segunda-feira, 26 de fevereiro de 2018

Esportes Aéreos (II)

Eu não pretendia retornar aos esportes aéreos tão cedo, mas acabei tendo um erro de planejamento. Como quem acompanha o átomo deve ter ficado sabendo, eu aproveitei que o Natal e o Ano Novo caíram em segundas-feiras, e que na segunda seguinte eu estaria viajando, para tirar umas "férias" de três semanas sem escrever posts. O último que eu escrevi antes dessa parada foi o que postei semana passada, sobre Joe & Mac. Acontece que eu não deixei nenhum assunto reservado para escrever quando voltasse, no estilo "quando chegar a hora a gente vê". Por causa disso, essa semana, para manter a frente confortável, eu já tenho que escrever um post - e não faço a menor ideia de qual será seu assunto. Felizmente, eu tinha escrito aquele sobre os esportes aéreos no qual não abordei todos, então, por falta de assunto melhor, hoje, mais uma vez, é dia de esportes aéreos no átomo!

Recapitulando, "esportes aéreos" é um termo genérico usado para se referir a 13 esportes regulados pela FAI, a Federação Aeronáutica Internacional - sendo que esses 13 não são todos os esportes aéreos que existem. Aqui no átomo, eu já falei sobre cinco deles, um no segundo post sobre esportes de demonstração das Olimpíadas, quatro no post anterior sobre esportes aéreos. Hoje, eu vou falar sobre mais seis; os dois que ficarão faltando eu abordarei em breve.

Vamos começar pela construção amadora de aeronaves, que, a bem da verdade, não é exatamente um esporte, e sim uma espécie de hobby, que consiste em montar seu próprio avião. A FAI estimula a produção amadora de aviões, inclusive enviando fiscais para supervisionar seu primeiro voo - porque a construção só é considerada válida se o avião voar. Uma aeronave é considerada amadora se pelo menos 51% de sua montagem for feita de forma manual e fora dos limites de uma fábrica de aeronaves; essa percentagem foi estipulada porque algumas peças, como o motor, podem ser adquiridas já prontas, sem ser preciso montá-las do zero. Pelas regras da FAI, as aeronaves elegíveis para construção amadora podem ser aviões, planadores, ultraleves, helicópteros, giroplanos, ornitópteros e balões.

A construção amadora pode ser de três tipos: na restauração é remontada uma aeronave antiga, ou é montada uma réplica de uma aeronave antiga, que já existiu e já foi produzida em escala industrial. Já na construção experimental o projeto da aeronave também é criado pelos construtores, sendo essa uma categoria normalmente voltada para a inovação - aeronaves não-tripuladas, movidas a energia solar, com designs revolucionários e outros projetos do tipo se enquadram aqui. A terceira categoria é a das aeronaves de propulsão humana, que conta com ornitópteros e helicópteros que decolam e se mantêm no ar por puro esforço de seus pilotos, sem a ajuda de nenhum combustível - normalmente através de pedais.

Existem campeonatos de construção amadora, nos quais jurados avaliam cada projeto de acordo com os seguintes critérios: qualidade e dificuldade da construção, impacto ambiental, economia da construção e operação, inovação (apenas para aeronaves experimentais), fidelidade ao design original (apenas para a construção de réplicas) e qualidade da documentação associada (apenas para restauração). Esses campeonatos não costumam ter periodicidade fixa, acontecendo normalmente junto a mostras e exposições. Nos Jogos Aéreos Mundiais de 2015 ocorreu uma demonstração desse esporte, com três eventos: no principal, um grupo iria montar girocóptero Magny no decorrer dos Jogos, com plateia, começando do zero e tendo o desafio de fazê-lo voar no último dia de competição; no segundo, um Cherry BX-2, considerado uma das melhores aeronaves de construção amadora, seria exposto ao público, com direito a voo de exibição; e, no terceiro, estudantes poderiam montar e pintar aeromodelos pré-fabricados, colocando-os para voar no último dia de competição.

Falando nisso, vamos passar ao aeromodelismo. Assim como a construção de aeronaves, o aeromodelismo é um hobby, que consiste em comprar ou montar um avião em miniatura, e então colocá-lo para voar e controlá-lo remotamente durante o voo. Os primeiros aeromodelos foram criados antes mesmo dos primeiros aviões, mas o hobby começaria a se popularizar na década de 1970, com as primeiras competições esportivas surgindo quase que simultaneamente. Hoje, existem milhares de clubes de aeromodelismo espalhados pelo mundo, com seus membros se encontrando regularmente para expor e voar com seus modelos; além disso, muitas fabricantes de aviões usam aeromodelos para testes quando desejam lançar um avião novo ou fazer alguma alteração nos antigos, submetendo os aeromodelos a túneis de vento e a diversas situações de voo em escala para observar como o avião se comportaria em uma situação real semelhante.

Aeromodelos podem representar qualquer tipo de avião, desde aviões de combate, passando por aviões de passageiros e até mesmo aeronaves experimentais. Alguns modelos são reproduções fiéis de aeronaves existentes, outros são feitos ao gosto do freguês, sem equivaler a qualquer avião real. Quanto ao material, podem ser feitos de plástico, madeira, metal, ou de materiais como fibra de vidro e fibra de carbono. Alguns possuem motor elétrico, mas a maioria funciona a gasolina, álcool ou diesel; outros métodos de propulsão mais exóticos são gás comprimido, combustível de foguetes, e o chamado motor elástico, no qual um elástico é enrolado ao redor do motor antes do voo, e o aeromodelo voa enquanto ele desenrola sozinho e faz o motor funcionar. Existem também aeromodelos de planadores, sem qualquer tipo de propulsão, que se mantêm no ar apenas planando, precisando de ajuda externa para decolar.

Existem três tipos de aeromodelos. Os mais comuns são os de controle remoto (identificados pela sigla RC, de radio controlled, ou, em competições da FAI, pela sigla F3), que possuem um pequeno receptor, que recebe sinais de um transmissor que fica nas mãos do "piloto"; através de botões e alavancas, o piloto consegue controlar a altitude, a velocidade e a direção do aeromodelo durante o voo. O segundo tipo mais comum é o de controle por linha (CL, de control line, ou F2), que é controlado através de dois cabos de vários metros de comprimento, cada um segurado por uma das mãos do piloto, sendo que um deles controla a altitude e o outro controla a direção; a decolagem e o pouso são feitos mais ou menos como se o aeromodelo fosse uma pipa, e a velocidade é constante, não podendo ser alterada. O tipo menos comum de aeromodelo é o de voo livre (FF, de free flight, ou F1), que simplesmente não pode ser controlado; uma vez que ele levante voo, voará em linha reta até acabar seu método de propulsão, quando planará e pousará. A FAI também reserva a sigla F5 para aeromodelos de motor elétrico, que têm provas só para eles.

A FAI sanciona seis tipos de prova de aeromodelismo. Nas provas de aerobática, cada aeromodelo faz uma apresentação acrobática ao som de música, que será avaliada por um painel de três jurados, levando em conta a dificuldade e precisão das manobras, o sincronismo com a música e o melhor uso do espaço disponível. Provas de aerobática de aeromodelismo normalmente são realizadas em ambientes fechados (indoor), como ginásios, para melhor visualização do público, o que também torna a prova mais desafiante para o piloto, pois ele terá menos espaço para cometer erros; dependendo do evento, a prova pode ser realizada ao ar livre (outdoor), nesse caso, a área de exibição será um cubo imaginário, como na aerobática de aviões. Uma prova completa de aerobática de aeromodelismo consiste de quatro apresentações, com duas rotinas e duas músicas diferentes - ou seja, cada piloto apresenta cada rotina duas vezes; as duas primeiras apresentações são feitas com a mesma rotina e a mesma música, e, após serem somadas as notas, os mais bem classificados avançam para a final, que consiste em mais duas apresentações, normalmente ambas com a mesma rotina e a mesma música. Para se determinar o vencedor, são levadas em conta apenas as duas apresentações da final.

Semelhante à aerobática é a prova do estilo livre; nela, cada piloto escolhe uma série de acrobacias permitidas pela FAI e monta uma rotina de até quatro minutos, que será apresentada e julgada. A prova do estilo livre não é realizada ao som de música, e normalmente conta com duas etapas, com os melhores da primeira etapa competindo na segunda. Algumas competições misturam estilo livre e aerobática, com duas apresentações de cada; os melhores na soma das notas das duas apresentações de estilo livre competem nas duas apresentações de aerobática.

O terceiro tipo de prova é a do combate, na qual cada aeromodelo carrega uma faixa de papel presa à sua traseira, e o objetivo é arrancar o papel do oponente. Os competidores são pareados dois a dois, e cada embate dura dois ou mais "sets" de quatro minutos cada. Cada vez que um piloto consegue arrancar o papel do oponente, ele ganha um ponto, e, a cada 30 segundos que ele passa no solo (afinal, ele precisa pousar para recolocar o papel), ele perde um ponto; cometer faltas, como sair da área de competição e colocar os outros competidores ou espectadores em risco, também resulta em perda de pontos. Ao final de cada set, o piloto com menos pontos "perde uma vida"; caso ambos estejam empatados, ninguém perde. O primeiro piloto a perder duas vidas perde também o embate - por isso o mínimo de sets é dois, mas não há máximo, já que pode haver muitos empates. Os perdedores vão sendo eliminados da competição e os vencedores avançando, até que só reste o campeão - com os perdedores das semifinais se enfrentando pela medalha de bronze, se houver uma em disputa. Cada piloto conta com dois "mecânicos" para auxiliá-lo cada vez que o aeromodelo pousa, e com um aeromodelo reserva caso o titular fique avariado durante o combate; um piloto cujos dois aeromodelos forem avariados é automaticamente desclassificado, mas, caso se determine que as avarias foram provocadas propositalmente pelo adversário, este é que será desclassificado.

A prova mais simples e mais antiga é a do soaring, que se divide em três tipos: na prova da distância, cada aeromodelo tem quatro minutos para percorrer a maior distância possível dentro de um circuito de 150 m de extensão; na prova da velocidade, cada aeromodelo deve dar quatro voltas no circuito no menor tempo possível; e, na prova da duração, cada aeromodelo voa por exatamente 10 minutos dentro do circuito, devendo, ao final do tempo, pousar o mais próximo possível de um ponto pré-determinado, somando pontos não só pela precisão do pouso, mas também pela habilidade do piloto em manter o aeromodelo dentro dos limites do circuito, em velocidade constante e com toque suave; existe, ainda, a prova do multitask, na qual cada aeromodelo compete na distância, na duração e na velocidade, e seu desempenho em cada uma dessas provas é convertido em pontos que são somados para se determinar o vencedor. O soaring também conta com uma prova exclusiva para planadores, a do slope, realizada sobre um declive (slope, em inglês, é "ladeira", e planar sobre o declive permite que o planador voe por mais tempo), e na qual o objetivo é completar dez vezes a distância de 100 m (totalizando 1 km) no menor tempo possível.

Falando em planadores, há uma prova exclusiva para eles, conhecida apenas como planadores; nela, a organização escolhe, de uma lista aprovada pela FAI, um determinado número de tarefas (por exemplo, chegar do ponto A ao ponto B no menor tempo possível). Os planadores recebem pontos por seu desempenho em cada uma das tarefas, e aquele com mais pontos ao final da última é declarado vencedor.

Por fim, temos a prova da corrida, na qual cada aeromodelo deve cumprir dez voltas em um circuito de 400 metros, passando pelo lado correto de três postes de marcação, no menor tempo possível. Os aeromodelos passam pelo circuito um por vez, com seus tempos sendo registrados e comparados para se determinar o vencedor. Cada campeonato conta com uma etapa de classificação, semifinais e uma final; na etapa de classificação, são disputadas entre cinco e dez provas, com, em cada uma delas, cada aeromodelo recebendo pontos de acordo com sua classificação por tempo: o de menor tempo recebe 4 pontos, o segundo 3, o terceiro 2, e o quarto 1, com os demais não recebendo pontos - e todos os que não consigam completar o circuito, ou que incorram em faltas como passar pelo lado incorreto do poste, também não marcando pontos, independentemente de seu tempo. Ao final da última prova da etapa de classificação, os oito pilotos com o maior número de pontos passam para as semifinais, que consistem de mais duas provas com o mesmo esquema. Os quatro com mais pontos nas semifinais - sem contar os pontos da classificação - fazem a final, uma prova única, na qual eles serão ranqueados de 1 a 4 puramente por seus tempos, com o número 1 ganhando a medalha de ouro. Tanto na etapa de classificação quanto nas semifinais, caso haja empate por pontos, o desempate é feito pelo menor tempo registrado por cada aeromodelo.

O mais antigo campeonato mundial do aeromodelismo é o Campenato Mundial de Aeromodelismo Voo Livre, realizado pela primeira vez em 1911, e que conta com uma prova de distância. O segundo, disputado desde 1948, é o Campeonato Mundial de F2 (controle por linha), que conta com provas de velocidade, aerobática, combate e corrida. A FAI também organiza, anualmente, o Campeonato Mundial de Aerobática F3 (controle remoto), o Campeonato Mundial de Aerobática Indoor F3, o Campeonato Mundial de Aerobática F3 para Modelos Grandes, o Campeonato Mundial de Soaring Multitask F3, o Campeonato Mundial de Corrida F3, o Campeonato Mundial de Corrida F5, o Campeonato Mundial de Soaring F5, o Campeonato Mundial de Slope, o Campeonato Mundial de Duração (somente para planadores), o Campeonato Mundial de Planadores, e a Copa do Mundo de Helicópteros F3 (com provas de aerobática e estilo livre); a cada dois anos, é realizado também o Campeonato Mundial de Soaring Multitask F5. O aeromodelismo também faz parte dos Jogos Aéreos Mundiais desde a primeira edição, em 1997; atualmente, são disputadas nos Jogos as provas de Aerobática Indoor F3, Corrida F3, Estilo Livre Helicópteros F3 e Combate F2.

O mais recente dos esportes da FAI era, até 2015, uma categoria do aeromodelismo. Trata-se dos drones, que, a rigor, são aeromodelos de quadricópteros controlados remotamente, mas, devido a algumas características próprias, como a presença de uma câmera montada em sua frente através da qual o piloto pode ver o que o drone "vê", a FAI decidiu separá-los dos demais aeromodelos - ela ainda usa, porém, um código do aeromodelismo para se referir às provas disputadas por drones, o F3U.

As provas de drones são de corrida, mas bastante diferentes das do aeromodelismo. Para começar, os drones não passam pelo circuito um a um, mas quatro de cada vez. Além disso, os circuitos costumam ser montados em locais fechados, como ginásios, e são extremamente elaborados, com curvas fechadas, obstáculos pelos quais os drones devem passar por cima ou por baixo, rampas, buracos e outros elementos que dependem do grau de dificuldade e da extensão do percurso. Finalmente, diferentemente de uma prova de aeromodelismo, na qual o piloto vê o aeromodelo todo o tempo, nas provas de drones o piloto deve se guiar pelas imagens geradas pela câmera do drone, ficando o mesmo a maior parte do tempo fora de seu campo de visão. Os drones costumam ter luzes em neon que deixam um rastro que torna mais fácil para os espectadores acompanhá-los no circuito.

Um campeonato de drones é composto de várias fases; na primeira, são disputadas várias corridas de uma ou mais voltas ao redor do circuito, e, ao final de cada uma, podem ser adotados dois métodos: ou cada drone recebe uma pontuação de acordo com a posição na qual terminou, com os de maior pontuação avançando para a próxima fase (nesse caso, com os mesmos drones tendo de disputar múltiplas corridas por fase), ou, ao final de cada corrida, o primeiro ou os dois primeiros drones avançam de fase, com os demais sendo eliminados (caso no qual cada drone só disputará uma corrida por fase). Seja qual for o método adotado, a final é disputada em uma única corrida, com o drone que chegar em primeiro sendo o vencedor.

A maior parte dos campeonatos internacionais de drones hoje não é organizada pela FAI, e sim por organizações particulares como a MultiGP e a Drone Racing League (DRL). O principal campeonato da FAI é o Campeonato Mundial de Corrida de Drones, que, de 2010 a 2015, foi considerado mais um dos mundiais de aeromodelismo. Os drones ainda não estrearam nos Jogos Aéreos Mundiais.

O quarto esporte que veremos hoje é a asa delta. As primeiras asas delta foram criadas na China, no século VI, e eram pouco mais do que pipas grandes o suficiente para aguentar o peso de uma pessoa, sendo extremamente perigosas devido à falta de controle do praticante sobre sua direção ou altitude. Durante anos, praticantes e entusiastas tentaram torná-las mais seguras, mas somente no final do século XIX avanços tecnológicos e científicos, especialmente no tocante à compreensão de como os pássaros conseguem voar, possibilitariam a construção de asas delta seguras e controláveis. Um dos mais bem sucedidos pioneiros nessa área seria o alemão Otto Lilienthal, considerado por muitos como o inventor da asa delta; suas anotações sobre seus protótipos e seus voos seriam usados durante anos por aqueles que desejavam modernizar esse esporte - dentre eles, podemos destacar o francês Jan Lavezzari, que, em 1904, criou a primeira asa delta triangular (e que levou esse nome porque a letra delta, do alfabeto grego, tem o formato de um triângulo), inspirado pelo formato da vela de um navio, e os norte-americanos Octave Chanute, que em 1909 criou a armação de alumínio, e Carl S. Bates, que, em 1910, escreveu um artigo sobre a construção de asas delta que é referência até hoje.

Em 1948, o casal de engenheiros norte-americanos Francis e Gertrude Rogallo patentearam um modelo de asa flexível conhecido como Rogallo Wing, o qual a NASA começou a testar como modo de aperfeiçoar o controle das cápsulas espaciais durante a reentrada; na década de 1960, um grupo de praticantes de asa delta norte-americanos, liderados por Barry Hill Palmer, Mike Burns e John W. Dickenson, começaria a adaptar a Rogallo Wing para a armação das asas delta existentes até então. Dickenson, que na verdade buscava criar um modelo que pudesse ser usado em conjunto com o esqui aquático, acabaria criando, em 1963, o desenho que é usado até hoje, sendo considerado pela FAI como o inventor da asa delta moderna. Mas a asa delta como esporte só começaria a se popularizar na década de 1980, quando a descoberta de novos materiais e novas técnicas de fabricação permitiriam um barateamento das asas delta, tornando-as mais acessíveis, e uma maior durabilidade, segurança e carga máxima, o que popularizaria os voos duplos, com um aluno e um instrutor compartilhando a mesma asa delta.

Atualmente, existem dois modelos de asa delta, a rígida e a flexível, sendo que a flexível altera sua forma conforme o piloto altera seu centro de gravidade, enquanto a rígida possui spoilers controlados pelo piloto que auxiliam nas mudanças de direção. Campeonatos e recordes costumam ser separados para cada um dos tipos, pois a asa rígida costuma alcançar maior distância perdendo menos altitude, enquanto a flexível obtém maior velocidade. Em competições da FAI, as asas delta são divididas em três classes, com as flexíveis pertencendo à Classe 1 e as rígidas pertencendo à Classe 5; a terceira classe é a Classe 2, também de asas do tipo rígido, mas nas quais, ao invés de pilotar deitado segurando a armação, o piloto vai sentado em uma carenagem, que possui rodinhas usadas na decolagem e no pouso. Uma asa delta possui entre 13 e 21 m2 de área, envergadura entre 8,2 e 10,7 m, e pesa entre 20 e 28 kg. Asas rígidas podem alcançar até 130 km/h, enquanto as flexíveis alcançam até 145 km/h; uma asa rígida perde um metro de altitude para cada 20 percorridos, enquanto uma flexível perde um para cada 17 m.

O método mais usual de decolagem para uma asa delta é se jogar de um penhasco; outras formas incluem ser puxada por um barco e empinada como uma pipa, ou subir até uma grande altitude com um balão e pular lá de cima. Em campeonatos da FAI, o método preferencial é o aerotow, no qual a asa delta é puxada por um ultraleve até alcançar determinada altitude, quando o cabo se solta e a prova começa; para quebras de recorde, o método preferido dos praticantes é o do balão, já que, quanto maior a altitude, maior a distância e velocidade alcançadas antes de se precisar pousar. Falando nisso, a FAI sanciona quebras de recorde em diversas categorias; o recorde atual de distância percorrida em um único voo é de 764 km, obtido em 2012; o de maior ganho de altitude é de 3.970 m, obtido em 1992; e o de salto de maior altitude (com ajuda de um balão) é de 11.826,24 m, obtido em 1994.

Os primeiros campeonatos de asa delta foram no estilo "quem chegar mais longe ganha"; hoje, as provas possuem um circuito que os pilotos precisam cumprir, passando por de dois a quatro pontos de checagem. A asa delta possui campeonatos em separado para cada classe; o mais antigo realizado pela FAI é o Campeonato Mundial de Asa Delta Classe 1, que tem apenas provas masculinas da Classe 1, foi disputado pela primeira vez em 1976, e, desde 1999, é disputado a cada dois anos - a mais recente edição, ano passado, foi realizada em Brasília. Já o Campeonato Mundial de Asa Delta Classe 2, também exclusivamente masculino, é disputado a cada dois anos desde 1979. As mulheres e a Classe 5 só passaram a ter seu mundial em 2006, o Campeonato Mundial de Asa Delta Rígida e Feminina, que contou com provas de Classe 1 feminina, Classe 2 feminina e Classe 5 masculina e feminina; em 2007, ele foi desmembrado no Campeonato Mundial de Asa Delta Classe 5, com apenas as provas masculinas, e o Campeonato Mundial de Asa Delta Feminina, com as provas femininas das três classes, com ambos tendo sido disputados a cada dois anos desde então - em outras palavras, a cada ano ímpar temos quatro Campeonatos Mundiais de Asa Delta em quatro sedes diferentes, um de Classe 1 masculina, um de Classe 2 masculina, um de Classe 5 masculina e um para as três classes no feminino. A asa delta também fez parte, entre 1997 e 2009, dos Jogos Aéreos Mundiais, nos quais foram disputadas apenas provas de Classe 1 masculina.

Vamos passar agora para o balonismo. O balão é o mais antigo tipo de aeronave tripulada inventado pelo homem. Estima-se que os primeiros balões de ar quente tenham sido inventados na China, entre os anos 220 e 280 d.C., para carregarem lanternas que iluminariam o campo de batalha e possibilitariam ataques noturnos durante a guerra que ocorreu por lá naquele período. Mil anos depois, esses balões teriam chegado à Europa através de invasores mongóis, e logo vários inventores europeus buscariam formas de criar um balão forte o suficiente para carregar uma ou mais pessoas. Mais alguns séculos se passariam antes que o primeiro experimento com um balão de passageiros fosse bem sucedido: o Passarola, criado pelo padre brasileiro Bartolomeu de Gusmão, que, em 1709, subiu alguns centímetros do chão dentro da sala de um palácio em Lisboa, Portugal; Gusmão alegou que o Passarola também havia feito um voo de 1 km de distância partindo do topo do castelo de São Jorge, em Londres, Inglaterra, mas, como ninguém viu isso acontecer, ele logo foi taxado de mentiroso, e esse "primeiro voo" não é considerado pela maior parte da comunidade científica.

O primeiro voo de balão levando passageiros de que se tem registro na história ocorreria em novembro de 1783, em um balão inventado pelos irmãos franceses Josef e Etienne Montgolfier. Partindo de Paris, França, os pilotos Jean-François Pilâtre de Rozier e François Laurent d'Arlandes alcançariam uma altitude de 152 metros, e percorreriam 8,85 km em 25 minutos. O sucesso do balão dos irmãos Montgolfier estimularia vários outros inventores a tentar o mesmo, como o professor Jacques Charles, que, ajudado pelos irmãos Anne-Jean e Nicolas-Louis Robert, construiria, também em 1783, o primeiro balão que usava hidrogênio ao invés de ar quente, e que percorreria 43 km em duas horas, alcançando uma altitude de 600 m, indo de Paris até a cidade de Nesles-la-Vallée. No ano seguinte, Pilâtre de Rozier e o químico francês Joseph Louis Proust modificariam o projeto dos Montgolfiers para que ele passasse a usar hidrogênio, e alcançariam a espantosa altitude de 3.000 metros, partindo de Paris e percorrendo 52 km em 45 minutos antes de serem forçados a pousar na Floresta de Chantilly devido ao mau tempo. Durante muito tempo, os balões de ar quente foram abandonados em favor dos de hidrogênio, até que, na década de 1950, graças ao menor custo dos de ar quente, entusiastas que tinham o balonismo como hobby passaram a usá-lo novamente, virando o jogo e tornando os balões de ar quente mais populares que os de hidrogênio por algumas décadas.

Hoje, existem tanto balões de ar quente quanto de gás, cada um com suas vantagens e desvantagens - sendo que o gás hoje usado é o hélio, e não o hidrogênio, que é considerado perigoso por ser altamente inflamável. Balões de ar quente precisam carregar o combustível que alimentará a chama, o que significa maior peso, e, portanto, menor altitude, e só conseguem se manter no ar enquanto ainda houver combustível - sem o uso da chama, o ar dentro do balão esfria e ele começa a perder altitude. Balões de gás, por outro lado, são mais leves, conseguem alcançar maiores altitudes, e se mantêm no ar por muito mais tempo, mas são mais difíceis de se controlar: para controlar a altitude de um balão de ar quente, basta aumentar ou diminuir a chama, enquanto um balão de hidrogênio precisa carregar lastros que serão jogados para fora quando for preciso ganhar mais altitude, e deixar sair um pouco do gás por uma válvula quando for preciso descer, o que só pode ser feito um número limitado de vezes antes de o gás se tornar insuficiente para fazer o balão voar.

Para tentar combinar o melhor de dois mundos, de Rozier, em 1785, inventaria um "balão duplo", que consiste em um balão de ar quente preso a um balão cheio de gás. Em seu voo inaugural, de Rozier, como todo mundo na época, usou hidrogênio para encher o balão de gás, e descobriu da pior maneira que isso não seria uma boa ideia, quando o calor do balão de ar quente fez com que o hidrogênio entrasse em combustão, explodindo o balão e causando sua morte. Devido a esse acidente, esse tipo de balão, hoje chamado de Rozière, foi considerado durante muito tempo perigosíssimo, e somente em 1986, quando novas técnicas de segurança, incluindo o uso do hélio, foram estabelecidas, é que ele voltou a ser usado em larga escala, com o primeiro voo sendo feito pelos holandeses Henk Brink, Evilien Brink e Willem Hageman, que partiram do Canadá e pousaram na Holanda, percorrendo 4.077 km em dois dias.

Nas provas esportivas da FAI, são sempre usados balões de ar quente, embora a federação registre recordes obtidos por balões de gás e balões Rozière, como maior altitude alcançada (39 km, obtido em outubro de 2012 por um balão de hélio que levou o paraquedista Felix Baumgartner a um salto da estratosfera; o recorde de maior altitude obtido por um balão de ar quente é de 6,614 km, obtido em 2004) e maior distância percorrida (8.465 km, obtido em 2015; o de ar quente é de 33.521 km, obtido em 2016). Por outro lado, a FAI organiza competições de balonismo tanto de balões quanto de dirigíveis; um dirigível é um balão de gás em formato elíptico, que conta com uma cabine e hélices propulsoras, o que o torna muito mais fácil de ser conduzido - por isso o nome "dirigível". O primeiro dirigível capaz de sair do chão sozinho, navegar corretamente e pousar sem explodir foi criado pelo francês Henri Giffard em 1852, usava vapor d'água como combustível, hidrogênio para encher o balão, e voou 27 km de Paris a Élancourt.

Durante muito tempo, os dirigíveis foram considerados como a melhor opção de voo, inclusive para o transporte de passageiros, até a tragédia com o LZ-129 Hindenburg, construído pela alemã Zeppelin (fundada pelo Conde Ferdinand von Zeppelin, que inventou o modelo fabricado pela companhia em 1874, e que se tornou tão famoso que, hoje, zepelim é, em vários idiomas, um sinônimo para dirigível), que, em 3 de maio de 1937, partiu da cidade de Frankfurt, Alemanha, e, três dias depois, chegou a Lakehurst, Nova Jérsei, Estados Unidos; enquanto tentava atracar, o Hindenburg pegou fogo, matando todas as 36 pessoas a bordo - até hoje, não se sabe com certeza o que teria provocado o incêndio. A tragédia do Hindenburg não foi a primeira envolvendo um dirigível - o britânico R38 teve uma falha estrutural e caiu em 1921 - e nem a com o maior número de vítimas - o norte-americano ZRS-4 Akron matou 73 das 76 pessoas a bordo ao cair no mar durante uma tempestade - mas foi a mais impressionante, e serviu para que a ideia de usar dirigíveis para o transporte de passageiros fosse abandonada de vez.

Desnecessário dizer, os dirigíveis usados em provas da FAI são muito mais seguros que os do início do século XX; na verdade, eles são praticamente idênticos aos balões de gás sancionados pela federação, mas com formato diferente e contando com a cabine e os propulsores ao invés do cesto. Dirigíveis da FAI são movidos a gasolina, mas hoje já existem também dirigíveis elétricos.

Seja de balões ou de dirigíveis, as provas do balonismo são as mesmas (sendo disputadas provas separadas para balões e dirigíveis, evidentemente): distância, velocidade e precisão. Na prova da distância, é estipulado um tempo-limite, e o vencedor é aquele que percorrer a maior distância dentro desse tempo. Já na prova da velocidade, é montado um trajeto de vários quilômetros, com pontos de checagem pelos quais os balões ou dirigíveis devem passar, e o vencedor será aquele que conseguir completar o trajeto no menor tempo. A prova da precisão também conta com um trajeto e pontos de checagem, mas com uma diferença: em cada ponto de checagem, há um alvo. Na prova dos balões, cada balão carrega um número de sacos de areia igual ao número de alvos, sendo que o piloto deve jogar um saco em direção ao alvo e tentar atingir o mais próximo possível de seu centro, enquanto na prova dos dirigíveis é preciso pousar o mais próximo possível do centro do alvo e levantar voo novamente. Os juizes da prova medem a distância do saco ou do pouso em relação ao centro do alvo, e, após todos terem passado por aquele alvo, conferem uma pontuação de acordo com essa distância - com o que chegou mais próximo do alvo ganhando 1000 pontos, o segundo ganhando 900 etc. - sendo possível dois pilotos obterem a mesma pontuação no mesmo alvo caso empatem. No fim da prova, o vencedor será o piloto com mais pontos. Todas as provas do balonismo são individuais (uma pessoa por balão ou dirigível) e mistas (homens e mulheres competem juntos).

A mais importante competição do balonismo é a Copa Aeronáutica Gordon Bennett, criada em 1906 em Paris, e que leva esse nome porque foi financiada pelo dono do jornal norte-americano The New York Herald, James Gordon Bennett, Jr. Trata-se de uma espécie de "rali de balões", com a participação apenas de balões de gás e dois ocupantes por balão; todos os balões partem do mesmo ponto, devem percorrer o mesmo trajeto, e aqueles que forem pousando vão sendo eliminados, com quem sobrar por último no ar sendo o vencedor. O recorde de tempo no ar foi estabelecido em 1995, quando os alemães Wilhelm Eimers e Bernd Landsmann ficaram 92 horas voando da Suíça até a Letônia; e o de distância dez anos depois, quando os belgas Bob Berben e Benoît Siméons percorreram 3.400 km entre Albuquerque, no Novo México, Estados Unidos, e Squatec, em Québec, Canadá. O maior vencedor é o francês Vincent Leys, com nove títulos, incluindo o do ano passado, no qual fez dupla com Christophe Houver. A Copa Gordon Bennett foi realizada anualmente entre 1906 e 1913, parou para a Primeira Guerra Mundial, retornou entre 1920 e 1938 (não sendo disputada em 1931 por condições climáticas adversas) e então passou por um longo hiato, só voltando a ser disputada em 1979, com a FAI assumindo sua organização em 1983.

A FAI também organiza, a cada dois anos desde 1973 (até 1999 nos anos ímpares, desde 2002 nos anos pares) o Campeonato Mundial de Balões de Ar Quente; até 2012, o campeonato era oficialmente misto, mas todos os competidores eram homens, então, para estimular a participação de mulheres, naquele ano foi criado o Mundial Feminino, com sede diferente, com o Mundial original passando a ser masculino. Já o Campeonato Mundial de Dirigíveis começou a ser disputado apenas em 1994, também a cada dois anos, mas, após a edição de 2010, foi suspenso, estando uma próxima edição prevista para esse ano de 2018. O balonismo também faz parte dos Jogos Aéreos Mundiais desde a primeira edição em 1997; atualmente, fazem parte do programa duas provas, ambas de precisão, uma para balões, outra para dirigíveis. Vale citar também que o balonismo fez parte do programa das Olimpíadas de 1900, em Paris, mas, como foi adicionado pelo Comitê Organizador Local, sem a autorização do COI, essa prova hoje não é considerada como olímpica.

Finalmente, temos o voo aeroespacial. A FAI (ainda) não organiza corridas de naves espaciais, mas registra e sanciona recordes obtidos pelo homem no espaço, que é do que se trata esse esporte. É claro que a maioria dos recordes pertence a astronautas, já que (ainda) não é qualquer um que consegue ir ao espaço tentar quebrar um recorde, mas, com a proximidade cada vez maior dos voos espaciais particulares, quem sabe não chegará o dia em que surgirão os esportes espaciais?

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