segunda-feira, 18 de abril de 2011

Toei Heroes (III)

Hoje temos mais um post dedicado aos heróis clássicos da Toei, principal produtora de tokusatsu do mundo, no qual veremos três séries do início da década de 1970.

Suki! Suki!! Majou Sensei
1971


Como vimos no post anterior, em 1967 a TV Asahi procuraria a Toei com uma proposta de exclusividade, segundo a qual todos os seus tokusatsu seriam exibidos pelo canal. A Toei não se interessaria, e preferiria produzir tokusatsu para a Asahi seguindo o contrato padrão, o que a deixaria livre para receber propostas de outros canais. Por incrível que pareça, ambos os lados saíram ganhando com essa recusa: em 1971, a Toei ofereceria à Asahi uma nova série, chamada Kamen Rider, cujo sucesso faria com que a emissora se tornasse sua principal parceira, o canal no qual a Toei exibiria a maior parte de seus seriados, que, tirando uma ou outra exceção, sempre garantiriam à Asahi boa audiência. E, como queria, a Toei pôde se manter no ar em dois canais diferentes ao mesmo tempo, já que, pouco depois da estreia de Kamen Rider, receberia uma proposta para criar uma série para o canal ABC (que significa Asahi Broadcasting Corporation, mas não tem nada a ver com a TV Asahi, que, na época, ainda se chamava NET, nem com a ABC dos Estados Unidos).

Suki! Suki!! Majou Sensei (que traduz para algo como Nós Te Amamos, Professora Bruxa!) era uma adaptação de um mangá muito famoso na época, chamado Sen no Me Sensei, a "professora de mil olhos". Escrito por Taro Akira e publicado desde 1968 na revista semanal Teen Look, o mangá era destinado às meninas, e tinha como protagonista a professora Hikaru Tsuki. Secretamente uma alienígena de um universo distante (!), Hikaru tinha incríveis poderes, que incluíam a capacidade de voar e de encolher objetos ao seu bel-prazer. Ela até usava esses poderes para combater o crime, mas sua principal atividade era agir como conselheira e amiga de uma turma de estudantes recém-transferidos para uma escola do Ensino Fundamental de Tóquio. O mangá lidava com problemas típicos da pré-adolescência, como a descoberta do amor e o bullying, com a professora Hikaru fazendo o seu melhor para ajudar seus alunos a superar essa tão conturbada fase da vida - e de vez em quando usando seus poderes para punir os alunos mais levadinhos.

A série em tokusatsu foi criada por Shotaro Ishinomori (mesmo criador de Kamen Rider) e teve 26 episódios, que foram ao ar de outubro de 1971 a março de 1972. Até a metade da série (metade mesmo, até o episódio de número 13, que ainda por cima foi o último ao ir ao ar em 1971), o tokusatsu era bastante fiel ao mangá. Exceto por uma ou outra intervenção de um monstro espacial, a principal função de Hikaru era aconselhar as crianças, e, quando ela usava seus poderes, continuava com sua aparência normal.

Em determinado momento, entretanto, alguém deve ter achado que isso não estava muito "tokusatuesco", e, no episódio 14, Hikaru ganhou uma identidade secreta, a da heroína Andro Mask (curiosamente, "andro" é um prefixo mais usado para características masculinas; talvez o mais correto fosse "Gino Mask"), um arqui-inimigo, Phantom, e os episódios passaram a se comportar como um tokusatsu normal, cada um com um monstro da semana e com a principal função de Hikaru sendo combatê-los, com as pobres das crianças ficando em segundo plano.

Apesar dessa meio-bagunça, Majou Sensei foi uma série de grande sucesso, muito elogiada por seus efeitos especiais e por seu figurino caprichado - enquanto o Kamen Rider vestia um casaco Adidas e se transformava com um efeito tosco, Andro Mask tinha um lindo uniforme e se transformava com efeitos que só seriam vistos em séries da Toei anos mais tarde. Além disso, Majou Sensei foi visionário, já que outro seriado de ação destinado a meninas e protagonizado por uma mulher não estrearia no Japão até 1985, quando a própria Toei adaptaria o mangá Sukeban Deka (a "colegial detetive"), cuja protagonista é uma estudante que também é agente secreta.

Graças a Majou Sensei, a atriz que interpretava a professora Hikaru, a linda ex-modelo Yoko Kiku, se tornaria uma das atrizes mais famosas e requisitadas do Japão, estrelando dezenas de séries e filmes nos quatro anos seguintes. Infelizmente, em 1975, aos 24 anos, Yoko morreria enforcada por seu namorado em sua própria casa. À polícia, ele diria ter ciúmes de sua carreira, e ter tido um acesso de fúria quando ela disse que desejava terminar o namoro.

Chojin Barom-1
1972


No final de 1971, graças ao sucesso do Kamen Rider, a Toei foi procurada por executivos da TV Yomiuri. Conhecido por exibir anime, o canal achou que seria um bom momento para investir em tokusatsu, e quis que a mesma companhia do Cavaleiro Mascarado fosse a responsável pela produção de seu primeiro seriado. Após conversas entre o diretor do departamento de TV da Toei e o produtor da Yomiuri, chegou-se a uma definição sobre como seria a série, e que ela seria, mais uma vez, a adaptação de um mangá de sucesso - aparentemente porque em time que está ganhando não se mexe.

Barom One foi um mangá de relativo sucesso, escrito por Takao Saito e publicado durante quase todo o ano de 1970 na revista semanal Shukan Bokura Magazine. Curiosamente, o herói e personagem título era pouco mais que uma cópia do National Kid (que, por sua vez, tinha muito em comum com o Super-Homem): um alienígena com superforça e capaz de voar, que usava como armas duas pistolas de raios e defendia a Terra de ameaças do espaço sideral. Quando Barom One foi escolhido como mangá a ser adaptado, entretanto, Shotaro Ishinomori fez as modificações necessárias para que a série tivesse as características que já estavam estabelecidas como próprias do tokusatsu, como os monstros da semana e o henshin (a transformação do protagonista sem poderes em um herói mascarado). O resultado foi que o tokusatsu acabou ficando completamente diferente do mangá, com os únicos pontos em comum sendo os nomes do herói e do vilão. Apesar de ter dado cara nova à série, desta vez Ishinomori não se envolveu com a produção, que ficou a cargo de Akira Hirayama, que trabalhava com Ishinomori em Kamen Rider.

No universo de Barom-1 existem duas forças opostas que vagam pelo universo: Doruge é a encarnação do mal, existindo para criar caos, conflito e destruição; enquanto Kopu é a força do bem e da paz. Um dia, Doruge chega à Terra, e começa a infectar as criaturas do planeta com suas células malignas, que fazem com que elas se transformem em monstros. Durante o primeiro ataque desses monstros, dois jovens amigos, Takeshi Kido e Kentaro Shiratori são salvos por Kopu. Kopu lhes revela que eles são parte de uma antiga profecia, e que receberão poderes para proteger a Terra e acabar com a ameaça de Doruge de uma vez por todas. Com esses poderes, toda vez que os amigos dão as mãos, se transformam no Super-Homem Barom-1.

Barom-1 tem dois metros de altura, superforça, é imune a doenças e venenos, pode resistir a calor e frio intensos, correntes elétricas, à pressão esmagadora do fundo do mar e até ao vácuo do espaço. Apesar de ele ter uma certa personalidade própria, ambos os amigos continuam no controle durante a transformação, com o brilhante Kentaro sendo responsável por sua inteligência e o atlético Takeshi por sua coordenação motora. Nessa dualidade é que está o principal ponto fraco de Barom-1: os amigos devem estar sempre em perfeita sincronia para que o herói atue; se eles se desentenderem ou brigarem entre si, a transformação cessa imediatamente, e eles voltam apenas a ser dois estudantes. Se eles estiverem de mal ou brigados, não conseguem nem fazer com que a transformação ocorra.

O arqui-inimigo de Barom-1, Doruge, é uma criatura espacial semi-sólida e com poderes telepáticos, que cria os monstros da semana (chamados Dorugeman) injetando suas próprias células em criaturas da Terra. Doruge pode assumir aparência humana, na qual posa como um homem rico em uma cadeira de rodas, que conta com dois servos humanos para fazer parte de ser trabalho sujo. Além desses servos e dos monstros da semana, ele conta com um exército de estranhas criaturas chamadas Antoman, que brotam do chão para espalhar destruição e levar porrada de Barom-1.

Barom 1 teve 35 episódios, exibidos entre abril e novembro de 1972. Em dezembro de 2002, em comemoração pelos 30 anos da série, Barom-1 ganhou uma versão em anime, produzida pela Enoki Films com 13 episódios (se eu não me engano, chegou a passar aqui no Brasil no Animax). A história é mais ou menos a mesma do tokustasu, mas, no anime, a força do mal se chama Gaumont, e chega à Terra no dia em que Kentaro e Takeshi nascem - ambos no mesmo horário. Quando os dois amigos completam 14 anos, as criaturas malignas de Gaumont começam a atacar, e então eles recebem a visita de Kopu, que lhes dá braceletes que permitem que eles se transformem em Barom-1.

Henshin Ninja Arashi
1972


Em 1972, a Toei já era um estúdio respeitado, procurado por todos os canais do Japão para a produção de tokusatsu e anime. Lá em 1967, entretanto, quando ela decidiu retornar ao mercado, quem apostou em seu seriado de ninja foi a TV Fuji. Assim, quando a TV Fuji procurou a Toei com um novo seriado de ninja em mente, ela não se negou a produzi-lo, mesmo já estando envolvida com Kamen Rider, Majou Sensei, Barom-1 e Kikaider - que também estrearia na TV Asahi em 1972.

No melhor estilo japonês, além de aceitar a tarefa por uma questão de honra, a Toei ainda quis fazer o melhor trabalho possível: quando a TV Fuji disse que, dessa vez, seria um seriado de ninja mais tradicional, com respeito aos dados históricos, sem os elementos fantásticos de Akakage, a Toei separou uma equipe de pesquisa especialmente para estudar o Japão feudal e a vida dos verdadeiros ninjas. Locações no interior, incluindo castelos, foram selecionadas a dedo. Na verdade, o seriado estava ficando tão realístico que a TV Fuji mudou de ideia, e pediu que a Toei inserisse alguns elementos fantásticos, com medo de as crianças e adolescentes não se interessarem pela série se ela não os tivesse. O resultado dessa pitada fantástica em uma série que seria originalmente um drama histórico foi Tempestade, o Ninja que se Transforma.

Em meados do século XVII, o maligno clã ninja Chisato lança uma ofensiva para dominar todo o Japão. Secretamente, o clã é comandado pelo demônio Dai Maoh, que planeja dominar todo o planeta. Um dia, o jovem Hayate, cuja família serviu ao clã por gerações, descobre esse terrível segredo. Hayate, então, deixa o clã, e passa a lutar contra eles, para tentar frustrar os planos de Dai Maoh. A ele mais tarde se unem um ninja do clã Iga, rival dos Chisato, chamado Tatsumaki; a filha de Tatsumaki, Kazumi, que possui conhecimentos médicos e por quem Hayate acaba se apaixonando; o garoto Tsumuji, irmão de Kazumi, um ninja em treinamento que, adivinhem, costuma se meter em algumas confusões; e o misterioso Tsukinowa, um espadachim mascarado com um arsenal quase infinito de espadas, machados e lâminas, que veio do oeste para enfrentar os Chisato. Hayate conta ainda com a valiosa ajuda de seu cavalo Hayabusa e do espírito de seu pai, que surge para aconselhá-lo em momentos de necessidade.

Hayate já é um ninja completo, com todas as habilidades que um ninja pode ter, mas ainda possui uma habilidade secreta: ao se concentrar e pronunciar uma frase secreta, o cérebro de Hayate produz ondas de energia que reconfiguram as células de seu corpo (ok, era pra ser uma pitada de fantasia, alguém aparentemente errou a mão), transformando-o no ninja Arashi ("tempestade"), que, apesar de uma armadura meio ridícula, possui agilidade e velocidade incomparáveis, além da habilidade de lançar raios mágicos pelos olhos uma vez por episódio. Os poderes de Arashi são necessários para enfrentar os ninjas e as estranhas criaturas do clã Chisato, que, imbuídos de magia negra, se mostram fortes demais para que Hayate os derrote apenas com suas habilidades de ninja. Curiosamente, parece que as ondas cerebrais de Hayate não alteram apenas as células de seu corpo, mas também as de seu cavalo, já que, toda vez que ele se transforma em Arashi, Hayabusa ganha um uniforme de batalha.

O clã Chisato é composto de 200 ninjas, teoricamente liderados por Majin Sai, que, através de um antigo livro de fetiços, conseguiu acesso a técnicas que o tornam praticamente invencível. Outro membro de destaque do clã é Gaikotsu Maru (o "esqueleto"), que usa uma máscara de caveira, um chicote como arma e, graças à magia negra de Majin Sai, é imortal. Além dos ninjas tradicionais, o clá se utiliza de criaturas chamadas Keshin, ninjas monstrusosos criados por magia negra, e, mais para o final da série, dos Akuma Doujin, demônios enviados diretamente por Dai Maoh. Dai Maoh é o verdadeiro líder do clã, um demônio que deu o conhecimento proibido a Majin Sai em troca do uso dos ninjas para dominar o Japão e, mais tarde, o mundo, erradicando a humanidade.

Henshin Ninja Arashi estreou apenas cinco dias depois de Barom-1, mas teve vida mais longeva, tendo 47 episódios e um filme, que, na verdade, foi uma nova versão do episódio 6, com cenas excluídas reinseridas e reformatado em widescreen. Como curiosidade, vale citar que, entre julho e novembro de 1972, a Toei teve quatro seriados no ar ao mesmo tempo em três canais diferentes: Kamen Rider e Kikaider na TV Asahi, Barom-1 na TV Yomiuri e Arashi na TV Fuji.

Logo depois da estreia do tokusatsu, Shotaro Ishinomori (sempre ele) achou que seria legal se Arashi também tivesse um mangá, e decidiu ele mesmo escrever um. Apesar de ainda ter Arashi, o mangá é bem menos fantástico que o tokusatsu, sem a presença de demônios ou espíritos - embora alguns membros do clã Chisato tenham a capacidade de se transformar em animais. O mangá teve 24 edições, com as 12 primeiras sendo publicadas na revista Weekly Shonen Magazine e as 12 seguintes na Kibo no Tomo, com o nome de New Henshin Ninja Arashi. Cada metade (cada 12 edições) é uma história completa, com início, meio e fim.

Um mês após o lançamento do mangá de Ishinomori, o autor Ken Ishikawa decidiu escrever um também, que chamou de Henshin Ninja Arashi Gaiden ("gaiden" é um termo japonês que significa algo como "história alternativa"). Mais fiel ao tokusatsu, esse segundo mangá foi publicado na revista Bouken Oh (o "rei da aventura"), e teve 17 edições. Exceto por reedições dos três mangá (a mais recente de New Henshin Ninja Arashi é de 1998), Arashi não deu mais as caras desde então.

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