domingo, 15 de julho de 2018

Motonáutica

O tema do post de hoje é motonáutica, que, para quem não sabe, é o nome do esporte que consiste em uma corrida de barcos a motor. Eu nunca fui muito fã de motonáutica, e, até onde me lembre, só assisti a um pedaço de uma prova uma única vez. Por que, então, a motonáutica estaria recebendo a honra de se tornar um post do átomo? A resposta é simples: depois de escrever sobre o cabo de guerra, ficaria faltando apenas um para que eu falasse de todos os esportes que já fizeram parte do programa das Olimpíadas, e esse esporte, por mais bizarro que isso possa parecer, é a motonáutica. Em nome de completar todos eles, portanto, hoje é dia de motonáutica no átomo!

Por mais incrível que isso possa parecer, a motonáutica é um esporte bastante antigo, com seu primeiro campeonato tendo sido disputado em 1903, organizado pelo Automóvel Clube da Grã-Bretanha e Irlanda. Corridas "soltas" de barcos a motor ocorriam na França desde o final do século XIX, mas foi a partir dos esforços desse Automóvel Clube, através de um departamento chamado Associação Marinha de Motor, que o esporte começou a se popularizar através da Europa, com a primeira "prova internacional" sendo realizada já em 1904, com partida em Dover, no sul da Inglaterra, e chegada em Calais, França. Em pouco tempo, a motonáutica se popularizaria também nos Estados Unidos, com a Associação Americana de Barcos a Motor sendo fundada em 1910, e as primeiras provas em águas norte-americanas sendo disputadas em 1911, na Califórnia.

A motonáutica é regulada pela União Motonáutica Internacional (UIM, da sigla em francês), órgão fundado em 1922 com o nome de União Internacional de Iatismo Automobilístico, tendo como membros fundadores os Automóvel Clubes da Grã-Bretanha e Irlanda, da Alemanha e da Bélgica. O nome atual seria adotado em 1927, quando esses três países ganhariam cada um sua própria federação nacional de motonáutica, e a eles se uniriam na UIM as federações de Argentina, França, Holanda, Mônaco, Noruega, Polônia e Suécia; os Estados Unidos se filiariam no ano seguinte, em 1928. Hoje, a UIM conta com 62 membros dos cinco continentes, incluindo o Brasil.

No início, as provas de motonáutica eram muito diferentes das disputadas hoje, sendo extremamente longas, com cada trajeto tendo por volta de 500 km de extensão; uma das mais famosas era a prova Miami-Nassau, disputada pela primeira vez em 1956, que começava nos Estados Unidos e terminava nas Bahamas. Além disso, como as provas eram sempre disputadas em alto-mar, e não havia boias ou qualquer outra forma de demarcar o circuito, era indispensável que cada barco contasse com um navegador, que deveria encontrar pontos de referência em meio ao oceano para que o piloto seguisse o caminho correto. Desde a década de 1990, todas as provas da UIM são realizadas no chamado "circuito fechado", um circuito demarcado por boias no qual os barcos completam diversas voltas, como em uma prova de automobilismo ou motociclismo. O circuito fechado foi criado na década de 1960, mas jamais foi realmente popular, tendo sido adotado na marra pela UIM por questões de segurança; hoje, ainda são realizadas provas de longa distância com navegador, mas sempre organizadas por federações nacionais ou organizações privadas.

Além da mudança nos circuitos, houve uma grande mudança nos tipos de barcos utilizados, tanto que a UIM reconhece o período a partir da década de 1960 como Era Moderna da Motonáutica. Na década de 1960, três norte-americanos, Jim Wynne, Dick Bertram e Don Aronow, fizeram grandes esforços para trazer a mais recente tecnologia para a motonáutica, conseguindo o apoio dos fabricantes Daytona, Mercruiser e Aeromarine. Para vocês terem uma ideia de como o esporte mudou, imaginem se existisse uma categoria do automobilismo na qual, até um determinado ano, todo mundo competisse com carros de rua, e, de repente, alguns pilotos passassem a competir com carros de Fórmula 1. Como sempre acontece nesses casos, não somente logo todos queriam competir com o mesmo tipo de barco, para não ficar em desvantagem, como também os outros fabricantes também começariam a investir em tecnologia, para não ficar para trás.

Os norte-americanos dominariam as competições internacionais até o final da década de 1970, quando os europeus começariam a usar catamarãs fabricados pelas italianas Picchiotti e CUV e pela britânica Cougar. Na década de 1980, começariam a ser usados barcos nos quais o casco era feito de uma peça única de alumínio, e, mais tarde, uma criação do italiano Fabio Buzzi, o casco de polímeros reforçado com fibra de vidro. No início da década de 1990, o esporte passaria a ser dominado pelos motores turbo de 1.000 cilindradas, com cada barco tendo até quatro motores; as principais fabricantes a partir de então passariam a ser Sterling, Lamborghini, Seatek e Mercury.

Atualmente, a UIM regula duas modalidades da motonáutica, a offshore, na qual as provas são disputadas em mar aberto, e a inshore, na qual as provas são disputadas em lagos, represas ou baías. Não existe um "Mundial de Offshore" ou um "Mundial de Inshore"; assim como no automobilismo, os campeonatos possuem regras específicas quanto ao tipo de barco que pode ser usado pelos pilotos, recebendo nomes próprios. Atualmente, o principal campeonato da motonáutica pertence à offshore, e se chama XCAT World Series.

Um barco da XCAT tem entre 12 e 14 m de comprimento, por volta de 3,5 m de largura, e peso mínimo de 4.950 kg - ou seja, quase cinco toneladas. Os barcos são do tipo catamarã, com dois cascos, e têm dois motores cada, que devem ser ambos idênticos; caso o barco use motores V12 (em forma de V com 12 cilindros), cada motor deve estar limitado a 7.600 rotações por minuto, e, caso use motores V8, a 6.100 rpm - em ambos os casos, cada motor deve estar limitado a 850 hp, o suficiente para que, independentemente do tipo de seus motores, o barco alcance uma velocidade máxima de 260 km/h. Após muitos acidentes que abreviaram a vida de vários pilotos, a UIM passou a fazer da segurança sua principal prioridade, e hoje os barcos já contam com cockpits semelhantes aos encontrados em aviões de guerra, que garantem que seus ocupantes sobrevivam até mesmo se houver uma colisão entre dois barcos a 150 km/h. Os materiais usados nos barcos também são extremamente resistentes, como kevlar e fibra de carbono, e o cockpit conta com uma válvula de segurança para permitir a rápida saída de seus ocupantes.

"Ocupantes" porque cada barco tem dois, um piloto e um throttleman - throttle, em inglês, é o acelerador, ou seja, enquanto o piloto controla a direção, o throttleman controla a velocidade do barco, sendo necessária uma excelente cooperação entre ambos para que o melhor aproveitamento seja alcançado; imaginem um carro no qual uma pessoa controla o volante e outra pessoa diferente controla o acelerador e o freio para terem uma ideia de como isso deve ser complicado. As equipes são "patrocinadas", e contam com nomes curiosos como Dubai Police, 222 Offshore e Team Australia; normalmente, uma fabricante como a Lamborghini ou a Mercury constrói o barco, e a patrocinadora apenas empresta seu nome, não sendo incomum que barcos de várias equipes diferentes sejam do mesmo fabricante. Participam do campeonato de 2018 treze equipes, sendo três dos Emirados Árabes Unidos, três da Austrália, duas da Itália, e uma cada para Suécia, Rússia, Kuwait, Espanha e França; o piloto e o throttleman são sempre da mesma nacionalidade da equipe, mas, curiosamente, a patrocinadora não precisa ser - o barco da Espanha, por exemplo, se chama Team Fujairah, e é patrocinado por um sheik dos Emirados Árabes.

A XCAT substituiu a Class 1 World Powerboat Championship, principal categoria da motonáutica até 2016. A primeira temporada da Class 1 foi disputada em 1964, com o nome de Sam Griffith Trophy, e, na época, cada barco só possuía um ocupante, que controlava tanto sua direção quanto sua velocidade. A obrigatoriedade de dois ocupantes foi instituída para o campeonato de 1967, e o nome Class 1 foi adotado pela primeira vez no campeonato de 1977. Entre 1964 e 1976, o campeonato era disputado em várias provas ao redor do mundo, com os barcos recebendo pontuação de acordo com a colocação que obtinham em cada prova, e, ao final da última, o barco com mais pontos sendo o campeão; em 1977, além de mudar o nome, a UIM mudou também a regra, fazendo com que o campeonato fosse decidido em uma série de três provas disputadas no mesmo local, durante um único final de semana. Essa regra persistiu até 1991, e, em 1992, passou a ser adotada a regra atual: são disputadas várias etapas ao redor do mundo, cada uma com duas provas, uma disputada no sábado e uma no domingo; os barcos ganham pontos de acordo com sua colocação em cada prova, e, ao final da última etapa, o barco com mais pontos é o campeão.

A temporada de 2018 da XCAT contará com sete provas, sendo duas nos Emirados Árabes (a primeira da temporada, em Fujairah, e a última, em Dubai), uma na Itália (em Stresa) e quatro na China (todas em locais ainda a definir). O Brasil já sediou uma etapa, no Rio de Janeiro, em 2010. As provas são disputadas em mar aberto, em circuitos fechados. Diferentemente, por exemplo, dos circuitos da Fórmula 1, os circuitos da XCAT possuem poucas curvas e longas retas, sendo apenas as curvas demarcadas por boias, contando os barcos com GPS na cabine do piloto para que ele se mantenha sempre dentro do traçado. As boias possuem cores diferentes dependendo de para que lado a curva deve ser feita: se a curva é para a direita, a boia é amarela, se a curva é para a esquerda, a boia é vermelha. Pelas regras da UIM, cada prova deve ter duração total entre 55 e 75 milhas náuticas (em km, entre 101,86 e 138,9), sendo cada circuito montado para que essa distância seja alcançada com entre 11 e 15 voltas. Como os barcos não precisam trocar pneus nem reabastecer durante a corrida, não existem paradas, com a prova toda sendo feita de uma vez só.

No início, o campeonato era dominado pelos norte-americanos, com o primeiro piloto de fora dos Estados Unidos a conquistar o título sendo o italiano Vincenzo Balestrieri em 1968 - e, assim mesmo, com equipe (Magnum) e throttleman (Don Pruett) norte-americanos. A primeira equipe de fora dos Estados Unidos só conquistaria o título dez anos depois, em 1978, quando os também italianos Francesco Cosentino e Alberto Diridoni seriam campeões pela equipe italiana Picchiotti. A partir da década de 1990, os europeus começariam a dominar o esporte, com os norte-americanos praticamente sumindo; nos anos mais recentes, o domínio tem sido dos Emirados Árabes Unidos, tanto em termos de pilotos e throttlemen quanto de equipes - aliás tanto o maior campeão da categoria, Arif Saf Al-Zafeen, oito títulos como piloto, sendo seis deles auxiliado por Nadir Bin Hendi, como os atuais campeões, o piloto Salem Aladidi e o throttleman Eisa Al Ali, nasceram nos Emirados Árabes. O Brasil já teve um campeão na Class 1, Wallace Franz, que, ao lado do throttleman norte-americano Robert Moore na equipe norte-americana Bertram, conquistou o título de 1975. E a motonáutica também é um dos poucos esportes a motor a ter uma mulher como campeã em sua categoria principal, a norte-americana Betty Cook, que teve como throttleman o compatriota John Connor (que não é o de O Exterminador do Futuro), ao conquistar o título de 1979 pela equipe britânica Cougar.

Vale citar, também, um dado triste, mas que tornou a motonáutica famosa: o piloto campeão de 1989, pela equipe italiana Buzzi, ao lado do throttleman Romeo Ferraris, também campeão como throttleman em 1988, se chamava Stefano Casiraghi. Além de piloto, Casiraghi era empresário, tendo sido fundador e acionista majoritário da Engeco, empresa de construção civil sediada em Mônaco; presidente da Cogefar, uma subsidiária francesa da italiana Fiat; e diretor da rede Christian Dior em Mônaco; mas ficou famoso mesmo por, em 1983, ter se casado com a Princesa Caroline de Mônaco, com quem teve três filhos. Em 3 de outubro de 1990, Casiraghi, aos 30 anos de idade, estava disputando uma prova da Class 1 justamente em Mônaco, e, dependendo do resultado, poderia conseguir um bicampeonato; visto como bon vivant, ele já havia prometido se aposentar após essa corrida, independentemente de ser campeão ou não, e se dedicar exclusivamente aos negócios e à família. Casiraghi, entretanto, nunca teve chance: durante a corrida, seu barco atingiria uma onda de 1,2 m de altura e capotaria; como não tinha cabine fechada, o piloto se afogaria antes que o socorro pudesse alcançá-lo - seu throttleman, o também italiano Patrice Innocenti, conseguiria sobreviver. Após a morte de Casiraghi, várias medidas de segurança seriam adotadas pela UIM, como a obrigatoriedade de cabine fechada para os barcos e da montagem dos circuitos mais próxima da costa, onde as ondas costumam ser mais suaves. Em homenagem a Casiraghi, o campeonato de 1990 seria cancelado, e permaneceria sem campeão.

Já na modalidade inshore (atualmente oficialmente chamada pela UIM de "circuit"), o principal campeonato se chama Fórmula 1; como ele á organizado por uma parceria entre a UIM e uma organização privada chamada H2O, o campeonato costuma ser referenciado como F1H2O, para não ser confundido com a Fórmula 1 do automobilismo. Os barcos da Fórmula 1 (assim como os usados nos demais campeonatos de inshore) são bem menores que os da XCAT (e que os usados nos demais campeonatos de offshore), tendo 6 metros de comprimento por 2 de largura, e pesando por volta de 390 kg. Eles também são catamarãs, construídos em fibra de carbono e kevlar, mas é usado apenas um motor por barco; barcos da Fórmula 1 usam motores V6, de 400 hp e 1.500 rpm, capazes de atingir uma velocidade máxima de 250 km/h.

O primeiro campeonato da Fórmula 1 foi disputado em 1981; antes disso, já existiam diversas provas e campeonatos de inshore, mas nenhum no mesmo estilo dos principais campeonatos dos esportes a motor, ou seja, com uma série de etapas disputadas em diferentes países. O primeiro a tentar criar um campeonato nesse estilo para barcos de inshore seria David Parkinson, relações-públicas da fabricante de motores Mercury, que, em 1978, criaria o Canon Trophy, que teria esse nome por ser patrocinado pela fabricante de eletrônicos japonesa Canon. Para fazer um trocadilho com o nome da principal categoria do offshore na época (Class 1, ou "Class One"), a Mercury batizaria os barcos que participavam do Canon Trophy com o nome de Classe ON.

A Mercury, entretanto, possuía uma rival, a OMC, que, evidentemente, não ficou satisfeita com o novo campeonato, imaginando que poderia perder mercado para a concorrente. Logo após o início do Canon Trophy, a OMC lançaria um novo motor V8, mais potente que os V6 da Mercury, e batizaria os barcos equipados com ele de Classe OZ. Evidentemente, como os motores OMC eram mais potentes que os Mercury, as equipes equipadas com eles, em muito menor número que as equipadas com motores Mercury (que, afinal, foi quem inventou o torneio), dominaram o Canon Trophy de 1979, o que não deixou os pilotos patrocinados pela Mercury nem um pouco satisfeitos: em 1980, eles decidiriam fundar a FONDA, a Associação dos Pilotos de Fórmula ON, e pedir à organização do Canon Trophy o banimento dos barcos Classe OZ, transformando o torneio em exclusivo para a Classe ON. Como a organização não aceitou, eles decidiram fazer o contrário, abandonando o Canon Trophy e fundando seu próprio campeonato exclusivo de Classe ON.

Mas havia um problema: ambos os campeonatos, o da Classe ON e o da Classe OZ, queriam usar, para 1981, o nome "Fórmula 1", para deixar bem claro que aquele era o principal campeonato de inshore do planeta. Para tentar dirimir a situação, a FONDA recorreu à UIM, mas se deu mal: argumentando que os barcos da Classe OZ eram mais velozes, a UIM decidiu dar à OMC o direito de chamar o seu campeonato de "Fórmula 1", recomendando à FONDA que ela usasse o nome "Grand Prix". Assim, em 1981, teríamos a primeira edição de dois campeonatos, o John Player Special Formula 1 World Series, destinado a barcos da Classe OZ, e o FONDA World Grand Prix Series, destinado a barcos da Classe ON.

Mas essa história ainda teria mais uma reviravolta: no final de 1984, a Benson & Hedges, dona da marca John Player Special, decidiria se desligar da motonáutica, o que representava dois problemas, já que ela não somente fornecia a maior parte do dinheiro necessário, mas também cuidava da organização do campeonato - a Benson & Hedges, nos anos 1980, era mais ou menos como a Red Bull hoje, contando com uma divisão especializada em organizar campeonatos esportivos. A OMC, então, faria contratos com duas outras empresas, a fabricante norte-americana de velas automotivas Champion, que entraria com o dinheiro, e a belga Pro One, que ficaria responsável pela organização e promoção do campeonato, renomeado para Champion Spark Plug Formula 1 World Series. Buscando atrair mais público, novos pilotos, e aumentar sua presença nos Estados Unidos, a Pro One criaria uma imensa campanha de marketing. No final do ano, a OMC descobriria que ela foi imensa até demais: em um ano, a Pro One gastaria todo o dinheiro que a Champion havia reservado para três temporadas. A Champion ameaçaria suspender seu patrocínio, e só seria demovida quando a Pro One foi demitida e a OMC concordou em realizar todas as provas do campeonato de 1986 nos Estados Unidos, com a maior parte do retorno financeiro das provas indo para a patrocinadora. A temporada de 1986, porém, foi um enorme fracasso de público, e, ao seu final, a OMC não viu outra saída a não ser cancelar o campeonato.

Com o fim do campeonato da Classe OZ, quase todos os pilotos e equipes decidiriam migrar para a Classe ON, já que o campeonato da FONDA, capitaneado por David Parkinson, ainda estava a todo vapor. Mais ainda, sem os barcos da Classe OZ, os da Classe ON eram os mais rápidos, de forma que Parkinson fez um pedido à UIM para que o campeonato da FONDA passasse a ser reconhecido como a "Fórmula 1", o que foi atendido no final de 1989, com o campeonato de 1990 já se chamando UIM Formula 1 World Championship. A parceria com a H2O começaria em 2009, quando o nome do campeonato seria mudado para UIM Formula 1 H2O World Championship. Essa confusão toda faz com que, para efeitos de estatística, a UIM considere como edições do "Campeonato Mundial de Fórmula 1" as organizadas pela OMC entre 1981 e 1986 e as organizadas pela FONDA a partir de 1990 - ou seja, para a UIM, entre 1987 e 1989 não houve campeonato, e as edições organizadas pela FONDA entre 1981 e 1989 pertenceram a outra categoria, a Grand Prix.

Tradicionalmente, a Fórmula 1 é dominada pelos italianos, com o maior campeão sendo Guido Cappellini, com 10 títulos (1993, 1994, 1995, 1996, 1999, 2001, 2002, 2003, 2005 e 2009); o atual campeão, Alex Carella, tem quatro (2011, 2012, 2013 e 2017), assim como o norte-americano Scott Gillman (1997, 2000, 2004 e 2006); abaixo deles, com três títulos cada, vêm o francês Philippe Chiappe (2014, 2015 e 2016) e outro italiano, Renato Molinari (1981, 1983 e 1984). Um circuito de inshore tem por volta de 2 km de extensão, com uma prova durando cerca de 50 voltas; como os barcos são extremamente rápidos, uma prova completa costuma durar entre 45 minutos e uma hora. Diferentemente do offshore, no inshore é disputada apenas uma prova por etapa; para 2018, estão previstas oito etapas: Portugal, Grã-Bretanha, França, Abu Dhabi, Sharjah (essas duas nos Emirados Árabes Unidos), duas na China (em Harbin e Liuzhou) e uma em um país ainda a definir (que seria no Qatar, que desistiu no começo do ano). O Brasil já sediou uma etapa, no Lago Paranoá, em Brasília, na temporada de 2013.

Além da motonáutica, a UIM regula outros três esportes, dos quais o mais interessante é o AquaBike - que nada mais é que um nome chique para um jet ski. A UIM sanciona dois tipos diferentes de jet skis (ou AquaBikes): o chamado Runabout possui um assento para o piloto, tem no máximo 3,6 m de comprimento e 1,27 m de largura, pesa por volta de 300 kg e é equipado com um motor de 2.600 cc e 380 hp, capaz de alcançar até 170 km/h; já o chamado Ski é menorzinho, com no máximo 2,8 m de comprimento e 85 cm de largura, pesa por volta de 190 kg, e sua principal característica é que não possui assento, ou seja, o piloto deve permanecer o tempo todo de pé. Um jet ski do tipo Ski pode ter motor de três tipos: o de dois tempos, 1.300 cc e 200 hp; o de quatro tempos, 1.620 cc e 170 hp; e o de quatro tempos turbo, 1.000 cc e 170 hp. Todos os três alcançam a velocidade máxima de 130 km/h.

Existem seis disciplinas do AquaBike. A mais popular é a circuito, que segue as mesmas regras já vistas aqui para a motonáutica: um circuito fechado é montado próximo à costa ou em um lago ou represa, demarcado por boias, e os pilotos dão várias voltas nele, com o vencedor sendo o que cruzar a linha de chegada ao final da última. Pelas regras da UIM, um circuito de AquaBike deve ter no máximo 1.500 metros para o Runabout e 1.300 metros para o Ski, e uma prova deve ter no máximo 29 voltas para o Runabout e 27 voltas para o Ski. O campeonato mundial atualmente se chama UIM-ABP AquaBike World Championship (sendo o ABP de AquaBike Promotion, parceira da UIM na organização e promoção do campeonato), e é disputado desde 1996 para o Runabout masculino, 2001 para o Ski masculino e 2005 para o Ski feminino. Para a temporada de 2018 estão previstas seis provas, sendo duas na Itália (Gallipoli e Olbia), duas na China (Nansha e Xangai) e duas nos Emirados Árabes Unidos (Dubai e Sharjah). O maior campeão no Runabout masculino é Yousef Al Abdulrazzaq, do Kuwait, com quatro títulos (2013, 2015, 2016 e 2017); no Ski masculino, é o francês Jérémy Poret, também com quatro (2011, 2012, 2014 e 2016); e no feminino é a também francesa Julie Bulteau, com três (2009, 2010 e 2011).

A segunda disciplina é o estilo livre, na qual cada competidor tem 3 minutos para apresentar uma rotina de manobras, um de cada vez. Cada rotina é julgada por um painel de cinco juízes, que leva em conta a qualidade, a quantidade e a variedade das manobras apresentadas, conferindo uma nota para cada apresentação. Evidentemente, depois que todos tiverem se apresentado, o piloto que recebeu a maior nota é declarado vencedor. O estilo livre é um esporte misto, e nele os competidores usam um jet ski do tipo Ski, obrigatoriamente com motor de dois tempos e com peso máximo de 125 kg. Desde a primeira edição, em 1996, cada etapa do UIM-ABP AquaBike World Championship conta também com uma competição de estilo livre, com o Campeão Mundial do ano sendo conhecido ao final da última. O maior campeão é Rok Florjancic, da Eslovênia, com quatro títulos (2013, 2014, 2015 e 2016). O Brasil possui um tricampeão mundial, Alessander Lenzi, que conquistou o título em 2003, 2004 e 2005. A melhor colocação já obtida por uma mulher foi o terceiro lugar da russa Ekaterina Tolkonova em 2008.

A terceira disciplina é o slalom paralelo, na qual dois pilotos competem um contra o outro, com o vencedor avançando e o perdedor sendo eliminado, até que só reste um, o campeão. Um circuito de slalom paralelo é uma linha reta de 96 metros de comprimento, que conta com cinco boias que devem ser margeadas pela direita (amarela) ou esquerda (vermelha), como em uma competição de slalom do esqui. Cada embate é decidido em melhor de três, com o piloto que ganhar duas primeiro sendo o vencedor. Ainda não existe um mundial de slalom paralelo; para tentar popularizar o esporte, a APB organiza, em algumas das etapas do Mundial, no último dia de competição, três provas: uma entre os oito melhores do Runabout masculino, uma entre os oito melhores do Ski masculino e uma entre as quatro melhores do Ski feminino. Ainda não há previsão de em quais etapas isso ocorrerá esse ano.

As três últimas disciplinas não possuem campeonatos, apenas provas "soltas". A primeira delas é o endurance, que consiste em uma prova longa disputada em circuito fechado. Um circuito de endurance deve ter entre 5 e 20 km de extensão, mas a prova não pode durar mais que uma hora; os jet skis podem reabastecer durante a prova, já que seu combustível não é suficiente para completar toda ela com um único tanque. A segunda é o offshore, disputada em mar aberto, em um trajeto de no mínimo 110 km, contando com boias ou pontos de referência para guiar os pilotos e com pontos de reabastecimento ao longo do percurso, que não é um circuito fechado, e sim um trajeto contínuo da linha de largada até a linha de chegada. Finalmente, temos o jet raid, uma espécie de "rali dos mares", no qual a distância total de uma prova pode chegar a 1.500 km, mas a prova deve ser dividida em etapas de no máximo 110 km cada, com descanso entre uma etapa e outra. Todas essas três disciplinas são exclusivamente masculinas e disputadas com jet skis do tipo Runabout.

O segundo esporte é o barcomodelismo, que consiste no uso de barcos controlados remotamente em corridas realizadas em pequenos circuitos montados em lagos, represas, ou até mesmo piscinas. E o terceiro é o pleasure navigation, que, traduzido, seria algo como "navegação prazerosa", e é destinado a pilotos amadores, que competem usando seus próprios barcos, que devem ser comprados em revendedoras, e não construídos especificamente para correr como os das modalidades offshore e inshore. Para garantir a segurança dos pilotos e a integridade dos barcos, as provas de pleasure navigation possuem regras diferentes, como, por exemplo, os barcos passam pelo circuito um por vez e o campeão é aquele que o completar em menos tempo, ao invés de todos disputarem a prova juntos. Eventos de pleasure navigation costumam ser realizados como parte de feiras e festivais, para ajudar a divulgar e desenvolver a motonáutica.

Para terminar, falta falar do dado que me levou a escrever esse post, citado lá no primeiro parágrafo: a motonáutica, por incrível que pareça, já fez parte das Olimpíadas. Foi uma única vez, nos Jogos de 1908, em Londres. Na época, na Grã-Bretanha, todo mundo ainda estava vivendo a empolgação de ter descoberto um esporte novo, e a escolha de quais esportes fariam parte do programa pertencia ao Comitê Organizador Local, de forma que os britânicos não viram nada de mais em incluir algumas provas de um esporte que envolve barcos a motor em uma Olimpíada.

Ao todo, foram disputadas três provas, em um circuito de 8 milhas náuticas (14,816 km) de extensão montado na Baía de Southampton. Cada prova consistia em cinco voltas ao redor do circuito, para um total de 40 milhas náuticas (74 km). A prova da chamada Classe C era destinada a barcos que tivessem no mínimo 6,5 e no máximo 8 metros de comprimento, com três tripulantes cada; a da Classe B era disputada por barcos de no máximo 60 pés (18,288 m) de comprimento, com três tripulantes cada; e a Classe A era aberta para qualquer tipo de barco, mas com apenas um tripulante cada. Curiosamente, em todas as três provas apenas dois barcos largaram, e apenas um deles completou a prova: no dia da prova da Classe A, ventou tanto que os únicos dois barcos que largaram, ambos britânicos, foram avariados, e a prova foi remarcada para o dia seguinte; um deles não conseguiu ser consertado a tempo, e, para que o outro não corresse sozinho, convenceram um barco francês a correr também, e o francês, pilotado por Emile Thubron, acabou ganhando. As provas das Classes B e C foram disputadas apenas por barcos britânicos, e ambas foram vencidas pelo mesmo, cuja equipe consistia de John Field-Richards, Bernard Boverton Redwood e Isaac Thomas Thornycroft, na da Classe B porque seu oponente começou a fazer água e abandonou no meio da prova, na da Classe C porque o oponente teve um problema de motor e teve de ser rebocado de volta até a costa.

A UIM faz parte das federações internacionais reconhecidas pelo COI, mas, infelizmente, nenhum de seus esportes tem chance de voltar a fazer parte de uma Olimpíada: logo depois dos Jogos de 1908, o COI decidiria que esportes a motor não combinam com Jogos Olímpicos, e incluiria na Carta Olímpica, uma espécie de regulamento das Olimpíadas, um artigo que proíbe a inclusão no programa de qualquer esporte que tenha um componente motorizado.

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