segunda-feira, 26 de março de 2012

Alias

Essa semana, olhando para a minha coleção de DVDs, percebi que já falei aqui no átomo sobre quase todas as séries que coleciono. Uma das que estavam faltando é Alias. Não mais.

Minha relação com Alias é, digamos, um tanto estranha. Basicamente, porque eu odeio J.J. Abrams. É um ódio fundamentado em dois motivos: primeiro, porque ele inventa as coisas pela metade. No meu modo de ver, quando você inventa uma história que tem um mistério, você já tem que saber qual é o mistério, e não simplesmente dizer "essa história tem um mistério, mas vamos deixar para decidir qual é depois de uns três anos". Da mesma forma, quando você inventa um cliffhanger, aquelas cenas que "terminam no meio", que deixam o espectador em suspense, você já tem que saber qual é a outra metade, e não simplesmente "a temporada vai terminar com o personagem descobrindo um segredo terrível; ano que vem, quando estivermos filmando o primeiro episódio da temporada seguinte, eu resolvo qual é". Na minha opnião, Abrams é mestre em fazer as duas coisas. Quem discorda, é porque nunca assistiu Lost.

O segundo motivo é que eu acho que ele é superestimado. Quando eu li no jornal que "J.J. Abrams conseguiu fazer um filme de Star Trek que fosse interessante até para quem não é nerd", ri tão alto que acharam que eu estava lendo a seção de quadrinhos. Gostaria de saber quantos não-nerds fãs do filme eles entrevistaram para chegar a essa conclusão. Abrams é tão superestimado que eu conheço pessoas que odeiam Enterprise porque acham que a série cometeu uma blasfêmia ao macular a memória sagrada de Gene Roddenberry, mas aplaudiram a destruição de Vulcano e a criação de uma linha temporal alternativa que ignora todos os eventos da Série Clássica, da Nova Geração, de Deep Space Nine, de Voyager, e até mesmo da Série Animada - ou seja, basicamente, a única série que continua canônica é Enterprise. Nunca entendi isso.

Enfim, Alias até tem muitos dos defeitos de Abrams - os quais eu chamo de "abramsices" - mas, talvez por ser sua segunda série - depois de Felicity, por incrível que pareça - seu ego ainda não estava tão inflado pela superestimação geral, o que faz com que a maioria das abramsices não seja tão absurda quanto, por exemplo, as de Lost. Além disso, quando eu assistia Alias na televisão, ainda não odiava Abrams, o que pode ter influenciado meu julgamento em relação a alguns de seus trabalhos pós-ódio. Eu gosto de Alias, acho uma série interessante, e até perdoo as suas abramsices. Então vamos a um post sobre ela.

Alias, ao contrário do que muita gente pensa - inclusive meu pai - não é o nome da protagonista. Trata-se de uma palavra de origem latina, muito usada na língua inglesa, que costuma ser traduzida para "pseudônimo", mas tem um sentido mais profundo, de uma segunda identidade - quando um policial está infiltrado em uma gangue de criminosos, por exemplo, o disfarce é sua alias. Esse é o nome da série porque, no início, sua protagonista, que se chama Sydney Bristow, atuava como agente dupla, trabalhando para a CIA e fingindo que trabalhava para uma organização terrorista, a SD-6.

A bem da verdade, quando foi recrutada pela SD-6, Sydney (Jennifer Garner) achava que havia sido recrutada pela CIA, e ficou sete anos seguindo as ordens de uma organização terrorista imaginando estar servindo aos interesses do governo dos Estados Unidos. Somente quando seu noivo foi morto pela SD-6 - após Sydney contar a ele que ela era uma espiã por ocasião dele tê-la pedido em casamento, o que a organização decidiu tratar como vazamento de informação - foi que ela começou a perceber que algo estava errado. Ao começar a se comportar erraticamente, Sydney tem sua própria vida ameaçada pela SD-6, que passa a considerá-la também uma ameaça. Ela é salva de um atentado por seu pai, Jack Bristow (Victor Garber), com o qual raramente falava, e que imaginava ser um executivo de uma empresa de aviação, mas que, na verdade, também é agente da SD-6. Ele lhe revela a verdade, e pede que ela continue agindo como se de nada soubesse, senão sua vida estará em perigo. Sydney decide fazer mais que isso: procurando a verdadeira CIA, se oferece para ser uma agente dupla, infiltrada na SD-6. Quando chega a autorização, ela descobre que seu pai também é um agente duplo, com a mesma missão, e que a ajudará a manter seu disfarce.

Tudo isso acontece no piloto. Durante a primeira temporada, que estrearia justamente com esse piloto no canal ABC em 30 de setembro de 2001 e teria 22 episódios, Sydney passa a ter a incumbência de continuar desempenhando as missões da SD-6, escondendo de seus colegas, que também não sabem que não trabalham para a CIA, que trabalha para a verdadeira CIA, enquanto esconde de seus amigos que é uma agente secreta - para todos os efeitos, ela é uma estudante universitária e trabalha no banco Credit Dauphine, que serve de fachada para a SD-6.

Além de Sydney e seu pai, Alias tem um bando de personagens principais, começando por dois colegas de Sydney na SD-6: Marcus Dixon (Carl Lumbly), um pai de família dedicado que acredita piamente que trabalha para a CIA, é o principal parceiro de Sydney nas missões de campo e sua principal dificuldade em esconder que é uma agente dupla; já Marshall Flinkman (Kevin Weisman) é um atrapalhado gênio da computação, que cuida da parte tecnológica da SD-6, desenvolvendo softwares, atuando como hacker, e até construindo as engenhocas que os agentes usam nas missões, como um batom que na verdade é um laser, ou um celular que copia impressões digitais. Na CIA, o contato de Sydney é Michael Vaughn (Michael Vartan), um agente iniciante mas de alguma experiência, que lhe dá as missões e a mantém a par dos acontecimentos; ao longo da temporada, Sydney e Vaughn vão desenvolvendo, também, um relacionamento amoroso. Outro agente da CIA que aparece bastante é Eric Weiss (Greg Grunberg) um amigo de Vaughn, bem-humorado e de bem com a vida. Fora da espionagem, os principais amigos de Sydney são Francis Calfo (Merrin Dungey), sua colega de quarto na faculdade; e o jornalista Will Tippin (Bradley Cooper), que começa a ter sua vida ameaçada quando decide investigar a misteriosa morte do noivo de Sydney.

Personagens recorrentes da primeira temporada incluem o noivo de Francis, Charlie (Evan Parke); a secretária de Will, Jenny (Sarah Shahi); uma agente rival de Sydney, Anna Espinoza (Gina Torres), que trabalha para uma organização criminosa rival, sempre no caminho da SD-6; e a esposa do diretor da SD-6, Emily (Amy Irving), que também acha que o marido trabalha para a CIA e atua como figura materna para Sydney, que perdeu a mãe, Laura Bristow, quando ainda criança.

Não, eu não esqueci do diretor da SD-6, apenas quis deixar para o final. Arvin Sloane (Ron Rifkin) é um ex-agente da CIA, e melhor amigo de Jack Bristow. Desiludido com o governo, ele passa para o outro lado e se torna diretor da SD-6, na qual, além de orquestrar ações criminosas, busca realizar um projeto pessoal: encontrar todo e qualquer artefato relacionado a Milo Rambaldi, uma espécie de Leonardo da Vinci misturado com Nostradamus. Tendo vivido na Itália no século XV, Rambaldi criou vários instrumentos bem à frente de seu tempo, como um coração artificial, polímeros sintéticos, e até mesmo uma bomba de nêutrons. Muitos desses instrumentos foram realmente construídos, para outros foram deixadas "instruções", que podem ser seguidas para construí-los hoje em dia. Além disso, Rambaldi fazia profecias, prevendo, por exemplo, a chegada da Era da Informação. Sloane é obcecado por reunir tudo o que existe sobre Rambaldi, na esperança de que, segundo uma profecia, isso lhe dará alguma espécie de poder. Ao longo da série, a busca pelos artefatos de Rambaldi vai se tornando a trama central, deixando de lado até as tramas de espionagem mais mundanas.

A primeira temporada contou, ainda, com muitos convidados especiais, como Roger Moore no papel de Edward Pole, um dos diretores da Aliança, organização à qual a SD-6 pertence; Quentin Tarantino como McKenas Cole, agente da SD-6 que descobre não ser da CIA da pior maneira, ao ser abandonado durante uma missão, e retorna para se vingar de Sloane; e Terry O'Quinn (o John Locke de Lost) como o Diretor Assistente Kendall, agente do FBI que se mete nos assuntos da CIA após uma certa profecia de Rambaldi ser descoberta.

A primeira temporada não foi exatamente um sucesso, até porque estreou em uma época na qual a ABC sofria com baixa audiência. Ainda assim, recebeu críticas favoráveis e rapidamente se tornou cult, o que foi suficiente para que a ABC desse a luz verde para que se arriscasse mais na segunda temporada, que estrearia em 29 de setembro de 2002, com mais 22 episódios.

Ao longo da primeira temporada, Sydney descobre que sua mãe nem estava morta, nem se chamava Laura. Na verdade, ela é Irina Derevko (Lena Olin), uma agente russa infiltrada na CIA, que, ainda por cima, teria matado o pai de Vaughn. A segunda temporada coloca Irina como co-vilã ao lado de Sloane, e lida com a difícil tarefa de Sydney em lidar com o retorno da mãe. Pelo menos eles decidem livrá-la da tarefa de esconder sua vida de agente dupla: na metade da temporada, a SD-6 é desmantelada em uma ação da CIA, que recruta Dixon e Marshall. Ambos e Sydney, a partir de então, passam a ser agentes só da CIA.

Personagens de destaque da segunda temporada incluem Julian Sark (David Anders), inicialmente capanga de Irina, mais tarde associado de Sloane quando ele foge após o fim da SD-6; e a Dra. Judy Barnett (Patricia Wettig), psicóloga da CIA, com quem os atormentados personagens vão se consultar. Participações especiais incluem Faye Dunaway como Ariana Kane, agente enviada pela Aliança para descobrir quem é o agente duplo na SD-6; Rutger Hauer como Anthony Geiger, que substitui Sloane brevemente como chefe da SD-6; Ethan Hawke como James Lennox, agente da CIA que descobriu um segredo que pôs sua vida em jogo; Christian Slater como Neil Caplan, engenheiro sequestrado por Sloane para montar um dos artefatos de Rambaldi; Danny Trejo (o Machete) como o traficante Emilio Vargas; e David Carradine como Conrad, monge líder de uma ordem religiosa que guarda as profecias de Rambaldi.

O final da segunda temporada traz grandes surpresas: Will Tippin, que, ao longo da temporada, descobriria que Sydney é agente da CIA, seria contratado ele mesmo como analista e passaria a ter sua vida mais ameaçada que nunca, seria colocado no programa de proteção a testemunhas, o que faria com que ele e Francis deixassem a série. Mais que isso, Sydney, desmaiada após uma briga contra uma agente inimiga, acordaria nada menos que dois anos depois, sem nenhuma memória do que teria ocorrido nesse espaço de tempo.

A terceira temporada, que estrearia em 28 de setembro de 2003 com mais 22 episódios, portanto, é ambianteda dois anos após o final da segunda. Dixon é agora diretor da CIA, Sloane deixou o crime de lado e é presidente de uma organização filantrópica, e Vaughn, achando que Sydney estava morta, se casou com Lauren Reed (Melissa George), uma agente do Conselho de Segurança Nacional. Os vilões agora são uma organização conhecida como Covenant, que deseja usar os textos de Rambaldi para dominar o mundo.

A principal trama da terceira temporada, portanto, envolve Sydney tentando se adaptar a essa nova realidade, enquanto tenta descobrir o que teria acontecido com ela nesses dois anos. Dentre as participações especiais destacam-se Vivica A. Fox como a criminosa Toni Cummings, Djimon Hounsou como o terrorista Kazari Bomani, Ricky Gervais como o construtor de bombas Daniel Ryan, e Isabella Rossellini como Katya Derevko, tia de Sydney, que a princípio parece estar disposta a ajudar a CIA, mas na verdade tem seus próprios interesses.

No final da temporada, Sydney ainda descobre que tem uma meio-irmã, Nadia Santos (Mia Maestro), resultado de um caso entre Sloane e Irina, e que, desconhecendo seu passado, vive como agente da Inteligência Argentina em Buenos Aires. Apesar de protestos contrários - baseados em uma profecia de Rambaldi que diz que as duas lutariam até a morte de uma delas - Sydney salva Nadia da Covenant, e, após descobrir a verdade, a jovem decide ela também se tornar agente da CIA.

A estreia da quarta temporada atrasaria, devido a um problema de grade: originalmente, Alias ia ao ar aos domingos às nove da noite, mas, em 2004, a ABC decidiria colocar Desperate Housewives, que teria sua primeira temporada, justamente nesse horário. Foi difícil convencer Abrams a aceitar outro horário para a série, o que fez com que a estreia da quarta temporada, novamente de 22 episódios, só acontecesse em 5 de janeiro de 2005. Curiosamente, o horário que Abrams acabou aceitando foi o de quarta-feira às nove da noite - imediatamente após Lost, que ia ao ar às oito, e também estreou no final de 2004. A mudança de horário, o início tardio e a "sessão dupla" com Lost acabaram sendo bons para Alias, que teve em sua quarta temporada sua maior audiência.

A quarta temporada começa com a primeira grande abramsice da série, um cliffhanger da terceira temporada resolvido, na minha opinião, da forma mais boçal possível. A temporada ainda teria outras duas abramsices gigantescas, mas não vou entrar em detalhes. Até porque talvez seja só minha opinião.

Seja como for, nessa nova temporada Sydney é desligada da CIA para integrar uma nova organização, a APO (de authorized personnel only, "somente pessoal autorizado"). Na verdade um braço da CIA, que oficialmente não existe, e trata de assuntos nos quais a CIA oficialmente não pode se meter, a APO é dirigida por Hayden Chase (Angela Basset), que raramente aparece, ficando o comando de fato nas mãos de, acreditem ou não, Sloane. Convenientemente, também são recrutados para a APO Jack Bristow, Michael Vaughn, Eric Weiss, Marcus Dixon, Marshall Flinkman e Nadia Santos. Isso faz com que a quarta temporada seja até bem parecida com a primeira, tirando o fato de que Sydney não é agente dupla.

As principais tramas da quarta temporada envolvem o relacionamento amoroso entre Sydney e Vaughn ou o relacionamento fraterno entre Sydney e Nadia. No começo, Rambaldi é até esquecido, mas na metade da temporada surge um novo vilão (Joel Grey), tão obcecado por Rambaldi quanto o próprio Sloane, e que aparentemente está ligado a Elena Derevko, tia de Sydney e mais cruel das irmãs Derevko, da qual ninguém na APO conhece a verdadeira face. Participações especiais da quarta temporada incluem Michelle Forbes como a Dra. Maggie Sinclair, física sequestrada para realizar um dos experimentos de Rambaldi; e Sônia Braga como Sophia Vargas, a dona do orfanato argentino no qual Nadia foi criada.

A quinta temporada de Alias estrearia em 29 de setembro de 2005, mas não conseguiria manter a boa audiência da quarta. Na verdade, a audiência cairia drasticamente a cada semana, colocando a série em sério risco de cancelamento. Muitos atribuem essa queda na audiência a uma nova mudança de horário, já que a temporada estrearia numa quinta-feira às oito da noite. Para tentar levantar a audiência, a ABC mudaria o horário para quarta às dez, depois para quarta às oito, mas não teria jeito. Com audiência cada vez pior, a temporada seria encurtada para apenas 17 episódios, com o último indo ao ar dia 22 de maio de 2006, uma segunda-feira, às nove da noite.

A quinta temporada começa com mais uma abramsice, e traz uma penca de personagens novos: a gênio da informática Rachel Gibson (Rachel Nichols); o agente da CIA recrutado para a APO Tom Grace (Balthazar Getty), que guarda um segredo em seu passado; a ladra internacional Renée Rienne (Élodie Bouchez), que trabalhava secretamente com Vaughn em uma investigação; e a agente Kelly Peyton (Amy Acker), que trabalha para a organização criminosa antagonista da vez, conhecida como "o Abrigo".

Sydney continua trabalhando na APO, envolvida com artefatos de Rambaldi e lidando com problemas familiares envolvendo seus pais e Vaughn, de quem engravida - Garner ficaria grávida de verdade, o que resultaria em mudanças nos roteiros e atrasos nas gravações, o que teria contribuído ainda mais para a queda de audiência. A principal missão da APO na quinta temporada é deter um projeto conhecido como Profeta-Cinco, no qual o Abrigo também tem interesse.

Apesar do cancelamento, Alias continuou popular e com muitos fãs. A popularidade da série ainda é tão alta que, em 2010, a ABC pensou em fazer um remake, mas mais centrado na espionagem e na vida de Sydney como agente dupla, sem qualquer referência a Rambaldi. A ideia acabou não sendo levada a diante, principalmente porque os executivos do canal acharam que era muito cedo para algo do tipo.

Eu também acho que é cedo. Se bem que fico curioso para saber como seria a vida de Sydney Bristow sem Rambaldi e sem abramsices.

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