quarta-feira, 9 de abril de 2008

Marvels

Houve uma época em que histórias em quadrinhos não eram consideradas arte. Bem, talvez para alguns esta época ainda não tenha passado, mas é inegável que, de uns tempos para cá, muitas histórias de super-heróis têm sido consideradas tão artísticas quanto qualquer livro ou filme. Isso possivelmente começou na década de 70 com o lançamento das chamadas graphic novels, que ganharam este nome justamente porque novel é a palavra usada em inglês para se referir a livros de ficção, aqui conhecidos por muitos como romances. Inicialmente produzidas com histórias fechadas de personagens próprios, na década de 80 as graphic novels se uniram aos super-heróis com o lançamento de grandes clássicos como Watchmen e O Cavaleiro das Trevas. Embora a década seguinte, a de 90, não tenha passado para a memória dos fãs como uma das eras mais douradas dos quadrinhos, foi nela que ocorreu um grande boom do formato, com o estabelecimento de várias editoras independentes, e o lançamento daquela que, se não é a melhor ou mais famosa das graphic novels, pelo menos é a mais belamente ilustrada: Marvels.

Lançada em quatro edições mensais entre janeiro e abril de 1994 (1995 no Brasil), Marvels foi uma publicação da Marvel Comics que tinha o intuito de retratar acontecimentos-chave do Universo Marvel sob a ótica de pessoas comuns, ao invés de pelos olhos dos super-heróis que os estavam vivendo. Em outras palavras, embora muitas vezes nos esqueçamos disto enquanto estamos lendo, o Universo Marvel é povoado de gente como eu e você, sem qualquer espécie de superpoder, que apenas vive sua vida normal e rotineira de todos os dias, enquanto seres superpoderosos combatem uns aos outros ou impedem ameaças intergaláticas de destruir nosso planeta. Escrita por Kurt Busiek, Marvels ainda tinha um diferencial em relação a qualquer revista em quadrinhos que tivesse sido lançada antes: suas páginas não eram desenhadas, mas ricamente pintadas pelo artista Alex Ross. Junte-se a isso um acabamento de luxo, que conta até com uma "capa falsa" de acetato, e Marvels fica com muito mais cara de livro do que de história em quadrinhos.

A idéia da série surgiu quando Busiek, que já tinha visto algumas capas que Ross fizera para edições especiais da DC, conheceu o artista pessoalmente. Após algumas conversas, ambos decidiram submeter à Marvel, onde Busiek trabalhava, o projeto de uma série que não teria apenas suas capas pintadas, mas também toda a sua arte interna, algo bastante ambicioso, além de inédito e arriscado, já que ninguém sabia como os leitores iriam reagir a esta novidade. Correr riscos aparentemente nunca foi problema para a Marvel, porém, e a editora acabou dando luz verde para uma série que considerou mais do que apropriada para este ineditismo, aquela que, como eu já disse, mostraria acontecimentos-chave do Universo Marvel, aqueles familiares não somente aos leitores assíduos como também àqueles que só tivessem um conhecimento básico sobre os super-heróis da editora, sob a ótica de pessoas normais, presentes durante estes acontecimentos. Conforme Busiek e Ross discutiam os roteiros, porém, eles perceberam que seria possível fazer com que cada edição também tivesse um "tema", algo que associasse os acontecimentos à vida das pessoas envolvidas neles. Assim, a dupla criou um personagem principal, o fotógrafo Phil Sheldon, responsável por cobrir os acontecimentos de um ponto de vista jornalístico, enquanto estes eram apresentados simultaneamente em relação aos heróis e às pessoas comuns que as viviam.

Marvels abrange aproximadamente 30 anos do Universo Marvel; sua primeira edição, Uma Época de Maravilhas (A Time of Marvels), é ambientada no início da década de 1940, quando a editora ainda nem sequer se chamava Marvel. Sheldon ainda é um repórter em início de carreira, e os principais heróis retratados são o Tocha Humana original, o Príncipe Submarino e o Capitão América. O primeiro contato de Sheldon com as por ele chamadas Maravilhas se dá quando ele é escalado para cobrir um evento no qual o Dr. Phineas Thomas Horton, criador do Tocha Humana original - que, para quem não sabe, é um andróide - apresentará sua criação ao mundo. O fato de existir um ser humano artificial capaz de gerar fogo espontaneamente evidentemente causa pânico e temor na população, e o fato de um habitante de um reino submarino decidir atacar Nova Iorque alguns dias depois também não contribui muito para acalmar o povo. O próprio Sheldon chega a romper seu noivado por não conseguir imaginar como seria criar uma família em um mundo onde seres superpoderosos se degladiam, mas as ações do Capitão América e de seus aliados na Segunda Guerra Mundial fazem com que ele veja o quão realmente maravilhosas as Maravilhas podem ser, e reconsidere sua decisão. Segundo Busiek, o tema desta edição é o progresso científico, embora eu ache que o medo do desconhecido também interprete um importante papel.

O medo do desconhecido, porém, seria reservado como tema para a segunda edição, Monstros (Monsters), ambientada no início da década de 1960, e onde os X-Men são os principais heróis enfocados. Sheldon já é um repórter bem estabelecido, trabalhando para o Clarim Diário e planejando escrever um livro sobre as Maravilhas das quais tira tantas fotos. Em seu coração, porém, ele teme os mutantes - assim como a maioria da população, aliás - aos quais ele considera como o "lado ruim" das Maravilhas. O contraste entre a imagem que a população faz dos mutantes com a dos heróis em geral fica bem evidente nos dois acontecimentos principais cobertos nesta edição, o casamento de Reed Richards com Sue Storm e o ataque dos Sentinelas. O preconceito de Sheldon em relação aos mutantes diminui graças a dois eventos, a perseguição em sua vizinhança a uma pequena garotinha apenas porque ela nasceu mutante, e a explosão de violência por parte da população durante a Noite dos Sentinelas.

A edição mais impressionante do ponto de vista de uma pessoa comum, porém, é a terceira, Juízo Final (Judgement Day), que mostra a chegada de Galactus, e, segundo Busiek, tem como tema a impotência. A história é ambientada no final da década de 1960, um momento especialmente delicado, onde a população em geral se vê desconfiada do verdadeiro lugar das Maravilhas na sociedade, enquanto Sheldon sente que está dedicando tempo demais a seu trabalho e de menos a sua família. Quando uma chuva de fogo e pedras revela o Surfista Prateado, que se anuncia como arauto de um ser alienígena que está vindo devorar nosso planeta, evidentemente a população entra em pânico. Nem mesmo Sheldon acredita que verá o dia de amanhã, então ele decide não cobrir a história, mas ir para casa passar seus últimos momentos com sua família. Felizmente, como todos sabemos, o Quarteto Fantástico derrota Galactus, mas nem assim a população passa a dar às Maravilhas o tratamento que Sheldon imagina que elas mereçam.

Finalmente, a série se conclui com O Dia em que Ela Morreu (The Day She Died), ambientada no início da década de 1970. Sheldon conseguiu publicar seu livro de fotos, e está cada vez mais descontente com o tratamento dado às Maravilhas, vistas com cada vez mais desconfiança pelas pessoas em geral, apesar de arriscarem suas vidas para salvá-las diariamente. Sheldon é principalmente revoltado com as atitudes de J. Jonah Jameson e Peter Parker, que, na visão dele, se esforçam para mostrar o Homem-Aranha como um grande vilão, inclusive atribuindo a ele a culpa pela morte do Capitão Stacy. Após conhecer Gwen Stacy, filha do policial, ele decide investigar para obter provas de que o verdadeiro culpado pelo assassinato foi o Dr. Octopus. Infelizmente, durante esta investigação, o Duende Verde seqüestra Gwen, e a falha do Homem-Aranha em salvá-la causa um profundo desgosto em Sheldon, que decide se aposentar e não se preocupar mais com esta história de Maravilhas. Por qualquer razão, Busiek jamais disse qual seria o tema desta edição.

Marvels foi um imenso sucesso, ganhou vários dos principais prêmios destinados a histórias em quadrinhos, e alavancou as carreiras de Busiek e Ross, este último sendo permanentemente associado a trabalhos de qualidade. Devido a seu sucesso, a Marvel passaria a lançar regularmente outras minisséries pintadas ao invés de desenhadas, como Código de Honra, escrita por Chuck Dixon e ilustrada por Brad Parker e Tristan Shane, que mostrava o dia a dia de um policial comum no Universo Marvel; e Ruínas, escrita por Warren Ellis e ilustrada por Cliff e Terese Nielsen, e que mostrava Phil Sheldon como repórter em um universo paralelo onde os poderes das Maravilhas traziam-lhes enormes problemas ao invés de enormes vantagens. Nenhuma delas, porém, chegou nem perto do sucesso alcançado pela Marvels original; a que chegou mais perto foi um lançamento da DC, Kingdom Come (O Reino do Amanhã em português), uma visão futurista e sombria dos heróis DC, escrita por Mark Waid e também ilustrada por Alex Ross - curiosamente, Sheldon faz uma "participação especial", na cena da conferência de imprensa no prédio da ONU.

Em agosto de 1995, Marvels foi compilada em uma edição única, que trazia, além de várias ilustrações feitas por Ross dos principais heróis e vilões Marvel, uma espécie de prólogo (apelidada de "Edição 0" ou "Edição 1/2"); este prólogo contava a história da criação do Tocha Humana original, narrada pelo próprio Tocha, mostrando seu ponto de vista pessoal sobre os acontecimentos. Em 2004 Marvels foi novamente relançada, desta vez com capa dura de arte inédita, para comemorar seu 10o aniversário. Estas versões nunca foram lançadas por aqui, mas com um pouco de sorte podem ser encontradas em lojas de quadrinhos importados.

A principal característica da Marvel é que seus heróis são "humanos", com problemas e defeitos, e nem sempre aceitos pelas pessoas a quem deveriam proteger. Talvez Marvels tenha se tornado um grande sucesso justamente por levar esta idéia ao extremo, e por nos lembrar que, por mais que nos quadrinhos existam super-heróis voando por aí, eles nada seriam sem as pequenas pessoas comuns a quem juraram proteger. Um projeto ambicioso, mas que felizmente deu muito certo.

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