domingo, 8 de abril de 2007

Howard, o Pato

Colecionar DVDs de filmes dos anos 80 é, muitas vezes, uma tarefa ingrata. Muitos filmes que eu adoraria ter em minha coleção, como Space Camp e O Último Guerreiro das Estrelas, ainda nem foram - e eu nem sei se algum dia serão - lançados em DVD. Dos que já foram lançados, poucos o foram de forma decente: a maioria ou vem com legendas totalmente porcas (como Highlander), ou só é vendida em fullscreen (como Gremlins), ou, por alguma razão, não custa menos de R$ 39,90 (como O Vingador do Futuro - que na verdade é de 1990, mas tudo bem). Como um relançamento em condições melhores é pouquíssimo provável (a menos que se trate de um blockbuster da época, como De Volta Para o Futuro, cuja primeira versão em DVD recebeu tantas críticas que acabou recolhida e substituída por uma melhor) eu acabo me conformando e comprando assim mesmo. Fazer o quê.

Pois bem, o post de hoje é sobre um dos meus filmes preferidos dos anos 80, um que eu já tinha até perdido as esperanças de que um dia fosse lançado, mas surpreendentemente acabei encontrando no início deste ano. Infelizmente, ele custou R$ 39,90 e veio em fullscreen, mas pelo menos as legendas estão boas. O post de hoje é sobre Howard, o Pato! Cujo filme aqui no Brasil acabou traduzido para Howard, o Super-Herói, caso alguém não esteja ligando o nome à pessoa.

Beverly e Howard


Eu adoro este filme. Lembro-me que, da primeira vez que meu pai o alugou, quando eu tinha uns nove ou dez anos (junto com D.A.R.Y.L., outro "clássico" que eu quero comprar mas não encontro), o assisti umas três vezes em dois dias. Depois, como não era um filme que costumava passar muito na TV, acho que não consegui rever muitas vezes. Mas até me surpreendi quando o estava vendo no DVD, porque me lembrava praticamente do filme todo. Embora eu não consiga encontrar nenhuma razão para isso, aparentemente este foi um filme que marcou minha infância.

Infelizmente, quando fui começar a pesquisar para escrever este post, acabei descobrindo que, nos Estados Unidos, Howard é considerado um dos cem piores filmes já feitos em toda a história do cinema, e foi um fracasso retumbante de bilheteria, crítica e público. Que as pessoas não gostem dos filmes que eu gosto eu estou acostumado, mas isso eu já achei um certo exagero. Refletindo sobre o assunto, acabei chegando a uma conclusão que talvez não explique o fato, mas aponte uma possibilidade: Howard, o Super-Herói não é um filme ruim, mas uma adaptação ruim. Isto porque Howard já era um super-herói antes do filme - e um super-herói da Marvel.

Howard foi criado em 1973 pelo roteirista Steve Gerber, tendo sido desenhado pela primeira vez por Val Mayerik, como personagem coadjuvante de uma história do Homem-Coisa na revista Adventure into Fear número 19. Em 1975, Gerber o colocou em mais uma história, na revista Giant-Sized Man-Thing, uma paródia de horror onde Howard enfrentava a Vaca Infernal e o Homem-Sapo. O sucesso do personagem acabou fazendo com que ele ganhasse sua própria série em quadrinhos, Howard the Duck, cujo primeiro número foi publicado em junho de 1976.

Mal-humorado, mal-educado, politicamente incorreto, cínico, e sempre com um charuto na boca, Howard era um pato antropomórfico alienígena de noventa centímetros de altura, teletransportado para a Terra depois de uma mudança súbita no eixo cósmico. Originalmente, ele vestia apenas uma camisa social, um chapéu e uma gravata, mas depois de um processo movido pela Disney, o desenhista Gene Colan decidiu acrescentar calças ao personagem. Seus únicos objetivos eram ser deixado em paz e levar uma vida normal, mas, como ele era um pato, isto acabava se tornando muito difícil, e Howard freqüentemente se via envolvido em aventuras, sempre em tom de paródia ou sátira, fazendo troça com quadrinhos de horror e filmes de ficção científica.

Howard tinha três amigos humanos, a lindíssima ex-modelo Beverly Switzler, com quem ele acabou desenvolvendo um relacionamento amoroso - assim como Howard, tudo o que Beverly quer é levar uma vida normal, algo constantemente impedido por sua aparência; o pintor Paul Same, que era sonâmbulo, e enquanto dormia se transformava em um combatente do crime que percorria as ruas da cidade prendendo bandidos; e Winda Wesper, uma jovem com poderes psíquicos e língua presa. Seus inimigos variavam a cada edição, consistindo de paródias de personagens de ficção científica, monstros clássicos do horror, personagens de livros de fantasia, políticos, e eventualmente um cidadão comum que não ia com a cara de Howard. Seu arqui-inimigo, e principal vilão recorrente, era o Dr. Bong, um ex-repórter de tablóide que tinha um capacete em formato de sino, uma enorme esfera de metal no lugar da mão esquerda, e o poder de alterar a realidade ao atingir a própria cabeça com esta esfera - quanto mais força, maior a alteração. O principal objetivo de Bong era se casar com Beverly, e, para isso, ele tinha de tirar Howard do caminho.

Steve Gerber escreveu as 27 primeiras edições da revista de Howard, além de tiras de Howard para jornal, publicadas entre 1977 e 1978; então, uma confusão começou: Gerber possuía total autonomia para fazer o que quisesse nas histórias - algo incomum em se tratando de uma editora grande e mainstream como a Marvel - e chegou ao ponto de, incapaz de cumprir o prazo estabelecido pela editora, publicar uma série de textos e ilustrações que satirizavam sua capacidade como quadrinhista no lugar da história. Em 1978 a Marvel decidiu restringir esta liberdade, para que episódios como este não se repetissem, e Gerber não concordou. Gerber então foi substituído por Marv Wolfman, mas jamais aceitou deixar de ter de escrever as histórias de Howard: segundo ele, seu contrato com a Marvel não dava à editora direitos sobre personagens secundários que ele criasse, então, como Howard era originalmente um personagem secundário criado para uma história do Homem-Coisa, seus direitos pertenceriam a Gerber. A Marvel não aceitou este argumento, respondendo que, a partir do momento em que Howard passara a ter sua própria revista, ele deixara de ser um personagem secundário. Gerber recorreu à justiça, e um processo se arrastou por vários anos.

A revista original de Howard ainda durou até a edição 31, quando foi substituída por uma nova, bimestral, que só teve nove edições, sendo cancelada de vez em 1980. Após a saída de Gerber, as histórias foram escritas por Wolfman, Mary Skrenes, Mark Evanier, Bill Mantlo e Steven Grant. Mantlo tomou várias decisões que desagradaram Gerber, como por exemplo a de revelar que Howard veio de um planeta chamado Duckworld, um mundo idêntico à Terra, mas onde os patos, e não os macacos, teriam evoluído até se tornar a espécie dominante. Gerber considerava esta idéia "muito vulgar e típica das histórias em quadrinhos, no pior sentido do termo", preferindo acreditar que Howard teria vindo de uma Terra alternativa de outra dimensão, povoada por vários animais antropomórficos. Gerber também gostava de escrever para adultos, chegando a sugerir um relacionamento sexual entre Howard e Beverly, algo que foi atenuado por Mantlo para que as histórias atingissem um público maior.

Para provocar a Marvel, Gerber conseguiu um contrato com a editora Eclipse Enterprises, para publicar, a partir de 1982, uma nova história chamada Destroyer Duck. Nela, um pato de nome Duke Duck, residente em um planeta povoado por animais antropomórficos, vê seu melhor amigo desaparecer bem diante de seus olhos. Anos mais tarde, ele reaparece, dizendo que foi seqüestrado, explorado e arruinado por uma megacorporação extradimensional chamada Goldcorp, e morre aos pés de Duke. Duke então parte em uma missão de vingança contra a tal Goldcorp, que depois se transforma em uma missão de resgate, quando Duke descobre que seu amigo ainda está vivo, e quem morreu foi um clone mal-feito criado pela Goldcorp. Para muitos, o melhor amigo de Duke seria Howard, mas isto nunca foi confirmado nem negado por Gerber. A revista Destroyer Duck teve sete edições, lançadas a intervalos irregulares, a última em 1984.

Em 1986, com o lançamento do filme, a Marvel resolveu ressucitar a revista de Howard. Como o filme foi um fracasso, a revista também não teve vida muito longa, durando apenas mais cinco edições, sendo que três delas eram uma quadrinização do filme. Mais ou menos nesta época, o processo movido por Gerber finalmente chegou ao fim, com a vitória da Marvel, que manteve seus direitos sobre todos os personagens das revistas de Howard, embora não tivesse muito mais o que fazer com eles.

Com o processo encerrado, porém, a Marvel decidiu negociar com Gerber, para que este voltasse a escrever para a editora como freelancer. O editor Tom Breevort conseguiu convencê-lo de que ele era a única pessoa que a Marvel queria escrevendo as histórias de Howard, então ele fechou um contrato para escrever a edição número 5 da revista Spider-Man Team-Up, de 1996, estrelando Howard e o Homem-Aranha. Simultaneamente, ele escreveu para a Image Comics um crossover entre o personagem The Savage Dragon e seu Destroyer Duck. As duas revistas seguem histórias paralelas, ambientadas no mesmo lugar, mas sem que os personagens de uma revista aparecessem na outra, até se "encontrarem" em uma cena confusa que, segundo Gerber, é a mesma cena, mas vista de ângulos diferentes dependendo de qual revista você está lendo. No final da revista de Destroyer Duck, Duke finalmente consegue resgatar seu melhor amigo, que é idêntico a Howard, mas cujo nome é Leonard. Anos mais tarde, Gerber declararia que Leonard seria o verdadeiro Howard, que estava aprisionado pela Marvel e foi resgatado por Duke, mudando-se para o Universo Image e trocando seu nome para não ser encontrado (segundo Gerber, Beverly também foi com ele, e trocou seu nome para Rhonda Martini); enquanto o Howard que acompanhou o Homem-Aranha no final da revista publicada pela Marvel era apenas mais um clone. Este episódio acabou gerando uma enorme animosidade entre Breevort e Gerber, a ponto do editor não querer mais trabalhar com ele.

Phil e HowardO mais curioso é que Gerber ainda aceitaria escrever uma nova minissérie de Howard para a Marvel, publicada em 2001 sob o selo Marvel MAX de quadrinhos para adultos. Esta história seguiu o "estilo Gerber" de Howard, parodiando muitas outras histórias em quadrinhos e ícones da cultura pop, e com muito conteúdo adulto, inclusive sexual. Apesar da manobra de Gerber em 1996, Howard continua até hoje como propriedade da Marvel, e de vez em quando faz participações especiais em diversos outros títulos da editora.

Certo, e o filme, por que é considerado tão ruim? Na minha opinião, porque é totalmente diferente dos quadrinhos, um pecado mortal para uma adaptação. Basicamente, tentaram fazer um filme apropriado para todos os públicos, mas que não agradou a nenhum. Segundo os críticos, é pesado demais para crianças (com isso eu até concordo, tem uma cena em que Beverly quase fica pelada), mas bobo demais para adultos. Aí eu já discordo. Na minha opinião, Howard, o Super-Herói, é, na verdade, um filme trash: seu roteiro pode não ser muito profundo, suas piadas quase todas trocadilhos, mas, e daí?, o filme é muito divertido. Bom, talvez não para os fãs de Howard, pois aí eu concordo que entre o filme e os quadrinhos vai mais de uma semana de distância.

No filme, Howard ("interpretado" por seis atores que se revezavam vestindo uma roupa com cabeça de animatronics, e dublado por Chip Zien) mora em um planeta chamado Duckworld, onde os patos se desenvolveram até se tornar a espécie dominante (justamente a teoria odiada por Gerber). Um dia, ele é acidentalmente trazido para a Terra durante um experimento em nosso planeta com um espectômetro laser. Arremessado ao espaço, Howard acaba indo parar em Cleveland, onde conhece a cantora de rock Beverly Switzler (Lea Thompson - o papel chegou a ser oferecido para Tori Amos, que na época estava em início de carreira e tinha uma banda de rock). Tentando ajudar Howard a voltar para seu planeta, ela o leva até seu amigo Phil Blumburtt (Tim Robbins), que ela imagina ser um cientista, mas é na verdade o zelador de um museu. Revoltado por estar preso em um planeta que não compreende, Howard abandona Beverly e se envolve em muitas confusões ao tentar arrumar um emprego (e um lado trash do filme é que quase todo mundo aceita que ele é um pato e pronto, sem contestação), mas acaba voltando para sua única amiga após tantas frustrações.

A esperança de Howard se renova quando Phil consegue a ajuda do cientista Dr. Walter Jenning (Jeffrey Jones), que promete tentar usar o laser para enviá-lo de volta ao seu planeta natal, buscando, de lambuja, estabelecer uma ligação entre os dois planetas, algo fantástico para a ciência. Durante um teste, porém, Jenning acaba trazendo do espaço um dos alienígenas auto-intitulados Mestres Ocultos do Universo, que se apodera de seu corpo, e passa a ter como missão ajustar o laser para trazer os demais Mestres Ocultos para a Terra, causando a destruição do planeta. Enquanto Howard e Phil são persguidos pela polícia, que acha que eles são os culpados pelo teste do laser ter dado errado, o Mestre Oculto seqüestra Beverly, para usar seu corpo como receptáculo para outro de sua raça. Cabe a Howard se livrar de seus perseguidores e chegar ao laboratório a tempo, para salvar sua amiga e também o mundo.

O fracasso nas bilheterias deve ter sido um espanto na época: o filme tem um bom elenco, foi produzido por George Lucas, escrito por Willard Huyck e Gloria Katz (que co-escreveram Indiana Jones e o Templo da Perdição) e tem efeitos especiais da Industrial Light & Magic. Eu, sinceramente, nem que veja o filme cem vezes vou entender por que ele é tão odiado. Deve ser porque eu não conhecia Howard antes do filme, e porque tenho um especial gosto duvidoso por filmes trash. Principalmente se eles forem dos anos 80.

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