quinta-feira, 10 de junho de 2010

Futebol (I)

Quando eu comecei o átomo, tinha uma tendência de falar de assuntos que eu julgasse pouco conhecidos, pois achava que conseguiria trazer mais novidades sobre eles, tornando-os mais interessantes. Com o tempo, talvez por escassez de assunto, essa tendência foi minguando, e eu passei a escrever também sobre coisas mais famosas. E acabei descobrindo que também podia dizer um monte de coisas interessantes e pouco conhecidas sobre elas.

Ainda assim, em um assunto a minha tendência de deixar os preferidos da galera de lado se manteve: esportes. Por mais que eu goste de futebol, basquete, vôlei e handebol, jamais me senti tentado a escrever sobre eles, preferindo apresentar ao meu público as regras do rugby, críquete, corfebol e tênis real. Hoje, porém, isso vai mudar. Amanhã começa a Copa do Mundo, um evento ao qual um fanático por esportes como eu não consegue ficar indiferente. Imerso no clima que já contagia o país, decidi escrever um post sobre futebol.

O futebol é, indiscutivelmente, o esporte mais popular do mundo. É o que atrai mais público, o que detém mais atenção da imprensa, e, consequentemente, o que rende mais dinheiro. E esse sucesso todo tem como origem um binômio curioso: o futebol é muito fácil de ser praticado, mas não tão fácil de ser jogado. Entenderam? Não tem problema, eu explico.

Qualquer um pode praticar o futebol. Ele não requer apetrechos como tacos, cestas, patins ou cavalos. Basta um número qualquer de jogadores de cada lado, uma área de qualquer tamanho, uma bola e, voilà, tem-se uma partida de futebol. Ah, mas alguém vai dizer, handebol e rugby também se enquadram nessa descrição, e não se popularizaram tanto. Aí é que entra a outra parcela do binômio: embora seja extremamente fácil fazer surgir uma partida de futebol, jogar futebol não é tão fácil como parece, simplesmente porque a bola tem de ser conduzida com os pés. Se fosse fácil, pessoas capazes de fazer múltiplas embaixadinhas não ganhariam destaque na imprensa, ou comentaristas esportivos não diriam, após uma falta ou cruzamento perfeito, que o jogador pareceu ter colocado a bola lá "com as mãos". Pergunte a qualquer perna de pau, jogar futebol é muito difícil.

Ainda assim, colocar uma bola no chão e sair chutando parece ser muito mais intuitivo do que tentar conduzi-la com as mãos. Tanto que, no século XVIII, na Inglaterra, existiam mais de cem esportes nos quais, em algum momento, a bola tinha de ser chutada ou conduzida com os pés. Esses esportes eram todos conhecidos como football, palavra que é a junção de foot, "pé", com ball, "bola". O mais curioso é que nem era preciso que a bola fosse conduzida com os pés na maior parte do tempo, bastava que as regras permitissem que em algum momento alguém encostasse o pé na bola para que o esporte imediatamente ficasse conhecido como "futebol". É por essa razão, aliás, que o futebol americano, por exemplo, tem esse nome, apesar de a bola ser conduzida com as mãos por quase toda a partida.

Na metade do século XIX, um grupo de jogadores, professores e técnicos dos vários "futebóis" jogados por toda a Inglaterra decidiu se reunir, para tentar criar um conjunto de regras padrão. A motivação foi a introdução do futebol nas escolas públicas: como cada escola jogava o futebol seguindo as regras mais populares em sua região, era impossível fazer um campeonato entre escolas de diferentes regiões, e muito complicado para um professor ou técnico que quisesse sair de uma escola e trabalhar em outra. A primeira tentativa de codificação das regras do futebol ocorreu em Cambridge, 1848, com representantes das cidades de Eton, Harrow, Rugby, Winchester e Shrewsbury. Chegou-se a um consenso conhecido como Cambridge Rules, mas que não surtiu muito efeito, já que, a partir de 1850, vários clubes sem relação com escolas começaram a surgir no Reino Unido e suas colônias, e, sem conhecimento ou não gostando das regras de Cambridge, inventavam as suas próprias. Um dos mais famosos conjuntos de regras dessa época foi o de Sheffield, criado em 1857, e adotado por vários clubes de toda a Inglaterra, que se reuniram e fundaram a Sheffield Football Association em 1867.

Em 1863, alguns dos que haviam se reunido quinze anos antes decidiram tentar de novo, dessa vez se reunindo com representantes dos clubes, e não das escolas. Em 26 de outubro daquele ano eles fundaram a The Football Association, organização devotada a codificar as regras do futebol de uma vez por todas, e que até hoje é o órgão máximo do futebol na Inglaterra (o equivalente à CBF de lá, por assim dizer). A FA se reuniu seis vezes até o final do ano, e elaborou um conjunto de regras que considerava o ideal. Na opinião de alguns, porém, o regulmento da FA omitia uma regra importantíssima: a que permitia carregar a bola com as mãos. Como a FA se mostrou irredutível em sua posição de que a bola só poderia ser conduzida com os pés, os clubes insatisfeitos se desligaram dela e fundaram, em 1871, a Rugby Football Union, codificando então a variação do esporte praticada na cidade de Rugby, e que deu origem ao esporte que hoje conhecemos por esse nome.

Enquanto isso, o futebol da FA disputava atenções não com o rugby, mas com o futebol da Sheffield Football Association (o "sheffield"), que ainda era popular em muitas cidades da Inglaterra. Como a concorrência não interessava a nenhuma das duas associações, começaram conversas para que os clubes de sheffield se filiassem à FA, o que ocorreu progressivamente ao longo da segunda metade da década de 1870, quando muitas das regras do sheffield também foram incorporadas às regras da FA. Foi também por volta dessa época que o futebol recebeu seu nome "oficial", que muitos desconhecem: Association Football. A origem desse nome é prosaica: tradicionalmente, a versão do futebol era conhecida pelo nome da cidade na qual ele se originou, ou seja, o Rugby Football tinha esse nome porque era da cidade de Rugby, e o Sheffield Football era da cidade de Sheffield. O futebol da FA, porém, não havia se originado em cidade nenhuma, era um futebol "artificial", criado pela Football Association. Assim, a única saída para os que queriam diferenciá-lo dos demais foi apelidá-lo de Association Football, ou, em bom português, "futebol associado", provavelmente uma tradução porca feita por alguém que não sabia o significado desse "Association".

Falando nisso, é justamente por causa desse "Association" que, nos Estados Unidos e Canadá, o futebol é conhecido como soccer. "Soccer" nada mais é que uma forma reduzida de "Association", um equivalente a chamar bicycle de bike, por exemplo. Ao contrário do que muita gente pensa, porém, esse termo não surgiu nos Estados Unidos, mas na própria Inglaterra, e já em meados de 1880, aparentemente porque "Association Football" era um nome muito complicado para ser usado a toda hora. Com o passar do tempo e o sumiço dos outros "futebóis" da Inglaterra - dos quais só o rugby chegou até hoje - o "Association" acabou ficando restrito à documentação oficial do jogo, com o nome futebol se popularizando na imprensa e entre os jogadores e fãs. Hoje, apenas Estados Unidos, Canadá e Samoa chamam o esporte de soccer, já que lá football é o futebol americano; em todos os demais países de língua inglesa, o esporte é conhecido como football, inclusive na Austrália, onde houve um curioso efeito inverso, que levou o futebol australiano, outro esporte no qual é permitido carregar a bola com as mãos, a ganhar o apelido de footy.

Pois bem, as regras estavam codificadas e a concorrência neutralizada, mas ainda havia um problema: a FA era o órgão máximo do esporte apenas na Inglaterra, e o futebol já começava a se popularizar pelos outros países do Reino Unido, mais uma vez com regras próprias em cada lugar. Para evitar que a bagunça se instaurasse novamente, a FA se reuniu com os órgãos responsáveis pelo futebol na Escócia, País de Gales e Irlanda, e, em 1886, os quatro fundaram a International Football Association Board (IFAB), responsável até hoje por codificar as regras do esporte. É a IFAB, por exemplo, que decide por mudanças nas regras, se reunindo duas vezes por ano para decidir se alguma alteração é necessária. A IFAB é composta por oito membros, sendo quatro fixos - os representantes das federações de Inglaterra, Escócia, Irlanda do Norte e País de Gales - e quatro que mudam a cada dois anos - escolhidos pela FIFA, sem que necessariamente pertençam a quatro países diferentes. Para que uma regra seja mudada, é necessário o voto a favor de seis dos oito membros.

Aliás, a FIFA (Federação Internacional de Futebol Associado, na sigla em francês), órgão máximo do futebol no mundo no que diz respeito a tudo que não forem regras, foi fundada em 1904, quando o esporte começou a se popularizar no resto do planeta. Curiosamente, todas as federações e confederações nacionais dos países que jogam futebol são filiadas à FIFA, mas a própria FIFA é filiada à IFAB, junto com as quatro associações britânicas - e é por isso que cada uma das quatro tem direito a um voto. Atualmente, a FIFA conta com 208 membros, 15 a mais que a ONU e três a mais que o COI - e não é porque para a FIFA Inglaterra, Escócia, País de Gales e Irlanda do Norte contam como quatro membros, já que Mônaco, por exemplo, é membro do COI mas não da FIFA.

Além de ser muito fácil de ser praticado, o futebol também possui regras muito simples - todo o regulamento do jogo possui apenas dezessete regras - e a maioria delas ainda está aberta a ampla interpretação do árbitro. Para muitos, esse é mais um motivo para a popularidade do jogo, já que discussões infindáveis parecem se formar a cada lance duvidoso. Para outros, o efeito é justamente o contrário, e o jogo seria mais "justo" ou "interessante" com mais regras rígidas e menos interpretação. Não ajuda nada o fato de a FIFA, na contramão de outras federações esportivas, ser terminantemente contra o uso da tecnologia, principalmente da televisão, como auxílio para o árbitro; para a entidade, a palavra do árbitro é final e suas decisões incontestáveis, mesmo que elas estejam erradas.

O futebol é jogado em um campo gramado, que pode ser de grama natural ou sintética, mais popular em locais muito frios como a Rússia e o Canadá. O campo não possui dimensões fixas, com as regras do jogo aceitando entre 45 e 75 metros de largura e entre 91 e 120 metros de comprimento. Para partidas internacionais, porém, o campo deve obrigatoriamente ter entre 64 e 75 metros de largura e entre 100 e 110 metros de comprimento. Em 2008, a IFAB estebeleceu uma medida padrão para todos os estádios novos construídos para eventos da FIFA, de 68 por 105 metros, mas é pouco provável que se adote uma padronização de todos os campos, principalmente pelos custos envolvidos.

As linhas que delimitam o campo em seu comprimento são conhecidas como linhas de lado, e as que o delimitam na largura são as linhas de fundo. No meio de cada linha de fundo fica um gol, de 7,32 metros de largura por 2,44 metros de altura, marcado por duas traves, na vertical, e um travessão, na horizontal, em seu topo. Normalmente, os gols possuem uma rede afixada às traves e ao travessão, que detém a bola quando ela entra, mas, acreditem ou não, de acordo com as regras, essa rede é opcional.

Em frente ao gol há um espaço conhecido como pequena área, que se prolonga 5,5 metros na direção da linha de lado a partir de cada trave, e 5,5 metros para a frente. Em volta da pequena área há a grande área, que se prolonga 11 metros na direção da linha de lado a partir da delimitação da pequena área, e 16,5 metros para a frente. A 11 metros do centro do gol fica uma bolinha conhecida como marca do pênalti; nela, é centrado um semicírculo de 9,15 metros de raio, que só é marcado fora da área, e não tem função específica no jogo. Bem na metade do campo, paralelamente às linhas de fundo, é traçada a linha do meio, e, centrado em seu meio exato, o círculo central, que tem 9,15 metros de raio e não tem função no jogo. Finalmente, em cada quina do campo há um semicírculo de 1 metro de raio, centrado na quina, onde fica uma bandeirola conhecida como bandeira do escanteio.

Um time de futebol é composto de onze jogadores, sendo que um deles, obrigatoriamente, é o goleiro, e tem privilégios especiais em relação aos demais, devendo, inclusive, vestir um uniforme diferente do restante da equipe. As regras não fazem menção aos demais jogadores, o que significa que cada time é livre para arrumá-los no campo da forma que quiser, mas algumas posições hoje são mais ou menos fixas, como os laterais, que jogam pelos lados do campo; os zagueiros, que jogam mais recuados, tentando evitar as jogadas de ataque dos adversários; os meios de campo, que fazem a ligação entre a defesa e o ataque; e os atacantes, responsáveis por marcar os gols. Outras posições, como o líbero, um jogador de defesa mais recuado que os zagueiros, ou o volante, um meio de campo com mais função de marcação que de criação, também são comuns dependendo do esquema de jogo do time. Também é interessante apontar que a regra não diz nada quanto à numeração dos jogadores; hoje é convenção que ela seja feita "do gol pra frente", com o goleiro ficando com a camisa 1 e o atacante mais avançado com a 11, mas nada impede que qualquer jogador jogue com qualquer número - o goleiro poderia jogar com a 5 e um meio de campo com a 1, por exemplo.

Cada time também tem direito a sete reservas, sendo que, em uma partida oficial, apenas três deles podem entrar em campo substituindo os titulares que começaram a partida, sendo que um jogador substituído não pode voltar ao jogo depois. Uma subsituição pode ser feita devido a fadiga, contusão, para mudar o esquema tático do time ou simplesmente para ganhar tempo. Os reservas, curiosamente, são uma criação incrivelmente recente, tendo sido introduzidos em 1970; antes disso, quando um jogador não podia mais jogar, ele simplesmente saía de campo e deixava o time com um a menos. As regras do futebol também estabelecem que o mínimo de jogadores de um time deve ser sete; se, por qualquer motivo, um time ficar com menos de sete jogadores em campo, a partida deve ser interrompida.

Um jogo de futebol é oficiado por quatro árbitros. Um deles é o árbitro principal, ou "juiz", que corre no campo junto com os jogadores e tem a função de cronometrar o tempo de jogo, marcar as faltas e interromper a partida se necessário - para atendimento médico de um dos jogadores, por exemplo. Dois dos outros árbitros ficam nas laterais do campo, um no canto superior esquerdo e um no canto inferior direito em relação às câmeras de televisão, e são conhecidos como árbitros auxiliares ou "bandeirinhas", por causa das bandeiras que usam para fazer suas marcações. Como seu próprio nome sugere, esses árbitros têm a função de auxiliar o juiz, marcando faltas e irregularidades e validando os gols. Finalmente, há um quarto árbitro, que não tem nome (sendo conhecido apenas como "quarto árbitro"), e fica fora de campo, atuando praticamente apenas quando um time deseja fazer uma substituição e quando o árbitro principal anuncia o tempo de acréscimo. O quarto árbitro é uma novidade no mundo do futebol, tendo sido introduzido apenas em 1991, e serve também como "reserva" do árbitro principal, o substituindo caso ele não possa continuar apitando a partida.

Um jogador de futebol pode conduzir a bola com qualquer parte do corpo, exceto com os braços e com as mãos. As exceções são o goleiro, que pode tocar a bola com as mãos e segurá-la por até seis segundos, desde que não saia da grande área, e a cobrança de lateral, que é feita com as mãos, em um movimento no qual a bola começa atrás da cabeça do jogador e os dois pés do jogador devem permanecer fixos no chão até ela deixar suas mãos. A cobrança de lateral é feita quando a bola sai pela linha de lado, sendo que cobra o time que não a colocou para fora; se o lateral não for cobrado da forma correta, porém, ele é revertido, ou seja, a cobrança passa para o time que colocou a bola para fora. Se a bola sair pela linha de fundo, podem acontecer duas coisas: se o último jogador a tocar na bola foi do time que está atacando, há um tiro de meta, com o goleiro colocando a bola em jogo posicionando-a em qualquer lugar dentro da pequena área e dando um chute que a faça sair da grande área; se o último jogador a tocar na bola foi do time que está defendendo, há uma cobrança de escanteio, com o bola sendo colocada no semicírculo centrado na quina do campo e a posse pertencendo ao time que estava atacando.

A maior parte das faltas durante um jogo de futebol ocorre porque um jogador acertou o corpo do adversário ao invés da bola, independente de se tinha intenção de fazer isso ou não. Já tocar a bola com as mãos ou braços só é falta se o jogador teve a intenção ou se ampliou a área de seu corpo, o que gera discussões infindáveis sobre se foi "mão na bola" ou "bola na mão". Dependendo da falta, ela pode ser cobrada com um tiro livre direto - um chute direto para o gol - ou indireto - um passe para um companheiro, que então, se quiser, poderá chutar para o gol. Algumas faltas resultam obrigatoriamente em tiro livre indireto - se o goleiro tocar a bola com as mãos fora da área, por exemplo - mas, para todas as outras, o jogador que sofreu a falta pode escolher se deseja o tiro livre direto ou indireto. Se ele escolher direto, o time defendendo pode armar uma "barreira" na direção do gol, enfileirando um ou mais jogadores, a critério do goleiro. Durante uma cobrança de tiro livre direto, todos os jogadores adversários - inclusive os da barreira - devem ficar a pelo menos 9,15 metros do ponto onde está a bola.

Uma falta que ocorra dentro da grande área é chamada pênalti, e segue algumas regras especiais. A bola é colocada na marca do pênalti, e nenhum outro jogador que não seja o que vai cobrar o pênalti e o goleiro do time adversário pode entrar na grande área até que a bola seja tocada. O goleiro pode ficar em qualquer lugar dentro da pequena área, mas, até a bola ser tocada, só pode se mover para os lados. Se o goleiro se mover para a frente, e conseguir defender a cobrança, ela será repetida, mas se a cobrança for convertida, o gol valerá normalmente. Se algum jogador "invadir" a área antes de a bola ser tocada, a cobrança também deverá ser repetida, embora na maioria das vezes não seja porque a invasão não influenciou em nada. Curiosamente, as regras não dizem que o pênalti é um tiro livre direto, ou seja, se o jogador que está cobrando o pênalti passar a bola para um companheiro, e este fizer o gol, a cobrança vale. De 2008 até esse mês também era permitido que o cobrador "enganasse" o goleiro, fingindo que ia chutar para só depois que o goleiro caísse concluir o chute. Após inúmeras reclamações de goleiros do mundo inteiro, a IFAB decidiu proibir a prática, que ficou conhecida como "paradinha"; hoje, o jogador pode reduzir a velocidade ou até parar no meio da corrida, mas, se parar o movimento do chute depois de tê-lo começado, ou se chutar e não acertar a bola, a cobrança será invalidada e repetida.

Dependendo da gravidade da falta, o jogador faltoso pode ser punido com um cartão amarelo ou vermelho. Um cartão amarelo é uma advertência; um jogador que receba dois cartões amarelos em um mesmo jogo é expulso de campo, e um que receba três cartões amarelos em três jogos diferentes de um mesmo torneio fica de fora do jogo seguinte. Já o cartão vermelho é mais drástico, pois o jogador que o recebe é expulso de campo e ainda fica fora do jogo seguinte do mesmo torneio - ou até de mais jogos, conforme a gravidade da falta. Um jogador que seja expulso não pode ser substituído, nem ficar no banco de reservas, devendo ir direto para o vestiário. Técnicos também podem ser advertidos ou expulsos por má conduta, ficando impedidos de acompanhar o time à beira de campo por um ou mais jogos. Os cartões amarelo e vermelho também são uma novidade recente, introduzida em 1970; até então, o árbitro advertia e expulsava os jogadores verbalmente. A invenção dos cartões se deu por ocasião de um incidente em um jogo entre Argentina e Inglaterra, com um árbitro alemão, em 1966: o árbitro expulsou um jogador da Argentina falando em alemão, e, como ninguém em campo falava alemão e espanhol ou alemão e inglês, o jogo teve de ser paralisado por 30 minutos até que um intérprete chegasse e explicasse ao jogador que ele estava expulso.

A regra considerada mais complicada do futebol é a do impedimento, que, apesar da fama, é na verdade muito simples: um jogador está impedido quando, no momento de um passe para ele, não há, entre ele e o gol do adversário, pelo menos dois jogadores, não importando se um deles é o goleiro. A complicação advém do fato de que jogadores que não recebam a bola também podem ser considerados impedidos e levarem à anulação da jogada caso atrapalhem o goleiro ou auxiliem seus colegas, direta ou indiretamente; e do de que o goleiro e a trave não "tiram" o impedimento, ou seja, se o jogador estava impedido no momento de um chute para o gol, a bola bateu na trave e voltou nele, ele ainda está impedido. As exceções à regra do impedimento são se o jogador estiver atrás da linha da bola (o passe foi para trás, e não para a frente), se o jogador estava em seu próprio campo na hora do passe (antes de cruzar a linha do meio) e se a bola partiu dos pés de um adversário (um "passe contra").

Uma partida de futebol dura dois tempos de 45 minutos, com um intervalo de mais ou menos 15 minutos, depois do qual as equipes mudam de lado no campo. A duração de cada tempo não é muito rígida, porque o relógio só para em situações excepcionais, como a interrupção da partida devido a falta de luminosidade ou tempo inclemente, por exemplo. O árbitro é livre para adicionar no final de cada tempo de jogo alguns minutos a mais, para compensar o tempo de bola parada gasto em substituições, atendimentos médicos e cobranças de falta, mas, mesmo assim, o tempo médio de bola rolando em um jogo fica por volta de 60 minutos dos 90 possíveis. Após um infeliz incidente em um jogo da liga inglesa em 1991, ficou determinado que esses acréscimos dados pelo árbitro deve ser anunciados a todos no estádio, e que nenhum jogo pode acabar antes de um pênalti ou escanteio já marcado ser cobrado e concluído - o árbitro não pode, por exemplo, encerrar o jogo logo depois que o jogador que está cobrando um escanteio chutar a bola, nem logo após apitar um pênalti - que foi justamente o que aconteceu em 1991 no jogo entre Stoke e Ashton Villa.

É perfeitamente possível - e inclusive muito frequente - que uma partida de futebol termine empatada. Se for uma partida que não pode terminar empatada, como um jogo eliminatório, será disputada uma prorrogação de dois tempos de 15 minutos cada. Não há intervalo entre os dois tempos da prorrogação - os times simplesmente mudam de lado - mas o árbitro pode dar acréscimos ao final do segundo tempo. Se o empate persistir após a prorrogação, o jogo vai para a famosa "disputa de pênaltis", onde cinco jogadores de cada time cobram pênaltis, sendo vencedor o time que acertar mais cobranças. Se o empate persistir, as cobranças continuam de forma alternada, até que um jogador de um time acerte a cobrança e o do outro não. Como esse sistema parece pouco justo, e sucessivas prorrogações são impossíveis, ao longo dos anos foram experimentadas várias alternativas, como o gol de ouro (quem faz gol primeiro na prorrogação ganha) e o gol de prata (se o primeiro tempo da prorrogação terminar com um vencedor, não é disputado o segundo). Essas alternativas, porém, se mostraram pouco populares, foram abandonadas, e a FIFA segue estidando uma forma de decidir jogos empatados sem o desgaste da prorrogação ou a loteria dos pênaltis.

O torneio mais importante do futebol mundial é a Copa do Mundo, disputada na versão masculina desde 1930 e na feminina desde 1991, sempre a cada quatro anos. A Copa do Mundo também é o evento esportivo mais popular do planeta, superando até as Olimpíadas em termos de audiência e arrecadação. Antes da criação da Copa do Mundo, o principal torneio de futebol era o dos Jogos Olímpicos, mas nestes só podiam competir jogadores amadores, o que desagradava a FIFA, que queria uma competição mundial de jogadores profissionais. Até 1930, porém, torneios desse tipo só davam certo se fossem organizados entre clubes, e todas as tentativas da FIFA de realizar torneios entre seleções resultavam em fracasso.

Foi a determinação do presidente da FIFA na época, o francês Jules Rimet, que finalmente tirou a Copa do Mundo do papel. E Rimet devia ter uma lábia e tanto também, pois conseguiu convencer as seleções da Bélgica, França, Romênia e Iugoslávia a cruzar o atlântico de navio para disputar a primeira Copa do Mundo no Uruguai. O Uruguai não foi escolhido por acaso: era o atual bicampeão olímpico (1924 e 1928) e celebraria 100 anos de sua independência em 1930. Apesar da distância e do baixo número de participantes (apenas 13), a Copa foi considerada um sucesso, e a ausência do futebol nas Olimpíadas de 1932 - disputadas nos Estados Unidos, onde o esporte não era popular - ajudou a garantir as futuras edições do evento. Rimet também acabou batizando o primeiro troféu da Copa, cuja posse em definitivo seria do primeiro país a conquistá-lo três vezes - no caso, o Brasil, que ganhou o direito de ficar com ele em 1970. Infelizmente, a Taça Jules Rimet foi roubada da sede da CBF em 1983, e jamais recuperada, o que leva a crer que tenha sido derretida. O atual troféu, chamado simplesmente de Copa do Mundo FIFA, é utilizado desde 1974, mas jamais terá um dono definitivo, ficando de posse do ganhador da Copa até o final da Copa seguinte. Curiosamente, como os nomes dos campeões são escritos na parte de baixo do troféu, já começa a se debater o que será feito quando o espaço acabar - o que acontecerá na Copa de 2038.

Para a primeira Copa do Mundo as seleções participantes foram convidadas, mas, a partir da segunda, como o número de países interessados em participar era maior do que o recomendado para um torneio de sucesso, foram instituídas as Eliminatórias, uma série de jogos entre seleções do mesmo continente, para determinar quais terão o direito a participar da Fase Final, a Copa em si. A FIFA considera as Eliminatórias como parte da Copa, mas, mesmo se não considerarmos, não há como negar que o evento é o torneio esportivo mais disputado do mundo: nada menos que 204 seleções disputaram as Eliminatórias para a Copa de 2010. Apesar dessa disputa toda, apenas sete países já conseguiram ganhar a Copa em suas dezoito edições disputadas até hoje: o Brasil ganhou cinco vezes, a Itália quatro, a Alemanha três, Argentina e Uruguai duas cada, e Inglaterra e França uma vez cada.

Já a Copa do Mundo feminina é menos disputada, mas vem crescendo em número de participantes a cada ano - 119 seleções participam das Eliminatórias para a Copa do ano que vem, 70 a mais do que na primeira edição. O futebol feminino ainda é essencialmente amador ou pouco popular em muitos países, embora a FIFA tenha um extensivo programa de apoio à modalidade. Nas cinco edições disputadas, os Estados Unidos e a Alemanha ganharam dois títulos cada, e a Noruega ganhou o outro.

Apesar do sucesso da Copa do Mundo, o futebol ainda faz parte das Olimpíadas, tendo ficado de fora apenas das edições de 1896 e 1932. A FIFA e o COI, porém, vivem uma relação conturbada: não querendo que aconteça uma "mini Copa" intercalada com a principal, a FIFA proíbe que as seleções disputem as Olimpíadas com suas equipes principais, através de restrições no regulamento - até 1980, apenas jogadores que não tivessem contrato com um clube poderiam participar; em 1984 e 1988, apenas jogadores que jamais tivessem jogado uma Copa do Mundo; a partir de 1992, apenas jogadores com 23 anos ou menos, com um máximo de três exceções por seleção; e hoje já se debate a ideia de somente permitir jogadores com 19 anos ou menos, sem exceções. É importante frisar que essas restrições se aplicam apenas ao futebol masculino; no feminino, disputado desde 1996, as seleções podem entrar em campo com sua força máxima. Como a FIFA tem autoridade para regular o futebol mesmo dentro das Olimpíadas, o COI não pode fazer nada, e ainda tem que engolir outros dois problemas: como a cidade-sede das Olimpíadas quase nunca tem estádios suficientes para um torneio inteiro, os jogos de futebol acabam sendo realizados a vários quilômetros dos demais eventos, e, como as Olimpíadas só duram duas semanas, tempo incompatível com o descanso mínimo de três dias entre jogos de uma mesma seleção exigido pela FIFA, o torneio de futebol normalmente começa antes da Cerimônia de Abertura. Diante disso, por que o futebol continua nas Olimpíadas é um mistério, mas deve ter algo a ver com dinheiro.

5 enfiaram o nariz:

n7 disse...

Entendi que "bom português" p/ tradução de association p/ associado só pode ter sido sarcasmo! E afinal, pq FIFA mistura nome inglês c/ francês, eu hein?!

2:08 PM
Guil disse...

A FIFA não mistura nome inglês com francês. O que acontece é que, em francês, o nome oficial do futebol é football association (se fosse em inglês, seria association football). A expressão "Fédération Internationale de Football Association", portanto, está toda em francês.

2:13 PM
Sávio Breno disse...

Só uma correção: o círculo central e a meia-lua da grande área possuem sim uma função: no momento do chute inicial, nenhum jogador do time que não está cobrando o chute pode ficar no círculo central, e no momento do pênalti, nenhum jogador, independente do time dentro da meia-lua.

11:22 AM
Marco Balieiro disse...

Outra correção: quem pede a barreira para cobrança de falta é o jogador que vai cobrar a falta e não o time que defende. É por isso que é possível cobrar rapidamente uma falta, mesmo que perto da grande área.

3:40 PM
Guil disse...

Ué, mas foi isso que eu disse!

4:59 PM

Postar um comentário