sexta-feira, 10 de agosto de 2012

Os Fungos de Yuggoth

Como eu já disse aqui uma vez, quando comecei a escrever os posts sobre as histórias escritas por H.P. Lovecraft, meu autor preferido, não era minha intenção falar sobre todas. Quando vi que faltavam poucas, porém, me deu vontade de tentar. Hoje, eu concluo esse objetivo, falando sobre algumas histórias de Lovecraft que não costumam ser muito republicadas, sendo, por isso, consideradas raras e pouco conhecidas.

Das oito histórias que veremos hoje, a primeira e a última jamais foram publicadas oficialmente em língua portuguesa, então serão identificadas por seus nomes originais em negrito, seguido de uma tradução feita por mim em itálico. As outras seis estão disponíveis em Portugal, como parte do quinto volume da série Os Melhores Contos de Howard Phillips Lovecraft, da editora Saída de Emergência; essas estarão identificadas pelos títulos usados nesse livro (com uma pequena adaptação por motivos estéticos em um deles) com o título original seguindo entre parênteses. Depois dessas histórias, terei oficialmente falado sobre tudo o que Lovecraft escreveu no ramo da ficção em prosa; só ficam faltando as poesias e as obras de não-ficção, como ensaios, resenhas e o livro O Horror Sobrenatural em Literatura. Essas, provavelmente, não serão contempladas aqui no átomo: sobre as obras de não-ficção eu realmente não acho graça falar, e as poesias, além de serem mais de duzentas, também não me atraem muito - podem xingar, mas nunca tive muito saco para ler poemas.

Fungi From Yuggoth (Os Fungos de Yuggoth) - E aí, contraditoriamente, eu começo com uma poesia. Mas juro que tenho uma boa explicação.

Diferentemente das demais histórias que veremos hoje - e talvez, assim, demonstrando uma segunda contradição - Fungi from Yuggoth é uma das mais conhecidas e republicadas obras de Lovecraft. Trata-se de um conjunto de 36 sonetos, escritos entre dezembro de 1929 e janeiro de 1930. Originalmente, eles foram publicados todos separadamente, mas acabariam sendo republicados como se fossem uma única obra pela editora Arkham House, no livro Beyond the Wall of Sleep, em 1943.

Nos três primeiros sonetos, um narrador sem nome obtém por acaso um livro de aparência estranha, passando a ser perseguido desde então por uma presença invisível. Os demais sonetos foram escritos de forma que pudessem ser publicados independentemente desses três primeiros, então não possuem o sentido de continuidade que deles se esperaria caso fossem todos realmente parte de uma mesma obra; ainda assim, o terceiro soneto deixa a entender que o estranho livro foi a chave para que o narrador encontrasse um estranho mundo de sonhos, que passa a visitar. Cada soneto é um vislumbre diferente que o narrador tem desse mundo - e alguns deles até fazem referência a elementos de outras obras de Lovecraft, especialmente aos os deuses ancestrais, como Nyarlathotep, e às cidades, como Innsmouth.

Lovecraft se referia aos sonetos de Fungi from Yuggoth como "pseudo-sonetos", pois eles combinavam elementos das duas formas mais tradicionais de soneto, os petrarquianos (duas estrofes de quatro versos cada e duas de três versos cada) e os shakespeareanos (três estrofes de quatro versos cada e uma de dois versos, conhecida como dístico). Lovecraft pretendia concluir a série com 45 sonetos, mas, quando tinha 33, se cansou dela. Quando R.H. Barlow começou a registrar suas obras para a posteridade, Lovecraft decidiu incluir dois de seus outros sonetos, que a princípio não fariam parte da série, como seus dois últimos. Foi Barlow quem deu a ideia de publicar toda a série de uma única vez, como se fosse uma única história; ao prepará-la para tal, Lovecraft decidiria incluir mais um soneto como antepenúltimo, renumerando os dois últimos e fechando a série em 36. Por causa de sua possibilidade de publicação em separado, cada soneto, além de um número - em romanos, como tradicionalmente os sonetos são identificados - possui também um título.

Lovecraft escreveria esses sonetos após um longo hiato sem escrever poesia. Abandonando os poemas mais tradicionais que fazia até então, ele decidiria experimentar com seu universo de horror também nesse formato. Ele publicaria os cinco primeiros sonetos da série juntos, no jornal Providence Journal, ainda em janeiro de 1930. Em seguida, ele ofereceria os sonetos separadamente para diversas revistas. A Weird Tales selecionaria dez deles, os quais publicaria em dez edições diferentes, lançadas entre 1930 e 1932, sempre sob o título Fungi from Yuggoth, também usado por Lovecraft no Providence Journal. Entre 1930 e 1936, as revistas Causerie, Driftwind, Fantasy Fan, Galleon, Interesting Items, Phantagraph, Pioneer, Science-Fantasy Correspondent, Science Fiction Barb e Silverfern também publicariam sonetos da série. As revistas Fantasy Magazine, Fantaisiste's Mirror, Recluse e Ripples from Lake Champlain aceitariam sonetos e pagariam a Lovecraft, mas jamais os publicariam. Alguns sonetos seriam publicados por mais de uma revista, e dois deles também seriam publicados em livros de antologias de poemas (The Canal, número XXIV, apareceria em Harvest: A Shift of Poems, de 1933, publicado pela mesma editora da revista Driftwind, e Harbour Whistles, número XXXIII, em Threads in Tapestry, de 1936), mas um deles, Expectancy, número XXVIII, jamais seria publicado enquanto Lovecraft era vivo.

Logo após publicar os cinco primeiros sonetos no Providence Journal, Lovecraft, satisfeito com sua repercussão, decidiria escrever um conto que expandisse a história dos tais "fungos de Yuggoth". O resultado seria Um Sussurro nas Trevas, que se tornaria uma de suas histórias mais famosas.

O Povo Antiquíssimo (The Very Old Folk) - Originalmente, Lovecraft não escreveu O Povo Antiquíssimo para ser publicada; o texto era parte de uma carta para Donald Wandrei, escrita em 3 de novembro de 1927, na qual ele relata um sonho longo e estranhamente vívido que teve na noite de Halloween, influenciado pela atmosfera do dia e por uma releitura da Eneida. Impressionado com o sonho, Lovecraft o teria contado não somente a Wandrei, mas também a Bernard Austin Dwyer e a Frank Belknap Long. A esse último, ele teria dito ter a intenção de transformar esse sonho em uma história, algo que jamais se concretizou.

Em 1929, Long pediu permissão a Lovecraft para usar os acontecimentos do sonho como parte de sua história The Horror from the Hills, originalmente publicada na revista Weird Tales de janeiro de 1931. Após a morte de Lovecraft, Wandrei, que sempre achou que a parte da carta que relata o sonho já era uma história boa o suficiente em si mesma, decidiria oferecê-la para publicação. A história seria originalmente publicada na revista Scienti-Snaps de agosto de 1940, creditada a Lovecraft.

O Povo Antiquíssimo é ambientada na época da Roma Antiga - segundo o próprio Lovecraft, pouco antes da coroação de Augusto César. Nela, um procurador romano é enviado junto com uma legião para a cidade de Pompelo, onde, a cada ano, na época do Halloween, cidadãos são sequestrados por um estranho povo, aparentemente semi-humano, que vive nas colinas, e é conhecido apenas como Povo Antiquíssimo. Esse ano, entretanto, o Povo Antiquíssimo quer vingança pelo assassinato de alguns dos seus, e os habitantes da cidade imaginam que eles estejam trabalhando em algum ritual sinistro que se realizará na data fatídica. O procurador decide atacá-los para acabar com sua ameaça de uma vez por todas - mas, ao fazê-lo, terá uma desagradável surpresa.

Doce Ermengarde ou O Coração de uma Moça do Campo (Sweet Ermengarde or The Heart of a Country Girl) - Pouca gente sabe, mas Lovecraft também escrevia comédias - e a razão mais provável para isso é que nenhuma delas foi publicada enquanto ele era vivo. De todas as suas obras cômicas, a melhor é essa Doce Ermengarde, estruturada como se fosse uma peça de teatro.

A Ermengarde do título é uma moça de por volta dos 30 anos, mas que engana a todos dizendo que tem 16. Belíssima e filha de um casal pobre de fazendeiros, a moça possui três pretendentes: o riquíssimo Squire Hardman, que ameaça cobrar uma hipoteca da casa de sua família caso ela não aceite se casar com ele; o pobre mas belo e honrado Jack Manly, que decide ir à cidade arrumar emprego para pagar a hipoteca e se casar com Ermengarde; e o aventureiro Algernon Reginald Jones, que ilude Ermengarde e a convence a ir com ele até a cidade, onde ela descobrirá um surpreendente segredo.

A história é uma paródia das histórias de romance publicadas nas revistas da época, nas quais os homens ricos sempre tinham algum defeito que faziam com que as heroínas os rejeitassem, preferindo um outro, cheio de virtudes, mas invariavelmente pobre, e sofrendo durante quase toda a história por conta dessa escolha. Ao escrevê-la, Lovecraft pretendia parodiar as obras de um amigo seu, Fred Jackson, que considerava ter enredos implausíveis, ações demasiadamente guiadas pelo sentimento e reviravoltas absurdas - tudo isso, é claro, abunda em Doce Ermengarde.

Pelas anotações que Lovecraft deixou, é difícil de precisar quando Doce Ermengarde teria sido escrita - estima-se que foi entre 1919 e 1921. Sua primeira publicação só ocorreria na coletânea Beyond the Wall of Sleep, lançada pela Editora Arkham House em 1943.

O Velho Bugs (Old Bugs) - Lovecraft era abstêmio - jamais consumiu álcool em sua vida, e se irritava profundamente quando alguém tentava convencê-lo a experimentar. Uma dessas ocasiões foi pouco antes da entrada em vigor da Lei Seca, quando um de seus amigos, o professor Alfred Galpin, insistiu que Lovecraft deveria experimentar a bebida antes que ela se tornasse proibida.

Em resposta, Lovecraft escreveu O Velho Bugs. Na história, o Velho Bugs é um homem que aparentemente um dia foi de boa estirpe, mas hoje é acabado devido ao vício da bebida, tendo arrumado como único emprego o de faxineiro em um bar ilegal na época da proibição - o que faz com que a história, efetivamente, seja ambientada no futuro. Galpin é um dos personagens da história: um homem brilhante que, consumido pelos maus hábitos e pelo vício da bebida, abandonou sua noiva, Eleanor Wing - nome de uma das alunas de Galpin na vida real. Quando Alfred Trever, o filho de Eleanor com um homem que ela conheceu depois disso, chega ao bar querendo experimentar bebida pela primeira vez, Bugs decide impedi-lo a qualquer custo.

O Velho Bugs é visto como uma sátira e uma paródia - Galpin, aliás, diz que Lovecraft lhe teria entregado o manuscrito com a frase "agora você vai se comportar?" ao final - sendo considerado por muitos de seus estudiosos como uma de suas obras-primas - e eu até entendo; quantas pessoas vocês conhecem que escrevem uma história de respeito só porque algum amigo está enchendo o saco?

Devido à sua própria natureza, Lovecraft jamais submeteu a história, escrita em julho de 1919, para publicação. Sua primeira publicação seria no livro The Shuttered Room and Other Pieces, lançado pela Arkham House em 1959.

Ibid (Ibid) - Mais uma das obras cômicas de Lovecraft, Ibid começa imitando um artigo científico, que se propõe a discutir a obra do acadêmico romano Caius Anicius Magnus Furius Camillus Aemilianus Cornelius Valerius Pompeius Julius Ibidus, mais conhecido como Ibid. A sátira consiste no fato de que ibid. é a abreviação do termo latino ibidem, usado em notas de rodapé a partir da terceira citação seguida da mesma obra. Segundo o "artigo", todas as obras que começam nessas notas de rodapé com ibid. seriam de autoria de Ibid, um dos maiores escritores de sua época. O "artigo" conta até com referências a obras reais e fictícias, algumas atribuídas a autores de nomes inspirados como Bêtenoir (a "fera negra" em francês). A partir da metade, curiosamente, Ibid muda de tom, e passa a discutir a jornada que o crânio de Ibid teria feito após sua morte, passando de mão em mão até ir parar nos Estados Unidos, onde seria descoberto de forma bastante lovecraftiana.

Segundo estudiosos, Lovecraft teria tido a inspiração para a história ao ver um trabalho escrito por um dos alunos de seu amigo Maurice W. Moe, que começava dizendo "como Ibid diz em sua famosa obra..." - mesma introdução de Ibid, aliás. O alvo da sátira, entretanto, não é a falta de atenção ou conhecimento dos alunos, e sim a pompa do mundo acadêmico, que, na opinião de Lovecraft, trazia convenções desnecessárias e que mais atrapalhavam do que ajudavam, sendo o uso de expressões latinas uma delas.

Lovecraft escreveu Ibid em 1928; Moe a adorou, e até pediu para que ele a adequasse para ser submetida a uma revista. Após essa adequação, porém, Moe mudaria de ideia, e tanto ele quanto Lovecraft achariam melhor apenas distribuí-la aos amigos. Isso também nunca seria feito, e Ibid permaneceria inédito até 1938, quando apareceria na revista The O-Wash-Ta-Nong. Não há registro sobre quem a teria oferecido para publicação.

A História do Necronomicon (History of the Necronomicon) - Escrito por Abdul Alhazred, o árabe louco, o Neconomicon é o livro fictício mais famoso criado por Lovecraft. A primeira menção a seu nome foi feita na história O Sabujo, de 1922; desde então, o livro seria citado em Nas Montanhas da Loucura, O Caso de Charles Dexter Ward, O Horror de Dunwich, Um Sussurro nas Trevas, O Assombro das Trevas, A Sombra Fora do Tempo, A Coisa na Soleira da Porta, O Festival, O Livro, O Descendente e O Chamado de Cthulhu. Outros autores, mais notadamente August Derleth e Clark Ashton Smith, também costumavam citar o Necronomicon em suas histórias; Lovecraft aprovava o uso de sua criação por outros, achando que isso lhe conferia uma aparência de verossimilhança, ou seja, que, se ele fosse citado em obras de diferentes autores, os leitores acabariam achando que se tratava de um livro real.

De fato, isso acabou acontecendo. Embora Lovecraft jamais tenha escrito um Necronomicon, muitos acreditam que realmente exista um Necronomicon na vida real. O próprio Lovecraft recebia muitas cartas perguntando onde ele poderia ser encontrado, existem registros de livrarias e bibliotecas que receberam pedidos de encomenda do livro, e um aluno da Universidade de Yale chegou a pregar uma peça inserindo uma ficha para a obra no sistema de classificação da biblioteca local. A partir da década de 1970, algumas editoras resolveram ganhar um dinheirinho em cima da popularidade da obra, e começaram a publicar suas próprias versões do Necronomicon, algumas "traduzidas" para o idioma do país onde se encontra a editora, algumas totalmente escritas em idiomas inventados. A maioria dessas versões é criticada pelos fãs por não trazer um ou mais conteúdos que Lovecraft cita como parte do livro em suas histórias. A "febre dos Necronomicons", aliás, se tornaria tão forte que, em 1998, seria publicado o livro The Necronomicon Files, que reuniria toda a informação existente sobre o livro em uma tentativa de provar de uma vez por todas que este era ficcional.

Lovecraft sempre foi propositalmente vago em toda descrição que fez do livro e seu conteúdo, com a intenção de manter uma aura de mistério sobre a obra. Em 1927, entretanto, ele escreveria A História do Necronomicon, texto de pouco mais de uma página que contava toda a trajetória do livro, desde sua criação por Abdul Alharzed, passando por suas traduções, pela época em que foi banido pela Igreja, até chegar no século XX. Estudiosos acreditam que a intenção de Lovecraft não era publicar esse texto, mas simplesmente mantê-lo como referência para que não se confundisse quando fosse mencionar o livro em suas histórias. De fato, Lovecraft jamais ofereceu A História do Necronomicon para publicação, mantendo-o dentre suas anotações pessoais até sua morte.

Quando Lovecraft faleceu, o texto foi descoberto, e August Derleth o ofereceu à editora Rebel Press, que o publicaria, em 1938, em forma de panfleto, como propaganda para a história A Cidade Sem Nome, que publicou no formato brochura naquele ano. O texto não seria novamente publicado até 1995, como parte da coletânea Miscellaneous Writings, da editora Arkham House. Desde então, tem sido republicado de forma esparsa, normalmente acompanhando outras histórias que citam o Necronomicon.

Uma Reminiscência do Dr. Samuel Johnson (A Riminiscence of Dr. Samuel Johnson) - Escrita em 1917 e publicada em setembro do mesmo ano no periódico United Amateur sob o pseudônimo Humphrey Littlewit, Esq., esta é mais uma das obras cômicas de Lovecraft, embora, dessa vez, o humor seja bem mais sutil. Trata-se do relato de um escritor cujo público acredita ser jovem, mas que na verdade já tem mais de duzentos anos, sobre as memórias que tem de um grande amigo, o Dr. Samuel Johnson, fundador de um clube literário. O texto conta como Littlewit conheceu Johnson, como o clube foi fundado, e descreve algumas tardes no clube, em companhia de diversos de seus membros. Alguns estudiosos acreditam que a história seria uma tentativa de Lovecraft de fazer graça consigo mesmo, já que, desde jovem, sempre teve gostos considerados antiquados.

The Challenge From Beyond (O Desafio do Além) - Essa é uma história no estilo round robin, no qual um dos autores começa e escreve até uma determinada parte, sendo seguido por outro, e mais outro, até que um escreve seu desfecho. É mais ou menos como aquelas brincadeiras de criança nas quais cada um conta um pedaço de uma história que vai ficando cada vez mais sem pé nem cabeça, só que feita de forma séria e visando a pubicação. The Challenge From Beyond foi a única história desse tipo da qual Lovecraft participou, tendo escrito sua parte em agosto de 1935.

A ideia para a história partiu de Julius Schwartz, editor da revista Fantasy Magazine. Por ocasião do aniversário de três anos da revista, o que aconteceria na edição a ser publicada em setembro de 1935, ele contratou vários dos autores que regularmente lhe enviavam histórias para escrever, no estilo round robin, duas histórias chamadas The Challenge From Beyond, uma de horror, outra de ficção científica. O time da história de horror era composto por C.L. Moore, Abraham Merritt, Robert E. Howard, Frank Belknap Long e Lovecraft. A história de ficção científica ficaria a cargo de Stanley G. Weinbaum, Donald Wandrei, E.E. Doc Smith, Harl Vincent e Murray Leinster.

O próprio time de autores achou uma verdadeira proeza que Schwartz tivesse conseguido reunir todos eles para um mesmo trabalho, e uma proeza maior ainda que um dos integrantes do grupo fosse Merritt, único escritor profissional dentre os dez, e conhecido justamente por não gostar de trabalhar com amadores. De fato, devido a um problema com Merritt, quase que a história de horror não saiu.

De acordo com o plano original, Moore começaria a história, seguida de Long, e então de Merritt. Schwartz não fez qualquer exigência quanto ao enredo da história, apenas que fosse no mesmo estilo que os cinco costumavam escrever para a revista. Moore, então, escreveu uma introdução sem muitos detalhes, sobre um homem que, enquanto está acampando, encontra um estranho artefato. Long, a seguir, desenvolveu a história de uma forma que Moore e Lovecraft acharam brilhante, mas que não agradou em nada a Merritt, que achou que Long havia se desviado sobremaneira da proposta original, e o colocado em posição difícil para desenvolver a história propriamente a partir de então. Merritt fez queixa a Schwartz, e chegou a ameaçar abandonar o projeto se a parte escrita por Long não fosse descartada e o próprio Merritt não pudesse seguir o que Moore escreveu. Sem querer perder quem considerava o principal escritor do projeto - afinal, era o único profissional - Schwartz cedeu, e permitiu que Merritt escrevesse um novo segundo trecho, passando Long para o terceiro.

Aí foi Long que, irritado, ameaçou deixar o projeto. Após ler o trecho escrito por Merritt, porém, Lovecraft, que seria o último a escrever, achando que o trecho de Merritt não levava a história em direção nenhuma, decidiu ele mesmo segui-lo, e convenceu Long a continuar no projeto, escrevendo o desfecho após seu trecho e o de Howard. Lovecraft, então, praticamente se apoderou da história - sua seção é mais do que a metade do total, e mais de três vezes maior do que qualquer uma das outras quatro. Lovecraft nem faria muito esforço para escrever sua parte: aproveitando o mote deixado por Moore e Merritt, ele praticamente repetiria sua história A Sombra Fora do Tempo, escrita entre o final de 1934 e o início de 1935.

Howard não gostou muito da direção que Lovecraft deu à história, mas seu amigo o convenceria a continuar no projeto dando-o carta branca para desenvolvê-la como achasse melhor. Howard, então, daria uma guinada inesperada e muito bem vinda por Long, que concluiria a história de forma interessante.

O protagonista de The Challenge From Beyond é George Campbell, um homem que está acampando no Canadá quando encontra um estranho artefato: um cubo translúcido com uma espécie de disco em seu interior, no qual parece estar gravada uma inscrição. Ao examinar o cubo, ele é sugado para seu interior, para um mundo aparentemente completamente vazio. Na verdade, o cubo é criação de uma raça de homens-centopeia alienígenas, e serve como um permutador de mentes, o que significa que a mente de Campbell agora ocupa um dos corpos dos alienígenas em seu planeta natal, enquanto a mente do alienígena ocupa seu corpo na Terra. Ao se dar conta disso, Campbell age de forma completamente inesperada para os alienígenas, demonstrando que sua ideia de trocar de corpos com um humano não foi tão boa assim.

The Challenge From Beyond não costuma ser considerada uma grande história, até por causa dos problemas envolvidos em sua concepção. É vista pelos críticos, entretanto, como um grande exemplo de autores trabalhando juntos sem perder sua própria identidade - todos os cinco mantiveram seus próprios estilos em seus determinados segmentos, sem nada ceder em prol dos outros, o que acabou tendo o efeito colateral de transformar o resultado final em uma curiosa e divertida colcha de retalhos.

2 enfiaram o nariz:

Raíssa: disse...

Que demais esses posts sobre a obra de Lovecraft. Adorei! Pena que seja muito difícil achar alguns dos livros... :/ parabéns pelo trabalho!

12:34 PM
William Ricardo disse...

https://lelivros.top/book/download-antologia-h-p-lovecraft-h-p-lovecraft-em-epub-mobi-e-pdf/

10:52 PM

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