segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

Toei Heroes (I)

Não é mais segredo para ninguém que tokusatsu estão dentre meus assuntos preferidos para posts aqui no átomo. Mesmo assim, jamais tive a real intenção de falar sobre todos eles. Primeiro porque, evidentemente, eu não gosto de todos: alguns eu nunca vi, então não posso dar minha opinião; outros eu vi alguns episódios e achei bem ruins; e outros ainda, mesmo sem nunca ter visto, cheguei à conclusão de que não são lá essas coisas.

O segundo motivo é que existem muitos tokusatsu diferentes, então seria uma tarefa bastante ingrata tentar falar de todos. Creio já ter dito aqui uma vez que existem mais tokusatsu do que crateras na Lua. Talvez seja um exagero, mas é fato que existem muitos, muitos deles mesmo: produzidos desde a década de 1960, os tokusatsu se mantêm no ar praticamente de forma ininterrupta, com um novo estreando assim que o antigo finaliza.

Ainda assim, ultimamente, sempre que finalizo um post sobre tokusatsu, me dá vontade de fazer outro: ao terminar a segunda série dos Metal Heroes, fiquei com vontade de falar de Kikaider. Ao falar sobre Kikaider, senti vontade de falar sobre mais alguns desses tokusatsu mais antigos, quando eles não eram tão "padronizados" quanto os sentai e kamen riders de hoje.

Para não ter de fazer um monte de posts separados, minha técnica foi bem simples: fazer uma nova série, dessa vez falando sobre os tokusatsu produzidos pela Toei. Responsável pela produção dos sentai e kamen riders, bem como de Kikaider e dos Metal Heroes, a Toei é o principal estúdio japonês em matéria de tokusatsu. Para efeitos de comparação, se tokusatsu fossem novelas brasileiras, a Toei seria a Globo: os outros canais até produzem novelas, mas somente a Globo põe no ar há quase 50 anos uma depois da outra, e sempre mais de uma de cada vez.

Assim, começa a hoje a série dos Toei Heroes - por falta de um nome melhor - que falará sobre os tokusatsu produzidos pela Toei que não se enquadram nas três maiores categorias do estúdio - Sentai, Metal Heroes e Kamen Rider. Como de costume, esses posts serão intercalados com outros assuntos, para que ninguém que não gosta de tokusatsu fuja daqui enquanto o assunto não tiver acabado.

E, talvez seja desnecessário dizer, mas a série dos Toei Heroes só falará sobre tokusatsu que ainda não foram abordados aqui no átomo. Em outras palavras, nela vocês não verão nenhum Sentai, Metal Hero ou Kamen Rider, bem como não falaremos sobre Machineman, Robocon ou Kikaider, e nem sobre a série de tokusatsu da Sailor Moon.

Dito isso, comecemos!

Nanairo Kamen
1959


Fundada em outubro de 1950 com o nome de Tokyo Eiga Haikyu ("companhia destribuidora de filmes de Tóquio"), de onde, seis anos depois, tiraria seu novo nome, a Toei era, originalmente, apenas uma distribuidora, sem produção própria. Os eventos que a levariam a começar a produzir seus próprios filmes para o cinema e televisão se confundem com a própria história do tokusatsu.

Em 1958, estrearia na TV japonesa Gekko Kamen, ou "Máscara do Luar". Oficialmente o primeiro seriado de tokusatsu para a TV da história (na verdade, houve um outro herói anterior a ele, Supergiant, mas que fez sua carreira apenas no cinema), Gekko Kamen era considerado "a resposta japonesa ao Batman", assim como Supergiant era uma resposta ao Super-Homem: enquanto Supergiant voava por aí de collant e capa, resolvendo crimes com superforça e visão de calor, Gekko Kamen era um herói sem poderes, que combatia o crime com artefatos de alta tecnologia conseguidos através de sua grande fortuna pessoal. Gekko Kamen teve vida longeva, com 131 episódios exibidos na TV entre 1958 e 1959, conquistando um grande número de fãs leais. Mas o que nos interessa hoje é que, como na época ainda eram poucos os lares japoneses que contavam com televisão, os produtores decidiram que Gekko Kamen atingiria a um público maior se, além da série para a TV, tivesse também filmes para o cinema.

A série de TV de Gekko Kamen era produzida pela Senkosha, que, antes de se aventurar pelo gênero (sem trocadilho) era uma empresa de publicidade. Sem o know-how necessário na área do cinema, ela recorreu à Toei para produzir seis filmes, que eram pouco mais que adaptações para a tela grande de histórias que já haviam sido abordadas em arcos da série. Os filmes fizeram grande sucesso, o que levou a Toei a decidir apostar não somente no cinema - no ano seguinte ela faria a adaptação de outra série da Senkosha, Yusei Oji - mas também em sua própria série de tokusatsu para a televisão.

Assim surgiria Nanairo Kamen, o "Máscara das Sete Cores", primeiro herói da Toei, cuja série teve 57 episódios exibidos entre junho de 1959 e junho de 1960. Criado por Kohan Kawauchi, mesmo criador do Gekko Kamen, Nanairo Kamen abandonaria as cópias de super-heróis norte-americanos, ajudando a estabelecer o estilo próprio dos tokusatsu japoneses.

Nanairo Kamen é, na verdade, o detetive Kotaro Ran, que, sem que nem mesmo sua família ou amigos saibam, é um mestre do disfarce. Quando Tóquio é ameaçada por uma organização criminosa liderada pelo misterioso Phantom Rose King, ele decide utilizar suas habilidades para combatê-la lutando pela paz e pela justiça.

Ran não é o "Máscara das Sete Cores" por acaso: apesar de ser um mestre do disfarce, ele só é capaz de se disfarçar de sete personagens diferentes. Seis deles são até caricatos e não servem para muita coisa, como um marinheiro, um mágico e um indiano, mas o sétimo disfarce é praticamente uma transformação, a roupa de Nanairo Kamen, com a qual Ran leva o terror ao coração de seus inimigos, armado com suas duas pistolas.

Como era comum na época, os 57 episódios de Nanairo Kamen se dividiam em sete "sagas", sete arcos de história completos, sendo que até os vilões mudavam de um arco para outro. Além de Phantom Rose King e de seus sete guerreiros mascarados, portanto, nosso herói se viu às voltas com a Sociedade Secreta Phantom Black Hand, cujo líder, Red Jaguar, planejava controlar toda a venda de diamantes do planeta, e com o misterioso Sarenga, que planejava dominar o Japão usando aranhas venenosas. Além dos episódios para a TV, Nanairo Kamen teve um filme para o cinema, que na verdade era uma adaptação da quarta saga, na qual os vilões eram conhecidos como Três Ases, e usavam equipamentos baseados nas cartas do baralho.

Com efeitos especiais bastante amadores, filmado em preto e branco, e lançado em uma época em que quase ninguém tinha televisão no Japão, Nanairo Kamen não faria muito sucesso. Seu criador, entretanto, o reformularia e o relançaria em 1972, rebatizado Ai no Senshi Rainbowman (o "Guerreiro do Amor Homem do Arco-Íris", algo que hoje em dia talvez gerasse muitas piadas sobre sua opção sexual), em uma série produzida pela Toho, roval da Toei, de 52 episódios. Rainbowman se tornaria um dos heróis mais populares do Japão, e inspiraria não somente Go Nagai a criar Cutey Honey, mas também Keiji Inafune a criar Megaman - antes de optar por Rockman, aliás, a Capcom japonesa planejava chamar o robozinho azul de Rainbowman, e só não o fez por temer problemas com direitos autorais.

National Kid
1960


Enquanto produzia Nanairo Kamen, a Toei foi procurada pela Panasonic, que na época se chamava National. Inusitadamente, a empresa desejava patrocinar um tokusatsu, tornando seu herói garoto-propaganda da marca, e exibindo seus produtos durante a série. A National financiaria todo o seriado, mas daria à Toei liberdade quase total em relação a roteiros e elenco - a única exigência, como já foi dito era que os produtos National tivessem posição proeminente nos episódios.

Assim nasceu National Kid, o "Garoto da National". Criado por Daiji Kazumine, um famoso escritor de mangá da época, e que mais tarde criaria também o Spectreman, o herói usava um extravagante uniforme, que incluía capa, máscara e capacete, trazia uma enorme letra N no meio do peito, e enfrentava os vilões com sua pistola de raios, além de poder voar, se teletransportar e de ser praticamente indestrutível.

Diferentemente de Nanairo Kamen, National Kid voltaria a se inspirar nos heróis norte-americanos, mais especificamente no Super-Homem. Assim como este, National Kid também era um alienígena, nativo da Galáxia de Andrômeda. Apaixonado por nosso planeta, que vislumbrou em uma de suas viagens pelo espaço, e dotado de um enorme senso de justiça, ele decidiu fixar residência aqui, para proteger a Terra de todos os perigos. Adotando a identidade secreta do Professor Massao Hata (que no original se chamava Ryusako, mas os dubladores optaram por mudar para evitar piadinhas de mau gosto), National Kid logo fez amizade com um grupo de garotos - não por acaso, todos alunos de Massao - que formavam uma equipe de detetives-mirins, chamando o herói - através de um rádio National - toda vez que percebiam que o planeta estava em perigo. Além das crianças, que atendiam pelos nomes de Goru, Kurazu, Yukio, Kioko e Tomohiro, National Kid tinha outros valorosos aliados, como o cientista Dr. Mizuno, o delegado Takakura e Chiako, a linda assistente do Professor Massao. Todos com muitos aparelhos National em suas casas, laboratórios e escritórios.

National Kid teve 39 episódios, exibidos entre agosto de 1960 e abril de 1961. Como de costume, esses episódios se dividiam em cinco sagas, sendo que, em cada uma, National Kid enfrentava inimigos diferentes.

A primeira saga, talvez a mais famosa, mostra National Kid enfrentando os Incas Venusianos (que, no original, eram apenas Incas, mas na dublagem alguém deve ter pensado que fazê-los nativos de um planeta vizinho seria mais dramático). Governados pela Imperatriz Aura, com um misterioso Z no meio do peito ("zincas"?) e com sua inconfundível saudação "awika!", os Incas Venusianos desejavam nada menos que aniquilar toda a população da Terra, em retaliação por nosso planeta ter desenvolvido a bomba atômica. Foram os oponentes de National Kid durante os 13 primeiros episódios.

Nos 9 episódios seguintes, correspondentes à segunda saga, National Kid enfrentaria os Seres Abissais, oriundos não do espaço sideral, mas das profundezas do nosso próprio oceano. Comandados por Nelkon, o Demônio do Reino Abissal, os Seres Abissais tinham um enorme submarino em forma de peixe, chamado Guilton (mas também conhecido como Celacanto), que, agitando suas barbatanas, fazia imensos maremotos, o que daria origem à célebre frase "Celacanto provoca maremoto", uma espécie de meme do final da década de 1970, que podia ser encontrada pichada em vários muros da cidade do Rio de Janeiro.

Na terceira saga, de 8 episódios, National Kid se viu às voltas com o Império Subterrâneo, governado por Hellstar, que fez um pacto com o maligno cientista Dr. Kuroiwa. Após permanecer por milênios escondido da população japonesa, o Império Subterrâneo está ameaçado de extinção, pois seu sol artificial, que lhes permite viver nas profundezas da Terra, está se esgotando. Sempre disposto a encontrar uma chance para dominar o Japão, mesmo que para isso precise se vender a seres subterrâneos, o Dr. Kuroiwa se propôs a ajudá-los a encontrar o raríssimo mineral Cobálcio, que daria poderes a Hellstar para conquistar a superfície e salvar seu povo.

A quarta saga, de 5 episódios, começa com a chegada à Terra de Taro, o garoto espacial, nativo do planeta Mirzan. Revoltado com a interferência de National Kid, Hellstar vai até Mirzan e diz a seus governantes que a Terra é um planeta belicoso e perigoso. Os mirzanianos então decidem destruir a Terra, mas Taro convence seu pai a dar-lhes uma chance, enviando-o até aqui para que ele estude os terráqueos e decida se eles são mesmo perigosos ou não. Infelizmente, a nave de Taro é destruída acidentalmente quando ele chega, e, sem nenhum contato do filho, o pai imagina que os terrestres lhe fizeram mal, e decide pela destruição do planeta. Taro, entretanto, é salvo pelos alunos do professor Massao, que lhe mostram que o povo da Terra é pacífico. Mas os subterrâneos farão de tudo para impedir que ele se comunique com seu pai até ser tarde demais.

Finalmente, na quinta e última saga, de 4 episódios, surgem os Zarrocos do Espaço, seres de narizes finos que controlavam Giabra, um monstro semelhante ao Godzilla, e planejavam usá-lo para destruir Tóquio e Osaka, sendo impedidos mais uma vez por National Kid. Ao final dessa saga, com a Terra finalmente em paz, National Kid revela sua verdadeira identidade para seus alunos, e retorna para seu planeta natal.

No Japão, National Kid não foi um seriado de sucesso. Com atores essencialmente amadores, e ainda tendo de trocar de protagonista no meio da série devido a problemas de saúde do intérprete original do Professor Massao, a série não conseguiu boa audiência, nem deu à National o retorno esperado. No Brasil, por outro lado, National Kid, que começou a ser exibido em 1964, foi um sucesso gigantesco: centenas de crianças corriam pelas ruas de braços abertos cantando o tema da série - ou pelo menos o que elas imaginavam ser o tema da série, já que era cantado em japonês. Em seis anos de exibição, sempre teve boa audiência, e só foi retirado do ar graças a um ato da censura, que, em 1970, proibiu todos os seriados que mostrassem heróis voadores, sob o argumento de que eles incentivavam as crianças a pular da janela imitando-os.

Até hoje, National Kid permanece vivo na memória dos que viveram aquela época, e é um dos tokusatsu mais conhecidos no Brasil. Para espanto de Nagayoshi Akasaka, diretor e roteirista da série, que, quando visitou nosso país em 1993, para divulgar um outro trabalho que não tinha nada a ver com isso, foi inundado de perguntas dos jornalistas sobre National Kid.

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