segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

Perdidos no Espaço

Alguns posts do átomo têm explicação. Outros, não. Essa semana, do nada, sonhei com o robô de Perdidos no Espaço. Foi até um sonho bem comum, sem nada de mais: eu não estava Perdido no Espaço, o robô é que, por algum motivo, estava dentro da minha casa. Era um daqueles sonhos nos quais ninguém interage com o robô, mas todo mundo - principalmente eu - o reconhece como sendo o robô de Perdidos no Espaço. Uma decoração de luxo, talvez.

Diante desse sonho tão bizarro, decidi escrever um post sobre Perdidos no Espaço. Principalmente porque é uma série da qual eu gosto muito, mas sobre a qual eu ainda não tinha escrito. Talvez o robô tenha mandado umas ondas cerebrais para me influenciar e corrigir esse equívoco.

Penny, Major West, Judy, o robô, Dr. Smith e John Robinson, com Maureen e Will Robinson sentadosPerdidos no Espaço foi criado por Irwin Allen, diretor de cinema que se tornaria conhecido por seus filmes-catástrofe da década de 1970, como O Naufrágio do Poseidon e Inferno na Torre, mas que na década de 1960 se aventuraria na televisão, começando por uma série baseada em seu filme Viagem ao Fundo do Mar, e mais tarde produzindo também os clássicos Túnel do Tempo e Terra de Gigantes.

Allen havia acabado de estrear sua série baseada em Viagem ao Fundo do Mar quando ofereceu à Fox uma nova, baseada no livro The Swiss Family Robinson, de Johann David Wyss, no qual uma família suíça viajando de navio para a Austrália sofre um naufrágio e se vê perdida em uma ilha do sudeste asiático. Allen faria uma pequena adaptação e transformaria a história em ficção científica, fazendo da Família Robinson exploradores espaciais viajando em uma nave, que sofre problemas e faz com que eles fiquem perdidos em um planeta desconhecido.

Originalmente, a série se chamaria The Space Family Robinson, e mostraria uma família composta de pai, mãe e três filhos - um adolescente, um pré-adolescente e uma criança - acompanhados de um piloto da aeronáutica. Um piloto (esse não da aeronáutica, mas de TV) chegou a ser gravado, mostrando a família embarcando em uma nave chamada Gemini 12, rumo a um planeta na órbita de Alfa Centauro, no ano de 1997. Uma chuva de meteoros, porém, desvia o curso da nave, e a família, viajando em animação suspensa, acorda quatro anos depois em um planeta desconhecido, no qual enfrentam monstros, viajam por um mar revolto e exploram ruínas de uma antiga civilização enquanto buscam um local para montar acampamento e pensar em como contactar a Terra para avisar que se perderam.

O piloto foi oferecido ao canal CBS - que, pouco antes, havia rejeitado Jornada nas Estrelas - e aprovado. Allen, porém, se deparou então com uma potencial acusação de plágio: sem que ele soubesse, a editora Gold Key Comics já havia lançado uma revista chamada The Space Family Robinson, que, por acaso, usava a mesmíssima ideia do produtor, adaptando The Swiss Family Robinson para um cenário espacial. Depois de muitas negociações entre a Fox e a Gold Key, o estúdio conseguiu um acordo para produzir a série, desde que não adaptasse as histórias em quadrinhos para seus episódios, e não fizesse qualquer referência ao fato de a série ser baseada no livro. Para torná-la ainda mais diferente das histórias em quadrinhos, e evitar comparações, Allen ainda decidiria incluir dois personagens novos, um clandestino que seria uma espécie de vilão, tendo sabotado a nave e planejando matar os Robinson, e um robô que protegeria a família das investidas do vilão e os ajudaria a sobreviver no planeta inóspito. A Fox só não abriria mão do uso do nome Robinson, que considerava mais do que apropriado para uma família naufragada (vide Robinson Crusoé), concordando em pagar uma indenização à Gold Key e em mudar o nome da série para Lost in Space para não ter de trocá-lo.

Tudo acertado, um novo piloto foi gravado, que serviria também de primeiro episódio da série. Nele, o ano é 1997, e a Terra passa por uma crise de superpopulação. A família Robinson é sorteada dentre milhares de inscritos para viajar na nave Jupiter 2 (o nome Gemini 12 não agradou, e eles aproveitaram para trocá-lo) rumo a Alfa Centauro, onde sondas espaciais detectaram haver um planeta próprio para a colonização humana. Os Robinson, compostos pelo pai, John Robinson (Guy Williams), famoso astrofísico, a mãe, Maureen (June Lockhart), renomada bioquímica, e os filhos Judy (Marta Kristen), de 19 anos, Penny (Angela Cartwright), de 11, e Will Robinson (Billy Mummy), de 9 anos e prodígio da eletrônica, serão acompanhados do Major da Aeronáutica Don West (Mark Goddard), capacitado para pilotar a nave caso algum dos sistemas automáticos apresente defeito, e por um robô Classe M3 Modelo B9 ("interpretado" por Bob May e dublado por Dick Tufeld, que também era o narrador da série), capaz de analisar amostras de solo e ar, escanear ambientes em busca de ameaças e operar todos os sistemas da nave, além de estar armado com diversos dispositivos que serão muito úteis à família em caso de acidentes no planeta. Sem que eles saibam, entretanto, a nave levará também um clandestino: o psicólogo Dr. Zachary Smith (Jonathan Harris), na verdade um espião de um governo estrangeiro, enviado para sabotar a missão. Smith reprograma o robô para destruir componentes importantes da nave, mas se atrapalha e acaba preso dentro da nave antes do lançamento, e seu peso, não levado em contra pelos projetistas, faz com que a nave se desvie de seu curso, sendo atingida por uma chuva de meteoros e caindo em um planeta desconhecido e não-mapeado. Os cinco Robinsons, o robô e o clandestino, então, se veem perdidos sem qualquer esperança de resgate, tendo que explorar o planeta, sobreviver, e buscar eles mesmos uma forma de voltar à Terra.

Duas histórias curiosas envolvem Jonathan Harris: primeiro, como ele não estava presente no piloto original, sendo o último ator contratado, Allen queria que seu nome viesse por último na abertura, o que ele só concordou caso fosse identificado como "Ator Especialmente Convidado"; assim, embora o Dr. Smith seja um dos personagens mais importantes do seriado, Harris é creditado do primeiro ao último episódio como convidado, e não como parte do elenco regular. Segundo, os roteiristas não gostavam do personagem, e planejavam matá-lo ainda na primeira temporada; como Harris gostava da série, Allen recomendou que ele mesmo redefinisse seu personagem, tornando-o mais popular para motivar os roteiristas a escrever mais sobre ele. Isso fez com que o Dr. Smith do início da série fosse mais sério e muito mais malvado, enquanto os últimos episódios da temporada já o mostrassem como um covarde exibido, disposto a tudo para salvar a própria pele. Harris chegou até mesmo a reescrever seus diálogos para chegar a essa personalidade, criando praticamente sozinho a imagem do Dr. Smith - que, nos anos seguintes, se tornaria um dos personagens mais famosos da ficção científica.

A primeira temporada estrearia em 15 de setembro de 1965, com um total de 29 episódios - o padrão na época. O foco era na ação e aventura, mostrando a Família Robinson como pioneiros do espaço, enfrentando alienígenas hostis e lutando para sobreviver em um ambiente desconhecido. Por razões financeiras, vários episódios utilizariam cenas gravadas para o piloto original, que jamais foi televisionado. Também para cortar custos, a primeira temporada seria filmada em preto e branco, embora os efeitos especiais fossem filmados em colorido e depois transferidos para o filme preto e branco para maior realismo. Esse realismo renderia à série uma indicação ao Emmy de Melhores Efeitos Especiais, que perderia, talvez ironicamente, para Viagem ao Fundo do Mar.

A série passaria a ser filmada em colorido a partir da segunda temporada, que estrearia em 9 de setembro de 1966, com mais 30 episódios. O motivo seria a concorrência de Batman, que estreou na ABC em janeiro do mesmo ano com grande estardalhaço, roubando muito da audiência da segunda metade da primeira temporada de Perdidos no Espaço. Para combater fogo com fogo, a CBS optou por fazer de Perdidos no Espaço uma série com uniformes coloridos, vilões maníacos e situações cômicas, o que desagradou a alguns dos fãs antigos e a parte do elenco - Guy Williams e Mark Goddard chegaram a protestar quanto ao abandono da ficção científica "séria" - mas se refletiu em aumento de audiência. Os episódios agora eram muito mais centrados no Dr. Smith - já assumidamente um apoio cômico ao invés de um vilão - em Will Robinson e no robô, com os outros personagens quase não aparecendo. Para justificar a mudança de tom, a CBS usou um argumento bizarro: nos primeiros episódios, a Jupiter 2 é consertada e sai viajando pelo espaço rumo à Terra, só para cair em um segundo planeta desconhecido e deixar os Robinsons naufragados de novo.

Para a terceira temporada, que estrearia em 6 de setembro de 1967, com mais 24 episódios, os roteiristas expandiriam essa ideia: com a Jupiter 2 novamente consertada, os Robinson deixariam de ser náufragos e se tornariam exploradores, visitando a cada semana um planeta diferente enquanto tentavam voltar à Terra. Alguns episódios eram mais centrados na ação, lembrando um pouco a primeira temporada, mas os episódios cômicos foram os mais bizarros de todos, com vegetais falantes, hippies espaciais e até mesmo um concurso de beleza intergaláctico. A terceira temporada era composta de episódios fechados com pouca interferência uns nos outros, diferentemente das duas primeiras, que apresentavam histórias em arco. A terceira temporada teria mais uma indicação ao Emmy, dessa vez de Melhores Artes Visuais e Maquiagem, perdendo para Rowan and Martin's Laugh-In Special, da NBC.

Quando a terceira temporada se aproximava de seu final, em fevereiro de 1968, o elenco recebeu a notícia de que o seriado seria renovado para uma quarta, e que em breve eles teriam a opção de renovar seus contratos. Em maio, entretanto, a CBS divulgou uma lista das suas séries que não seriam renovadas para uma nova temporada, e Perdidos no Espaço estava entre elas. O anúncio pegou o elenco e grande parte da equipe técnica de surpresa, e, pior ainda, a CBS jamais ofereceu uma razão para o cancelamento, apenas anunciou que a série não seria renovada e pronto.

A teoria mais aceita para o cancelamento tem a ver com motivos financeiros: Perdidos no Espaço era uma série caríssima, custando mais de 150 mil dólares por episódio, uma grande fortuna para a época, quase o dobro do que custava, por exemplo, um episódio de Jornada nas Estrelas - e, já que estamos comparando, até mesmo os cenários de Perdidos no Espaço eram mais caros, com o interior da Jupiter 2 sendo o cenário mais caro feito para uma série de TV até então, custando 350 mil dólares, mais de 100 mil dólares a mais que o interior da Enterprise. A maior parte desse orçamento ia para os salários dos atores, que, com o sucesso da série, aumentavam a cada temporada, com os de Harris, Kristen e Cartwright quase tendo dobrado da primeira para a terceira. Para azar da série, a Fox, na época, ainda se recuperava de um estouro de orçamento épico (desculpem o trocadilho) durante as filmagens de Cleópatra, e exigiu que Allen cortasse os custos de Perdidos no Espaço. Como ele não aceitou, a série foi cancelada.

Outra teoria diz respeito à falta de interesse dos atores em continuar na série. Os episódios bizarros da terceira temporada tinham uma explicação lógica: segundo pesquisas, cada vez mais crianças assistiam à série, então os novos episódios eram escritos com o público infantil em mente. Isso teria desagradado ao diretor Don Richardson, que deixou a equipe antes mesmo do cancelamento, anunciando que, mesmo que a série fosse renovada, ele não retornaria. June Lockhart, que também estava insatisfeita, declarou que voltaria caso ocorresse a renovação, mas, assim que o cancelamento foi anunciado, ela passou para o elenco de outra série da CBS, Petticoat Junction. Outro notoriamente insatisfeito era Guy Williams, que não se furtava a declarar sua insatisfação com os rumos cômicos do programa e com a diminuição da importância de seu personagem em prol do Dr. Smith. Desiludido com o mundo da televisão, após o cancelamento Williams se aposentou e foi morar na Argentina.

Seja qual for o motivo, o último episódio de Perdidos no Espaço foi ao ar em 3 de março de 1968. A série ainda continuaria sendo exibida em syndication por vários canais dos Estados Unidos durante a década de 1970, mas o fato de sua primeira temporada ser em preto e branco não contribuía com a audiência. Assim como Jornada nas Estrelas, Perdidos no Espaço seria praticamente esquecida até 1979, quando o canal TBS voltou a exibi-la. Por um desses milagres da TV que ninguém entende, a série teve excelente audiência, ficando no ar no canal durante cinco anos e, desde então, se tornando cult.

Após esse novo sucesso, Bill Mummy tentou convencer Allen a produzir um filme para o cinema de Perdidos no Espaço com seu elenco original, mas o produtor não se mostrou interessado. O próprio Mummy, então, começou a escrever alguns roteiros para tentar convencer os executivos da Fox, mas o projeto jamais seria levado adiante. Até 1991, quando uma pequena editora chamada Innovation Comics decidiria lançar uma revista em quadrinhos baseada em Perdidos no Espaço, e procuraria a Fox para obter as licenças necessárias. Ao ficar sabendo dos roteiros de Mummy, ela entraria em contato com o ator e o contrataria como roteirista da revista. Perdidos no Espaço foi o maior sucesso da Innovation Comics, vendendo mais do que todos os seus outros títulos somados, mas, mesmo assim, só duraria 18 edições mensais, 2 anuais e a primeira parte de uma minissérie, sendo cancelada não por sua vendagem, mas por problemas financeiros da editora, que iria à falência no final de 1992. Em 1993, o espólio da editora ainda conseguiria publicar uma edição especial, fechando a história da minissérie e a série em quadrinhos como um todo.

Perdidos no Espaço também quase viraria desenho animado, com a Hanna-Barbera produzindo um piloto em 1972. O piloto, porém, tinha muito pouco a ver com a série, com os únicos personagens originais sendo o Dr. Smith (dublado por Harris, e que fazia parte da equipe voluntariamente) e o robô (que se chamava Robon e era o piloto da nave, que não tinha nome), com todos os demais personagens sendo novos. Evidentemente, o piloto não agradou, e a série jamais foi produzida.

A chegada da série aos cinemas se daria não pelas mãos de Allen e da Fox, mas da New Line Cinema, que adquiriria os direitos de filmagem para o cinema em 1995. Lançado em 1998, o filme, ambientado em 2058, era bastante fiel ao piloto, com o Dr. Smith sendo maligno e a família tendo de lutar para sobreviver em um ambiente hostil. Algumas decisões equivocadas, como a inclusão de viagens no tempo no enredo, e, principalmente, a falta do humor característico das duas últimas temporadas da série fariam com que o filme fosse um fracasso, sendo massacrado pela crítica e rendendo 10 milhões de dólares a menos do que custou. O elenco era estelar: William Hurt como John Robinson, Mimi Rogers como Maureen, Gary Oldman como o Dr. Smith, Heather Graham como Judy, Lacey Chabert (também conhecida como Elisa Thornberry) como Penny, e Matt LeBlanc (o Joey de Friends) como o Major West, além do novato Jack Johnson como Will Robinson. Lockhart, Goddard, Cartwright e Kristen fizeram participações especiais, e Dick Tufeld, mais uma vez, emprestou sua voz ao robô.

Para chamar atenção para o lançamento do filme, o Sci Fi Channel programou várias maratonas do seriado, com os episódios intercalados por entrevistas com os atores e produtores, culminando com um especial de uma hora chamado Lost in Space Forever, um documentário sobre a série apresentado por Bill Mummy e Jonathan Harris interpretando Will Robison e o Dr. Smith, junto com o robô. No final, eles "percebem" que estão "Perdidos no Espaço para sempre" - o nome do especial em inglês. O especial foi bem recebido, e Harris começou a planejar com o roteirista, diretor e produtor William Winckler, responsável pelo especial e seu amigo pessoal, um filme para a TV reunindo todo o elenco original, com o título Lost In Space: The Journey Back Home ("a volta par casa"). Infelizmente, pouco antes de começarem as filmagens, em 2002, Harris teve uma trombose e faleceu, o que fez com que o filme jamais saísse do papel.

A equipe de produção, entretanto, achou que Perdidos no Espaço poderia ser um bom candidato para um remake, e decidiu usar alguns dos elementos previamente reservados para o filme para produzir um novo piloto. Chamado The Robinsons: Lost in Space, esse piloto seria financiado pelo Warner Channel, e produzido em conjunto pela Fox, Synthesis Entertainment, Irwin Allen Productions e Regency Television. Dirigido por John Woo (ele mesmo, de A Outra Face e Missão Impossível 2), o piloto incluía um novo filho mais velho para a família, David Robinson, diminuindo um pouco as idades de Judy e Penny, e não tinha am presença do Dr. Smith, embora o Major West fosse um personagem dúbio e propenso à traição. A família viaja pelo espaço em uma grande nave-mãe, da qual a Jupiter 2 é apenas uma nave de transporte, e o robô é bem mais humanoide e voltado para tarefas domésticas. O piloto não agradou aos executivos da Warner Bros, e a série jamais foi produzida. Seus cenários acabariam comprados pela equipe de produção de Battlestar Galactica, que os reciclaria para construir o interior da Battlestar Pegasus.

Até agora, esse malsucedido piloto foi a última encarnação de Perdidos no Espaço. Pelo jeito, resolveram deixar a Família Robinson em paz lá em seu planeta perdido no universo. Pelo bem da memória da série clássica, eu apoio.

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