segunda-feira, 2 de fevereiro de 2015

Flash

Recentemente, eu conversava com amigos sobre o esforço danado que a DC está fazendo para tentar alcançar a Marvel nos cinemas - vocês podem até dizer que eu sou suspeito para falar, já que gosto mais de Marvel que de DC, mas não podem negar que os filmes da Marvel vêm rendendo boas bilheterias, enquanto tudo o que se fala sobre os próximos filmes da DC é meio nebuloso e esquisito, como se eles estivessem metendo os pés pelas mãos na pressa de construir um universo cinematográfico. O mais curioso disso tudo - e que até surgiu na conversa - é que a DC já está mais do que bem estabelecida e encaminhada tanto nas animações quanto nas séries de TV. Ou seja, se, ao invés de ficar fazendo invencionices ela transpusesse para o cinema o que já faz em DVDs e na TV, talvez fosse melhor sucedida do que se ficasse inventando.

Como falamos de séries de TV, no meio da conversa, obviamente, surgiram as mais novas produções da DC: Arrow, Gotham e The Flash. Eu não gosto de Arrow, tenho algumas restrições quanto a Gotham, mas confesso que The Flash eu acho bem legal. Tão legal que, depois da conversa, fiquei com vontade de escrever um post sobre o Flash. Que é esse aqui que vocês estão lendo agora.

O Flash foi criado pelo roteirista Gardner Fox e pelo desenhista Harry Lampert, e fez sua estreia na revista Flash Comics número 1, de janeiro de 1940, publicada pela All-American Publications, uma das três editoras que, em 1946, se uniriam para criar a DC Comics. Assim como o Lanterna Verde, porém, esse não era o Flash que a maioria das pessoas conhece, do desenho dos Superamigos, da Liga da Justiça ou das séries de TV. O Flash original se chamava Jay Garrick (traduzido no Brasil para Joel Ciclone), e era um estudante universitário que, após adormecer no laboratório onde trabalhava e inalar vapores de água-pesada, adquiriu velocidade e reflexos sobre-humanos. Ao invés de usar seu dom para ganhar a medalha de ouro nas Olimpíadas (embora seja verdade que ele tentou usá-lo no futebol americano universitário), ele decidiu vestir uma camisa vermelha com um raio amarelo, pegou o capacete que seu pai usou na Primeira Guerra Mundial e colou umas asinhas do lado, e passou a combater o crime usando o pseudônimo de Flash (palavra inglesa usada para nomear um clarão muito, muito rápido, justamente como o flash de uma máquina fotográfica). Curiosamente, nas primeiras histórias ele não tinha identidade secreta, com todo mundo sabendo que Joel Ciclone e o Flash eram a mesma pessoa; mais tarde, porém, inventaram que ele era capaz de "vibrar rapidamente" para que as pessoas não o reconhecessem nem fosse possível fotografá-lo.

O Flash logo se tornou um herói de sucesso, e, além de aparecer na Flash Comics - que, apesar do nome, não trazia histórias só dele - ganhou uma revista só sua, inicialmente quadrimestral e depois bimestral, chamada All Flash; aparecia regularmente na Comic Cavalcade; e se tornou membro fundador da Sociedade da Justiça, vivendo aventuras com ela na All Star Comics. Curiosamente, o melhor amigo do Flash original era o Lanterna Verde original, Alan Scott.

Após a Segunda Guerra Mundial, um declínio na popularidade dos super-heróis fez com que as editoras cancelassem muitos de seus títulos, e o Flash acabou sendo uma das vítimas: a All Flash seria cancelada em 1948, após 32 edições, e a Flash Comics no ano seguinte, após 104 edições. Quando a All Star Comics passou a publicar histórias de faroeste, mudando de nome para All Star Western, em abril de 1951, em sua edição 58, o Flash original seria cancelado. A carreira do herói, porém, não acabaria ali.

Depois do declínio dos super-heróis, as histórias em quadrinhos mais populares seriam as de horror e os romances policiais. Logo, entretanto, começariam a surgir teorias que ligavam a popularidade desse tipo de quadrinhos aos crescentes índices da chamada "delinquência juvenil", que culminariam com a criação do Comics Code Authority, um conjunto de regras que as editoras tinham de seguir se quisessem ganhar um selo de aprovação na capa de suas revistas - revistas sem o selo até podiam ser vendidas, mas praticamente ninguém as comprava. Como nenhuma história de horror ou policial ganhava o selo, e até as de faroeste tinham dificuldades para cumprir as regras, as editoras passaram a apostar novamente nos super-heróis, que tinham histórias mais inocentes e fantasiosas.

Assim, a DC voltaria não só a apostar em sua trinca garantida de heróis - Super-Homem, Batman e Mulher Maravilha - mas também pediria que seus roteiristas criassem novas histórias para personagens antigos que haviam sido cancelados - como o Flash. Os roteiristas Robert Kanigher e John Broome, porém, ao invés de simplesmente voltar a escrever histórias do Flash, decidiram criar um novo Flash, com uma nova identidade, uma nova origem e uma nova galeria de coadjuvantes, para que tivessem mais liberdade na hora de criar as histórias. Assim, com a ajuda do desenhista Carmine Infantino, surgiria Barry Allen, o Flash mais famoso.

Estreando na revista Showcase número 4, de outubro de 1956 - considerada pelos historiadores como o início da Era de Prata dos super-heróis, que duraria até 1970 - Barry Allen (cujo nome era uma mistura dos nomes de dois apresentadores de TV famosos da época, Barry Gray e Steve Allen) era um cientista da polícia da cidade de Central City, que, ironicamente e para desespero de sua noiva, Iris West, estava sempre atrasado, e tinha fama de ter um raciocínio lento. Um dia, enquanto ele trabalhava em seu laboratório, um raio atingiu uma estante cheia de compostos químicos, que respingaram sobre ele. Allen, então, adquiriu velocidade e reflexos sobre-humanos. Inspirado por uma história em quadrinhos da qual gostava muito quando criança, ele decidiria vestir um uniforme vermelho com um raio amarelo, adotar o nome Flash e usar seus poderes para combater o crime em Central City com as próprias mãos.

No início, o novo Flash não seria um personagem muito popular, tanto que continuaria aparecendo de forma espaçada apenas na Showcase, mas, conforme os anos passavam, sua popularidade aumentava, ao ponto de John Broome e Gil Kane decidirem, em 1959, criar também um novo Lanterna Verde, ao invés de "ressucitar" o antigo. Com a popularidade dos novos heróis em alta, a DC lançaria, também em 1959, a revista The Flash, cujo primeiro número, lançado em março, seria não o 1, mas o 105, como se ela fosse uma continuação da Flash Comics.

Falando nisso, o Flash não seria o responsável apenas por inaugurar a Era de Prata e começar a moda de novas identidades para velhos heróis, mas também acabaria sendo indiretamente responsável pela criação do Multiverso DC: originalmente, nos novos quadrinhos do Flash, Joel Ciclone não era o "antigo Flash", e sim um personagem fictício, que só existia em histórias em quadrinhos. Na revista The Flash 123, de setembro de 1961, entretanto, Allen descobre que existe uma dimensão paralela, conhecida como Terra 2, na qual Joel não somente existe como ainda é o Flash - em uma boa sacada, o roteirista Gardner Fox, criador de Joel e responsável por essa edição, decidiria não "atualizar" o Flash original, fazendo dele um veterano da Segunda Guerra Mundial, como se ele realmente tivesse ganhado os poderes em 1940, e sendo mais velho que Allen, portanto. O encontro de Joel e Allen seria o primeiro de um herói da Era de Ouro com um da Era de Prata, e serviria de inspiração para que vários roteiristas criassem histórias semelhantes, como aquelas nas quais a Liga da Justiça lutava ao lado da Sociedade da Justiça, ou simplesmente ambientassem suas histórias na Terra 2, na qual heróis como Super-Homem e Batman haviam surgido antes da Segunda Guerra e já estavam mais velhos, ao invés de na "Terra 1", onde suas origens haviam sido recontadas na década de 1950 e eles estavam mais jovens.

O novo Flash também seria membro fundador da Liga da Justiça, e, assim como o original, se tornaria amigo do Lanterna Verde. Ao longo do tempo, suas habilidades se expandiriam, e, além de se mover rapidamente, ele passou a poder vibrar seu corpo para atravessar objetos sólidos, e até mesmo a correr tão rápido que se tornava capaz de viajar no tempo. Essa característica seria usada em várias de suas histórias, e seria preponderante para o surgimento de seu arqui-inimigo: Professor Zoom, o Flash Reverso, cientista do século XXV que usa tecnologia para emular os poderes do Flash e retorna para o século XX para confrontá-lo. O Flash Reverso estrearia na revista The Flash 139, de setembro de 1963. Talvez pelo nome "Flash Reverso", seu uniforme tinha as mesmas cores do Flash, mas invertidas, com o amarelo predominante e os detalhes em vermelho.

Outro personagem com poderes semelhantes aos do Flash era o Kid Flash, que estreou na revista The Flash 110, de janeiro de 1960. Originalmente, Kid Flash era Wally West, adolescente sobrinho de Iris, que, ao visitar o laboratório de Allen, sofreria o exato mesmo acidente - um raio atingiria uma estante com produtos químicos, que então seriam derramados sobre West - ganhando os mesmos poderes. West, então, vestiria um uniforme idêntico ao de Allen, e se tornaria seu parceiro mirim na luta contra o crime. Na edição 135, de março de 1963, o uniforme do Kid Flash seria alterado para um predominantemente amarelo, para que ele e o Flash não fossem mais confundidos. Kid Flash seria membro fundador da equipe de super-heróis adolescentes conhecida como Jovens Titãs, mas teria um papel muito maior no futuro.

Graças principalmente ao Multiverso, as histórias da DC, na década de 1980, estavam uma grande bagunça em termos de continuidade. Como era um personagem propenso à experimentação, o Flash se encontrava em sua própria bagunça particular - por exemplo, Iris havia sido assassinada por Zoom, que por sua vez havia sido morto pelo Flash, que foi a julgamento pelo crime, onde descobriu que a mente de Iris havia sido enviada para o século XXX, e decidiu usar seus poderes para viajar ao futuro e resgatá-la. Diante disso, a DC criaria a saga Crise nas Infinitas Terras para arrumar a casa, criando um recomeço para diversos personagens. Dentre eles, o Flash.

A revista The Flash seria cancelada no número 350, em outubro de 1985. Na edição 8 de Crise nas Infinitas Terras, de novembro de 1985, Allen se sacrificaria para impedir que o vilão Anti-Monitor destruísse a Terra com um raio de anti-matéria. Com Allen morto, West assumiria seu uniforme, se tornando o terceiro Flash.

Para tentar evitar que acontecesse com West a mesma bagunça que ocorreu com Allen, a DC estabeleceu que ele era um Flash menos poderoso, sem a capacidade de correr mais rápido que a velocidade da luz ou de viajar no tempo, por exemplo. Além disso, seu metabolismo era acelerado, o que fazia com que ele estivesse sempre com fome ou comendo. Para completar, visando permitir mais oportunidades narrativas, o roteirista Mike Baron faria de West uma espécie de playboy - como não era milionário originalmente, a solução foi fazê-lo ganhar na loteria, o que acabou servindo a um duplo propósito, pois, quando o dinheiro do prêmio acabou, ele se viu em dificuldades para manter seu estilo de vida.

West faria sua estreia como Flash na revista The Flash número 1, de junho de 1987 - a rigor, a numeração foi reiniciada do 1, embora essa tenha sido a primeira revista com o nome "The Flash" ao trazer o número 1 na capa. Na década de 1990, West ganharia um novo uniforme, e, após um encontro com Zoom, descobriu ser capaz de se mover até mais rápido que Allen, o que fez com que o Flash voltasse a ter grande parte de seus poderes clássicos - mas não a habilidade de atravessar objetos sólidos nem a de viajar no tempo. Em 1994, para tentar explicar como simplesmente se mover rápido dava acesso a todos esses poderes, e como era possível alguém se mover mais rápido que a velocidade da luz, o roteirista Mark Waid criaria um dos conceitos mais esotéricos do Universo DC, a Força da Velocidade. Basicamente, todos os personagens com a habilidade de se mover a velocidades sobre-humanas, como Joel, Allen, West e Zoom, têm, na verdade, a habilidade de acessar a Força da Velocidade, uma energia extra-dimensional que lhes confere esses poderes.

West seria o Flash até o final da saga Crise Infinita, em 2006. Nela, West não morre, mas se muda com sua recém-formada família para outra dimensão. A revista The Flash seria novamente cancelada no número 230, de março de 2006, e, então, substituída por The Flash: The Fastest Man Alive, cujo número 1 seria lançado em agosto de 2006.

O Flash dessa nova publicação seria Bart Allen, neto de Barry Allen vindo do futuro, que fez sua estreia na revista The Flash 92, de julho de 1994, com o nome de Impulso, servindo de parceiro mirim para West durante várias edições. Se tornando adulto repentinamente, e com West ausente, Bart decidiria assumir o manto do Flash. O personagem não agradou, porém, e acabou sendo morto por três arqui-inimigos do Flash (Capitão Frio, Onda Térmica e Mago do Tempo) na edição 13, de agosto de 2007. West decidiria retornar para a nossa dimensão para punir esses vilões pelo assassinato; assim, a revista The Flash retornaria, em outubro de 2007, na edição 231. A revista seria cancelada novamente na edição 247, em fevereiro de 2009.

Na época, estava ocorrendo a saga Crise Final, e a DC decidiria que seria melhor trazer Barry Allen de volta, mantendo West apenas como coadjuvante. A rigor, Allen retornaria em Crise Final 2, de agosto de 2008, mas seu verdadeiro retorno se daria na minissérie em seis edições The Flash: Rebirth, lançada entre abril de 2009 e fevereiro de 2010, com roteiros de Geoff Johns e arte de Ethan Van Sciver. Após o retorno de Allen, West não voltaria a vestir o uniforme do Flash, embora continuasse sendo seu amigo e conselheiro.

Depois da minissérie, a revista The Flash seria novamente relançada, com numeração recomeçando do 1, em junho de 2010. Essa nova revista teria vida curta, porém, só durando até o número 12, de julho de 2011. Depois dela, viriam as sagas Ponto de Ignição, e, então, Os Novos 52, na qual o Universo DC seria novamente reimaginado. Com isso, a revista The Flash ganharia um novo número 1, lançado em novembro de 2011.

No mundo dos Novos 52, Barry Allen é o único Flash, não havendo menções a Wally West - embora Joel Ciclone exista e seja o Flash na realidade alternativa da Terra 2, mas agora jovem e com uniforme bem diferente. Eu não sou muito fã desses Novos 52, mas, até aí, eu não sou muito fã de DC. Pelo menos o Flash continua sendo um personagem interessante - e protagonista de uma série de TV bem legal.

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