segunda-feira, 17 de novembro de 2014

Surfista Prateado

Às vezes eu decido escrever sobre um determinado assunto aqui para o átomo, aí acabo achando outro mais legal, e aquele, ao invés de ir para a semana seguinte, fica rolando, e rolando e rolando. Por exemplo, já faz um tempão, acho que desde que escrevi sobre o Lanterna Verde, que pensei em escrever também sobre o Surfista Prateado. Mas aí outros assuntos foram aparecendo, e só hoje, quando aparentemente não tenho mais nenhum, é que decidi transformar essa ideia em palavras.

O Surfista Prateado pode não ser um dos mais famosos ou dos mais queridos heróis Marvel, mas provavelmente é um dos mais facilmente reconhecíveis. Além disso, apesar de não ter protagonizado tantas histórias quanto outros de seus colegas, ele costuma dar as caras em aventuras de praticamente todo mundo, do Homem-Aranha aos X-Men, do Hulk ao Homem de Ferro, do Dr. Estranho ao Thor. Sua própria estreia, aliás, não foi em uma história própria, mas como coadjuvante em uma aventura do Quarteto Fantástico.

Era o final da década de 1960, e Stan Lee era o roteirista de praticamente todos os títulos que a Marvel colocava nas bancas. Para conseguir escrever essas histórias todas, ele inventaria o que ficaria conhecido na época como "método Marvel": Lee apresentava ao desenhista da edição apenas uma sinopse da história (por exemplo, "uma criatura gigante que devora planetas chegará à Terra, e o Quarteto Fantástico terá de encontrar uma forma alternativa de derrotá-la, já que, pela força, será impossível"), e, a partir dessa sinopse, o desenhista estava livre para criar os quadrinhos e colocar os balões de fala em branco como bem entendesse. Uma vez que a arte estivesse pronta, Lee preenchia os balões, criando as falas dos personagens e desenvolvendo a história em si.

Pode parecer um método muito complicado, mas funcionava. E um dos desenhistas que mais gostava de trabalhar com esse método era o hoje lendário Jack Kirby, justamente pela liberdade criativa que tinha ao efetuar os desenhos. Ao receber a supracitada sinopse, por exemplo, Kirby achou que a tal criatura espacial deveria ter uma espécie de arauto, que anunciasse sua chegada aos planetas, mas que não eclipsasse a aparição de seu mestre. Assim, ele criaria um personagem sem nenhuma feição distintiva, sem cabelos, pupilas ou mesmo uniforme, totalmente prateado. A única característica marcante desse personagem era que ele se locomovia surfando uma prancha pelos ares, como se estivesse no mar.

Ao receber a arte, Lee estranhou o personagem, que não havia incluído na sinopse, e o fato de que ele usava uma prancha de surfe, ao que Kirby respondeu que estava cansado de desenhar espaçonaves. Como a arte já estava pronta mesmo, Lee completou as falas e criou a história, mas foi bastante econômico ao batizar o personagem: como ele era prateado e usava uma prancha de surfe, seria o Surfista Prateado. Curiosamente, não somente essa história, que era a primeira parte de três, foi bastante bem sucedida como também o Surfista fez um grande sucesso dentre os leitores, o que levou Lee a ampliar seu papel nas duas partes seguintes, tornando-o fundamental para a vitória do Quarteto e o incorporando ao Universo Marvel ao fim da trilogia.

Portanto, após sua estreia, na revista Fantastic Four número 48, de março de 1966, o Surfista Prateado voltaria a aparecer como coadjuvante em doze outras histórias do Quarteto, publicadas entre 1966 e 1968, além de ganhar sua primeira história solo, em Fantastic Four Annual número 5, de novembro de 1967. Cada vez que ele aparecia. a Marvel recebia mais cartas dos fãs, que desejavam que ele ganhasse um título próprio. Desejo que seria atendido em agosto de 1968, com o lançamento do primeiro número de The Silver Surfer.

Essa primeira edição traria, finalmente, a origem do Surfista: seu verdadeiro nome era Norrin Radd, nativo do planeta Zenn-La. Lar de uma antiga e altamente avançada civilização, Zenn-La era uma utopia, onde todos viviam em paz, se dedicando aos estudos e ao lazer, sem necessidade de trabalho árduo. Tendo tudo o que desejavam em seu próprio planeta, os zennlarianos (?) não viam necessidade em se lançar à exploração espacial, embora tivessem meios tecnológicos para isso. Essa falta de vontade, porém, magoava Radd, que tinha espírito aventureiro, e sonhava um dia poder descobrir os mistérios do espaço.

Sua chance viria de forma um tanto catastrófica: um dia, uma entidade espacial, chamada Galactus, chegaria a Zenn-La. Membro de uma antiga raça hoje extinta, Galactus necessita consumir a energia vital de planetas inteiros para poder sobreviver, transformando o planeta consumido em um deserto e destruindo sua população. Diante da ameaça de extermínio, Radd viu uma oportunidade, e fez uma barganha com Galactus: se o vilão poupasse seu planeta, ele o serviria como arauto por toda a eternidade, vagando pelo espaço e procurando novos planetas para seu mestre, que poderia dedicar seu tempo a outras atividades, somente rumando para o planeta descoberto quando fosse se alimentar. Galactus viu vantagem na barganha, e, para que Radd pudesse cumprir sua missão, transferiu parte de seu poder cósmico a ele, transformando-o no Surfista Prateado.

Como Surfista, Radd não pode morrer de velhice, não sente fome, sede ou cansaço, não precisa dormir ou respirar, e pode sobreviver no vácuo do espaço. O poder cósmico lhe garante força e vigor sobre-humanos, e permite que ele sinta e manipule as energias do universo, das quais se alimenta e pode usar como arma na forma de raios. A prancha obedece a seus comandos mentais, e, com ela, ele pode se locomover a velocidades superiores às da luz. Quando encontra um planeta apropriado, ele envia uma mensagem mental a Galactus, que então ruma para lá com sua nave para consumi-lo.

Quando fez o trato com Galactus, o Surfista planejava só levar seu mestre para planetas desabitados, buscando evitar que outra civilização tivesse o destino do qual ele conseguiu salvar Zenn-La. Conforme o tempo foi passando, porém, o poder cósmico foi nublando sua mente, e ele passou a ser cada vez menos um indivíduo e mais um fantoche de Galactus. Foi assim, portanto, que o Surfista trouxe Galactus até a Terra, ironicamente o local onde conseguiu se livrar de suas amarras: após ser libertado do domínio mental de Galactus pelo Quarteto Fantástico, o Surfista se virou contra ele, e ajudou os heróis da Terra a rechaçá-lo. Galactus partiu e deixou o Surfista com seus poderes, mas também com uma espécie de maldição: ele jamais poderia deixar a Terra ou morreria, devendo viver até o fim da eternidade exilado em nosso planeta.

As histórias da revista do Surfista, portanto, lidavam com esse exílio na Terra, com o personagem estudando a humanidade, a qual considerava uma raça curiosa. Escritas por Lee e com arte de John Buscema (exceto na edição 18, que teve arte de Kirby), as histórias dessa revista são consideradas dentre as mais profundas e introspectivas escritas por Lee, e com um viés filosófico raramente encontrado nos quadrinhos da época. Curiosamente, ao invés de apenas 36 páginas como a maioria dos títulos de então, The Silver Surfer trazia 72, divididas entre uma história do Surfista e uma de Tales of the Watcher, na qual outro personagem que fez sua estreia na Trilogia de Galactus, o Vigia, contava lendas e histórias envolvendo outros planetas e civilizações, apresentando novos personagens e ajudando a construir a cosmologia do Universo Marvel.

Infelizmente, ter o dobro do tamanho significava que a revista custava o dobro do preço. Isso, combinado ao viés filosófico das histórias, fez com que as vendas não fossem tão boas quanto a Marvel esperava, e com que a revista só durasse 18 edições, com a última sendo lançada em setembro de 1970. Após o cancelamento, o Surfista voltou a ser um personagem coadjuvante, aparecendo, ao longo da década de 1970, em histórias do Quarteto Fantástico, dos Defensores e do Thor. Em 1978, Lee e Kirby voltariam a se unir para criar uma história do personagem, lançada como parte da série Marvel Fireside Books, originalmente composta por relançamentos encadernados, mas que teve em The Silver Surfer: The Ultimate Cosmic Experience seu primeiro título inédito. Essa edição fez um enorme sucesso, e é considerada por muitos como a primeira das graphic novels, termo hoje usado para se referir a histórias fechadas, de muitas páginas e normalmente lançadas em um único volume.

Na década de 1980, o Surfista continuaria aparecendo majoritariamente como coadjuvante, à exceção de uma história de 1982 escrita por Lee e desenhada por John Byrne. Como o personagem continuava fazendo sucesso, a Marvel decidiu dar-lhe uma segunda chance e relançar sua revista, agora chamada Silver Surfer (sem o artigo "the") e com a numeração recomeçando do 1. Para esse relançamento, a arte ficaria a cargo de Marshall Rogers, e os roteiros com Steve Engelhart. Stan Lee ficou triste com a decisão, pois queria ser o único roteirista do Surfista, mas a Marvel preferiu entregar o título a outro porque ele já estava envolvido com muitos projetos e a editora temia que ele não fosse conseguir concluir as edições a tempo.

Engelhart impôs uma condição para escrever a revista, a de que pudesse libertar o Surfista de seu exílio na Terra. Assim, ficou decidido que Reed Richards, o Sr. Fantástico do Quarteto, descobriria que, na verdade, o que prendia o Surfista à Terra era sua prancha, à qual Galactus deu um comando de jamais permitir que o Surfista deixasse a atmosfera. Para anular esse comando, o Surfista deixou o planeta em uma nave, e, uma vez no espaço, desmaterializou a prancha antiga e criou uma nova, estando livre para singrar o espaço novamente (não me perguntem por que ele teve de pegar uma nave e sair do planeta para fazer isso).

Ao longo de 31 edições, Engelhart criou vários vilões e personagens coadjuvantes para as histórias do Surfista, fez com que ele retornasse a Zenn-La, e ainda colocou o planeta no meio de uma guerra entre os Skrulls e os Kree. Ele deixaria o título por causa de duas disputas com o editor-chefe, que não permitiu que ele transformasse a personagem Mantis, que ele havia criado para a revista dos Vingadores, em companheira de viagens do Surfista, nem que ele utilizasse personagens cósmicos criados por Jim Starlin, como Thanos e Drax, o Destruidor. Curiosamente, pouco depois da saída de Engelhart, na edição 34, o próprio Starlin assumiu a revista, incorporando esses personagens e mais Adam Warlock ao universo do Surfista, e envolvendo o personagem na história da saga Desafio Infinito, em uma fase bastante elogiada da revista.

Essa versão da revista Silver Surfer seria a mais longeva estrelada pelo personagem, com 148 edições publicadas até novembro de 1998, quando foi cancelada. No ano seguinte, ele ainda estrelaria uma minissérie em duas edições, Silver Surfer: Loftier Than Mortals, na qual o Dr. Destino rouba seu poder cósmico e planeja usá-lo para derrotar o Quarteto Fantástico de uma vez por todas. Mas a aparição mais comentada e premiada da época ocorreria dez anos antes, também em uma minissérie em duas edições, Parábola, de dezembro de 1988 e janeiro de 1989. Escrita por Lee e desenhada pelo lendário artista francês Moebius, a minissérie mostra o Surfista ainda em seu período de exílio na Terra, tendo de lidar com o retorno de Galactus, que vem não para devorar a Terra, mas para escravizar a humanidade e fazê-la adorá-lo como a um deus. Parábola ganharia o Eisner Award, o prêmio mais importante da indústria dos quadrinhos, na categoria Melhor Série Limitada.

A Silver Surfer ganharia uma nova chance em 2003, recomeçando novamente do número 1. Essa nova versão focava em um caráter messiânico do personagem, com as pessoas vendo o Surfista como uma espécie de salvador da humanidade. O enfoque não funcionou, e, depois de 14 edições, o personagem ficou sem revista fixa, mas com minisséries sendo lançadas constantamente, como Aniquilação, de 2006, Requiem, de 2007, e In Thy Name, de 2008, todas em quatro edições cada. Escrita por J. Michael Strczynski (de Babylon 5), em Requiem, parte do selo Marvel Knights, o Surfista descobria estar morrendo, pois sua pele de prata estava se deteriorando.

A Silver Surfer seria mais uma vez ressucitada em 2011, mas dessa vez como uma minissérie em cinco edições. Depois disso, o personagem faria participações especiais em diversas outras minisséries e títulos da Marvel, até que, em 2014, a Silver Surfer seria novamente ressucitada como parte do selo Marvel NOW!, com numeração mais uma vez recomeçando do 1. Escrita por Dan Slott e ilustrada por Mike e Laura Allred, a nova revista tem dividido os fãs, com alguns achando que as histórias - nas quais o Surfista explora recantos desconhecidos do Universo Marvel ao lado de uma garota da Terra - não têm nada a ver com o Surfista, e ainda fazem uma caracterização equivocada do personagem, e outros achando que estão dentre as melhores. Em relação à crítica especializada, também dividida, parece que o único ponto no qual todos concordam é que a arte está abaixo do esperado.

Mesmo não pertencendo ao time principal, o Surfista Prateado é um dos personagens Marvel que mais apareceu em outras mídias, tendo um famoso jogo de videogame para o NES de 1990, um desenho animado de 1998, e participações em vários outros títulos como o desenho Esquadrão de Heróis e o game Marvel: Ultimate Alliance. Com a decisão da Marvel de incluir sua cosmologia em seu universo dos cinemas a partir de Guardiões da Galáxia, abre-se a possibilidade de o Surfista também fazer algumas aparições. Isso esbarra, porém, em um problema técnico: como é parte do universo do Quarteto Fantástico, os direitos do Surfista pertencem não à Marvel Studios, mas à Fox, que até já o utilizou em Quarteto Fantástico e o Surfista Prateado, de 2007. Ainda é incerto se a Marvel planeja negociar o retorno dos direitos do personagem para ela ou se a Fox planeja usá-lo em alguma das já programadas sequências do reboot que lançará ano que vem.

0 enfiaram o nariz:

Postar um comentário