quarta-feira, 22 de abril de 2009

Jurassic Park

Eu já devo ter dito aqui em algum lugar que, em um determinado momento da minha infância, eu adorava dinossauros. Embora eu não tenha bem certeza do porquê dessa preferência, aparentemente eu não era o único, já que, pelo que eu tenho visto, muitas crianças parecem gostar desses enormes répteis que um dia habitaram nosso planeta - algumas até mesmo depois de crescidas, se tornando paleontólogos e coisas afins.

Minha teoria é que crianças gostam de dinossauros porque dinossauros são muito legais. Pode não parecer uma teoria muito científica à primeira vista, mas, se pararmos para analisar, dinossauros existem em todas as cores, formas e tamanhos, e - talvez o mais importante - ninguém sabe com 100% de certeza como eles eram, tanto que uma criança pode desenhar um dinossauro com três chifres na testa e que pula como um canguru, e ainda assim terá alguma chance de um dia provarem que ela estava certa.

Como todos já devem ter percebido, o tema de hoje envolve dinossauros. Embora eu tenha digressionado um pouco mais que de costume, vocês hão de convir que a introdução acima até ficou bem criativa. Meu único problema com ela foi uma certa dificuldade para encaixá-la com a apresentação do tema, mas, como estou com pena de apagar essa obra de arte, vou parar por aqui e ir direto ao assunto: hoje é dia de Jurassic Park no átomo. Basicamente porque eu adoro Jurassic Park, que é um filme bem legal que envolve dinossauros. E, quando pequeno, eu adorava dinossauros.

Como deve ser de conhecimento geral, Jurassic Park não foi originalmente concebido para ser um filme, mas um livro, pelo autor Michael Crichton. A ideia original de Crichton era escrever um roteiro para um filme onde um estudante consegue recriar um pterodáctilo através de DNA retirado de fósseis. Trabalhando sobre esse conceito, ele acabou chegando a uma história maior e mais interessante, que acabaria rendendo um livro inteiro, publicado em novembro de 1990.

Mas, em outubro de 1989, enquanto discutia com Steven Spielberg a idéia de um novo seriado - que, eventualmente, se tornaria o famoso E.R., também conhecido por aqui como Plantão Médico - Crichton mencionou a idéia do livro, que imediatamente foi considerada pela cineasta como material perfeito para um filme. Vendo que Spielberg tinha razão, Crichton decidiu negociar os direitos de um roteiro de sua história antes mesmo de terminar de escrever o livro, pedindo um milhão e meio de dólares por eles. Quatro estúdios - Fox, Warner, Columbia e Universal - manifestaram interesse, mas foi a Universal, desesperadamente precisando de dinheiro para se manter na ativa, e vendo que aquela era uma oportunidade que não poderia deixar passar, quem conseguiu os direitos, decidindo ainda colocar Spielberg à frente do projeto - curiosamente, se a Warner tivesse ganhado, o diretor escolhido teria sido Tim Burton!

Na época, Spielberg estava envolvido com as filmagens de Hook: A Volta do Capitão Gancho; ao terminá-las, planejava filmar A Lista de Schindler, mas o presidente da Universal disse que só lhe daria luz verde para este filme se ele filmasse Jurassic Park primeiro. Para incentivá-lo, a Universal pagou mais meio milhão de dólares a Crichton, para, ao invés de um roteiro baseado em sua idéia, poder fazer uma adaptação de seu livro, que, então, já havia sido publicado. Tanto investimento valeu a pena: Spielberg se dedicou de corpo e alma ao projeto, e Jurassic Park foi tão bem sucedido que praticamente salvou sozinho a Universal da falência - lançado em 11 de junho de 1993 com um orçamento de 95 milhões de dólares, o filme rendeu quase um bilhão de dólares no mundo todo, sendo extremamente bem recebido pelo público e pela crítica, e trazendo uma enxurrada de merchandising associado, que tornaria o esqueleto de seu logotipo um dos símbolos mais bem conhecidos da década de 1990.

A premissa de Jurassic Park (que em português ganhou o subtítulo O Parque dos Dinossauros) envolve um parque temático de mesmo nome, onde as atrações são dinossauros de carne e osso, "ressucitados" através de clonagem, possível através de DNA extraído de mosquitos que chuparam seu sangue e depois foram fossilizados em âmbar. Esta técnica foi imaginada por John Hammond (Richard Attenborough), presidente da companhia de pesquisa genética InGen e também dono do parque, localizado na ilha Nublar, próxima à Costa Rica.

Para que seu parque possa começar a entrar em funcionamento, e os milhões investidos por ele possam retornar, Hammond precisa do aval de especialistas. Assim, ele chama o paleontólogo Alan Grant (Sam Neil), a paleobotânica Ellie Sattler (Laura Dern), o matemático Ian Malcolm (Jeff Goldblum) e o advogado Donald Gennaro (Martin Ferrero). Juntos, eles saem em um passeio pelo parque, acompanhados dos netos de Hammond, Lex (Ariana Richards) e Tim Murphy (Joseph Mazzello).

tiranossauro aterroriza os carros do parqueDurante o passeio, porém, algo sai muito errado: um dos funcionários do parque, Dennis Nedry (Wayne Knight), havia recebido dinheiro de uma companhia rival da InGen para roubar embriões de dinossauros; para poder roubá-los e fugir com eles, ele desliga os sistemas do parque, o que para os carros onde os visitantes passeavam, e liberta os dinossauros, tudo isso em meio a uma tempestade, que pouco antes obrigara os funcionários do parque a voltar para o continente. Diante disso, com a ajuda do engenheiro Ray Arnold (Samuel L. Jackson) e do zelador Robert Muldoon (Bob Peck), Hammond deve tentar salvar os visitantes, antes que eles virem comida de dinossauro.

Elenco estelar à parte, os maiores astros de Jurassic Park são os dinossauros, criados através da combinação de efeitos de computação gráfica revolucionários, que até hoje parecem realísticos, com os bons e velhos animatronics, usados quando fosse necessário um close ou uma interação maior com os atores. Ao todo, sete espécies diferentes de dinossauros aparecem no filme: velociraptor, braquiossauro, triceratops, dilofossauro, gallimimus, parassaurolofo e tiranossauro. Para que os dinossauros fossem o mais reais possível, a Universal contratou o famoso paleontólogo Jack Horner como consultor. Mesmo com todas as modificações feitas por Horner nas ideias originais dos produtores - como remover uma língua de tamanduá que os velociraptores teriam - algumas ações dos dinossauros do filme ainda receberam críticas, como a corrida do tiranossauro, que seria incapaz de manter a velocidade alcançada no filme por tanto tempo, ou o tamanho dos velociraptores, bem maiores na tela que na vida real. Mas, ainda assim, os dinossauros de Jurassic Park foram considerados referências no entretenimento, e praticamente todos os dinossauros de todos os filmes lançados depois foram baseados neles.

Também é interessante notar que, como sempre, o livro e o filme têm algumas diferenças: no livro, John Hammond é cínico e ganancioso, e morre no final devorado pelos dinossauros, enquanto no filme tem bom coração e deseja apenas criar o melhor parque de diversões do mundo; Grant adora crianças no livro, embora no filme ele a princípio as odeie, mudando um pouco de idéia após conviver com Lex e Tim; no livro Tim é mais velho e apaixonado por computadores, e Lex é mais nova e apaixonada por esportes, enquanto no filme as idades são invertidas, Lex é boa com computadores, e Tim é apaixonado por dinossauros; no livro vários empregados do parque ainda estão trabalhando quando os dinossauros se soltam, enquanto no filme eles voltaram ao continente antes da tempestade; e toda uma subtrama que envolvia os dinossauros escapando para o continente foi suprimida, bem como uma sequência onde uma garotinha de férias seria atacada em uma praia por compsognatos, que acabaria sendo aproveitada como sequência inicial do segundo filme.

Sim, porque, como era de se esperar, houve um segundo filme. Lançado em 1997, The Lost World: Jurassic Park (que em português virou O Mundo Perdido: Jurassic Park, sem nenhum "2" no título, ao contrário do que muitos acreditam) era ambientado não na ilha Nublar, mas na ilha Sorna, uma segunda ilha usada pela InGen para criar os dinossauros que mais tarde seriam transportados para o parque. Por algum motivo, os dinossauros, que não deveriam ser capazes de sobreviver sem uma enzima fornecida pela InGen, criaram um ecossistema próprio depois que as instalações da InGen na ilha foram destruídas por um furacão. Buscando remediar os erros que cometera quatro anos antes, John Hammond contrata Ian Malcolm para fazer parte de uma expedição, que conta ainda com o fotógrafo Nick van Owen (Vince Vaughn), o técnico Eddie Carr (Richard Schiff), e com a namorada de Malcolm, a paleontóloga Sarah Harding (Julianne Moore). A missão da equipe é provar que os dinossauros estão adaptados, não oferecem risco ao continente, e devem ser deixados em paz pelos humanos, para que seu ecossistema se desenvolva normalmente. Os maiores oponentes do grupo, porém, não serão os dinossauros, mas uma segunda expedição, contratada pelo sobrinho de Hammond, Peter Ludlow (Arliss Howard) e liderada pelo experiente caçador Roland Tembo (Pete Postlethwaite). O plano de Ludlow é capturar várias espécies de dinossauros e levá-las para San Diego, onde montará um zoológico.

a equipe observa estegossaurosA continuação de Jurassic Park começou a tomar forma quando, após o enorme sucesso do primeiro filme, vários fãs começaram a pedir que Crichton escrevesse uma sequência para seu livro. A princípio, Crichton recusou, mas mudou de idéia quando o próprio Spielberg começou a pressioná-lo. Sem nunca ter escrito uma continuação para seus livros, Crichton optou por não fazer uma sequência exata, mas uma nova história com elementos da anterior. Ele decidiu chamá-la de The Lost World em homenagem ao romance de mesmo nome escrito por Arthur Conan Doyle, já que em ambos a premissa é a mesma: uma expedição vai a um local remoto da América Central e se depara com dinossauros, com a diferença de que no livro original os dinossauros sobreviveram à extinção, e no de Crichton eles eram criados por engenharia genética.

Embora o novo livro traga muitos dinossauros novos, o filme só mostra dez espécies: tiranossauro, triceratops, gallimimus, velociraptor, estegossauro, compsognato, parassaurolofo, paquicefalossauro, mamenquiassauro e pteranodon. Assim como ocorreu com o filme anterior, muitas coisas são diferentes no livro e no filme, especialmente os personagens, sendo que Ludlow e Roland sequer aparecem no livro, vários personagens do livro nem são retratados no filme, e outros são totalmente diferentes, como Kelly (Vanessa Lee Chester), que no filme é filha de Malcolm, mas no livro é assistente do paleontólogo Robert Levine, que não aparece no filme. Também é interessante notar que algumas sequências, como a de abertura e a do tiranossauro na cachoeira, eram do livro de Jurassic Park, e foram aproveitadas aqui por não terem aparecido no primeiro filme. A sequência final, por outro lado, é totalmente nova, tendo sido criada por Spielberg especialmente para o filme.

The Lost World custou 73 milhões de dólares, e rendeu quase 619 milhões no mundo todo. As críticas, porém, foram dividas, e o filme é amplamente considerado inferior ao original. Talvez decepcionado, Spielberg declarou após a estreia que jamais trabalharia em um filme de Jurassic Park novamente. Quatro anos depois, ele quebraria esta promessa ao produzir Jurassic Park III.

Lançado em 2001, Jurassic Park III foi o único a não ser baseado em uma história de Crichton, embora novamente algumas sequências não utilizadas nos outros dois filmes tenham sido aproveitadas, como a de cruzar o rio em um barco e a da gaiola dos pteranodons. Também foi o primeiro a não ser dirigido por Spielberg, mas por Joe Johnston, que, após o sucesso do primeiro filme, procurou Spielberg e manifestou interesse em dirigir uma continuação. Como o próprio Spielberg já tinha esse desejo, prometeu a Johnston que ele poderia dirigir a parte três.

A história do filme envolve novamente o Dr. Alan Grant, bem como a Dra. Ellie Sattler, embora em uma participação menor, deixando Malcolm de lado, no oposto do que ocorreu no filme anterior. Desta vez, Grant e seu assistente Billy Brennan (Alessandro Nivola) são contratados pelo suposto milionário Paul Kirby (William H. Macy), que alega querer dar um presente inesquecível para sua esposa Amanda (Téa Leoni): um sobrevôo da ilha Sorna, para que ela possa ver os dinossauros. Kirby, entretanto, tem outros planos: pousar na ilha e usar os conhecimentos de Grant para resgatar seu filho pré-adolescente Eric (Trevor Morgan), que caiu lá enquanto fazia um passeio de paraglide. O que Kirby parece não se dar conta é que Grant jamais esteve na ilha Sorna, então a única ajuda que ele pode dar é para que eles fujam o mais rápido possível, antes que virem comida de dinossauros. E desta vez, além dos velhos conhecidos tiranossauro, velociraptor, triceratops, pteranodon, braquiossauro, compsognato, parassaurolofo e estegossauro, a ilha conta com anquilossauros, ceratossauros, coritossauros e com um espinossauro, que faz o papel do antagonista principal, desbancando o T-Rex. Como curiosidade, vale notar que os velociraptors foram remodelados, ganhando penas na cabeça e pescoço, devido à descoberta de novos fósseis - como desculpa oficial para a nova aparência, os novos velociraptors deste filme são machos, enquanto os dos filmes anteriores eram todos fêmeas.

pteranodon atacaAté chegar a este roteiro, Jurassic Park III passou por uma série de modificações - o argumento original de Spielberg dizia que Grant passara oito anos morando em uma casa numa árvore da ilha, estudando os dinossauros, e a primeira versão do roteiro previa que pteranodons escapariam da ilha e atacariam o continente, o que motivaria Grant e uma equipe que contava até com militares a descobrir de onde eles estavam vindo, enquanto uma segunda equipe tentaria capturá-los e levá-los de volta. Até mesmo o título do filme permaneceu por muito tempo indefinido, e material promocional com os nomes de Jurassic Park: Extinction e Jurassic Park: Breakout (algo como "escapada") chegou a ser produzido, com alguns posters até prevendo Richard Attenborough no elenco. Curiosamente, após parte deste material ser "descoberto" recentemente, uma série de sites começou a noticiar que Extinction seria um quarto filme de Jurassic Park, o que jamais se concretizou.

Jurassic Park III custou quase tanto quanto o primeiro, 90 milhões de dólares, mas foi o que rendeu menos, quase 369 milhões no mundo inteiro, e o que recebeu mais críticas negativas, principalmente as de que seria apenas um caça-níqueis. Mesmo com este desempenho, um quarto filme jamais foi oficialmente descartado, com Spielberg e Johnston tendo começado a trabalhar para concretizar um já em 2002. Este filme seria lançado primeiro em 2005, depois em 2008, e, após a morte de Crichton, em novembro do ano passado, aparentemente foi engavetado de vez, embora de vez em quando ainda surjam um boatos - sendo que o mais curioso diz que o roteiro prevê um aventureiro encontrando os embriões roubados por Nedry no primeiro filme e os usando para criar dinossauros geneticamente modificados e equipados com armas, que o governo norte-americano usaria como mercenários.

Por mais que pareça divertido, é melhor não. Deixem os pobres dinossauros em paz. Esta é a vontade, inclusive, do próprio John Hammond.

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