segunda-feira, 3 de abril de 2017

Ayrton Senna

Podem parar de fingir, eu sei que, pelas minhas costas, vocês dizem que eu sou um traidor da pátria. Que só me interesso por assuntos estrangeiros. Que não dou valor à cultura nacional. E como vou negar, se, de 714 posts publicados até a semana passada, somente uns três tinham assuntos nacionais?

É claro que o parágrafo acima é uma brincadeira. Eu não acho que nenhum de vocês pensa isso de mim (embora não duvide de que possa haver quem pense), e não é verdade que eu só me interesse por assuntos estrangeiros. O que acontece é que, além de realmente eu me interessar por muito mais músicas, filmes e livros internacionais, é absurdamente mais difícil encontrar as informações que eu gostaria de colocar em um post quando os assuntos são brasileiros. Aliás, parece ser absurdamente difícil encontrar as informações que eu quero quando o assunto não é originário dos Estados Unidos, Grã-Bretanha ou Japão - há tempos, por exemplo, eu penso em fazer um post sobre Nina Persson, a ex-vocalista dos Cardigans em atual carreira solo, mas, enquanto é extremamente fácil encontrar a biografia completa de qualquer jovem cantora norte-americana de sucesso moderado, nem em páginas em sueco eu encontro uma biografia decente dela.

Enfim, já há algumas semanas eu venho matutando sobre isso, e acabei tendo uma ideia interessante. Já faz tempo que eu não faço um Mês Temático aqui no átomo - antigamente, eu costumava separar quatro assuntos ligados a um tema comum e ocupar um mês inteiro com eles, mas já nem me lembro qual foi a última vez em que fiz isso. Como temas nacionais são raros por aqui, eu decidi ressuscitar essa prática, e transformar esse mês de abril - não por acaso, o mês do "descobrimento" do Brasil - no Mês do Brasil no átomo. Isso mesmo, hoje e nas próximas três semanas, teremos temas nacionais por aqui. Começando por um post sobre Ayrton Senna - que eu penso em fazer desde que fiz o do Nigel Mansell, há mais de dez anos, mas sempre acabo desistindo por vários motivos, das primeiras vezes, justamente por não conseguir encontrar as informações que eu queria. Mas hoje não. Apagam-se as luzes vermelhas, sobe o giro dos motores, começa o Mês do Brasil no átomo!

Ayrton Senna da Silva nasceu em São Paulo, em 21 de março de 1960, filho do empresário Milton da Silva e de Neide Senna da Silva. Era o "irmão do meio", entre a mais velha, Viviane, e o mais novo, Leonardo. Até os quatro anos de idade, ele morou com a família em uma casa que pertencia a seu avô materno, João Senna, a poucos metros do Campo de Marte, um aeroporto na zona norte de São Paulo destinado a voos particulares de jatinhos e helicópteros, mas que, na década de 1960, também servia para entusiastas do kart testarem seus equipamentos. Desde os três anos de idade ele já demonstrava interesse por carros e corridas, e, aos quatro, dizia que queria ser piloto. Para agradá-lo, seu pai construiria um kart "caseiro", usando o motor de um cortador de grama.

A carreira efetiva de Senna no kart começaria aos 13 anos de idade, no Kartódromo de Interlagos, disputando o Campeonato Paulista. Já em sua primeira corrida, mesmo sendo o mais jovem na pista, ele faria a pole position (largaria da primeira posição; não custa nada explicar, vai que alguém aí não sabe) e lideraria a maior parte da corrida, até se envolver em um acidente com outro competidor. Paralelamente às corridas de kart, ele estudaria no Colégio Rio Branco, no bairro dos Jardins, onde se formaria em 1977, mesmo ano em que seria campeão pela primeira vez no Campeonato Brasileiro e no Campeonato Sul-Americano de Kart. Ele seria tricampeão em ambas as competições, conquistando ambos os títulos também em 1978 e 1980; em 1979, ele decidiria focar no Campeonato Mundial, mas acabaria com o vice-campeonato, em parte devido a uma punição que lhe custou os pontos obtidos em uma das baterias, por estar com o barulho do escapamento 0,5 dB acima do máximo permitido. Senna também seria vice-campeão mundial em 1980, ano no qual terminaria empatado em pontos com o holandês Peter de Bruijn, mas perderia nos critérios de desempate. Segundo o próprio Senna, jamais ter sido campeão mundial de kart seria uma das frustrações de sua carreira.

Apesar de todos os seus sucessos no kart, os pais de Senna não eram muito favoráveis a que ele seguisse uma carreira no automobilismo, preferindo que ele estudasse para assumir os negócios da família. Após concluir o colégio, ele chegaria a se matricular em uma faculdade de administração, mas, sem interesse, abandonaria após apenas três meses. Como as vitórias no kart continuavam acontecendo, seu pai decidiria investir em sua carreira mais um pouco, e até estimulou o filho quando ele recebeu um convite da equipe Van Diemen para disputar o campeonato inglês de Fórmula Ford 1600 de 1981. Com o nome de Ayrton da Silva, Senna se sagraria campeão, com 12 vitórias em 20 corridas.

Senna já havia até decidido respeitar a vontade dos pais, se aposentar do automobilismo e se dedicar à administração após o título da Fórmula Ford 1600, mas, ao retornar ao Brasil, receberia um convite da equipe Rushen Green para disputar, em 1982, o campeonato inglês e o campeonato europeu da categoria imediatamente superior, a Fórmula Ford 2000. Vendo que era isso que o filho queria, seus pais lhe deram permissão para que ele fosse morar na Inglaterra e competir, e seu pai ainda negociaria patrocínios com Banerj, o antigo Banco do Estado do Rio de Janeiro, e com a fábrica de roupas Pool. Como "da Silva" era um sobrenome muito comum no Brasil, ele pediria à equipe para usar o sobrenome de sua mãe, se tornando, então, Ayrton Senna.

Senna venceria ambos os campeonatos, com 15 vitórias em 18 provas do inglês e cinco vitórias em nove provas do europeu. Ele também disputaria o Mundial de Kart em 1981 e 1982, em busca do tão sonhado título, mas, focado nas corridas de Fórmula Ford, terminaria na 4a posição em 1981, e apenas na 14a posição em 1982. A boa performance de Senna na Fórmula Ford 2000 lhe renderia um convite da equipe West Surrey Race para disputar, em Thruxton, Inglaterra, uma corrida de Fórmula 3 que não valia pontos para o campeonato de 1982; Senna faria a pole position, a volta mais rápida, e ainda venceria a corrida, chegando 13 s à frente do segundo colocado.

Se isso foi alguma espécie de teste, Senna passou com louvor, sendo contratado pela West Surrey para disputar a temporada de 1983 da Fórmula 3 inglesa. Senna dominaria a primeira parte da temporada, vencendo as nove primeiras corridas, mas, na segunda, encontraria um adversário em Martin Brundle, da equipe Jordan, com quem travaria duelos memoráveis. Brundle alcançaria Senna na pontuação, mas o brasileiro ainda seria o campeão, com um total de 12 vitórias em 20 provas, após uma chegada apertada na última, mais uma vez em Thruxton. Naquele ano, Senna venceria seis das oito provas realizadas em Silverstone (chegando em segundo em uma das outras duas e abandonando a outra), o que faria com que a imprensa especializada inglesa, em sua homenagem, apelidasse o circuito de "Silvastone". Ainda em 1983, Senna seria o campeão, correndo pela Theodore Racing Team, do Grand Prix de Macau, a prova de Fórmula 3 de maior prestígio no mundo, que hoje faz parte do Campeonato Mundial, mas que na época podia ser disputada por qualquer piloto de Fórmula 3.

A performance de Senna em 1983 chamaria a atenção da Fórmula 1, e, no início de 1984, ele receberia convites para testar na Williams, na McLaren, na Brabham, na Toleman e na Lotus. Peter Warr, o diretor da Lotus, queria contratá-lo para o lugar de Nigel Mansell, mas a patrocinadora da equipe, a Imperial Tobacco, fabricante dos cigarros John Player Special, fazia questão de um piloto inglês, e o outro piloto da Lotus, o italiano Elio de Angelis, era considerado a maior esperança da equipe para o título. O mesmo aconteceria na Brabham: Senna impressionaria nos testes, sendo mais rápido até que o primeiro piloto da equipe, o também brasileiro Nelson Piquet, mas o patrocinador da equipe, a indústria de laticínios Parmalat, fazia questão de pelo menos um piloto italiano (que acabaria sendo Teo Fabi), e ninguém iria trocar Piquet, o campeão do ano anterior, por um estreante. Senna também seria mais rápido nos testes que os dois pilotos da Williams, mas, como a equipe já tinha Keke Rosberg (campeão em 1982) e Jacques Laffite, tentou convencer Senna a assinar como piloto de testes, com direito a uma vaga em 1985. Essa também foi a proposta da McLaren, que já contava com Niki Lauda (que viria a ser campeão em 1984) e Alain Prost. Senna, porém, queria começar a disputar o campeonato já em 1984, e acabaria assinando com a pequena Toleman, que tinha um fraco motor Hart, pneus Pirelli (considerados, na época, inferiores aos Goodyear e Michelin, os outros dois fornecedores da Fórmula 1 naquele ano) e, como primeiro piloto, o venezuelano Johnny Cecotto, que havia começado a carreira no motociclismo.

Senna faria sua estreia na Fórmula 1 em 25 de março de 1984, justamente no Grande Prêmio do Brasil, na época disputado no Autódromo de Jacarepaguá, no Rio de Janeiro, o qual teve de abandonar na oitava volta após um estouro de motor. Na corrida seguinte, em Kyalami, África do Sul, terminaria em sexto, conquistando seus primeiros pontos na categoria, resultado que repetiria na corrida seguinte, em Zolder, Bélgica. Na quarta corrida do campeonato, em Ímola, San Marino, Senna não conseguiria se classificar (na época, nem todos os carros participavam automaticamente da corrida, apenas os 22 melhores dos treinos) devido a problemas com o carro, na única vez em que não se classificou para uma prova em toda a sua carreira. Senna abandonaria a quinta corrida, em Dijon, França, mas a sexta, em Mônaco, seria um dos pontos altos de sua carreira: sob forte chuva, Senna, que largou em 13o, veio passando todo mundo até chegar em segundo, atrás de Prost, que, desesperado, pedia para que a McLaren intercedesse junto aos comissários pela interrupção da corrida, que, segundo ele, não tinha condições de segurança para prosseguir devido ao temporal. A corrida seria interrompida na 32a volta, com Senna ultrapassando Prost logo após as bandeiras vermelhas serem mostradas; o regulamento, porém, determinava que valiam os resultados da volta anterior, e, quando completaram a 31a, Prost ainda era o primeiro, e Senna, o segundo. Esse foi o primeiro pódio da carreira de Senna, que sempre declarou que a corrida só havia sido interrompida para favorecer Prost e evitar sua vitória com a Toleman - os engenheiros da equipe, entretanto, mais tarde declarariam que o carro de Senna tinha um problema na suspensão e, se a corrida não tivesse sido interrompida, provavelmente ele teria quebrado e tido de abandonar.

Senna ainda conseguiria mais dois pódios em 1984, chegando em terceiro lugar em Brands Hatch, Inglaterra, e em Estoril, Portugal, a última das 16 corridas daquele ano. Ele terminaria o campeonato em nono lugar com 13 pontos, empatado com Mansell. Em agosto, ele assinaria com a Lotus, justamente para ocupar o lugar de Mansell, que iria para a Williams, se tornando o primeiro piloto da equipe a não ser escolhido pessoalmente pelo seu fundador, Colin Chapman, falecido em 1982. Sua ida para a Lotus seria considerada quebra de contrato pela Toleman, que tinha uma cláusula de preferência, e, como punição, Senna ficaria fora do GP da Itália de 1984, sendo substituído pelo sueco Stefan Johansson. Além de na Fórmula 1, Senna, em 1984, competiria na prova dos 1.000 Km de Nürburgring, dividindo o carro, um Porsche 956 da equipe Joest Racing, com Johansson e com o francês Henri Pescarolo, e terminando em oitavo; e de uma corrida especial, também disputada em Nürburgring, por vários pilotos e ex-pilotos de Fórmula 1, incluindo Prost, Lauda, Carlos Reutemann, Stirling Moss e os campeões Jack Brabham (1959, 1960 e 1966), Denny Hulme (1967) e Alan Jones (1980), todos guiando carros idênticos entre si construídos pela Mercedes; Senna largaria em segundo, atrás de Prost, mas o ultrapassaria já na primeira curva, vencendo a corrida de ponta a ponta.

Em seu primeiro ano na Lotus, Senna conseguiria sua primeira pole, sua primeira vitória, e seu primeiro hat trick (pole, vitória e volta mais rápida na mesma corrida), todos no GP de Portugal, segundo da temporada, disputado em Estoril, em 21 de abril, sob forte chuva. Já nessa corrida, aliás, Senna ganharia sua reputação de piloto excelente sob chuva: seu desempenho seria tão espetacular que ele colocaria uma volta sobre o terceiro colocado da prova, o francês Patrick Tambay, da Renault, e, por pouco, não ultrapassaria também o segundo, o italiano Michele Alboreto, da Ferrari, que cruzou a linha de chegada mais de um minuto depois de Senna. Ao longo da temporada, Senna conseguiria nada menos que sete poles, mas seu desempenho geral ainda não seria espetacular: no GP do Brasil, primeira prova da temporada, Senna abandonaria mais uma vez, dessa vez por pane elétrica, e, após o GP de Portugal, ele amargaria uma sequência de sete maus resultados, só voltando a pontuar em Österreichring, na Áustria, quando chegou em segundo atrás de Prost. Depois disso, ele teve uma sequência de quatro pódios seguidos - terceiro em Zandvoort, Holanda, e em Monza, Itália, primeiro em Spa-Francorchamps, Bélgica (mais uma vez sob chuva), e segundo em Brands Hatch, Inglaterra - e abandonou as duas últimas corridas, somando um total de 38 pontos que o deixariam em quarto lugar no campeonato, atrás de Prost, Alboreto e Rosberg. De Angelis, o companheiro de equipe de Senna, seria o quinto, com 33 pontos, mas, a partir da metade da temporada, a relação entre os dois azedaria - de Angelis acreditava que deveria ser o primeiro piloto, por ser mais experiente, mas a equipe dava o tratamento preferencial a Senna. Ao fim da temporada, irritado, ele decidiria trocar a Lotus pela Brabham.

Senna conseguiria seu primeiro pódio no GP do Brasil em 1986, chegando atrás apenas de Piquet. Na corrida seguinte, em Jerez de la Frontera, Espanha, ele conseguiria sua primeira vitória no seco, chegando à frente de Mansell por apenas 0,014 segundos, em uma das chegadas mais disputadas da história da Fórmula 1. Após essas duas corridas, Senna lideraria pela primeira vez o campeonato, mas seu carro se mostraria menos confiável que as Williams de Piquet e Mansell e que a McLaren de Prost, que dominariam o campeonato, com o francês conquistando seu segundo título. Senna conseguiria um total de oito poles e oito pódios, totalizando 55 pontos e terminando o campeonato mais uma vez em quarto, atrás de Prost, Mansell e Piquet. Um desses oito pódios seria mais uma vitória, no GP dos Estados Unidos, disputado em Detroit; a corrida seria realizada no dia seguinte à eliminação do Brasil na Copa do Mundo de 1986, e, para alegrar o povo brasileiro, Senna pediria a um dos fiscais de pista uma bandeira do Brasil, a qual seguraria enquanto dava a volta da vitória - aquela na qual os pilotos levam o carro da linha de chegada até os boxes após o fim da corrida. Esse gesto se tornaria um dos mais emblemáticos de Senna, e seria repetido em cada uma de suas vitórias desde então.

A temporada de 1987 começaria com muitas novidades para Senna: a Lotus deixaria de ser preta e passaria a ser amarela (com a Imperial Tobacco decidindo expor a marca Camel ao invés da John Player Special), seus motores deixariam de ser Renault e passariam a ser Honda (os mesmos da Williams), e seu companheiro de equipe passaria a ser o veterano japonês Satoru Nakajima (substituindo o escocês Johnny Dumfries, que tinha entrado no lugar de de Angelis); além disso, a Lotus estrearia nessa temporada uma nova suspensão ativa, que dava mais estabilidade e velocidade ao carro. A Williams ainda se mostraria bastante superior à Lotus, porém, com Mansell conseguindo sete poles, e Piquet outras quatro e ganhando o campeonato, no último de seus três títulos. Senna conseguiria apenas uma pole, em Ímola, na segunda corrida do campeonato, mas, no geral, faria um excelente campeonato, com oito pódios, incluindo duas vitórias - sua primeira em Mônaco, a primeira de um carro com suspensão ativa na Fórmula 1, e sua segunda em Detroit. Senna terminaria o campeonato em terceiro, com 57 pontos, atrás de Piquet e Mansell. Ao fim da temporada, ele receberia uma proposta da McLaren, e decidiria trocar a Lotus pelo time capitaneado por Ron Dennis (que, curiosamente, para 1988, também teria motores Honda, substituindo os Porsche).

Em 1988, com Senna e Prost, a McLaren teria uma das duplas de pilotos mais fortes de todos os tempos, e deixaria claro que nenhum deles seria "o primeiro", com ambos tendo permissão para disputar os pontos entre si. No início, Prost era favorável tanto à vinda de Senna para a equipe quanto à disputa de ambos pelo título, mas, à medida que os estilos, os temperamentos e as personalidades dos dois pilotos se mostravam completamente diferentes, uma rivalidade entre ambos se tornava cada vez mais aflorada, até se transformar em uma das maiores da história do esporte. Essa rivalidade se refletiria especialmente em duas corridas da temporada: em Mônaco, Senna bateria na volta 67, e, irritado por ver aquela que poderia ser sua segunda vitória seguida no Principado cair no colo de Prost, ao invés de retornar para os boxes, iria para casa (não para São Paulo, ele tinha um apartamento em Mônaco), só retornando à noite, quando a equipe já estava recolhendo tudo para ir embora; já em Estoril, Prost largaria na pole, Senna tentaria ultrapassá-lo já na primeira curva, e os dois teriam uma briga tão acirrada que Senna quase faria Prost bater no muro dos boxes a quase 300 Km/h, o que lhe renderia uma multa da FIA e um puxão de orelha da equipe, que o obrigaria a pedir desculpas publicamente ao francês. Depois desse incidente, Prost passaria a ver Senna como irresponsável, e a relação entre os dois azedaria de vez.

A rivalidade, porém, acabaria compensando para a McLaren, que venceria 15 das 16 provas do campeonato - a única que escaparia seria o GP da Itália, no qual Prost abandonaria com um problema de motor, Senna se envolveria em um acidente com a Williams do francês Jean-Louis Schlesser, e a Ferrari, com o austríaco Gerard Berger, que venceria a corrida com Alboreto chegando em segundo, conseguiria sua primeira dobradinha em Monza desde 1979, pouco menos de um mês após a morte do Comendador Enzo Ferrari, fundador da escuderia, o que motivou uma homenagem emocionada da equipe após a corrida.

Além do recorde de vitórias da McLaren, Senna conseguiria dois recordes pessoais em 1988, com 13 poles (o recorde anterior era de 9, de Piquet, em 1984) e oito vitórias (sendo o anterior de sete, de Jim Clark em 1963 e de Prost em 1984). Com 90 pontos, Senna se sagraria campeão, conquistando seu primeiro título, mas com uma ajuda do regulamento: originalmente, Prost é que havia conquistado mais pontos (105 do francês contra 94 de Senna), mas o regulamento da época determinava que apenas os 11 melhores resultados de cada piloto nas 16 corridas valiam para o título, e Prost, que, em todas as corridas que não abandonou, chegou em primeiro ou em segundo, acabou tendo de descartar três segundos lugares (enquanto Senna descartou um quarto e um sexto), terminando com apenas 87 pontos válidos, três a menos que Senna.

Isso aumentaria ainda mais a rivalidade entre os pilotos, que, em 1989, saiu das pistas, incluindo um jogo psicológico nos bastidores, através do qual Prost tentava desestabilizar Senna para que ele cometesse erros nas corridas. Senna não se deixaria abalar, mas somente até o GP do Japão, em Suzuka, penúltima corrida do campeonato, no qual ocorreria um dos episódios mais controversos da história da Fórmula 1: Senna precisava vencer para continuar na luta pelo título, mas era Prost quem estava liderando a corrida. Na volta 46, após várias tentativas frustradas, Senna finalmente se viu em condições de ultrapassar Prost, e se colocou lado a lado com o rival. Prost, então, fez uma manobra que a FIA considerou legal, mas que muitos dizem ter sido proposital para tirar Senna da corrida, e ambos os carros tocaram rodas e saíram da pista. Prost decidiu abandonar a corrida e sair do carro, mas Senna pediu a alguns fiscais de pista que empurrassem seu carro, que havia desligado em decorrência do acidente, para que ele pegasse novamente. Os fiscais empurraram Senna de volta para a pista, ele seguiu até os boxes, trocou o bico do carro, avariado na colisão, e, em uma corrida fantástica, ultrapassou todo mundo e conseguiu a vitória.

Após a corrida, porém, os comissários de prova decidiram desclassificar Senna, alegando que ele não poderia ter recebido a ajuda dos fiscais de pista para voltar à corrida, fez um traçado irregular (cortando uma chicane) em seu retorno, e entrou nos boxes de maneira irregular. Senna ficou extremamente irritado com a decisão - que acabou fazendo com que Prost fosse campeão, conquistando seu terceiro título independentemente do resultado do GP da Austrália, em Adelaide, última corrida da temporada - e acusou o então presidente da FIA, o também francês Jean-Marie Balestre, de mandar os comissários desclassificarem-no para favorecer Prost. Os comissários, evidentemente, negaram qualquer envolvimento de Balestre, e, no julgamento de Senna, após a temporada, a FIA decidiria lhe aplicar uma enorme multa e suspender sua Super Licença, efetivamente impedindo que ele pilotasse um carro de Fórmula 1. Senna recorreria e receberia de volta a Super Licença, mas a relação entre ele e Prost se tornaria insustentável, com o francês decidindo trocar de lugar com Berger e ir para a Ferrari em 1990.

Tirando esse incidente controverso, Senna teve mais uma temporada espetacular em 1989, com direito a mais 13 poles (das outras três, duas foram de Prost, e a única que não foi da McLaren foi obtida por Riccardo Patrese, da Williams, em Hungaroring, Hungria) e mais seis vitórias (o desempenho da McLaren, porém, não foi tão avassalador quanto no ano anterior, com Prost conseguindo outras quatro, e as outras seis ficando com as demais equipes). Senna conseguiu mais vitórias, mas Prost teve mais segundos lugares (seis contra um) e pontuou em mais três corridas; no final, com os descartes, Prost terminou com 76 pontos, enquanto Senna ficou em segundo com 60.

Em 1990, Senna se envolveria em mais duelos dramáticos contra Prost, mas, como agora cada um estava em uma equipe, o jogo psicológico já não era tão forte. Senna acabaria a temporada com 10 poles e 11 pódios, sendo seis vitórias; Prost, porém, veio em seu encalço, com cinco vitórias. Na penúltima corrida do ano, em Suzuka, a situação era a inversa do ano anterior, com Prost precisando vencer para continuar na briga. Após conseguir a pole, Senna faria um pedido à organização do GP para que o pole largasse do lado esquerdo, mais limpo, da pista, ao invés do direito, mais sujo, usado desde 1987; a organização atenderia ao pedido, mas Balestre o consideraria "descabido", e ordenaria que fosse usado o lado direito como sempre - além disso, em uma reunião antes da corrida, alertaria aos pilotos que passar por sobre a linha de saída dos boxes para disputar posições após a largada seria "inapropriado". Ainda engasgado com o que ocorrera no ano anterior, e acreditando que Balestre estava determinado a prejudicá-lo, Senna decidiria que não iria mudar seu curso na primeira curva, custasse o que custasse. Dito e feito, após a largada, Prost, do lado mais limpo, teria vantagem, e logo colocaria o carro ao lado do de Senna, que, sem mudar seu traçado normal, colidiria contra o carro do francês, tirando ambos da corrida. Com 78 pontos, Senna não poderia mais ser alcançado por Prost, que, após um terceiro lugar em Adelaide (onde Senna abandonaria com problemas de câmbio) e os descontos, acabaria em segundo lugar, com 71. Senna conquistaria seu segundo título mundial, e a FIA consideraria o evento como um acidente normal de corrida, mas Prost se diria "enojado", e consideraria se aposentar da Fórmula 1.

Prost não se aposentaria, mas, em 1991, não teria chances de brigar contra Senna, graças a um carro problemático da Ferrari e a um excepcional da Williams, que transformaria Mansell e Patrese nos dois principais rivais do brasileiro. Apesar de protagonizar duelos memoráveis contra Senna, Mansell seria um rival mais carismático que Prost, além de mais educado: em Silverstone, durante o GP da Inglaterra, Senna erraria na estratégia, e pararia na última volta; após ganhar a corrida, Mansell lhe daria uma "carona" até os boxes, com Senna sentado na lateral de seu carro. Em 1991, Senna ganharia o último de seus três títulos, se tornando o segundo brasileiro tricampeão mundial de Fórmula 1.

Senna teria uma temporada impecável, com oito poles e 12 pódios, incluindo 7 vitórias, sendo as quatro primeiras do ano seguidas - e poderiam ter sido 8, mas, no Japão, Senna decidiria reduzir a velocidade e deixar Berger, seu companheiro de equipe, que vinha em segundo, vencer. Uma dessas vitórias seria sua primeira no GP do Brasil, disputado em Interlagos, São Paulo, onde ele começou sua carreira no kart, e não poderia ter sido de maneira mais espetacular: Senna largaria na pole, mas as Williams tinham rendimento claramente superior, e Mansell se aproximava perigosamente, chegando a ameaçá-lo antes de ter de ir para os boxes com um furo em um dos pneus. Por volta da metade da corrida, vários carros, incluindo os de Senna, Mansell e Patrese, começaram a apresentar problemas na caixa de marchas. Mansell teve de abandonar, Patrese passou a dirigir mais cautelosamente, mas Senna foi perdendo as marchas uma a uma, até ficar somente com a sexta. Sem querer abandonar nem reduzir a velocidade, ele decidiria ir até o fim da corrida, quase dez voltas, somente com a sexta marcha - e, como se dirigir dessa forma já não fosse difícil o bastante, faltando três voltas para o final ainda começaria a chover. Senna cruzaria a linha de chegada em primeiro, 2,9 s à frente de Patrese, mas esgotado fisicamente, com espasmos musculares e febre, devido ao esforço para guiar o carro em condições tão adversas - sem forças nem para sair do veículo, ele teve de ser ajudado pelos fiscais de pista, e levado para o pódio de ambulância.

Senna terminaria a temporada com 96 pontos, 24 à frente de Mansell, que somou 72; Patrese seria o terceiro, Berger o quarto, e Prost apenas o quinto - e a regra dos descartes seria abolida, com os pontos de todas as corridas valendo para o campeonato. Ao fim da temporada, ele planejava sair da McLaren e assinar com a Williams, mas o presidente da Honda pediria para que ele ficasse na equipe durante mais um ano, para ajudá-los a desenvolver os novos motores V12 que seriam usados em 1992; em respeito e agradecimento, ele aceitaria, e renovaria com a McLaren.

1992, entretanto, seria um ano bem diferente dos anteriores para o brasileiro. Com um carro contendo o que havia de mais moderno em matéria de tecnologia, a Williams se mostraria imbatível, e, sem que os novos V12 se mostrassem tão confiáveis, Senna lutaria para não fazer apenas figuração, terminando a temporada com apenas uma pole e três vitórias; sete pódios, mas sete abandonos. Prost, pelo menos, decidiria tirar um ano sabático, então foi menos um rival na pista para o brasileiro - em compensação, um jovem Michael Schumacher já começaria a despontar pela Benetton, e se envolveria em pelo menos três confusões com o brasileiro: após o GP do Brasil, no qual Senna teve problemas de motor, Schumacher o acusaria de "fechar a porta" intencionalmente seguidas vezes quando tentou ultrapassá-lo; no GP da França, Schumacher bateria propositalmente em Senna enquanto este tentava ultrapassá-lo, o que resultaria no brasileiro tendo de abandonar a corrida; e, durante a classificação para o GP da Alemanha, Senna acusaria Schumacher de bloqueá-lo propositalmente na pista. Senna também seria protagonista de uma cena rara e muito tocante: durante a classificação para o GP da Bélgica, o francês Érik Comas, da Ligier, bateria forte, e Senna seria o primeiro a chegar ao local do acidente; ele decidiria parar seu carro e ajudar o colega, que ficou inconsciente durante alguns momentos, a sair do carro, que começava a pegar fogo, gesto que receberia muitas homenagens por parte de publicações especializadas e empresas de seguro automotivo. Além de ajudar Comas na pista, Senna ainda iria visitá-lo mais tarde no hospital; até hoje o francês se lembra do brasileiro com carinho, e o considera um dos responsáveis por ele ainda estar vivo.

Senna terminaria a temporada com 50 pontos em quarto lugar, atrás de Mansell, Patrese e Schumacher. Após a Honda anunciar que deixaria a Fórmula 1 no final de 1992, ele começaria a analisar outras opções de equipe para 1993; sua preferência seria a Williams, mas, após Mansell também anunciar que deixaria a Fórmula 1 ao final daquela temporada, a equipe contrataria Prost, que incluiria em seu contrato uma cláusula proibindo-os de contratar Senna como seu segundo piloto. Senna receberia um convite da Ferrari, mas, como a equipe italiana também não estava lá essas coisas, ele declinaria. Ele chegaria até mesmo a fazer um teste na Fórmula Indy, para a equipe Penske, na qual corria o brasileiro bicampeão da Fórmula 1 Emerson Fittipaldi, mas, apesar de fazer um bom tempo, não se empolgaria com o carro, na época mais pesado e mais difícil de dirigir que os da Fórmula 1. Sem opções, ele acabaria renovando com a McLaren, mas apenas para a primeira corrida do ano, em Kyalami.

Com a saída da Honda, a McLaren tentaria obter motores Renault, os mesmos usados pela Williams, mas não conseguiria chegar a um acordo com a fábrica francesa. Sem muitas outras opções, ela decidiria fechar com a Ford, mas com um contrato extremamente desfavorável, que faria com que ela tivesse motores de duas gerações atrás em relação à principal equipe da Ford, a Benetton de Schumacher. A McLaren, então, decidiria compensar a falta de potência no motor com alta tecnologia, não poupando custos para ter um carro tão bom quanto o da Williams - inclusive, com uma suspensão eletrônica ainda mais moderna. A ideia de Senna era assinar com a McLaren corrida a corrida, apenas se o carro se mostrasse sempre competitivo e capaz de brigar pelo título; Senna acabaria realmente conseguindo tirar o máximo do carro, faria as 16 corridas pela McLaren, e terminaria o ano com 73 pontos, uma pole e sete pódios, sendo cinco vitórias - seu companheiro de equipe, o norte-americano Michael Andretti, filho do campeão Mario Andretti (1978), em sua estreia na Fórmula 1, substituindo Berger, que havia ido para a Ferrari, já não se daria tão bem com o carro, tendo um início de ano desastroso, com quatro abandonos, e sendo substituído pelo finlandês Mika Häkkinen nas três últimas corridas do ano.

No início da temporada de 1993, parecia que Senna estava rumo a seu quarto título. Ele começaria o ano com um segundo lugar, atrás de Prost, na África do Sul, mesmo após se envolver em um acidente com Schumacher, e, então, conseguiria duas vitórias espetaculares, a primeira no Brasil, sendo carregado por uma multidão que invadiu a pista após a prova, após uma corrida marcada por uma forte chuva que acabou fazendo com que Prost se acidentasse, e punições aplicadas a Senna e Schumacher por ultrapassar sob bandeira amarela; e a segunda no GP da Europa, disputado em Donington Park, Inglaterra, em mais uma corrida marcada por chuva intermitente, na qual Senna sairia de quinto para primeiro em uma volta espetacular, cortando caminho pela pit lane, onde ficam os boxes - o que era permitido na época, já que não havia limite de velocidade na pit lane como hoje - e colocando uma volta sobre todos os demais pilotos exceto o inglês Damon Hill, filho do campeão Graham Hill (1962) e companheiro de Prost na Williams, que chegaria em segundo mais de um minuto atrás. Após abandonar em Ímola com um problema hidráulico, Senna também seria segundo lugar em Montmeló, Espanha (ambas as corridas vencidas por Prost), e, em seguida, conquistaria sua sexta vitória, um recorde até hoje não alcançado, nas ruas de Mônaco - feito que lhe valeria o apelido de "Rei de Mônaco", pois Mônaco, sendo um Principado, não tem Rei, sendo governado por um Príncipe.

Depois de Mônaco, entretanto, a coisa ficaria feia para Senna, que amargaria uma sequência de oito corridas sem subir ao pódio, incluindo três abandonos e um 18o lugar no GP do Canadá, em Montreal. Com quatro vitórias, um segundo e um terceiro lugares nessas oito provas, Prost conseguiria construir uma diferença quase impossível para Senna alcançar. Senna ainda seria o vencedor no Japão e na Austrália - na última vitória na Fórmula 1 de um carro com suspensão ativa - mas, como Prost chegaria em segundo em ambas as provas, se sagraria tetracampeão com 99 pontos, ficando Senna com o vice-campeonato, 26 pontos atrás do rival e apenas quatro pontos à frente de Hill.

Prost se aposentaria após o título, e Senna ficaria livre para assinar com a Williams. Alegando que a Fórmula 1 estava ficando muito dependente da tecnologia, porém, o presidente da FIA, o inglês Max Mosley, eleito para substituir Balestre em outubro de 1993, decidiria proibir, em janeiro de 1994, a suspensão ativa, o controle de tração e os freios ABS de uma vez só com uma canetada - gesto que foi criticado por muitos profissionais do automobilismo, que alegaram que as equipes teriam pouco tempo para se adaptar às mudanças, e que o ideal seria retirar os componentes eletrônicos aos poucos e com prazos. Sem os componentes de alta tecnologia, a Williams não conseguiria construir um carro tão eficaz quanto os das últimas três temporadas, voltando a ficar no mesmo patamar de suas principais rivais. A Benetton, por outro lado, tiraria um coelho da cartola, e faria um carro superior aos de suas colegas mais ricas - segundo muitos, incluindo o próprio Senna, a Benetton usaria componentes proibidos pelo regulamento, mas escondidos dos fiscais, o que nunca foi provado. Senna criticaria muito o novo carro da Williams, e chegaria a declarar que seria "um ano de muitos acidentes", e que "teremos sorte se nada de mais grave acontecer".

A temporada de 1994 começaria com o GP do Brasil. Senna largaria na pole, mas seria ultrapassado por Schumacher nos boxes, após a troca de pneus da Benetton ser mais eficiente que da Williams; forçando o carro para tentar alcançar o alemão, ele acabaria rodando e tendo de abandonar a corrida. Na segunda prova, o GP do Pacífico, disputado em Aida, Japão, Senna faria mais uma vez a pole, mas, logo na primeira curva, seria atingido por trás por Häkkinen, rodaria, e acabaria atingido na lateral pela Ferrari do italiano Nicola Larini, abandonando mais uma vez. A terceira prova seria o GP de San Marino, em Ímola.

A Williams faria várias modificações no carro para tentar torná-lo mais competitivo, mas Senna não ficaria satisfeito, alegando que o carro havia ficado mais difícil de dirigir. Todo o fim de semana seria marcado por eventos trágicos, começando por um acidente nos treinos de sexta feira, no qual o brasileiro Rubens Barrichello decolaria com sua Jordan e atingiria uma cerca acima da proteção de pneus, quebrando o nariz e o braço. Nos treinos de sábado, o austríaco Roland Ratzenberger, de 33 anos, piloto estreante da equipe Simtek, bateria contra um muro de concreto após perder o controle do carro devido a uma quebra da asa dianteira na curva Villeneuve e faleceria, a primeira morte durante uma corrida de Fórmula 1 desde o italiano Riccardo Paletti no GP do Canadá de 1982. Senna acompanharia o corpo de Ratzenberger até o centro médico do autódromo, e, ao ver como o brasileiro ficou afetado pelo evento, o médico-chefe da Fórmula 1, Dr. Sid Watkins, recomendou que ele abandonasse a corrida e fosse pescar. Senna respondeu "eu não posso parar de correr", mas passaria o restante do fim de semana cabisbaixo e pensativo, como se realmente considerando não correr. Ele ainda conversaria com Prost, presente como comentarista de uma televisão francesa, sobre a possibilidade de criarem uma nova associação de pilotos, que lutaria por maior segurança.

A corrida começaria com Senna na pole, sob ataque de Schumacher. Logo na largada, porém, o Benetton do finlandês J.J. Lehto desligaria, e seria atingido em cheio pela Lotus do português Pedro Lamy. Um pneu e vários destroços voariam em direção às arquibancadas, ferindo oito espectadores e um policial. O carro de segurança, um Vectra pilotado pelo italiano Max Angelelli, entraria na pista para ditar o ritmo de corrida enquanto a pista era limpa. Muitos pilotos reclamariam de que o ritmo de Angelelli era lento demais, o que poderia causar perda de rendimento e de segurança nos pneus dos carros de Fórmula 1, acostumados a rodar em altas velocidades, e que causam instabilidade no carro quando frios; o próprio Senna chegaria a emparelhar com o carro de segurança e pedir para que Angelelli fosse mais veloz. A corrida seria reiniciada na volta 6 com Senna imprimindo um ritmo forte, seguido de perto por Schumacher. Na volta de número 7, ao se aproximar da curva Tamburello, Senna, ao invés de fazer a curva, sairia da pista em linha reta, se chocando a 307 Km/h contra um muro de concreto.

A corrida seria interrompida, e a equipe médica chegaria até o carro em dois minutos. Senna seria retirado do carro ainda vivo, mas com a pulsação muito fraca, e tendo perdido muito sangue. O Dr. Watkins chegaria a fazer uma traqueostomia ainda na pista, antes de Senna ser colocado em um helicóptero e encaminhado ao Hospital Maggiore, na cidade de Bolonha. Oficialmente, ele morreria no hospital, mas há quem diga que ele já tenha chegado lá morto, e até quem afirme que ele já estava morto na pista ao ser colocado no helicóptero. De acordo com as leis italianas, a hora da morte foi considerada como sendo a hora na qual o carro se chocou contra o muro. Senna, portanto, faleceu às 14 horas e 17 minutos do dia primeiro de maio de 1994, aos 34 anos.

A causa oficial do acidente foi a quebra da barra de direção, que impediu o carro de contornar a curva quando Senna virou o volante. A Williams chegou a ser julgada na justiça italiana por homicídio culposo (quando ocorre um assassinato, mas o assassino não tinha intenção de matar, tendo a morte ocorrido por negligência, imperícia ou imprudência do mesmo), com o engenheiro Patrick Head, responsável por ter feito modificações na barra a pedido de Senna, que não gostava de sua posição em relação ao assento, sendo considerado culpado, mas não sendo preso porque o veredito só saiu 13 anos após o acidente, e, pelas leis italianas, o prazo máximo para se aplicar uma sentença de homicídio é de 7 anos e 6 meses. A Williams até hoje inocenta Head, e afirma que a barra de direção se quebrou como consequência da batida no muro, e não como causa da mesma.

Senna foi sepultado em São Paulo sob forte comoção; estima-se que mais de três milhões de pessoas foram às ruas ver seu caixão ser levado em um carro dos bombeiros até o cemitério, e mais de duzentas mil compareceram ao velório. Ele seria enterrado com honras de herói nacional, e o governo declararia luto oficial de três dias por sua morte. Seu caixão seria carregado durante o funeral por pilotos e ex-pilotos, amigos e rivais de Senna, como Prost, Hill, Berger, Barrichello e Emerson Fittipaldi. Donos e chefes de equipe, como Ken Tyrrell, Peter Collins, Ron Dennis e Frank Williams também estariam presentes, mas a família não permitiria a presença de Bernie Ecclestone, o "chefão" da Fórmula 1, por entender que a corrida deveria ter sido cancelada após o acidente, tendo Ecclestone feito pressão para que ela fosse reiniciada - o que de fato aconteceu, com a prova terminando com uma vitória de Schumacher. O presidente da FIA, Max Mosley, também não compareceria, alegando preferir ir ao funeral de Ratzenberger, que ocorreria no dia seguinte, "pois todo mundo havia ido ao de Senna". O túmulo de Senna é hoje um dos mais visitados do mundo, recebendo mais visitantes por ano que os de John F. Kennedy, Marilyn Monroe e Elvis Presley somados.

Senna encerraria sua carreira tendo participado de 162 GPs, nos quais obteve 65 poles, 19 voltas mais rápidas e 80 pódios, sendo 41 vitórias. Ele é atualmente o quinto piloto mais vitorioso da história (atrás de Schumacher com 91, Lewis Hamilton com 53, Prost com 51 e Sebastian Vettel com 43) e o segundo com mais poles (atrás de Schumacher, mas o alemão fez 68 em 308 corridas, então a porcentagem de Senna, com 65 em 162, é maior). Seis recordes da Fórmula 1 ainda pertencem a Senna: maior número de poles consecutivas (8, entre o GP da Espanha de 1988 e o GP dos Estados Unidos de 1989), maior número de largadas consecutivas da primeira fila (24, entre o GP da Alemanha de 1988 e o GP da Austrália de 1989), maior número de vitórias consecutivas em um mesmo GP (5 em Mônaco, entre 1989 e 1993), maior número de poles em um mesmo GP (8 em San Marino, empatado com Schumacher, que conseguiu 8 no Japão), maior número de poles consecutivas em um mesmo GP (7 em San Marino, entre 1985 e 1991) e maior número de GPs vencidos de ponta a ponta (ou seja, largando na pole e vencendo a corrida sem mais ninguém ocupando a primeira posição; Senna conseguiu fazer isso 19 vezes, seis a mais que os segundos colocados, Vettel e Jim Clark, que fizeram 13). Senna também é um dos três únicos pilotos da história a largar na primeira fila em todas as corridas de uma temporada, o que fez em 1989; os outros dois foram Prost (em 1993) e Hill (em 1996).

Após a morte de Senna, várias mudanças, algumas há anos pedidas pelos pilotos mas ignoradas pela FIA, foram feitas para tentar tornar a Fórmula 1 mais segura, como as laterais dos cockpits dos carros se tornando mais altas, a introdução de um apoio para a parte de trás da cabeça do piloto (conhecido como HANS, de head and neck support, "apoio para o pescoço e cabeça", em inglês), de novos tipos de muros e áreas de escape, e, talvez as mais controversas, o redesenho do traçado de várias pistas e a limitação da aceleração e da velocidade final dos carros. Há quem diga que, depois disso, a Fórmula 1, além de mais segura, ficou mais chata; outros rebatem dizendo que a chatice veio de outros fatores, como a acentuação do domínio das equipes mais ricas sobre as mais pobres, e não da segurança.

Para mim, a Fórmula 1 ficou mais chata por causa da ausência de Ayrton Senna.

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