segunda-feira, 23 de julho de 2012

Clássicos Disney (XII)

E hoje vamos ver mais três Clássicos da Renascença Disney!

O Rei Leão
The Lion King
1994


No final de 1988, durante um voo para a Europa com o intuito de promover Oliver e Sua Turma, o presidente da Disney na época, Jeffrey Katzenberg, e dois dos executivos da empresa, Peter Schneider e Roy E. Disney - sobrinho de Walt Disney - conversavam sobre vários assuntos, até que surgiu o tópico de que ainda não havia nenhum Clássico Disney ambientado na África, e que seria uma boa ideia fazer um. Katzenberg se empolgou com essa ideia, e começou imediatamente a pensar em um projeto que envolvesse um pequeno leão passando da infância para a idade adulta - curiosamente, ele até pensou em fazer um filme "autobiográfico", comparando a vida do leão com sua trajetória na Disney.

Ao retornar para os Estados Unidos, Katzenberg reuniu a equipe e deu partida no projeto, com o envolvimento do produtor Thomas Schumacher (de Bernardo e Bianca na Terra dos Cangurus), George Scribner (de Oliver) na direção e roteiro de Linda Woolverton - que não levou muito a sério a história de basear o enredo na vida de Katzenberg. Originalmente chamado O Rei dos Kalahari, então O Rei das Feras e finalmente O Rei da Selva, o roteiro original previa uma disputa territorial entre um grupo de leões e um grupo de babuínos, com o principal vilão sendo Scar, o líder dos babuínos, que enganaria Simba, o jovem líder dos leões, influenciando-o, corrompendo-o e tornando-o fraco em uma tentativa de destroná-lo e virar a sorte para o lado dos macacos.

A produção do filme começaria em 1991, com Roger Allers, chefe de animação de A Bela e a Fera entrando para o projeto como co-diretor e trazendo consigo sua colega Brenda Chapman para ser chefe de animação. Allers levaria toda a equipe ao Hell's Gate National Park, no Quênia, para estudar o comportamento dos animais que apareceriam no filme. Com seis meses de produção, ele se tornaria o único diretor, já que Scribner se desentenderia com a Disney devido à decisão de fazer do desenho, assim como seus antecessores, um musical - Scribner desejava que o desenho tivesse o tom de um documentário, o que é duplamente bizarro; primeiro, porque é um Clássico Disney, segundo, porque ele já havia dirigido Oliver, um musical de sucesso, e deveria saber que em time que está ganhando não se mexe. Como Allers seria um diretor estreante, Schneider achou melhor não deixá-lo sozinho, e convidou Rob Minkoff, diretor dos curtas de Roger Rabbit, para co-dirigir.

Minkoff, por sua vez, levaria para o projeto o produtor de Uma Cilada para Roger Rabbit, Don Hahn. Foi Hahn quem achou que o roteiro estava confuso e pouco atraente, e que não tinha uma trama central. Ao invés de pedir que algum roteirista o reescrevesse, porém, os próprios Allers, Minkoff, Chapman e Hahn decidiram escrever o roteiro, o que fizeram em apenas duas semanas, se consultando com os diretores de A Bela e a Fera, Kirk Wise e Gary Trousdale, mais experientes que eles nesse sentido. Foi nessa revisão que o nome do desenho mudou de O Rei da Selva para O Rei Leão - já que era ambientado na savana, e não na selva - e ficou definido que o tema central seria a passagem da infância para a vida adulta, e que o foco seria totalmente no grupo de leões, sem conflitos com nenhum outro grupo rival de animais.

Allers, Minkoff, Chapman e Hahn se inspirariam em diversas histórias para criar a sua; mais acentuadamente as histórias bíblicas de José e Moisés, e as obras de Shakespeare Hamlet e Macbeth. Apesar disso, O Rei Leão seria o primeiro Clássico Disney com roteiro original, já que não era uma adaptação de nenhuma dessas histórias. Como os quatro não eram roteiristas profissionais, o roteiro ficou um tanto cru, e os roteiristas Irene Mecchi e Jonathan Roberts foram chamados em 1992 para resolver problemas de emoção dos personagens, inclusão de apoio cômico e melhoria dos diálogos - que, aliás, eram reescritos frequentemente, com diversos animadores tendo de fazer alterações de última hora para adequar seus desenhos aos novos diálogos.

Na versão final do roteiro, O Rei Leão seria a história de Simba (Jonathan Taylor Thomas falando e Jason Weaver cantando quando criança; Matthew Broderick falando e Joseph Williams cantando quando adulto), único filho de Mufasa (James Earl Jones) e Sarabi (Madge Sinclair), Rei e Rainha dos leões, e destinado a sucedê-los no trono. Quando criança, Simba não tem muita responsabilidade, e costuma ignorar os avisos e conselhos de seu pai e do conselheiro real, o calau Zazu (Rowan Atkinson) para ir brincar em locais perigosos com sua melhor amiga, a leoa Nala (Niketa Calame falando e Sally Dworsky cantando quando criança; Moira Kelly falando e Laura Williams cantando quando adulta).

A ingenuidade de Simba faz dele o alvo perfeito para seu invejoso tio Scar (Jeremy Irons), que trama um plano com as hienas Banzai (Cheech Marin), Shenzi (Whoopi Goldberg) e Ed (Jim Cummings) para destronar Mufasa e ficar com Sarabi e com o reino para si. Pondo esse plano em prática, ele faz com que Mufasa seja morto, e convence Simba de que a culpa é do leãozinho. Atormentado, Simba foge, passando anos na floresta em companhia do suricate Timão (Nathan Lane) e do facócero Pumba (Ernie Sabella) que o ensinam a viver sem preocupações nem responsabilidade.

Quando Simba atinge a idade adulta, porém, Nala o descobre, e tenta convencê-lo a voltar, enfrentar Scar e assumir seu lugar como legítimo governante dos leões. Simba precisará de muita força de vontade - e da ajuda do mandril curandeiro Rafiki (Robert Guillaume) - para superar os traumas de seu passado e cumprir seu destino.

Os pequenos atrasos na produção fariam com que O Rei Leão sofresse um atraso de um ano em seu lançamento - o que, por conseguinte, fez com que 1993 não tivesse nenhum Clássico Disney, botando água no planejamento de Schneider de lançar um por ano - e que fosse produzido simultaneamente com Pocahontas, o Clássico seguinte, que também estava atrasado. Curiosamente, a maioria dos animadores, quando perguntado, optaria por trabalhar em Pocahontas, acreditando que esse seria o de maior prestígio e sucesso entre os dois - até mesmo Chapman, mais tarde, confessaria ter relutado em aceitar o convite de Allers para trabalhar em O Rei Leão, por não levar fé no projeto, e o responsável pelos storyboards, Burny Mattinson, disse a um colega que não sabia se iria querer assistir ao desenho. Devido a essa descrença, a maior parte dos animadores que trabalhou em O Rei Leão ou era iniciante, ou tinha especial interesse em desenhar animais - O Rei Leão seria o primeiro Clássico desde Bambi no qual os animadores puderam observar animais selvagens de perto e copiar seus trejeitos, além de contar com a assessoria e as dicas do especialista Jim Fowler, o que foi um grande atrativo para quem gostava do assunto. A rotatividade de animadores - conforme alguns iam se desligando para trabalhar em outros projetos e outros iam assumindo seus lugares - também era frequente, e, no total, mais de 600 animadores acabaram trabalhando no desenho.

O Rei Leão fez amplo uso do CAPS, que recebeu upgrades para tornar o desenho mais realístico - como quase todos os personagens andam sobre quatro patas, o foco não poderia ser o mesmo de um desenho no qual os personagens são mais, digamos, verticais. Quase todo o desenho foi feito à mão, com exceção da cena do estouro da manada de gnus, criada em computação gráfica, com apenas alguns gnus sendo animados, depois multiplicados e colocados para correr em caminhos aleatórios, para simular o verdadeiro comportamento de uma manada. As paisagens do filme foram inspiradas não somente no parque visitado pela equipe, mas também em fotodocumentários sobre a África, estilo National Geographic, e em pinturas de paisagens africanas. O uso do CAPS ao invés de células acabou evitando um novo atraso no lançamento: quando o desenho já estava na pós-produção, um terremoto fez com que a Disney tivesse de fechar seu estúdio por razões de segurança, e que os animadores tivessem de terminar seu trabalho em casa.

Durante a produção dos personagens, os produtores já pensaram em quais atores poderiam interpretá-los. James Earl Jones, por ter uma voz forte, característica de um leão, foi a primeira escolha para Mufasa, e Jeremy Irons, capaz de criar um tom simultaneamente doce e dissimulado, para Scar; ambos aceitaram os convites sem ressalvas. Para Simba, a produção queria um ator que fizesse sucesso entre os jovens, e a escolha acabaria sendo Matthew Broderick. Inicialmente, Nathan Lane fez o teste para Zazu, e Ernie Sabella desejava ser uma hiena; ao se encontrarem no dia do teste, os dois, que eram colegas no musical Guys and Dolls, pediram para dublar as hienas, mas os produtores gostaram tanto do teste que os convidaram para dublar Timão e Pumba. A ideia de colocar comediantes amigos no papel das hienas foi considerada boa, e os produtores pensaram em chamar os famosos Cheech & Chong; Cheech Marin aceitou, mas Tommy Chong já estava envolvido com outro projeto. Diante disso, os produtores decidiram fazer uma das hienas fêmea, e convidar Whoopi Goldberg para o papel. Finalmente, Zazu ficaria com outro comediante de sucesso, Rowand Atkinson (mais conhecido como Mr. Bean), enquanto Nala ficaria com a então pouco conhecida Moira Kelly, escolhida através de um teste.

As músicas ficariam a cargo de Tim Rice, que trabalhou em conjunto com Mecchi e Roberts para que ficassem o mais integradas à continuidade possível. Rice, que havia trabalhado com Alan Menken em Aladdin, desejava repetir a parceria, mas Menken já estava envolvido com a trilha do filme Extra! Extra! e não pôde aceitar o convite. Rice então pediu autorização à Disney para chamar um popstar para ser seu parceiro. Sua intenção era chamar Benny Andersson, do ABBA, mas este também já estava envolvido com a trilha de um filme, Kristina från Duvemåla. Rice, então, chamou Elton John, que ficou extremamente empolgado com o projeto, dizendo que aproveitaria a oportunidade para escrever canções que tivessem apelo tanto entre os jovens quanto entre os adultos, e citando a trilha de Mogli como um exemplo desse caso.

Rice e John comporiam cinco músicas de sucesso para a trilha, Circle of Life, I Just Can't Wait to Be King, Be Prepared, Hakuna Matata e Can You Feel the Love Tonight - esta última cantada pelo próprio Elton John nos créditos finais e lançada nas rádios para promover o desenho. A trilha incidental seria assinada por Hans Zimmer, em seu primeiro trabalho de muitos em parceria com a Disney. As músicas tradicionais africanas ficariam a cargo do arranjador sul-africano Lebo M. O álbum com a trilha sonora de O Rei Leão seria o mais bem sucedido album de trilha sonora da história, alcançando o quarto lugar na parada da Billboard e vendendo o suficiente para ganhar um Disco de Diamante (o equivalente a dez Discos de Platina), único de um desenho animado a conseguir essa proeza. Como sempre acontece nesses casos, não poderia faltar uma polêmica: a inclusão de The Lion Sleeps Tonight na trilha levaria a família do compositor Solomon Linda a processar a Disney, alegando que sua obra fora usada sem autorização. O caso acabaria com um acordo na justiça segundo o qual os direitos da música passaram para a Disney mediante o pagamento de uma soma não revelada.

Com orçamento de 45 milhões de dólares, O Rei Leão, lançado em 15 de junho de 1994, rendeu mais de 422 milhões só nos Estados Unidos, e mais de 950 milhões (quase um bilhão!) no mundo inteiro. Até hoje, é o desenho feito à mão mais bem sucedido de todos os tempos, e, quando se consideram também os de computação, é o segundo, tendo perdido o primeiro posto apenas recentemente, para Toy Story 3. Também é o mais bem-sucedido Clássico Disney, e o quarto mais bem sucedido filme produzido pela Disney de todos os tempos, contando com os que têm atores de carne e osso. Foi o filme de maior bilheteria de 1994, e, na época, o de segunda maior bilheteria de todos os tempos, perdendo apenas para Jurassic Park. Agora imaginem a cara daqueles que acharam durante a produção que o filme não iria fazer sucesso.

Além de um sucesso de público, O Rei Leão também seria um sucesso de crítica, apesar de alguns dizerem que, com seus dilemas morais e shakespeareanos, o filme agradava mais aos adultos que às crianças. Foi indicado a quatro Oscars, ganhando os de Melhor Trilha Sonora e Melhor Canção por Can You Feel the Love Tonight - Circle of Life e Hakuna Matata foram as outras duas indicações - e a quatro Globos de Ouro, ganhando os de Melhor Trilha Sonora, Melhor Canção (Can You Feel the Love Tonight) e Melhor Filme Musical ou Comédia - e não ganhando Melhor Canção por Circle of Life, até porque era impossível. Can You Feel the Love Tonight também renderia a Elton John um Grammy de Melhor Performance Vocal Masculina.

O Rei Leão ganharia duas continuações lançadas diretamente em vídeo. Em O Rei Leão 2: O Reino de Simba (The Lion King 2: Simba's Pride), de 1998, a protagonista é Kiara (dublada por Neve Campbell), a filha de Simba e Nala, que se apaixona por um jovem leão pertencente a um grupo que via Scar como o legítimo Rei; os dois têm de enfrentar suas famílias para poder viver seu amor, em um enredo claramente inspirado em Romeu e Julieta. Já O Rei Leão 3: Hakuna Matata (The Lion King 1½), de 2004, tem como protagonistas Timão e Pumba, e conta as aventuras dos dois antes de conhecerem Simba. Timão e Pumba, aliás, ganhariam sua própria série animada, The Lion King's Timon & Pumbaa, exibida entre 1995 e 1999, com um total de 85 episódios. Assim como A Bela e a Fera, O Rei Leão também ganharia uma versão 3D, que estrearia nos cinemas em 2011, e seria adaptado para um musical da Broadway de grande sucesso, ganhador do prêmio Tony de Melhor Musical em 1998. O Rei Leão está em cartaz desde outubro de 1997 - prestes a completar 15 anos, portanto - e já é o sétimo espetáculo de maior temporada na história da Broadway.

Pocahontas
1995


Durante a produção de Bernardo e Bianca na Terra dos Cangurus, seu diretor, Mike Gabriel, sugeriu à Disney produzir um Clássico baseado em um personagem histórico, ao invés de em uma história ficcional. A Disney aceitou a sugestão, e a escolha de tal personagem foi mais que óbvia: Pocahontas, a famosa índia da época da colonização dos Estados Unidos, já era praticamente uma Princesa Disney, com sua história de amor quase impossível, desafiando o destino e rompendo paradigmas em nome da felicidade. Personagem definido, Gabriel foi escolhido como diretor, acompanhado de Eric Goldberg, e a produção começou.

E, aparentemente, não acabou nunca mais - ao todo, consumiria nada menos que cinco anos. Pocahontas é considerado o Clássico Disney de mais difícil realização, com esquemas de cores complexos, formas angulosas e expressões faciais realísticas. "Realístico", aliás, foi a palavra de ordem durante a produção: os roteiristas e animadores pesquisaram tudo o que puderam sobre a época, como armas, vestimentas, costumes, embarcações e, principalmente, o modo de vida dos povos nativo-americanos. A Disney chegou a contratar indígenas para assessorar e orientar a equipe, para que os costumes e a história dos povos que habitavam o continente quando chegaram os colonizadores fosse mostrado da forma mais fiel possível. Curiosamente, parece que isso de nada adiantou, já que o filme sofreu um bombardeio de críticas de ONGs ligadas aos povos indígenas, que reclamaram, principalmente, de o desenho tê-los reduzido a estreótipos equivocados.

Pocahontas também seria criticado pelas alterações feitas pelos roteiristas Carl Binder, Susannah Grant e Philip LaZebnik na história original da indiazinha - que, historicamente, realmente era uma indiazinha, de por volta de dez anos, quando conheceu John Smith, que já tinha 27, enquanto no filme Pocahontas parece adolescente e Smith está em seus vinte e poucos anos. Em defesa da Disney, versões da história nas quais Pocahontas e Smith tinham idade aproximada e eram amantes - e não apenas amigos, como na história real - aparentemente sempre existiram, só não eram levadas a sério.

Na versão Disney, Pocahontas (Irene Bedard falando, Judy Kuhn cantando) é a filha do chefe da tribo Powathan (Russel Means), que vive na América do Norte, onde hoje é a parte dos Estados Unidos conhecida como Nova Inglaterra. Em 1607, chega ao lugar um navio vindo da Inglaterra, comandado pelo Governador Ratcliffe (David Ogden Stiers), que deseja explorar o Novo Mundo em busca de riquezas que aumentarão sua fortuna pessoal. Dentre a tripulação, destaca-se John Smith (Mel Gibson), primeiro a fazer contato com os nativos e aparentemente o único interessado em se tornar amigo deles. Para desespero do Chefe, Pocahontas e Smith se tornam amigos, depois se apaixonam, pondo em risco o noivado da índia com o guerreiro Kocoum (James Apaumut Fall) e a própria sobrevivência da tribo, já que Ratcliffe vê os índios como um estorvo - acha que querem guardar o ouro só para si - e pretende exterminá-los. Pocahontas e Smith, então, terão de lutar contra tudo e contra todos para poder viver seu amor. Vale citar que, em nome da fidelidade histórica, Pocahontas se tornaria o primeiro Clássico Disney no qual o casal de protagonistas não termina junto: ferido por um tiro na perna, Smith precisa ser levado de volta para a Inglaterra, enquanto Pocahontas permanece na América aguardando seu retorno.

Durante a produção, a Disney usou, mais uma vez, modelos vivos para que os animadores se inspirassem na hora de criar os personagens. A modelo de Pocahontas, Irene Bedard, ela mesma nativo-americana, agradou tanto que acabou chamada para dublar a personagem - sua voz cantando, entretanto, não agradou tanto assim, e as músicas de Pocahontas acabaram entregues à atriz da Broadway Judy Kuhn. Já Mel Gibson, convidado para dublar Smith, fez questão de ele mesmo cantar as canções, o que fez com que essa fosse a primeira produção na qual Gibson atuou também cantando. Assim como Bedard, os atores que dublaram os demais índios do filme - Russell Means, James Apamut Fall, Michelle St.John e Gordon Tootoosis - também são todos nativo-americanos. Vale citar como curiosidade que Christian Bale, hoje conhecido como o Batman, também participou do desenho, dublando Thomas, um dos amigos de Smith; dez anos mais tarde, ele e Bedard participariam de outro filme envolvendo a lenda de Pocahontas, O Novo Mundo. Também é curioso que os dois animais amigos de Pocahontas, o guaxinim Meeko e o beija-flor Flit, bem como Percy, o cãozinho de Ratcliffe, no roteiro original, falavam, mas, em nome do realismo, após uma revisão, foi decidido por bem fazê-los mudos. O roteiro original previa ainda um terceiro companheiro animal para Pocahontas, um peru chamado Redfeather, que seria dublado por John Candy. Candy chegou a gravar algumas falas, mas, como faleceu durante a produção, a Disney acabaria optando por remover o personagem do desenho.

A trilha sonora do filme ficaria por conta mais uma vez de Alan Menken, agora em parceria com o veterano da Broadway Stephen Schwartz. Pocahontas conta com sete canções, sendo a principal Colors of the Wind, que ganhou uma "versão comercial" cantada por Vanessa Williams.

Lançado em 23 de junho de 1995, com orçamento de 50 milhões de dólares, Pocahontas renderia mais de 141 milhões, se tornando mais um grande sucesso. Sua pré-estreia, realizada no Central Park para uma plateia de mais de 100 mil pessoas, é até hoje o recorde de público em qualquer sessão de cinema nos Estados Unidos. A crítica também foi bastante favorável, exceto a vinda de ONGs ligadas aos movimentos indígenas. Ganharia dois Oscars, de Melhor Trilha Sonora e Melhor Canção (Colors of the Wind), e seria indicado nas mesmas duas categorias no Globo de Ouro, ganhando o de Melhor Canção. Colors of the Wind ainda ganharia um Grammy, de Melhor Canção Escrita para Televisão ou Cinema. Se é criticado pelo seu enredo, hoje Pocahontas é considerado um dos mais belos desenhos Disney em matéria de planos de fundo e animação.

Pocahontas ganharia uma continuação lançada diretamente em vídeo em 1998, Pocahontas 2: Uma Jornada para o Novo Mundo. Assim como o desenho original, a continuação também é inspirada em eventos reais da vida de Pocahontas, mais precisamente seu casamento com John Rolfe e sua ida para a Inglaterra. Todo o elenco original retornaria para a continuação, exceto Mel Gibson, que não pôde aceitar e acabou substituído por seu irmão menos famoso, Donal Gibson. Graças à continuação, Pocahontas se tornaria a primeira Princesa Disney a ter dois interesses amorosos, ao invés de um amor para a vida toda. Curiosamente, o desenho seria criticado pelos fãs justamente por menosprezar seu amor por Smith.

O Corcunda de Notre Dame
The Hunchback of Notre Dame
1996


Entre 1941 e 1971, foi publicada nos Estados Unidos a revista Classics Illustrated, que publicava grandes clássicos da literatura mundial em formato de histórias em quadrinhos. Foi após ler uma edição dessa revista, dedicada a O Corcunda de Notre Dame, de Victor Hugo, que um executivo da Disney, David Stain, imaginou que a história daria um bom Clássico Disney. Ele apresentou a ideia a Kirk Wise e Gary Trousdale, que haviam acabado de concluir A Bela e a Fera, e perguntou o que eles achavam. Embora ambos já estivessem de olho em outros projetos, ambos adoraram, e começaram a trabalhar no desenho imediatamente - segundo Wise, a obra tinha personagens memoráveis, ambientação fantástica, potencial para lindos planos de fundo e muita emoção, todos os ingredientes que compõem um Clássico Disney de sucesso.

Somente foi necessário diminuir um pouco a dramaticidade da história, para que ela ficasse adequada ao público infantil - originalmente, O Corcunda de Notre Dame é uma história depressiva, que termina com todos os personagens mortos, o que fez com que a Disney fosse alvo de muitas críticas por parte de associações de pais e responsáveis, mesmo depois que o desenho foi concluído com a história atenuada. Os roteiristas Irene Mecchi e Jonathan Roberts, de O Rei Leão foram os escolhidos para transformar uma história originalmente adulta em um desenho Censura Livre, o que fizeram tornando o trio de protagonistas mais alegre e jovial, mudando o vilão de um arcebispo para um juiz, incluindo três gárgulas vivas que serviriam de apoio cômico e, evidentemente, mantendo os protagonistas vivos no final. Mesmo com todas essas alterações, O Corcunda de Notre Dame acabaria sendo um dos Clássicos Disney de clima mais adulto, principalmente por tocar em temas como infanticídio, desejo sexual, profanação, hipocrisia religiosa, preconceito e injustiça social, além de mencionar várias vezes o inferno, algo considerado tabu em desenhos animados nos Estados Unidos. Os produtores chegaram até mesmo a temer que o desenho não fosse classificado como Livre, mas, felizmente, acabou sendo.

Ambientado na França do final do século XV, O Corcunda de Notre Dame tem como protagonista Quasímodo (Tom Hulce), um jovem que nasceu com uma deformidade física. Sua mãe, uma cigana, morreu após ser perseguida pelo Juiz Frollo (Tony Jay), que odeia seu povo e quer expulsá-los de Paris. Frollo pretendia matar também a criança, mas o diácono da Catedral de Notre Dame (David Ogden Stiers, de novo), nas escadas da qual a mãe fora morta, o convenceu a criá-lo como seu filho para expiar seus pecados. Frollo, então, criou Quasímodo dentro de Notre Dame, onde o jovem, isolado do mundo, tinha como únicas companhias os gárgulas Victor (Charles Kimbrough), Hugo (Jason Alexander, de Seinfeld) e Laverne (Mary Wickes, de M*A*S*H*, em sua última atuação antes de falecer).

Vinte anos se passam, e Quasímodo, que tem o hábito de observar as pessoas nas ruas do alto da igreja, se apaixona por uma cigana, Esmeralda (Demi Moore falando, Heidi Mollenhauer cantando). Convencido pelos gárgulas, ele deixa a Catedral e vai para as ruas, onde sofre preconceito, causando a ira de Frollo. Para complicar as coisas, apesar de seu ódio aos ciganos, Frollo também se apaixona por Esmeralda, e, ao mesmo tempo que luta contra seus sentimentos, pretende impedir que ela e Quasímodo fiquem juntos. Para complicar mesmo as coisas, chega à cidade o Capitão Febo (Kevin Kline), que, apesar de ser subordinado a Frollo, não concorda com seus métodos. Febo acaba ele também se apaixonando por Esmeralda, e se tornando amigo de Quasímodo, que tem de lutar contra o homem que o criou se quiser ser livre e que a justiça prevalesça.

Os animadores da Disney passaram quase um mês visitando a verdadeira Catedral de Notre Dame, desenhando rascunhos e tirando fotos, para que a mostrada no desenho fosse a mais fiel possível. Os passeis de Quasímodo pela Catedral, muitas vezes acrobáticos, fizeram extenso uso de uma nova versão do CAPS, capaz de mais detalhes em profundidade e movimento. Computação gráfica também foi usada em algumas cenas, mas a Disney tentou produzir o máximo do desenho com animação tradicional.

A trilha sonora ficaria mais uma vez a cargo de Alan Menken e Stephen Schwartz. Das oito canções do desenho, três são cantadas por Paul Kandel, que dubla o narrador, o artista cigano Clopin. Todo o elenco participou também das canções, à exceção de Demi Moore, que pediu para ser substituída. Curiosamente, a escolhida nos testes para a voz de Esmeralda cantando, Heidi Mollenhauer, era garçonete e cantora em um bar frequentado em Nova Iorque por Wise e Trousdale, e, após sua participação no desenho, jamais dublou novamente. Diferentemente de seus antecessores, O Corcunda de Notre Dame não teve nenhuma de suas canções gravada por um astro pop para ser tocada nas rádios, embora Bette Midler tenha gravado uma versão de God Helps the Outcasts - no desenho, cantada por Esmeralda - que não chegou a ser usada.

O Corcunda de Notre Dame estrearia em 21 de junho de 1996. Com o absurdo orçamento de 100 milhões de dólares - primeiro desenho animado da história a gastar tanto - o filme por pouco não se pagou, rendendo 100.138.851 dólares nos Estados Unidos. Ainda assim, graças a seus ganhos somados no mundo inteiro, que ultrapassaram os 325 milhões, a Disney o considerou um sucesso. A crítica também aceitaria bem o desenho, elogiando-o principalmente por sua coragem em tocar em temas pouco comuns em desenhos animados. Praticamente as únicas críticas desfavoráveis vieram dos fãs da obra original, que acusaram a Disney de a estar corrompendo. Apesar da boa recepção, O Corcunda de Notre Dame só seria indicado ao Oscar e a Globo de Ouro na categoria Melhor Trilha Sonora, perdendo ambos os prêmios - o primeiro para Emma, o segundo para O Paciente Inglês.

Como já está se tornando praxe, O Corcunda de Notre Dame ganharia uma continuação lançada diretamente em vídeo em 2002. Chamada O Corcunda de Notre Dame 2: O Segredo do Sino, ela traz Quasímodo e seu novo amigo, Zéfiro, filho de Febo e Esmeralda (e dublado por Haley Joel Osment, de O Sexto Sentido) tentando impedir o roubo de um dos mais famosos sinos da França por um grupo de criminosos que finge ser uma trupe de teatro itinerante (e que tem um de seus intergrantes dublado por Jennifer Love Hewitt).

0 enfiaram o nariz:

Postar um comentário