domingo, 30 de agosto de 2015

Esportes de Demonstração (I)

Entre as Olimpíadas de 1912 e 1992, o programa olímpico contou com os chamados esportes de demonstração. Basicamente, um esporte de demonstração era incluído no programa não pelo COI, mas pela organização da Olimpíada em questão, e, para todos os efeitos, era um esporte olímpico como todos os demais, devendo os atletas que iriam competir em suas provas receber o mesmo tratamento dos demais atletas olímpicos - inclusive ficando hospedados na Vila Olímpica e podendo participar das Cerimônias de Abertura e Encerramento - e as instalações nas quais suas provas fossem ser disputadas atender a todas as exigências do COI para instalações olímpicas. As únicas diferenças entre um esporte de demonstração e um esporte do programa estavam nas medalhas: as medalhas dos esportes de demonstração eram idênticas em aparência às dos demais esportes do programa, mas menores, com apenas 3/4 do tamanho da original, e nenhuma delas contava para o quadro de medalhas.

A iniciativa de incluir esportes de demonstração partiu dos organizadores das Olimpíadas de 1912, em Estocolmo, Suécia. À época, os organizadores tinham mais liberdade para determinar quais esportes seriam ou não incluídos no programa, com o COI apenas podendo recomendar a inclusão ou exclusão de algum, não sendo o comitê organizador obrigado a acatar suas decisões. Aliás, essa seria justamente a última Olimpíada na qual esse modelo seria seguido, com o COI determinando que a escolha de quais esportes estariam ou não no programa seria de sua atribuição exclusiva logo após seu término; curiosamente, essa mudança se daria porque, nas Olimpíadas de 1912, não faria parte do programa o boxe, considerado na época um dos esportes mais nobres, e um dos preferidos dos membros do COI.

Pois bem, tendo liberdade para incluir novos esportes no programa, os organizadores de 1912 decidiriam incluir a glima, uma modalidade de luta praticamente desconhecida fora da Escandinávia. Evidentemente, o COI foi contra. Os organizadores, então, criariam um subterfúgio: nas olimpíadas de 1900, 1904 e 1908, competições de diversos esportes, como balonismo, ciclopolo, hurling, e até corrida de pombos, foram organizadas simultaneamente às Olimpíadas, usando suas mesmas instalações esportivas e com seus atletas ficando hospedados junto aos demais; a única diferença foi que, ao final, suas medalhas não foram sancionadas pelo COI, na maioria das vezes porque todos os atletas participando dessas competições pertenciam ao país anfitrião. A Suécia sugeriria algo parecido, com um torneio de glima ocorrendo simultaneamente às Olimpíadas, com os atletas competindo e convivendo junto aos demais, mas sem que suas medalhas fossem homologadas como olímpicas pelo COI. Com isso o COI concordou, e a Suécia acabou incluindo também o beisebol como "esporte de demonstração" - nome criado pela imprensa somente na década de 1960, mas que acabaria pegando.

Por permitir que os organizadores incluíssem um esporte regional, que provavelmente não teria chances de entrar no programa olímpico de outra forma, os esportes de demonstração acabariam se tornando um sucesso dentre os organizadores - apenas a Itália, em 1960, o Canadá, em 1976, e a União Soviética, em 1980, não incluíram nenhum, sendo que a União Soviética tentou incluir o sambô, uma luta de origem russa, mas acabou desistindo depois de ver que todos os atletas inscritos eram soviéticos. Muitos esportes inicialmente de demonstração, como o beisebol, o badminton e o taekwondo, se mostraram tão populares que o COI foi convencido a incluí-los de forma permanente no programa (embora o beisebol tenha sido novamente retirado em 2012).

O fim dos esportes de demonstração se daria por dois motivos: o exagero dos organizadores e a falta de interesse do público. Nas Olimpíadas de 1988, a Coreia do Sul incluiria nada menos que cinco esportes de demonstração no programa, e, já desde sua implementação em 1912, os esportes de demonstração estavam dentre os de menor público e eram solenemente ignorados pela imprensa, com as redes de TV sequer transmitindo suas provas e os jornais sequer noticiando seus medalhistas. Diante disso, em seu congresso de 1989, o COI determinaria o fim dos esportes de demonstração e a proibição da realização de qualquer torneio esportivo simultâneo às Olimpíadas na mesma cidade de sua realização, para que o foco do comitê organizador estivesse exclusivamente sobre os esportes olímpicos. Como as decisões desse tipo não valem para a Olimpíada imediatamente seguinte, apenas para a posterior, os organizadores dos Jogos de 1992 ainda conseguiram incluir três, mas as Olimpíadas de Barcelona seriam mesmo as últimas a trazê-los. Desde então, muitos países que organizaram Olimpíadas tentaram convencer o COI a permitir sua volta, mas sem sucesso; quem chegou mais perto foi a China, que conseguiu autorização para realizar um torneio de wushu, a arte marcial considerada o esporte nacional chinês, simultaneamente às Olimpíadas de 2008, usando o mesmo ginásio onde ocorreriam as partidas de handebol daqueles Jogos, e com os atletas do wushu ficando hospedados na Vila Olímpica - eles não puderam, porém, participar das Cerimônias, suas medalhas eram diferentes, não havia nenhuma alusão às Olimpíadas no local de competição, e o wushu não foi referenciado como esporte de demonstração em lugar algum.

Enquanto eles eram permitidos, os esportes de demonstração também estiveram presentes nas Olimpíadas de Inverno, embora, por lá, eles não fossem tão populares dentre os organizadores - das 16 edições possíveis, eles não foram incluídos em cinco, e, em outra, o esporte de demonstração foi, na verdade, um esporte paralímpico. Ao todo, enquanto 21 esportes de demonstração diferentes figuraram nas Olimpíadas de Verão, apenas dez estiveram nas Olimpíadas de Inverno. E, enquanto as Olimpíadas de Verão contaram, dentre os esportes de demonstração, com esportes curiosos como lacrosse, kaatsen, futebol australiano e pelota basca, as de Inverno tiveram, em sua maioria, esportes mais tradicionais, como curling, biatlo e esqui estilo livre.

Por essa razão, desses dez esportes de demonstração de inverno, eu já falei aqui sobre sete. Acabei descobrindo isso meio sem querer, quando resolvi contar sobre quantos esportes olímpicos eu ainda não tinha falado. Como os três que estão faltando são curiosos e interessantes, achei que valeria a pena falar sobre eles, nem que fosse só para fechar a conta. O que eu farei, obviamente, no post de hoje.

O primeiro esporte que veremos hoje se chama skijoring, e foi esporte de demonstração nas Olimpíadas de 1928, disputadas em St. Moritz, Suíça. O skijoring é uma competição de velocidade em esquis, mas, nela, o atleta não impulsiona os esquis com seu próprio esforço, sendo puxado por cachorros ou cavalos. O nome original do esporte em norueguês, aliás, era skikjøring, que significa "dirigindo com esquis".

Conforme já citado, existem dois tipos de skijoring, o canino e o equestre. O que fez parte das Olimpíadas de 1928 foi o equestre, no qual o esquiador é puxado por um cavalo. Não se sabe bem ao certo quando essa prática foi inventada, mas registros do exército norueguês do início do século XIX já mencionam soldados sendo puxados por cavalos sobre esquis para "mover as tropas mais rapidamente", embora eu não entenda por que eles simplesmente não cavalgavam. Seja como for, aristocratas do século XIX adoravam novidades, tinham cavalos dando sopa durante o inverno - já que a maioria dos esportes equestres é disputada apenas no verão - e muitos deles, inclusive, eram militares, o que fez com que, antes do final do século XIX, a prática de ser puxado por um cavalo sobre esquis se tornasse um esporte. Rapidamente o esporte se popularizou, se espalhou pela Escandinávia, e, no início do século XX, já era tão popular que acabou incluído no programa dos Jogos Nórdicos, uma espécie de mini-Olimpíada de Inverno disputada apenas por Suécia, Noruega e Finlândia, entre 1901 e 1926.

Foi através dos Jogos Nórdicos que o Barão de Coubertin, criador das Olimpíadas da Era Moderna, conheceu o skijoring, e foi dele a sugestão para que o esporte fosse incluído como esporte de demonstração no programa de 1928. Curiosamente, porém, as regras da competição olímpica foram completamente diferentes daquelas adotadas pelos países nórdicos, o que fez com que eles se recusassem a competir. A Suíça acabou ficando com as três medalhas da competição.

O skijoring tradicional é disputado em duplas: um dos atletas será o cavaleiro e irá montado no cavalo, guiando-o, enquanto o outro será o esquiador e deslizará sobre esquis presos ao cavalo - mais ou menos como uma competição de esqui aquático, mas com neve no lugar da água e um cavalo no lugar do barco. Os esquis usados são os mesmos do esqui alpino, e o esquiador é preso ao cavalo por um cabo de tecido de, no mínimo, 5 metros de comprimento, que pode ser preso à parte de trás da sela do cavalo ou a um equipamento especial parecido com um colete vestido pelo cavalo. Cavaleiro e esquiador também devem, ambos, usar capacetes de proteção.

Uma competição de skijoring tradicional também é bastante parecida com uma competição de esqui aquático. Ela é realizada em um trajeto criado pela organização da prova, que conta com três tipos de obstáculos: os portões, por dentro dos quais o esquiador deve passar; os anéis, que o esquiador deve pegar com uma das mãos e levar consigo até o fim do trajeto; e as rampas, nas quais o esquiador precisa saltar. O cavaleiro, portanto, imprime a maior velocidade possível ao cavalo, enquanto o esquiador vai atrás cumprindo o trajeto. Cada portão, anel e rampa vale um número de pontos, e o esquiador pode fazer certas manobras enquanto estiver saltando nas rampas para ganhar pontos extras. O tempo total que a equipe levou para cumprir o trajeto também é convertido em pontos, sendo que, quanto menos tempo, mais pontos.

Cada pista de skijoring tem distância total de 300 metros, e conta com 12 portões, seis anéis e três rampas, de 60 cm, 1,80 m e 2,75 m de altura respectivamente. Existem dois tipos de pista, a reta, que tem os 300 metros em linha reta, e a ferradura, que tem formato de U, com a linha de largada em uma das pontas, a de chegada na outra e uma curva no meio. A pista reta permite que o cavalo - e, portanto, o esquiador - consiga maior velocidade, enquanto a ferradura exige mais técnica, por causa da curva. Existem também duas modalidades, o slalom, no qual somente o esquiador passa pelos portões, e o slalom gigante, no qual o cavalo também tem de passar pelos portões. Seja qual for o tipo de pista e a modalidade, as equipes passarão por ela uma de cada vez, e a equipe vencedora será aquela que tiver mais pontos ao final da competição.

O skijoring disputado em 1928 não existia até então, mas acabou se tornando também uma modalidade, hoje conhecida como skijoring de velocidade. Nessa modalidade, cada esquiador compete sozinho, e controla o cavalo através de rédeas bem compridas. A pista também tem 300 metros, mas é em formato elíptico (como uma pista de atletismo, por exemplo), e feita de gelo, não neve. Os competidores disputam a prova quatro de cada vez - ou seja, se houver mais de quatro competidores, são realizadas eliminatórias - e o vencedor será aquele que cruzar a linha de chegada primeiro na prova final. São disputadas provas de 300 metros, 600 metros e 1500 metros. O skijoring de velocidade é disputado apenas em alguns países da Europa central, como França, Bélgica e Suíça, enquanto o tradicional é disputado no restante da Europa e nos Estados Unidos - onde os cavaleiros têm o costume de se vestir como caubóis, e as pistas costumam ser decoradas para lembrar cidades do Velho Oeste.

O skijoring equestre não possui, ainda, uma federação internacional. Os três órgãos mais importantes do esporte são a Associação Norte-Americana de Ski Joring (assim mesmo, separado, sigla em inglês NASJA), a Federação Francesa de Equitação (FFE), e a White Turf, organização privada sediada na Suíça que é o que chega mais perto de uma federação internacional. A White Turf organiza anualmente, desde 1907, em St. Moritz, um festival que conta com corridas de cavalo na neve e provas de skijoring tradicional. A FFE é a principal divulgadora do skijoring de velocidade, realizando, anualmente, vários torneios com a participação de atletas de toda a Europa. Já a NASJA, além de realizar vários torneios de skijoring tradicional nos Estados Unidos e Canadá, realiza, uma vez por ano desde 2009, na cidade de Whitefish, Montana, Estados Unidos, o Campeonato Mundial de Ski Joring, que conta com a participação de equipes norte-americanas e europeias. Além do slalom, do slalom gigante, e da curiosa Black Star Mule Class (prova de slalom na qual as equipes usam mulas ao invés de cavalos), o Mundial ainda conta com uma prova de salto à distância, na qual uma pista reta tem apenas uma rampa, de 3 metros de altura, após a distância de 200 metros. O cavaleiro deve obter a maior velocidade possível, e, após saltar, o esquiador larga o cabo. Ganha o esquiador que atingir a maior distância após o salto, pousando de pé, sem cair. O atual recorde mundial é de 172,82 metros.

Vamos falar também um pouco sobre o skijoring canino, no qual cada esquiador é puxado por de um a três cachorros. O skijoring canino foi uma evolução esportiva daqueles trenós puxados por cachorros, muito comuns para locomoção em regiões de frio intenso. Assim como o skijoring equestre, o canino surgiu no século XIX na Escandinávia, mas os registros da época e local exatos se perderam.

O esquiador do skijoring canino usa os mesmos esquis do cross-country, e deve, também, carregar os bastões, podendo, inclusive, usá-los durante a prova para ajudar os cachorros. Por conta disso, ele é preso aos cachorros por um cabo de, no mínimo, 1,5 metro de comprimento, preso a seu corpo por um cinturão especial, feito de couro e fechado com grampos, que conta com engates semelhantes aos usados no montanhismo para prender o cabo. Nos cachorros, o cabo é preso usando um colete idêntico ao dos cães que puxam trenós. O número de cachorros usado depende da distância da prova, com as mais curtas usando apenas um cão, as de média distância usando dois, e as mais longas usando três. Os cachorros podem ser de qualquer raça, sendo os preferidos os huskies, malamutes e samoyedes. Não há qualquer tipo de rédea para auxiliar o esquiador a controlar os cachorros, devendo todo o controle ser feito puramente através de comandos vocais.

Corridas de skijoring canino são disputadas em grandes distâncias, em espaços amplos o bastante para que todos os competidores corram simultaneamente, sendo vencedor o que chegar primeiro. A maior parte das provas tem entre 5 Km e 20 Km de distância, mas existem duas corridas famosas, disputadas anualmente, bem mais longas que isso: a River Runner 120, disputada em Whitehorse, Canadá, em um percurso de 120 milhas (um pouquinho mais de 193 km); e a KALEVALA, disputada em Kalevala, Rússia, em um percurso de nada menos que 440 Km. O skijoring canino é regulado pela Federação Internacional de Esportes de Trenó Canino (IFSS, na sigla em inglês), e seu principal campeonato é o Mundial, disputado a cada dois anos desde 2005. O Mundial conta com provas masculinas e femininas, em distâncias de 5 Km, 10 Km e 25 Km, com as de 5 e 10 Km sendo disputadas com apenas um cão, e as de 25 Km com dois.

A IFSS também é responsável por regular o segundo esporte que veremos hoje, a corrida de trenó canino, que foi esporte de demonstração nas Olimpíadas de Inverno de 1932, em Lake Placid, Estados Unidos. Assim como o skijoring canino, a corrida de trenó canino surgiu quando as pessoas resolveram usar os trenós puxados por cães, originalmente usados apenas como meio de transporte, para competir. Também como ocorreu com o skijoring canino, os registros sobre o local e a época exatos em que isso aconteceu se perderam.

A IFSS divide suas provas entre as categorias sprint, média distância e longa distância. Dentro de cada uma dessas categorias, existem provas masculinas e femininas de diferentes distâncias, cada uma dependendo do número de cães puxando cada trenó. Na categoria sprint, as provas são de de 5 Km (2 cães), 6 Km (4 cães), 9 Km (6 cães), 14 km (8 ou 10 cães) e 20 Km (aberta, categoria na qual o número mínimo de cães é 10 e o máximo é, teoricamente, ilimitado, embora ninguém nunca use mais de 22, devido ao fato de ser muito difícil controlar um trenó com mais cães que isso). Para a média distância, os trenós podem ter 6 ou 12 cães, e as provas podem ter qualquer distância entre 80 e 250 km, sendo que, para o trenó de 6 cães, as provas devem ser disputadas em etapas de, no máximo, 40 Km cada, com descanso entre uma etapa e outra. Finalmente, a longa distância se divide em limitada (máximo de 8 cães) e ilimitada (mínimo de 8 cães, sem máximo, mas mais uma vez com o máximo, na prática, sendo 22). As provas podem ter qualquer distância acima de 250 Km, mas, na subcategoria limitada, deve ser dividida em etapas de, no máximo, 80 Km cada, com descanso entre uma etapa e outra.

Além da divisão por distância e número de cães, existe uma divisão por tipo de largada: na perseguição, cada trenó larga separadamente, com um minuto de diferença entre a largada de um trenó e a do seguinte (três minutos na categoria aberta), sendo campeão aquele que completar o percurso no menor tempo. Já na largada em massa, todos os trenós largam juntos, e o vencedor é o que cruzar a linha de chegada primeiro. Existem também provas de revezamento, em diversas distâncias, nas quais cada trenó percorre, no mínimo, 5 Km, com o trenó seguinte da mesma equipe partindo apenas quando o anterior cruza totalmente uma linha que serve tanto como de chegada para o anterior quanto de largada para o seguinte.

Fundada em 1992 pela união das federações nacionais de França, Bélgica e Suécia, com o intuito de incluir a corrida de trenó canino no programa oficial das Olimpíadas de Inverno, a IFSS conta hoje com 32 membros (Brasil não incluído). Vale citar que, além do skijoring canino e da corrida de trenó canino, a IFSS regula quatro esportes disputados no verão, fora da neve: o canicross, espécie de corrida cross country na qual o corredor é acompanhado por um ou dois cachorros; o bikejoring, esporte semelhante ao skijoring canino, mas no qual o atleta compete em uma bicicleta ao invés de em esquis; o dog scooter, também semelhante ao skijoring canino, mas no qual o atleta compete sobre uma patinete; e o dog rig, que segue as mesmas regras do trenó canino, mas usa um trenó com rodas, parecido com uma biga. A IFSS também regula, embora não organize campeonatos desde a década de 1990, o pulka, esporte tradicional sueco que parece uma mistura do skijoring canino com a corrida de trenó canino, já que, ao invés dos esquis, usa um pequeno trenó característico.

A principal competição da corrida de trenó canino organizada pela IFSS é o Campeonato Mundial, disputado anualmente de 1990 a 1995, e, desde então, a cada dois anos. Outra prova muito famosa e de muito prestígio é uma megamaratona de nome engraçado, a Iditarod. Disputada anualmente desde 1973, em um percurso de mais de 1.600 Km entre as cidades de Anchorage e Nome (sim, o nome da cidade é Nome), no Alasca, Estados Unidos ("iditarod", aliás, significa "local muito distante" na linguagem dos antigos habitantes da região), a corrida passa por cenários deslumbrantes, como montanhas, rios congelados, e até mesmo por dentro de florestas. Devido às irregularidades do terreno, todos os cachorros competindo devem usar botas especiais para não ferir suas patas. A Iditarod é disputada em várias etapas ao longo de nove dias, e cada trenó começa com 16 cães, podendo remover alguns deles entre uma etapa e outra, mas não adicionar novos, e devendo cruzar a linha de chegada com no mínimo seis. A Iditarod não é organizada pela IFSS, e sim por uma organização particular também chamada Iditarod. Outras megamaratonas de trenó canino incluem a Finnmarksløpet, de 1.000 Km, disputada na Noruega; a Le Grande Odyssée, de 900 Km, disputada nos alpes, entre a França e a Suíça; a Race to the Sky, de 560 Km, no estado de Montana, Estados Unidos; e a Yukon Quest, de 1.000 milhas, que começa na cidade de Fairbanks, Alasca, e termina em Whitehorse, Canadá.

Para terminar, caso alguém esteja se perguntando, a prova disputada nas Olimpíadas de Inverno de 1932 teve trenós de seis cães, e foi disputada em um percurso de 40,5 Km. Cada um dos doze competidores (sete dos Estados Unidos e cinco do Canadá) percorreu a distância duas vezes, uma no primeiro dia e uma no segundo, e os tempos foram somados para se determinar o vencedor. O ouro e o bronze ficaram com o Canadá, e a prata com os Estados Unidos.

Antes de terminar de vez, vamos falar do terceiro e último esporte de hoje, o eisstockschiessen, também conhecido como ice stock sport, ou, se vocês preferem um nome menos complicado, curling da Bavária. Eisstockschiessen, em alemão, significa "arremessar uma pedra no gelo", e é exatamente esse o objetivo desse esporte.

O eisstockschiessen é um esporte muito antigo, tão antigo que ninguém sabe mais sua origem. Estima-se que ele tenha surgido na Escandinávia no século XIII, mas há uma carta, na biblioteca do Vaticano, enviada pelo Rei Ricardo Coração de Leão ao Papa Celestino III, na qual ele diz que estava jogando eisstockschiessen com o Duque Leopoldo V da Áustria no Rio Donau no ano de 1192 - oito anos antes do início do século XIII, portanto. Seja como for, o esporte teve um pico de popularidade na Holanda em meados do século XVI, e chegou até mesmo a ser retratado em pinturas de Pieter Brugel, o Velho, nas quais várias pessoas o praticam em rios e lagos congelados. Hoje, entretanto, ele praticamente já não é jogado na Escandinávia ou na Holanda, e permanece popular apenas na Alemanha, na Áustria e na região do norte da Itália chamada Trentino-Alto Ádige.

O eisstockschiessen é jogado sobre uma superfície de gelo, que deve ter, no mínimo, 40 metros de comprimento. Pode ser utilizada tanto uma superfície de gelo natural em local aberto, como um rio ou lago congelado, quanto artificial em local fechado, como um rinque de patinação ou hóquei. Na área de jogo, são marcados dois retângulos consecutivos, um distante 14 m do outro, cada um com 6 m de comprimento por 3 m de largura, e uma cruz marcada bem no exato centro de cada um. Assim como o curling, o eisstockschiessen usa pedras, que serão arremessadas pelos jogadores. Essas pedras são bastante diferentes das do curling, porém, se parecendo um pouco com um desentupidor de pia - além disso, o eisstockschiessen não usa vassouras, o que faz com que as semelhanças com o curling, na verdade, sejam bem poucas.

Uma pedra de eisstockschiessen possui três partes distintas: o cabo, o corpo e a sola. O cabo é feito de metal revestido de madeira, e tem entre 23 e 34 cm de comprimento, sendo pintado de forma que cada jogador ou cada equipe use um cabo de cor diferente. O corpo é feito de granito, tem 8,5 cm de altura e 27 cm de diâmetro. O peso do corpo depende da competição, e deve ser claramente indicado por uma letra presente no corpo: E (juvenil, 2,73 Kg), P (feminino amador, 3,50 Kg), L (masculino amador e feminino profissional, 3,70 Kg) ou M (masculino profissional, 3,85 Kg). Em todos os casos, é permitido uma variação de até 30 g a mais, mas não a menos. Já a sola é uma fina camada de borracha sob o corpo; existem sete tipos diferentes de solas, cada uma com uma consistência e de uma cor, e a escolha da sola é feita pelo jogador antes de cada partida, dependendo das condições do gelo - pois cada sola faz com que a pedra deslize de forma diferente. As cores das solas, da mais macia para a mais dura, são azul, amarela, laranja, cinza, preta, verde e branca.

Existem três tipos de provas de eistockschiessen: a prova por equipes, a de precisão e a de distância. Na prova por equipes, é usado, além das pedras, um disco de metal com sola de borracha, de 12 cm de diâmetro, vazado no centro, chamado daube. No início da prova, o daube é colocado pelo árbitro sobre a cruz central do retângulo mais distante do ponto do qual os jogadores arremessarão as pedras. Cada equipe é formada por quatro jogadores; cada um jogará com sua própria pedra, e, alternadamente (primeiro um da equipe A, então um da equipe B, então um da equipe A, e assim sucessivamente), as arremessarão para que fiquem o mais próximas possível do daube. É permitido tanto acertar as pedras do adversário para colocá-las mais distantes do daube quanto acertar o próprio daube para mudá-lo de lugar. Se o daube for atingido e continuar dentro do retângulo, vale sua nova posição para determinar qual pedra está mais próxima. Se ele sair do retângulo, é colocado novamente sobre a cruz. Pedras que saiam do retângulo, seja por excesso de velocidade no arremesso ou por terem sido acertadas por outras pedras, saem do jogo.

Para arremessar uma pedra, o jogador se posiciona com pelo menos um dos pés sobre a linha de arremesso (a "linha de fundo" do retângulo onde não está o daube), segura a pedra pelo cabo e faz um movimento pendular com o braço, movimentando-a para frente e para trás para ganhar força e velocidade, e soltando-a de forma que a sola toque o gelo e faça com que a pedra deslize até o local desejado. Enquanto um jogador está arremessando, outro da mesma equipe pode se posicionar dentro do retângulo onde está o daube, para "guiar" o arremesso, mostrando onde a pedra deve parar - ele não pode, entretanto e evidentemente, tocar em nenhuma pedra nem no daube enquanto faz isso.

Depois que todos os oito jogadores tiverem arremessado suas pedras, a equipe que tiver a pedra mais próxima do daube ganha quatro pontos, e, para cada pedra que a mesma equipe tiver entre essa e a primeira pedra do adversário, ganhará mais dois - ou seja, se a pedra mais próxima do daube é da equipe A, a segunda mais próxima também, e só a terceira mais próxima é da equipe B, a equipe A ganha 6 pontos; já se a pedra mais próxima for da equipe A, e a segunda mais próxima for da equipe B, a equipe A só ganha 4 pontos. Uma partida da prova por equipes dura 6 turnos, sendo que a cada turno começa jogando a equipe que não começou o turno anterior. Ao final do sexto turno, a equipe com mais pontos será a vencedora; caso haja empate, são disputados turnos extras até que haja um vencedor.

Já a prova de precisão pode ser realizada por equipes de quatro jogadores ou de forma individual. A prova de precisão usa apenas um dos retângulos, e é composta de quatro rodadas, sendo que, em cada uma, o jogador terá que colocar seis pedras em locais previamente determinados do retângulo. Dependendo da distância que a pedra parar de cada um desses locais - marcados na área de jogo com círculos - o jogador ganha 0, 2, 4, 5, 6, 8 ou 10 pontos. Cada uma das quatro rodadas possui alvos diferentes; na competição individual, o mesmo jogador arremessa as pedras nas quatro rodadas, enquanto na competição por equipes cada um dos quatro jogadores arremessa em uma das rodadas. Na competição individual cada jogador também faz cada rodada duas vezes, normalmente quatro em um dia e mais quatro no seguinte. Ao final da competição, o vencedor será o jogador ou equipe que tiver obtido mais pontos, sendo usado como critério de desempate as rodadas de trás para a frente - se houver empate no total, ganha quem fez mais pontos na quarta rodada, persistindo, quem fez mais na terceira, e assim por diante.

Finalmente, a prova de distância é a mais simples: cada jogador tem direito a cinco arremessos, e aquele que fizer a pedra chegar mais longe ganha. Para garantir que todos estejam em igualdade de condições, na prova de distância todos os jogadores devem usar o mesmo tipo de sola. Para fazer a pedra ganhar mais velocidade, o jogador tem direito a uma corrida de até sete metros antes do arremesso. A prova de distância, aliás, é a única que não pode ser disputada em ambientes fechados, já que os jogadores conseguem atingir bem mais que os 40 metros da pista oficial com seus arremessos - o recorde mundial, obtido no Lago Seeon, na Alemanha, é de impressionantes 566 metros. A prova de distância também pode ser disputada por equipes, com os melhores arremessos de cada jogador sendo somados para se determinar o total de cada equipe e a equipe vencedora. Empates são raros, mas, caso ocorram, o desempate é feito pelo segundo melhor arremesso, então pelo terceiro, e assim por diante.

Curiosamente, o eisstockschiessen possui uma variação "de verão", que não é jogada no gelo, e sim em um piso de concreto - e, por causa disso, é chamada, apenas, de stockschiessen. Todas as regras são as mesmas, sendo a única diferença a de que, para que as pedras deslizem, a sola não é feita de borracha, e sim de plástico. As pedras de stockschiessen, aliás, possuem um oitavo tipo de sola, o mais duro de todos, de cor vermelha.

O eisstockschiessen é regulado pela Federação Internacional de Ice Stock Sport (IFI, da sigla em inglês), fundada em 1983 com o nome de Federação Internacional de Eisstockschiessen (IFE), mas que decidiu adotar o nome do esporte em inglês como oficial a partir de 2013, para tentar ajudar em sua divulgação e popularização. Um dos objetivos da IFI é incluir o eisstockschiessen nas Olimpíadas de Inverno permanentemente, algo que vem tentando desde sua fundação, sem sucesso. Atualmente, a IFI conta com 44 membros dos cinco continentes, inclusive o Brasil, representado pela Federação Brasileira de Stock-Sliding.

O campeonato mais importante do eisstockschiessen é o Mundial, disputado desde 1983 em intervalos irregulares (atualmente a cada dois anos, o último tendo sido realizado em 2014). O eisstockschiessen foi esporte de demonstração em duas edições das Olimpíadas de Inverno: em 1936, em Garmisch-Partenkirchen, Alemanha, e em 1964, em Innsbruck, Áustria. Em ambas as edições foram disputadas apenas provas masculinas, da prova por equipes, precisão individual e distância individual; em 1964 foi disputada também uma prova de distância em duplas.

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