sexta-feira, 20 de novembro de 2009

Regina Spektor

Há muito tempo que eu não ouço rádio. Muito mesmo. Coisa de uns dez anos. E, quando ouço, invariavelmente é a JB FM, que meu pai costuma ouvir no carro e minha namorada na casa dela, e só toca música das antigas.

Também faz muito tempo que eu não vejo Mtv. Muito mesmo. Coisa de uns dez anos. Desde que os programas voltados ao público jovem passaram a ocupar mais tempo na programação do que os clipes. Recentemente, depois que a VH1 entrou para a grade da Net, eu até assisti bastante VH1. Mas, por coincidência, sempre nos horários em que passavam clipes das antigas.

Diante disso, talvez não seja surpreendente que eu esteja bastante desatualizado em relação ao assunto música. Não consigo identificar nenhuma canção do Franz Ferdinand, não faço a menor ideia de que tipo de música o White Stripes toca, e só descobri que existia uma cantora chamada Lily Allen porque algumas alunas minhas tentaram me vender biscoitos caseiros para arrumar dinheiro e comprar um ingresso para seu show. E, francamente, nem sei se Franz Ferdinand, Lily Allen e o White Stripes ainda são os nomes da moda ou se já apareceram outros depois desses.

De vez em quando, porém, um cantor, cantora ou banda que eu não conhecia surge na minha frente por vias pouco convencionais. Alguns eu ignoro, e nem chego a saber do que se tratava. De outros, eu tomo conhecimento, mas eles tabém não chegam a mudar a minha vida - como Katy Perry, que eu fiquei conhecendo quando um professor foi demitido por passar a letra de I Kissed a Girl para seus alunos. Alguns poucos, entretanto, despertam alguma coisa em mim, e suas canções acabam entrando para o seleto grupo de músicas que eu gosto de ouvir no meu dia a dia. Dentre estes, está Regina Spektor.

Eu descobri Regina Spektor da mesma forma como conheci Jem, através de um clipe e sem querer. Esta história, porém, é um pouco mais bizarra que aquela que envolve a cantora galesa: há coisa de uns três anos, estava eu mudando de canal quando, no Sony, achei um clipe de Fidelity. Como o clipe já estava começado, não sabia de quem se tratava, e, bizarramente, fiquei assistindo não por ter gostado da música, mas por ter achado que quem estava cantando era a Fiona Apple. Na época eu não havia comprado ainda o Extraordinary Machine, e imaginei que aquela pudesse ser uma das músicas daquele tão comentado álbum. Ao longo do clipe, porém, fui achando que ela estava "cheinha" demais para ser a Fiona, e que a voz também era um pouco diferente. Acabei descobrindo que se tratava de uma tal Regina Spektor, nome que eu achei ainda mais esquisito do que "Fiona Apple".

Depois da descoberta, não dei muita bola, até que, por alguma razão que talvez só a Globo conheça, a mesma música foi escolhida para a trilha sonora do Big Brother Brasil do ano seguinte - pois é, não é algo do que eu me orgulhe, mas eu acompanho o BBB. Depois disso, o refrão "it breaks my hea/a-a-a/a-a-a/a-a-a-a-a-art" grudou na minha cabeça, e não queria sair de jeito nenhum. Acabei decidindo arriscar e comprar um Begin to Hope, o CD do qual Fidelity faz parte. Felizmente, não me arrependi.



Também decidi pesquisar sobre a vida da moça, e descobri que ela nasceu na União Soviética, mais precisamente em Moscou, no dia 18 de fevereiro de 1980, com o nome de Regina Ilynichna Spektor. Seu pai, Ilya, era fotógrafo profissional e violinista amador; sua mãe, Bella, era professora de música em uma universidade. Apesar de ter nascido na Rússia comunista, desde cedo Regina esteve exposta a músicas ocidentais, principalmente Queen, Beatles e The Moody Blues, através de fitas cassete que seu pai conseguia em trocas com colegas de outros países do Leste Europeu. Sua iniciação musical se deu aos cinco anos, quando ela começou a aprender piano sozinha, dedilhando um piano vertical (daqueles sem cauda, que ficam encostados em uma parede, tipo de filmes de faroeste) que sua mãe ganhara de seu avô.

Por serem judeus, os pais de Regina sofriam certo preconceito na Rússia, e, por isso, aproveitaram a perestroika, que permitiu que, pela primeira vez em anos, os cidadãos soviéticos emigrassem, para deixar o país em 1989, em busca de melhores oportunidades. Primeiro, eles tentaram a Áustria, mais tarde a Itália, mas se estabeleceram mesmo foi nos Estados Unidos. Por alguma razão, ele decidiram morar no Bronx, em Nova Iorque, o que fez com que eles fossem os primeiros moradores russos daquele bairro em mais de vinte anos.

Curiosamente, a dedicação de Regina ao piano foi um dos fatores determinantes para a escolha de seu novo local para viver: Sonia Vargas, a esposa de Samuel Marder, violinista e grande amigo de Ilya Spektor, era professora de piano na Manhattan School of Music, e foi com ela que Regina estudou até os 17 anos. Na época em que deixaram a União Soviética, os Spektor não tiveram dinheiro para levar seu piano, mas felizmente havia um velho piano abandonado no sótão da sinagoga que a família frequentava em Nova Jérsei, e era nele que Regina treinava, além de ficar, em seu tempo livre, dedilhando em mesas e outras superfícies nas quais imaginava existir um teclado.

No início, Regina só se interessava por tocar música clássica, mas, aos poucos, influenciada pelas cercanias de sua casa, começou a tocar hip hop, rock e punk. Desde cedo, ela sempre gostou de inventar suas próprias músicas, mas não as registrava, tocando-as só de brincadeira. Foi só aos 15 anos que, em uma excursão a Israel com sua turma do instituto Nesiya, um centro de tradições judaicas de Nova Iorque, após conhecer as músicas de Joni Mitchell e Ani DiFranco, e ser encorajada pelos colegas, que se impressionaram com a facilidade como ela compunha músicas para serem cantadas durante as caminhadas, ela decidiria se tornar também compositora. Regina então escreveria sua primeira letra de música aos 16 anos, e sua primeira partitura de piano aos 17.

Após completar os estudos com Sonia Vargas, ela foi aceita no conservatório de música da Universidade de Nova Iorque em Purchase, onde fez um curso de três anos de duração, no qual foi apresentada ao jazz e ao blues, especialmente Billie Holiday, se formando com honras em 2001. Durante este tempo, ela participou de um programa de intercâmbio de seis meses que a levou para a cidade de Tottenham, Inglaterra. Após se formar, Regina começou a se apresentar, sozinha ou acompanhada, em diversos bares e casas noturnas famosos da cena anti-folk novaiorquina, principalmente no Sidewalk Cafe de East Village. Com o dinheiro que ganhava nessas apresentações, Regina conseguiu bancar a gravação de seu primeiro álbum, intitulado 11:11, que passou a vender após cada show.

Lançado em 2001, 11:11 tirava seu nome de uma crença da numerologia de que, sendo o 11 um número auspicioso, eventos ocorridos às 11 horas e 11 minutos também seriam auspiciosos. Por ter sido lançado de forma independente, totalmente bancado com recursos da própria Regina Spektor, e produzido por ela mesma e por seu amigo Richie Castellano, o sucesso do álbum não foi lá muito auspicioso, só vendendo algumas centenas de unidades durante os primeiros shows da cantora. De suas 12 faixas, três também estavam em sua fita cassete demo, apresentada a várias gravadoras que jamais se interessaram em contratá-la.

No início de 2002, Regina lançaria seu segundo álbum, chamado simplesmente Songs, também de forma independente e também vendido apenas em seus shows, que agora tambem aconteciam em universidades de Nova Iorque e adjacências. Durante estes shows, ela fez amizade com o baterista do They Might Be Giants, Alan Bezozi, que a apresentou ao produtor dos Strokes, Gordon Raphael. Gostando do som da moça, Raphael a convidou para abrir a turnê dos Strokes de 2003, e gravar com eles a música Modern Girls & Old Fashion Men, que acabou entrando no single de Reptilia. Durante esta turnê, ela conheceu a banda Kings of Leon, que a convidou para também abrir os shows de sua turnê europeia, que começaria logo após a dos Strokes. Abrindo para duas bandas de peso, Regina chamou a atenção da Warner, que decidiu apostar nela e lançar seu terceiro álbum, Soviet Kitsch, pelo selo Sire.

Assim como os dois primeiros álbuns, Soviet Kitsch já havia sido lançado por Regina, de forma independente, em 2003, mas acabou relançado pela Sire, com tiragem muito maior, porém sem muito alarde, em agosto de 2004. Junto à crítica, o álbum foi bastante bem sucedido, conseguindo nota 4,5 de 5 do guia AllMusic, 4 de 5 da revista Blender, e 3 de 5 da Rolling Stone. Junto ao público, porém, o álbum não foi nenhum sucesso de vendas, porque Regina ainda não tinha muita exposição na mídia.

Foi somente com o álbum seguinte, Begin to Hope, lançado em junho de 2006, que Regina chamou a atenção da mídia - e do público. Begin to Hope estreou na 70a posição da parada da Billboard, e por lá ficou até Fidelity estrear na VH1. Então, por alguma razão desconhecida, todo mundo resolveu correr para o YouTube para ver o vídeo, que teve 200.000 acessos em menos de dois dias. Ato contínuo, o álbum começou a vender desesperadamente, alcançando as 600.000 cópias, e rendendo o primeiro disco de ouro de Regina. Ah, sim, e subindo nada menos que cinquenta posições na Billboard, chegando à 20a. Begin to Hope foi eleito o 21o melhor álbum de 2006 pela Rolling Stone, e Fidelity a melhor canção do ano pelos ouvintes da rádio SIRIUS.

Depois desse surto de popularidade, não somente Regina foi convidada para participar de diversos programas da TV norte-americana, como os de Conan O'Brien, Jay Leno e David Letterman, mas também suas músicas passaram a tocar em episódios das mais assistidas séries, como Grey's Anatomy, Veronica Mars e Brothers & Sisters - em 2005, por força da Warner, algumas faixas de Soviet Kitsch já haviam tocado em CSI: NY, mas sem muito alarde. Em pouco tempo, ela se tornou uma celebridade não só nos Estados Unidos, mas também no Reino Unido, Irlanda, Austrália e Nova Zelândia, onde suas músicas chegaram como trilhas de seriados e comerciais de TV - na Irlanda, por exemplo, a música Hotel Song, que jamais foi lançada em single, chegou ao 11o lugar da parada local só porque tocava em um anúncio da Vodafone. Para aproveitar essa popularidade, a Warner lançou, exclusivamente na Europa, o álbum Mary Ann Meets the Gravediggers and Other Short Stories, coletânea de faixas dos três primeiros álbuns de Regina, que não haviam sido lançados por lá.

Além de ter um estilo musical bastante eclético - segundo ela, ela prefere que cada uma de suas canções seja única, ao invés de desenvolver um estilo único para todas elas - Regina é extremamente culta - suas músicas fazem alusões a F. Scott Fitzgerald, Ernest Hemingway e Virginia Woolf, só para citar alguns - o que acaba se refletindo na imensa variedade de temas que escolhe para suas canções. Apesar de pouquíssimas delas serem autobiográficas, elementos da vida de Regina, como o judaísmo e seu amor pela cidade de Nova Iorque, costumam ser recorrentes. Além de letras inteligentes, Regina também gosta de cometer excentricidades musicais durante as gravações, como cantar com um sotaque qualquer só porque está a fim, fazer paradas glotais como as do refrão de Fidelity, ou rimas esquisitas como as de Eet. Ela costuma citar como suas maiores influências os Beatles, Bob Dylan, Billie Holiday, Radiohead e o compositor clássico Frédéric Chopin. Além disso tudo, ela ainda é engajada com causas sociais, tendo gravado canções para os projetos Instant Karma: The Amnesty International Campaign to Save Darfur, que arrecadou dinheiro para os refugiados de Darfur, Sudão; e Songs for Tibet, uma manifestação artística pela preservação dos direitos humanos no Tibet.

O mais recente trabalho de Regina está fresquinho: o álbum Far, lançado em junho desse ano. Extremamente bem recebido pela crítica - embora alguns tenham caído com tudo em cima, dizendo até que o álbum era a trilha sonora perfeita para um filme de terror - Far vendeu 50.000 cópias só em sua primeira semana no Reino Unido, e caminha para um provável novo disco de ouro nos Estados Unidos. Suas faixas de trabalho são Laughing With, Eet, Dance Anthem of the '80s e Man of a Thousand Faces.

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