domingo, 3 de junho de 2018

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Penny Dreadful

Na década de 1930, os estúdios de cinema Universal fizeram uma série de filmes de terror estrelados por monstros vindos de diferentes fontes: Drácula, Frankenstein e O Homem Invisível vieram da literatura; O Lobisomem, do folclore; e A Múmia de lendas que começaram a surgir quando da escavação de antigas tumbas egípcias. Devido ao grande sucesso dos filmes, esses monstros (algumas vezes acrescidos de outros, como O Monstro da Lagoa Negra, criado especialmente para o cinema, e cujo primeiro filme estrearia apenas na década de 1950, e O Fantasma da Ópera, também vindo da literatura, cujo primeiro filme feito pela Universal é da década de 1920) passariam a ser conhecidos como "monstros clássicos", e a aparecer em muito mais produções do que outros monstros, como, sei lá, a Bruxa do Lago ou o Grande Homem Cinza de Ben MacDhui. Sério, contem quantos filmes existem com a presença de Drácula e quantos existem com o Cavaleiro sem Cabeça, não há nem como comparar - se contarmos, então, todos os filmes de vampiros que vieram na esteira do sucesso de Drácula (o vampiro, assim como o lobisomem, é uma criatura do folclore europeu, mas os filmes de vampiro só se tornaram viáveis por causa do sucesso do filme de Drácula, personagem que foi criado pelo escritor Bram Stoker), a lavada fica ainda maior.

Um belo dia, alguém deve ter pensado que, se esses monstros separados já fazem sucesso, juntos iriam quebrar a bilheteria do mundo inteiro, e começaram a surgir "combos" de vários monstros no mesmo filme, dentre os quais podemos citar grandes clássicos como Deu a Louca nos Monstros, Van Helsing e Hotel Transilvânia. Provavelmente tivemos alguns outros melhores e mais sérios também, mas não me lembro de nenhum agora. O fato é que eu comecei essa introdução porque essa semana fiquei com vontade de escrever um post sobre Penny Dreadful, mas acho que me perdi. Como eu gostei do que escrevi até agora, vou deixar assim mesmo. Hoje é dia de Penny Dreadful no átomo.


Penny Dreadful é uma série de TV na qual existem os monstros clássicos, mas de forma um pouco diferente da que estamos acostumados. Em outras palavras, existem vampiros (incluindo Drácula), lobisomens, bruxas e até mesmo o Monstro de Frankenstein, mas nenhum deles segue os estereótipos com os quais os monstros clássicos costumam ser retratados no cinema e na TV. A série foi uma criação de John Logan, roteirista de 007 contra Skyfall, que, além de escrever os roteiros de quase todos os seus episódios (só não escreveu de três deles), também atuou como co-produtor, ao lado de Sam Mendes, diretor do mesmo filme do 007 - e que deveria ter sido diretor dos episódios da série, mas teve de passar a vez por conflitos de agenda.

Fã dos monstros clássicos e da literatura de horror, Logan escreveu vários dos roteiros da série antes mesmo de algum canal se interessar por produzi-la. Sua ideia era justamente retratar personagens famosos da literatura de horror - ou inspirados em personagens da literatura de horror - vivendo suas vidas normalmente na Inglaterra Vitoriana, livres de estereótipos e de comportamentos pré-concebidos, em uma série realística e pé no chão - em outras palavras, esses personagens, mesmo com seus elementos sobrenaturais, poderiam realmente ter existido, sem que os humanos da época tivessem se dado conta. O nome da série, Penny Dreadful, viria do apelido dado a várias publicações de horror vendidas em bancas de jornal no Reino Unido durante o século XIX - penny era a menor divisão da Libra Esterlina, a moeda do Reino Unido, o equivalente a um centavo para nós, e dreadful significa algo como "medonho", ou seja, era um apelido pejorativo, que fazia alusão ao fato de que tais publicações, além de muito baratas, traziam histórias de qualidade duvidosa.

Logan ofereceria sua série a vários canais, mas o único que se interessaria seria o canal a cabo Showtime - de fato, os executivos do Showtime ficariam tão empolgados com a premissa da série que não somente a aprovariam, mas também dariam carta branca para que Logan a fizesse do jeito que quisesse, sem interferência do canal. Para maior fidelidade, ele pediria para que a série fosse filmada em Londres, com um elenco majoritariamente britânico; para cortar custos, porém, a série acabaria sendo filmada em Dublin, a capital da República da Irlanda, que dava incentivos fiscais melhores que as ofertadas pela Inglaterra a produções de TV. Aliás, é importante que se diga que, apesar de algumas fontes, na época, terem dito que Penny Dreadful era uma série britânica, Logan nasceu na Califórnia e o canal Showtime opera nos Estados Unidos, então a série, oficialmente, é norte-americana.

A personagem principal de Penny Dreadful é Vanessa Ives (Eva Green, de 007 Cassino Royale), jovem com habilidades mediúnicas que passou por graves tormentos na adolescência por ter sido considerada louca. Após sair do hospício, Vanessa passou a ser protegida de Sir Malcolm Murray (Timothy Dalton, de 007 Permissão para Matar), membro da aristocracia britânica e explorador do continente africano, pai dos melhores amigos de Vanessa na infância, mas cuja vida, no início da série, está em frangalhos: seu filho, Peter (Graham Butler), faleceu durante a primeira expedição à África na qual acompanhou o pai, e sua filha, Mina (Olivia Llewellyn), desapareceu misteriosamente - segundo Sir Malcolm, sequestrada por "criaturas da noite". Após esses eventos acometerem seus filhos, a esposa de Sir Malcolm, Gladys (Noni Stapleton), se afastou, e o explorador se tornou cada vez mais arredio, distante do mundo e obcecado por encontrar Mina; praticamente as únicas pessoas com as quais ele se relaciona são Vanessa e Sembene (Danny Sapani), criado que Sir Malcolm trouxe de uma de suas expedições à África, e que possui um passado misterioso.

No primeiro episódio, Vanessa se aproxima de Ethan Chandler (Josh Hartnett, de Dália Negra, único ator norte-americano do elenco fixo), caubói que está na Inglaterra para participar de um espetáculo circense. Impressionada com sua habilidade no manejo das pistolas, ela o contrata para acompanhar a ela e a Sir Malcolm em uma expedição em busca de Mina, na qual conseguem matar uma estranha criatura. Em busca de alguém para decifrar o que essa criatura seria, eles acabam adicionando um novo membro a seu grupo, o Dr. Victor Frankenstein (Harry Treadaway), um jovem médico que estuda os limites entre a vida e a morte. No passado, Frankenstein foi ambicioso e arrogante, mas, após obter seu primeiro grande sucesso, se tornou recluso e paranoico - tal sucesso é nada menos que dar vida à Criatura (Rory Kinnear, de 007 Quantum of Solace), que, por se sentir rejeitado por seu criador e incapaz de viver normalmente em sociedade, odeia e atormenta Frankenstein, surgindo sempre nos piores momentos para "lembrá-lo do pecado que cometeu", normalmente destruindo algo de valor para fazê-lo. Em meados da primeira temporada, a Criatura passa a obrigar Frankenstein a criar uma companheira para que ele não fique tão só.

Vanessa e Chandler parecem destinados a ser um casal, mas, na primeira temporada, ele é apaixonado por Brona Croft (Billie Piper, de Doctor Who), prostituta irlandesa que está morrendo aos poucos de tuberculose. Em um de seus trabalhos, Brona conhece Dorian Gray (personagem inspirado em O Retrato de Dorian Gray, de Oscar Wilde), jovem milionário bon vivant que, sem que ninguém saiba, é também imortal e jamais fica doente ou envelhece. Em dado momento, Gray (Reeve Carney) e Vanessa são apresentados, e passam a ter um relacionamento inconstante. Outros personagens da primeira temporada incluem Ferdinand Lyle (Simon Russell Beale), egiptólogo que trabalha para o museu de Londres; Madame Kali (Helen McRory), espiritualista que parece estar disposta a despertar os dons de Vanessa com força total; Fenton (Olly Alexander), vampiro que o grupo liderado por Sir Malcolm consegue capturar e pressiona para revelar o paradeiro de Mina; Warren Roper (Stephen Lord), detetive contratado pelo pai de Chandler para encontrá-lo e levá-lo de volta aos Estados Unidos; e o Dr. Abraham Van Helsing (David Warner), hematologista e amigo de Frankenstein

A primeira temporada de Penny Dreadful teria apenas oito episódios, exibidos entre 11 de maio e 29 de junho de 2014, e seria um grande sucesso, se tornando um dos programas mais assistidos do Showtime naquele ano. Diante dos excelentes números de audiência, o canal decidiria renovar a série não apenas para uma segunda temporada, mas também para uma terceira. Com 10 episódios, exibidos entre 3 de maio e 5 de julho de 2015, a segunda temporada manteria a excelente audiência, mas sofreria algumas críticas por apresentar uma história bem diferente da primeira - por um motivo até lógico, já que a história do sequestro de Mina pelos vampiros foi solucionado no último episódio da primeira temporada, então a segunda teria de ter outro fio condutor.

Para a segunda temporada, Logan optaria por focar nos dons de Vanessa, colocando, como antagonistas, as bruxas, no lugar dos vampiros. O elenco fixo continuou sendo composto por Vanessa, Sir Malcolm, Sembene, Gray, Chandler, Brona, Frankenstein e a Criatura, com duas novas adições: Lyle e Evelyn Poole - nome verdadeiro de Madame Kali, que, na realidade, não era uma espiritualista, e sim uma bruxa de centenas de anos de idade, líder de um culto chamado Seres da Noite. Kali/Poole não seria a única a ganhar uma nova história na segunda temporada: no final da primeira, Brona morre, e Frankenstein decide usá-la para atender aos desejos da Criatura e criar uma companheira para ele; como ela acorda do processo aparentemente sem memória, ele lhe diz que seu nome é Lily Frankenstein, que ela é uma prima sua vinda do interior, e que a Criatura (que passa a usar o nome de John Clare, um poeta britânico que realmente existiu) é seu noivo. Para aumentar ainda mais o ódio da Criatura, porém, Brona/Lily o rejeita e se apaixona por Frankenstein.

Poole planeja roubar a alma de Vanessa para trazer o Diabo para a Terra, e, para conseguir trazê-la para seu lado, seduz Sir Malcolm. A única esperança do grupo em impedir a realização do ritual demoníaco está na tradução e interpretação de um texto espalhado por várias relíquias do museu, para os quais contam com a ajuda de Lyle. Os únicos personagens recorrentes da primeira temporada que retornam para a segunda são Gladys e Roper; novos personagens incluem Bartholomew Rusk (Douglas Hodge), inspetor da Scotland Yard que investiga uma série de crimes inexplicáveis, e acredita que Chandler possa estar envolvido; Hecate Poole (Sarah Greene), filha de Evelyn e mais poderosa das bruxas do culto depois da mãe; Angelique (Jonny Beauchamp), mulher trans que se torna amante de Gray; e Joan Clayton (Patti LuPone), bruxa que treinou Vanessa no uso de seus poderes quando ela os descobriu, e que aparece em flashbacks.

Durante a segunda temporada, Logan decidiria que a terceira seria a última, contando, inclusive, com um episódio final que encerraria a história propriamente. Ele explicaria essa ideia ao presidente do Showtime, David Nevins, que, apesar de satisfeito com a boa audiência da segunda temporada, acharia os planos de Logan para o desfecho da série tão fantásticos que não somente concordaria com eles, mas também faria um esforço extra para que a informação de que a terceira temporada era a última não vazasse até após o último episódio.

A terceira temporada teria nove episódios, exibidos entre 1o de maio e 19 de junho de 2016, e contaria com dois novos personagens de respeito: o Dr. Henry Jekyll (Shazad Latif), químico e amigo do Dr. Frankenstein, que desenvolve uma fórmula capaz de transformá-lo em um homem maior e mais forte, que chama a si mesmo de Lorde Hyde; e o Dr. Alexander Sweet (Christian Camargo), zoólogo que se torna amigo de Vanessa, mas que, na verdade, é ninguém menos que o Conde Drácula, primeiro de todos os vampiros. A terceira temporada foca mais uma vez em Vanessa, que está tentando descobrir a origem de seus poderes, enquanto Chandler é forçado a se reencontrar com seu pai, e Frankenstein busca uma forma de reverter o que fez a Brona/Lily. O elenco fixo continuaria contando com Vanessa, Sir Malcolm, Gray, Chandler, Lily, Frankenstein e a Criatura, e seria acrescido da Dra. Florence Seward (Patti LuPone, em um segundo papel na série), psicoterapeuta que auxilia Vanessa em sua busca, e de Kaetenay (Wes Study), índio apache com um passado em comum com Chandler, que se torna aliado de Sir Malcolm. Os personagens recorrentes incluem Lyle, Hecate, Rusk, e mais Renfield (Samuel Barnett), secretário da Dra. Seward que se torna aliado de Drácula; Justine (Jessica Barden), jovem prostituta salva de um torturador que se torna protegida de Gray; o Delegado Federal Franklin Ostow (Sean Gilder), enviado para ajudar Rusk a encontrar e incriminar Chandler; Catriona Hartdegen (Perdita Weeks), expert em sobrenatural que também ajuda Vanessa; e Jared Talbot (Brian Cox), o pai de Chandler, um fazendeiro tão rico quanto cruel.

O anúncio de que o último episódio da terceira temporada seria o último da série pegou os fãs de surpresa, e motivou uma enxurrada de pedidos para que o Showtime produzisse uma quarta temporada. Logan, entretanto, se mostrou irredutível - embora alguns veículos de comunicação tenham noticiado que ele havia se arrependido e aceitado fazer a quarta temporada, o que ele prontamente desmentiu - acreditando que sua decisão havia sido acertada, que o último episódio foi um fechamento digno para a série, e que era melhor encerrar enquanto a audiência estava boa e os personagens estavam fazendo sucesso do que ter que cancelar de repente porque ninguém mais estava assistindo e os críticos estavam caindo de pau em cima. Por mais que o final da série tenha me entristecido, eu tendo a concordar com ele.

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