segunda-feira, 12 de outubro de 2015

Pelota Basca

Esse é um post que eu planejo escrever há muito, muito tempo, mas, por uma razão ou outra, sempre acabo adiando. Dentre essas razões, estão o fato de não conseguir achar as informações que eu queria, de achar que o post ficaria muito grande caso eu resolvesse colocar tudo o que desejava, e até mesmo o fato de não conseguir me decidir que nome eu daria a ele. Essa semana, motivado pelo aparente sucesso que obtive em finalmente conseguir escrever uma série sobre os World Games, decidi tentar escrevê-lo assim mesmo, e confesso que fiquei bastante satisfeito com o resultado. Faltava somente a questão do nome, e acabei decidindo batizá-lo em homenagem ao mais conhecido dos esportes sobre os quais falarei hoje, a pelota basca.

Que, mesmo assim, não é exatamente um esporte muito conhecido no Brasil. Eu mesmo só conheci a pelota basca graças a um canal espanhol chamado TVE, que fazia parte da grade da Net - não sei se ainda faz, se fizer, não o tenho em meu pacote - e que minha irmã, na época em que estudava espanhol, gostava de assistir. Um dia, ela me chamou para ver um esporte curioso que eles estavam transmitindo, e, a partir daí, sempre que eles novamente transmitiam, se eu tivesse oportunidade, assistia. Não vou dizer que se tornou um dos meus esportes preferidos, e já há muito tempo que eu não assisto a uma partida, mas de vez em quando me lembro dele, e desde que falei sobre squash aqui no átomo que tenho vontade de falar sobre pelota basca também. Hoje, finalmente essa vontade será morta.

A pelota basca, como o nome sugere, teve sua origem no País Basco, região que ocupa territórios atualmente pertencentes à Espanha e à França, e que hoje não é um país independente, embora sua porção espanhola conte com um forte movimento separatista. Mais que lutar por independência, porém, os bascos lutam pela preservação de sua cultura, incluindo seu idioma, completamente diferente do espanhol e do francês, tanto que "basco" em basco é euskara. Essa luta pela preservação da cultura talvez tenha sido a maior responsável pela sobrevivência desse curioso esporte, que, em basco, se chama pilota, palavra derivada de pilus, que significa "pelo" ou "cabelo", pois as primeiras bolas eram feitas de couro recheadas com pelos de animal. Como a maior parte do País Basco fica na espanha, pilota acabaria corrompida para pelota, que, em espanhol, significa "bola". O nome do esporte, portanto, significa "bola basca", acrescentando o local de origem para que ficasse claro que não se trata de qualquer bola.

O objetivo em uma partida de pelota basca é rebater uma bola contra uma parede, o que torna o esporte meio parecido com o squash. Essa não é uma ideia exatamente nova, existindo registros de esportes com esse objetivo na Grécia Antiga, no Egito, na China, e até mesmo na América Central Pré-Colombiana. Estima-se, porém, que a pelota basca tenha surgido somente por volta de 1700, e que teria sido derivada do jeu de paume, esporte que, aqui, é conhecido como tênis real - e sobre o qual eu já falei aqui no átomo. O tênis real, por sua vez, é derivado de outros esportes bem mais antigos, cujos nomes se perderam, e nos quais o objetivo era rebater uma bola para o adversário (sem o uso da parede) usando as mãos nuas. Jogados nas ruas da Idade Média, esses esportes foram ganhando, aos poucos, novos elementos, como uma rede por sobre a qual a bola tinha de passar, luvas especiais para proteger as mãos dos jogadores, e, finalmente, as raquetes.

Em algumas regiões, porém, o uso das raquetes demorou um pouco mais para se popularizar, e os esportes nos quais a bola era rebatida com as mãos nuas continuaram atraindo novos jogadores por um bom tempo. No País Basco, especificamente, eram disputados dois esportes desse tipo, chamados pasaka e laxoa. Não se sabe bem quando nem porquê, mas os praticantes desses esportes, aos poucos, pararam de simplesmente rebater a bola um para o outro, e criaram uma regra segundo a qual a bola, após ser rebatida por um jogador, deveria obrigatoriamente quicar em uma parede antes de ser rebatida por outro. Alguns historiadores atribuem essa inovação ao comércio com os irlandeses: o estatuto da cidade de Galway, na Irlanda, já registrava, no ano de 1527, a proibição de se rebater bolas contra as paredes da cidade como passatempo, e, no século XVIII, o País Basco era o principal parceiro comercial da Irlanda, com os marinheiros bascos realizando seus negócios principalmente no porto de Galway, onde teriam conhecido o passatempo e o levado de volta à sua terra natal, incorporando suas regras aos esportes locais.

A pelota basca permaneceria restrita ao País Basco até meados do século XIX, quando, durante um boom de popularidade, se espalhou pela Espanha e pela França. Através de imigrantes espanhóis, no início do século XX o esporte chegaria também à América Latina, onde se tornaria especialmente popular no México, além de ganhar vários adeptos na Argentina, Chile, Uruguai e Cuba. Curiosamente, foi a federação da Argentina - e não a da Espanha - quem sugeriu que fosse criada uma federação internacional para preservar o esporte original, evitando que ele ganhasse uma versão diferente em cada país. Assim, em 1929, seria fundada, pela união das federações nacionais de Argentina, Espanha e França, a Federação Internacional de Pelota Basca (FIPV da sigla em espanhol; o V fica por conta de que, em espanhol, o nome do esporte se escreve "pelota vasca", pois ela vem do "País Vasco" - a pronúncia é a mesma, porém, com esse V tendo som de B). Responsável por regular o esporte e organizar seus torneios internacionais, hoje a FIPV já conta com 31 membros, quase todos da Europa ou das Américas (sendo as únicas exceções Filipinas, Guiné, Índia e Togo), incluindo o Brasil, representado pela Sociedade Brasileira de Pelota Vasca. Também é interessante notar que somente 7 dos 31 membros (Brasil, Portugal, Polônia, Holanda, Índia, Estados Unidos e Itália) não falam espanhol nem francês.

Atualmente, a FIPV reconhece quatro modalidades de pelota basca, embora a única coisa que mude de uma modalidade para a outra seja o tamanho da quadra na qual a partida é disputada. Dentro dessas quatro modalidades, são contempladas 14 especialidades oficiais, e aí sim há variação nas regras de uma especialidade para a outra.

A quadra na qual a pelota basca é jogada se chama frontón. A principal característica do frontón é que ele só precisa ter, obrigatoriamente, dois muros - a maioria dos frontones tem três; alguns têm quatro, sendo um de acrílico transparente; e existem até mesmo alguns de um único muro, conhecidos como plaza libre, usados em jogos amadores e não considerados oficiais pela FIPV. O muro da frente, chamado frontis (com a sílaba tônica no i, "frontís"), é onde a bola vai quicar entre uma rebatida e outra; o outro muro obrigatório fica à esquerda do frontis, e se chama rebote. À direita do frontis ficam as arquibancadas, onde se sentarão os espectadores, podendo haver um muro de acrílico transparente entre as arquibancadas e a área de jogo para evitar boladas e demais acidentes. O muro paralelo ao frontis não tem nome, e costuma nem estar presente na maioria dos frontones, que o substituem por apenas uma linha no chão.

Seja qual for a modalidade, todos os muros do frontón têm 10 metros de altura, e o frontis tem 11 metros de largura (assim como o muro de trás, se existir). O comprimento do rebote vai depender da modalidade: na modalidade conhecida como frontón 30 metros, o rebote tem 30 metros; na conhecida como frontón 36 metros, frontón corto ("curto") ou pared izquierda, o comprimento é de, adivinhem, 36 metros; já na modalidade conhecida como frontón 54 metros, frontón largo ou jai alai, o comprimento é de 54 metros; finalmente, na modalidade chamada trinquete, o comprimento é de 28,5 metros. O trinquete possui uma "casinha" (por um acaso chamada trinquete), semelhante à penthouse de uma quadra de tênis real, com 2 metros de altura e 5 metros de largura, projetada para dentro da área de jogo, e que tem um telhado inclinado a 25 graus, o que faz com que a área de jogo seja menor e tenha um elemento extra para as jogadas.

O frontis possui uma linha que delimita as jogadas válidas, sendo comum que, dessa linha para baixo, haja uma faixa de metal, para que o som denuncie se a bola quicou ali; no frontón 30 metros e no trinquete essa linha é traçada a 60 cm de altura; nas outras duas modalidades, a 1 metro de altura. Se os muros do frontón tiverem mais de 10 metros de altura, é marcada uma linha limite, no frontis e no rebote, a 10 metros, sendo que a bola, obviamente, também não pode quicar acima dela. Ambas essas linhas têm 15 cm de largura, e são consideradas parte da área de jogo - se a bola quicar sobre a linha, a jogada é válida. As demais marcações do frontón ficam no chão, e também têm 15 cm de largura cada; a mais simples delas é a linha de lado, que delimita a área de jogo em relação às arquibancadas - em frontones com muro direito de acrílico, o muro não fica sobre essa linha, mas um pouco adiante. Paralelamente ao frontis, são traçadas 10 outras linhas, que se prolongam para o rebote até uma altura mínima de 1 metro. Essas linhas são chamadas cuadros, e são numeradas de 1 a 10; a linha de número 4 é conhecida como falta, e a de número 7 é conhecida como pasa, razão pela qual, em alguns frontones, elas são identificadas não por seus números, mas pelas letras F e P - também não é incomum que elas sejam de cor diferente das demais, normalmente em amarelo enquanto as outras são brancas. No frontón 30 metros e no trinquete, a distância do frontis para o cuadro 1 e de cada cuadro para o seguinte é de 3 metros, enquanto nas outras duas modalidades é de 4 metros.

As regras da pelota basca são até bastante simples: no início da partida, um dos jogadores, por sorteio, é escolhido para sacar. Ele deve sacar do cuadro 4, mas pode fazê-lo parado sobre a linha ou vindo correndo do cuadro 6. Não é permitido sacar "por cima", com a bola obrigatoriamente tendo de quicar no chão antes de ser rebatida. Uma vez rebatida, a bola deve quicar no frontis, entre as linhas-limite; é permitido que a bola quique no rebote antes de no frontis ou depois de no frontis e antes de quicar no chão, mas nunca em ambos - exceto no trinquete, onde a bola, após um saque, só pode quicar no frontis e no chão. Imediatamente após um saque, ao quicar no chão, a bola deve quicar entre os cuadros 4 e 7: se quicar antes do cuadro 4, será ponto para o adversário; se quicar depois do cuadro 7, o sacador terá direito a uma nova tentativa, mas, se nessa nova tentativa a bola quicar além do cuadro 7 novamente, será ponto para o adversário.

Uma vez que a bola quique no chão, o outro jogador deverá rebatê-la em direção ao frontis. Nessa rebatida, ela pode quicar em um máximo de dois muros (no rebote e então no frontis, no frontis e então no rebote ou no frontis e então no telhadinho do trinquete, nunca no muro de acrílico ou no muro traseiro) antes de quicar no chão, e só pode quicar no chão uma vez antes de ser rebatida. Os jogadores se alternam nas rebatidas até que um deles cometa um erro; os erros mais comuns são deixar a bola quicar duas vezes no chão, fazer a bola quicar em três muros antes de no chão, fazer a bola quicar abaixo da linha-limite inferior ou acima da superior, tocar a bola com outra parte do corpo que não as mãos, ou fazer a bola quicar além da linha de lado, além da linha de fundo, no muro de acrílico ou no muro traseiro. Toda vez que um jogador comete um erro, é ponto para o adversário. Se o jogador que estava sacando pontuou, ele continua sacando; se foi o adversário quem pontuou, será a vez do adversário sacar. O jogo continua até que um dos dois jogadores marque 22 pontos, sempre com, no mínimo, dois pontos de vantagem (ou seja, se empatar 21 a 21, vence quem marcar 23, e assim por diante). O normal é que cada partida se resolva com um único jogo, mas alguns torneios são disputados em melhor de três jogos, sendo vencedor quem ganhar dois primeiro.

Algumas especialidades também permitem o jogo em duplas (parejas), que tem exatamente as mesmas regras do individual. No jogo em duplas, um dos jogadores se posiciona sempre mais à frente, mais próximo do frontis, sendo conhecido como delantero, enquanto o outro se posiciona mais atrás, sendo conhecido como zaguero. Os jogadores de uma mesma dupla se alternam no saque, mas qualquer um dos dois pode rebater a qualquer tempo, sem ser necessário respeitar uma ordem para as rebatidas.

A pelota basca tradicional, na qual a bola é rebatida com as mãos, sem o auxílio de qualquer tipo de raquete, é hoje chamada de pelota mano. Quatro das especialidades da FIPV são jogadas com as regras da pelota mano: a mano frontón individual, a mano frontón parejas, a mano trinquete individual e a mano trinquete parejas. É importante salientar que a pelota mano é exclusivamente masculina, ou seja, não existe nenhum torneio feminino organizado pela FIPV nessas quatro especialidades - embora possam existir torneios regionais e jogos amadores. As especialidades de mano frontón são disputadas na modalidade frontón 36 metros, e usam uma bola de couro recheada com pelo de cavalo, de aparência parecida com uma bola de beisebol. A bola deve ter entre 60 e 62 mm de diâmetro e pesar entre 101 e 107 gramas, sendo que o recheio deve pesar entre 30 e 35 g. As especialidades de mano trinquete usam uma bola mais leve, com peso entre 90 e 92 g e peso do recheio entre 20 e 23 g. É permitido aos jogadores proteger a palma das mãos com esparadrapos, mas não é permitido nenhum outro material entre o esparadrapo e a pele.

A segunda especialidade mais antiga é a chamada pala corta, na qual a bola é rebatida com uma raquete especial. Feita de madeira de faia, ela é cortada em uma única peça, sem emendas, tem 51 cm de comprimento, largura máxima (na cabeça) de 11,5 cm, espessura entre 2 e 4,5 cm, e peso entre 600 e 800 g. A bola também é de couro recheado com pelos, mas é menor, com entre 50 e 58 mm de diâmetro e pesando entre 85 e 90 g, com o recheio pesando entre 34 e 38 g. Oficialmente, a pala corta é exclusivamente masculina, jogada apenas no individual e na modalidade frontón 36 metros. A pala corta descende de uma variação do jogo, chamada pala larga ou apenas pala, que usa uma raquete maior, de 60 cm de comprimento, e o frontón de 54 metros, mas que não é considerada oficial pela FIPV.

A pala corta daria origem à paleta cuero, que usa uma raquete parecida, mas mais curta, mais larga e mais leve, com comprimento máximo de 50 cm, largura máxima de 13,5 cm, espessura entre 2 e 3 cm e peso entre 550 e 600 g. A raquete não precisa ser de uma única peça de madeira, podendo ser feita de lâminas de madeira coladas. A bola (também feita de couro, cuero, em espanhol) também é menor, com entre 46 e 48 mm de diâmetro e peso entre 50 e 52 g. Duas especialidades da FIPV usam as regras da paleta cuero, a paleta cuero frontón (modalidade frontón 30 metros) e a paleta cuero trinquete; curiosamente, na frontón o recheio da bola deve pesar entre 18 e 20 g, enquanto no trinquete deve pesar entre 15 e 18 g, mas o peso total da bola é o mesmo para ambos, o que significa que a bola da trinquete tem menos recheio. Mais uma vez, as especialidades da paleta cuero são exclusivamente masculinas.

Em seguida temos a paleta goma, variação do jogo inventada na Argentina, e que usa uma bola de borracha (goma, em espanhol) e raquetes de madeira. As raquetes se parecem um pouco com raquetes de tênis de mesa, a podem ser feitas de uma única peça ou de várias lâminas de madeira coladas, podendo ter cobertura de borracha ou alumínio no cabo e proteções de borracha entre o cabo e a cabeça. Cada raquete tem no máximo 55 cm de comprimento, 20 cm de largura, 1 cm de espessura e 500 g de peso. A bola é oca, feita de duas metades de borracha coladas, e tem em seu interior um gás que faz com que ela quique mais rápido e mais alto; tem diâmetro máximo de 40 mm e pesa entre 35 e 40 g. Três das especialidades da FIPV são jogadas com as regras da paleta goma: a paleta goma frontón (modalidade frontón 30 metros), a paleta goma trinquete masculino e a paleta goma trinquete femenino. Existe uma variação chamada paleta goma maciza, inventada na Espanha, jogada no frontón de 36 metros e que usa uma bola de borracha maciça, mas não é considerada oficial pela FIPV.

Outra especialidade que usa raquetes é a chamada xare (também conhecida como share ou sare, todas as formas pronunciadas "cháre"), palavra que significa "rede" em basco. Esse nome vem do formato da raquete, feita de um aro de madeira com uma rede no meio; para confeccioná-la, usa-se uma tira de madeira comprida, de aspecto semelhante a um bambu, mas de alguma madeira maleável como castanheira, que será envergada até ficar no formato de uma raquete, com o cabo sendo amarrado com tiras de borracha, o que faz com que ela não fique totalmente reta, mas um pouco curva para a frente. A rede dessa raquete é feita de corda, e não é rígida como a de uma raquete de tênis, e sim folgada, por isso, a bola nessa especialidade não é exatamente rebatida, mas impulsionada pela raquete. A raquete deve ter no máximo 55 cm de comprimento, mas não há regras quanto à largura ou peso. A bola é feita de couro recheado com pelos, tendo diâmetro máximo de 50 mm e peso máximo de 83 g, com o recheio tendo entre 33 e 35 g. O xare também é exclusivamente masculino, e só é jogado na modalidade trinquete.

A especialidade mais curiosa é a chamada cesta punta, também conhecida como zesta punta ou jai alai. Mais uma vez exclusivamente masculina, essa especialidade usa uma espécie de cesta curva presa ao braço do jogador, com a qual a bola deve ser recolhida e impulsionada - normalmente com um giro do braço ou do corpo inteiro, o que deixa o esporte bastante plástico - em direção ao frontis. Os melhores jogadores conseguem fazer com que a bola alcance até 300 Km/h em cada impulso. A cesta é feita de madeira de castanheira esculpida e curada para ficar em seu formato característico, com a presilha do pulso sendo feita de couro. Da presilha até o início da curva, a cesta tem entre 52 e 68 cm de comprimento, mas, se pudesse ser esticada, chegaria a 1 metro. A bolsa onde a bola é recolhida tem aproximadamente 15 cm de profundidade. O peso total máximo da cesta é de 500 g. A bola, mais uma vez feita de couro recheado de pelos, tem diâmetro máximo de 70 mm, peso entre 115 e 130 g e peso do recheio entre 90 e 115 g - o que faz com que ela seja não somente a maior, mas também a de menos camadas de couro. A cesta punta é a única especialidade oficial disputada na modalidade frontón 54 metros, e descende de outra variação, chamada joko garbi ("jogo puro" em basco), que usa não uma cesta, mas uma luva semelhante à do beisebol, e hoje não é considerada oficial pela FIPV. Outra modalidade semelhante, bastante popular na Espanha e chamada remonte, usa uma cesta de plástico, com 70 cm de comprimento, apenas 7 cm de profundidade e peso entre 350 e 400 g, mas também não é considerada oficial pela FIPV.

Finalmente, temos a especialidade mais recente, o frontenis, criado no México, que tem esse nome porque usa raquetes de tênis. A bola é semelhante à da paleta goma, mas maior, com 47 mm de diâmetro e pesando entre 47 e 49 g. O frontenis é disputado na modalidade frontón 30 metros, e suas especialidades são o frontenis masculino e o frontenis femenino, ambos individuais - na América Latina também são disputadas provas de frontenis em duplas, mas essas não são consideradas oficiais pela FIPV.

A competição mais importante da pelota basca é o Campeonato Mundial, disputado desde 1952, a princípio a cada três anos, mas, desde 1958, a cada quatro. Atualmente, são disputadas todas as 14 especialidades oficiais no Mundial. Desde 1997, atualmente a cada 3 anos, também é disputada a Copa do Mundo de Trinquete, apenas com as seis especialidades dessa modalidade. A pelota basca também já fez parte das Olimpíadas, em quatro ocasiões: em 1900, em Paris, França, ela fez parte do programa oficial dos Jogos, mas com apenas um jogo, de cesta punta, mas em duplas, disputado entre Espanha e França, com vitória dos espanhóis. Em 1924, novamente em Paris, a pelota basca retornaria como esporte de demonstração, dessa vez com três eventos, mano frontón individual, pala corta e cesta punta, mais uma vez tendo cada evento apenas um jogo entre espanhóis e franceses, todos os três sendo vencidos pela Espanha. Em 1968, na Cidade do México, mais uma vez como esporte de demonstração, finalmente teríamos um torneio sério, com diversos participantes e variados vencedores em cada um dos cinco eventos: mano frontón individual, pala corta, paleta goma frontón, cesta punta e frontenis masculino. A última participação foi em 1992, em Barcelona, Espanha, com 10 eventos: mano frontón individual, mano frontón parejas, mano trinquete parejas, pala corta, paleta cuero frontón, paleta cuero trinquete, paleta goma trinquete masculino, cesta punta, frontenis masculino e frontenis femenino. A FIPV até tenta fazer com que a pelota basca retorne aos Jogos Olímpicos como parte do programa, mas o baixo número de países praticantes é um grande entrave a essas pretensões.

Se esse fosse um post apenas sobre pelota basca, eu não teria ficado em dúvida quanto ao seu nome. Por isso, vamos rapidinho ver alguns esportes parecidos, começando pela paleta frontón. Derivada da pelota basca, a paleta frontón surgiu no Peru na década de 1940, e, ao longo dos anos, ganhou tanta popularidade que hoje é considerada o esporte nacional do Peru, com espaços próprios para sua prática existindo em praticamente todas as cidades, e um forte e disputado campeonato nacional. Ao contrário da paleta goma e do frontenis, porém, a paleta frontón não é considerada uma especialidade da pelota basca pela FIPV, por um motivo muito simples: apesar de seu nome, ela não é jogada em um frontón.

A paleta frontón é jogada em uma quadra (chamada cancha) que possui um único muro (o frontis), de 5 m de altura por 6 m de largura. Os primeiros 20 cm do frontis, a partir do solo, possuem uma faixa de metal de 1 cm de espessura, chamada lata. A área de jogo, curiosamente, é mais larga que o frontis, tendo 8,6 m de largura e 12,8 m de comprimento; nela, existem marcações delimitando o jogo de simples (que só usa uma área de 7,6 m de largura por 12 m de comprimento, a área total só é usada no jogo de duplas) e a área de serviço (um retângulo de 7,5 m de largura por 5,5 m de comprimento, dividido ao meio no comprimento, e que começa a 6,5 m do frontis). Finalmente, a área até 1,5 m de cada linha de lado e até 3 m da linha de fundo, conhecida como contracancha, não é usada durante o jogo, mas deve permanecer livre durante toda a partida, sem qualquer objeto.

Os jogadores usam uma raquete para rebater a bola, que pode ser feita de madeira ou de materiais sintéticos como fibra de carbono e fibra de vidro. A raquete pode ter um cabo de borracha ou madeira, mas não pode ter nenhum detalhe ou elemento em metal. Seu comprimento deve estar entre 48 e 52 cm, sua largura máxima entre 18 e 20 cm, e seu peso entre 200 e 400 g. A bola é feita de borracha sólida, tem entre 69 e 73 mm de diâmetro, e pesa entre 41 e 45 g. A paleta frontón é disputada tanto no masculino quanto no feminino, de forma individual ou em duplas, e ainda em duplas mistas.

No início do jogo, um dos jogadores saca, devendo fazê-lo de dentro da área de serviço. A bola deve quicar no frontis e no máximo uma vez no chão, dentro da área de jogo, antes que o outro jogador a rebata em direção ao frontis. Toda vez que um jogador comete um erro, como, por exemplo, deixar a bola quicar duas vezes no chão, fazer com que a bola quique fora da área de jogo, ou acertar a lata com a bola, será ponto para o adversário. Independentemente de quem marcou ponto, cada jogador tem direito a cinco saques seguidos antes de passar a vez - ou seja, o jogador que começou sacando sacará durante os cinco primeiros pontos, então seu adversário sacará durante os cinco seguintes, e assim por diante. Na partida de duplas, os jogadores da dupla se alternam no saque, mas a rebatida é livre, com qualquer um dos dois podendo rebater em qualquer ordem. Ganha o jogo quem primeiro chegar a 15 pontos no jogo individual ou a 21 pontos no jogo de duplas, devendo sempre existir uma diferença mínima de 2 pontos - ou seja, no jogo individual, se empatar 15 a 15, ganha quem fizer 17, e assim por diante. Partidas de duplas são sempre disputadas em melhor de três jogos, com a dupla que ganhar dois primeiro sendo a vencedora; partidas individuais, dependendo do torneio, podem ser disputadas em melhor de três ou em melhor de cinco jogos - nesse caso, o vencedor é quem primeiro ganhar três deles.

A paleta frontón é regulada pela Federación Deportiva Peruana de Paleta Frontón (FDPPF), e sua prática é restrita ao Peru, sendo o esporte praticamente desconhecido em outros países, até mesmo nos vizinhos; por causa disso, seus principais torneios são regionais e nacionais, sem qualquer previsão de serem disputadas competições internacionais. Vale citar como curiosidade que a FDPPF também é a federação nacional peruana para a pelota basca, e, portanto, é membro da FIPV.

Pois bem, lembram-se do esporte jogado na cidade de Galway, na Irlanda, que supostamente teria influenciado a criação da pelota basca? Ele continuou sendo praticado na Irlanda, até que, em 1884, teve suas regras codificadas pela Associação Atlética Gaélica (GAA), uma espécie de centro de tradições esportivas da Irlanda, que lhe deu o nome de handebol gaélico. O handebol gaélico é um dos quatro esportes regulados até hoje pela GAA, e um dos principais motivos que me levaram a escrever esse post, já que eu já havia falado aqui no átomo sobre os outros três (hurling, futebol gaélico e rounders). Diferentemente do que ocorre com os outros três esportes da GAA, entretanto, o handebol gaélico goza de uma certa projeção internacional, sendo praticado hoje em mais de 30 países dos cinco continentes, em muitos dos quais é conhecido por um nome registrado pela GAA, GAA Handball.

O handebol gaélico possui quatro modalidades. A principal delas, mais popular na Irlanda, e disputada em outros 10 países na Europa, Américas e Oceania, se chama 40x20, nome que deriva das dimensões da quadra usada, sendo também conhecida como four-wall, pois a quadra tem quatro muros. Criada em 1969 para ajudar na popularização do esporte, a 40x20 usa uma quadra cujos muros frontais e traseiros possuem 20 pés (6 m) de altura por 20 pés de largura, e os muros laterais possuem 40 pés (12 m) de comprimento por 20 pés de altura. A única marcação na quadra é a área de serviço, um retângulo de 1,52 m de largura demarcado a 4,57 m do muro frontal; o jogador que está sacando deve fazê-lo de dentro da área de serviço, e o que está recebendo deve se posicionar obrigatoriamente atrás dela. A bola é feita de borracha sólida, possui entre 46,8 e 48,4 mm de diâmetro, e pesa entre 58 e 64 gramas. Como a bola é muito veloz e bastante dura, é obrigatório o uso de óculos de proteção e de luvas especiais por todos os jogadores.

A modalidade mais antiga e mais tradicional, hoje disputada apenas na Irlanda, se chama 60x30, novamente por causa das dimensões da quadra, que também tem quatro muros, com o frontal e o traseiro medindo 27 pés (8,22 m) de altura por 30 pés (9 m) de largura, e os laterais tendo 60 pés (18 m) de comprimento por 27 pés de altura. A área de serviço possui o mesmo tamanho e distância do 40x20. O 60x30 original é hoje conhecido como hardball, pois sua bola, feita de um núcleo de cortiça envolto em couro, com entre 45,7 e 49,5 mm de diâmetro e peso entre 42,5 e 49,6 g, é extremamente dura. Não são necessários óculos nem luvas especiais, mas os jogadores usam uma proteção feita com esparadrapos nas mãos para não feri-las com a bola.

No início do século XX, surgiria, usando a mesma quadra, a terceira modalidade, chamada softball, pois usa uma bola mais macia que as demais, feita de borracha e com entre 55,8 e 63,5 mm de diâmetro e pesando entre 61 e 62 g.

A quarta e última modalidade é a que mais cresce no mundo. Conhecida como one-wall ou Wall Ball, ela usa uma quadra que tem apenas um muro, de 20 pés (6 metros) de largura por 16 pés (4,8 metros) de altura, tendo a área de jogo outros 34 pés (10,3 metros) de comprimento. A área de jogo é demarcada com uma linha cheia a 4,8 m do muro, atrás da qual o jogador que vai receber a bola deve se posicionar, e por uma linha segmentada a 2,74 m do final da área de jogo, onde o jogador que está sacando deve ficar para sacar. A bola usada é a mesma do 40x20. Os jogadores devem usar óculos de proteção, mas as luvas não são obrigatórias. O one-wall é hoje jogado em 33 países, o que levou a GAA a fundar a Associação Mundial de Wall Ball (WWBA) para regular o esporte internacionalmente e tentar incluí-lo nas Olimpíadas.

Todas as quatro modalidades do handebol gaélico são disputadas no masculino e no feminino, individual e em duplas, e todas possuem as mesmas regras: um dos jogadores saca, da área de serviço, em direção ao muro frontal. A bola deve quicar no muro frontal, e, ao retornar, quicar no máximo uma vez no chão antes de ser rebatida pelo adversário. Exceto após um saque, a bola pode quicar em qualquer número de muros, e inclusive no teto, antes ou depois de quicar no muro frontal. Se o jogador que não estava sacando cometer um erro, será ponto para o que estava sacando, que continuará sacando; se o que estava sacando cometer um erro, o adversário passará a sacar, mas não ganhará ponto - em outras palavras, só pode pontuar quem estiver sacando. Vence o jogo quem primeiro alcançar 21 pontos, e as partidas são disputadas em melhor de três jogos, com aquele que ganhar dois primeiro sendo o vencedor - com o terceiro jogo, se necessário, terminando em 11 pontos, e não em 21. No jogo de duplas, os jogadores se alternam no saque, mas as rebatidas são livres.

Atualmente, todos os torneios do handebol gaélico são regionais ou nacionais, sendo o mais importante o All-Ireland Championship. Um dos maiores entraves para a realização de torneios internacionais é que o handebol gaélico ainda é um esporte 100% amador, de forma que todos os atletas têm de arcar com os custos de viagem para disputar os torneios. A WWBA, por exemplo, trabalha há alguns anos com a possibilidade de organizar um torneio internacional de one-wall, mas sempre esbarra na questão financeira.

Levado por imigrantes irlandeses, o handebol gaélico daria origem a dois outros esportes. O primeiro é o handebol americano, cujo primeiro registro escrito data do ano de 1873 na cidade de São Francisco, Califórnia. Apesar de também ser 100% amador, o handebol americano é um esporte bastante famoso nos Estados Unidos, tanto que, por lá, é conhecido apenas como handball, sendo o "outro" handebol - aquele bastante praticado aqui no Brasil, jogado por times que tem como objetivo fazer gols - por lá é chamado de team handball. Aliás, se alguém ainda não reparou, esse handebol não é muito popular nos Estados Unidos, sendo um dos poucos esportes nos quais os norte-americanos não se destacam.

O handebol americano possui três modalidades, todas disputadas no masculino e no feminino, de forma individual, em duplas e em um esquema de jogo conhecido como cutthroat, disputado por três jogadores em quadra simultaneamente. Duas das modalidades, a four-wall e a three-wall, usam a mesma quadra e a mesma bola do 40x20, com a three-wall tendo a diferença de não possuir o muro traseiro nem o teto. A terceira modalidade, chamada one-wall, é idêntica ao one-wall gaélico, em quadra, bola e regras. As regras do handebol americano, aliás, são idênticas às do handebol gaélico; se não fosse pela three-wall e pelo cutthroat, seria o mesmo esporte.

O segundo esporte derivado do handebol gaélico é o handebol australiano, criado, adivinhem, na Austrália, com os primeiros registros datando de 1923. O handebol australiano é absolutamente idêntico ao handebol americano, com as únicas diferenças sendo que não existe o cutthroat e que a modalidade mais popular é a three-wall - nos Estados Unidos, a mais popular é a one-wall. Tanto o handebol americano quanto o handebol australiano são praticados exclusivamente em seus países de origem, e possuem apenas campeonatos regionais e nacionais. E parece pouco provável que, algum dia, um deles se torne um esporte disputado internacionalmente, principalmente por suas semelhanças com o handebol gaélico, que já está bem mais espalhado pelo mundo.

Para terminar, temos outro esporte aparentado, o frontón internacional, também conhecido como one-wall internacional. Criado na Espanha na década de 1960, teoricamente para reunir características do handebol americano, do handebol australiano, do handebol gaélico e da pelota basca, o frontón internacional também é idêntico ao one-wall gaélico, exceto pela bola (feita de borracha sólida, com 4,8 cm de diâmetro e 65 gramas de peso) e pelas dimensões: o muro tem 6,1 metros de largura por 4,875 (pois é) metros de altura, e área de jogo tem 10,6 metros de comprimento, com a linha cheia a 4,875 metros do muro e a linha segmentada a 2,735 metros do final da área de jogo. As partidas são disputadas no masculino e no feminino, individual ou em duplas.

O frontón internacional é regulado pela Confederação Internacional de Jeu de Balle (CIJB), que também regula dois outros esportes, o llargues e, evidentemente, o jeu de balle. Mas, como nesses esportes o objetivo não é rebater a bola contra uma parede, não falaremos deles hoje. Mas vale falar que a CIJB, que possui 18 países membros, sendo cinco europeus, um asiático (a Índia) e 12 latino-americanos, organiza, a cada dois anos, desde 1996, um torneio chamado Campeonato Mundial de Handebol. O frontón internacional masculino faz parte desse torneio desde 2002, e o feminino desde 2010.

0 enfiaram o nariz:

Postar um comentário