domingo, 5 de novembro de 2006

Castlevania (I)

Parece que "impressionar" é a palavra da moda entre os desenvolvedores de videogames. Cada jogo que sai tem mais cenas de animação, personagens mais realísticos, músicas mais envolventes. Eventualmente, não conseguiremos diferenciar um game de um filme que esteja passando na televisão.

É claro que isso não é uma coisa necessariamente ruim, desde que não deixem de lado a diversão. Afinal, de nada adianta um jogo ser lindo e sem graça. Mas essa busca pela perfeição acabou tendo um efeito colateral: a cada dia que passa, são lançados menos jogos do meu estilo preferido, o plataforma. Ninja Gaiden e Mario, que começaram como plataforma, hoje já são de ação 3D. Jogos de plataforma inéditos são pouquíssimos a cada ano. Praticamente, o único videogame que ainda trazia jogos de plataforma em quantidade era o Game Boy Advance, que já está sendo substituído aos poucos pelo Nintendo DS.

Este intrólito levou dias para ser escrito, e foi a forma que eu encontrei de anunciar o tema do post de hoje. Um dos melhores jogos de plataforma que já fizeram, e um dos poucos que se mantém neste estilo, apesar de já ter se aventurado pelo 3D: Castlevania.

CastlevaniaCastlevania é uma das séries mais famosas da Konami, considerada uma das melhores produtoras de games do Japão. Seu primeiro título foi lançado em 1986 para uma plataforma onde os jogos da Konami abundavam, os computadores MSX, e recebeu o nome de Akumajo Dracula, "O Castelo Demoníaco de Drácula", título este que foi traduzido para Vampire Killer, "Matador de Vampiros", quando o jogo foi lançado na Europa e aqui no Brasil. Neste jogo, ambientado em 1691, o jogador assumia o papel de Simon Belmont (Belmondo, no original japonês), descendente de uma família de caçadores de vampiros, que, utilizando o chicote Vampire Killer, parte para derrotar o Conde Drácula, que ressucitara após 100 anos, e trazer a paz de volta à Transilvânia. Como muitos jogos do MSX, a ação se desenrolava "uma tela de cada vez", ou seja, ao tocar o canto da tela, o jogador surge no canto da tela seguinte, como se o castelo de Drácula fosse composto de infinitas salas, cada uma com perigos e tesouros. Para alcançar o Conde Drácula, Simon terá de passar por seis fases, enfrentando monstros clássicos como a Múmia, o Monstro de Frankenstein, e até mesmo a Morte. No final, Drácula evidentemente é derrotado pelo herói, mas esta vitória tem um preço, que ficaremos conhecendo muito em breve.

Apesar de ser um jogo excelente, Akumajo Dracula não se tornou muito popular fora do Japão, principalmente porque nunca foi lançado nos EUA. Para mudar este quadro, entretanto, bastou que ele fosse adaptado no ano seguinte para um videogame que estava surgindo na época, mas já era bastante popular, o Famicom, conhecido fora do Japão como Nintendo Entertainment System, ou NES. A versão NES é praticamente idêntica à do MSX, mas com uma movimentação mais suave, sem mudanças de tela. Outra mudança significativa foi em relação a armas especiais, como adagas e crucifixos: na versão MSX elas substituem o chicote, enquanto na versão NES elas atuam como armas secundárias, com um número limitado de usos, e sem impedir que Simon continue usando o chicote. Muitos elementos de RPG, como lojas de itens e a necessidade de se encontrar chaves para abrir determinadas salas também foram suprimidos da versão NES, tornando o jogo mais focado na ação. Mas a maior mudança de todas, evidentemente, foi no nome. Na época, a Nintendo tinha uma política muito rigorosa quanto ao que era apropriado para seus jovens jogadores e o que não era, e títulos com as palavras "demoníaco" e "matador" não pareciam muito apropriados. A solução acabou sendo chamar o jogo de Castlevania, um trocadilho com as palavras castle ("castelo", em inglês) e Transilvânia. Castlevania, na versão norte-americana, é o nome do castelo de Drácula, onde o jogo se desenrola; este nome, porém, é alvo de muitas críticas, pois o nome Transilvânia, que significa "além da floresta", vem das palavras latinas trans, "além", e silvanus, "floresta". "Vania", portanto, não significa nada, e não deveria ter sido utilizado no nome do castelo. Na minha opinião, discutir estes pormenores vinte anos depois do jogo ter sido lançado é uma coisa meio sem sentido.

Pois bem, voltando ao que interessa, Castlevania se tornou um grande sucesso, tanto que acabou sendo adaptado em 1990 para os computadores Commodore 64 e PC (versão DOS), em 2002 ganharia uma versão Windows, e em 2004 uma versão para Game Boy Advance. Mas antes disso tudo ganharia uma continuação, Castlevania 2: Simon's Quest ("A Busca de Simon"), lançado no final de 1987 para NES, e que tinha o título original de Dracula 2: Noroi no Fuuin ("O Selo Amaldiçoado"). A história é bastante interessante: após derrotar Drácula no final do primeiro jogo, Simon recebeu deste uma maldição. Segundo esta maldição, Simon teria de reunir os cinco pedaços de Drácula, que se espalharam pela Transilvânia após sua morte, e levá-los a Castlevania para ressucitá-lo; caso contrário, morreria. O jogo é muito mais parecido com um RPG do que com o primeiro Castlevania, embora a ação seja em sidescrolling ("visto de lado"), e não "visto de cima" como era comum nos RPGs da época. Simon passa o jogo visitando sete cidades e cinco castelos da Transilvânia, em busca dos pedaços de Drácula para concluir sua missão. O jogo não possui fases, mas tem alguns chefes, e três finais diferentes, dependendo de quanto tempo Simon leve para ressucitar Drácula, além de uma grande inovação, um sistema de dia/noite: enquanto você guia Simon pela Transilvânia, de repente pode anoitecer, e o número de inimigos aumentará, pois os lacaios de Drácula preferem a noite. Se você não quiser confusão, pode esperar em uma cidade (que normalmente tem menos inimigos) até amanhecer novamente. Alguns eventos só podem acontecer durante a noite, e outros durante o dia. Simon's Quest é um jogo complexo, mas muito interessante e muito divertido.

Castlevania: Rondo of BloodEm 1988 foi lançado um jogo de Castlevania para arcades, chamado no Japão por seu nome original de Akumajo Dracula, e nos EUA por Haunted Castle ("Castelo Mal-Assombrado"). Curiosamente, neste jogo Drácula seqüestra a noiva de Simon no dia de seu casamento, então a missão de nosso herói é salvá-la, e não livrar o povo da Transilvânia da ameaça do vampiro. Também são seis fases, com os mesmos inimigos do primeiro Castlevania. O jogo é dificílimo (não tem "continue", se acabarem as três vidas você é forçado a recomeçar do início, mesmo que coloque outro crédito) e os gráficos são meio estranhos (Simon parece ter sifose), o que contribuiu para que este jogo fosse um fracasso, e se tornasse pouco conhecido. Muita gente inclusive, nem sabe que ele é um jogo de Castlevania.

Em 1989 foi a vez do Game Boy ganhar seu Castlevania, Castlevania: The Adventure, lançado no Japão como Dracula Densetsu ("A Lenda de Drácula"). Este jogo se passa 115 anos antes do Castlevania original, e o jogador deve guiar Christopher Belmont, bisavô de Simon, através de quatro fases, em sua luta contra Drácula em uma aparição anterior do vampiro. O jogo é especialmente conhecido - e odiado - por sua fase três, onde Christopher deve escalar cordas e plataformas enquanto é "seguido" por uma plataforma com espinhos, que representava o fim do jogo para muitos jogadores. Além disso, Christopher se move muito mais lentamente que Simon, e o jogo não tem armas secundárias, o que fez com que este fosse mais um título da série a passar em branco.

A tão esperada seqüência de Castlevania para o NES veio em 1990, mas não era exatamente uma seqüência. Castlevania 3: Dracula's Curse ("A Maldição de Drácula"), lançado no Japão como Akumajo Densetsu ("A Lenda do Castelo Demoníaco"), se passa 215 anos antes do primeiro Castlevania. Desta vez o herói é Trevor Belmont (Ralph Belmondo no original), avô de Christopher, que deve passar por nove fases, enfrentando monstros clássicos e outros nem tanto, para - adivinhem - destruir Drácula e salvar a Transilvânia. O jogo é considerado um dos melhores do NES, não somente por seus gráficos e música excepcionais para a época, mas também por seu sistema de fases: após algumas fases, o jogador pode escolher entre dois caminhos diferentes, proporcionando aventuras diferentes a cada vez que se joga. Além disso, durante sua jornada, Trevor conhecerá três aliados: o pirata Grant DaNasty, que pode escalar paredes e mudar de direção no meio de um pulo (algo que nenhum personagem dos primeiros Castlevania podia fazer, e que era uma espécie de marca da série); a bruxa Sypha Belnades, de ataques fracos mas magias poderosas; e Alucard, o filho de Drácula, que lança bolas de fogo e pode se transformar em morcego. Um deles poderá acompanhar Trevor - mas apenas um de cada vez. As fases subseqüentes à escolha do aliado se tornam bastante diferentes dependendo de quem esteja acompanhando Trevor, e o jogo tem quatro finais diferentes, um para cada aliado e um para Trevor sem aliado nenhum. Apesar de ser um jogo tão fantástico, Dracula's Curse tinha um defeito curioso: na versão japonesa, os gráficos e a música eram ainda melhores - o jogo vinha com um chip especial para música, inclusive - a dificuldade era menor, e Grant atacava jogando adagas, ao invés de com uma faca.

Super Castlevania 4Tais diferenças entre as versões japonesa e americana também estariam presentes no lançamento seguinte, Super Castlevania 4, o primeiro para o Super Nintendo, de 1991. No Japão, este jogo era um remake do primeiro Castlevania, com a mesma história, tendo, inclusive, o mesmo nome, Akumajo Dracula; nos EUA, por outro lado, o manual e a abertura do jogo foram modificados para que ele fosse uma seqüência de Simon's Quest, onde Simon Belmont tem mais de uma vez de lidar com Drácula, que fugiu após ser ressucitado por ele no final do jogo anterior, enganando-o para que pensasse que estava morto. Seja como for, Simon terá de passar por 10 fases até derrotar o vampiro novamente. O jogo utilizava vários recursos populares do Super Nintendo, como zoom, dois planos de jogo na mesma tela e rotação, e trazia gráficos de última geração - alguns tão bons que foram censurados na versão norte-americana: estátuas nuas ganharam roupas, e um rio de sangue ficou verde.

No mesmo ano de Super Castlevania 4, foi lançado um novo título para Game Boy, Castlevania 2: Belmont's Revenge ("A Vingança de Belmont"; Dracula Densetsu 2 em japonês). Buscando reparar os defeitos do jogo anterior, a Konami adicionou armas secundárias, aumentou a velocidade do movimento do protagonista, e ainda adicionou um sistema de escolha de fases, semelhante aos dos jogos de Megaman. Neste título, você mais uma vez está no papel de Christopher Belmont, que desta vez tem de salvar seu filho, Solieyu (Nota do Guil: Eles trocam Ralph por Trevor, mas deixam Solieyu?), seqüestrado por Drácula após os eventos de Castlevania: The Adventure. Christopher terá de destruir quatro castelos de Drácula (as quatro fases que você pode escolher a ordem), cada um com um tema diferente - ar, plantas, terra e cristal. Após vencer os quatro, Christopher terá acesso a Castlevania, onde duas novas fases o aguardam.

Em 1993 foram lançados dois títulos exclusivos para o mercado japonês; um deles foi um novo remake do primeiro Castlevania, desta vez para os computadores Sharp X68000, que só existiam no Japão. Além dos gráficos e música melhorados, algumas fases foram redesenhadas, e alguns itens e inimigos novos adicionados. O nome era o mesmo de sempre, Akumajo Dracula. Embora esta versão nunca tenha sido lançada nos EUA, ela se tornou muito popular, principalmente devido aos emuladores, de forma que, em 2001, a Konami decidiu lançá-la para Playstation, com o nome de Castlevania Chronicles (Akumajo Nendaiki, "Crônicas do Castelo Demoníaco", em japonês). Além da versão original do X68000, Chronicles ainda trazia uma versão ainda mais melhorada, com filmes de computação gráfica e gráficos de 32 bits.

Castlevania BloodlinesA outra versão exclusiva para o mercado japonês foi lançada para o videogame de 16 bits PC Engine, conhecido nos EUA como Turbografx-16. Akumajo Dracula X: Chi no Rondo ("Rondó de Sangue", rondó é um estilo musical originário da Idade Média) foi considerado o melhor jogo daquele console, e um dos melhores da série. Além disso, foi o primeiro Castlevania lançado em CD. Com gráficos e música primorosos para um console de 16 bits, Rondo of Blood, como ficou conhecido nos EUA, se passa em 1792, e conta a história de Richter Belmont, bisneto de Simon, que tem mais uma vez de enfrentar Drácula, que foi ressucitado pelo sacerdote Shaft e seqüestrou quatro jovens e belas moças para tomar como suas esposas, dentre elas Anette Renard, noiva de Richter. Assim como Dracula's Curse, Rondo of Blood tem muitos caminhos alternativos ao longo de suas oito fases, e em um deles Richter pode ganhar uma aliada, Maria, uma menininha de 12 anos com poderes mágicos ligados aos animais. Rondo of Blood ainda foi o primeiro jogo a permitir um mega ataque com as armas secundárias, o que logo voltaria a aparecer em mais títulos da série. Assim como aconteceu com o jogo do X68000, Rondo of Blood também ganhou eventualmente uma versão para o mercado americano, Castlevania: Dracula X (conhecido como Akumajo Dracula XX no Japão e Castlevania: Vampire's Kiss, "O Beijo do Vampiro", na Europa), lançado em 1995 para o Super Nintendo. A história era a mesma, mas as fases - algumas diferentes ou redesenhadas - se sucediam de forma linear, sem bifurcações, e a dificuldade foi atenuada. Estes dois fatos, somados a gráficos mais simples que os da versão original, fizeram com que Dracula X fosse alvo de muitas críticas, sendo considerado inferior ao original.

Em 1994 seria lançado o único Castlevania para o console Mega Drive, da Sega. Curiosamente chamado de Vampire Killer no Japão, Castlevania: The New Generation ("A Nova Geração") na Europa, e Castlevania Bloodlines ("Linhagens") no resto do mundo, este título se passa em plena Primeira Guerra Mundial, no ano de 1917, e é uma tentativa de incluir o livro Drácula, de Bram Stoker, na cronologia oficial de Castlevania. Segundo o jogo, a Condessa Elizabeth Bartley, sobrinha de Drácula, tomou parte no assasinato de Franz Ferdinand, o evento que deu origem à Guerra. Seu plano era iniciar um ritual profano onde milhares de almas européias fossem ceifadas, o que permitiria a ressurreição de Drácula. Para impedí-la, o jogador pode escolher entre dois personagens: John Morris, filho de Quincey Morris, o caubói que participa da caçada a Drácula no livro, e segundo o jogo descendente dos Belmont; e Eric Lecarde, o melhor amigo de John, que quer vingança contra a Condessa por ela ter transformado sua noiva Gwendolyn em vampira. Bloodlines é o único título da série em que os personagens viajam pelo mundo, visitando cinco países diferentes ao longo de suas seis fases, algumas com as já famosas bifurcações. Os gráficos mais uma vez são excelentes, e bastante detalhados. O jogo foi bem aceito pelos fãs, mas a história confusa e a ausência de um Belmont "verdadeiro" fizeram com que os mais puristas - e muitos críticos - torcessem o nariz.

Castlevania: Symphony of the NightDepois do Mega Drive, foi a vez de Castlevania chegar ao Playstation. Lançado em 1997, e um ano depois para o Sega Saturn, Castlevania: Symphony of the Night ("Sinfonia da Noite"; Akumajo Dracula X: Gekka no Yasokyoku, "Música Noturna à Luz da Lua", em japonês) é uma continuação direta de Rondo of Blood (e, por conseguinte, de Dracula X), e é considerado por muitos como o melhor de todos os Castlevania. De fato, além de gráficos e músicas primorosos, que demonstraram que os jogos de plataforma com sprites ainda tinham muito o que oferecer em uma época em que a maioria dos jogos já era em 3D, Symphony of the Night ainda trouxe um esquema de jogo não-linear, com elementos de RPG, todo ambientado em uma única e imensa fase - o castelo de Drácula - ao invés do tradicional esquema de uma fase após a outra, característico não só da série, mas dos jogos de plataforma em geral. Este esquema fez tanto sucesso que foi utilizado em muitos outros jogos da série, e ganhou o apelido, entre os fãs norte-americanos, de "Castleroid", em alusão ao jogo Metroid, da Nintendo, que também o utilizava, mas já no NES.

A história se passa em 1797, cinco anos após os eventos de Rondo of Blood. Você começa o jogo no papel de Richter Belmont, que, após derrotar Drácula, recebe uma maldição do sacerdote Shaft, que o transforma em uma espécie de demônio, e coloca Castlevania sob seu poder. O jogador então assume o papel de Alucard, o filho de Drácula, que decide investigar o castelo do pai para saber por que ele continua em atividade mesmo após a derrota do vampiro, e por que Richter está desaparecido. Assim como em jogos de RPG, ao longo de sua aventura Alucard ganha novas armas e movimentos, que permitirão que ele enfrente inimigos mais poderosos e acesse áreas do castelo antes inacessíveis - uma boa sacada é que as magias de Alucard não são acessadas através de menus, mas de comandos, como os golpes em jogos de luta. Durante a exploração, Alucard pode ganhar a ajuda de Maria Renard, e existe um truque secreto para jogar com Richter após você terminar o jogo. Falando nisso, o jogo tem quatro finais, dependendo de seu desempenho na exploração do castelo, e após alguns deles Alucard receberá um novo desafio: invadir o Castelo Invertido, que surge dos céus, e enfrentar ninguém menos que seu pai, o Conde Drácula. Os inimigos do jogo são mais uma vez monstros clássicos, mas desta vez foram adicionados alguns mais modernos, como os dos livros de Lovecraft.

Pois bem, ainda faltam uns dez jogos, e este post já está bem grandinho. A conclusão ficará para a semana que vem. Até lá!

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