domingo, 4 de maio de 2003

Timidez

Muitas vezes, nossas limitações são impostas por nós mesmos. Quantas vezes não ficamos nos lamentando, "puxa, nada que eu escrevo fica bom", "eu não sei cantar, sou desafinado", "meus desenhos parecem rabiscos de jardim de infância", e coisas desse tipo? Pior ainda é quando nos fazem um elogio, tipo "como sua voz é bonita", e respondemos com algo do tipo "que isso, eu canto tão mal...", como se quiséssemos continuar inferiorizados, nos recusássemos a ganhar uma pequena parcela de auto-confiança.

A palavra-chave é essa: auto-confiança. É tão difícil que a consigamos, e, quando a temos, é tão fácil de perdê-la. É ela (ou melhor, a falta dela) que faz com que criemos nossos paradigmas, nossas barreiras, nossas limitações. Contraditoriamente, somente nós podemos aumentá-la, derrubando os paradigmas criados por nós mesmos em momentos que ela estava baixa. Nossa, que filosófico.

O ser humano é capaz de tudo, menos de voar. Só que, até pra isso, ele deu um jeitinho e inventou o avião. Nós, indivíduos, é que sempre ficamos achando que não sabemos escrever, desenhar, cantar, etc.

Eu sempre me orgulhei de ser uma pessoa sem-vergonha. Infelizmente, em nossa sociedade, isso ganhou um sentido pejorativo, então quem lê uma coisa dessas acaba achando que eu sou promíscuo ou coisa parecida, mas não é nada disso. Eu simplesmente não crio limitações para minhas interações sociais. Nunca tive medo de apresentar trabalhos em sala de aula, de fazer provas de concurso, nada disso. Pelo contrário, até fiquei conhecido como "espetaculoso" nos treinamentos dos meus colegas orientandos para apresentação de monografia.

Fico nervoso? Fico. Tremo? Tanto que nem posso segurar papéis, senão fica feio. Só não deixo que isso me atrapalhe. Respiro fundo e falo. Se tiver que fazer uma prova, respiro fundo e faço. Se tiver que cantar, respiro fundo e canto. E olha que eu sou, sim, bastante desafinado.

Enquanto escrevo isso, me lembro de duas pessoas. Uma delas, um de meus melhores amigos, é também uma das pessoas mais educadas que eu conheço. Quando telefona aqui pra casa, não começa a falar o assunto até que tenha feito todas as perguntas de praxe: "Te acordei? Tava almoçando? Acordei alguma pessoa da sua família? Alguma pessoa da sua família tava almoçando? Tá ocupado? A pessoa que atendeu o telefona tava ocupada? Tô te atrapalhando? Pode falar comigo? Ah, então tá, olha só..."

Não que isso seja ruim, quem dera todos fossem tão educados como ele, mas isso acaba criando uma impressão de que ele seja uma pessoa tímida. Bem, talvez seja mesmo, mas que convive com ele sabe que ele, de certa forma, é como eu, não tem medo de pagar mico. Acho que ele concorda com a minha teoria de que não dá pra se viver com vergonha. Às vezes ele paga um mico e se arrepende logo em seguida, mas pelo menos fez o que achava que tinha que fazer.

O outro amigo de que me lembro ao escrever este texto é meu primo. Ele é uma das pessoas mais afinadas que eu conheço, canta muito bem, só tem um detalhe: Quase ninguém o ouve cantar. Ele é muito tímido, de forma que só canta quando estão presentes apenas pessoas muito próximas. Nem nas minhas incríveis festas com videokê ele participa.

Timidez não é um defeito, mas deixar que ela atrapalhe sua vida é. Se meu primo está vivendo bem com sua timidez, deixemos-no assim. Afinal, não é um defeito tão grave assim não querer cantar no videokê.

Mas se a sua timidez, ou sua falta de autoconfiança estão atrapalhando a sua vida, talvez você esteja criando limites demais. Da próxima vez que disserem que um texto seu é bom, que um desenho seu é bonito, que uma música que você cantou estava afinada, que um trabalho que você apresentou estava bom, faça um favor a si mesmo e acredite.

E, mesmo que não acredite, não desista. Alguns textos meus (talvez TODOS os meus textos sérios) eu acho que ficaram uma boa porcaria, como esse, por exemplo. Mas não deixo de mostrá-los aos outros, já que alguém pode gostar, e alguém que não gostar pode me dar dicas de como melhorá-lo. E assim eu vou ganhando auto-confiança.

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