segunda-feira, 5 de março de 2018

Homem-Borracha

O Homem-Borracha foi um dos primeiros super-heróis que eu conheci na vida, cortesia de um desenho animado meio tosco que passava com frequência quando eu era criança. Um pouco mais tarde, quando ganhei bonequinhos da coleção Super Powers, ele era um dos meus preferidos - nessa coleção, cada herói tinha um "golpe secreto", como, por exemplo, o Super-Homem dar um soco quando suas pernas eram pressionadas; o Homem-Borracha não dava nenhum golpe, e sim esticava o pescoço, o que eu achava engraçadíssimo. Quando comecei a ler quadrinhos de super-heróis, sempre estranhei sua ausência - tudo bem que eu praticamente só lia Marvel, mas nunca via o Homem-Borracha em nenhuma capa das revistas da DC, e ele nem tinha revista própria. Anos mais tarde, descobri que isso ocorria porque o Homem-Borracha era um personagem bem secundário, daqueles que raramente apareciam. A partir do início dos anos 2000 ele até ganhou um pouco mais de popularidade, mas insuficiente para colocá-lo no mesmo patamar de heróis como Aquaman, Ciborgue ou Arqueiro Verde, que não pertencem ao Clube dos Cinco (Super-Homem, Batman, Mulher Maravilha, Lanterna Verde e Flash), mas frequentemente estão em voga. Mesmo assim, eu tenho uma certa memória afetiva do personagem, e, essa semana, após ler uma de suas histórias, fiquei com vontade de escrever um post sobre ele. Sendo assim, é dia de Homem-Borracha no átomo.

O Homem-Borracha foi criado pelo cartunista Jack Cole, que, na época, não trabalhava para a DC, e sim para a Quality Comics, uma pequena editora de quadrinhos dos Estados Unidos. Sua estreia se daria na revista Police Comics número 1, de agosto de 1941, publicada pela mesma editora. Logo o Homem-Borracha se tornaria um dos heróis mais populares da Quality, e ganharia sua própria revista, Plastic Man, em junho de 1943, depois do lançamento de duas edições especiais, Plastic Man: The Game of Death, de 1943, e Plastic Man in the Gay Nineties Nightmare, de 1944, cada um contendo quatro histórias.

Cole seria o roteirista e desenhista do Homem-Borracha até a edição 26 de Plastic Man, de novembro de 1950. No final daquele ano, sem nenhuma explicação, ele seria demitido pela Quality, que colocaria Alex Kotzky como responsável pelos roteiros e John Spranger pelos desenhos a partir da edição 27. Cole se sentiria traído, e, segundo relatos, choraria em público pela perda de sua maior criação. Ele passaria a desenhar cartuns para a revista Playboy, e, em 1958, criaria uma tira de jornal, Betsy and Me. Ele se suicidaria naquele mesmo ano, aos 43 anos de idade, deixando uma carta para sua esposa Dorothy, e outra para Hugh Hefner, na época editor da Playboy. A carta deixada para Dorothy nunca foi tornada pública, e supostamente explicava os motivos para o suicídio - que jamais foram revelados.

Já a revista Plastic Man passaria por diversos outros artistas, como Chuck Cuidera, Andre le Blanc e Dick Dillin, mas, após a saída de Cole, as vendas só fariam cair. Em uma última tentativa de aumentá-las, a Quality passaria a incluir republicações das histórias de Cole a partir da edição 58, de janeiro de 1956; como nem isso adiantou, a revista seria cancelada na edição 64, de novembro do mesmo ano. Mesmo com as vendas baixas, Plastic Man era a revista de maior vendagem da Quality, e seu cancelamento foi um baque tão grande que a própria editora teve de fechar as portas em 1957. Pouco após sua falência, ela receberia uma proposta da DC, que compraria todos os seus personagens - e foi assim que o Homem-Borracha foi parar na editora do Super-Homem e do Batman. Outros heróis que fizeram a transição do "Universo Quality" para o Universo DC incluem Condor Negro, Moça Fantasma, Bomba Humana, Tio Sam, os Falcões Negros e Ray; já heróis como 711, Torpedo Vermelho, Neon e Capuz Invisível não seriam aproveitados, e cairiam no ostracismo.

O Homem-Borracha, originalmente, era o criminoso Eel O'Brian. Tendo se tornado órfão aos dez anos de idade, O'Brian se voltaria para uma vida de crimes, e se tornaria especialmente bem sucedido em abrir cofres. Um dia, sua gangue tentaria um roubo em uma indústria química, mas seria surpreendida por um vigilante, que atingiria O'Brian com um tiro no ombro, fazendo-o cair dentro de um tonel de dejetos químicos. O'Brian conseguiria fugir, mas sua gangue, acreditando que não valia a pena esperar por ele, sairia em fuga, deixando-o para trás. O'Brian fugiria desorientado pela floresta até desmaiar em consequência da dor do tiro e do efeito dos produtos químicos, acordando em um mosteiro, no qual seria tratado até sua recuperação. Acreditando ter recebido uma segunda chance, impressionado pela bondade dos monges, e revoltado por ter sido deixado para trás, ele decidiria deixar a vida de crimes e conseguir um trabalho honesto, se dedicando, antes disso, a colocar sua antiga gangue na cadeia.

Enquanto se recuperava no mosteiro, O'Brian descobriria que os produtos químicos lhe deram incríveis poderes, deixando-o como se seu corpo fosse feito de borracha. Ele não somente pode esticar seus membros, mas também alterar sua forma para a de qualquer objeto, mudar sua aparência para se disfarçar em qualquer pessoa, e se tornou praticamente invulnerável, sendo imune a tiros, explosões, perfurações, cortes e outros tipos de dano - as balas simplesmente batem em sua pele e voltam, lâminas não conseguem perfurá-lo, e porretes quicam em seu corpo como se estivessem golpeando um pneu de carro. Ele decidiria usar esses novos poderes para alterar sua aparência, vestir um uniforme chamativo e se tornar um super-herói, dedicado ao combate ao crime.

Ao contrário de outros super-heróis que agiam às margens da lei, o Homem-Borracha decidiria fazer tudo direitinho, e, depois de ajudar a prender sua antiga gangue, se inscreveria na academia de polícia, se unindo à força policial da cidade, e, mais tarde, se tornando agente do FBI. Na Police Comics 13, de novembro de 1942, ele também ganharia um parceiro, Bolão (Woozy Winks), um homem baixinho, gordo e atrapalhado, que funcionava como alívio cômico - antes que vocês estranhem, não somente era comum nos anos 1940 os super-heróis terem coadjuvantes desse tipo, como o Tio Dudley do Capitão Marvel ou o Doiby Dickles do Lanterna Verde original, mas também os quadrinhos do Homem-Borracha eram muito mais voltados à comédia que os quadrinhos de super-heróis normais.

Sendo um policial/agente do FBI, o Homem-Borracha normalmente usava seus incríveis poderes para lidar com criminosos "comuns", como gangsters, mafiosos e traficantes, não sendo usual em suas histórias a presença de supervilões. A coisa mais próxima que ele teve de um arqui-inimigo foi o Dr. Domo, um cientista maluco que usava um capacete em forma de domo e decidiu dedicar sua vida a neutralizar os poderes do Homem-Borracha.

Após o fim da Quality Comics, o Homem-Borracha ficou longos anos sem ser publicado, até que, em 1963, a editora I.W. Publishing, especializada em republicações de histórias de pequenas editoras da Era de Ouro, sem saber que os direitos do personagem agora pertenciam à DC, lançaria três edições republicando as histórias de Cole. As três edições venderiam bem, o que motivaria a DC a a enviar uma carta à I.W. pedindo que eles parassem com a publicação, e começasse a planejar a incorporação do personagem ao Universo DC. Seria um planejamento lento, porém, e somente em julho de 1966, quase dez anos após seu cancelamento na Quality, na edição 160 da revista The House of Mystery, que na época publicava as aventuras de Dial H for Hero, nas quais o jovem Robby Reed, se utilizando de um aparato mágico parecido com um disco de telefone, poderia assumir a identidade de qualquer herói, o Homem-Borracha finalmente apareceria em uma história publicada pela DC - ainda assim, não como ele mesmo, e sim como uma das transformações de Reed.

A revista teria boa aceitação, o que motivaria a DC a lançar uma nova Plastic Man, com numeração recomeçando do 1, em dezembro de 1966, com roteiros de Arnold Drake e arte de Gil Kane. Nessa revista, o Homem-Borracha voltaria e enfrentar o Dr. Domo, bem como sua sedutora filha, Lynx, e o Professor X, que conseguia criar qualquer tipo de arma - sem a presença de Bolão. Uma derrapada da DC, entretanto, foi revelar, na primeira edição, que esse não era o mesmo Homem-Borracha da Era de Ouro, e sim seu filho, Eel O'Brian Jr., que já nasceu com os mesmos poderes do pai. Talvez por isso, a série teve baixas vendas desde o seu início, e acabou cancelada após apenas 10 edições, em junho de 1968.

Em 1976, talvez para celebrar os 20 anos do cancelamento da revista original e os 10 anos do relançamento, a DC relançaria a Plastic Man, mas com a numeração começando do 11, como se ainda fosse a mesma série de 1966. Com roteiros de Steve Skeates e arte de Ramona Fradon, a revista não deixava claro se seu protagonista era o Homem-Borracha original ou o Júnior, mas, como o estilo da arte de Fradon era mais parecido com o personagem original da década de 1940 do que com o relançamento da década de 1960, muitos fãs assumiram que, dessa vez, se tratava do Eel O'Brian pai - Bolão, inclusive, faria sua estreia no Universo DC nessa revista, o que se tornaria mais um argumento de que se tratava do Homem-Borracha original. Nessa série, o Homem-Borracha enfrentaria vários supervilões, como o Homem-Lava, o Abafador e o Professor Klean; infelizmente, a série mais uma vez não faria sucesso e acabaria cancelada após dez edições, no número 20, de novembro de 1977.

Após o cancelamento, o Homem-Borracha passaria a aparecer na revista All-Star Squadron, lançada em setembro de 1981, com roteiros de Roy Thomas e arte de Rich Buckler, na qual fazia parte do Comando Invencível, um grupo de super-heróis liderados por Gavião Negro, Eléktron e Dr. Meia-Noite cujas histórias eram ambientadas na década de 1940. A revista teria 67 edições, e seria cancelada em março de 1987 por causa da Crise nas Infinitas Terras.

O roteirista e ilustrador Phil Foglio aproveitaria a Crise e faria uma proposta para relançar o Homem-Borracha na década de 1980 com uma nova origem, justamente como a DC vinha fazendo com seus principais personagens. Esse "reboot" ocorreria em uma minissérie em quatro edições lançada entre novembro de 1988 e fevereiro de 1989, na qual seria revelado que o nome verdadeiro do Homem-Borracha era Patrick o'Brian, sendo Eel (que, em inglês, significa "enguia") apenas um apelido de seus tempos de criminoso. Em sua nova origem, O'Brian mais uma vez é deixado para trás por seus comparsas após o roubo frustrado à indústria química durante o qual foi baleado e caiu no tonel de dejetos, mas, dessa vez, passa a vagar pelas ruas, e, devido a seus recém-adquiridos poderes, é confundido com um monstro. Ele é salvo da morte por Bolão, que era um paciente de um manicômio mas foi colocado nas ruas após cortes no orçamento feitos pelo governo Reagan, e os dois decidem se tornar detetives particulares. A intenção de Foglio era que a minissérie desse origem a uma nova série mensal, mas as vendas foram baixas, e a DC preferiu não arriscar. Por toda a década de 1990, o Homem-Borracha apareceria apenas ocasionalmente em outras publicações da DC, sem nenhum destaque nem título próprio.

Em 1997, o roteirista Grant Morrison, fã do personagem, assumiria a revista JLA, uma nova publicação estrelando uma Liga da Justiça composta apenas pelos sete personagens mais poderosos da editora: Super-Homem, Batman, Mulher Maravilha, Aquaman, Flash, Lanterna Verde e Ajax. Na edição 10, de setembro de 1997, Morrison decidiria incluir o Homem-Borracha na equipe, que seria recrutado após Batman pedir que ele se disfarçasse de Coringa para invadir a base de operações de Lex Luthor. O Homem-Borracha seria o único além dos sete "grandões" a fazer parte da Liga até o final da série, participando com a equipe de crossovers publicados durante essa época, como JLA/Avengers, e constando da formação da equipe em minisséries como Justiça.

Em 2003, o roteirista e ilustrador Kyle Baker sugeriu à DC uma nova série do Homem-Borracha, mais centrada na comédia pastelão e com um tom mais adulto. A ideia original da DC era lançar essa nova série pela linha Vertigo, e situá-la no mesmo universo que um desenho animado que seria exibido no bloco Adult Swim, do canal Cartoon Network. O desenho animado, porém, jamais sairia do papel, e a DC acabaria pedindo a Baker que fizesse a série não tão adulta, para poder lançá-la como uma série regular ambientada no Universo DC. Também chamada Plastic Man e com numeração recomeçando do 1, com a primeira edição lançada em fevereiro de 2004, a nova série começa restabelecendo a origem antiga do Homem-Borracha, na qual ele descobre seus poderes em um mosteiro - com a diferença de que, agora, todos os monges possuem super-poderes - e faz com que o Homem-Borracha volte a ser um agante do FBI - embora Bolão seja apenas "um cara que aparece por lá de vez em quando e ajuda o Homem-Borracha", e não ele também um agente. A série também traz uma nova personagem, a Agente Morgan, na verdade a esposa de Eel O'Brian, que fez cirurgia plástica e deseja se vingar por ele tê-la abandonado após ter se tornado um super-herói. A série seria um enorme sucesso de crítica, mas isso não se refletiria em vendas, e ela seria cancelada em março de 2006, após 20 edições.

O Homem-Borracha continuaria sendo membro da Liga da Justiça no relançamento da revista Justice League of America, que recomeçaria do número 1 em outubro de 2006, após os eventos da saga Crise de Identidade. Após os eventos da saga Os Novos 52, entretanto, ele voltaria a ser um herói secundário, aparecendo pouco. Talvez isso mude com a estreia de sua nova minissérie, em seis edições, escrita pela premiada roteirista Gail Simone e ilustrada pela brasileira Adriana Melo, com lançamento previsto para junho. Vamos torcer - afinal, o jeito cômico e brincalhão do Homem-Borracha é um alento nesse mundo dos super-heróis de hoje, que têm de ser obrigatoriamente sérios e atormentados.

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