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domingo, 14 de julho de 2019

Escrito por em 14.7.19 com 0 comentários

John Hughes

Eu nasci em 1978. Isso significa que, quando a década de 1980 começou, eu tinha dois anos, e, quando terminou, eu tinha onze. Em outras palavras, eu não cheguei a ser adolescente nos anos 1980. Mesmo assim, eu assisti a todos aqueles filmes de adolescentes dos anos 1980, e adoro quase todos eles. Há algum tempo, eu resolvi até começar uma série de posts no átomo para falar sobre alguns deles, mas desisti porque, surpreendentemente, é quase impossível encontrar detalhes sobre a produção de alguns, inclusive dos mais famosos. Essa semana, eu decidi fazer algo parecido, e falar sobre John Hughes, diretor de alguns que estão dentre os mais famosos de todos. Não ficou assim uma introdução espetacular, mas é isso: hoje é dia de John Hughes no átomo!

John Wilden Hughes Jr. nasceu em 18 de fevereiro de 1950 em Lansing, Michigan, Estados Unidos, filho de uma dona de casa e de um vendedor, único homem de um total de cinco filhos do casal. Aos 13 anos de idade, ele se mudaria com a família para a cidade de Northbrook, Illinois, próxima a Chicago, onde seu pai conseguiria um emprego vendendo telhados. Fã dos Beatles e apaixonado por cinema, ele era frequentemente criticado por seus pais por "não querer seguir uma profissão séria", e encontrava refúgio nos filmes e em seus amigos da Glenbrook North High School, na qual estudava - e onde conheceu a cheerleader Nancy Ludwig, com a qual viria a se casar.

Influenciado por seus pais, ele começaria a cursar jornalismo na Universidade do Arizona, mas logo abandonaria, e, em 1970, após se mudar para Chicago, começaria a vender piadas para sobreviver. Embora essa última frase soe meio estranha, ele era uma espécie de redator, que criava tiradas cômicas para shows de stand up, muitas delas sendo usadas por medalhões como Rodney Dangerfield e Joan Rivers. Suas piadas acabariam chamando a atenção não só dos comediantes, mas da empresa de publicidade Needham, Harper & Steers, que decidiria contratá-lo para redigir anúncios que seriam publicados em revistas. Durante uma viagem a trabalho até a cidade de Nova Iorque, Hughes iria até o escritório da famosa revista de humor National Lampoon, conhecendo pessoalmente seu editor, P.J. O'Rourke, para quem ofereceria alguns de seus textos cômicos. Hughes acabaria sendo contratado pela revista, que, durante a década de 1970, publicaria mais de uma centena de textos seus - O'Rourke, em uma entrevista, chegaria a dizer que "Hughes escrevia tão bem e tão rápido que era difícil para uma revista mensal acompanhá-lo".

Dois dos mais famosos textos de Hughes para a National Lampoon seriam Vacation '58, inspirado em uma viagem de férias com sua família que não deu muito certo, e que acabaria servindo de base para o roteiro do filme Férias Frustradas, e My Penis e My Vagina, publicados nas edições de Primeiro de Abril, e que já deixavam claro o extremo tato que Hughes tinha para escrever histórias estreladas por adolescentes que narrassem as dificuldades de suas vidas. Enquanto trabalhava para a revista, ele também escreveria os roteiros de quatro episódios da série de TV Delta House, que contava o dia a dia de quatro amigos que viviam em uma fraternidade de uma universidade norte-americana, e iriam ao ar em 1979.

Em 1978, seria lançado o primeiro filme inspirado nos textos da National Lampoon, Clube dos Cafajestes, escrito por três redatores da revista, Harold Ramis, Douglas Kenney e Chris Miller, dirigido por John Landis e estrelado por John Belushi. Lançado pela Universal, o filme seria um grande sucesso, e a revista seria procurada pela ABC Motion Pictures, estúdio de cinema ligado ao canal de TV de mesmo nome, que queria também produzir um filme de comédia inspirado em seus artigos. Sabendo da paixão de Hughes pelo cinema, O'Rourke pediria para que ele escrevesse o roteiro do que viria a se tornar A Reunião dos Alunos Loucos, dirigido por Michael Miller e lançado em outubro de 1982, o primeiro filme a trazer o nome de Hughes nos créditos. O filme, entretanto, seria um fracasso de crítica e público, e até faria com que O'Rourke chegasse a reconsiderar a ideia de permitir que filmes baseados nos artigos da revista fossem produzidos.

Durante as filmagens, Hughes conheceria Aaron Spelling, um dos maiores produtores de séries para a TV dos Estados Unidos, que gostaria de seu estilo e o convidaria para produzir uma série. Hughes criaria At Ease, que contava as desventuras de dois militares (Jimmie Walker e David Naughton) que tentavam enganar seus superiores e lucrar com o serviço militar, se envolvendo em várias atividades escusas dentro do quartel. At Ease não faria sucesso, sendo cancelada após 14 episódios - o último deles sendo, na verdade, o piloto oferecido para a ABC, o único com roteiro de Hughes - exibidos entre 4 de março e 10 de junho de 1983.

Hughes, entretanto, não seria manchado por esses dois fracassos: em 1979, quando Vacation '58 foi publicada, a Warner Bros. havia procurado a revista e comprado os direitos de adaptação da história; enquanto A Reunião dos Alunos Loucos estava sendo produzida, eles entrariam em contato para exercer esse direito. Como Hughes havia escrito a história, receberia a incumbência de escrever o roteiro do filme, no qual Clark Griswold (Chevy Chase), sua esposa Ellen (Beverly D'Angelo) e seus dois filhos, Rusty (Anthony Michael Hall) e Audrey (Dana Barron), cruzam o país para tentar visitar o parque de diversões Walley World, vivendo várias situações inusitadas no caminho. Dirigido por Harold Ramis, da equipe da National Lampoon, Férias Frustradas estrearia em julho de 1983, e também seria um gigantesco sucesso de público e de crítica - com orçamento de 15 milhões de dólares, renderia mais de 60 apenas nos Estados Unidos.

Além disso, em 1980, Lauren Shuler, editora e produtora dos estúdios Fox, havia se interessado por um dos textos de Hughes na National Lampoon, e decidiria manter contato com ele, para o caso de algum dia ele ter um bom roteiro para oferecer a ela. Durante uma conversa informal, ele a contaria sobre um dia no qual teve de cuidar de seus dois filhos pequenos enquanto sua esposa estava fora, e várias situações cômicas aconteceram. Shuler adorou a história, e perguntou o que ele achava de transformá-la em filme. Hughes concordaria, escreveria o roteiro em Chicago, e viajaria até Los Angeles para acertar os detalhes com Shuler. Após as conversas preliminares, entretanto, a Fox optaria por transformar o roteiro não em um filme para o cinema, e sim em um filme para a TV, e, alegando ser impossível Hughes trabalhar no projeto morando em Chicago, o demitiria e contrataria uma equipe para reescrever seu roteiro. Shuler, porém, gostava muito mais da versão de Hughes do que da versão final da equipe da Fox, e, junto com Spelling, que seria produtor executivo do filme, convenceria a Fox a fazer o filme para o cinema e a usar o roteiro original de Hughes. Ela chegaria a mandar o roteiro para Michael Keaton, cuja agente na época era uma das melhores amigas de Shuler; Keaton adorou a história e embarcou no projeto imediatamente, fazendo ainda mais pressão sobre os executivos da Fox. Assim surgiria Dona de Casa por Acaso, lançado em agosto de 1983, no qual um engenheiro desempregado (Keaton) tem de passar seus dias em casa, cuidando de seus três filhos pequenos, enquanto sua esposa (Teri Garr) trabalha como executiva em uma grande empresa de propaganda. Dirigido por Stan Dragoti, o filme seria mais um gigantesco sucesso de público, mesmo com parte da crítica torcendo o nariz.

Ter emplacado dois grandes sucessos de público no mesmo ano faria com que Hughes chamasse a atenção da Universal, que, antes do final de 1983, o procuraria para assinar um contrato prevendo a realização de três filmes, nos quais ele poderia atuar tanto como roteirista quanto como diretor. Felizmente, esse contrato seria assinado antes da estreia do terceiro filme escrito por Hughes de 1983, Piratas das Ilhas Selvagens, co-escrito por ele e por David Odell, totalmente produzido e filmado na Nova Zelândia, dirigido por Ferdinand Fairfax e estrelado por Tommy Lee Jones, e que foi um gigantesco e retumbante fracasso de público e crítica - embora hoje tenha um certo status de cult. Hughes na verdade seria contratado pela Paramount para reescrever o roteiro de Odell, considerado fraco, mas não conseguiria fazer muito para salvar o filme - que foi considerado tão ruim a ponto de dar origem à crença de que nenhum filme de piratas tem boa bilheteria, dissipada apenas após a estreia de Piratas do Caribe.

O primeiro dos três filmes que Hughes escreveria e dirigiria para a Universal seria Gatinhas e Gatões, lançado em maio de 1984. Estrelado por Molly Ringwald, Anthony Michael Hall e Michael Schoeffling, e contando com uma participação de um iniciante John Cusack, o filme seria um gigantesco sucesso de crítica, por retratar de forma fiel as angústias e esperanças dos adolescentes de classe média da década de 1980, algo completamente diferente do vinha sendo feito pelo cinema até então - antes de Gatinhas e Gatões, todos os filmes que retratavam adolescentes de classe média eram comédias escrachadas e cheias de conteúdo sexual, como Porky's. Também seria um enorme sucesso de público: custando 6,5 milhões de dólares, renderia quase 24 milhões apenas nos Estados Unidos.

Hughes emendaria mais um sucesso com outro filme que retratava adolescentes de classe média, O Clube dos Cinco, lançado em fevereiro de 1985, no qual também faria sua estreia como ator, em uma pequena participação como o pai do personagem de Hall. O Clube dos Cinco acompanha cinco adolescentes totalmente diferentes - uma patricinha (Ringwald), um atleta (Emilio Estevez), um geek (Hall), uma pária (Ally Sheedy) e um delinquente (Judd Nelson) - que, por motivos vários, ficam em detenção, e devem passar a tarde toda na escola, tendo apenas uns aos outros como companhia. O filme mais uma vez seria aclamado pela crítica, e renderia uma soma absurda: com orçamento de mísero 1 milhão de dólares, renderia 51,5 milhões apenas nos Estados Unidos. O orçamento enxuto decorre do fato de que praticamente todo o filme se passa em um único cenário - a sala de detenção - o que foi idealizado por Hughes porque os executivos da Universal se mostraram extremamente resistentes a dar a luz verde para o filme, acreditando que ele não faria sucesso, então Hughes quis convencê-los cortando os custos o máximo possível.

O terceiro filme do contrato de Hughes com a Universal seria levemente diferente: em Mulher Nota 1000, lançado em agosto de 1985, dois amigos nada populares no colégio (Hall e Ilan Mitchell-Smith) usam um computador para criar a mulher ideal (Kelly LeBrock), que, com o advento de uma tempestade elétrica, não só ganha vida como também poderes mágicos, dedicados a realizar todos os desejos da dupla. O elenco conta ainda com Bill Paxton como o irmão do personagem de Mitchell-Smith, e Robert Downey Jr. como um dos rapazes que fazem bullying com a dupla no colégio. O filme seria mais uma vez um sucesso de público, mas dividiria a crítica, principalmente por não ser considerado "do mesmo nível que os demais filmes adolescentes de Hughes".

Entre O Clube dos Cinco e Mulher Nota 1000, Hughes escreveria, para a Warner, o roteiro de Férias Frustradas 2, no qual a família Griswold (nesse filme tendo a grafia alterada para Griswald, e com Jason Lively substituindo Hall e Dana Hill substituindo Barron) ganha em um programa de TV uma viagem de carro com tudo pago através da Europa, se envolvendo em muitas confusões pelo caminho. Dirigido por Amy Heckerling, o filme estrearia em julho de 1985, e, apesar de não ser tão aclamado quanto o primeiro, também se tornaria um grande sucesso.

Ainda em 1985, Hughes seria mais uma vez procurado por Shuler, que queria um roteiro para um filme adolescente nos moldes dos que estava fazendo para a Universal. Ele, então, escreveria A Garota de Rosa Shocking, que conta a história de uma menina pobre (Ringwald) que se apaixona por um rapaz rico (James Spader), e não nota que o melhor amigo dela (Jon Cryer) está apaixonado por ela. Rendendo mais de quatro vezes o que custou e sendo aclamado pela crítica, o filme, que estrearia em fevereiro de 1986 e seria dirigido não por Hughes, mas por seu amigo Howard Deutch, que estreou na direção com esse filme, é hoje considerado um dos maiores clássicos dos anos 1980, e sua trilha sonora como uma das melhores do cinema moderno. Para azar de Schuler, a Fox não aceitaria o roteiro, então Hughes o ofereceria para a Paramount, estúdio que o procurou após o fim de seu contrato com a Universal e lhe ofereceu um novo, também para três filmes, e o acabaria lançando.

Hughes, inclusive, não pôde dirigir A Garota de Rosa Shocking porque já estava envolvido em outro filme que se tornaria um dos maiores clássicos dos anos 1980, Curtindo a Vida Adoidado, lançado pela Paramount em junho de 1986. Rendendo 70 milhões de dólares com orçamento de 5,8 milhões, o filme protagonizado por Feris Bueller (Matthew Brodderick), que finge que está doente para não ir à escola e poder passar um dia aprontando pela cidade com sua namorada (Mia Sara) e seu melhor amigo (Alan Ruck), é hoje considerado antológico, tanto que foi selecionado para preservação pela Biblioteca do Congresso dos Estados Unidos. Mais que um filme de comédia adolescente, Curtindo a Vida Adoidado é uma grande declaração de amor a Chicago, com vários dos principais pontos da cidade sendo visitados pelos três amigos. O elenco também conta com uma participação memorável de Jeffrey Jones como o inspetor que sai à caça de Bueller para provar que ele não está doente, Jennifer Grey como a irmã de Bueller, e com Charlie Sheen (que, para quem não sabe, é irmão de Emilio Estevez) em um pequeno papel.

Em 1987, Hughes se envolveria em dois projetos ousados: primeiro, ele teria a ideia de fazer uma "refilmagem" de A Garota de Rosa Shocking, mas com os gêneros dos papéis principais trocados, motivado pelo fato de que a Paramount decidiria mudar com quem a personagem de Ringwald ficava no final se baseando em reações das plateias de testes, o que o desagradou bastante. Assim surgiria Alguém Muito Especial, no qual um rapaz pobre (Eric Stoltz) se apaixona por uma menina rica (Lea Thompson) e não percebe que a melhor amiga dele (Mary Stuart Masterson) está apaixonada por ele. Lançado em fevereiro de 1987, também pela Paramount, e também dirigido por Deutch, Alguém Muito Especial, apesar de usar a mesma ideia central, é um filme completamente diferente de A Garota de Rosa Shocking, com um tom bem mais sensível, se tornando um sucesso por seus próprios méritos. Vale citar também que a primeira escolha de Hughes para o papel da amiga pobre do protagonista foi Ringwald, e, quando ela recusou alegando estar em busca de papéis mais adultos, ele ficou tão sentido que jamais a convidou para um de seus filmes novamente.

O segundo projeto de Hughes em 1987 (e o segundo filme de seu contrato com a Paramount) seria Antes Só do que Mal Acompanhado, lançado em novembro, estrelado por Steve Martin e John Candy. Esse projeto foi considerado ousado porque Hughes decidiu escrevê-lo e dirigi-lo para se livrar da imagem de que era um "diretor de filmes para adolescentes", e a própria Paramount se mostrou receosa em bancá-lo, temendo que pudesse ser um fracasso. Felizmente, o filme, no qual um executivo de uma empresa de marketing (Martin) pega carona com um vendedor ambulante (Candy) para ir de Nova Iorque a Chicago a tempo de chegar para o feriado de Ação de Graças, seria mais um grande sucesso de crítica, e um moderado sucesso de público - com orçamento de 30 milhões de dólares, renderia quase 50.

O terceiro filme de Hughes para a Paramount, Ela Vai Ter Um Bebê, lançado em fevereiro de 1988, infelizmente, não seria tão bem sucedido. Acompanhando um um casal (Kevin Bacon e Elizabeth McGovern) do dia em que eles se casam até o nascimento de seu primeiro filho, o filme foi considerado fraco e confuso pela crítica, e falhou em atrair o interesse do público - com orçamento de 20 milhões de dólares, rendeu 16 - se tornando o primeiro fracasso da carreira de Hughes como diretor.

Ainda em 1988, Hughes escreveria o roteiro de mais um filme dirigido por Deutch, As Grandes Férias, no qual dois cunhados que vivem às turras (Dan Aykroyd e John Candy) decidem alugar uma cabana nas montanhas para passar um feriado com suas esposas (Stephanie Faracy e Annette Bening, em sua estreia no cinema). O filme, que estrou em junho e foi lançado pela Universal, dividiu a crítica, sendo mais atacado do que elogiado, mas agradou o público.

Hughes voltaria a dirigir um filme para a Universal com Quem Vê Cara Não Vê Coração, lançado em agosto de 1989, no qual Candy interpreta um tio bonzinho e trapalhão que tem que tomar conta de seus três sobrinhos (Jean Louisa Kelly, Macaulay Culkin e Gaby Hoffmann) quando seu irmão recebe a notícia de que o pai de sua esposa teve um ataque cardíaco, e eles devem viajar de Chicago, onde mora a família, para Indianápolis, onde mora o infartado, às pressas. O filme seria mais um grande sucesso de público e crítica, e daria origem a duas séries de TV, uma produzida pela CBS em 1990, para aproveitar o sucesso do filme, e outra produzida pela ABC em 2016, com um elenco afro-americano. Ambas seriam canceladas após apenas uma temporada cada.

Também em 1989, Hughes escreveria o roteiro do terceiro filme da família Griswold, Férias Frustradas de Natal, no qual a família (ainda com Chase e D'Angelo, mas com Johnny Galecki, de The Big Bang Theory, no papel de Rusty e Juliette Lewis no de Audrey), ao invés de viajar, decide chamar seus parentes para celebrar o natal em sua casa. Dirigido por Jeremiah S. Chechik, lançado pela Warner e estreando, evidentemente, em dezembro, o filme é hoje considerado uma das maiores comédias de Natal de todos os tempos, assim como outro filme com roteiro de Hughes, Esqueceram de Mim, dirigido por Chris Columbus, lançado pela Fox e estreando em novembro de 1990. O filme no qual o pequeno Kevin (Macaulay Culkin) é esquecido pela família em casa quando eles viajam para passar o Natal em Paris, e tem que impedir que dois ladrões (Joe Pesci e Daniel Stern) invadam sua casa é hoje considerado um dos maiores sucessos de todos os tempos - com orçamento de 18 milhões, rendeu mais de 400 milhões, se tornando o filme de maior bilheteria de 1990, e foi aclamado pela crítica.

Em 1991, dois outros filmes com roteiros de Hughes estreariam: Construindo uma Carreira, dirigido por Bryan Gordon e estrelado por Frank Whaley e Jennifer Connelly, no qual um rapaz pobre e uma moça rica se veem trancados em uma loja após o expediente; e De Volta para Casa, dirigido por Peter Faiman e estrelado por Ed O'Neill e Ethan Embry, no qual um homem se voluntaria para buscar o filho de sua namorada na Geórgia e trazê-lo para passar o Dia de Ação de Graças em Chicago, buscando conhecê-lo melhor. Ambos seriam grandes fracassos de bilheteria, e também não agradariam à crítica. 1991 também seria o ano de lançamento do último filme dirigido por Hughes, Curly Sue: A Malandrinha, primeiro do diretor para a Warner, que estrearia em outubro, protagonizado por dois trambiqueiros, um homem adulto e uma menininha, interpretados por James Belushi e Alisan Porter. O filme seria massacrado pela crítica, mas acabaria se tornando um sucesso de público.

Hughes não planejava que Curly Sue fosse seu último filme como diretor, mas, depois dele, acabaria escrevendo várias vezes como roteirista contratado, sem que surgisse um novo projeto que ele se interessasse em dirigir. Em 1992, ele seria responsável pelo roteiro de Esqueceram de Mim 2: Perdido em Nova York, no qual, durante uma nova viagem de Natal, Kevin embarca no avião errado e vai parar em Nova Iorque ao invés de na Flórida, para onde vai sua família, tendo de se virar sozinho na cidade; e, em co-autoria com Amy Holden Jones e usando o pseudônimo de Edmond Dantes (o protagonista de O Conde de Monte Cristo), de Beethoven: O Magnífico, sobre um cachorro São Bernardo que escapa de uma quadrilha de ladrões de animais e acaba sendo adotado por uma família, que não sabe que o chefe da quadrilha é justamente seu veterinário de confiança. Em 1993, ele escreveria Dennis: O Pimentinha, inspirado na série em quadrinhos de mesmo nome; e, em 1994, Ninguém Segura Esse Bebê, no qual um bebê é sequestrado por três trambiqueiros que, distraídos, permitem que ele fuja e saia andando sozinho pela cidade de Chicago; e Milagre na Rua 34, remake do filme de mesmo nome de 1947, no qual um homem contratado para sei o Papai Noel de uma loja de departamentos (Richard Attenborough) alega ser o verdadeiro Papai Noel.

Então, em 1994, sem maiores explicações, Hughes se retiraria da vida pública e passaria a viver recluso em sua casa em um subúrbio de Chicago. A partir de então, ele raramente daria entrevistas ou faria aparições públicas, sendo uma das únicas exceções a gravação para uma trilha de comentários do DVD de Curtindo a Vida Adoidado, de 1999. Segundo o ator Vince Vaughn, amigo pessoal de John Candy, Hughes teria ficado extremamente abalado com a morte de Candy, que faleceria em 4 de março de 1994, de ataque cardíaco, durante as gravações de Dois Contra o Oeste no México. Hughes e Candy se tornariam amigos após as participações do ator em Antes Só do que Mal Acompanhado e Quem Vê Cara Não Vê Coração, e Hughes planejava que seu próximo filme como diretor fosse estrelado por Candy.

Tendo sido a reclusão motivada ou não pela morte de Candy, o fato é que, após esse acontecimento, Hughes desistiria de vez de voltar a dirigir, mas continuaria escrevendo roteiros. Em 1996, ele seria responsável pelo da versão com atores de 101 Dálmatas; em 1997, pelo de Flubber: Uma Invenção Desmiolada (que pouca gente sabe, mas é uma refilmagem de O Fantástico Super-Homem, de 1961), no qual um cientista (Robin Williams) cria uma substância que se torna cada vez mais veloz conforme quica, e pelo de Esqueceram de Mim 3, primeiro da série sem Culkin, no qual terroristas escondem um chip roubado da Força Aérea norte-americana em um carrinho de controle remoto que vai parar acidentalmente nas mãos de um menino (Alex D. Linz) que fará de tudo para impedi-los de "roubar seu carrinho"; em 1998, pelo de Nadando Contra a Corrente, no qual um preso (Alessandro Nivola) e um chefe de polícia (William Sadler) passam a noite tentando provar qual dos dois seria mais esperto e teria mais força de vontade; e, em 2000, pelo de Os Viajantes do Tempo (refilmagem do filme francês Les Visiteurs), no qual um cavaleiro medieval (Jean Reno) e seu servo (Christian Clavier) são enviados pelo feitiço de um mago incompetente (que planejava transportá-los para apenas alguns minutos no passado) para a Chicago do Século XXI, onde conhecem uma funcionária de um museu (Christina Applegate) que tentará ajudá-los a retornar à sua própria época.

A partir do ano 2000, Hughes se tornaria cada vez mais recluso, e deixaria até mesmo de escrever roteiros; ele ainda seria responsável, porém, pelos enredos de dois filmes: Encontro de Amor, no qual uma camareira (Jennifer Lopez) se envolve romanticamente com um candidato a senador (Ralph Fiennes), lançado em 2002 com roteiro de Kevin Wade baseado em uma história inédita de Hughes, que pediu para ser creditado no filme como Dantes; e Meu Nome É Taylor, Drillbit Taylor, no qual dois adolescentes (Troy Gentile e Nate Hartley) contratam um guarda-costas (Owen Wilson) para protegê-los dos valentões da escola, lançado em 2008 com roteiro de Kristofor Brown e Seth Rogen, desenvolvido a partir de uma ideia de Hughes.

Em 2009, Hughes e sua esposa viajariam para Nova Iorque para visitar seu neto recém-nascido. No dia seguinte à visita, 6 de agosto, Hughes sairia para uma caminhada e sofreria um ataque cardíaco. Ele seria levado para o hospital, mas não resistiria, falecendo aos 59 anos. Hughes se foi, mas seu legado sobreviverá para sempre.
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segunda-feira, 26 de março de 2018

Escrito por em 26.3.18 com 0 comentários

Andrei Tarkovsky

Semana passada, quando escrevia sobre os filmes de ficção científica, lembrei-me de um de meus filmes favoritos desse gênero, Solaris. Que quase não pôde ser chamado dessa forma, aliás: a primeira versão que eu assisti foi a norte-americana, estrelada por George Clooney, que achei horrorosa. Vários anos depois, entretanto, li um artigo sobre o filme original, achei interessante e fiquei com vontade de assistir, mas não o encontrava nem para vender, nem mesmo para baixar - afinal, é um filme soviético de 1972. Um dia, porém, Solaris foi lançado em Blu-ray, eu resolvi comprar, e gostei tanto que decidi comprar também os demais de seu diretor, Andrei Tarkovsky. Com isso, acabei descobrindo que Tarkovsky só fez mais um filme de ficção científica (na verdade, mais dois, se você considerar O Sacrifício como sendo ficção científica), e que os filmes dele, cheios de considerações filosóficas e longos diálogos, não são nada fáceis de se assistir, incluindo Solaris. Mas foi bom, porque são filmes bem interessantes, de um diretor que aparentemente é pouco conhecido aqui no Brasil. Devido a isso, eu ia fazer um post sobre Solaris, mas decidi dar a minha contribuição para que seu diretor seja um pouquinho mais conhecido, fazendo com que hoje seja dia de Andrei Tarkovsky no átomo.


Andrei Arsenyevich Tarkovsky nasceu em 4 de abril de 1932 na pequena aldeia de Zavrazhye, próxima à cidade de Yuryevets, na República Soviética da Rússia, à época parte da União Soviética. Seu pai, Arseny Alexandrovich Tarkovsky, era poeta e tradutor, e sua mãe, Maria Ivanova Tarkovskaya (nascida Vishnyakova), era revisora de textos; sua família, porém, tinha raízes nobres: por parte de pai, seu avô, Aleksandr Karlovich Tarkovsky, pertencia à nobreza da Polônia, mas, após a Revolução Comunista, perdeu tudo e decidiu se mudar para a Rússia para trabalhar como bancário; por parte de mãe, sua avó, Vera Nikolaevna Vishnyakova (nascida Dubasova), pertencia a uma das mais importantes famílias da nobreza russa, os Dubasov, da qual fazia parte o Almirante Fyodor Vasilyevich Dubasov, Governador de Moscou entre 1905 e 1906 - fato esse que ela escondia do governo soviético, com medo de represálias. Diz a lenda que Tarkovsky era descendente de uma linhagem de príncipes do Daguestão, mas sua irmã, Marina Arsenyeva Tarkovskaya, realizou um extensa pesquisa após o fim da União Soviética, e jamais conseguiu encontrar nenhuma comprovação de que isso fosse verdade.

Tarkovsky passaria sua infância em Yuryevets, até que, em 1937, seu pai decidiria se separar de sua mãe - posteriormente, ele se alistaria no exército para lutar na Segunda Guerra Mundial, e nunca mais seria visto. Sozinha e com dois filhos para criar, sua mãe decidiria aceitar um emprego como revisora em uma gráfica em Moscou, cidade para a qual Tarkovsky se mudaria aos sete anos de idade. Lá, ele estudaria piano e artes plásticas, e teria como colega de turma o futuro poeta Andrey Voznesensky. Pouco depois de se mudar para Moscou, entretanto, a ameaça da Segunda Guerra chegaria à cidade, e sua mãe enviaria Tarkovsky e sua irmã de volta a Yuryevets, para morar com sua avó materna. Eles retornariam a Moscou em 1943, mas passariam por sérios problemas de moradia e alimentação; entre 1947 e 1948, Tarkovsky ficaria internado em um hospital para tratar uma tuberculose, fruto das condições precárias em que vivia. Muitos desses temas, como o abandono paterno, a mudança para a casa da avó e o período no hospital influenciariam as histórias de seus filmes.

Na escola, Tarkovsky era visto como um aluno problemático, de comportamento irresponsável e notas baixas, tanto que muitos de seus professores consideravam que ele sequer conseguiria se formar. Ele acabaria concluindo os estudos, mas sem saber qual carreira seguir, decidindo, inicialmente, estudar árabe no Instituto Oriental de Moscou, no qual se matriculou em 1951. Ele acabaria desistindo após um ano, se matriculando em seguida no Instituto da Academia de Ciências para Ouro e Metais Não-Ferrosos, não como estudante, mas como minerador. O Instituto o enviaria em uma expedição de um ano de duração ao Rio Kureikye, na Sibéria. Durante essa expedição, Tarkovsky teria uma epifania e decidiria estudar cinema.

Em 1954, Tarkovsky se matricularia no Instituto Estatal de Cinema (VGIK), no curso de diretor. Para sua sorte, um ano antes o presidente Nikita Khrushchev havia relaxado o controle do Estado sobre filmes, livros e músicas estrangeiras, permitindo que os jovens soviéticos tivessem acesso a várias obras proibidas até então; esse relaxamento permitiria que Tarkovsky tivesse contato com filmes dirigidos por Kurosawa, Mizoguchi, Buñuel, Bergman, Bresson e Andrzej Wajda, este último considerado como uma de suas maiores influências, além de com representantes de dois importantes movimentos da época, o neorrealismo italiano e o new wave francês.

Outro ponto no qual Tarkovsky deu sorte foi que ele resolveu fazer cinema bem no meio de uma renovação do gênero na União Soviética: até meados da década de 1950, os filmes produzidos eram poucos, e em sua maioria dirigidos por veteranos; na segunda metade da década, a produção quase que triplicaria, e a grande maioria dos diretores seria de jovens talentos. O primeiro filme realizado por Tarkovsky, ainda como estudante, seria um curta, Os Assassinos, adaptação de um conto de Ernest Hemingway, que seria exibido no VGIK em 1956. Seu segundo curta, Segodnya Uvolneniya Nye Budet ("não teremos demissões hoje"), co-dirigido por Aleksandr Gordon, sobre uma equipe do exército que tenta desarmar uma bomba da época da Segunda Guerra encontrada em um pequeno vilarejo, seria exibido no VGIK em 1958; em 1959, Tarkovsky concluiria um terceiro roteiro, Konsentrat ("concentrados"), altamente autobiográfico, sobre o líder de uma expedição geológica à Sibéria (com o título fazendo alusão aos concentrados minerais encontrados pela expedição), mas ele permaneceria inédito, sem jamais ser filmado.

Tarkovsky teria dois professores marcantes no VGIK: Mikhail Romm, que também seria professor de expoentes do cinema soviético como Vasily Shukshin, Nikita Mikhalkov e Georgi Daneliya, se tornaria uma espécie de mentor, lhe dando valiosas dicas durante a filmagem de seus curtas; já Grigori Chukhrai, ele mesmo aluno de Romm e já um diretor de sucesso, ficaria tão impressionado com o trabalho de Tarkovsky que lhe ofereceria um cargo de assistente de direção em seu filme Céu Limpo, o qual Tarkovsky inicialmente aceitaria, mas depois decidiria declinar para poder se dedicar a seu trabalho de conclusão de curso. Ainda no VGIK, Tarkovsky conheceria Irma Raush, colega de classe com quem começaria um namoro e acabaria se casando em abril de 1957; e Andrei Konchalovsky, filho do famoso diretor Sergey Mikhalkov e irmão do também diretor Nikita Mikhalkov, que viria a se tornar produtor e roteirista, e seria o principal parceiro de Tarkovsky em seus projetos.

Em 1959, Tarkovsky e Konchalovsky escreveriam o roteiro de Antarctica, sobre uma expedição soviética ao Polo Sul, que seria elogiadíssimo por seus professores. Eles o tentariam vender para o estúdio Lenfilm, mas sem sucesso; o VGIK, então, arranjaria para que ele fosse publicado em forma de romance no jornal Moskovskij Komsomolets. Logo depois, a dupla escreveria mais um roteiro, O Rolo Compressor e o Violinista, sobre a amizade improvável entre um menino que aprende a tocar violino e um operário da construção civil. Tarkovsky planejava produzir o filme com recursos próprios, para apresentá-lo como seu trabalho de conclusão de curso, mas acabou recebendo uma proposta do Mosfilm, o mais importante estúdio de cinema soviético, para filmá-lo utilizando seus recursos; o VGIK, então decidiu abrir uma exceção, e permitir que, mesmo assim, o filme fosse apresentado como trabalho de conclusão, rendendo a Tarkovsky o otlitchniy (algo como "grau de excelência"), a maior nota possível para um projeto do VGIK. O Rolo Compressor e o Violinista também se tornaria o primeiro filme de Tarkovsky a estrear nos cinemas, em 30 de dezembro de 1961, e o primeiro a ser exibido fora da União Soviética, ao concorrer no Festival de Cinema de Nova Iorque, onde foi exibido em 18 de agosto de 1962, ganhando o prêmio de Melhor Filme em Idioma Estrangeiro.

Pouco após sua formatura, Tarkovsky dirigiria seu primeiro filme comercial, A Infância de Ivan, baseado no conto Ivan, de Vladimir Bogomolov, escrito em 1957 e traduzido para mais de vinte idiomas. Curiosamente, o filme não era um projeto de Tarkovsky, e sim da Mosfilm, que havia contratado o roteirista Mikhail Papava para adaptar a história e o jovem diretor Eduard Abalov para dirigi-lo; o roteiro de Papava, porém, não agradou, pois transformava o menino Ivan de vítima da guerra em um verdadeiro herói, assim como as filmagens conduzidas por Abalov, consideradas insatisfatórias e de baixa qualidade. O projeto seria abortado em dezembro de 1960, e, assim que soube do projeto, através do diretor de fotografia Vadim Yusov, com quem havia trabalhado em O Rolo Compressor e o Violinista, Tarkovsky se candidatou à vaga de diretor, sendo contratado em junho de 1961. Tarkovsky daria toda uma visão pessoal ao projeto, segundo ele, para retratar todo o ódio que ele sentia pela guerra, no que A Infância de Ivan se destacaria, pois seria o primeiro filme soviético a mostrar o impacto da guerra nas vidas do povo comum, ao invés de glorificá-la e centrá-la nos heróis como os filmes produzidos até então. O próprio Bogomolov seria chamado pela Mosfilm para alterar o roteiro de Papava, não só para deixá-lo mais coerente com a visão de Tarkovsky, mas também para deixá-lo mais fiel à história original.

A Infância de Ivan é centrado no menino Ivan Bondarev (Nikolai Burlyaev), de 12 anos de idade, que perde sua família durante um ataque na Segunda Guerra Mundial. Quando os soviéticos se preparam para invadir a Alemanha, então, ele decide acompanhá-los, primeiro para se vingar, depois, por não ter mais para onde ir. O filme estrearia na União Soviética em 6 de abril de 1962, e seria extremamente elogiado, sendo selecionado para concorrer no Festival de Veneza, no qual ganharia o Leão de Ouro, e sendo inscrito pelo governo soviético para concorrer ao Oscar de Melhor Filme em Idioma Estrangeiro - não ficando, porém, dentre os finalistas que concorreram à estatueta. Grandes diretores, como Ingmar Bergman, Sergei Parajanov e Krzysztof Kieslowski, elogiariam o filme, e o citariam como uma influência sobre seus trabalhos.

O segundo filme de Tarkovski, Andrei Rublev, seria finalizado em 1965, mas passaria por vários problemas antes de poder finalmente estrear nos cinemas. O filme conta a história do pintor de mesmo nome (interpretado por Anatoly Solonitsyn), que viveu no século XV e pintava ícones para a Igreja Ortodoxa - que proíbe representações tridimensionais de seres humanos, então, ao invés de estátuas ou pinturas de Cristo e dos santos como ornamentação, usa ícones, que são representações bidimensionais. Escrito por Tarkovsky e Konchalovsky, o filme fazia uma dura crítica à produção de arte sob um regime opressor, e, por isso, cairia na malha fina da censura, que autorizaria apenas uma exibição, em Moscou, em 1966, antes de proibi-lo e ordenar uma pesada edição, que faria com que sua duração fosse reduzida de 205 para 183 minutos.

Andrei Rublev seria convidado para participar do Festival de Cannes em 1966, mas o governo soviético não aceitaria o convite, pois as edições que haviam pedido a Tarkovsky ainda não haviam sido feitas; um novo convite seria feito em 1969, já após as edições, e o governo concordaria, desde que o filme fosse exibido fora do festival - e às quatro da manhã do último dia. Ainda assim, houve uma enorme plateia, que ovacionou o filme ao final, o que levou a organização a premiá-lo com um Prêmio Especial da Federação Internacional dos Críticos de Cinema. Logo após a exibição em Cannes, o filme estrearia em outras cidades da França, e então em outras cidades da Europa; o governo soviético tentaria proibir sua exibição, mas esbarraria nas letras miúdas do contrato: ao autorizar que o filme participasse fora de competição, o governo também estaria autorizando sua estreia em outros cinemas franceses.

Após a estreia no restante da Europa, e sob grande pressão de Tarkovsky para que o filme fosse lançado em circuito, o governo soviético finalmente concordaria que o filme estreasse em todo o país, em 24 de dezembro de 1971 - mas somente em sua versão editada, de 183 minutos. Para mostrar quem é que manda, o governo também proibiria qualquer forma de anúncio de que o filme estava em cartaz - nem mesmo os cinemas podiam pendurar pôsteres do filme. Ainda assim, Andrei Rublev foi um grande sucesso de público, tendo praticamente todas as suas sessões em Moscou e Leningrado (hoje São Petersburgo) esgotadas. Com o tempo, Tarkovsky passaria a gostar mais da versão editada, considerando-a mais enxuta narrativamente, e chegaria a declarar que os cortes não haviam mudado nada do que era importante na história ou na mensagem do filme - o que levou muitos a acreditarem que ele não tinha feito os cortes pedidos pelos censores, e sim aqueles que achava que fariam com que o filme fosse aceito após uma segunda avaliação.

Em junho de 1970, Tarkovsky se divorciaria de Irma Raush, com quem havia tido um filho, Arseny Andreyevich Tarkovsky, em setembro de 1962. Um mês depois do divórcio, ele se casaria com Larissa Pavlovna Kizilova, que havia sido sua assistente de produção durante as filmagens de Andrei Rublev, e com quem ele mantinha um romance secreto desde 1965 - Kizilova, inclusive, seria instrumental para convencer o governo soviético a autorizar a estreia de Andrei Rublev em todo o país, enviando cartas e fazendo telefonemas para pedir que personalidades influentes os ajudassem a fazer pressão. Quando Tarkovsky e Kizilova se casaram, ela já estava grávida do segundo filho do diretor, Andrei Andreyevich Tarkovsky, que nasceria em agosto de 1970.

O filme seguinte de Tarkovsky seria seu mais famoso: Solaris. Baseado no livro homônimo do polonês Stanislaw Lem, com roteiro de Tarkovsky e Fridrikh Gorenshtein, o filme é ambientado quase que inteiramente a bordo de uma estação espacial, que orbita ao redor do planeta Solaris, inteiramente composto por um grande oceano. A estação conta com uma equipe de três cientistas, o Dr. Snaut (Jüri Järvet), o Dr. Sartorius (Anatoli Solonitsyn) e o Dr. Gibarian (Sos Sargsyan), e tem a missão de coletar dados sobre Solaris; a missão, porém, encontra-se interrompida, pois, por algum motivo, os três cientistas passam por crises existenciais que os impedem de realizar seu trabalho. Para averiguar o que está acontecendo, o governo envia para a estação o psicólogo Kris Kelvin (Donatas Banionis), protagonista do filme, que também se verá envolvido em uma estranha trama ao se reencontrar, na estação espacial, com sua falecida esposa, Hari (Natalya Bondarchuk).

Originalmente, o livro era sobre a dificuldade que os humanos teriam ao tentar se comunicar com uma espécie alienígena, mas Tarkovsky decidiria transformar a história em um drama psicológico denso, com uma profundidade que não era encontrada nos filmes de ficção científica até então. Curiosamente, apesar de ser fã do livro, o principal motivo que levaria Tarkovsky a investir na adaptação seria a necessidade de dinheiro - graças ao imbróglio envolvendo seu lançamento, Andrei Rublev só começaria a dar lucro cinco anos após o fim de sua produção, e o roteiro seguinte de Tarkovsky, escrito em 1968, seria rejeitado pela Mosfilm. Sendo Lem um autor aclamado na União Soviética, Tarkovsky sabia que uma adaptação de sua principal obra seria facilmente aprovada pela Mosfilm e renderia uma boa bilheteria; assim, já em 1968, ele entraria em contato com Lem, para garantir os direitos de adaptação e discutir qual o melhor rumo a seguir. O primeiro rascunho do roteiro, feito por Goreshtein, entretanto, seria furiosamente criticado por Lem, pois dois terços da história se passavam na Terra; seria aí que o próprio Tarkovsky decidiria intervir, levando o filme mais para o lado do drama psicológico. Ainda assim, após a conclusão do filme, Lem renegaria a adaptação, alegando que Tarkovsky filmou "Crime e Castigo no espaço", ao que Tarkovsky respondeu que Lem não aprecia cinema, e que desejava ver uma transposição, e não uma adaptação, de sua obra.

Talvez propositalmente, por se tratar de um filme futurista, Tarkovsky escolheria um elenco "internacional" - na verdade, composto por atores vindos de diversas repúblicas soviéticas: Banionis é lituano, Järvet é estoniano, Sargsyan é armênio, Solonitsyn, um dos atores preferidos de Tarkovsky, é russo, e Nikolai Grinko, que também havia trabalhado em A Infância de Ivan e Andrei Rublev, e em Solaris interpreta o pai do Dr. Kelvin, é ucraniano. Inicialmente, para o papel de Hari, Tarkovsky pensaria em sua ex-mulher Raush, mas depois convidaria a sueca Bibi Andersson, uma das mais requisitadas do cinema sueco na época, a quem conhecera em 1970. Encantada pela possibilidade de trabalhar com Tarkovsky, Andersson aceitaria, inclusive, receber seus salário em rublos, mas seu visto de trabalho não seria aprovado pelo governo soviético. Tarkovsky, então, decidiria fazer um teste com Natalya Bondarchuk, filha do diretor Sergei Bondarchuk, a quem conheceu em sua época de VGIK, e, inclusive, foi a primeira pessoa que lhe recomendou que lesse Solaris; na época em que a produção do filme começou, porém, Natalya tinha apenas 19 anos, e Tarkovsky achou que ela seria muito jovem para o papel, mas, gostando de sua atuação, decidiria recomendá-la à colega Larisa Shepitko, que procurava uma protagonista para seu filme Você e Eu. Como a produção de Solaris atrasaria, Você e Eu seria finalizado antes, e Shepitko convidaria Tarkovsky para assisti-lo antes da estreia; ele ficaria tão encantado com a performance de Bondarchuk que mudaria de ideia e lhe daria o papel de Hari. Após a conclusão do filme, Tarkovsky diria, em entrevistas, que Bondarchuk era a melhor atriz do elenco, e que roubou todas as cenas em que apareceu, Vale citar que, além de uma curta carreira de atriz, Natalya Bondarchuk viria a se tornar uma das mais famosas diretoras de filmes infantis da União Soviética e da Rússia, estando na ativa até hoje, com seu último trabalho tendo sido A Rainha do Gelo, de 2015.

As filmagens de Solaris começariam em 1971, novamente com Yusov como diretor de fotografia - mas ele e Tarkovsky brigariam tanto que jurariam jamais trabalhar juntos novamente. As cenas da casa da família de Kelvin seriam filmadas na pequena cidade de Zvenigorod, próxima a Moscou, e as cenas que mostravam uma cidade futurista em Tóquio, Japão, nos bairros de Akasaka e Iikura; o restante do filme seria totalmente filmado dentro dos estúdios da Mosfilm. O oceano de Solaris seria criado com uma mistura de acetona, pó de alumínio e anilina de diversas cores. Para refletir o estado mental dos personagens, a estação espacial, criada por Mikhail Romadin, tinha aparência de mal-cuidada, como se tivesse sido muito usada sem qualquer manutenção, em algumas partes até decrépita, em contraste com as estações espaciais novinhas e brilhantes dos demais filmes de ficção científica de então. A trilha sonora combina várias obras clássicas do compositor Johann Sebastian Bach, executadas por Leonid Roizman, com uma trilha eletrônica composta por Eduard Artemyev.

Solaris estrearia na União Soviética em 20 de março de 1972; dois meses depois, ele concorreria no Festival de Cannes, onde ganharia o Grande Prêmio Especial do Júri, se tornaria o segundo filme de Tarkovsky a ganhar o Prêmio Especial da Federação Internacional dos Críticos de Cinema, e seria indicado à Palma de Ouro, a qual perderia para A Classe Operária Vai ao Paraíso, de Elio Petri. Na União Soviética, o filme estrearia em apenas cinco cinemas em Moscou, mas a procura seria tão grande que ele ficaria em cartaz em todo o país durante nada menos que 15 anos, sem interrupções, somente saindo de cartaz em março de 1987. Solaris é hoje considerado uma das maiores obras-primas da ficção científica de todos os tempos, e um dos melhores filmes produzidos na União Soviética.

O sucesso de Solaris levaria a Mosfilm a aprovar o roteiro que Tarkovsky havia apresentado em 1968, que, com modificações, daria origem a um filme chamado Espelho, que estrearia em 7 de março de 1975. Autobiográfico e onírico, Espelho não é linear, indo e voltando no tempo para contar a história de um poeta à beira da morte, que relembra episódios marcantes de sua vida - que, fazendo jus ao nome do filme, espelham situações vividas pelo próprio Tarkovsky. Escrito por Tarkovsky e Aleksandr Misharin, e protagonizado pela esposa de Tarkovsky, já com o nome de Larissa Tarkovskaya, o filme é um dos mais difíceis de serem compreendidos talvez não da filmografia de Tarkovsky, mas de toda a história do cinema, tanto que foi considerado como "incompreensível" por grande parte da crítica à época de seu lançamento. Para piorar a situação, o governo soviético classificaria Espelho como um filme de "terceira categoria", classificação reservada aos filmes que, na avaliação do governo, desperdiçaram dinheiro público durante sua produção, o que não somente diminuiria as chances de Tarkovsky conseguir financiamento para seu próximo filme, mas também determinava que ele não poderia receber nenhuma parte da bilheteria do filme, com a parte que seria do diretor indo para o governo, e que a distribuição do filme seria restrita a poucas salas de cinema. Após a morte de Tarkovsky, contudo, Espelho se tornaria cult, sendo hoje considerado um dos mais queridos trabalhos do diretor por seus fãs, e um dos mais belos filmes da história do cinema.

Após o insucesso de Espelho, Tarkovsky trabalharia em um roteiro chamado Hoffmanniana, sobre a vida do escritor e poeta alemão E.T.A. Hoffmann, a pedido do estúdio Tallinnfilm. Apesar de o governo soviético tê-lo aprovado em 1976, por motivos jamais explicados, o roteiro nunca seria filmado. Tarkovsky, então, decidiria dar um tempo do cinema e dirigir teatro, mais especificamente uma montagem de Hamlet, que estrearia no Teatro Lenkom, em Moscou, em dezembro de 1976, com Anatoly Solonitsyn no papel principal. Após Hamlet sair de cartaz, Tarkovsky e Misharin trabalhariam em um novo roteiro, chamado Sardor, sobre um homem que tenta encontrar ouro em uma região desértica enquanto protege sua família de um surto de lepra, mas que não seria aprovado pelo governo soviético.

Por volta de 1975, Tarkovsky havia lido o livro Piquenique à Beira da Estrada, dos irmãos Arkady e Boris Strugatsky, lançado em 1971, e o recomendado para seu amigo e também diretor Mikhail Kalatozov, imaginando que ele teria interesse em adaptá-lo para um filme. Kalatozov, entretanto, não conseguiria os direitos de adaptação junto aos irmãos Strugatsky, e acabaria desistindo. Tarkovsky, então, começaria ele mesmo a negociar com os irmãos, planejando fazer com o livro o mesmo que havia feito com Solaris, mantendo a essência da história, mas transformando-a em um drama psicológico denso. Assim teria origem Stalker, segundo filme de ficção científica de Tarkovsky, que estrearia em 31 de maio de 1979.

Em um futuro próximo, porém indefinido, o choque de um meteoro contra a Terra criou um local chamado Zona, onde as leis da física não se comportam conforme deveriam, e cuja exposição prolongada a seus efeitos traz consequências adversas, incluindo a morte. No centro da Zona, porém, há uma casa, e, dentro dessa casa, um Quarto que pode realizar o desejo mais íntimo de quem consiga chegar a seu interior. Devido aos riscos envolvidos, as fronteiras da Zona são protegidas 24 horas por um destacamento militar, autorizado a usar força letal contra quem tente invadi-la. Como a tentação é grande demais, porém, algumas pessoas se especializaram em entrar clandestinamente na Zona e encontrar o caminho para o Quarto, mesmo arriscando sofrerem severos efeitos físicos e psicológicos, incluindo o fato de que seus filhos nascem com sérios defeitos congênitos. Essas pessoas se tornariam conhecidas com Stalkers, e fariam disso um trabalho, recebendo dinheiro para levar outras pessoas até o Quarto; a maioria dos Stalkers, porém, fica viciado nas sensações que experimentam dentro da Zona, e deixam de se sentir à vontade fora dela, estando sempre em busca de trabalho para poder retornar. O filme acompanha um desses Stalkers (Alexander Kaidanovsky), que, apesar dos protestos de sua esposa (Alisa Freindlich), que quer que ele se aposente, é contratado para levar um escritor frustrado (Anatoly Solonitsyn) e um professor em busca de uma grande descoberta científica (Nikolai Grinko) até o Quarto; no caminho, o trio passará por grandes provações, fazendo-os se questionar se a realização de seu maior desejo vale mesmo a pena.

A produção de Stalker também seria complicadíssima. Brigado com Yusov, Tarkovsky contrataria o diretor de fotografia Georgi Rerberg, com quem já havia trabalhado em Espelho. Após passar um ano na Estônia, gravando as cenas externas, a equipe retornaria a Moscou para gravar as cenas de estúdio, mas descobriria que todos os filmes usados haviam sido impropriamente revelados e estavam imprestáveis, o que significava um ano de trabalho perdido. Rerberg alegaria que os laboratórios soviéticos não estavam acostumados com o tipo de filme usado, mas Tarkovsky consideraria que a culpa foi dele e o demitiria, criando inimizade com mais um diretor de fotografia. Tarkovsky ficaria tão chateado ao ver o estado dos negativos que consideraria abandonar a produção do filme, mas, com medo de novas represálias por parte do governo soviético, contrataria um novo diretor de fotografia, Aleksandr Knyazhinsky, com o qual criaria um plano para refilmar todas as cenas perdidas em um espaço bem mais curto de tempo. Novamente, porém, as filmagens das externas levariam quase um ano, já que, em abril de 1978, Tarkovsky sofreria um infarto, que o deixaria afastado da produção. Segundo o produtor do filme, Rashit Safiullin, a versão final de Stalker seria completamente diferente da primeira versão filmada e então perdida; outras pessoas envolvidas na produção do filme, contudo, declarariam para o documentário Rerberg e Tarkovsky: O Outro Lado de "Stalker", lançado em 2009, que ambas as versões eram virtualmente idênticas.

Para representar a Zona no filme, a equipe de produção escolheria uma área ao redor do Rio Jägala, na cidade de Tallinn, capital da Estônia, onde ficavam duas hidrelétricas abandonadas e uma fábrica de pesticidas. Segundo o diretor de som Vladimir Sharun, o rio estava completamente contaminado pelos produtos químicos da fábrica, inclusive com uma espécie de espuma branca que boiava no rio podendo ser vista em várias tomadas do filme. Várias pessoas da equipe ficariam com alergias decorrentes do contato com a água, e se recusariam a retornar para as novas filmagens, sendo demitidas.

Stalker teria boa bilheteria, mas seria incompreendido pela crítica soviética, que o acusaria de ser lento demais. O comitê de cinema do governo soviético também não gostaria do filme, e chamaria Tarkovsky para prestar explicações; ao ser questionado se achava que os espectadores iriam gostar do filme, Tarkovsky teria respondido "eu só estou preocupado com a opinião de duas pessoas, uma se chama Bresson, a outra se chama Bergman", em alusão aos aclamados cineastas Robert Bresson e Ingmar Bergman. A crítica internacional, por outro lado, não pouparia elogios para o filme, que, inclusive, seria um dos selecionados para concorrer no Festival de Cannes; o governo soviético, mais uma vez, só permitiria sua participação se o filme fosse exibido fora de concurso, mas, mesmo assim, os jurados decidiriam dar a Stalker o Prêmio do Júri Ecumênico, instituído em 1974 e dedicado a filmes que "revelam a profundidade do ser humano através do que os preocupa, suas mágoas e suas falhas, bem como suas esperanças". Vale citar que a projeção de Stalker no Festival de Cannes seria interrompida durante aproximadamente uma hora, devido a uma greve dos profissionais que trabalhavam na geração de energia elétrica.

Ainda em 1979, Tarkovsky começaria a trabalhar em Pervyj Dyen ("o primeiro dia"), filme cujo roteiro foi escrito por ele e Konchalovsky, estrelado por Natalya Bondarchuk e Anatoli Papanov, ambientado no século XVIII, durante o reinado de Pedro, o Grande. O filme fazia uma feroz crítica sobre o ateísmo ser oficial na União Soviética, mas, para passar pela censura, Tarkovsky maquiaria esse fato. Na metade das filmagens, porém, o governo soviético descobriria o estratagema, e ordenaria a interrupção imediata do projeto. Revoltado por não conseguir reverter a situação, Tarkovsky teria um acesso de fúria, destruiria toda a filmagem existente até então, e juraria nunca mais filmar na União Soviética.

Antes de começar as filmagens de Pervyj Dyen, Tarkovsky viajaria à Itália para visitar seu amigo e também diretor Tonino Guerra; essa visita daria origem ao documentário Tempo de Viagem, lançado em 1983. Em 1980, ele retornaria à Itália, e ele e Guerra escreveriam o roteiro do filme seguiinte de Tarkovski, Nostalgia - além de bolar o esquema para que Tarkovsky deixasse de vez a União Soviética: Tarkovski ofereceria o roteiro à Mosfilm, que o aprovaria, e pediria autorização ao governo soviético para filmar na Itália, com a ajuda de Guerra. Ao chegar na Itália para as filmagens, em 1982, ele simplesmente não voltaria mais. A Mosfilm descobriria o engodo e suspenderia o financiamento do filme, mas Guerra conseguiria que a RAI, a empresa de rádio e televisão pública da Itália, financiasse o restante do projeto. Tarkovsky também conseguiria que a francesa Gaumont o distribuísse, graças ao seu sucesso prévio no Festival de Cannes.

Lançado em 6 de maio de 1983, estreando primeiro na França, Nostalgia conta a história do escritor russo Andrei Gorchakov (o cazaque Oleg Yankovsky), que viaja à Itália para pesquisar sobre a vida de Pavel Sosnovsky, compositor russo do século XVIII que viveu grande parte de sua vida na região da Toscana, e cometeu suicídio ao retornar à Rússia. Acompanhado da guia e intérprete Eugenia (a italiana Domiziana Giordano), ele visita vários lugares de importância para a vida de Sosnovsky, e, em um deles, faz amizade com um estranho homem chamado Domenico (o sueco Erland Josephson), tido como louco pelos habitantes de seu vilarejo. A pesquisa sobre o compositor e a amizade com Domenico farão Gorchakov questionar a sociedade, a humanidade e o conceito de loucura.

Nostalgia ganharia nada menos que três prêmios no Festival de Cannes: o Prêmio do Júri Ecumênico, o Prêmio Especial da Federação Internacional dos Críticos de Cinema, e o Grande Prêmio do Cinema de Criação (equivalente ao prêmio de Melhor Diretor); o filme concorreria à Palma de Ouro, mas Sergei Bondarchuk, que fazia parte do painel de jurados, a mando do governo soviético, fez uma forte campanha para que seus colegas não votassem no filme de Tarkovsky, o que serviu para fortalecer ainda mais sua decisão de jamais voltar a filmar na União Soviética - o prêmio acabaria ficando com A Balada de Narayama, de Shohei Imamura. Apesar do bom desempenho em Cannes, Nostalgia fracassou nas bilheterias e não foi bem recebido pela crítica internacional; hoje, apesar de contar com uma parcela de fãs fiéis, ele é um dos menos conhecidos filmes de Tarkovsky.

Em 1984, durante uma entrevista para falar de Nostalgia e de seu projeto seguinte, O Sacrifício, Tarkovsky anunciaria publicamente sua decisão de jamais retornar à União Soviética, pedindo oficialmente refúgio na Itália. Ele seria oficialmente processado no campo de refugiados da cidade de Latina, próxima a Roma, em 28 de agosto de 1985; ao saber do ocorrido, o governo soviético tomaria os passaportes de seus filhos, proibindo-os de deixar o país.

Tarkovsky seria convidado para filmar O Sacrifício na Suécia, por Anna-Lena Wibom, do Instituto Sueco de Cinema, a quem conheceu em Cannes nos anos 1970, e de quem se tornou amigo e correspondente. O diretor de fotografia seria Sven Nykvist, colaborador frequente de Ingmar Bergman, que recusou um convite para trabalhar em Entre Dois Amores, de Sydney Pollack, pela oportunidade de filmar com Tarkovsky. Também faria parte da equipe a designer de produção Anna Asp, vencedora do Oscar com Fanny e Alexander. Todo o filme seria rodado na região de Närsholmen, na ilha de Gotland, que, em 1986, seria declarada pelo governo sueco como reserva natural e área de proteção ambiental.

O protagonista de O Sacrifício é Alexander (Erland Josephson), ator que desistiu do palco para trabalhar como crítico e jornalista, e mora em uma casa em uma região isolada, com sua esposa Adelaide (Susan Fleetwood) e seus dois filhos, Marta (Filippa Franzén) e Gossen (Tommy Kjellqvist). No dia do seu aniversário, estão em casa os quatro membros da família; a criada, Maria (Guðrún Gísladóttir); o carteiro do vilarejo, Otto (Allan Edwall); Victor (Sven Wollter), médico que realizou uma pequena cirurgia em Gossen, e passou para ver como ele está; e sua enfermeira, Julia (Valérie Mairesse). De repente, é noticiado no rádio que começou uma guerra nuclear, e toda a comunicação cessa. Isolados do mundo e sem saber o que está acontecendo, os ocupantes da casa começam a reavaliar suas vidas, principalmente Alexander, que passa a pôr à prova seus conceitos filosóficos, morais e religiosos.

Lançado na Suécia em 9 de maio de 1986, O Sacrifício renderia a Tarkovsky, em Cannes, seu terceiro Prêmio do Júri Ecumênico, um recorde até hoje não alcançado, além de seu quarto Prêmio Especial da Federação Internacional dos Críticos de Cinema, de seu segundo Grande Prêmio Especial do Júri, e de sua terceira indicação à Palma de Ouro - dessa vez não houve interferência do governo soviético, mas, mesmo assim, Tarkovsky não seria o vencedor, com a estatueta ficando com Roland Joffé por A Missão. O Sacrifício também ganharia o BAFTA (o "Oscar britânico") de Melhor Filme em Idioma Estrangeiro, e seria indicado pelo governo sueco para concorrer ao Oscar de Melhor Filme em Idioma Estrangeiro, não ficando, porém, dentre os cinco finalistas. O filme também seria bem recebido pela crítica, e não faria feio nas bilheterias.

O Sacrifício seria o último filme de Tarkovsky; pouco após o término das filmagens, o diretor seria diagnosticado com uma forma rara de câncer de pulmão, no tubo bronquial direito. Ele se internaria em Paris para o tratamento, e, ao saber de sua doença, o governo soviético daria uma autorização para que seu filho Andrei o visitasse - foi Andrei, inclusive, quem recebeu os prêmios em Cannes em nome do pai, que não poderia estar presente. Apesar de todos os esforços, Tarkovsky não resistiria e faleceria em 29 de dezembro de 1986, aos 54 anos. Ele seria sepultado na França, no cemitério de Sainte-Geneviève-des-Bois. Pouco antes de sua morte, uma grande retrospectiva de seus filmes seria lançada nos cinemas de Moscou, e, após seu falecimento, a revista Iskusstvo Kino, mais importante publicação soviética sobre cinema, dedicaria uma edição inteira à sua obra. Em 1990, ele receberia, postumamente, o Prêmio Lênin, mais importante honraria soviética concedida aos cidadãos que se destacaram nas ciências, literatura, artes, arquitetura e tecnologia. Após o fim da União Soviética, Tarkovsky seria reconhecido como um dos mais importantes diretores de cinema russos, ganhando vários memoriais, estátuas e homenagens, incluindo o Museu Tarkovsky, com objetos pessoais, localizado em Yuryevets.

No início dos anos 1990, surgiria dentre os fãs de Tarkovsky uma teoria de que seu câncer não poderia ter surgido de forma natural, e que, na verdade, ele teria sido envenenado pela KGB, baseada, dentre outras fontes, no testemunho de um dos médicos que o tratou em Paris e no de um ex-agente da KGB que revelou existirem planos para assassinar Tarkovsky sob o argumento de que seus filmes faziam propaganda antissoviética. Além de nada jamais ter sido provado, ainda há outra hipótese, mais plausível: Anatoli Solonitsyn também faleceu do mesmíssimo tipo de câncer, quatro anos antes de Tarkovsky, em 1982, e a esposa de Tarkovsky, Larissa Tarkovskaya, também, mas em 1998, e não consta que o governo soviético quisesse assassiná-los. Em diversas entrevistas, Vladimir Sharun, o já citado diretor de som de Stalker, disse estar convencido de que o câncer foi causado pelo contato com o ar contaminado durante as filmagens na Estônia, e que, provavelmente, mais pessoas da equipe o tiveram, sem que ninguém tenha ficado sabendo. Seja como for, foi uma pena que a vida de um diretor tão criativo tenha sido abreviada dessa forma.
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segunda-feira, 7 de dezembro de 2015

Escrito por em 7.12.15 com 0 comentários

Mario Bava

Eu adoro filmes antigos, principalmente de ficção científica, terror e aqueles de Antigo Egito ou Império Romano. Não me pergunte por que, deve ser influência da minha mãe, que também é fã dessas coisas e não se importava de que eu os assistisse com ela quando era criança - algo que eu já devo ter falado aqui no átomo uma centena de vezes. Seja como for, uma das minhas maiores frustrações em relação a filmes antigos era que era muito difícil encontrá-los em DVD por aqui, então eu não tinha como rever meus favoritos. Mas, felizmente, hoje eu posso usar todos esses verbos no passado, já que, esse ano, houve tantos lançamentos de filmes clássicos que eu ainda nem consegui assistir à metade dos que comprei. Se pelo menos alguém resolvesse fazer o mesmo com séries clássicas de TV...

Enfim, uma das melhores coisas sobre esses lançamentos foi que eles me deram a chance de rever - e de conhecer, já que muitos eu nunca tinha visto - alguns filmes de um dos meus diretores preferidos: Mario Bava. Eu conheci Bava através de O Planeta dos Vampiros, que assisti em alguma convenção que aconteceu no SESC, não me lembro se de quadrinhos, filmes mesmo ou RPG. O fato é que adorei o filme, e, desde então, sempre que alguma dessas convenções tinha um filme de Bava, eu assistia. Assiti a uns três ou quatro (lembro particularmente de Seis Mulheres para o Assassino), depois as convenções ou saíram de moda ou foram para locais longínquos e inacessíveis (ou eu perdi a vontade de frequentá-las, alguma coisa assim) e, como filmes de Bava não costumam passar na TV, nunca mais vi nenhum.

Até agora, quando finalmente estou não só podendo vê-los como também adicioná-los à minha coleção de DVDs, algo que vocês não têm noção de como me deixa feliz. Tão feliz que eu decidi escrever um post a respeito - que, aliás, deveria ter escrito bem antes, mas acabei adiando por causa da série dos World Games, e depois para que ele coincidisse com o 650. De qualquer forma, chegou o dia. Cuidado, pois hoje tem Mario Bava no átomo.

Bava nasceu em 31 de julho de 1914, na cidade se Sanremo, Itália. Seu pai, Eugenio Bava, era originalmente escultor, mas também fazia bicos como câmera e como responsável por efeitos especiais em filmes mudos do cinema italiano. Na adolescência, Bava começaria a trabalhar como assistente do pai, e, mais tarde, se tornaria assistente do diretor de fotografia Massimo Terzano.

Mas Bava só entraria definitivamente para o mundo do cinema depois que seu pai começasse a trabalhar no Istituto Luce, estúdio de cinema criado por Benito Mussolini, levando-o como seu assistente. Lá, ele conheceria o diretor de cinema Roberto Rossellini (pai da Isabella), que o convidaria para seu primeiro trabalho como diretor de fotografia, no curta La Vispa Teresa, de sete minutos, filmado em 1939. Rossellini gostaria do trabalho de Bava e o empregaria como diretor de fotografia em sete de seus filmes da década de 1940. Na década de 1950, ele começaria a trabalhar também como diretor de efeitos especiais, acumulando ambas as funções em dois grandes clássicos, Ulisses, estrelado por Kirk Douglas, de 1955, e Hércules, estrelado por Steve Reeves, de 1957, ambos hoje creditados como precursores de um estilo conhecido como sword and sandal ("espada e sandálias"), responsável por um boom do cinema italiano entre as décadas de 1950 e 1960.

A primeira experiência de Bava como diretor ocorreria em 1956. Na ocasião, ele trabalhava como diretor de fotografia no filme I Vampiri (Nota do Guil: levanta a mão quem leu "ái vampiri" ao invés de "í vampiri"; influência da língua inglesa é mesmo um saco), do diretor Riccardo Freda, que simplesmente abandonou as filmagens no último dia. Na época, impulsionada pelo sucesso dos filmes de sword and sandal, a indústria cinematográfica italiana estava crescendo rapidamente, e muitos produtores começariam a arriscar produzir filmes que pudessem ser vendidos para o mercado internacional, com temas e estilos diferentes dos normalmente encontrados no cinema italiano. I Vampiri (simplesmente "os vampiros", em italiano), do estúdio Titanus, seria concebido para ser o primeiro filme de horror falado (ou seja, sem contar os da época do cinema mudo) produzido na Itália. Receosos de que o projeto não desse certo, porém, ao contratar Freda, os produtores exigiram que toda a filmagem levasse apenas duas semanas, para que se gastasse pouco com o aluguel dos estúdios e com as diárias dos profissionais, e o orçamento do filme pudesse ser baixo. Freda concordou, mas, faltando um dia para que o prazo se esgotasse, argumentaria que era impossível, e que "nem valia a pena tentar", pois o filme "jamais faria sucesso", já que "o público italiano não gostava de filmes de terror".

Sem condições de contratar um novo diretor, os produtores "promoveriam" Bava, que não somente aceitaria o desafio, mas mudaria vários elementos do roteiro e vários diálogos, inclusive adicionando novas cenas. O filme ficaria pronto no prazo e seria lançado em 5 de abril de 1957; infelizmente, seria um imenso fracasso de público, o que levaria Freda a reiterar sua teoria em diversas entrevistas. A crítica, porém, elogiaria exatamente a direção de fotografia, e, nos anos que se seguiram, o filme se tornaria cult e uma espécie de "exemplo" para os críticos, que frequentemente discutem seu lugar na história do cinema italiano. Curiosamente, Bava seria creditado apenas como diretor de fotografia, sendo a direção creditada apenas a Freda.

Bava teria uma experiência parecida em 1958, no filme La Morte Viene dallo Spazio, uma co-produção entre estúdios italianos e franceses, considerado o primeiro filme de ficção científica da história do cinema italiano. Bava seria contratado pelo estúdio Royal Film, mais uma vez, para ser o diretor de fotografia, mas, na prática, acabaria co-dirigindo o filme ao lado de Paolo Heusch, o "verdadeiro" diretor. Como Bava não tinha créditos prévios como diretor, entretanto, o estúdio se recusou a creditá-lo como tal, de forma que o único diretor creditado no filme é Heusch.

Em 1959, Bava trabalharia em mais dois clássicos do sword and sandal, Hércules e a Rainha da Lídia e O Gigante de Maratona, e seria convidado por Freda para ser diretor de fotografia no filme de horror e ficção científica Caltiki, o Monstro Imortal. Freda mais uma vez abandonaria a direção em meio às filmagens, fazendo com que Bava tivesse de terminá-las; mais tarde, ele revelaria que, dessa vez, isso fazia parte de um plano, pois ele não estava muito interessado em dirigir o filme, sabia que Bava faria um bom trabalho, e ainda contribuiria para que o amigo conseguisse seu primeiro crédito como diretor, o que lhe abriria portas para trabalhos futuros. O produtor Bruno Vailati, porém, se recusaria a creditar Bava como diretor, e, em protesto, tanto ele quanto Freda decidiriam usar pseudônimos, de forma que a direção de Caltiki é creditada a Robert Hamton, e a direção de fotografia a John Foam.

Entretanto, Nello Santi, presidente da Galatea Film, estúdio responsável não somente por Caltiki, mas também por O Gigante de Maratona, considerava que o estúdio tinha uma dívida de gratidão com Bava, não somente por ele ter terminado o filme de Freda, mas por ter concordado em atuar como diretor em filmagens de diversas cenas de O Gigante de Maratona que tiveram de ser refeitas poucos dias antes do lançamento do filme, trabalho com o qual o diretor do filme, Jacques Tourneur, não concordou. Santi procurou Bava e lhe ofereceu não somente um cargo de diretor, mas em um filme qualquer de sua total preferência e escolha.

Fã de contos de horror russos, Bava aproveitaria a oportunidade para adaptar para o cinema o conto Viy ("você", em russo), escrito em 1865 por Nikolai Gogol. O próprio Bava decidiria escrever o roteiro, em parceria com seus amigos Ennio de Concini e Mario Serandrei; roteiro esse que, em sua versão final, curiosamente, tem pouquíssimo a ver com Viy, sendo mais uma homenagem de Bava aos filmes clássicos de horror filmados em Hollywood na década de 1930, em especial aqueles produzidos pela Universal, como Drácula, Frankenstein e O Lobisomem - tanto que, assim como esses, seria filmado em preto e branco, embora em 1960 filmes coloridos já fossem mais do que comuns. As únicas coisas em comum com o conto seriam que o filme é ambientado na Rússia, no século XIX, e a história envolve uma bruxa que volta à vida após duzentos anos.

No filme, chamado A Maldição do Demônio, uma bruxa de nome Asa (a inglesa Barbara Steele) é condenada, no século XVII, a ser queimada, tendo antes uma máscara de ferro com espinhos na parte de dentro pregada a seu rosto. Antes de morrer, ela roga uma maldição aos descendentes de seu irmão, responsável por dedurá-la como bruxa. Dois séculos depois, o médico Dr. Thomas Kruvajan (Andrea Checchi) e seu assistente, Dr. Andre Gorobec (John Richardson), estão indo a uma conferência quando, inadvertidamente, encontram a tumba da bruxa e, com o sangue de Kruvajan, que se cortou acidentalmente, fazem com que ela retorne à vida, mas ainda muito fraca e com poucos poderes. Asa, então, ressucita seu amante, Javuto (Arturo Dominici), e ordena que ele vá até o castelo do Príncipe Vajda (Ivo Garrani), descendente de seu irmão, onde os médicos estão hospedados, e sequestre Katia (também interpretada por Steele), a filha do Príncipe, por quem Andre se apaixona, para que ela drene seu sangue e recupere totalmente seus poderes.

O filme teve muitos problemas na produção, grande parte causados por Steele, na época com 22 anos, que não entendia italiano (ela diria suas falas de qualquer jeito e seria dublada na pós-produção, algo por incrível que pareça muito comum na época quando atores estrangeiros participavam de filmes italianos), sempre achava que a estavam enganando, e se recusava a fazer muitas das cenas reservadas às suas personagens, alegando que não havia sido previamente consultada - especialmente uma das cenas finais, na qual o vestido de Asa é rasgado e ela fica com os seios à mostra. Curiosamente, Steele seria escolhida para o papel através de uma fotografia, sem fazer nenhum teste, pois tinha justamente a aparência que Bava queria para a bruxa. Outro problema seria que Asa e Javuto, originalmente, teriam dentes de vampiro, mas, durante a edição, o editor Mario Serandrei acharia que os dentes pareceriam muito falsos, especialmente nos closes, o que fez com que várias cenas tivessem de ser refilmadas.

Apesar disso, o filme, que estrearia em 11 de agosto de 1960, seria um imenso sucesso internacional, principalmente nos Estados Unidos, onde seria exibido em uma versão dublada em inglês chamada Black Sunday, produzida pela American International Pictures (AIP), mas sem qualquer alteração - um verdadeiro milagre, já que o normal na época era editar o original para que ele ficasse "mais ao gosto do público norte-americano". A Maldição do Demônio é considerado até hoje um dos maiores filmes de horror de todos os tempos, principal expoente do horror gótico europeu, responsável pelo surgimento de diversos outros do mesmo estilo produzidos nos anos seguintes, e, além de tudo, um filme à frente de seu tempo: no Reino Unido, seria considerado "violento demais", e proibido de ser exibido nos cinemas até 1968, quando uma reavaliação o considerou adequado. Muitos críticos consideram o filme "de influência incalculável", e muitas de suas cenas seriam reproduzidas em produções recentes, como em Dracula de Bram Stoker, de Francis Ford Coppola, e A Lenda do Cavaleiro sem Cabeça, de Tim Burton. Apesar de todos os problemas que causou, Steele teria sua carreira impulsionada pelo sucesso do filme, e se tornaria uma das principais atrizes de terror dos anos 1960.

Depois de A Maldição do Demônio, Bava dirigiria mais dois filmes de sword and sandal para a Galatea, Hércules no Centro da Terra e A Vingança dos Vikings, além de co-dirigir As Maravilhas de Aladdin, ao lado de Henry Levin, e Ester e o Rei, ao lado de Raoul Walsh, que também atuou como roteirista e produtor, sendo o mais provável que Bava tenha dirigido o filme o nome de Walsh tenha sido incluído só para lhe dar o crédito triplo.

Em seguida, Bava simplesmente revolucionaria o cinema italiano, criando um novo gênero com A Garota que Sabia Demais. Lançado em 10 de fevereiro de 1963 e filmado mais uma vez em preto e branco, o filme fazia uma homenagem ao giallo, estilo de livros de romances policiais com elementos de suspense muito popular na Itália na época. O grande sucesso do filme - no qual uma turista norte-americana (Letícia Román) presencia um crime em Roma, mas ninguém acredita nela exceto um jovem médico (John Saxon) - transformaria o giallo em um gênero cinematográfico, com vários filmes de "suspense policial italiano", como o estilo ficaria conhecido fora da Itália, sendo lançados nos anos seguintes, alguns revelando diretores posteriormente consagrados como Sergio Martino e Dario Argento - esse último considerado o maior mestre do giallo de todos os tempos. Curiosamente, Bava não gostou do resultado final de A Garota que Sabia Demais, considerando a história "absurda" e "boba", e dizendo que "talvez ficasse melhor se tivesse sido filmado nos Estados Unidos com James Stewart e Kim Novak". Falando nisso, mais uma vez, a AIP lançaria uma versão dublada do filme nos Estados Unidos, mas essa fortemente editada, sendo removidas referências a drogas e inseridas cenas de comédia com atores norte-americanos em pequenos papéis que não alteravam a história central.

Ainda em 1963, Bava dirigiria mais dois filmes. O primeiro, As Três Máscaras do Terror, era composto de três episódios sem ligação entre si, sendo que o segundo, O Wurdalak, considerado o melhor, contava com a participação de Boris Karloff (de Frankenstein e A Múmia). Uma curiosidade sobre esse filme é que ele seria lançado nos países de língua inglesa com o nome de Black Sabath - e a banda Black Sabbath, liderada por Ozzy Osbourne e originalmente chamada Earth, decidiria mudar de nome após assistir a uma sessão do filme em Londres.

Também em 1963, Bava deixaria a Galatea e voltaria a trabalhar para a Titanus, com o filme O Chicote e o Corpo. Estrelado por Christopher Lee (e, por causa disso, lançado aqui no Brasil na década de 1960 com o título picareta de Drácula, o Vampiro do Sexo, que buscava pegar carona no sucesso do Drácula estrelado por Lee e lançado em 1966, embora seu personagem em O Chicote e o Corpo não seja nem sequer vampiro), que pediu para trabalhar com Bava após ouvir de Karloff que havia adorado trabalhar com o diretor, o filme teria problemas devido a cenas de sadomasoquismo entre o personagem de Lee, o Conde Kurt Menliff, e sua amante, a esposa de seu irmão, Nevenka Menliff, interpretada por Dalilah Lavi. Inicialmente, o comitê de classificação italiano não exigiria cortes, mas classificaria o filme como impróprio para menores de 18 anos; dois meses após a estreia, porém, eles exigiriam que o filme fosse retirado de cartaz e que todas as cenas consideradas "imorais" fossem removidas. Bava não concordou, e o filme não voltou a estrear. Uma versão com absurdos 14 minutos a menos chegou a ser preparada para exibição internacional (sendo exibida nos Estados Unidos com o nome de Night is the Phantom), e, como Bava se recusou a ser creditado como seu diretor, ela acabaria creditada a John M. Old.

Em 1964, Bava dirigiria seu primeiro faroeste, A Estrada para o Forte Álamo (no qual usaria mais uma vez o pseudônimo John M. Old), e voltaria ao giallo, dirigindo um dos maiores clássicos do gênero, Seis Mulheres para o Assassino, uma co-produção entre a italiana Emmepi Cinematografica, a francesa Productions Georges de Beauregard e a alemã Produktionsgesellschaft mbH, na qual modelos são assassinadas durante um desfile por um mascarado que busca obter um diário escrito por uma delas, que revela detalhes comprometedores de uma operação financeira da qual ele foi parte. O filme seria considerado influente por Dario Argento, Martin Scorcese e Quentin Tarantino, mas seria um grande fracasso de bilheteria na Itália, e a AIP se recusaria a lançá-lo nos Estados Unidos devido às roupas das modelos, consideradas indecentes.

Em 1965, seria a vez de Bava voltar à ficção científica com O Planeta dos Vampiros, co-produzido pela AIP, pela Italian International Film e pela espanhola Castilla Cooperativa Cinematográfica. Após fazer um bom dinheiro com as versões norte-americanas dos filmes de Bava, a AIP decidiria ela mesma financiar um de seus filmes, para ter mais controle criativo sobre o roteiro, que seria escrito por Ib Melchior, roteirista do sucesso Robson Crusoé em Marte (Nota do Guil: não se deixe levar pelo título, é realmente um filme bom). Em O Planeta dos Vampiros, duas espaçonaves explorando o espaço profundo caem em um planeta desconhecido, onde os membros de suas equipes começam a morrer de forma misteriosa.

O filme teria um elenco multinacional, contando com o norte-americano Barry Sullivan, a italiana Evi Marandi, o espanhol Ángel Aranda e a brasileira Norma Bengell; cada um receberia um roteiro em seu próprio idioma, e diria suas falas nesse idioma - Sullivan falava em inglês, Bengell em português, Marandi em italiano e Aranda em espanhol - muitas vezes sem que um entendesse o que o outro estava dizendo; na pós-produção, todos seriam dublados para as três versões oficiais lançadas - uma em inglês, uma em italiano e uma em espanhol. Devido ao orçamento bastante reduzido, Bava - que também trabalhou como diretor de fotografia e como diretor de efeitos especiais, embora só tenha sido creditado como diretor - teve de fazer verdadeiros malabarismos para conseguir o que queria, usando espelhos, fumaça e truques de câmera em muitas das cenas.

O Planeta dos Vampiros seria um grande sucesso de público e crítica nos Estados Unidos, mesmo tendo feito apenas um sucesso mediano na Europa. O filme costuma ser citado como uma das principais influências de Alien: O Oitavo Passageiro, mesmo com o diretor Ridley Scott e o roteirista Dan O'Bannon alegando que jamais haviam assistido ao filme de Bava antes da estreia de Alien - embora elementos como a sequência na qual os astronautas descobrem uma espaçonave caída de uma civilização avançada, cujos membros são bem maiores que seres humanos, tornam difícil acreditar nessa versão.

Em 1966, Bava faria três filmes bastante diferentes. O primeiro seria mais um sword and sandal, Os Punhais do Vingador. O segundo seria Bonecas Explosivas, estrelando Vincent Price, uma nova parceria entre a AIP e a Italian International Film, uma sátira aos filmes de espionagem, com Price interpretando um cientista que trabalhava com o governo chinês para criar androides femininas que seduziriam generais da OTAN e então explodiriam, eliminando-os, e um agente secreto mulherengo, interpretado pelo cantor norte-americano Fabian, sendo o único que pode detê-lo. O filme seria um gigantesco fracasso, e costuma ser considerado o pior filme de Bava.

Já o terceiro, O Ciclo do Pavor, costuma ser considerado justamente o melhor. Produzido pelo estúdio F.U.L. o filme pode ser considerado tanto uma volta às origens, já que se trata de um filme de horror gótico ambientado no leste europeu do século XIX, quanto um giallo, pois envolve um jovem médico estrangeiro (Giacomo Rossi-Stuart) chegando a uma isolada cidade e se envolvendo com uma bela mulher (Erika Blanc), enquanto ocorrem assassinatos misteriosos, atribuídos a bruxaria. O Ciclo do Pavor foi citado como influência por Scorcese e Fellini, é frequentemente citado como uma das maiores influências sobre os filmes de horror asiáticos do final dos anos 1990 e início dos anos 2000 (tipo O Chamado e O Grito) e foi um dos maiores sucessos de bilheteria da carreira de Bava.

Em 1968, Bava co-dirigiria, ao lado de Franco Rossi, seu primeiro trabalho para a TV, a minissérie L'Odissea, estrelada por Bekim Fehmiu e Irene Papas e baseada na obra de Homero, exibida pela RAI em 8 episódios. No mesmo ano, ele dirigiria Perigo: Diabolik, adaptação para o cinema do famoso personagem francês Diabolik, um mestre dos disfarces que age como uma espécie de Robin Hood, roubando criminosos para devolver ao povo o que roubaram. Produzido pelo lendário Dino De Laurentiis, o filme não faria muito sucesso, sendo considerado "muito infantil" pelos fãs de Diabolik.

Bava só voltaria a filmar em 1970, quando lançou Roy Colt & Winchester Jack, seu primeiro western spaghetti (nome dado aos faroestes fanfarrões produzidos na Itália entre as décadas de 1960 e 1970, alguns de grande sucesso internacional, como os estrelados por Terence Hill e Bud Spencer), além de mais dois gialli. Em um deles, Cinco Bonecas pela Lua de Agosto, um grupo de pessoas é convidado para passar um fim de semana em uma ilha paradisíaca para relaxar, mas dentre eles está um químico cuja nova fórmula é cobiçada por diversos industriais - e, por causa dela, os convidados começam a morrer um a um. O filme seria considerado um tanto confuso, não faria muito sucesso, e não ganharia uma versão internacional até 2001.

O outro, O Alerta Vermelho da Loucura, foi inicialmente considerado fraco e um dos menos inspirados trabalhos de Bava, mas hoje é tido como um dos maiores clássicos do gênero e precursor dos "filmes de sociopata", nos quais um personagem sociável, simpático e aparentemente normal comete crimes horríveis que a polícia não consegue desvendar. Nele, um estilista (Stephen Forsyth), dono de um ateliê de vestidos de noiva, secretamente mata, durante a noite de núpcias, as noivas que veste, sem que o marido veja como elas foram mortas, e se livra dos corpos de forma que a polícia não consiga encontrar o culpado. A única ameaça a seus planos é sua esposa (Dagmar Lassander), a quem odeia, mas de quem não pode se divorciar sem perder tudo o que tem. O Alerta Vermelho da Loucura seria o primeiro filme de Bava filmado originalmente em inglês e depois dublado em italiano, de forma que a versão lançada nos Estados Unidos pela AIP, com o nome de Hatchet for the Honeymoon, não precisou de qualquer edição.

Em 1971, Bava revolucionaria novamente o cinema com Banho de Sangue, no qual um grupo de adolescentes invade uma mansão na praia, abandonada após seu proprietário matar a esposa, visando se divertir, mas sendo violentamente assassinados um a um. Com pouco mistério e muita violência, o filme partiria de uma ideia da atriz Laura Betti, que trabalhou com Bava em O Alerta Vermelho da Loucura, e desejava repetir a dose. Com orçamento mínimo, seria filmado em duas semanas na casa de praia do produtor Giuseppe Zaccariello, que conseguiria financiar o filme junto ao pequeno estúdio Nuova Linea Cinematografica. Mais uma vez, Bava recorreria a vários truques de câmera para conseguir realizar os efeitos especiais com pouco dinheiro, inclusive transformando umas poucas árvores que cercavam a casa em uma floresta inteira. O maquiador Carlo Rambaldi também usaria de bastante criatividade para retratar as mortes, tendo seu trabalho bastante elogiado e ganhando inclusive prêmios por ele.

Banho de Sangue seria o filme mais controverso de Bava, considerado por alguns críticos e fãs como o pior de toda a sua carreira - até mesmo Christopher Lee, que foi assisti-lo em uma pré-estreia, saiu no meio, se dizendo revoltado. Por outro lado, os sustos e as mortes - 13 ao todo, cada uma mais chocante que a anterior - agradariam a grande parte da crítica e do público, incluindo o diretor Joe Dante, de Gremlins, que escreveu uma resenha extremamente favorável para a revista The Film Bulletin. O filme seria lançado nos Estados Unidos em 1972 com o título Twitch of the Death Nerve, e faria um sucesso gigantesco, principalmente dentre o público jovem. Hoje, o filme é considerado precursor dos "filmes de estripador", no qual um vilão mata pessoas em sequência de formas grotescas ou assustadoras, tipo Sexta-Feira 13 e A Hora do Pesadelo. Seu estilo seria imitado em praticamente todos os filmes norte-americanos de terror que o seguiram; Sexta-Feira 13 Parte II, de 1981, inclusive, é quase um plágio, já que refilma algumas das mortes presentes em Banho de Sangue quadro a quadro.

Em 1972, Bava lançaria dois filmes que teriam péssimo desempenho junto ao público e à crítica. No primeiro, Barão Sanguinário, um jovem norte-americano (Antonio Cantafore) viaja à Áustria para estudar as origens de sua família, e acaba encontrando o castelo de um de seus antepassados, um Barão sádico que morreu de forma violenta (Joseph Cotten); inadvertidamente, ele recita um encanto que traz o Barão de volta à vida, fazendo que que ele passe a torturar e matar os pobres habitantes da pequena cidade à sombra do castelo. No segundo, Quatro Vezes Aquela Noite, um playboy milionário (Brett Halsey) conhece uma linda moça (Daniela Giordano) por acaso e a convida para sair à noite; na manhã seguinte, ela retorna para casa com seu vestido totalmente rasgado, e o rapaz cheio de escoriações. Quando a polícia é chamada, cada um dos dois, mais um porteiro de um prédio próximo (Dick Randall), dá uma versão totalmente diferente para o que aconteceu durante a noite. Ambos os filmes foram considerados de roteiro fraco e atuações pouco inspiradas, e estão hoje dentre os menos lembrados da carreira do diretor.

Talvez por causa disso, a partir daí, as coisas pararam de funcionar bem para Bava. Seu filme seguinte, Lisa e o Diabo, de 1973, no qual uma jovem turista norte-americana (Elka Sommer) se perde nas ruas de Roma e encontra abrigo em uma mansão da qual o mordomo (Telly Savalas) pode ser o diabo disfarçado e cujos moradores escondem terríveis segredos, seria considerado confuso e de sequências desnecessariamente longas, embora, depois do sucesso de Savallas na série Kojak, tenha se tornado uma espécie de cult. A má-fama do filme faria com que Bava não conseguisse um distribuidor internacional - após o insucesso de seus dois filmes de 1972, a AIP, com problemas financeiros, optaria por não renovar seu contrato de distribuição - e, durante anos, o filme ficaria restrito aos cinemas da Itália, à exceção de uma versão, sem cortes nem edição, exibida em pouquíssimos cinemas dos Estados Unidos em 1974 com distribuição da Allied Artists - assim como O Alerta Vermelho da Loucura, Lisa e o Diabo foi originalmente filmado em inglês e então dublado em italiano, então, de certa forma, essa versão era a original.

Essa situação, evidentemente, não agradaria ao produtor Alfredo Leone, que desejava um retorno financeiro maior para o filme no qual havia investido. Querendo pegar uma carona no sucesso do filme O Exorcista, lançado sete meses depois de Lisa e o Diabo, Leone tentaria convencer Bava a filmar novas cenas, editar as antigas e transformar o filme em um clone do norte-americano. Leone contrataria o ator Robert Alda para interpretar um padre para exorcizar Lisa, já de volta à sua casa nos Estados Unidos e possuída pelo demônio, com os eventos do filme aparecendo como flashbacks durante o exorcismo. Bava chegaria a concordar, mas, como Leone exigiria conteúdo erótico nas cenas do exorcismo, e que fossem cortadas ou alteradas cenas que Bava considerava essenciais, incluindo o final, ele acabaria abandonando a direção - não sem antes tentar convencer Sommer a se recusar a voltar a interpretar Lisa, sem sucesso.

O próprio Leone dirigiria as cenas extras, e o novo filme, que no total excluía mais de 20 minutos de cenas do original (mas ficando no total apenas três minutos mais curto, devido às novas cenas do exorcismo), seria lançado nos Estados Unidos e Europa em 1975 com o nome de A Mansão do Exorcismo, com direção creditada a Mickey Lion. O tiro acabaria saindo pela culatra, já que o filme seria um gigantesco fracasso de crítica e público justamente por ser considerado uma cópia mal-feita de O Exorcista. Bava ficaria extremamente entristecido com essa história, já que Lisa e o Diabo era um de seus filmes preferidos, e renegou essa nova versão até o dia de sua morte.

O pior, porém, ainda estava por vir: em 1974, Bava filmaria Cães Raivosos, um dos primeiros road movies - filmes ambientados quase que totalmente em um veículo em movimento, com poucas paradas ao longo da viagem. Com roteiro de Allesandro Parenzo, que incluía um final surpreendente, o filme acompanhava um trio de ladrões (Maurice Poli, Don Backy e George Eastman) que rouba todo o pagamento de uma indústria farmacêutica, e, para escapar pega como refém uma linda moça (Lea Lander) e um senhor (Riccardo Cucciolla) que está levando o filho, inconsciente, ao hospital em seu carro, fazendo com que ele dirija até que eles estejam em segurança. Mais uma vez produzido por Leone, o filme ficaria inacabado, já que o estúdio responsável, Spero Cinematografica, fecharia suas portas durante sua pós-produção, após seu dono falecer, ironicamente, em um acidente de carro. Leone e Bava tentariam finalizar o filme por si mesmos, mas um tribunal proibiria que qualquer um mexesse no filme até que todas as dívidas deixadas pelo estúdio fossem pagas. O resultado foi que Cães Raivosos, considerado hoje como um dos melhores filmes de Bava, permaneceria inédito até bem depois da morte do diretor. O processo jurídico se arrastaria até 1996, e somente em 1998 Leone, com a ajuda do filho de Bava, terminaria o filme e o lançaria diretamente em vídeo. O filme permaneceria inédito nos cinemas até 2004, quando seria exibido no Festival de Veneza.

A versão lançada por Leone, porém, era bem diferente da idealizada por Bava, contendo um prólogo com novas cenas filmadas em 1996 e um final completamente diferente - e bastante tradicional, sem a surpresa do roteiro original. Somente em 2007, quando a Kino International obteria os direitos para lançar o filme em DVD é que ele seria reeditado, sendo incluídas cenas restauradas e mantido o final original e surpreendente imaginado por Parenzo. Essa versão seria lançada nos Estados Unidos com o nome de Kidnapped, sendo a versão de Leone conhecida por lá como Rabid Dogs.

O último filme dirigido por Bava seria Shock, de 1977, no qual uma moça (Daria Nicolodi), anos após ser internada em um manicômio e tratada com eletrochoques devido a um colapso nervoso que sofreu quando seu primeiro marido faleceu em circunstâncias misteriosas, retorna para casa, mas se convence de que seu filho (David Colin Jr.) está possuído pelo fantasma do pai. O filme seria mais um fracasso de público na Europa, e acabaria lançado nos Estados Unidos com o título de Beyond the Door 2, para que o público pensasse ser uma sequência do filme Chi Sei?, de Ovidio Assonitis, lançado por lá como Beyond the Door - embora a única semelhança entre ambos os filmes, tirando o fato de que os dois são de terror, seja a presença de David Colin Jr. no elenco.

Depois de Shock, Bava deixaria de ser considerado um diretor de sucesso, o que faria com que ele tivesse extrema dificuldade em conseguir novos financiamentos. Ele faleceria sem conseguir produzir seu próximo projeto, com o qual retornaria à ficção científica, em 27 de abril de 1980, aos 65 anos, de infarto fulminante, poucos dias após passar por um exame médico geral e ouvir de seu médico que sua saúde estava perfeita. Seu último trabalho como diretor seria um episódio da série de TV I Giochi del Diavolo, de temática semelhante a Além da Imaginação, exibida pela RAI entre 1979 e 1981; Bava seria convidado para dirigir o segundo episódio da primeira temporada, La Venere d'Ille, no qual a descoberta de uma estátua de bronze da deusa Vênus no terreno de uma mansão faz com que acontecimentos bizarros passem a afligir seus moradores. O último trabalho de sua vida, porém, seria como diretor de fotografia, no filme A Mansão do Inferno, de seu amigo Dario Argento, lançado dois meses antes de sua morte.

Bava foi casado, e teve apenas um filho, Lamberto, que atuou como seu assistente em todos os seus filmes desde O Planeta dos Vampiros, e chegou a escrever e co-dirigir Shock a seu lado, embora não tenha sido creditado pela direção. Lamberto Bava também se tornaria um bem-sucedido diretor de filmes de terror - embora não tão genial quanto o pai - contando hoje com 32 obras em seu currículo. Após finalizar seu primeiro filme, Macabre, ele o mostraria a seu pai, que declararia: "estou orgulhoso de você, agora já posso morrer feliz". Brincadeira de péssimo gosto, já que, de fato, Bava faleceria menos de dois meses depois de fazê-la.
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domingo, 26 de setembro de 2004

Escrito por em 26.9.04 com 0 comentários

M. Night Shyamalan

De vez em quando, meus posts são motivados por acontecimentos recentes, discussões com amigos ou coisas que leio na internet. Hoje é dia de um desses posts. Um sobre M. Night Shyamalan.

Para quem passou os últimos anos em Marte, Shyamalan é o diretor dos filmes Sexto Sentido, Corpo Fechado, Sinais e, mais recentemente, A Vila. Nascido em 6 de agosto de 1970 em Pondicherry, Índia, se mudou para os subúrbios da Filadélfia, onde mora com sua esposa Bhavna e seus dois filhos até hoje, antes dos 10 anos de idade. Filho de dois médicos, apaixonado por cinema, antes dos 15 anos já tinha produzido mais de 45 filmes curtos. Aos 23 anos, escreveu, dirigiu, produziu e atuou em seu primeiro longa metragem, Praying with Anger, a história de um indiano que vai pequeno com sua família para os EUA, mas retorna à Índia para fazer faculdade. Lançado de forma independente, o filme não fez sucesso entre público ou crítica, mas rendeu um convite a Shyamalan para escrever um roteiro para a Fox. O que seria seu segundo filme, Labor of Love, foi cancelado antes mesmo de começar, porque o estúdio se recusou a colocar Shyamalan, um estreante, como diretor do projeto.

Em 1995, Shyamalan conseguiu vender um de seus roteiros para a Miramax, Wide Awake, a história de um garoto que decide procurar por Deus após a morte de seu avô (disponível em português com o título Olhos Abertos). Este foi um sucesso de crítica, mas não de público. Menos mal, rendeu a Shyamalan em 1997 um convite para escrever o roteiro de O Pequeno Stuart Little (sim, isso mesmo que vocês leram, aquele do ratinho), e, em 1999, a oportunidade de filmar pela primeira vez como diretor, lançando Sexto Sentido. Como muitos artistas, ele é do tipo ame-o ou odeie-o, não existe meio termo. Você pode até gostar do cara e não gostar de um dos filmes dele, mas este será o "pior filme de sua carreira", coisa que eu já ouvi muita gente falando de qualquer um dos três últimos (o que leva a uma constatação curiosa: como alguém que sempre faz um filme pior que o anterior consegue ser tão bem-sucedido?)

Esta semana, eu finalmente consegui assistir Sinais, o único que eu não tinha conseguido ver no cinema. Muita gente já tinha me dito que era o "pior de todos" (isso antes de estrear A Vila, quando algumas dessas mesmas pessoas vieram falar algo como "eu ouvi dizer que esse aí é o pior de todos"), de forma que eu já estava curiosíssimo pra saber qual cagada o Shyamalan tinha feito pra desandar a mão assim. Afinal, eu tinha achado Sexto Sentido um clássico. Corpo Fechado eu não gostei tanto, mas compreendi que eram dois filmes diferentes, embora ambos tivessem o tal final-super-surpreendente-que ninguém-espera (e o Bruce Willys). A Vila eu também achei um clássico, interessantíssimo, o que só atiçou minha curiosidade sobre o Sinais. Era necessário conferir com meus próprios olhos.

Para ser sincero, não achei tão ruim. Na verdade, achei até um filme bom, só que completamente diferente dos dois anteriores, e do posterior. Confabulando sobre isso, cheguei a algumas conclusões que gostaria de compartilhar com vocês neste post. Primeiramente, gostaria de dizer que não desejo impor minha opinião sobre a de qualquer de vocês, nem convencê-los de que Shyamalan é um mestre do cinema, de que seus filmes são obras-primas e que vocês é que são burros e não entenderam. Nada disso. Só quero expor pensamentos que resolveram coçar dentro da minha cabeça, e talvez encontrar vozes ressonantes em alguns de vocês.

Como eu já disse, Corpo Fechado é um filme totalmente diferente de Sexto Sentido. E Sinais é totalmente diferente dos outros dois. Conclusão lógica, A Vila é totalmente diferente dos outros três. E aí começa nosso primeiro problema.

Na minha modesta e humilde opinião, o maior problema com os filmes do Shyamalan se resume a um único fato: seu "primeiro filme" foi o Sexto Sentido. Um sucesso estrondoso. Suspense, sustos, fantasmas, final inesperado. Isso deveria ser bom, mas não foi.

Por quê? Simples. Às vezes também acontece com bandas. Se o primeiro disco de uma banda é absolutamente genial e vende o equivalente a um disco de platina quíntuplo, os seguintes jamais conseguirão fazer o mesmo sucesso. Não porque também não sejam absurdamente geniais, mas porque sempre serão comparados com aquele primeiro. E se a banda resolver se reformular e lançar um disco totalmente diferente dos anteriores, danou-se, será inevitavelmente conhecido como o pior de sua carreira. Estarão eternamente fadados a se copiarem sempre e sempre.

Shyamalan é um gênio, disso eu não duvido. Mas, exatamente por ser um gênio, ele não é um homem de um filme só. Esperar que cada filme de Shyamalan seja uma cópia de Sexto Sentido é ofendê-lo, querer que ele vista um chapéu cônico na cabeça. Por isso, não é surpresa que cada filme seu seja tão diferente do anterior. Na verdade, é até melhor assim.

Mas tem o outro lado também. Por ser um ótimo filme de suspense, Sexto Sentido angariou muitos fãs, fãs estes que a cada anúncio de novo filme de Shyamalan correm aos cinemas exatamente querendo ver uma cópia do Sexto Sentido. Por isso seus filmes são tão criticados. Ver que o mesmo diretor do Sexto Sentido fez um filme sobre super-heróis ou alienígenas causa uma certa decepção em quem queria ver fantasmas mutilados assustando aos pobres transeuntes.

Fora isso, ainda devemos considerar outro aspecto: filmes de Shyamalan são para se pensar. Infelizmente, cada vez mais, as pessoas se recusam a pensar, seja por preguiça, seja por comodidade. Sexto Sentido, apesar de ter uma mensagem altamente importante, apresenta esta mensagem de forma quase subliminar. Em outras palavras, ninguém precisa entender o filme para gostar dele. Com Sinais a história já é diferente: a mensagem é muito súbita e, sem compreendê-la, o filme se torna apenas mais um de invasão extraterrestre, e um com final repentino, ainda por cima. A Vila então nem se fala, se você não compreender a história, você simplesmente não entende o filme. Fica sem pé nem cabeça.

Raciocinando em cima disso, eu cheguei a outra conclusão. Shyamalan usa elementos não tradicionais para o tipo de filme que faz. Fantasmas, super-heróis, alienígenas e monstros da floresta não são figuras muito presentes em filmes que exigem raciocínio. As pessoas vão ao cinema para ver uma coisa e se deparam com outra. Se elas pelo menos compreendessem o que estão vendo, os filmes teriam uma função social. Mas elas preferem se revoltar e sair do cinema reclamando, fazer o quê?

Sexto Sentido é uma crítica à falta de comunicação. Ninguém se fala naquele filme. O menino não fala com a mãe, e a mãe não quer saber qual o problema do menino. O psicólogo não fala com sua esposa, que também não se preocupa em falar com ele (depois nós descobrimos o porquê, mas isso é outra história). Os únicos personagens que travam diálogos sociáveis e compreensíveis são o psicólogo e o menino. Nada estranho, então, que os problemas se resolvam exatamente por causa disso. E, no final, finalmente o menino e sua mãe conversam, abrem seus corações. Full circle.

Corpo Fechado é sobre as escolhas que fazemos para sermos aceitos entre nossos pares. Até que ponto podemos abrir mão do que gostamos em nome de nossa "felicidade"? Até que ponto o meio em que vivemos influencia nossas ações? Nenhum dos personagens do filme tem auto-estima. Todos estão insatisfeitos com suas vidas, seja por suas escolhas, seja pelas escolhas que foram forçados a fazer, seja por sua própria condição intrínseca. E até que ponto mudar é realmente uma melhora?

Sinais é um filme sobre a fé. Um homem questiona sua fé após um acontecimento traumático. Nada de mais, se ele não fosse um padre. Justamente um sacerdote, quem as pessoas sempre acham que possui a fé mais inabalável de todas, a quem procuram quando necessitram de conforto ou orientação, é o personagem com menos fé em todo o filme. O ataque alienígena serve não somente para que este homem conteste ainda mais sua fé, mas como oportunidade para, reunido com sua família, ter a chance de renová-la.

A Vila é uma crítica à sociedade. Mais não falarei pois o filme ainda está passando por aí, muita gente ainda não viu e, acreditem em mim, por mais vago que fosse o que eu falasse, estragaria muito do filme. Mas é uma crítica atroz, não a toda ela, mas a alguns elementos específicos. Muita coisa que muita gente fala é "desmentido" de certa forma, com um excelente exemplo.

O final-super-surpreendente-que-ninguém-espera se tornou um tipo de marca registrada do diretor (embora Sinais não o tenha; em compensação, A Vila tem dois momentos que mudam totalmente a história do filme). Estranhamente, tenho visto muita gente reclamando exatamente disso. Ora, é o que tem mais graça! Se tirar isso, aí é que ninguém vai gostar dos filmes mesmo. Outra crítica que vejo freqüentemente é sobre os personagens não se falarem (A Vila ainda tem um violino tocando quando ninguém fala, mas nos outros é silêncio mesmo) outra espécie de marca registrada, que pra mim não interfere em nada na história.

Talvez pensar não seja mesmo feito para cinema. Eu mesmo prefiro ver um monte de Aliens e Predadores se matando do que assistir a um filme de drama. Mas ainda assim, os filmes de Shyamalan são excelentes, tensão psicológica como não víamos há muito tempo, sem precisar "apelar" para o terror. Alguns já estão se referindo a ele como o novo Hitchcock, mas isso eu já acho meio exagerado.

Por mim, podem falar mal o quanto quiserem. Podem achar que o próximo filme será pior do que A Vila. Desde que o Sr. Shyamalan continue lançando seus filmes, tão diferentes uns dos outros quanto quiser, com final surpreendente ou não, e por mais súbita que a mensagem possa ser, eu vou continuar assistindo. E gostando.
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