou o Menino de Mercúrio; Os Meninos de Marte; O Menino Que Veio de Vênus; Nino, o Menino de Saturno; O Menino d'Água e o Planeta Netuno; Ju, o Menino de Júpiter: O Maior Menino do Mundo; e As Cores do Escuro e os Meninos de Plutão. Conhecida como Os Meninos dos Planetas, essa série seria indicada ao Prêmio Jabuti em 2012, mas não ganharia. O último livro de Ziraldo seria Meninas, de 2016, que abordava a infância de garotas de 7 a 11 anos, e era, segundo o próprio autor, sua versão de Alice no País das Maravilhas.

Em 2013, durante uma viagem à Alemanha, Ziraldo teve um infarto leve, e precisou fazer um cateterismo. Em 2018, teve um AVC, e ficou internado em estado grave. Se recuperou e foi para casa, mas, nos quatro anos seguintes, sofreu outros dois AVCs, que fizeram com que ele ficasse com a saúde debilitada e limitasse suas aparições em público. Nos últimos meses de vida, passaria a maior parte do tempo acamado. Faleceria aos 91 anos, em 6 de abril de 2024, dormindo, em sua casa, no bairro da Lagoa, no Rio de Janeiro.
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domingo, 24 de julho de 2022

Escrito por em 24.7.22 com 0 comentários

Ursula K. Le Guin

Hoje é dia de Ursula K. Le Guin no átomo! Porque já faz um tempo que ela está dentre as minhas escritoras preferidas e, incapaz de escolher só um livro para fazer um post, decidi fazer um sobre toda a carreira dela.


Ursula K. Le Guin nasceu Ursula Kroeber, em Berkeley, Califórnia, Estados Unidos, em 21 de outubro de 1929. Seu pai, Alfred Louis Kroeber, era antropólogo, lecionava na Universidade de Berkeley, foi diretor do Museu de Antropologia da Califórnia, e estudava os povos originários norte-americanos; sua mãe, Theodora, era formada em psicologia, mas, após os 60 anos, decidiria se tornar escritora, sendo seu livro de maior sucesso Ishi in Two Worlds, de 1961, a biografia de Ishi, indígena norte-americano considerado o último representante da tribo Yahi, dizimada na época da colonização, e que se tornou amigo de Alfred enquanto ele estudava a história da tribo. Ursula era a mais nova de quatro irmãos, sendo os três mais velhos todos homens; a família dividia seu tempo entre uma casa em Berkeley na qual moravam durante o ano letivo e uma em Napa Valley onde passavam o verão e os feriados, e onde recebiam vários acadêmicos de prestígio conhecidos de Albert, dentre eles J. Robert Oppenheimer, um dos inventores da bomba atômica.

Desde criança, ela se interessaria por ler fantasia e ficção científica, especialmente as revistas Thrilling Wonder Stories e Astounding Science Fiction, além das obras de Lord Dunsany e Lewis Padgett; ela também seria fã de mitologia, especialmente a nórdica, e das lendas indígenas que seu pai lhe contava. Aos nove anos, ela escreveria seu primeiro conto de ficção científica, e, dois anos depois, aos 11, enviaria um para análise e publicação na Astounding Science Fiction; o conto, porém, seria rejeitado, e, com vergonha, ela decidiria não tentar novamente.

Ela se formaria pela Berkeley High School (mesma escola onde estudou Philip K. Dick, na mesma época, embora os dois não tenham se conhecido lá) e seria aceita na tradicional Universidade de Harvard, mais especificamente para o Radcliffe College, que oferecia cursos a mulheres, já que, na época, Harvard era uma universidade exclusivamente masculina. Ela ficaria em dúvida entre cursar biologia ou literatura, mas, por ser fraca em matemática, acabaria optando pela segunda, se formando Bacharel em Artes com Foco em Literatura Italiana e Francesa da Renascença em 1951. No ano seguinte, ela ingressaria em uma pós-graduação na Universidade de Columbia, obtendo um Mestrado em Língua Francesa. Suas boas notas fariam com que ela recebesse um convite para fazer doutorado na França, onde ficaria por dois anos, 1953 e 1954.

Durante a viagem, que era feita de navio, ela conheceria e se apaixonaria pelo historiador francês Charles Le Guin, com quem se casaria em Paris em dezembro de 1953, quando ela passaria a usar também seu sobrenome. O casal retornaria aos Estados Unidos em 1954, para que ele concluísse seu doutorado na Universidade de Emory, na Geórgia, mais tarde fazendo um PhD na Universidade de Idaho. Enquanto isso, ela dava aulas de francês, trabalhava como secretária, e daria à luz duas filhas, Elizabeth, em 1957, e Caroline, em 1959. Também em 1959, Charles seria contratado como professor pela Universidade Estadual de Portland, no Oregon, e a família se mudaria para lá, onde nasceria seu terceiro filho, Theodore, em 1964. Le Guin e o marido viveriam em Portland pelo resto de suas vidas, exceto por dois períodos curtos nos quais ela foi estudar em Londres, em 1968 e 1975.

No final da década de 1940, Le Guin criaria um país fictício chamado Orsinia, onde ambientaria cinco romances escritos entre 1951 e 1961. Localizado na Europa Central, Orsinia, cujo nome foi inspirado no da própria autora (tanto Ursula quanto Orsinia têm raízes na palavra "urso"), foi uma monarquia independente até o século XIX, quando passaria a integrar Império Austro-Húngaro, se tornando uma república independente após a Primeira Guerra Mundial e um país comunista após a Segunda, passando ao capitalismo com suas primeiras eleições livres, em 1989 - todas as histórias ambientadas em Orsinia ocorrem entre 1150 e 1989, então não se sabe o destino do país depois disso. Le Guin ofereceria os romances a várias editoras, sendo sempre recusada com a desculpa de que eles eram "inacessíveis", ou seja, os leitores não conseguiriam compreender a história.

Após os Le Guin se mudarem para Portland, Charles a convenceria a voltar a enviar contos para avaliação e publicação, ao invés de tentar publicar os romances. A estratégia daria certo e, no mesmo ano, ela, já aos 30 anos de idade, conseguiria finalmente publicar seu primeiro poema, Folk Song from the Montayna Province, com apenas duas estrofes de quatro versos cada, no periódico Prairie Poet; dois anos depois, em 1961, ela publicaria seu primeiro conto, An die Musik, na revista Western Humanities Review. Tanto o poema quanto o conto seriam ambientados em Orsinia, e Le Guin não seria paga por nenhum dos dois, o que aceitou porque imaginava que, tendo finalmente trabalhos publicados, mais revistas e editoras aceitariam suas histórias.

Diferentemente do que Le Guin imaginava, ter trabalhos publicados não facilitou em nada sua vida; mas, após ouvir de várias editoras que o mercado estava em busca de histórias de ficção científica, ela decidiria deixar Orsinia um pouco de lado e investir nesse gênero. Seu primeiro conto de ficção científica publicado, e o primeiro pelo qual ela seria paga, inaugurando sua carreira de escritora profissional, seria April in Paris, na revista Fantastic Science Fiction, em 1962. O conto faria sucesso, e, nos três anos seguintes, ela conseguiria publicar outros sete; dentre eles, estariam The Word of Unbinding, primeira história ambientada no mundo de fantasia de Terramar, publicado em 1964 na Fantastic Science Fiction, e The Dowry of Angyar (também conhecido como Semley's Necklace), primeira história do que hoje é conhecido como Ciclo Hainiano, também conhecido como Ciclo de Hain ou Ciclo de Hainish (Hainish Cycle, em inglês), também publicado em 1964, mas na Amazing Stories. Em entrevistas posteriores, Le Guin diria que seu principal problema com as histórias de ficção científica da época era a de que todas elas tinham como tema "homem branco conquista o universo", e que ela tentava escrever histórias diferentes disso.

Desde a publicação de Folk Song from the Montayna Province, Le Guin usaria seu nome completo com o do meio abreviado, ou seja, Ursula K. Le Guin; a única ocasião na qual uma história sua não seria publicada sob esse nome seria em 1968, quando a revista Playboy se interessaria por publicar seu conto Nine Lives, mas, acreditando que seus leitores não gostariam de saber que foi escrito por uma mulher, pediriam para que ele fosse atribuído a U.K. Leguin. Na época ela não veria importância nisso e permitiria, mas, em entrevistas posteriores, declararia que foi a única vez em que sofreria qualquer forma de preconceito por ser uma autora mulher; em republicações posteriores, bem como na publicação de novas histórias suas, a Playboy usaria seu nome completo, mas jamais chegaria a se retratar.

Em 1966, Le Guin finalmente conseguiria publicar seu primeiro romance, Rocannon's World, também parte do Ciclo Hainiano. As histórias do Ciclo são ambientadas em um futuro distante, no qual a Terra faz parte de uma confederação de planetas chamada Ekumen, estabelecida pelos hainianos, os habitantes do planeta Hain, que, séculos atrás, conduziram um experimento de colonização em diversos planetas da galáxia, mas, depois, cessaram suas viagens espaciais, somente as retomando agora, quando decidiriam entrar em contato com seus descendentes e propor que todos se unam - segundo essa história, portanto, os seres humanos não teriam surgido na Terra, e sim em Hain, sendo nós os descendentes dos colonos hainianos que estiveram aqui na aurora dos tempos. Devido às diferentes características dos planetas, cada colônia desenvolveria características físicas e psicológicas diferentes, mas ainda sendo essencialmente todos humanos. As histórias do Ciclo Hainiano normalmente envolvem exploração espacial e diplomacia, e costumam contar com enviados de Hain travando contato com os habitantes de algum outro planeta para convencê-los a se unir ao Ekumen ou avaliar se estão prontos para conhecer outros povos através de viagens espaciais. Curiosamente, a própria Ursula detestava o nome "Ciclo Hainiano", criado pela Ace Books, argumentando que, embora todas as histórias compartilhassem a mesma ambientação, não eram uma saga, não tinham uma ordem cronológica de acontecimentos, e não formavam uma história coerente - algo que ela faria de propósito, para não ter que se preocupar com o que já teria ocorrido nas demais histórias quando fosse escrever uma nova.

Seja como for, Rocannon's World seria o primeiro romance do Ciclo Hainiano, publicado em 1966 pela Ace Books como parte de sua série Ace Double, no qual cada edição trazia duas histórias, cada uma com sua própria capa (naquele esquema de que você vira o livro de cabeça pra baixo para ler a história publicada do outro lado); o romance que compartilhava o livro com Rocannon's World era The Kar-Chee Reign, segundo de Avram Davidson. Rocannon's World é parte ficção científica e parte fantasia, e acompanha o etnólogo Gaverel Rocannon, nascido na Terra, que estuda um planeta chamado Fomalhaut, no qual convivem cinco raças inteligentes: os Gdemiar, que se parecem com anões, os Fiia, que se parecem com elfos, os Kiemhrir, que se parecem com ratos antropomórficos, os assustadores Alados, e os mais semelhantes aos humanos, os Liuar. Graças a uma campanha do próprio Rocannon, Fomalhaut está sob um "embargo exploratório", que impede que ele seja colonizado ou explorado, permitindo que seja apenas estudado. Evidentemente, isso não interessa a um grupo poderoso, que sabota a nave de Rocannon para tentar matá-lo; ele sobrevive, mas naufraga no planeta, sem ter como voltar e tendo de aprender a sobreviver em um mundo e uma sociedade completamente alienígenas.

Rocannon's World seria um grande sucesso, e motivaria a Ace Books a lançar mais um romance de Le Guin na Ace Double ainda em 1966, Planet of Exile, que dividiria o livro com Mankind Under the Leash, romance de estreia de Thomas M. Disch. Planet of Exile é ambientado no planeta Werel, onde um ano corresponde a 60 anos terrestres, e onde coexistem duas raças, os teravans, nativos do planeta, e os humanos provenientes da Terra, que tentaram estabelecer ali uma colônia. Embora ambos tenham um ancestral comum (os hainianos), eles não conseguem se reproduzir entre si, e um grupo é desconfiado do outro, estabelecendo contato mínimo e jamais interagindo por vontade própria. Mas o longo inverno se aproxima, e uma visita da curiosa Rolery, adolescente teravan e protagonista da história, à colônia humana pode levar a mudanças irreversíveis na estrutura social do planeta.

Planet of Exile também seria um grande sucesso, e aí a Ace Books ofereceria a Le Guin um livro inteiro, sem dividir com ninguém. Esse livro seria City of Illusions, publicado em 1967, ambientado na Terra em um futuro muito distante, no qual a população humana foi reduzida e vive em pequenas comunidades rurais ou tribos nômades. Os responsáveis por essa redução foram alienígenas chamados Shing, que possuem poderes telepáticos, atacaram o planeta 1200 anos antes do início da história, e ainda o governa. O protagonista é um humano que estava voltando de uma viagem espacial, sem saber do destino da Terra, foi capturado pelos Shing, teve sua mente completamente apagada e foi abandonado na floresta; salvo pelos habitantes de uma pequena comunidade, ele deve tentar sobreviver no mundo onde nasceu, mas que agora é completamente desconhecido por ele. Embora as três histórias não sejam ligadas, o fato de elas claramente envolverem os hainianos levaria a Ace Books a, em uma jogada de marketing, anunciá-los, inclusive em republicações posteriores, como "A Trilogia Hainiana", termo que mais tarde, com o lançamento de mais livros, seria substituído por Ciclo Hainiano.

A Trilogia Hainiana faria um grande sucesso dentre os leitores, mas passaria em branco dentre a crítica, que sequer chegaria a avaliá-la. O livro seguinte de Le Guin, porém, seria um surpreendente sucesso de crítica (e de público), ganhando resenhas nas principais revistas especializadas, destaque nas livrarias e rendendo a ela convites para entrevistas. Tudo começaria ainda em 1967, quando a editora Parnassus Press a procuraria e perguntaria se ela estaria interessada em escrever para adolescentes - já que seus três livros publicados haviam sido classificados como para "jovens adultos". Le Guin aceitaria, e optaria por escrever uma história de jornada do herói e passagem à maioridade ambientada no mundo de fantasia de Terramar, no qual ela já havia ambientado os contos The Word of Unbinding e The Rule of Names.

Assim surgiria O Feiticeiro de Terramar (A Wizard of Earthsea), publicado em 1968, que acompanha o jovem Ged, nascido numa comunidade extremamente pobre, mas que, por demonstrar afinidade com a magia, é levado para a principal escola de magos de seu mundo para ser treinado. Terramar, apropriadamente para seu nome, é um gigantesco arquipélago, com as viagens entre uma ilha e outra feitas por barcos e navios; a magia é bastante presente e os magos são considerados valiosos, pois nem todos conseguem dominá-la - cada comunidade costuma ter um mago residente que, dentre outras coisas, cuida para que saqueadores não a ataquem, as colheitas não se percam, e para que os ventos levem os barcos mais rapidamente a seus destinos. Le Guin faria a história propositalmente sem guerras, que ela considerava um clichê da fantasia e "muito masculinas".

No ano seguinte, Le Guin lançaria o mais famoso de seus livros, aquele que a colocaria definitivamente na lista dos maiores escritores de ficção científica e fantasia de todos os tempos: A Mão Esquerda da Escuridão (The Left Hand of Darkness), publicado pela Ace Books em 1969. O protagonista da história é Genly Ai, nascido na Terra e enviado como emissário ao planeta Gethen, para convidá-los a se unir ao Ekumen. A principal dificuldade é que Gethen possui duas nações dominantes, que não vão com a cara uma da outra, mas o principal detalhe da história é que os nativos de Gethen não possuem gênero, sendo todos assexuados exceto por um curto período a cada mês durante o qual podem se reproduzir, quando cada um assume o sexo masculino ou feminino dependendo de fatores como afinidade e predisposição. O livro toca em temas como feminismo, papel do gênero na cultura e sociedade, e até mesmo xenofobia e religião, e seria o primeiro romance não só da ficção científica, mas da literatura como um todo, a trazer personagens andróginos.

A Mão Esquerda da Escuridão ganharia os dois principais prêmios da literatura de ficção científica, o Hugo e o Nebula, ambos em 1970, e, em 1987, seria considerado pela prestigiada revista Locus o segundo maior romance de ficção científica de todos os tempos, atrás apenas de Duna. Ainda assim, o livro não escaparia de críticas, por não mostrar personagens andróginos em papéis tradicionalmente femininos, com todos sendo políticos, militares ou sacerdotes, papéis tradicionalmente masculinos; pelo fato de que todos os andróginos mostrados no livro possuem relacionamentos heterossexuais (todos os casais são compostos por um no papel de homem e outro no papel de mulher); e por utilizar apenas pronomes masculinos (ele/dele) ao se referir aos personagens andróginos.

Le Guin não planejava escrever uma sequência para O Feiticeiro de Terramar, mas o sucesso do livro acabaria fazendo com que a Atheneum Books, que controlava a Parnassus Press, a convencesse a mudar de opinião. Assim surgiriam As Tumbas de Atuan (The Tombs of Atuan), publicado em 1971, e The Farthest Shore, publicado em 1972, que traziam mais viagens de Ged por Terramar, e fechavam uma trilogia. Le Guin aproveitaria, mais uma vez, embora de forma mais comedida, já que o público-alvo era de uma faixa etária menor, para explorar temas como religião, ética e o papel do gênero na sociedade - a protagonista de As Tumbas de Atuan é uma menina, Tenar, com Ged sendo um coadjuvante de luxo. Ambos seriam grandes sucessos de público e crítica, e The Farthest Shore ganharia o National Book Award de Melhor Livro Infantil, além de ser adaptado em 2006 para o filme de animação Tales of Earthsea, do Studio Ghibli.

Entre os dois livros de Terramar, Le Guin lançaria A Curva do Sonho (The Lathe of Heaven), em 1971, pela Scribner's Books. Ambientado em 2002, quando a Terra está sendo assolada pela instabilidade climática e pela superpopulação, o livro acompanha George Orr, que descobre que seus sonhos têm o poder de alterar a realidade, e passa a ser manipulado por seu psiquiatra, que quer usar esse poder em benefício próprio. A Curva do Sonho ganharia o Locus Award de Melhor Romance em 1972, e seria uma das poucas obras de Le Guin a ser adaptada para a TV, primeiro em 1980, pelo canal PBS, depois em 2002, pelo canal A&E.

Le Guin voltaria ao Ciclo Hainiano com Floresta é o Nome do Mundo (The Word for World is Forest), novela originalmente publicada em 1972 na antologia Again, Dangerous Visions, da Doubleday, e, em 1976, como um livro separado, pela Berkley Books. A história é ambientada no pacífico planeta Athshe, totalmente tomado por uma floresta, que é invadido e colonizado à força pela Terra, que instaura no local um governo militar que trata os nativos, extremamente pacíficos e que não conheciam a guerra, de forma severa - até um deles decidir se revoltar e montar um grupo para expulsar os colonizadores. Le Guin declararia ter sido motivada a escrever a história, que contém uma forte crítica anti-colonialista e anti-militarista, pela Guerra do Vietnã. Floresta é o Nome do Mundo ganharia o Hugo Award em 1973, e seria um dos primeiros romances de ficção a abordar temas ecológicos e a ligação entre linguagem e cultura.

O romance seguinte do Ciclo Hainiano, Os Despossuídos (The Dispossessed), seria publicado pela Harper & Row em 1974. A história é ambientada de forma intercalada no planeta Urras e em seu satélite, Anarres; cerca de 150 anos antes de seu início, os odonianos, equivalentes aos comunistas de Urras, se mudaram todos para Anarres, onde fundaram uma sociedade totalmente cooperativa, sem governo, moeda ou leis, na qual cada um trabalha com o que quiser, da forma como quiser, e a única coisa que impede a ruína da sociedade é o senso de coletividade, que faz com que todos os anarrestis façam suas escolhas levando em conta o bem comum, e não seu próprio bem-estar. O protagonista da história é o físico Shevek, que cria uma teoria revolucionária, mas, ao perceber que a sociedade de Anarres não está interessada em suas ideias, decide se tornar o primeiro anarresti a viajar de volta para Urras, para oferecer seu trabalho ao Conselho de Governos Mundiais - pois Urras, ao contrário de Anarres, é dividida em várias nações, sendo as principais A-Io, mais ou menos equivalente aos Estados Unidos, Thu, mais ou menos equivalente à União Soviética, e Benbili, mais ou menos equivalente à China. Em Urras, porém, Shevek passará por um verdadeiro choque cultural, se sentido perdido em meio a uma sociedade capitalista, hedonista e cheia de convenções de hierarquia e política.

Os Despossuídos também ganharia os prêmios Hugo e Nebula, o que faria com que Le Guin se tornasse a primeira pessoa a ganhar os dois prêmios com dois livros diferentes, além do Locus Award de Melhor Romance em 1975. Embora, no início do livro, pareça que ele será um elogio ao comunismo, logo ele se torna uma grande crítica social, abordando questões relacionadas ao anarquismo, capitalismo, sociedades utópicas, propriedade privada, à importância da ciência para a sociedade, e até mesmo ao taoísmo, além de tocar mais uma vez em questões de gênero - as mulheres de Anarres são consideradas equivalentes aos homens, podendo exercer qualquer profissão, inclusive se tornando cientistas, enquanto as de Urras são consideradas inferiores e inaptas ao trabalho.

Entre A Mão Esquerda da Escuridão e Os Despossuídos, Le Guin também publicaria três contos pertencentes ao Ciclo Hainiano: A Winter's King, que tratava dos efeitos no corpo humano da viagem espacial próxima à velocidade da luz, seria publicado em 1969 no volume 5 da antologia de ficção científica Orbit, publicada pela G.P. Putnam's Sons; Vaster than Empires and More Slow, de 1971, que acompanha uma nave da Terra enviada para investigar um planeta recém-descoberto e aparentemente desabitado, e seria publicada no primeiro volume da coletânea New Dimensions, da Doubleday Books; e The Day Before the Revolution, que acompanha um dia na vida de Odo, a mulher que fundaria o movimento odoniano em Urras, e é considerado um prelúdio para Os Despossuídos, tendo sido publicado em 1974, simultaneamente ao lançamento do livro, na revista Galaxy Science Fiction. The Day Before the Revolution também ganharia um Nebula Award de Melhor Conto.

Esses três contos, bem como Semley's Necklace, The Word of Unbiding, The Rule of Names, Nine Lives e outros dez, estariam presentes na coletânea The Wind's Twelve Quarters, lançada em 1975 pela Harper & Row. Um dos maiores destaques dessa coletânea é The Ones Who Walk Away from Omelas, ambientado em uma cidade utópica cuja prosperidade está diretamente relacionada à miséria de uma única criança, publicado em 1973, no terceiro volume da New Dimensions, e que ganharia o Hugo Award de Melhor Conto.

No ano seguinte, 1976, seria lançado Very Far Away from Anywhere Else, pela Atheneum Books. Uma das pouquíssimas histórias escritas por Le Guin que não são de ficção científica, ficção histórica, nem de fantasia, o livro, voltado para jovens adultos, acompanha Owen, um menino de 17 anos introvertido, de poucos amigos e com dificuldades na família, que sonha em estudar no MIT, a prestigiada instituição universitária norte-americana voltada à ciência e tecnologia. Um dia, ele conhece Natalie, menina extrovertida de sua idade e para quem a música é tudo na vida, e essa amizade improvável acabará alterando o destino de ambos. O livro toca em temas como os efeitos da vida em sociedade, o conflito entre expectativa e realidade, e, evidentemente, o amadurecimento, mostrando a difícil transição entre a adolescência e a vida adulta.

1976 também seria o ano do lançamento de Orsinian Tales, pela Harper & Row, que continha 11 contos que Le Guin havia escrito ambientados em Orsinia, cinco deles anteriormente publicados: An die Musik, Imaginary Countries (1973, The Harvard Advocate), Brothers and Sisters (1976, The Little Magazine), A Week in the Country (1976, The Little Magazine) e The Barrow (1976, The Magazine of Fantasy & Science Fiction). O relativo sucesso dessa coletânea motivaria a Berkley Books a perguntar a Le Guin se ela tinha mais histórias de Orsinia, o que faria com que ela finalmente conseguisse publicar Malafrena, o primeiro romance que ela escreveu no cenário (devidamente revisado e atualizado), em 1979. Mais um conto ambientado em Orsinia, Two Delays on the Northern Line, seria publicado na revista New Yorker, também em 1979.

Antes disso, em 1978, seria a vez do lançamento de The Eye of the Heron, originalmente como parte da antologia Millenial Women, mas mais tarde, no mesmo ano, como um livro em separado, ambos pela Delacorte Press. A história começa 100 anos após a colonização do planeta Victoria, que não tem nenhuma comunicação com a Terra, e para onde foram enviadas duas naves de presidiários e uma de exilados políticos, e mostra o ponto de vista de diversos personagens quanto à colonização e à vida que eles levam no novo planeta. Embora Le Guin, em entrevistas, tenha declarado que "pode ser que The Eye of the Heron faça parte do Ciclo Hainiano", ele não é oficialmente assim considerado.

Na década de 1980, Le Guin decidiria investir em histórias para leitores mais jovens, lançando, inclusive, 11 livros infantis, quatro deles parte da série Catwings, cujos protagonistas eram filhotes de gato que, inexplicavelmente, nasceram com asas. Seu primeiro livro após tomar essa decisão seria The Beginning Place, lançado em 1980 pela Harper & Row, que, assim como Os Despossuídos, alterna seus capítulos entre dois cenários, a Terra e o mundo fantástico de Tembreabrezi. Voltado para jovens adultos, o livro acompanha dois adolescentes norte-americanos, Hugh Rogers e Irene Pannis, que descobrem uma passagem secreta para Tembreabrezi, onde se sentem mais em casa do que em suas próprias casas.

Mas sua principal obra do período seria Always Coming Home, lançado em 1985 também pela Harper & Row, que acompanhava Pandora, uma antropóloga nascida em um povo chamado Kesh, que habita a Terra em um futuro muito distante, centenas de anos após o colapso da sociedade moderna. Always Coming Home contrasta a vida e sociedade dos Kesh com a nossa, estudada por Pandora, e daria origem ao quarto universo criado por Le Guin (após Orsinia, Terramar e o Ciclo Hainiano), no qual também seriam publicados três contos: The Trouble with the Cotton People (1984, The Missouri Review), The Visionary (1984, na revista Parabola) e Time in the Valley (1985, The Hudson Review). As histórias ambientadas em Kesh também trazem poemas, rascunhos e esboços de animais e plantas, como se fossem um registro feito por Pandora.

Em 1990, Le Guin decidiria retornar a Terramar com Tehanu, quarto volume da série, lançado pela Atheneum Books, que acompanha mais uma vez Tenar. Segundo Le Guin, ela teria ficado insatisfeita com o papel da moça em As Tumbas de Atuan, pois, mesmo sendo a protagonista, ainda dependia muito dos homens, principalmente de Ged, e quis escrever uma nova história na qual ela fosse uma protagonista real. Tehanu seria considerado mais adulto que a trilogia original de Terramar, por ser mais sombrio e introspectivo, e renderia a Le Guin mais um Locus Award e mais um Nebula Award de Melhor Romance, o que faria com que ela se tornasse a primeira pessoa na história a ganhar três Nebulas nessa categoria.

No mesmo ano, Le Guin também retornaria ao Ciclo Hainiano, com o conto The Shobies' Story, publicado no primeiro volume da antologia Universe, da Ace Books. Em 1993, um novo conto do Ciclo, Dancing to Ganam, seria publicado na revista Amazing Stories, e, em 1994, mais um, Another Story, seria publicado na revista Tomorrow Speculative Fiction. Esses três contos ficariam conhecidos como "a trilogia de churten", já que todos tratam do mesmo tema, a viagem interestelar mais rápida que a luz, apelidada de churten - que também é usado como verbo, com uma nave "churtenando" (ou coisa assim) ao viajar de um planeta para outro em velocidade superior à da luz - em homenagem ao cientista que criou a teoria que a tornou possível, cujo nome era Churten. The Shobies' Story conta a história da tripulação da nave Shoby, que compartilha entre si suas experiências após o churten, Dancing to Ganam acompanha uma segunda viagem de dois membros da Shoby, dessa vez até o planeta Ganam, cuja sociedade ainda é pré-industrial, e Another Story, inspirada na lenda japonesa de Urashima Taro, acompanha um cientista que vai viajar do planeta O até Hain usando o churten, e se preocupa que, devido à dilatação temporal, perderá o contato com todos os seus entes queridos. Todas as três histórias estariam presentes, junto com outras cinco que não fazem parte do Ciclo Hainiano, na coletânea A Fisherman of the Inland Sea, lançada em 1994 pela Harper Prism.

Depois disso, Le Guin aparentemente se animaria e publicaria cinco histórias seguidas do Ciclo Hainiano: The Matter of Seggri (1993, revista Crank!) é ambientada no planeta Seggri, onde existe uma rigorosa segregação por gênero, e composta por cinco relatos de cinco pessoas diferentes, três mulheres e dois homens; Unchosen Love (1994, Amazing Stories) é ambientada no planeta O (de Another Story), no qual cada casamento é composto por quatro pessoas; Solitude (1994, The Magazine of Fantasy & Science Fiction) em um no qual a sociedade preza o isolamento ao invés da vida em comum; Coming to Age in Karthide (1995, antolgia New Legends, Legends Books) acompanha um habitante de Gethen passando pela adolescência e descobrindo a sexualidade pela primeira vez; Mountain Ways (1996, revista Asimov's Science Fiction) retorna ao planeta O, para acompanhar uma mulher que se envolve em um relacionamento proibido; e Old Music and the Slave Woman (1999, antologia Far Horizons, Avon Eos), acompanha o chefe de inteligência da embaixada do Ekumen no planeta Werel, onde a sociedade é escravagista e sexualmente reprimida, fazendo um relatório a seus superiores sobre a estupidez de um de seus subordinados. Todas essas histórias seriam reunidas, com mais quatro, na coletânea The Birthday of the World and Other Stories, lançada em 2002 pela Harper Collins, cuja história principal, The Birthday of the World, originalmente publicada em 2000 na The Magazine of Fantasy & Science Fiction, que acompanha uma criança durante as comemorações do aniversário de seu planeta, "pode ou não" ser do Ciclo Hainiano, segundo a própria Le Guin.

A principal publicação do Ciclo Hainiano na década de 1990, entretanto, seria Four Ways to Forgiveness, lançado em 1994 pela Harper Collins. Trata-se de uma coletânea de quatro histórias inéditas: Betrayal acompanha uma cientista e um militar com visões opostas sobre a integração de seu planeta, Yeowe, ao Ekumen, mas que acabam se tornando amigos; Forgiveness Day acompanha uma mulher nascida na Terra enviada para analisar o planeta Werel; A Man of the People acompanha um homem nascido em Hain e enviado para analisar Yeowe; e A Woman's Liberation acompanha uma mulher nascida escrava em Werel. Curiosamente, após o lançamento do livro, todas as quatro seriam publicadas em revistas, Betrayal na Blue Motel, ainda em 1994, as outras três na Asimov's Science Fiction, em 1995; A Woman's Liberation também faria parte da coletânea A Woman's Liberation: A Choice of Futures By and About Women, publicada em 2001 pela Hachette. Também em 2001, o livro seria relançado como Five Ways to Forgiveness, com o acréscimo de Old Music and the Slave Woman.

A última história do Ciclo Hainiano seria The Telling, romance publicado em 2000 pela Harcourt. A protagonista, Suki, é uma mulher descendente de indianos nascida na Terra, que viaja até o planeta Aka para atuar como observadora. Ao estilo cyberpunk (mas sem os demais elementos do gênero), Aka é governado pela Corporação, uma empresa privada capitalista que faz o papel de Estado, e proibiu todos os costumes e crenças relacionados à cultura de seus povos. O livro é como se fosse o relatório de Suki ao Ekumen, com suas observações sobre o conflito entre a Corporação e um grupo de nativos que resiste a abandonar suas tradições. The Telling tem como temas política, religião e preservação da cultura através das tradições orais, e renderia a Le Guin mais um Locus Award de Melhor Romance.

Em 2001, seria lançado, pela Harcourt, Tales of Earthsea, coletânea de seis contos ambientados em Terramar, dois deles previamente publicados: Dragonfly (1998, revista Legends) e Darkrose and Diamond (1999, The Magazine of Fantasy & Science Fiction). No mesmo ano, seria publicado, também pela Harcourt, o quinto e último romance de Terramar, The Other Wind, cujo protagonista, Alder, é um feiticeiro responsável pela proteção de um vilarejo que decide partir em uma jornada para tentar descobrir a origem de estranhos sonhos que está tendo. Le Guin ainda escreveria dois contos ambientados em Terramar, The Daughter of Odren, lançado exclusivamente em formato digital pela Harcourt em 2014, e Firelight, publicado em 2018 na revista The Paris Review. Também em 2018, a editora Saga Press lançaria The Books of Earthsea, coletânea que trazia todos os contos e romances ambientados em Terramar. Em 2004, o canal Sci Fi produziria uma minissérie em dois episódios inspirada nas histórias de Terramar, chamada Tales from Earthsea; Le Guin, porém, ficaria extremamente decepcionada, dizendo que a Terramar da minissérie não tinha absolutamente nada a ver com a que ela tinha imaginado para os livros.

Também em 2004, Le Guin criaria seu último universo ficcional, Annals of the Western Shore, que contaria com três romances: Gifts (2004), Voices (2006) e Powers (2007), todos lançados pela Harcourt. As histórias são ambientadas em cidades-estado localizadas no litoral ocidental de um reino medieval; a primeira tem como protagonistas Gry e Orrec, dois jovens pobres que descobrem ter habilidades psíquicas, tendo de aprender a lidar com elas; a segunda é protagonizada por Memer, menina que vive em uma cidade ocupada pelo brutal povo do deserto, que tenta impedir seus habitantes originais de preservar sua própria cultura; e o terceiro é centrado em Gavir, escravo que descobre ter o dom da premonição e é treinado para se professor de um jovem de família rica. Gry e Orrec fazem uma participação especial no segundo livro, e os dois e Memer são personagens importantes no terceiro. Powers renderia a Le Guin seu quarto Nebula Award de Melhor Romance, transformando-a na recordista da categoria.

Além de uma autora de sucesso, Le Guin também seria uma figura central na luta pelos direitos dos autores: em 1977, ela recusaria um Nebula Award de Melhor Conto por The Diary of the Rose, em protesto contra a revogação da filiação de Stanislaw Lem pela Associação dos Escritores de Ficção Científica da América, alegando que não fazia sentido ela receber de um grupo que pratica a intolerância política um prêmio por uma história que critica a intolerância política; em 2009, ela se desfiliaria da Guilda dos Autores da América, em protesto contra o apoio do órgão ao projeto do Google de digitalização de livros, que, em sua opinião, seria maléfico aos autores; e, em 2014, durante o National Book Awards, criticaria duramente a Amazon por sua influência sobre as editoras, em um discurso que ficaria famoso e seria reproduzido por várias emissoras de TV e rádio. Outro de seus discursos, na abertura do ano letivo da universidade Mills College, em Oakland, Califórnia, em 1983, seria considerado um dos 100 maiores discursos do século XX, e escolhido para preservação pela sociedade American Rethoric.

Le Guin faleceria em sua casa, em Portland, em 22 de janeiro de 2018, aos 88 anos de idade. Seu filho declararia que ela já estava com a saúde debilitada há meses, e que provavelmente havia tido um ataque cardíaco. Ela é hoje considerada uma das maiores autoras de ficção científica de todos os tempos, tendo influenciado toda uma geração de autores, dentre os quais podem ser citados Neil Gaiman, Jo Walton, Orson Scott Card e Salman Rushdie. Sem contar os que pertencem ao Ciclo Hainiano (17), Terramar (10), Orsinia (5) e Kelsh (3), ela publicaria nada menos que 67 contos entre 1962 e 2018, o que a torna uma das autoras norte-americanas com mais contos publicados. Em 2000, ela receberia o título de Lenda Viva pela Biblioteca do Congresso dos Estados Unidos, e, em 2016, entraria para um grupo seleto de autores cujas obras completas foram publicadas pela Library of America.
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