segunda-feira, 4 de setembro de 2017

DC vs. Marvel / Amalgam Comics (I)

Como eu já disse aqui uma centena de vezes, na década de 1990 houve um boom dos quadrinhos. Novas editoras surgiram, novos títulos foram lançados em profusão, novos talentos apareceram a cada mês. Alguns argumentam que a quantidade ultrapassava a qualidade, mas, no geral, foi uma boa época para ser fã de quadrinhos.

Em meio a essa pujança toda, porém, Marvel e DC não estavam satisfeitas. Uma das principais editoras novas, a Image, havia sido fundada justamente por egressos das duas gigantes, que, insatisfeitos com a forma como eram tratados, decidiram assumir as regras do jogo. Junto com eles, levaram boa parte do público, com as vendas iniciais da Image alcançando patamares jamais sonhados para uma editora nova, e ameaçando um império que Marvel e DC levaram décadas para construir - de fato, em 1993, as vendas da Image chegaram a superar as da DC, colocando-a em segundo lugar no mercado editorial norte-americano de quadrinhos, atrás apenas da Marvel. A Image acabaria implodindo poucos anos após sua fundação - hoje, briga com Dark Horse e IDW para ser a terceira força dos quadrinhos - mas, quando ela estava na crista da onda, Marvel e DC a viam como uma ameaça bem real. E, conforme costuma acontecer com rivais nesses casos, as duas decidiriam se unir para combater um inimigo em comum.

Marvel e DC costumam ser vistas por muitos fãs como inimigas, mas, na realidade, elas estão mais para rivais amistosas. Não é incomum que um profissional, após anos trabalhando em uma delas, seja contratado pela outra, para, algum tempo mais tarde, voltar a trabalhar na primeira - até mesmo Jack Kirby, co-criador dos principais personagens Marvel, trabalharia para a DC, onde criaria, dentre outros personagens, Darkseid - e não é comum que elas se ataquem - você não vê, por exemplo, o pessoal da Marvel Studios falando mal de Batman vs. Superman. Desde a década de 1970, Marvel e DC já haviam colaborado em alguns títulos que traziam personagens de ambas, mas, para combater a Image, o esforço teria de ser maior. E, desse esforço, surgiria a Amalgam Comics.

Quando os primeiros títulos da Amalgam foram lançados, em 1996, eu tinha 18 anos. Na minha opinião de pós-adolescente, eles eram uma das coisas mais legais que já haviam acontecido na história dos quadrinhos, de forma que, até hoje, essa memória afetiva faz com que eu ache que eles sejam melhores do que realmente são, e às vezes até lamente que os personagens não sejam melhor explorados - embora reconheça que um game, um desenho animado, ou até mesmo novos títulos da Amalgam devem ser pesadelos logísticos hoje em dia. Eu já venho pensando em falar sobre a Amalgam há algum tempo, e até já havia começado a escrever esse post quando decidi adiá-lo para fazer o das Eras dos Quadrinhos - para que dois assuntos tão parecidos não ficassem tão próximos. Quando finalmente decidi escrever, acho que me empolguei, decidi escrever também sobre outras colaborações entre Marvel e DC, e, conforme o (I) ali no título atesta, o post ficou grande demais e teve de ser dividido em dois. Assim, hoje e semana que vem, teremos não somente Amalgam Comics, mas também DC vs. Marvel no átomo!

Como eu acabei de dizer, colaborações entre Marvel e DC não eram exatamente uma novidade; a primeira delas aconteceria em janeiro de 1976, com o lançamento da revista Superman vs. The Amazing Spider-Man, que trazia como subtítulos "o maior encontro de super-heróis de todos os tempos" e "a batalha do século". A ideia de criar essa edição partiria não da Marvel ou da DC, mas do roteirista David Obst, que entraria em contato tanto com Stan Lee, na época editor da Marvel, quanto com Carmine Infantino, na época editor da DC, se oferecendo para escrever o roteiro de um filme para o cinema estrelado por ambos os heróis. A ideia não seria levada a sério, mas Stan Lee e Infantino decidiriam entrar em contato um com o outro para trabalhar em uma edição conjunta estrelada tanto pelo Super-Homem quanto pelo Homem-Aranha. A edição seria publicada tanto pela Marvel quanto pela DC, com metade da tiragem ficando a cargo de cada editora.

Nessa edição mais do que especial, com roteiro de Gerry Conway e arte de Ross Andru, ambos profissionais que já haviam trabalhado tanto na série mensal do Super-Homem quanto na do Homem-Aranha, Lex Luthor e o Dr. Octopus se conhecem na prisão, e decidem se unir para atacar em conjunto seus maiores adversários. Como primeira parte de seu plano maligno, eles sequestram Lois Lane e Mary Jane, e fazem cada herói acreditar que o outro estaria por trás do sequestro - ou seja, antes de se aliarem para deter os vilões, Super-Homem e Homem-Aranha brigam entre si, com a luta terminando em empate quando eles descobrem o que está acontecendo. Curiosamente, a história considera que os personagens Marvel e DC sempre existiram no mesmo universo, não se esforçando para dar qualquer explicação sobre por que eles jamais haviam se encontrado até agora. Apesar de muito anunciada e divulgada, a revista teve vendas abaixo do esperado, e um novo confronto entre os dois principais heróis das duas maiores editoras de quadrinhos norte-americanas só ocorreria cinco anos depois.

Em 1974, a Marvel havia lançado a série Marvel Treasury Edition, dedicada a republicações das principais histórias de seus personagens, mas em "formato de revista" (25,4 x 35,6 cm; como comparação, o "formato americano" de revistas em quadrinhos tem 16,8 x 25,7 cm). Em 1977, a DC lançaria uma série semelhante (para não dizer idêntica), chamada DC Special Series. No início da década de 1980, como nenhuma das duas estava vendendo bem, ambas estavam pensando em encerrá-las, e Al Milgrom, editor da Marvel na época, entraria em contato com Dick Giordano, o editor da DC, para conversar sobre a possibilidade de realizar um novo encontro entre o Super-Homem e o Homem-Aranha na última edição da Marvel Treasury Edition. Giordano gostou da ideia, e negociou um encontro entre Batman e Hulk para a última edição da DC Special Series. Dessa vez não haveria publicação em conjunto, com a Marvel Treasury Edition 28 sendo produzida e publicada exclusivamente pela Marvel, e a DC Special Series 27 sendo produzida e publicada exclusivamente pela DC. Ambas seriam lançadas em julho de 1981.

A Marvel Treasury Edition 28 teria roteiro de Marv Wolfman e Jim Shooter, e arte de John Buscema. A aventura começa quando o Dr. Destino engana o Hulk para que ele ataque Metrópolis, sendo detido pelo Super-Homem, o que faz com que Bruce Banner seja mantido em custódia pelos Laboratórios Star, e com que o Parasita fuja de uma cela especial destruída durante a briga entre o Homem de Aço e o Gigante Esmeralda - tudo isso sendo parte de um plano do monarca da Latvéria para tornar todas as formas de energia e combustível do planeta inúteis, menos as criadas por um gerador controlado por ele. O Homem-Aranha e a Mulher Maravilha decidem investigar, e, quando a Princesa de Themyscira é capturada pelo vilão, o Cabeça de Teia recorre à ajuda do Último Filho de Krypton para detê-lo.

Enquanto isso, na Distinta Concorrência, a DC Special Series 27 teria roteiro de Len Wein e arte de José Luís García-Lópes. Nela, o Coringa engana o Hulk (coitado do Hulk) para que ele ataque um importante centro de pesquisas das Indústrias Wayne, e, enquanto o Cavaleiro das Trevas está distraído lutando contra o monstro, o Palhaço do Crime faz um pacto com o Figurador, entidade do Universo Marvel com o poder de moldar realidades, para moldar o universo à sua imagem. Felizmente, Batman e Hulk resolvem o mal-entendido bem a tempo de dar um pau no vilão e impedir esse destino terrível.

Mais uma vez, as vendas foram abaixo do esperado, o que deve ter feito a Marvel e a DC concluírem que os fãs não queriam ver crossovers nos quadrinhos. Ainda assim, no ano seguinte eles decidiriam tentar novamente, com o lançamento de The Uncanny X-Men and The New Teen Titans, em abril de 1982. Na época, tanto os X-Men quanto os Jovens Titãs eram extremamente populares, tendo excelente vendagem, e um encontro entre os dois, em teoria, era garantia certa de dinheiro fácil. Marvel e DC, então, negociariam uma publicação conjunta, no mesmo estilo do primeiro encontro entre o Super-Homem e o Homem-Aranha, com metade da tiragem sendo publicada pela Marvel e metade pela DC.

Apesar da publicação conjunta, a produção da revista ficaria quase que inteiramente a cargo da Marvel, com toda a equipe na época responsável pela revista The Uncanny X-Men ficando a cargo de sua produção, incluindo o roteirista Chris Claremont e o desenhista Walt Simonson - o único profissional da DC envolvido no projeto seria Len Wein, que atuaria apenas como consultor. Na história, mais uma vez ambientada em um universo onde existem tanto os personagens Marvel quanto os DC, Darkseid decide usar a energia da Fênix Negra para derrubar a barreira que o separa da Fonte, um dos maiores objetivos de sua vida; para impedi-lo, os X-Men e os Jovens Titãs se unem, mas Darkseid recruta o Exterminador para enfrentá-los até que ele consiga alcançar sua meta.

Conforme o esperado, as vendas do especial foram excelentes; satisfeitas, Marvel e DC começariam a planejar um segundo encontro entre as equipes, desta vez produzido pela equipe de The New Teen Titans - o roteirista Marv Wolfman e o desenhista George Pérez - com previsão de lançamento para dezembro de 1983. A produção desse segundo encontro entre os X-Men e os Novos Titãs, esbarraria, porém, em um problema inesperado: em 1979, Marvel e DC haviam firmado um acordo para lançar uma edição especial cuja história seria um encontro entre a Liga da Justiça e os Vingadores, com roteiro de Gerry Conway e arte de George Pérez. Como tanto Conway como Pérez já estavam envolvidos em outros projetos, o acordo determinaria que a produção começaria em 1981, e o especial seria lançado em 1983. Em 1981, portanto, Pérez começaria a trabalhar sobre uma sinopse de Conway (segundo a qual a história envolveria viagens no tempo e os vilões seriam Kang e Epoch), e chegaria a desenhar 21 páginas; como ele estava envolvido com esse projeto, o segundo encontro entre X-Men e Titãs teve de ser adiado. Desentendimentos entre a Marvel e a DC, entretanto, acabariam levando ao cancelamento de ambos os especiais, e a um estranhamento entre as duas editoras que perduraria por toda a década de 1980. Assim, um novo encontro entre personagens Marvel e DC só ocorreria na década seguinte.

Em 1993, Marvel e DC finalmente chegariam a um acordo para lançar duas edições especiais, envolvendo os personagens Batman e Justiceiro. A primeira dessas edições seria produzida e lançada pela DC em janeiro de 1994, com roteiro de Dennis O'Neil e arte de Barry Kitson; chamada Batman/Punisher: Lake of Fire, nela o Justiceiro segue seu arqui-inimigo Retalho até Gotham, onde é confundido com um criminoso por Azrael (que, na época, havia assumido o nome e o cargo de Batman após Bruce Wayne ter sua coluna quebrada pelo vilão Bane) e atacado, enquanto o vilão une forças com o Coringa. A segunda edição se chamaria Punisher/Batman: Deadly Knights, e seria produzida e lançada pela Marvel em outubro de 1994, com roteiro de Chuck Dixon e arte de John Romita Jr. Nela, Retalho retorna a Gotham, decidido a se tornar um chefão do crime local, e é seguido mais uma vez pelo Justiceiro, que, dessa vez, tem de enfrentar o Batman original, que já havia voltado à ativa.

O encontro seguinte seria não entre heróis, mas entre vilões. Em Darkseid vs. Galactus: The Hunger, lançada pela DC em janeiro de 1995, com roteiro e arte de John Byrne, Galactus decide comer Apokolips, o planeta governado por Darkseid, que fará tudo a seu alcance para impedi-lo; enquanto isso, o Surfista Prateado, na época na qual a história é ambientada ainda arauto do Devorador de Mundos, enfrenta Orion, que também está disposto a impedir a destruição do planeta. Em setembro de 1995, seria a vez do lançamento, pela Marvel, de Spider-Man and Batman: Disordered Minds, com roteiro de J.M. DeMatteis e arte de Mark Bagley. Dessa vez, a psiquiatra Cassandra Briar decide fazer uma experiência com o Coringa e com Cletus Kasady (a identidade humana do vilão Carnificina), implantando em seus cérebros um chip que neutraliza seus instintos homicidas; o que ela não previu foi que o simbionte de Carnificina neutralizaria o chip de Kasady, e depois ajudaria o Coringa a neutralizar o dele, com os dois vilões decidindo se unir para instaurar um reinado de terror em Gotham. O Homem-Aranha e Batman, então, têm de se unir para detê-los. E, em dezembro de 1995, seria a vez de Green Lantern/Silver Surfer: Unholy Alliances, lançada pela DC com roteiro de Ron Marz e arte de Darryl Banks, na qual Thanos constrói uma arma capaz de destruir o universo, mas que precisa de um anel dos Lanternas Verdes para funcionar; ele recruta o Superciborgue e Terrax para atacar Kyle Rayner, que precisará da ajuda do Surfista Prateado para deter o vilão.

Essas cinco edições especiais abririam caminho para o principal projeto colaborativo da Marvel e da DC na década de 1990, a minissérie DC vs. Marvel. Como já foi dito, o intuito de todos esses encontros era alavancar as vendas e recuperar parte do dinheiro e prestígio perdidos para a Image; a minissérie seria o ápice desse plano, um dos eventos mais aguardados e comentados do ano, graças a uma extensiva campanha de marketing que começaria já em 1995. A minissérie teria quatro edições mensais, lançadas entre fevereiro e maio de 1996, sendo a primeira e a quarta edições produzidas e lançadas pela DC, e a segunda e a terceira lançadas pela Marvel (e com o título invertido, ou seja, Marvel vs. DC).

Com roteiro de Peter David e Ron Marz, e arte de Dan Jurgens e Claudio Castellini, a minissérie pela primeira vez trataria os universos Marvel e DC como separados, sem que os personagens de um tivessem qualquer contato com os do outro - e ignorando os eventos dos encontros entre heróis das duas editoras ocorridos anteriormente. A história começa quando dois irmãos, que são as personificações desses universos, tomam conhecimento um do outro, e decidem se envolver em uma disputa para determinar qual seria mais poderoso, usando os heróis de cada um como campeões - e o prêmio será a destruição total do universo perdedor. Com isso, vários personagens da DC são transportados para o Universo Marvel e vice-versa, e acabam relutantemente se enfrentando para que seus universos não sejam destruídos.

Seis dos confrontos entre os heróis tiveram seus resultados determinados pelos roteiristas: Aquaman derrotou Namor, Elektra venceu a Mulher-Gato, Flash correu mais que Mercúrio, o Surfista Prateado nocauteou o Lanterna Verde, Robin foi mais esperto que Jubileu, e Thor suplantou o Capitão Marvel (para um placar de 3 a 3). Em uma interessante jogada de marketing, porém, Marvel e DC determinaram que os cinco confrontos principais da minissérie seriam decididos pelos leitores, que poderiam votar em qual dos dois personagens de cada embate achavam que seria superior. Como na época não havia internet, a votação era feita através de cédulas e urnas espalhadas por lojas de quadrinhos de todos os Estados Unidos; não era preciso comprar nada, bastava entrar na loja, pegar uma cédula, marcar quem você achava que deveria vencer e depositá-la na urna - teoricamente, cada pessoa só podia votar uma vez, mas eu não sei como fizeram para impedir que alguém votasse múltiplas vezes. Essa votação foi feita ao longo do ano de 1995, para que a minissérie pudesse ser finalizada e impressa a tempo de ser distribuída. Nos cinco confrontos com decisão do público, o Super-Homem se mostrou mais forte que o Hulk, o Homem-Aranha venceu o Superboy; Batman derrotou o Capitão América; Tempestade sobrepujou a Mulher Maravilha, e, para desempatar, Wolverine venceu Lobo, na luta mais controversa de todas - primeiro porque eles lutam atrás do balcão de um bar, sem que dê pra ver nada, segundo porque, até hoje, os fãs da DC, especialmente do Lobo, não se conformam com o resultado, alegando que o Maioral jamais perderia uma luta, nem mesmo para o Wolverine.

DC vs. Marvel teria um novo personagem, chamado Acesso (Access, no original), na verdade Axel Asher (Axel era um nome bem popular nos anos 1990), um rapaz aparentemente sem nada de especial, que recebeu do guardião do portal entre os dois universos o poder de transitar livremente entre eles - Marvel e DC decidiriam que Acesso seria um "personagem conjunto", e que, no futuro, ambas poderiam usá-lo livremente, embora, devido à própria natureza de seus poderes, fosse pouco provável que isso acontecesse. Acesso toma a decisão de imbuir Batman e Capitão América com as energias de cada um de seus respectivos universos, pois pressente que algo vai dar errado - o que acaba se mostrando uma decisão mais do que acertada.

Apesar da aparente vitória da Marvel (por 6 a 5), na minissérie fica subentendido que o confronto termina em empate, e, para tentar evitar a destruição de um dos universos, o Espectro (da DC) e o Tribunal Vivo (da Marvel), decidem tentar um meio termo: ambos os universos se misturariam, criando um novo. Assim, no final da teceira edição de DC vs. Marvel, os universos Marvel e DC deixam de existir, sendo substituídos pelo universo Amalgam, povoado pelos personagens da Amalgam Comics.

"Amalgam", em inglês, significa "amálgama", palavra de origem árabe que significava "fusão", era usada originalmente na geologia para denominar uma liga de prata e mercúrio, passou a ser usada para qualquer liga que contenha mercúrio (como o amálgama dental, usado em obturações), e, mais tarde, para dar nome a qualquer mistura de dois elementos diferentes que resulta em um todo uniforme. A Amalgam Comics, portanto, seria a mistura da Marvel Comics com a DC Comics - até mesmo seu logotipo possui elementos encontrados nos usados por ambas na época - e seus personagens, apelidados pelos fãs de "amálgamas", eram misturas dos personagens da Marvel com os personagens da DC.

Ao todo, Marvel e DC lançariam duas levas de revistas em quadrinhos da Amalgam Comics. Na primeira foram lançadas 12 edições, todas em abril de 1996; seis delas foram produzidas e lançadas pela DC, as outras seis pela Marvel. Na minha opinião, a DC ficou com os melhores personagens - se você duvida, basta conferir a lista a seguir; nela, as seis primeiras edições listadas são as da DC, as seis últimas são as da Marvel.

Ah, sim: no Brasil, a primeira leva da Amalgam foi lançada em uma minissérie chamada Amálgama, em quatro edições, cada uma com três histórias. Os nomes dos personagens, evidentemente, foram traduzidos, mas eu vou usar os nomes originais em inglês, até porque muitos deles têm trocadilhos que se perdem na tradução e adaptação - por exemplo, o amálgama do Doutor Estranho (Doctor Strange) com o Senhor Destino (Doctor Fate), se chama, em inglês, Doctor Strangefate, mas, em português, virou Doutor Mistério. Após o nome de cada amálgama, entre parênteses, eu vou mencionar quais personagens foram amalgamados para formar o novo, sempre com o nome do da Marvel vindo primeiro.

Super Soldier - Em 1938, uma nave espacial trazendo um bebê caiu no planeta Terra. O bebê não sobreviveu, mas seu DNA foi usado por cientistas norte-americanos para criar um soro especial, injetado em um voluntário no início da Segunda Guerra Mundial. Assim, surgiu o Super Soldier (Capitão América + Super-Homem), que liderou as tropas aliadas rumo à vitória. Infelizmente, antes que tal vitória fosse conquistada, durante uma luta contra o Ultra Metallo (Último + Metallo), Super Soldier caiu no oceano e desapareceu. Cinquenta anos depois, porém, o Super Soldier seria encontrado congelado, trazido de volta à vida, e se tornaria o maior campeão da justiça de nosso planeta. Hoje, entretanto, ele tem um desafio difícil de superar: o líder da organização criminosa Hydra, o cientista milionário conhecido como Green Skull (Caveira Vermelha + Lex Luthor) encontrou o Ultra Metallo e o reativou, e planeja usá-lo para terminar o que começou: liquidar Super Soldier. Essa história conta com a participação de Jimmy Olsen e Perry White (da DC) e Sharon Carter (da Marvel), que não são amálgamas de ninguém, mas versões alternativas dos personagens originais (Jimmy, por exemplo, está bem mais velho, já que foi fotógrafo durante a Segunda Guerra, e Sharon é jornalista, e não agente da S.H.I.E.L.D.). Roteiro de Mark Waid e Dave Gibbons, arte de Dave Gibbons.

Legends of the Dark Claw - O Cavaleiro Mutante das Trevas, Dark Claw (Wolverine + Batman), e sua parceira Sparrow (Jubileu + Robin), a Menina Prodígio, tentam descobrir qual seria o mais novo plano do criminoso psicótico Hyena (Dentes de Sabre + Coringa) para atacar a cidade de Nova Gotham. Enquanto isso, a aventureira Huntress (Carol Danvers + Caçadora) investiga por que os caminhos do Hyena sempre se cruzam com os do milionário filantropo Logan - o que pode levá-la a descobrir a identidade secreta de Dark Claw. Roteiro de Larry Hama, arte de Jim Balent.

Amazon - A Princesa Ororo de Themyscira (Tempestade + Mulher Maravilha) é confrontada pelo deus Poseidon, que a acusa de um crime que ela não cometeu; durante o confronto, a infância de Ororo na Ilha Paraíso é mostrada em flashbacks. Roteiro e arte de John Byrne.

JLX - O misterioso Mr. X (Professor X + Forge + Ajax, que, no Universo Amalgam, além de marciano, é um Skrull) entra em contato com os mutantes membros da JLA (Justice League Avengers, algo como a "Liga da Justiça dos Vingadores") e os convence a se separar da equipe e fundar uma nova, chamada JLX, que parte em busca de Atlântida, o local onde supostamente toda a vida mutante teve início. Os demais membros da JLA, porém, decidem detê-los, já que dentre os membros da JLX está Mariner (Namor + Aquaman), que caiu em uma armação criada por Will Magnus (Bolivar Trask + Will Magnus) e sua amante Jocasta (Jocasta + Clara Kendrall) e agora é procurado pela S.H.I.E.L.D., de forma que a JLA acredita que a JLX, na verdade, quer apenas proteger Mariner e evitar que ele seja entregue à justiça. Os membros da JLX são Mr. X, Mariner, Apollo (Ciclope + Ray), Firebird (Jean Grey + Fogo), Mercury (Mercúrio + Impulso), Nightcreeper (Noturno + Rastejante), Wraith (Gambit + Manto Negro) e Runaway (Vampira + Cigana); os demais membros da JLA são Super Soldier, Dark Claw, Angelhawk (Anjo + Gavião Negro), Clint Archer (Gavião Arqueiro + Connor Hawke), Canary (Harpia + Canário Negro), Goliath (Golias + Oliver Queen) e Captain Marvel (Capitão Marvel + Capitão Marvel). Roteiro de Gerard Jones e Mark Waid, arte de Howard Porter.

Doctor StrangeFate - Mago supremo e mutante mais poderoso do Universo Amalgam, Doctor StrangeFate (Professor X + Dr. Estranho + Sr. Destino) planeja impedir que Acesso separe novamente os Universos Marvel e DC, mas, para isso, primeiro precisa encontrá-lo; para tanto, ele contará com a ajuda de seu assistente Myx (Wong + Sr. Mxyzptlk) e de três heróis que lhe devem favores: Skulk (Hulk + Solomon Grundy), White Witch (Feiticeira Escarlate + Zatanna) e Jade Nova (Frankie Raye + Kyle Rayner). Enquanto não é encontrado, Acesso tem seus próprios problemas, tendo de escapar da fúria de Abominite (Abominável + Hellgrammite). Roteiro de Ron Marz, arte de José Luís García-López.

Assassins - Duas assassinas de aluguel, Dare (Demolidor + Exterminador, só que do sexo feminino) e Catsai (Elektra + Mulher-Gato), são contratadas para matar o prefeito da cidade de Nova Gotham, conhecido como Big Question (Rei do Crime + Charada). Para isso, porém, elas deverão invadir a Torre Arkham e lidar com seus mais perigosos capangas, dentre eles Deadeye (Mercenário + Pistoleiro), Lethal (Kraven + Mulher-Leopardo) e Wired (Cable + Caçador). Roteiro de D.G. Chichester, arte de Scott McDaniel.

Bruce Wayne, Agent of S.H.I.E.L.D. - Após anos perseguindo Green Skull, o homem que assassinou seus pais na sua frente quando ele era apenas uma criança, o Coronel Bruce Wayne da S.H.I.E.L.D. (Nick Fury + Bruce Wayne) está prestes a invadir o quartel general da Hydra e confrontar o vilão cara a cara. Acompanhado de uma equipe composta por Tony Stark (Tony Stark + Silas Stone), Black Bat (Gata Negra + Batgirl) e Moonwing (Cavaleiro da Lua + Asa Noturna), ele inicia a invasão, mas deve lidar com dois outros problemas: sem que Wayne saiba, a filha de Green Skull, Madame Cat (Madame Hidra + Mulher-Gato), com a ajuda dos capangas Baron Zero (Barão Von Strucker + Sr. Frio), Nuke (Bazuca + Bane) e Deathlok (Deathlok + Jason Todd), tomou o poder de seu pai, e agora planeja um grande ataque contra a S.H.I.E.L.D.; e, como seu último ato, Green Skull ativou o Terra Cannon, arma capaz de afundar no oceano toda a costa leste dos Estados Unidos. Roteiro de Chuck Dixon, arte de Cary Nord. Curiosamente, ao longo da história, dois personagens são referenciados pelos nomes errados: Black Bat é chamada por Wayne e Moonwing de Huntress, e Moonwing faz uma referência a uma luta de Dark Claw com Hyena, mas chama o vilão de Jackal. A história também conta com versões alternativas, não-amalgamadas, de Nick Fury (da Marvel) e Sargento Rock (da DC).

Bullets and Bracelets - Trevor Castle (Justiceiro + Steve Trevor) é um homem amargurado, que, após perder sua família, assassinada pela máfia, decidiu travar uma guerra de um homem só contra o crime. Diana Prince (Elektra + Mulher Maravilha) nasceu dentre as amazonas na Ilha Paraíso, mas decidiu fugir para o mundo dos homens e treinar para se tornar uma ninja mercenária. Esse improvável casal teve, no passado, um romance que resultou em um filho. Quando o bebê é sequestrado por Granny Harkness (Agatha Harkness + Vovó Bondade) e suas Fúrias Femininas, Mad Harriet, Bernadeth, Lashina e Stompa (todas as quatro versões alternativas das personagens da DC), eles precisam se unir novamente para salvá-lo, em uma aventura que os levará ao planeta Apokolips, onde enfrentarão War Monarch (Máquina de Combate + Monarca), Big Titania (Titânia + Grande Barda), Kanto (Fandral + Kanto + Validus), e o governante de Apokolips em pessoa, Thanoseid (Thanos + Darkseid). Participações especiais de Bronze Panther (Pantera Negra + Tigre de Bronze) e Highfather Odin (Odin + Pai Celestial). Roteiro de John Ostrander, arte de Cam Smith.

Speed Demon - O vilão Night Spectre (Pesadelo + Espectro) planeja dominar a Terra, o Céu e o Inferno; para isso, ele precisa coletar as almas dos mais puros e dos mais depravados seres humanos, dentre elas, a de Iris Simpson (Roxanne Simpson + Iris West), a qual rouba no dia de seu casamento com Blaze Allen, artista de circo que faz parte de uma trupe composta também por Miss Miracle (Cristalys + Sr. Milagre), Puck (Pigmeu + Oberon), Blob (Blob + Chunk) e o sobrinho de Iris, Wally West. Desesperado, Blaze faz um pacto com o mago Merlin (Merlin + Merlin), e se transforma em Speed Demon (Motoqueiro Fantasma + Etrigan + Flash), que tem supervelocidade e o poder de destruir as almas dos pecadores. Com seus novos poderes, ele decide frustrar os planos de Night Spectre, destruindo as almas dos depravados antes que o vilão consiga roubá-las, enquanto busca uma forma de salvar a alma de Iris. Após a alma de Madman Jordan (Louco + Hal Jordan), que estava em luta contra Uatu the Guardian (Uatu + Ganthet), ser destruída por Speed Demon, só resta uma, a de Two-Faced Green Goblin (Duende Verde + Duas Caras), que está sendo atacado por dois asseclas de Night Spectre, Scarecrow (Espantalho + Espantalho) e Silicon Man (Homem-Areia + Homem-Borracha). Durante a luta, Night Spectre leva Speed Demon para o inferno, onde Blaze e o demônio se separam, e atrai o demônio para uma armadilha, usando como isca a arma de seu antigo hospedeiro, Jay Garrick (Cavaleiro Fantasma + Joel Ciclone). O único que pode salvar Blaze é Wally, transformado por Merlin em Kid Demon (Danny Ketch + Kid Flash). Roteiro de Howard Mackie e James Felder, arte de Salvador Larocca e Al Milgrom. Uma curiosidade quanto a essa revista é que, nela, aparece brevemente um personagem chamado Arrowcaster. Oficialmente, ele seria um amálgama de Ricardito, da DC, com um personagem da Marvel chamado Nightcaster - só que nunca existiu um personagem da Marvel com esse nome. O fato de Arrowcaster aparecer em apenas um quadrinho e ser idêntico a Ricardito também não ajuda a definir se na verdade seria outro personagem Marvel e "Nightcaster" teria sido um erro de digitação ou algo do tipo. Existe também a teoria de que Nightcaster seria um novo personagem Marvel, que seria lançado após as revistas da Amalgam, mas acabou descartado.

Magneto and the Magnetic Men - Will Magnus planeja destruir todos os mutantes do mundo usando seus Sentinelas. Entretanto, seu próprio irmão, Erik Magnus, é um mutante, e decide protegê-los. Para tal, ele adota o nome de Magneto (Magneto + Will Magnus), e usa seus poderes magnéticos para dar vida a alguns dos robôs de Will, criando os Magnetic Men ("homens magnéticos", Irmandade de Mutantes + Homens Metálicos): Antimony ("antimônio", Feiticeira Escarlate + Platina), Cobalt ("cobalto", Mestre Mental + Ouro), Bismuth ("bismuto", Groxo + Estanho), Iron ("ferro", Unus + Ferro) e Nickel ("níquel", Mercúrio + Mercúrio; todos os cinco metais que dão nome aos Magnetic Men realmente são magnéticos, embora bismuto e antimônio sejam diamagnéticos, ou seja, são repelidos por um campo magnético ao invés de atraídos). Logo em sua primeira missão, os Magnetic Men já terão uma prova de fogo: derrotar Sinistron (Sr. Sinistro + Nimrod + Psimon), o primeiro de uma nova geração de Supersentinelas, o qual eles encontram pela primeira vez quando ele está tentando matar Kokoro (Psylocke + Katana). Roteiro de Gerard Jones, arte de Jeff Matsuda.

X-Patrol - Para deter o maligno Doctor Doomsday (Dr. Destino + Apocalypse), Niles Cable (Cable + Dr. Niles Caulder) reúne os mutantes Shatterstarfire (Shatterstar + Estelar), Beastling (Fera + Mutano), Ferro-Man (Colossus + Rapaz-Ferro), Dial H.U.S.K. (Escalpo + Robby Reed) e Elastigirl (Dominó + Vespa + Garota Elástica) e forma a equipe X-Patrol (X-Force + Patrulha do Destino). Durante a história, Dial H.U.S.K. se transforma em Wonder Girl (Magnum + Moça Maravilha), Polaris (Polaris + Dr. Polaris) e Mary Marvel Girl (Garota Marvel + Mary Marvel). Roteiro de Karl Kesel e Barbara Kesel, arte do brasileiro Roger Cruz.

Spider-Boy - Resultado de um projeto secreto para recriar a experiência que deu origem ao Super Soldier, Peter Ross ganhou o poder de controlar sua própria gravidade, o que lhe confere agilidade ampliada e superforça, e permite que ele escale ou se fixe a superfícies verticais; armado com uma pistola que dispara teias, ele se torna o Spider-Boy (Homem-Aranha + Superboy), e terá de pôr suas habilidades à prova para deter os vilões Bizarnage (Carnificina + Bizarro) e King Lizard (Lagarto + Tubarão Rei). Essa história é cheia de personagens que não são amálgamas, mas versões alternativas: ela começa no Projeto Cadmius, onde trabalham Otto Octavius, Curt Connors, Hank Pym (Marvel), Ray Palmer e Dabney Donovan (DC); Sam Makoa, Roxy Leech (DC) e Flash Thompson (Marvel) fazem parte da equipe da Unidade de Crimes Especiais de Nova Iorque (uma versão alternativa da UCE de Metrópolis); os empresários de Spider-Boy são Rex Leech (DC) e Betty Brant (Marvel); o tio de Peter é o General Ross (Marvel); e ele trabalha no Clarim Diário, junto com J. Jonah Jameson (Marvel) e Tana Moon (DC). Os personagens coadjuvantes amalgamados são Tom Harper (Thomas Halloway + James Harper), Prof (Sr. Fantástico + Professor Haley), Ace (Mulher Invisível + Ace Morgan), Red (Tocha Humana + Red Ryan) e Rocky (Coisa + Rocky Davis), do Projeto Cadmius; Brooklyn Barnes (Bucky + Dan Turpin), da UCENY; e a namorada de Spider-Boy, Insect Queen (Mary Jane + Lana Lang). Roteiro de Karl Kesel, arte de Mike Wieringo.

Vocês devem ter reparado que nem todos os personagens participam de um único amálgama, com alguns participando de dois (como, por exemplo, a Feiticeira Escarlate, que é parte tanto de White Witch quanto de Antimony). Como nenhum personagem participa de três amálgamas (embora alguns amálgamas sejam formados por três personagens), minha teoria é a de que a quantidade de personagens no Universo Amalgam é igual à soma dos personagens nos Universos Marvel e DC, com cada personagem da Marvel e da DC participando de dois amálgamas, embora nem todos apareçam nas revistas lançadas. Vocês também devem ter reparado a grande quantidade de mutantes amalgamados, em contraposição à pequena quantidade de personagens relacionados aos Vingadores - Thor nem faz parte de nenhum amálgama da primeira leva, e o Hulk é parte de um bem secundário, por exemplo. A razão para isso é que, em 1996, as revistas relacionadas ao universo dos X-Men estavam com uma popularidade absurda, enquanto aquelas relacionadas ao universo dos Vingadores passavam por uma crise de popularidade - que culminou no projeto Heróis Renascem, que tentou reformulá-los para superá-la, sem sucesso.

Todas as revistas da Amalgam são número 1; nenhuma delas, porém (talvez com exceção de X-Patrol), traz uma "história de origem" (embora a maioria reconte as origens dos heróis em flashbacks), com todas partindo do princípio de que já havia um Universo Amalgam estabelecido pelo menos desde a década de 1930, inclusive fazendo referências a "outras revistas" da Amalgam com asteriscos - a minha preferida sendo a Investigator Comics. Também vale citar a grande sacada de que o editor da Amalgam, referenciado em alguns desses asteriscos ou antes do título de algumas das histórias, se chama Stan Schwartz, ou seja, é um amálgama de Stan Lee e Julius Schwartz.

As revistas da Amalgam seriam lançadas no mesmo mês que a teceira edição de DC vs. Marvel; a quarta e última começa ambientada no Universo Amalgam, mas, graças aos esforços de Acesso, que encontra Dark Claw e Super Soldier, e usa a energia que havia imbuído em Batman e Capitão América, ainda presente em seus amálgamas, os dois universos são novamente separados. Isso leva à ira dos Irmãos, que começam uma luta física entre eles, que pode resultar na destruição de ambos os universos. Cabe a Acesso, Batman e Capitão América convencê-los a interromper essa insanidade.

Tanto DC vs. Marvel quanto as revistas da Amalgam teriam excelentes vendas, que levariam, como de costume, a uma continuação. Mas isso já é assunto para a semana que vem!

2 comentários:

  1. Excelente post, e só de passagem, AMO este blog, simples e direto, mas você escreve bem pra caramba cara. Conheci teus posts na matéria que você fez de Heretic e Hexen, que aliás, ficaram muito boas. Continue com o ótimo trabalho!

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