segunda-feira, 15 de dezembro de 2014

Tori Amos (II)

Tudo o que a gente faz na vida vai se aprimorando com o tempo. Por exemplo, quando eu leio os primeiros posts do átomo, até acho eles legais, mas fico com a sensação de que os mais recentes são melhores, tanto no sentido de serem melhor escritos quanto no de serem mais completos. Isso se deve não somente ao fato de que é mais fácil encontrar informações sobre os assuntos sobre os quais escrevo do que há dez anos, mas também ao fato de que, com a constância, minha escrita foi se aprimorando, e meu estilo se aperfeiçoando. Isso é normal, e acontece com tudo o que fazemos com uma certa frequência.

A perversidade nesse exemplo específico do átomo está em que, evidentemente, eu escrevi primeiro sobre as coisas das quais gosto mais. E aí, toda vez que leio os posts antigos, fico não só com a sensação de que eles poderiam ser melhores, mas achando que é meio injusto que o post da Shakira seja melhor do que o da Tori Amos, que o do Motoqueiro Fantasma seja melhor que o do Homem-Aranha, que o de Fatal Fury seja melhor que o de Mortal Kombat. Muitas vezes, por causa disso, eu pensei em reescrever esses primeiros posts, mas aí vem um estranho fator psicológico que me faz não ter vontade de escrever de novo sobre um assunto sobre o qual já escrevi.

Hoje, porém, no dia em que o átomo completa 600 posts, marca impressionante para um blog que só tem um post por semana, eu decidi tentar. Abaixo, vocês lerão um segundo post, melhor e mais completo, sobre Tori Amos. O motivo pelo qual eu decidi escrevê-lo foi que, ao definir que um post de número 600 deveria ter um assunto importante, cheguei à conclusão de que o assunto mais importante no qual eu conseguiria pensar era Tori Amos. O post sobre Tori Amos foi o primeiríssimo que eu escrevi quando decidi transformar o átomo em um "blog para falar das coisas que eu gosto", então, sejamos francos, ele é bem fraquinho. Merece mesmo um update.

Aquele post, entretanto, não será descartado. Continuará lá para quem quiser ler - e é por isso, aliás, que esse aqui é o "Tori Amos (II)". Apesar do (II), entretanto, esse aqui não é uma continuação, mas um post novo, o que significa que muito do que estará escrito aqui também foi escrito lá. Não planejo fazer disso um hábito - ou seja, não pretendo sair reescrevendo um monte de posts antigos - mas confesso que, como já está ficando meio difícil arrumar assunto depois de 600 posts, e como existem outros dos antigos que eu acho fraquinhos, é bem possível que isso volte a acontecer. Com que frequência, eu não sei, nem gostaria de estipular. Quando a vontade vier, eu faço.

Isto posto, vamos comemorar os 600 posts falando sobre minha cantora preferida de todos os tempos, e abrindo da forma mais tradicional com a qual os posts são abertos por aqui: hoje é dia de Tori Amos no átomo!

Tori nasceu Myra Ellen Amos, em 22 de agosto de 1963, filha de um reverendo da igreja metodista, Edison McKinley Amos, e de uma dona de casa, Mary Ellen Amos - a semelhança entre os nomes vem do fato de que Tori foi batizada em homenagem à sua mãe. Edison e Mary Ellen residiam em Washington D.C. (a capital dos Estados Unidos), mas Tori nasceria bem longe de casa, na cidade de Newton, Carolina do Norte, onde moravam seus avós maternos, descendentes de índios Cherokees, durante uma visita. Tori foi a mais nova de três irmãos, e, além de resolver nascer bem quando estava visitando os avós, foi concebida meio que por acidente: quando ela nasceu, seu irmão, Edison Michael (batizado em homenagem ao pai, conhecido por todos como Mike, e que faleceu em 2004 em um acidente de automóvel), já tinha 10 anos, sua irmã, Marie (assim como ela, batizada em homenagem à mãe, e que hoje é uma bem sucedida médica geriatra), tinha 8, e seus pais não planejavam ter mais filhos. Após seu nascimento, sua família voltou para Washington, mas, quando Tori tinha dois anos, se mudou para Baltimore, Maryland. Tori passaria sua infância viajando entre Baltimore e Newton, onde passaria muito tempo com seu avô, aprendendo sobre música e espiritualidade.

O talento de Tori para a música, aliás, se manifestou incrivelmente cedo: quando ela tinha apenas dois anos e meio, seus irmãos estavam tendo aulas de piano em casa. Quando a professora ia embora, ela se sentava ao piano e começava a tocar as músicas que eles estavam aprendendo, de ouvido. Aos quatro anos ela já conseguia tocar Mozart sem partitura, e, ao chegar em casa após ter visto o filme Oklahoma! no cinema, se sentou ao piano e tocou a maior parte de sua trilha sonora. Tori considerava o piano seu melhor amigo, e tocá-lo era sua brincadeira preferida. Aos cinco anos ela já compunha suas próprias canções, que a levaram a ingressar, precocemente, no Peabody Conservatory of Music, onde ganhou bolsa integral ao impressionar os professores durante o teste, se tornando a pessoa mais jovem a já ser aceita por esse conservatório.

Tori jamais se formaria pelo Peabody, entretanto. Quando ela tinha sete anos, seu irmão, já adolescente, começou a apresentá-la às bandas de rock da época - principalmente Beatles, Doors e Led Zeppelin. A preferência de Tori por tocar músicas de rock, e sua resistência a ler partituras, preferindo tocar de ouvido, fariam com que ela fosse expulsa do conservatório em 1975, aos 11 anos. Ao ver que tocar piano era o que sua filha realmente queria fazer da vida, seu pai decidiria apoiá-la; mas, ao invés de colocá-la para tocar na igreja, como seria o lógico, ele a acompanharia durante apresentações em bares e restaurantes da região de Baltimore. Aos 13 anos, com um pai pastor ao lado, Tori começaria sua carreira como cantora noturna.

O primeiro gosto da fama viria já no ano seguinte, 1977, quando, aos 14 anos, Tori ganharia um concurso local com uma música de sua autoria, More Than Just a Friend, com o nome artístico de Ellen Amos. Dois anos depois, ela ganharia outro, patrocinado pelo time de beisebol Baltimore Orioles, com uma composição sua e de seu irmão, Baltimore. Por sugestão de seu pai, ela usaria o dinheiro do prêmio para prensar um compacto, que tinha Baltimore do lado A e outra canção de sua autoria, Walking With You, do lado B. Esse compacto seria "lançado" em 1980, mas, devido a uma tiragem limitadíssima, só seria distribuído para a família e amigos, e venderia em poucas lojas do bairro onde Tori morava.

Tori passaria a adolescência se apresentando em bares, restaurantes e hotéis, aumentando cada vez mais sua área de atuação - de Baltimore, ela passaria para as cidades próximas, então para os estados vizinhos, e chegaria a fazer apresentações nos mais famosos hotéis e casas noturnas de Washington. Desde os 13 anos, ela também mandava fitas demo pelo correio para diversos produtores, sempre recebendo um não como resposta. Aos 19 anos, quando ela já estava quase entrando em depressão devido ao grande número de rejeições, o produtor Narada Michael Walden - que já havia trabalhado com Whitney Houston e Diana Ross, e na década de 1990 seria um dos responsáveis pelo início da carreira de Mariah Carey - a convidou para ir até São Francisco, Califórnia, gravar algumas músicas em um estúdio profissional.

O contato com Walden acabou não tendo resultados imediatos, mas suas gravações com ele chamariam a atenção da Atlantic Records, que, porém, não estava exatamente interessada no som que Tori fazia. A gravadora estava procurando bandas de new wave, ao estilo de Culture Club (a banda do cantor Boy George) e Sister Sledge. Além disso, 1983, o ano no qual Tori foi a São Francisco, foi o ano do lançamento do primeiro disco de Madonna, pela Sire, e a Atlantic estava procurando por uma cantora de mesmo estilo para competir com ela. Desesperada e já achando que iria tocar em bares e hotéis pelo resto da vida - e ainda por cima recém-demitida do Hotel Sheraton de Washington, que decidira contratar uma outra pianista para substituí-la - Tori acabaria aceitando. Em 1985, aos 21 anos, ela se mudaria para Los Angeles, e assinaria seu primeiro contrato com a Atlantic.

Esse contrato daria origem a uma banda chamada Y Kant Tori Read - nome que faz um trocadilho sonoro com a frase "why can't Tori read?", "por que Tori não pode ler?", escolhido por Joe Chiarelli, produtor do primeiro álbum da banda, também chamado Y Kant Tori Read, após ouvir a história de que Tori, quando estava no conservatório, só gostava de tocar de ouvido, não gostando de ler partituras. Foi com a formação dessa banda, aliás, que ela passaria a adotar o nome artístico de Tori Amos: um dos executivos da Atlantic achou que Ellen Amos não era um nome vendável, e perguntou se ela tinha algum apelido; ela, então, se lembrou de um namorado de uma amiga que sempre a chamava de Tori, e, quando corrigido, dizia que ela tinha cara de Tori, não de Ellen. Os executivos concordaram, e Ellen virou Tori de vez.

O Y Kant Tori Read era uma banda de synthpop, com som parecido com o de bandas como Bangles e Alphaville. Além de Tori, a vocalista e pianista, a banda era composta pelo guitarrista Steve Caton, a quem Tori conheceu em Los Angeles em 1985, e que seria guitarrista em todos os seus futuros álbuns até 1999; pelo baterista Matt Sorum, que depois passaria a tocar com os Guns N' Roses; e pelo baixista Brad Cobb. Seu álbum homônimo seria gravado em 1986 e 1987, mas, por motivos que a Atlantic jamais explicou muito bem, acabaria só sendo lançado em junho de 1988. Então, o new wave, o synthpop e outros estilos presentes no álbum já estavam saindo de moda, e, graças a isso, Y Kant Tori Read não vendeu nada. Nadinha. Tanto que a Atlantic só lançou duas músicas de trabalho, The Big Picture e Cool in Your Island, e desistiu de promover o álbum com apenas dois meses de seu lançamento. Com o fim da promoção, a banda se desfez, seus membros foram fazer outras coisas da vida, e Tori se viu desempregada.

No geral, o período entre 1985 e 1988 foi para Tori riscar de sua vida. Hoje, ela se envergonha enormemente de ter aceitado o contrato que levou à criação do Y Kant Tori Read, e possui um contrato vitalício com a Atlantic que impede a gravadora de relançar qualquer material relacionado ao álbum. O insucesso do lançamento, a interferência dos executivos da Atlantic no álbum e da compositora Kim Bullard nas letras que ela escreveu, as avaliações negativas dos críticos - uma jornalista da Billboard, inclusive, chamaria Tori de bimbo, gíria que significa algo como "gostosa e burra" - e a rejeição de seus antigos colegas de trabalho - alguns comentavam que ela teria ido "de criança prodígio a fracasso total em vinte anos" - já eram terríveis por si só, mas, ainda por cima, em janeiro de 1985, logo depois de se mudar para Los Angeles, após uma apresentação em um hotel, um dos funcionários lhe ofereceu uma carona para casa e, no caminho, a estuprou, o que fez com que Tori não se sentisse segura para voltar a tocar em bares e hotéis. Com tudo isso em sua cabeça, ela não queria trabalhar, não queria compor, apenas ficava em casa chorando dia após dia.

Tori seria salva da depressão por seus amigos - tanto os antigos, de Baltimore, quanto os novos, de Los Angeles - e por seu namorado da época, o também músico Eric Rosse. Além de convencê-la a não desistir, e de que ela realmente nasceu para tocar piano, seus amigos a conseguiriam vários trabalhos como backing vocal - sempre em trabalhos pequenos, como em um disco da comediante Sandra Bernhard, mas que a mantiveram em contato com produtores e executivos do meio musical. Esses contatos acabaram lhe dando a oportunidade de gravar uma nova canção, Distant Storm, para o filme A Herdeira do Dragão, estrelado pela artista marcial Cynthia Rothrock. Tori não comporia a música ou sequer seria creditada, apenas a cantaria, com os créditos indo para a banda Tess Makes Good, que jamais gravaria outra canção, mas pelo menos ganharia um dinheirinho - e voltaria a chamar a atenção da Atlantic Records.

Quando a contratou para o Y Kant Tori Read, a Atlantic fez com que ela assinasse um contrato para nada menos que sete álbuns - dos quais apenas um havia sido lançado. Como ela praticamente desapareceu do meio artístico após o fim da banda, a gravadora meio que se esqueceu disso - mas, quando viu que Tori ainda estava na ativa, decidiu fazê-la cumprir o contrato. Assim, no final de setembro de 1989, a Atlantic entrou em contato com Tori, e lhe deu um prazo de seis meses - que se encerraria em março de 1990 - para que ela lançasse um novo álbum ou sofresse as consequências de uma quebra de contrato.

Tori se desesperou, mas, mais uma vez, foi salva por seus amigos, especialmente Cindy Marble, vocalista da banda Rugburns, que a convenceu de que deveria apresentar à Atlantic as músicas que ela sempre gostou de compor e interpretar, ao invés das que a gravadora queria. Tori aceitou a sugestão, e chamou Eric, Caton e seu amigo Davitt Sigerson para gravar algumas músicas que apresentaria à gravadora. Tori escreveu músicas sobre sua religiosidade, o apoio de sua família na infância, a importância de seus amigos em sua vida, sobre sua luta para manter uma identidade própria, e até mesmo sobre o estupro que sofreu. Ao todo, Tori gravaria 12 canções; 10 delas ela colocaria em uma fita demo, e entregaria à Atlantic. Que rejeitaria, sugerindo mudanças.

Dessa vez, porém, Tori não se deixaria abalar. Ela faria mudanças - mas nenhuma das sugeridas pelos executivos da Atlantic, apenas as sugeridas por seus amigos. Ela também gravaria quatro novas canções, substituindo quatro das originais. Ao apresentar a nova fita para a Atlantic, ela seria rejeitada novamente. Tori, então, simplesmente olharia os executivos nos olhos e diria algo como "se vocês não querem, tem quem queira", dando a entender que já havia sido procurada por outra gravadora, disposta a lançar seu álbum e pagar a rescisão contratual. Era mentira, mas pegou os executivos da Atlantic de surpresa. Sem saber o que fazer, eles mostraram a fita a ninguém menos que o vice-presidente da Atlantic, Doug Morris.

Tori não era uma estranha para Morris; foi ele quem determinou que a gravadora precisava de uma nova Madonna - sendo, portanto, responsável por Y Kant Tori Read - e, após o fiasco do álbum, ao encontrá-la por acaso durante uma reunião, de certa forma pediu desculpas, dizendo-a que ela deveria ser tão autêntica quanto desejasse em suas composições futuras. Ao ouvir a fita demo, Morris teve um choque, quase não acreditando que aquelas músicas vinham da mesma cantora que ele havia contratado para ser vocalista de uma banda de synthpop. Morris adorou a fita, mas ficou preocupado de o novo álbum de Tori ser um novo fracasso: segundo sua experiência, o álbum seria muito eclético para o mercado norte-americano, e suas faixas não encontrariam lugar nas rádios de lá, altamente setorizadas - rádios de rock só tocam rock, rádios de hip hop só tocam hip hop etc; e as músicas de Tori não se encaixavam em nenhum estilo das rádios de sucesso. Além disso, havia a questão da imprensa, que poderia rotulá-la como "a ex-vocalista do Y Kant Tori Read", algo que Tori não queria de jeito nenhum.

Como a Atlantic possuía um escritório e um estúdio em Londres, ele sugeriu a Tori que se mudasse para lá, gravasse o álbum lá e o promovesse na Europa antes de retornar aos Estados Unidos. Precisando mesmo de uma mudança de ares, ela aceitou. Anulando o prazo de março de 1990, Morris trabalhou pessoalmente junto a Tori para que a mudança e o ambiente de gravações fossem os mais favoráveis possíveis à construção de um sucesso, mesmo que levasse mais tempo que o esperado. Tori, em companhia de Eric, se mudaria para Londres em janeiro de 1991. E sua sorte, finalmente, começaria a mudar.

Em Londres, ela regravaria suas canções, agora com arranjos e produção mais profissionais, se apresentaria em bares e casas de show locais em companhia de Eric, Canton e Sorum, e conheceria o escritor Neil Gailman, de quem se tornaria amiga íntima pelo resto da vida. Com suas apresentações, ela conseguiria um relativo sucesso que a levaria a marcar shows também na Alemanha e Suíça. Esses shows, por sua vez, fariam com que ela fosse conivada para fazer shows de abertura no Reino Unido, principalmente para Marc Cohn, que, em todas as suas entrevistas, recomendava que as pessoas ouvissem Tori Amos. A influência de Cohn faria com que Tori fosse convidada a se apresentar em um programa de televisão, o Jonathan Ross Show. Aos poucos, ela se tornava uma celebridade.

Seu primeiro álbum solo, Little Earthquakes, seria lançado no Reino Unido em 13 de janeiro de 1992. A intenção da Atlantic era lançá-lo nos Estados Unidos apenas no final do ano, acreditando que, até lá, algumas faixas já seriam sucesso internacional e o Y Kant Tori Read já estaria totalmente esquecido. O sucesso já etsava feito, porém, e a pressão das rádios e da mídia especializada acabariam fazendo com que ele fosse lançado na América menos de um mês depois de na Europa, em 25 de fevereiro de 1992. O álbum seria um gigantesco sucesso de público e crítica, entrando para o Top 100 da Billboard e rendendo dois Discos de Platina. Sua primeira música de trabalho, Silent All These Years, teria um dos clipes mais exibidos do ano na Mtv, e entraria no Top 30 da parada da Billboard. Ao todo, cinco músicas, quase a metade do álbum, seriam lançadas como músicas de trabalho, incluindo a improvável Me and a Gun, cantada a capella (sem acompanhamento musical) e cuja letra fala do estupro que Tori sofreu - se tornando, desde então, a favorita de 9 entre 10 fãs de Tori, e uma espécie de hino contra o estupro. O sucesso do álbum levaria a um convite para os programas de David Letterman e Jay Leno, a um contrato de exclusividade com a famosa fabricante de pianos austríaca Bösendorfer, e a uma duradoura turnê mundial, com shows na América do Norte, Europa e Oceania. Aos 28 anos, após tanto sofrimento e desilusão, Tori finalmente alcançaria o estrelato.

O sucesso de Tori foi tão inesperado que a Atlantic até resolveu aproveitar para ganhar um dinheirinho extra lançando um EP (álbum com menos músicas e mais barato). Chamado Crucify, ele trazia duas faixas de Little Earthquakes (Crucify e Winter) e três covers de respeito: Angie, dos Rolling Stones; Smells Like a Teen Spirit, do Nirvana; e Thank You, do Led Zeppelin. Lançado em maio de 1992, Crucify também seria bem sucedido, o que motivaria Tori a incluir frequentemente covers de suas músicas preferidas em seus shows e em alguns de seus singles.

O sucesso de Little Earthquakes também garantiu a Tori pleno controle criativo de seu álbum seguinte, Under the Pink, lançado em janeiro de 1994. Com Eric como produtor, e mais uma vez gravado em Londres, o álbum novamente trazia músicas que falavam das experiências pessoais de Tori, como a fazenda que ela comprou no Novo México com parte do dinheiro que ganhou com Little Earthquakes e a descoberta de um tumor benigno na coluna - a forma com que Tori conta essas histórias em suas músicas, quase que em código, rapidamente estava se tornando uma de suas marcas registradas e principal razão de seu sucesso dentre seus fãs, que faziam verdadeiros grupos de discussão para tentar descobrir quais eram os temas das músicas. Under the Pink chegaria ao 12o lugar do Top 200 da Billboard, e adicionaria mais dois Discos de Platina à coleção de Tori. Após seu lançamento, ela sairia em mais uma grande turnê, começando pela Inglaterra, e se apresentando pela primeira vez no Japão, onde ela logo conquistaria uma sólida base de fãs. Under the Pink também daria a Tori sua primeira indicação ao Grammy, de Melhor Álbum Alternativo, perdendo para Dookie, do Green Day.

Ainda em 1994, ela realizaria o sonho de sua vida ao gravar um dueto com seu maior ídolo musical, Robert Plant. A música, Down by the Seaside, um cover do Led Zeppelin, seria incluída no álbum Encomium, um tributo à banda. Também em 1994, Tori ajudaria a fundar a organização sem fins lucrativos RAINN (Rape, Abuse and Incest National Network, "rede nacional contra o estupro, abuso sexual e incesto"), que ajuda vítimas desses crimes e promove campanhas para tentar diminuir sua incidência, além de contar com um número de telefone gratuito para o qual vítimas e testemunhas podem ligar para denunciá-los e obter apoio psicológico. Essa iniciativa lhe renderia vários prêmios, como o Visionary Awards da cidade de Washington e o Governor's Citation do Estado de Maryland. Infelizmente, 1994 também seria o ano no qual seu relacionamento com Eric chegaria ao fim, com ele alegando que ela não conseguia se aceitar e deixar o passado para trás para ser finalmente feliz.

O fim de seu relacionamento com Eric daria origem a muitas das canções de seu terceiro álbum, Boys for Pele, batizado em homenagem à lenda de uma deusa havaiana que vive dentro de um vulcão, que Tori conheceu quando fez uma pausa de cinco dias para descansar no Havaí durante a exaustiva turnê de Under the Pink - tão exaustiva que ela teria de ser internada quando ainda faltavam umas 20 apresentações com uma inflamação da cavidade peitoral causada por estresse; apesar da recomendação médica de que ela deveria encerrar a turnê imediatamente ou poderia até morrer, ela decidiria praticamente se dopar com antibióticos e concluir todos os shows que ainda faltavam.

Lançado em janeiro de 1996, Boys for Pele seria gravado na cidade de Delgany, Irlanda, dentro de uma antiga igreja transformada em estúdio de gravação. Tori aproveitaria não só a acústica ambiente, mas incluiria instrumentos como pianos exóticos, órgãos, sinos e gaitas de foles às suas músicas. O resultado seria um álbum mais maduro, mais soturno e de sonoridade mais apurada que os anteriores, algo que dividiu a crítica, com alguns elogiando a espontaneidade e a coragem do lançamento, outros reclamando que suas músicas - mais uma vez referenciando eventos de sua vida usando uma espécie de linguagem cifrada - estavam se tornando tão crípticas que estavam ficando sem pé nem cabeça. Indiferentes a isso, os fãs se tornavam cada vez mais fiéis, e as boas avaliações das publicações especializadas fariam com que o álbum chegasse ao segundo lugar tanto na Billboard quanto na parada de sucessos do Reino Unido, rendendo mais um Disco de Platina. A primeira música de trabalho, Caught a Lite Sneeze, seria disponibilizada para venda em formato digital no site da Atlantic em dezembro de 1995, o que fez com que Tori se tornasse a primeira artista do mundo a ter uma música lançada em formato digital para venda antes do lançamento do álbum no qual essa música está, prática que se popularizaria nos anos seguintes. Boys for Pele também renderia mais uma indicação ao Grammy de Melhor Álbum Alternativo, dessa vez perdendo para Odelay, do Beck.

Apesar de recomendações médicas para que ela pegasse leve, Tori decidiria realizar uma turnê ainda maior que a anterior para a promoção do álbum, chamada Dew Drop Inn Tour, mas com um itinerário mais suave, com viagens mais curtas e mais espaçadas. Durante essa turnê, Tori descobriria estar grávida; o pai era o engenheiro de som Mark Hawley, com quem ela havia começado um romance no início de 1996. Não se sabe se espontaneamente ou devido ao esforço das viagens e dos shows, porém, ela abortaria com três meses de gestação. O aborto fez com que ela e Mark ficassem mais ligados, e o que era um romance eventual com uma gravidez acidental se transformou em um relacionamento sério.

Em julho de 1996, seria lançado o segundo EP da carreira de Tori, Hey Jupiter, que trazia dois remixes de faixas de Boys for Pele (Hey Jupiter e Professional Widow) e mais três canções inéditas gravadas ao vivo, uma delas uma cover de Somewhere Over the Rainbow, da trilha sonora de O Mágico de Oz, que Tori interpretou em sua participação no programa Unplugged, da Mtv (conhecido aqui como Acústico), no qual se apresentou em junho de 1996.

Ainda em 1996, como agradecimento por todo o lucro que Tori dava à gravadora, a Atlantic decidiria criar um selo só para ela, chamado Igloo Records, com o qual ela teria liberdade total para produzir seus lançamentos seguintes. A primeira coisa que ela decidiu foi que não queria mais ter de gravar nos estúdios da Atlantic - a experiência de gravar na Irlanda havia sido bem mais prazerosa que as de Londres. Para ter um local próprio de gravações, ao invés de alugados ou improvisados, ela decidiria construir um estúdio completo, com toda a tecnologia de ponta que existia na época, no terreno de uma casa que havia comprado alguns anos antes na Cornualha, Inglaterra. Ela decidiria chamar o local de Martian Engineering.

Enquanto o estúdio estava sendo construído, ela aceitaria um convite da Atlantic e viajaria para a Flórida, para descansar, pegar um sol, compor algumas músicas, e eventualmente gravar seu álbum seguinte, From The Choirgirl Hotel, no estúdio de lá. Tori aceitou o convite, e, enquanto descansava, teve mais um aborto espontâneo, de uma gravidez que nem sabia existir. Esses dois abortos, seu relacionamento com Mark - que, após o segundo aborto, a pediria em casamento, com a cerimônia sendo realizada em fevereiro de 1998, e começaria a levá-la em diversos médicos para descobrir por que ela não conseguia manter uma gestação - e sua experiência na Flórida seriam os principais temas das músicas de From The Choirgirl Hotel, que acabaria não sendo gravado no estúdio da Atlantic, mas no Martian Engineering, que ficou pronto antes do previsto.

From The Choirgirl Hotel seria lançado em maio de 1998, e traria um estilo bem diferente dos anteriores, com mais instrumentos eletrônicos e menos piano. Elogiadíssimo pela crítica, encantada principalmente com a capacidade de Tori se reinventar, chegaria ao quinto lugar na Billboard, renderia mais um Disco de Platina, e seria, até hoje, o álbum de Tori de maior vendagem na primeira semana. O álbum também renderia mais duas indicações ao Grammy, mais uma de Melhor Álbum Alternativo, perdendo para Hello Nasty dos Beastie Boys, e uma de Melhor Performance Vocal Feminina de Rock (da música Raspberry Swirl), perdendo para Uninvited, da Alanis Morissette. Para a turnê de From The Choirgirl Hotel, chamada The Plugged Tour, Tori usaria pela primeira vez uma banda fixa, com Caton na guitarra, Matt Chamberlain na bateria e Jon Evans no baixo em todos os shows.

Tori gostou tanto da turnê que decidiu que seu próprio lançamento não seria um álbum de inéditas, e sim uma gravação de um dos shows. Acontecimentos recentes de sua vida, entretanto - como a morte de seu sogro - fariam com que ela escrevesse mais algumas canções novas. O resultado foi o primeiro álbum duplo de sua carreira, To Venus and Back, lançado em setembro de 1999: no primeiro disco, onze canções inéditas; no segundo, 13 gravadas durante a turnê The Plugged Tour. Curiosamente, todos os singles lançados de faixas de To Venus and Back também tinham como "lados B" - uma segunda canção, que acompanha a que dá nome ao single - faixas gravadas durante shows da turnê, rompendo com a tradição que Tori tinha estabelecido de sempre lançar faixas inéditas como "lados B", em sua maior parte faixas gravadas mas não aproveitadas para os álbuns - tradição essa que fez com que Tori se tornasse uma das artistas com o maior número de "lados B" inéditos, e com que seus singles fossem avidamente disputados pelos fãs, que queriam ter todas as suas canções. Eu mesmo, durante muito tempo, tentei comprar todos, e só não consegui porque alguns eram lançados exclusivamente no Reino Unido ou Japão, e caríssimos ou impossíveis de serem encontrados por aqui.

To Venus and Back é considerado o mais experimental de todos os álbuns de Tori, com canções de sonoridade única e diferente do que ela havia feito até então. Rendeu mais duas indicações ao Grammy, de Melhor Álbum Alternativo, perdendo mais uma vez para o Beck, com Mutations; e de Melhor Performance Vocal Feminina de Rock (da música Bliss), perdendo para Sweet Child O'Mine, regravação de Sheryl Crow para o sucesso dos Guns N' Roses. Alcançou o 12o lugar da parada da Billboard e rendeu mais um Disco de Platina. To Venus and Back também seria o primeiro álbum de um artista norte-americano de sucesso lançado por uma gravadora major integralmente para compra em versão digital - até então, só artistas em começo de carreira ou de pequenas gravadoras independentes adotavam essa prática, e, quando os de maior sucesso o faziam, nunca disponibilizavam o álbum completo.

Pouco antes do lançamento de To Venus and Back, Tori saiu em uma curta turnê acompanhada de Alanis Morissette - os fãs de Alanis insistem em dizer que Tori abria seus shows, mas foi devido a um acordo entre as duas que Tori sempre se apresentaria primeiro, porque era mais complicado instalar o sistema de som de seu piano. Uma turnê de Tori sozinha, chamada To Dallas and Back, começou em seguida, mas teve de ser interrompida em dezembro, após apenas quatro meses, porque Tori sofreu mais um aborto espontâneo.

Depois do terceiro aborto, Tori desistiu de ser mãe. Quase entrou em depressão novamente, mas se conformou que isso não estava em seu destino, e decidiu parar de tentar. Aí, em janeiro de 2000, teve um enjoo muito forte que pensou ser intoxicação alimentar. Para a sua surpresa, estava grávida novamente. Dessa vez, apesar de todo o medo, que levou o casal a procurar um especialista caríssimo em Washington, a gravidez não foi interrompida. Em 5 de setembro de 2000, poucos dias após Tori completar 37 anos, ela daria a luz à sua filha, Natashya Lórien Hawley. Tash, para os íntimos.

A maternidade, aparentemente, finalmente abriu as portas da felicidade para Tori. Todos os que conviviam com ela concordam que, depois da chegada de Tash, ela ganhou um brilho que ninguém via nela há muito tempo. E sua forma de celebrar foi lançando um novo álbum: Strange Little Girls, lançado em setembro de 2001, bem a tempo das comemorações do primeiro aniversário de Tash, um álbum de covers com 12 canções originalmente escritas gravadas por artistas masculinos, segundo Tori, "reinterpretadas sob um ponto de vista feminino". O repertório era o mais diverso possível, incluindo New Age, do Velvet Underground; Enjoy the Silence, do Depeche Mode; 97 Bonnie & Clyde, do Eminem; Raining Blood, do Slayer; I'm Not In Love, do 10cc; e Happiness Is a Warm Gun, dos Beatles. Dando vazão à sua veia teatral, ela criaria 13 personagens para interpretá-las - uma das canções era "interpretada por gêmeas". O maquiador Kevyn Aucoin criaria 13 visuais diferentes para Tori, que se tornariam as 13 capas diferentes com as quais o álbum foi lançado.

Strange Little Girls chegaria ao quarto lugar da parada da Billboard, mas se tornaria o primeiro álbum solo de Tori a não vender o suficiente para certificação. As duas indicações de praxe a Grammy, entretanto, vieram: Melhor Álbum Alternativo, perdendo para Parachutes, do Coldplay, e Melhor Performance Vocal Feminina de Rock (da música Strange Little Girl, cover da banda Stranglers e único single do álbum, com duas "lados B" que também eram covers no mesmo estilo), perdendo para Get Right With God, de Lucinda Williams - essas seriam, até hoje, as últimas indicações ao Grammy de Tori. A turnê de lançamento, Strange Little Tour, foi a mais curta de sua carreira, com apenas três meses de duração; um dos motivos foi que Tori levou Tash com ela para aproveitar ao máximo seu tempo juntas, mas não queria sobrecarregar a neném.

Strange Little Girls seria o último álbum lançado por Tori pela Atlantic. Desde 1998 ela estava insatisfeita, acreditando que a gravadora não promovia seus álbuns como deveria, se aproveitando de que, de qualquer jeito, ela ainda tinha mais para lançar. Mas, com Strange Little Girls, seu sexto álbum solo e sétimo no total, ela finalmente encerraria o enorme contrato que tinha assinado antes de Y Kant Tori Read. Sem intenção de renovar, ela começaria a conversar com outras gravadoras, e acabaria assinando um contrato de três álbuns com a gravadora Epic Records, de propriedade da Sony Music.

O primeiro álbum de seu contrato com a Epic, Scarlet's Walk, seria lançado em outubro de 2002. Assim como em Strange Little Girls, Tori criaria uma personagem, Scarlet, para "cantar as músicas em seu lugar", sendo as faixas do álbum as experiências vividas por Scarlet durante uma viagem pelos Estados Unidos. As letras das músicas, que falavam sobre a história do país, suas pessoas, homofobia, misoginia, xenofobia e sobre os povos nativos da América, foram extremamente influenciadas pelos eventos do 11 de setembro de 2001 - curiosamente, Tori já morava na Inglaterra há anos, mas estava justamente em Nova Iorque durante os ataques terroristas, ficando muito impressionada com o que viu. Scarlet's Walk chegaria ao sétimo lugar da parada da Billboard, mas só venderia o suficiente para ganhar Disco de Ouro, se tornando o último álbum de Tori a conseguir certificação. Sua turnê, On Scarlet's Walk, focou principalmente nos Estados Unidos, como que refazendo os passos de Scarlet, com apenas alguns poucos shows sendo realizados na Europa e Canadá - a parte europeia da turnê, inclusive, teria outro nome, The Lottapianos Tour.

Em 2003, Tori estrearia no cinema, em uma participação no filme O Sorriso de Mona Lisa, da Sony, na qual interpreta uma cantora e interpreta duas músicas compostas por ela especialmente para a trilha sonora. Também nesse ano, a Atlantic a procuraria e negociaria o lançamento de uma coletânea de seus maiores sucessos, projeto que Tori só aceitou se tivesse total controle sobre quais canções fariam parte da coletânea, e desde que não fosse usado o título "the best of", que ela detestava por achar que "melhor" é um conceito pessoal e subjetivo. Lançado em novembro de 2003, A Tori Amos Collection: Tales of a Librarian, trazia um CD com nada menos que 20 faixas, sendo 15 de seus seis álbuns solo lançados pela Atlantic, três "lados B" de singles e duas totalmente inéditas, mais um DVD bônus com três gravações de apresentações da turnê de Scarlet's Walk.

Tales of a Librarian seria um grande sucesso de vendas para uma coletânea, o que motivaria a Sony a investir em um projeto parecido: Welcome to Sunny Florida, lançado em maio de 2004, trazia um DVD com a gravação completa de um dos shows da turnê de Scarlet's Walk, em West Palm Beach, Flórida, mais fotos e uma entrevista com a cantora. Junto com o DVD, vinha um EP, Scarlet's Hidden Treasures, com seis faixas inéditas. Tori não ficou tão satisfeita com esse lançamento quanto com o da Atlantic; aliás, um dos motivos que a levaram a aceitar a proposta da Atlantic foi que seu relacionamento com a Sony já começou com o pé esquerdo: Polly Anthony, presidente da Epic, que negociou pessoalmente o contrato com Tori, deixaria o cargo em 2003, e, no ano seguinte, a Epic se fundiria com a BMG, criando a Sony-BMG, que, segundo Tori, "só queria saber de ganhar dinheiro", dando pouca importância a criatividade ou originalidade.

Ainda assim, havia um contrato em vigor que garantia controle criativo a Tori, e ela se valeu dele para que ninguém se metesse em seu álbum seguinte, The Beekeeper, lançado em fevereiro de 2005. Com canções instrospectivas e tendo a espiritualidade como tema, The Beekeeper estrearia em quinto lugar na parada da Billboard, colocando Tori em um grupo seleto, que inclui Madonna e Barbra Streisand, de cantoras que tiveram cinco ou mais álbuns estreando no Top 10; apesar disso, as vendas não foram boas, com Tori colocando a culpa na promoção do álbum feita pela Sony-BMG. A turnê de lançamento, Original Sinsuality, seria gravada e lançada na forma de uma coleção de seis álbuns duplos, The Original Bootlegs, lançados entre agosto e dezembro de 2005. Também em 2005, mas em junho, seria lançado mais um EP, o quarto e por enquanto último da carreira de Tori, Exclusive Session, com quatro faixas ao vivo gravadas especialmente para esse lançamento, que seria vendido exclusivamente através do iTunes.

Em setembro de 2006 seria lançada mais uma coletânea, A Piano: The Collection, em homenagem aos 15 anos de carreira de Tori (que tem como início oficial o ano de 1991, quando ela começou a apresentar as músicas que havia escrito para Little Earthquakes na Inglaterra). Lançada pela Rhino Records, subsidiária da Warner Bros. especializada em lançamentos do tipo, A Piano era uma caixa com cinco álbuns, sendo o primeiro uma versão estendida e remasterizada de Little Earthquakes, e os outros quatro coletâneas de faixas de seus álbuns anteriores, "lados B" de seus singles, remixes, faixas ao vivo e até algumas inéditas, como Zero Point, gravada para To Venus and Back mas descartada, e jamais lançada até então. Em fevereiro de 2006, a Rhino faria outro lançamento, Fade to Red, um DVD duplo com todos os clipes de Tori lançados até então.

Em maio de 2007 seria lançado o terceiro e último álbum de inéditas de Tori pela Sony, American Doll Posse. Mesclando o que fez em Strange Little Girls e Scarlet's Walk, Tori criaria quatro personagens - a fotógrafa com forte consciência política Isabel, a idealista e um tanto deprimida Clyde, a corajosa e agressiva Pip e a sensual e amorosa Santa, que, junto com Tori, formam um quinteto conhecido pelo nome do álbum - que interpretariam as canções, com algumas, inclusive, fazendo "duetos". American Doll Posse foi considerado num retorno às origens, com canções que envolvem confronto e questionamento como as de Little Earthquakes. O álbum foi um sucesso de crítica, alcançou o quinto lugar da Billboard, e sua turnê - que tinha Tori interpretando as músicas vestida como a "doll" que "cantava" cada uma - seria mais uma vez gravada e lançada em uma coleção de quatro álbuns duplos, Legs and Boots, entre outubro e dezembro de 2007.

Tori não quis renovar o contrato com a Sony, e anunciou que passaria a lançar seus álbuns de forma independente ou através de contratos individuais com pequenas gravadoras. O primeiro lançamento nesse estilo foi Live at Montreux 1991/1992, um CD e um DVD (vendidos separadamente) com a gravação de duas apresentações que Tori fez no Festival de Jazz de Montreux, Suíça, nos anos de 1991 e 1992, lançados pela Eagle Records em setembro de 2008. Em dezembro do mesmo ano, Tori se encontraria por acaso na rua com Doug Morris, seu antigo chefe na Atlantic, agora vice-presidente da Universal. Ele faria uma boa proposta a Tori, que assinaria contrato com a gravadora com a condição de não ter número mínimo de álbuns a lançar, terminando-o quando bem desejasse.

O primeiro álbum de Tori pela Universal, Abnormally Attracted to Sin, seria lançado em maio de 2009. A inspiração para esse álbum, bem mais pessoal que os três anteriores, viria de uma viagem que Tori fez à Califórnia, revisitando vários lugares de destaque de sua vida quando ainda era uma aspirante ao sucesso. O álbum seria um enorme sucesso de crítica, e chegaria ao nono lugar da Billboard. Sua turnê, Sinful Attraction Tour, daria origem a mais um álbum ao vivo, From Russia With Love, gravado durante uma apresentação em Moscou e lançado em dezembro de 2010. Um ano antes disso, em novembro de 2009, Tori lançaria o primeiro álbum de Natal de sua carreira, Midwinter Graces, com regravações de canções tradicionais natalinas e mais algumas inéditas tendo o Natal e o fim de ano como tema.

Em outubro de 2010, Tori aceitaria participar de um concerto beneficente na Holanda, no qual vários artistas tocariam alguns de seus sucessos acompanhados pela Metropole Orkest, um misto de orquestra sinfônica com orquestra de jazz fundada em 1945 e muito famosa no país. A performance de Tori junto à orquestra chamaria a atenção do selo Deutsche Grammophon, divisão da Universal dedicada a lançamentos de música clássica, que a convidaria a usar seus talentos no piano em um álbum desse estilo. Lançado em setembro de 2011, Night of Hunters trazia composições inspiradas nas obras de Bach, Chopin, Debussy e Schubert, dentre outros, com letras compostas por Tori e com clima de ópera, falando de princesas, caçadores, florestas encantadas e animais místicos. Night of Hunters seria o primeiro álbum de Tori a trazer apenas instrumentos acústicos, e contaria com a participação do clarinetista Andreas Ottensamer, da Filarmônica de Berlim, e do premiado quarteto de cordas Apollon Musagète. Como surpresa, Tori também dividiria os vocais em quatro faixas com Tash, que dessa forma começou sua carreira artística, aos dez anos. O álbum, que também teria uma versão puramente instrumental, sem vocais, à venda exclusivamente em formato digital, ganharia pontos com a crítica pela ousadia e originalidade, mas não seria bem aceito pelo público, se tornando o álbum solo de Tori de menor vendagem até hoje. Tori sairia em turnê para promover o álbum acompanhada do Apollon Musagète, e, pela primeira vez, faria um show na África.

Tori gostaria da experiência de gravar música clássica, e, como já estava pensando em fazer algo diferente para comemorar os vinte anos de Little Earthquakes, decidiria fazer um álbum de regravações, convertendo algumas das músicas preferidas de sua carreira para o estilo clássico. Gold Dust, lançado em outubro de 2012 pela Deutsche Grammophon, trazia Tori acompanhada de seu piano e da Metropole Orkest, reinterpretando faixas de seus álbuns anteriores; Tori escolheria essas faixas não pelo sucesso, mas de forma que, quando ouvidas na ordem em que estão dispostas em Gold Dust, contassem uma espécie de história. O álbum seria bem recebido pela crítica, e geraria uma curta turnê europeia na qual Tori se apresentaria com a Metropole Orkest.

Tori voltaria ao rock e ao pop em seu mais recente álbum, Unrepentant Geraldines, lançado em maio de 2014 pelo selo Mercury Classics, outra subdivisão da Universal. Tori mais uma vez usa temas de sua vida como inspiração para as músicas, dessa vez fazendo paralelos com pinturas e fotografias - daí o nome do álbum, que faz referência a um retrato do irlandês Daniel Maclise; outras canções são inspiradas por obras de Cézanne, Rossetti e da fotógrafa Diane Arbus. Tash mais uma vez faz uma participação, um dueto com Tori na canção Promise, sobre mãe e filha que se apoiam mutuamente. Tash, aliás, foi uma espécie de consultora para o álbum, e, segundo Tori, lhe ofereceu pontos de vista e sugestões nos quais ela jamais teria pensado. O álbum foi aclamado pela crítica, e já chegou ao sétimo lugar da Billboard. Atualmente, Tori encontra-se no fim da turnê para promovê-lo. Feliz da vida, ao que parece. Depois de tanto sofrimento, ela não merecia menos.

Antes de encerrar esse post, gostaria de comentar que, lá no post original sobre Tori Amos, no finalzinho, eu me referi a ele como "colossal". Essa é mais uma prova de que os posts foram mudando com o tempo, já que, no início, eram bem mais curtos. Se aquele lá é o colossal, para esse aqui eu acho que não tenho nem adjetivo.

2 enfiaram o nariz:

Marcos Vinicius Oliveira Silva disse...

Incrível. Vasculhando sobre essa nova paixão acabei aqui nesse blog esqueci tudo o que estava fazendo e me perdi nessa história incrível, parabéns pelo ótimo texto eu não sabia nada sobre ela apenaz ouvi algumas músicas porém agora fiquei encantado a história dela é demais e a música pelos que ouvi mais ainda
Parabéns pelo texto e pelo blog gostei muito

2:15 AM
Guil disse...

Obrigado Marcos! Um abraço!

5:08 PM

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