segunda-feira, 18 de março de 2013

Doctor Who (II)

Hoje continuaremos a série sobre Doctor Who, um dos mais famosos seriados de ficção científica do planeta. Quando paramos, a sexta temporada havia se encerrado, o ator Patrick Troughton havia manifestado sua vontade de não interpretar mais o Doutor, e a BBC, para cortar os elevados custos de produção, que contrastavam com a audiência cada vez mais baixa, havia decidido levar a série em outra direção, acabando com as viagens no tempo e interplanetárias e "lotando" o Doutor permanentemente na Terra, onde atuaria como conselheiro da UNIT, órgão da Nações Unidas voltado para a investigação e defesa contra ameaças alienígenas.

Após a saída de Troughton, a primeira escolha de Derrick Sherwin, novo produtor da série, para o papel do protagonista foi Ron Moody, ator famoso por protagonizar o musical Oliver. Moody, entretanto, recusou o papel, e Sherwin decidiu seguir em outra direção, convidando o comediante Jon Pertwee. A ideia de Sherwin era que Pertwee fizesse um Doutor bem cômico, aproximando a série de uma comédia, mas Pertwee tinha outros planos: desejando provar que também poderia ser um bom ator em papéis dramáticos, ele viu em Doctor Who a oportunidade perfeita, e interpretou um Doutor ainda mais rígido e dedicado que seus dois antecessores - exatamente o contrário do que Sherwin planejava. Pertwee também era conhecido por saber - e adorar - dirigir diferentes tipos de veículos, e os roteiristas se aproveitaram disso para fazer com que, durante os episódios estrelados por ele, o Doutor guiasse carros, caminhões, motocicletas, helicópteros, um hovercraft e até mesmo um veículo próprio, apelidado "Whomóvel".

Jon PertweeA sétima temporada, que estrearia em 3 de janeiro de 1970, teria apenas 25 episódios divididos em 4 serials, mudança feita, mais uma vez, para cortar custos. Em compensação, visando aumentar a audiência, seria a primeira temporada produzida integralmente em cores - embora, devido à tragédia dos "episódios perdidos", contada no final do post anterior, alguns deles só existam hoje em preto e branco, obtidos de cópias vendidas a países nos quais a TV a cores ainda não era uma realidade em 1970. Sherwin só permaneceria como produtor até a estreia do primeiro episódio da temporada, o primeiro dos quatro do serial Spearhead from Space - os outros três serials teriam sete episódios cada - pois queria ver a reação dos telespectadores ao formato em cores. Após sua saída, ele seria substituído por Barry Letts, que já havia atuado como diretor de alguns episódios das temporadas anteriores.

Mesmo estando de castigo sem poder sair da Terra, o Doutor tinha uma acompanhante, Liz Shaw (Caroline John), cientista da UNIT que atuava como sua assistente. Outro membro do elenco fixo era o agora Brigadeiro Lethbridge-Stewart (Nicholas Courtney). Outro membro da UNIT, o Sargento Benton (John Levene), que já havia aparecido no serial The Invasion, da sexta temporada, passaria a aparecer regularmente a partir do quarto serial da sétima, Inferno.

Durante seu exílio na Terra, o Doutor lidaria com os Autons, alienígenas que queriam transformar toda a população do planeta em plástico; com os Silurianos, raça reptiliana que decidiu construir sua cidade sob uma usina nuclear; com uma missão malsucedida a Marte; e com outra ao centro da Terra, durante a qual seria lançado para um universo alternativo. A temporada fez bastante sucesso e a audiência voltou ao desejado pela BBC, que elegeu o exílio do Doutor na Terra como fator determinante para que o público retornasse. Letts e o editor-chefe dos roteiristas, Terrance Dicks, porém, não acreditavam nisso, e não estavam satisfeitos com o exílio. Para a temporada seguinte, portanto, eles passariam a procurar desculpas para que o Doutor, mesmo exilado, pudesse viajar pelo tempo e pelo espaço.

A oitava temporada estrearia em 2 de janeiro de 1971, com 25 episódios divididos em 5 serials. Já no primeiro episódio, o Doutor consegue uma nova acompanhante, Jo Grant (Katy Manning), civil recém-chegada à UNIT - após uma cientista experiente, Letts queria uma personagem sem noção do que estivesse acontecendo, para poder usar o já mencionado truque de que, quando o Doutor explica para ela, está também explicando para a plateia, o que não acontecia com Liz. Um novo membro da UNIT, o Capitão Mike Yates (Richard Franklin) também passaria a ser um personagem recorrente, se unindo ao Brigadeiro Lethbridge-Stewart e ao Sargento Benton.

O personagem mais popular e criativo da oitava temporada, entretanto, seria um vilão: conhecido apenas como Mestre, e interpretado por Roger Delgado, ele era um Senhor do Tempo renegado, que viaja pelo tempo e espaço espalhando o caos ao invés de consertando as coisas como o Doutor. A intenção de Letts e Dicks ao criá-lo foi conferir ao Doutor um arqui-inimigo que possibilitasse uma relação ao estilo da de Sherlock Holmes com o Professor Moriarty - até mesmo a escolha do nome levou isso em consideração, já que tanto Mestre quanto Doutor são títulos acadêmicos. Delgado, com uma vasta gama de vilões no currículo, seria a primeira escolha para o papel e o aceitaria prontamente, já que por três outras vezes havia tentado papéis na série sem sucesso.

O Mestre seria o antagonista principal do primeiro, segundo e quinto serials - ao fim do qual seria capturado pela UNIT - mas também apareceria para atrapalhar o Doutor nos outros dois. O quarto serial, Colony in Space, seria o primeiro no qual o Doutor viajaria no tempo e para fora da Terra desde o exílio, autorizado pelos Senhores do Tempo após verificarem que ele era o único com as habilidades necessárias para ajudá-los em uma missão no planeta Uxarieus no ano de 2472. Após o sucesso do Doutor, os Senhores do Tempo começariam a reconsiderar o castigo, o que permitiria aos roteiristas reintroduzir gradativamente as histórias com viagens no tempo e no espaço.

A oitava temporada faria ainda mais sucesso que a sétima, mas também traria uma grande controvérsia: seu primeiro serial, Terror of the Autons, trazia bonecas e flores assassinas e policiais sem rosto, e foi acusado de assustar as crianças que o assistiam. Um estudo feito pela própria BBC em 1972, após o fim da nona temproada, elegeria Doctor Who como o seriado mais violento da emissora, e revelaria que 3% dos entrevistados não o consideravam apropriado para toda a família. O jornal Times, entretanto, criticou essa posição do público, dizendo que considerar Doctor Who mais violento que outros seriados da BBC, especialmente os policiais e de terror, nos quais a violência era muito mais realística, era como considerar um jogo de Monopoly mais sério que o mercado imobiliário de Londres.

A nona temporada, de mais 26 episódios divididos em 5 serials, estrearia em 1o de janeiro de 1972 trazendo de volta os Daleks: no seriado Day of the Daleks, um grupo de humanos vindo de um futuro no qual essa raça dominou a Terra chega ao século XX para tentar mudar a história. O elenco fixo não teve modificações nessa temporada, com Jo ainda sendo a acompanhante do Doutor, e o Brigadeiro, o Sargento e o Capitão sendo os principais oficiais da UNIT. O Mestre voltaria a figurar como antagonista, no terceiro e no quinto serials - no qual fugiria da custódia da UNIT, voltando a singrar o tempo e o espaço em seu próprio Tardis, que, ao contrário do Tardis do Doutor, está com o circuito camaleônico em perfeito estado, podendo assumir qualquer forma. Embora o Doutor oficialmente ainda estivesse exilado, em dois dos Serials ele e Jo viajariam para planetas distantes sob ordens dos Senhores do Tempo.

Roger DelgadoA audiência continuava subindo, e uma décima temporada estava garantida. Com mais 26 episódios divididos em 5 serials, ela estrearia em 30 de dezembro de 1972 com o especial The Three Doctors, que marcava o aniversário de dez anos da série. Nesse serial, composto de quatro episódios, Gallifrey, o planeta natal dos Senhores do Tempo, está sendo atacado por uma força misteriosa, e o Doutor precisará da ajuda de suas duas formas anteriores para detê-la. Para que isso seja possível, os Senhores do Tempo permitem que ele quebre a Primeira Lei das Viagens no Tempo, recrutando a si mesmo no passado para ajudá-lo no presente. Como William Hartnell já estava bastante debilitado por sua doença, a solução foi fazer com que ele tivesse apenas uma participação especial, se comunicando com os outros dois Doutores através de um dispositivo com uma tela na qual podiam vê-lo; Troughton, por outro lado, participou plenamente, atuando ao lado de Pertwee enquanto os dois Doutores tentavam deter a ameaça misteriosa. Após esse serial, os Senhores do Tempo finalmente revogariam o exílio do Doutor, que estava mais uma vez livre para viajar pelo tempo e espaço conforme sua vontade.

A décima temporada também marcaria a última aparição de Roger Delgado como o Mestre, que surgiria mais uma vez para atrapalhar a vida do Doutor no terceiro serial, Frontier in Space. Pouco antes do primeiro episódio deste serial ir ao ar, Delgado faleceria em um acidente de carro na Turquia enquanto filmava a comédia The Bell of Tibet, evento que deixaria Pertwee muito abalado. Curiosamente, o próprio Delgado havia dado a ideia de matar o Mestre na décima-primeira temporada, de forma que ficasse ambíguo se ele havia ou não se sacrificado para salvar a vida do Doutor. O roteiro dessa história chegou a ser escrito, mas jamais seria filmado.

O último serial da temporada, The Green Death, marcaria a última aparição de Jo, que, durante os eventos do Serial, se apaixonaria pelo Professor Clifford Jones (Stewart Bevan), famoso ambientalista, decidindo no último episódio se casar com ele e ir morar na Amazônia para estudar a floresta. A saída de Katy Manning da série também abalaria Pertwee, pois ambos tinham um excelente relacionamento, e ele creditava à cumplicidade entre ambos o sucesso crescente a cada temporada.

Mesmo desanimado, Pertwee seria convencido a assinar para a décima-primeira temporada, que manteria o formato de 26 episódios em 5 serials, estreando em 15 de dezembro de 1973. Em seu primeiro serial, The Time Warrior, seria apresentada a nova acompanhante do Doutor, a jornalista investigativa Sarah Jane Smith (Elisabeth Sladen), que se tornaria uma das mais famosas e longevas acompanhantes de toda a série. O último serial, Planet of the Spiders, escrito para substituir o roteiro no qual o Mestre morreria, marcaria a última aparição do Capitão Yates. O Mestre, aliás, não aparece nem é mencionado em nenhum episódio. A décima-primeira temporada teria uma leve queda de audiência em relação à décima, mas mesmo assim esta se manteria mais alta que nas nove primeiras - à exceção da segunda, até então ainda a mais bem sucedida de todas.

Ao final da décima-primeira temporada, tanto Letts quanto Dicks planejavam deixar a série para se dedicar a outros projetos. Após a morte de Delgado e a saída de Manning, esse era o evento que faltava para que Pertwee não aceitasse mais continuar interpretando o Doutor - sentindo-se como se sua família tivesse se desintegrado, ele dizia já não sentir mais prazer em atuar. Dizem as lendas que, ao ser chamado para renovar seu contrato, Pertwee teria pedido uma soma absurda, e, quando os executivos da BBC tentaram negociar, ele se demitiu. A saída de Pertwee fez com que Letts e Dicks tivessem de adiar seus planos, continuando em seus cargos para a escolha do novo intérprete do Doutor e só deixando a série após o primeiro serial da décima-segunda temporada, quando seriam substituídos por Philip Hinchcliffe e Robert Holmes.

Letts procurou para o papel um ator já idoso, que remetesse ao primeiro Doutor. Como não conseguia encontrar nenhum que lhe agradasse, acabou aceitando uma sugestão do novo chefe do departamento de seriados, Bill Slater, e convidando Tom Baker. Apesar de já ter participado de diversas produções de TV e cinema nas décadas de 1960 e 1970, Baker, na época, estava desempregado e trabalhando na construção civil. Após ouvir a sugestão de Slater e antes de convidá-lo, Letts decidiria assistir ao último filme que Baker havia feito antes do desemprego, As Novas Viagens de Sinbad, no qual interpretava o vilão, e chegou à conclusão de que ele seria perfeito para o papel - mesmo tendo somente 40 anos, sendo o mais jovem de todos os Doutores até então, exatamente o oposto do que Letts pretendia fazer originalmente.

Baker criaria um Doutor de personalidade bastante excêntrica, que agia de forma um pouco errática - algumas vezes amoroso e cuidadoso, outras distante e distraído - caráter que Baker construiu para que a audiência se lembrasse constantemente de que o Doutor era um alienígena, e não um humano. Ele acabaria se tornando um dos Doutores mais bem sucedidos e queridos do público, e ficando no ar por mais temporadas que qualquer um de seus antecessores ou sucessores. Também durante a era do quarto Doutor, a série chegaria a seus maiores índices de audiência, com muitos de seus episódios figurando dentre os favoritos dos fãs.

A décima-segunda temporada estrearia em 28 de dezembro de 1974, com apenas 20 episódios divididos em 4 serials. O primeiro, Robot, é ambientado na Terra e com o Doutor atuando como consultor da UNIT; os três seguintes, entretanto, são contínuos, com três histórias diferentes que ocorreram durante uma mesma viagem do Tardis - o que faz com que eles quase sejam um único e enorme serial. O Brigadeiro Lethbridge-Stewart e o Sargento Benton participam do primeiro serial, e, durante toda a temporada, o Doutor tem como acompanhantes Sarah Jane Smith e Harry Sullivan (Ian Marter), um jovem cirurgião da marinha britânica originalmente criado para ser o protagonista das cenas de ação quando o plano ainda era ter um Doutor idoso, mas mantido na série mesmo com um Doutor jovem.

Sob o comando de Hinchcliffe e Holmes, a série se tornaria bem mais adulta, com a dupla citando como sua maior influência os filmes de terror da Hammer, que faziam um sucesso monstruoso (desculpem o trocadilho) na época. Apesar dessa opção ter rendido, pela primeira vez, audiência próxima à da segunda temporada, foi alvo de muitas críticas, principalmente por parte de uma associação que monitorava os programas de TV da Grã-Bretanha dando conselhos sobre classificação indicativa para pais e professores, que considerou a série totalmente inadequada para crianças e adolescentes, sendo capaz até mesmo, segundo essa associação, de traumatizá-los.

Tom BakerMas a audiência estava excelente, e, para Hinchcliffe e Holmes, era tudo o que importava. A décima-terceira temporada, que estrearia em 30 de agosto de 1975, com mais 26 episódios divididos em 6 serials, manteria o mesmo estilo, com múmias assassinas, uma expedição a um planeta distante sendo brutalmente assassinada, e até mesmo um cérebro sendo manuseado e derrubado no chão. O primeiro serial da décima-terceira temporada, Terror of the Zygons, marcaria as despedidas do Brigadeiro Lethbridge-Setwart, do Sargento Benton e de Harry - embora esse ainda aparecesse no quarto serial como uma participação especial. A audiência deu uma caída, mas continuou mais alta que as das temporadas dos três primeiros Doutores, excetuando-se a segunda.

A décima-quarta temporada, que estrearia em 4 de setembro de 1976, com mais 26 episódios divididos em 6 serials, seria a primeira a quebrar a marca de audiência da segunda. Também seria a última temporada de Sarah Jane Smith como acompanhante do Doutor, deixando a série na metade do segundo serial, The Hand of Fear. Como Sarah era a última ligação do Doutor com a UNIT, ele se desligaria definitivamente da agência, não retornando a seu posto de conselheiro. O serial seguinte, The Deadly Assassin, seria o primeiro da série no qual o Doutor atuaria sem nenhum acompanhante, com sua nova parceira, Leela (Louise Jameson), uma mulher primitiva mas de grande inteligência de um planeta em guerra do futuro, somente fazendo sua estreia no quarto serial, The Face of Evil. The Deadly Assassin também marcaria a primeira aparição do Mestre desde a morte de Delgado - interpretado por Peter Pratt, o personagem vestia um longo robe negro com capuz que não permitia discernir suas feições.

Uma cena na qual o Doutor supostamente morre afogado em The Deadly Assassin seria causa de mais controvérsia e mais críticas à série, o que levaria a BBC à decisão de passar Hinchcliffe para uma série policial adulta e colocar Graham Williams em seu lugar, com instruções específicas de fazer a temporada seguinte mais leve e mais apropriada para toda a família. A transição, entretanto, não seria tranquila: junto com Hinchcliffe, sairiam vários outros colaboradores, como roteiristas e diretores, que já estavam trabalhando na série há um bom tempo, o que deixou Williams com a missão de reestruturar a equipe. Para isso, ele contava com a ajuda de Holmes, mas este, alegando estafa, também planejava sair, e estava treinando Anthony Read para assumir seu lugar. Read, que até então só havia trabalhado como diretor e produtor de outras séries da BBC, aceitaria o cargo de editor-chefe pela possibilidade de trabalhar em Doctor Who, mas sua falta de experiência acabaria se mostrando um problema maior que o esperado: Holmes teria de editar ele mesmo os dois primeiros serials, e Read teria grande dificuldade para editar o terceiro, o que faria com que Holmes tivesse de voltar e escrever ele mesmo o quarto, e Williams tivesse de ajudar Read no trabalho com o sexto.

A temporada sofreria também de problemas com o elenco: Baker não se entendia muito bem com Jameson, e criticava abertamente sua personagem Leela, considerando-a violenta e em desacordo com o novo tom da série. Jameson aceitou calada até um dia de gravações no qual Baker a interrompia frequentemente, começando as falas dele antes que ela tivesse terminado as dela. Oficialmente, ambos se entenderam e as tensões diminuíram após a discussão que se seguiu ao episódio, mas Jameson acabaria saindo da série ao final dessa temporada. Outro atrito de Baker era com o novo personagem K-9, criado por Holmes para o segundo serial, The Invisible Enemy, e um dos principais motivos pelos quais Read teve dificuldades para editar o terceiro. Um cão robótico do século LI que passou a acompanhar o Doutor e Leela em suas viagens, K-9 era dublado por John Leeson, com quem Baker gostava de trabalhar e até se divertia nas filmagens; o problema era com o robô em si, que, um tanto difícil de ser controlado, acabava irritando Baker, que sempre achava que ele estava na posição errada ou o atrapalhando. Mais de uma vez, ele chutaria K-9 de raiva durante as filmagens, obrigando a todos a repetir a cena.

Para completar as agruras da décima-quinta temporada, que estreou em 3 de setembro de 1977, com os já padrão 26 episódios divididos em 6 serials, uma inflação recorde na Grã-Bretanha obrigaria a BBC a cortar os custos de produção drasticamente, quase inviabilizando a produção do último serial, The Invasion of Time - o que, por sua vez, criou um racha entre os departamentos elétrico e de cenografia da emissora, cada um acusando o outro de ser favorecido. Com todo esse clima ruim, a audiência caiu bastante, embora ainda tivesse se mantido alta.

Uma décima-sexta temporada já estava garantida pela BBC, mas era preciso um ajuste nos custos. Para consegui-lo, Williams deu a ideia de que toda a temporada seguisse uma única história, como se fosse um único serial, mas mantendo o formato normal da série. A história que tornaria isso possível seria criada por Holmes: uma entidade conhecida como Guardião Branco (Cyril Luckham) procura o Doutor e lhe revela que um antigo artefato, a Chave do Tempo, precisa ser encontrada para que o equilíbrio do universo seja restaurado. Em formato de cubo, esse artefato foi dividido em seis partes e espalhado pelo universo, para que não pudesse ser usado para propósitos malignos. Portanto, em cada um dos seis serials da temporada, que teve 26 episódios e estreou em 2 de setembro de 1978, o Doutor, K-9 e sua nova acompanhante, uma Senhora do Tempo chamada Romanadvoratrelundar, apelido Romana (Mary Tamm), irão atrás de uma das seis partes, reunindo o cubo ao final. Ambora cada serial tenha seu próprio nome, a temporada inteira costuma ser referenciada pelo nome de The Key to Time.

Nessa época, Baker se sentia cada vez mais "dono" do Doutor, se intrometendo no trabalho dos roteiristas e incomodando os diretores com a inclusão de vários cacos - falas inventadas na hora, que não estavam no roteiro - no texto. Isso irritava bastante Read, que, querendo se livrar do posto de editor-chefe, convenceu Douglas Adams, criador de O Guia do Mochileiro das Galáxias e convidado por Holmes para escrever o segundo serial da temporada, The Pirate Planet, a assumir o cargo. Adams assumiria como editor chefe durante a produção do sexto serial, The Armageddon Factor.

A presença de Adams atrairia mais atenção sobre a série, e dividiria as opiniões dos fãs: enquanto alguns o criticaram por tornar a série bem mais cômica e até parecida com o Guia, outros consideram que alguns dos melhores episódios de Doctor Who pertencem à era na qual ele foi editor-chefe. Baker, que gostava de comédias e queria mesmo adotar um tom mais cômico para o personagem, adorou a contratação de Adams, principalmente porque ele não se incomodava de lhe dar alguma liberdade.

CybermenA décima-sétima temporada, que estrearia em 1o de setembro de 1979, estabeleceria o recorde de temporada de maior audiência até hoje, proeza atribuída a Adams, já que a da décima-sexta tinha sido até pior que a da décima-quinta. O segundo serial da temporada, City of Death, com roteiro de Adams, David Agnew, Williams e David Fisher, é amplamente considerado o melhor de toda a série. Mas nem tudo foi felicidade nessa temporada: o comportamento de Baker acabaria levando a uma discussão com o diretor Alan Bromly, que se demitiria em meio às gravações do quarto serial, Nightmare of Eden, tendo de ser substituído às pressas por Williams. Além disso, os cortes de orçamento continuaram, e uma greve dos trabalhadores dos departamentos elétrico e de cenografia fariam com que as gravações do último serial da temporada, Shada, único com roteiro exclusivamente escrito por Adams, tivessem de ser interrompidas após metade do primeiro episódio.

Com Shada descartado, a temporada teria apenas 20 episódios divididos em 5 serials. Em todos eles, o Doutor viaja em companhia de K-9 e Romana, que, após sofrer uma regeneração no primeiro serial, Destiny of the Daleks, passou a ser interpretada por Lalla Ward - que já havia interpretado a Princesa Astra em The Armageddon Factor, último serial da décima-sexta temporada. Leeson também optaria por não continuar dublando K-9, que passaria a ter a voz de David Brierley.

Tanto Williams quanto Adams deixariam a série ao final da décima-sétima temporada, o primeiro alegando querer trabalhar em novos projetos após três anos na mesma série, o segundo pelo sucesso crescente da franquia começada por O Guia do Mochileiro das Galáxias, na qual ele queria se concentrar. Para substituí-lo, Williams indicou o gerente de produção da série, John Nathan-Turner, que já assumiu o cargo cheio de ideias. Para começar, ele e o novo editor-chefe, Christopher Bidmead, desejavam voltar ao tom sério da época de Hinchcliffe, deixando o humor de Adams de lado, o que desagradou a Baker e Ward. Além disso, ele pretendia "trazer a série para os anos 80", mudando sua trilha sonora, seus figurinos, seu logotipo e até mesmo regravando o tema de abertura. Para tentar manter a casa em ordem durante essas mudanças, Letts atenderia a um pedido do chefe do departamento de seriados, Graeme MacDonald, e atuaria como produtor executivo apenas durante a décima-oitava temporada.

Estreando em 30 de agosto de 1980 com 28 episódios divididos em 7 serials, a décima-oitava temporada seria a última de Romana e K-9, que sairiam no quinto serial, Warrior's Gate, último de uma trilogia que inclui também Full Circle e State of Decay, ambientada em um universo paralelo conhecido como E-Space (e, por isso, conhecida informalmente como The E-Space Trilogy). Full Circle, terceiro serial da temporada, marcaria a estreia de um novo acompanhante do Doutor, Adric (Matthew Waterhouse), jovem nativo do E-Space. O sexto serial, The Keeper of Traken, conta com uma nova aparição do Mestre, interpretado por Geoffrey Beevers e Anthony Ainley (antes e depois de uma regeneração, respectivamente) e com a estreia de mais uma nova acompanhante, Nyssa (Sarah Sutton), uma aristocrata do planeta Traken. O Doutor ainda ganharia uma terceira acompanhante, Tegan Jovanka (Janet Fielding), uma aeromoça australiana, no último serial da temporada, Logopolis.

As mudanças introduzidas por Nathan-Turner e a concorrência com Buck Rogers, exibido pela concorrente iTV, fariam com que a décima-oitava temporada tivesse a pior média de audiência até então, quase a metade da alcançada pela temporada anterior. Insatisfeito com as mudanças, Baker decidiria, após sete temporadas, não mais interpretar o Doutor, e anunciou sua saída com grande estardalhaço, inclusive declarando que seu substituto deveria ser uma mulher. Evidentemente, não tivemos uma Doutora, mas o que aconteceu na décima-nona temporada ficará para o próximo post.

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