quinta-feira, 22 de maio de 2003

Escrito por em 22.5.03 com 0 comentários

Cultura nacional

Eu já estava querendo falar sobre esse tema há algum tempo, mas resolvi adiá-lo para essa semana para coincidir com o tema de Holy Avenger no BLOGuil. Para quem não sabe, Holy Avenger é uma história em quadrinhos 100% nacional. Aí vem a pergunta (que até eu mesmo me fiz quando a revista foi lançada): "Ué, se é 100% nacional, por que o nome é em inglês?". Vamos falar hoje, portanto, da influência (maléfica ou não) das línguas estrangeiras em nossa cultura.

É muito importante fazer essa diferenciação. Só porque temos a influência de um determinado idioma, cultura ou costumes no nosso, não significa que isso seja maléfico. Na minha opinião, é o caso de Holy Avenger.

Holy Avenger é uma história em quadrinhos continuada (gênero que dizem ter sido inventado nos Estados Unidos) com desenhos em estilo mangá (quadrinhos japoneses), baseada em RPG (também criado nos EUA), que, por sua vez, foi inspirado na obra do escritor J. R. R. Tolkien (que nasceu na África do Sul), que inventou um universo medieval fantástico (normalmente associado à Inglaterra) unindo elementos das culturas inglesa, céltica e nórdica, inspirado na mitologia grega. Depois dessa salada toda, qual o problema da história se chamar Holy Avenger, mesmo tendo sido produzida no Brasil?

Ah, mas temos que valorizar a cultura nacional, como eu já ouvi diversas pessoas dizerem. Só que valorizar a cultura nacional não é somente mudar o título para "O Cangaceiro Arretado", substituir os elfos por sacis-pererês e os dragões por mulas sem cabeça, chamar o herói de João Fortão e o vilão de Zé Cachaça. Muitos mangás japoneses possuem títulos em inglês, como Dragon Ball e Sailor Moon, só pra citar uns mais conhecidos, e são cultura japonesa pura, nem um pouco influenciada pela americana. Em um país tão pobre de eventos culturais, tão difícil de se vencer produzindo arte, onde os incentivos a esse campo são mínimos ("Quer ser artista? Vai é morrer de fome!"), qualquer coisa de boa qualidade produzida inteiramente por brasileiros, mesmo que inspirado em cultura estrangeira, está incentivando a cultura nacional, pois está abrindo portas para novos artistas, que, quem sabe não acabarão naturalmente por criar obras muito mais nacionais do que uma aventura medieval fantástica?

Outro bom exemplo: No Rock in Rio 3, houve um concurso, ou sei lá o que, para que uma banda nacional "desconhecida" fosse escolhida para tocar no palco principal, abrindo o último dia do festival. A banda que ganhou era de rock pesado, de Minas Gerais, se não me engano, e chamava-se Diesel. Só teve um "problema": Eles cantavam em inglês. Vocês não imaginam quantas pessoas eu ouvi reclamando que "escolher uma banda que canta em inglês é um absurdo", "cantar em inglês é um absurdo", e, novamente, "temos que valorizar a cultura nacional". A pergunta que eu faço é: Desde quando rock and roll é cultura nacional? Tudo bem, existe o famoso "Rock Brasil", muitas bandas que cantam em português, mas, se lá na época da Jovem Guarda, quando todas as músicas eram versões de músicas americanas, e tínhamos bandas chamadas "The Fevers", "The Vips" e "Renato e seus Blue Caps", se alguém tivesse bradado que isso era um absurdo e que tínhamos que valorizar a cultura nacional, hoje não teríamos tido bandas como a Legião Urbana, que, apesar de tocar rock puro, sem influências de ritmos regionais brasileiros, como algumas das bandas mais recentes costumam fazer para parecer "mais brasileiras", nunca deixou de se preocupar com a situação do brasil, criando verdadeiros hinos como "Que País É Esse?" e "Faroeste Caboclo". Hoje em dia temos muitas outras bandas e/ou cantores que, influenciados pela cultura norte-americana ou não, continuam criando cultura genuinamente brasileira (Um aparte: Por que ninguém reclama que o Roxette não canta em sueco?).

Tudo o que é extremo é ruim. Uma história em quadrinhos com nome em inglês, uma banda que cante em inglês (ou francês, alemão, espanhol, não importa), apenas está se inspirando em uma cultura estrangeira, e não "se deixando dominar" por ela, como querem nos fazer acreditar alguns extremistas. Valorizar a cultura nacional não é deixar de ler o Pato Donald para ler a Mônica, deixar de ouvir os Rolling Stones para ouvir Caetano Veloso, deixar de ir no cinema ver Matrix para ver Carandiru. É simplesmente não deixar de lado o que é nacional e só dar valor ao que é estrangeiro. É não cometer o mesmo extremismo para nenhum dos lados. O sujeito que não consome nada estrangeiro porque acha que só o que é nacional é que presta é tão nocivo para o desenvolvimento da cultura quanto o que só lê o que é estrangeiro achando que nada do que é nacional presta.

Eu sei que vai aparecer gente pra dizer que eu estou defendendo a dominação da cultura nacional pelos norte-americanos, que eu só coloco citações de músicas estrangeiras para abrir meus posts, e que Holy Avenger tinha que se chamar Vingadora Sagrada. Mas nenhuma cultura se desenvolve se ficar fechada em si mesma. O único meio de desenvolvimento cultural é composto de três passos: A preservação da cultura original, a assimilação de cultura estrangeira e a fusão das culturas nacional e estrangeira para criar um novo aspecto da cultura. É difícil, mas temos que tentar seguir esses três passos, valorizando a cultura nacional sim, mas sem xenofobia, sem descartar completamente o que vem de fora, e aceitando suas influências. Afinal, se fôssemos completamente fechados em nós mesmos desde o início, hoje não teríamos nem historinhas da Turma da Mônica.
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terça-feira, 13 de maio de 2003

Escrito por em 13.5.03 com 0 comentários

Opinião própria

Eu não me canso de reclamar da sociedade atual, porque ela faz as pessoas fazerem coisas que não entram na minha cabeça.

Como vocês já devem saber, eu gosto de comentar casos de novela antes de fazer minhas considerações. Não que eu acompanhe a novela, normalmente eu só vejo um pedaço ou outro (embora essa frase pareça desculpa de noveleiro que não quer se assumir), mas de vez em quando as novelas mostram situações que valem a pena serem discutidas, mesmo que a própria novela não as discuta como deveria. Vamos a uma destas situações, então.

No pedaço do capítulo de ontem da novela Mulheres Apaixonadas que eu vi, Edwiges corria para o aeroporto para se encontrar com seu namorado Cláudio, que iria viajar com ela para São Paulo, mas ela não deu certeza, e ele, teoricamente, iria viajar sozinho. Ao chegar no aeroporto, Edwiges descobriu que ele iria para São Paulo com sua amiga (amiga do Cláudio, não dela) Gracinha. Aí rolou uma cena de ciúmes básica. Para quem nem sabe quem são Edwiges, Cláudio e Gracinha, uma pequena explicação do problema: Edwiges namora Cláudio. Ela é virgem, enquanto tudo leva a crer que ele não. Ele é convicta de suas opções (ou seja, a princípio não quer perder a virgindade com ele, embora saibamos que, sendo isso uma novela, vai acabar acontecendo). Ele parece que não insiste ("parece" porque eu não acompanho a novela; ainda não vi ele insistindo). Só que tem a tal Gracinha, uma amiguinha de infância do Cláudio que foi morar em São Paulo quando era uma menina bochechuda e voltou agora que é a maior gostosa, uma dessas coisas que também costumam acontecer em novela. Tudo leva a crer que a Gracinha não seja virgem. Como a Gracinha mora na mesma casa que o Cláudio, e está sempre junto com ele, a Edwiges sente ciúmes. Até aí tudo normal. Acontece que, quando o Cláudio contou para a Edwiges que iria viajar para São Paulo, e queria que ela fosse junto, ela botou na cabeça que ele só queria que ela fosse para dormir com ela (pode ser que ela não esteja muito longe da verdade). Como Edwiges não aceitou, Gracinha se ofereceu (opa) para acompanhar Cláudio. Quando Edwiges se encontrou com os dois no aeroporto, chegou à seguinte conclusão: Já que eu não quis viajar para dar pra ele, ele arrumou uma que queira. Por isso a cena de ciúmes.

Chega de novela. Vamos à minha consideração.

Uma jovem virgem namora um jovem não-virgem. Nenhum problema nisso, deve ser até corriqueiro. Pessoas virgens só podem namorar virgens e não-virgens namorar não-virgens? Não. Ela é obrigada a deixar de ser virgem? Não. Ele deve fingir que é virgem? Não. Mas vejam só que coisa estranha: Ela se sente inferiorizada por ser virgem, e acha que ele vai querer deixar de namorar com ela para poder pegar uma não-virgem, ou pior ainda, manter relações com uma não-virgem ao mesmo tempo que namora com ela. Na cabecinha dela, é impossível ele, não sendo virgem, namorar com ela e preservar sua virgindade até um eventual casamento.

Eu não a culpo. Deve estar cheio de exemplos por aí de rapazes não-virgens que têm namoradas virgens e não as respeitam, seja forçando uma situação para que elas durmam com eles, seja arrumando uma "amante" com quem possam manter relações sexuais enquanto namoram com elas, seja terminando o namoro porque elas não quiseram dar pra eles. E é esse tipo de comportamento que encuca meninas como a Edwiges.

Sabedor de que isso existe "na vida real", esse "encucamento" até que não me espanta tanto. O que me espanta é que parece que os valores estão todos ao contrário. É como se, antigamente, as pessoas virassem e dissessem "você é virgem? Puxa, que legal!", e hoje em dia viram e dizem "você é virgem? Tadinha, por quê? Tá encalhada? Tá doente?" ou então "você é virgem? Rá, rá, rá!".

Não estou chamando quem não é virgem de promíscuo nem nada assim. Esse exemplo "sexual" apenas serve para demonstrar que, em nossa sociedade, não se costuma respeitar a opção das pessoas, e isso faz com que as pessoas que fizeram uma opção diferente da maioria se sintam inferiorizadas. Tanto faz se Edwiges se sente inferiorizada porque ela é virgem e o namorado não, se porque ela é FHC e ele Lula, ou se porque ela é a favor da guerra do Iraque e o namorado não. O desrespeito, a inferiorização é a mesma.

Como eu já mencionei de forma parecida em um post pregresso, nossa fofa sociedade criou um "padrão". Ou você se inclui nele, ou sofre as conseqüências. Mesmo que você não seja apontado na rua como "diferente", em seu íntimo você sente vergonha. Você se sente inferior. Você acha que todos estão te apontando, e se você revelar sua condição de proscrito, acontecerá algo muito pior. É como a história de "assumir seus cabelos brancos". Todo mundo que tem cabelos brancos os pinta, então quem não faz está assumindo seus cabelos brancos. Será? Ou será que quem pinta é que não os assume? Percebam que há uma diferença.

E como se livrar dessa pecha de pária? Escondendo uma opinião pessoal diferente, você acaba se entristecendo, envergonhando, e, muitas vezes, se inferiorizando. Fingindo que sua opinião é a mesma da maioria, você perde personalidade e autenticidade. Mudar sua opinião só para ser aceito é pior ainda, você desrespeita a si mesmo. Só que, vivendo em sociedade, nós temos que fazer concessões, não podemos tentar impor nossa opinião a todo mundo (até porque cairíamos no mesmo erro de quem tenta nos impor as deles). E aí, que que a gente faz?

O importante é não deixar que sua opinião torne você mesmo inferior. Se você não se inferiorizar, ninguém mais conseguirá inferiorizá-lo. Lembre-se de que um ser humano é um indivíduo, não um ser coletivo. Você tem o direito de ser diferente.

E se alguém não souber respeitar isso, se afaste, ignore, lute por suas convicções, sei lá. Mas não se inferiorize.
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domingo, 4 de maio de 2003

Escrito por em 4.5.03 com 0 comentários

Timidez

Muitas vezes, nossas limitações são impostas por nós mesmos. Quantas vezes não ficamos nos lamentando, "puxa, nada que eu escrevo fica bom", "eu não sei cantar, sou desafinado", "meus desenhos parecem rabiscos de jardim de infância", e coisas desse tipo? Pior ainda é quando nos fazem um elogio, tipo "como sua voz é bonita", e respondemos com algo do tipo "que isso, eu canto tão mal...", como se quiséssemos continuar inferiorizados, nos recusássemos a ganhar uma pequena parcela de auto-confiança.

A palavra-chave é essa: auto-confiança. É tão difícil que a consigamos, e, quando a temos, é tão fácil de perdê-la. É ela (ou melhor, a falta dela) que faz com que criemos nossos paradigmas, nossas barreiras, nossas limitações. Contraditoriamente, somente nós podemos aumentá-la, derrubando os paradigmas criados por nós mesmos em momentos que ela estava baixa. Nossa, que filosófico.

O ser humano é capaz de tudo, menos de voar. Só que, até pra isso, ele deu um jeitinho e inventou o avião. Nós, indivíduos, é que sempre ficamos achando que não sabemos escrever, desenhar, cantar, etc.

Eu sempre me orgulhei de ser uma pessoa sem-vergonha. Infelizmente, em nossa sociedade, isso ganhou um sentido pejorativo, então quem lê uma coisa dessas acaba achando que eu sou promíscuo ou coisa parecida, mas não é nada disso. Eu simplesmente não crio limitações para minhas interações sociais. Nunca tive medo de apresentar trabalhos em sala de aula, de fazer provas de concurso, nada disso. Pelo contrário, até fiquei conhecido como "espetaculoso" nos treinamentos dos meus colegas orientandos para apresentação de monografia.

Fico nervoso? Fico. Tremo? Tanto que nem posso segurar papéis, senão fica feio. Só não deixo que isso me atrapalhe. Respiro fundo e falo. Se tiver que fazer uma prova, respiro fundo e faço. Se tiver que cantar, respiro fundo e canto. E olha que eu sou, sim, bastante desafinado.

Enquanto escrevo isso, me lembro de duas pessoas. Uma delas, um de meus melhores amigos, é também uma das pessoas mais educadas que eu conheço. Quando telefona aqui pra casa, não começa a falar o assunto até que tenha feito todas as perguntas de praxe: "Te acordei? Tava almoçando? Acordei alguma pessoa da sua família? Alguma pessoa da sua família tava almoçando? Tá ocupado? A pessoa que atendeu o telefona tava ocupada? Tô te atrapalhando? Pode falar comigo? Ah, então tá, olha só..."

Não que isso seja ruim, quem dera todos fossem tão educados como ele, mas isso acaba criando uma impressão de que ele seja uma pessoa tímida. Bem, talvez seja mesmo, mas que convive com ele sabe que ele, de certa forma, é como eu, não tem medo de pagar mico. Acho que ele concorda com a minha teoria de que não dá pra se viver com vergonha. Às vezes ele paga um mico e se arrepende logo em seguida, mas pelo menos fez o que achava que tinha que fazer.

O outro amigo de que me lembro ao escrever este texto é meu primo. Ele é uma das pessoas mais afinadas que eu conheço, canta muito bem, só tem um detalhe: Quase ninguém o ouve cantar. Ele é muito tímido, de forma que só canta quando estão presentes apenas pessoas muito próximas. Nem nas minhas incríveis festas com videokê ele participa.

Timidez não é um defeito, mas deixar que ela atrapalhe sua vida é. Se meu primo está vivendo bem com sua timidez, deixemos-no assim. Afinal, não é um defeito tão grave assim não querer cantar no videokê.

Mas se a sua timidez, ou sua falta de autoconfiança estão atrapalhando a sua vida, talvez você esteja criando limites demais. Da próxima vez que disserem que um texto seu é bom, que um desenho seu é bonito, que uma música que você cantou estava afinada, que um trabalho que você apresentou estava bom, faça um favor a si mesmo e acredite.

E, mesmo que não acredite, não desista. Alguns textos meus (talvez TODOS os meus textos sérios) eu acho que ficaram uma boa porcaria, como esse, por exemplo. Mas não deixo de mostrá-los aos outros, já que alguém pode gostar, e alguém que não gostar pode me dar dicas de como melhorá-lo. E assim eu vou ganhando auto-confiança.
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