segunda-feira, 8 de dezembro de 2014

Terra de Gigantes

Como eu disse aqui uma vez, parece que, conforme os posts de numeração significativa vão chegando, me dá uma vontade de "completar" assuntos que ficaram "faltando". Pois bem: eu já falei aqui sobre Irwin Allen, considerado por muitos um gênio do cinema e das séries de TV. Em seu currículo, Allen pode incluir a criação de quatro das séries mais clássicas da TV dos anos 1960. Dessas quatro, eu já falei de três. Hoje é o dia de falar da quarta. Hoje é dia de Terra de Gigantes.

Das três séries que Allen havia produzido até então, sem dúvida, a de maior sucesso havia sido Perdidos no Espaço. Quando O Túnel do Tempo foi cancelado após apenas uma temporada e Viagem ao Fundo do Mar falhou em emplacar uma quinta, portanto, Allen decidiu retornar à mesma fórmula, usando uma equipe perdida em um planeta desconhecido. Dessa vez, entretanto, ele usaria como inspiração o livro As Viagens de Gulliver, e criaria um planeta de gigantes.

esquerda: Steve, Betty, Valerie e Barry; direita, de cima para baixo: Fitzhugh, Mark e Dan

Os "perdidos" da ocasião não são astronautas, cientistas, ou sequer voluntários para a viagem. Em um futuro não muito distante (da época), no ano de 1983, a humanidade terá inventado um novo meio de transporte, o voo sub-orbital. Lançada em direção à atmosfera, uma aeronave circunda a Terra em altíssima velocidade, indo da América à Europa em questão de minutos. Durante um desses voos, a aeronave Spindrift, que decolou de Los Angeles e deveria aterrisar em Londres, sofre um acidente bizarro: atingida por uma tempestade espacial, ela é jogada dentro de um vórtice, indo para em um planeta desconhecido, ninguém sabe a que distância da Terra.

Como se isso por si só já não fosse terrível o bastante, o planeta ainda possui uma característica incomum: todos os seres vivos de lá são gigantescos, doze vezes maiores que seus equivalentes da Terra. Os habitantes do local, chamados (muito apropriadamente) de "gigantes" pelos passageiros da Spindrift, têm por volta de 20 metros de altura, e vivem em uma sociedade que lembra os Estados Unidos da década de 1950, mas com um governo totalitário que não admite dissidentes. Na queda, a Spindrift é avariada, escondida por seus passageiros e serve de abrigo, mas, ao tomar conhecimento do acidente e de que há sobreviventes, o governo dos gigantes determina que eles devem ser capturados a qualquer custo, pois, apesar de serem pequeninos, possuem tecnologia mais avançada, o que é visto como uma ameaça.

Os viajantes, que se tornam, então, fugitivos, incluem o Capitão Steve Burke (Gary Conway), piloto da Spindrift; Dan Erickson (Don Marshall), seu co-piloto; Betty Hamilton (Heather Young), a aeromoça; e os passageiros Mark Wilson (Don Matheson), um engenheiro em ascenção profissional; a estrela de cinema rica e mimada Valerie Scott (Deanna Lund); o Comandante da Marinha Alexander B. Fitzhugh (Kurt Kasznar); e o menino órfão Barry Lockridge (Stefan Arngrim), que viaja em companhia de seu cachorro Chipper. Após o acidente, esse grupo tão heterogêneo tem de deixar suas diferenças de lado e trabalhar em conjunto para não ser capturado pelos gigantes - que, aliás, não são a única ameaça que enfrentam: Fitzhugh, na verdade, é um ladrão de bancos que decidiu de disfarçar de Oficial da Marinha para fugir, e está disposto a fazer um acordo com os gigantes para entregar o grupo e salvar sua pele. Ambicioso e medroso, Fitzhugh acaba fazendo amizade com Barry, único membro do grupo de quem genuinamente gosta, e suas "aventuras" ao lado do menino e do cachorro lembram as situações que o Dr. Smith, personagem com o qual Fitzhugh é bastante parecido, se envolviam com Will Robinson e o Robô em Perdidos no Espaço.

Da parte dos gigantes, não havia nenhum personagem do elenco fixo, embora o Inspetor Kobick, chefe da polícia dos gigantes (Kevin Hagen) fosse um personagem recorrente, aparecendo em diversos episódios. Muitos atores famosos de séries dos anos 1960 fizeram participações especiais em alguns episódios, como Michael Ansara (de Buck Rogers e Jornada nas Estrelas, onde interpretou o klingon Kang), Warren Stevens (que fez participações em Viagem ao Fundo do Mar, O Túnel do Tempo, Bonanza, Jornada nas Estrelas e M.A.S.H., dentre outras), Alan Hale Jr. (o Capitão de Gilligan's Island - A Ilha dos Birutas) e até mesmo Jonathan Harris (o Dr. Smith de Perdidos no Espaço).

Terra de Gigantes estrearia em 22 de setembro de 1968, no canal ABC. De início, a ABC planejava usá-la para "tapar um buraco" entre o final de uma temporada e o início de outra de uma de suas séries já em andamento, encomendando apenas 12 episódios, mas, após assistirem a alguns, os executivos decidiriam bancar uma temporada completa, de 26 episódios. Como não havia nenhuma série de saída para ser substituída, Terra de Gigantes acabaria inaugurando um novo horário de séries na emissora, substituindo programação local (como telejornais regionais e programação produzida por afiliadas da ABC, por exemplo). A maior parte dos episódios envolvia os humanos sendo capturados pelos gigantes e tendo de encontrar uma forma de escapar, enquanto se aventuravam pela cidade em busca de provisões e, talvez, de uma forma de voltar para casa.

A série rapidamente se tornaria não a mais bem sucedida, mas a mais cara de toda a década de 1960. Graças aos efeitos especiais de última geração necessários para criar a convivência entre os humanos e gigantes, que faziam estensivo uso do chroma key - aquela tela azul ou verde hoje tida como certa em qualquer filmagem, mas que na época era uma novidade bastante cara - e de objetos de cena gigantescos - tudo, de clipes de papel a sapatos, de latas de comida a telefones, tinha de ter uma versão doze vezes maior que o normal - cada episódio acabava custando por volta de 250 mil dólares, um valor mais do que absurdo para a época. Além disso, como era tudo gigante, os atores frequentemente se viam pendurados, saltando grandes distâncias e erguendo objetos pesados; para economizar com os dublês, e aumentar a sensação de veracidade, Allen recomendou que todos estivessem em perfeita forma física - de fato, todos, exceto Kasnar e Arngrim, filmavam suas próprias cenas de ação, sem o uso de dublês.

Para tentar cortar custos, a Fox, que produzia a série e vendia para a ABC, criou um método de filmagem, digamos, interessante: dois episódios eram filmados de cada vez, sempre usando os mesmos cenários e objetos de cena, que, então, podiam ser "reciclados" e transformados em outros - dois episódios, por exemplo, eram ambientados em um laboratório dos gigantes, com objetos como tubos de ensaio e microscópios gigantescos, que depois não voltariam a aparecer, sendo transformados em outros objetos, e uma mesa de laboratório gigante que em outros episódios se tornaria uma mesa de jantar gigante ou uma mesa de escola gigante. Para que o público não percebesse o truque, os episódios deveriam ser exibidos fora da ordem em que foram filmados, o que exigiu que todos os roteiros ficassem prontos com antecedência.

Na hora de exibir os episódios, aliás, a ABC conseguiu fazer uma senhora bagunça. Talvez por não entender o planejamento da Fox sobre em que ordem os episódios deveriam ser exibidos, ela os exibiu como bem entendeu - o episódio que deveria ser o 14o, por exemplo, acabou sendo o segundo, indo ao ar logo na semana seguinte ao piloto. Como cada episódio possuía uma história fechada, isso não afetou a compreensão do enredo, mas acabou gerando alguns problemas de continuidade - no meio da temporada, por exemplo, como era comum em séries dos anos 1960, Betty e Valerie ganharam novas roupas, e exibir os episódios fora da ordem fazia com que elas ficassem "trocando de roupa" com frequência. Além disso, nos primeiros episódios, estava estabelecido que os gigantes se moviam muito lentamente e quase não falavam, preferindo grunhir, o que foi alterado a partir do 12o, a partir do qual os gigantes passaram a se mover e falar como pessoas normais, para que uma maior interação entre os humanos e os gigantes pudesse ser explorada; com os episódios sendo exibidos fora de ordem, os gigantes de comportavam normalmente em um deles, para se mover lentamente e grunhir no seguinte, voltar a se comportar normalmente no próximo, e assim por diante.

Mesmo com todos esses percalços, a primeira temporada teria boa audiência, e a ABC encomendaria uma segunda, de mais 25 episódios, que estrearia em 21 de setembro de 1969. Na segunda temporada, os gigantes começaram a experimentar tecnologias mais avançadas, como androides e computadores, e, em alguns episódios, os visitantes encontrariam sobreviventes de outros voos da Terra, que passaram pelo mesmo vórtice que eles, o que lhes deu um novo ânimo para descobrir uma forma de voltar para casa. No geral, porém, a temporada foi mais do mesmo, com os humanos sendo capturados e tendo de arrumar uma forma de fugir a cada episódio.

A audiência da segunda temporada foi mais baixa que a da primeira, o que fez com que a ABC não se empolgasse para renovar a série novamente. O último episódio iria ao ar em 6 de setembro de 1970. Nos anos seguintes, a série seria reprisada em vários canais em regime de syndication, o que contribuiria para que ela adquirisse status de cult, tendo uma grande base de fãs até hoje. Por maiores que fossem os esforços desses fãs, porém, ninguém jamais se interessou em retomar a série ou em realizar novas versões, provavelmente devido aos custos elevados que filmar uma série desse tipo significariam.

Depois de Terra de Gigantes, Allen ainda chegou a produzir mais duas séries para a TV, The Swiss Family Robinson, inspirada no mesmo livro que deu origem a Perdidos no Espaço, e foi exibida em 1975 e 1976; e Code Red, sobre um quartel de bombeiros, exibida em 1981 e 1982. Nenhuma das duas fez sucesso, tendo apenas uma temporada cada, de 20 e 19 episódios respectivamente. No cinema, por outro lado, Allen seria bastante bem sucedido, emplacando sucessos como O Destino do Poseidon (1972), Inferno na Torre (1974) e O Enxame (1978). Allen se aposentaria em 1986, e faleceria em 1991, aos 75 anos, ao ter um infarto fulminante.

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