segunda-feira, 18 de dezembro de 2017

Esportes de Demonstração (III)

Não sei se alguém aí reparou, mas, neste ano de 2017, todos os meus posts sobre esportes foram sobre lutas. Isso começou meio sem querer, porque eu queria tentar falar sobre os esportes do programa olímpico que ainda não tinha abordado, que por um acaso eram todos lutas, e aí me deu vontade de falar sobre caratê, wushu, sumô, enfim, quando passei da metade do ano resolvi fazer de propósito e falar só sobre lutas. Quando terminei todas as óbvias, e estava vendo sobre quais outras poderia falar para completar o ano, me dei conta de outro fato interessante: eu já havia falado sobre todos os esportes que um dia fizeram parte das Olimpíadas como Esportes de Demonstração, exceto três - e esses três eram três lutas. Como nos outros dois posts sobre Esportes de Demonstração eu falei sobre três esportes em cada, decidi que hoje vou falar sobre esses três logo de uma vez. Hoje, portanto, é dia de mais Esportes de Demonstração olímpicos no átomo!

Vamos começar logo pelo primeiríssimo de todos, aquele que inaugurou a tradição dos Esportes de Demonstração, a glima. A glima é uma luta de origem escandinava, que fazia muito sucesso na Suécia no início do século XX. Como as Olimpíadas de 1912 seriam disputadas em Estocolmo, capital daquele país, o comitê organizador local tentou convencer o COI a adicionar um torneio de glima aos Jogos, o que não deu muito certo porque o esporte era praticamente um desconhecido fora da Escandinávia. Ainda assim, o COI deu autorização para que um torneio de glima fosse realizado paralelamente às Olimpíadas, utilizando as instalações das mesmas, com os participantes ganhando as mesmas medalhas e podendo ficar alojados na Vila Olímpica - características que seriam comuns a todos os Esportes de Demonstração desde então. O COI também estipularia que, a cada edição dos Jogos, o comitê organizador local poderia incluir um esporte local que quisesse apresentar ao público como Esporte de Demonstração, desde que incluísse também um esporte estrangeiro pouco conhecido no país, para apresentá-lo ao público local. Essa regra já começaria a valer em 1912, e, além da glima, os organizadores incluiriam o beisebol como Esporte de Demonstração.

Segundo registros históricos, a glima foi inventada pelos vikings, como forma de treinar o corpo e a mente para as muitas batalhas das quais participavam. O nome glima, no antigo idioma nórdico, significava "relâmpago", e foi escolhido tanto pelo fato de que os lutadores precisam de movimentos rápidos quanto pelo de o deus do trovão e do relâmpago, Thor, ser também o patrono das lutas na mitologia nórdica. Segundo os relatos, as crianças vikings começavam a treinar a glima aos 6 ou 7 anos de idade, e, a cada ocasião em que o povo se reunia, como em feiras e comemorações, homens e mulheres tomavam parte em um grande campeonato de glima, no qual lutavam de forma amistosa.

A primeira codificação das regras da glima como esporte ocorreria no ano de 1325, na Islândia, para onde a glima foi levada pelos vikings na Idade Média. A glima é considerada o esporte nacional da Islândia, e o campeonato de glima mais antigo do mundo ainda disputado é o de lá, cuja primeira edição foi realizada em 1888. A atual federação internacional da glima, a Associação Internacional de Glima (IGA, da sigla em inglês), é, na verdade, a federação nacional da Islândia. Apesar de todos os esforços da IGA, a glima ainda é bem pouco praticada fora da Escandinávia, de forma que a própria IGA só conta, hoje, com seis membros: Islândia, Suécia, Dinamarca, Alemanha, Holanda e Sri Lanka. A glima também é muito popular na Noruega, mas os campeonatos de lá são regidos pela Federação Norueguesa, que, devido a discordâncias sobre a melhor forma de difundir o esporte, não é membro da IGA. Outro país que conta com um grande número de praticantes, mas não é filiado à IGA, são os Estados Unidos, cuja federação nacional atende pelo curioso nome de Federação Viking de Glima (VGF).

A glima possui três modalidades. A mais simples é a chamada hryggspenna ("luta de segurar as costas"), na qual os lutadores só podem tocar o oponente da cintura para cima; o objetivo é fazer com que o oponente toque o chão com qualquer parte do corpo que não seja a sola dos pés, com o primeiro a fazer isso sendo declarado vencedor. Lutas da modalidade hryggspenna costumam ser bastante velozes, principalmente porque os lutadores já começam "abraçados", em uma posição na qual cada um passa um dos braços por baixo e um por cima dos ombros do oponente. Na hryggspenna a força é o fator determinante, e lutadores dessa modalidade tendem a ser maiores e mais pesados que os das demais.

A segunda modalidade é a lausatök ("pegada livre"), a mais popular na Noruega (onde é chamada de løse-tak) e nos Estados Unidos. Como o nome sugere, na lausatök é permitido tocar o oponente em qualquer parte do corpo (exceto de forma desleal, como enfiar a mão no olho ou apertar as genitais). Para ser o vencedor, é necessário que o oponente esteja deitado no chão, seja de lado, de costas ou de bruços, mas também que o lutador esteja de pé; por causa disso, a luta pode se desenrolar no chão, com vários golpes cujo objetivo é conseguir se levantar antes do oponente. Durante muito tempo, a lausatök foi considerada uma luta violenta, e chegou até mesmo a ser banida na Islândia; em 1987, porém, um novo conjunto de regras foi criado para amenizá-la, e a modalidade voltou a ser regulada pela IGA.

A mais popular e mais praticada modalidade da glima é a brokartök ("pegada no calção"), a que mais se assemelha à luta original criada pelos vikings. Na brokartök, cada lutador usa um cinto especial, que, na verdade, é composto de três cintos, um na cintura e um na metade de cada coxa, com os dois últimos sendo ligados ao primeiro. O objetivo da luta é, segurando o oponente por um desses três cintos, derrubá-lo no chão de forma que qualquer parte de seu corpo localizada entre seus ombros e seus joelhos toque o solo. Ambos os lutadores devem permanecer eretos durante toda a luta, não sendo permitido curvar-se na direção do oponente, e um oponente que seja derrubado, mas caia de quatro, pode se levantar e continuar lutando normalmente, não sendo permitido ao outro lutador derrubá-lo enquanto ele está nessa posição. Uma característica da brokartök é que os oponentes costumam usar um movimento circular enquanto estão se estudando, antes de partir para o ataque, o que, segundo alguns, deixa o esporte parecido com uma valsa. A brokartök também é vista como uma modalidade na qual a técnica conta mais que a força, por isso sua popularidade.

Seja qual for a modalidade, uma luta de glima é oficiada por um único árbitro, cuja principal função é observar se ambos os lutadores estão respeitando o drengskapur, o código de honra da glima, que determina que ambos devem se portar com desportividade, respeito e educação. Uma luta não possui um tempo pré-determinado de duração, mas costuma terminar bem rápido; mesmo assim, caso o árbitro acredite que a luta está demorando demais, pode determinar um intervalo de um minuto para que os lutadores descansem e se hidratem. Como as lutas não têm pontuação, é impossível uma luta de glima terminar empatada.

Para tentar contribuir com a popularização da glima, a IGA não possui regras oficiais quanto a uniformes (exceto o cinto) ou espaço de luta, ficando esses detalhes a cargo da organização de cada torneio; torneios de maior importância costumam usar como área de luta um quadrado de 8 m de lado, e os lutadores usam um uniforme idêntico ao da luta olímpica, um sempre lutando de azul, o outro sempre de vermelho. Torneios da IGA não possuem categorias de peso, com todos os atletas competindo juntos (mas separados em masculino e feminino, diferentemente dos vikings).

O mais importante torneio da glima é o Campeonato Islandês, conhecido como Íslandsglíma, disputado anualmente desde 1888. O campeonato é aberto a lutadores de qualquer nacionalidade, mas todos os campeões até hoje foram islandeses. Desde 1906, o vencedor leva pra casa o cinturão Grettisbelti, o mais cobiçado prêmio da glima mundial, e o campeão do torneio passa a ser conhecido como Glímukóngur (o "rei da glima"). O Íslandsglíma é um torneio exclusivamente masculino; seu equivalente feminino foi criado em 1987, e se chama Freyjuglíma, ainda não gozando de tanto prestígio quanto o masculino.

Tanto o Íslandsglíma quanto o Freyjuglíma são torneios exclusivamente da modalidade brokartök. Na modalidade lausatök, o mais importante torneio é o Norges Glima Mesterskap, o Campeonato Norueguês, disputado no masculino desde 1908 e no feminino desde 2000, e que, assim como o Íslandsglíma, é aberto a lutadores de qualquer nacionalidade, mas apenas com noruegueses tendo sido campeões até hoje. A hryggspenna não possui um campeonato internacional de destaque, sendo disputada mais de forma recreativa. Nas Olimpíadas de 1912, foi disputado um torneio de brokartök masculino, com seis participantes, todos islandeses.

Apesar de o COI ter estipulado já em 1912 que os Esportes de Demonstração deveriam ser sempre um nacional e um estrangeiro, essa regra quase nunca seria cumprida, com as mais variadas desculpas sendo apresentadas como justificativa. Em 1924, em Paris, França, por exemplo, o comitê organizador local incluiria nada menos que quatro Esportes de Demonstração, todos eles bastante populares na França da época; a justificativa que eles deram para esse exagero infelizmente se perdeu no tempo, mas o que importa para nós hoje é que dois desses esportes eram lutas.

Um deles era o savate, também conhecido como boxe francês. A palavra savate vem de um antigo termo em francês para se referir a sapatos velhos (que alguns dizem ter sido uma corruptela do espanhol zapato), e esse nome está diretamente ligado às origens da luta: no final do século XVIII, trabalhadores dos navios que ficavam ancorados no porto de Marselha começaram a criar uma forma de luta com a qual pudessem proteger a si mesmos e ao conteúdo de seus navios de ladrões de carga que os estavam atacando durante a noite. Pelas leis da época, não somente esses trabalhadores não podiam atacar esses ladrões usando armas (apenas a polícia poderia fazê-lo), como também socar uma pessoa era considerado um crime grave; a solução foi desenvolver um estilo de luta bastante focado em chutes e em golpes com as mãos abertas, para que ficasse caracterizada a legítima defesa. Com o tempo, os trabalhadores começariam a lutar entre si de forma amistosa, não somente para treinar suas habilidades, mas também para determinar quem era o melhor. A luta logo ganharia o apelido de jeu marseillais ("jogo marselhês"), mas, por algum motivo desconhecido, se tornaria conhecida também como chausson, que era o nome das sapatilhas utilizadas por esses trabalhadores. No início do século XIX, o chausson começaria a se espalhar pela França, e, no norte do país, daria origem a uma espécie de luta de rua, com torneios ilegais e tudo. Como os tipos de chutes usados machucavam os pés de quem estava chutando caso lutassem descalços, e os lutadores não tinham acesso às sapatilhas dos trabalhadores do porto, calçavam sapatos velhos durante a luta - daí o nome.

O savate começaria a deixar de ser uma luta de rua para passar a ser uma luta desportiva em 1825, quando o lutador Michel Casseux decidiria abrir uma academia para ensinar uma versão mais segura do savate, sem golpes como cabeçadas e dedos no olho, que costumavam estar presentes nos torneios ilegais. Casseux, entretanto, teria muita dificuldade para fazer com que o savate se livrasse do estigma de briga de rua, o que só começaria a mudar com os esforços de um de seus alunos, Charles Lecour. Lecour era fã de boxe, e, após assistir a uma luta entre o inglês Owen Swift e o norte-americano Jack Adams, em Paris, em 1838, se ofereceria para ser sparring de Swift - aquele lutador que luta contra o outro durante seus treinamentos, sem a mesma pressão de uma luta real. Durante esses treinamentos, ele começaria a incorporar técnicas do boxe às do chausson e do savate para criar um protótipo do savate que existe hoje, e que seria uma criação de Joseph Charlemont e de seu filho Charles, ambos alunos de Lecour. Em 1899, Charles Charlemont chegaria a lutar contra o boxeador inglês Jerry Driscoll para provar a superioridade do savate sobre o boxe; ele venceria a luta com um chute na barriga, mas seria desclassificado porque o árbitro entenderia que o chute foi contra as genitais.

No final do século XIX, estimava-se que existiam mais de cem mil praticantes do savate na França e na Bélgica. No início do século XX, o esporte começaria a se espalhar pela Europa, mas sua expansão para o resto do planeta só começaria durante a Segunda Guerra Mundial, quando seria levado para a Ásia, África e Américas por soldados franceses. A Federação Internacional de Savate (FISav, da sigla em francês) é um órgão bastante recente, tendo sido fundada somente em 1985; hoje, ela conta com 68 membros dos cinco continentes, incluindo o Brasil. O savate não faz parte dos esportes reconhecidos pelo COI, mas a FISav faz parte da organização SportAccord, o que é o primeiro passo para o reconhecimento.

No savate são permitidos golpes aplicados com as mãos e com os pés - notem bem, não "socos" e "chutes". A rigor, todos os golpes aplicados com as mãos são socos, e, assim como no boxe, devem ser aplicados com a mão fechada, com o oponente sendo atingido com a parte da frente da mão. Os golpes com os pés essencialmente são chutes, mas com a diferença de que o golpe só é considerado válido se o pé do lutador atingir o oponente - ou seja, não são válidos chutes nos quais é a canela que atinge o oponente, comuns, por exemplo, no muay thai. Por serem mais poderosos, os golpes com os pés são muito mais frequentes que os socos, somente usados quando os lutadores estão próximos ou quando abrem a guarda demasiadamente. São permitidos golpes com os pés em qualquer parte do corpo exceto nas genitais, no pescoço e e na nuca; já os socos só podem ser aplicados acima da cintura, e nunca no pescoço, na nuca ou nas costas do oponente. Um fato interessante do savate é que os bloqueios e esquivas também estão previstos nas regras, ou seja, um lutador que bloqueie um golpe do oponente ou se esquive dele de forma ilegal também pode ser punido.

O savate é disputado em um ringue idêntico ao do boxe, com as mesmas dimensões, mesmos componentes e feito do mesmo material. A FISav adota oito categorias de peso no masculino e oito no feminino. No masculino, as categorias são até 56 kg, até 60 kg, até 65 kg, até 70 kg, até 75 kg, até 80 kg, até 85 kg e acima de 85 kg; no feminino são até 48 kg, até 52 kg, até 56 kg, até 60 kg, até 65 kg, até 70 kg, até 75 kg e acima de 75 kg. O peso das luvas depende da categoria de peso do lutador, com lutadores até 60 kg usando a luvas de 8 onças, até 75 kg as de 10 onças, e acima de 75 kg as de 12 onças. Além das luvas, idênticas às do boxe, o uniforme do savate consiste de uma calça comprida própria, bastante folgada, amarrada na cintura por um cordão, e de uma camiseta sem mangas, com as mulheres também podendo lutar usando um top - que, de qualquer forma, deve ser usado por baixo da camiseta se elas a estiverem usando. O único protetor obrigatório é o de gengiva, também idêntico ao do boxe. Mas a peça do uniforme mais característica do savate são os sapatos, feitos de couro com solado de borracha vulcanizada. Sapatos de savate são próprios para o esporte, contam com reforço nos dedos e no calcanhar, são antiderrapantes, e cobrem até os tornozelos, sendo amarrados na frente por um cordão grosso, como um tênis. Não há obrigatoriedade de cores nos uniformes do savate, mas, na maioria dos torneios, um dos lutadores usa calças azuis e o outro usa calças vermelhas, para melhor identificação.

Existem duas modalidades do savate. A primeira é conhecida como assault, e nela a técnica possui mais importância que a força - com os árbitros até mesmo podendo deduzir pontos de um lutador se acharem que ele usou força excessiva ao aplicar um golpe. Uma luta no assault dura quatro rounds de um minuto e meio cada, com intervalo de um minuto entre eles, e o objetivo de cada lutador é executar os golpes válidos do savate da forma mais perfeita possível, ganhando pontos por sua execução - só sendo contabilizados, evidentemente, os pontos dos golpes que atingirem o oponente com sucesso. Além do uniforme tradicional, os lutadores no assault devem usar caneleiras e um capacete de proteção acolchoado, aberto apenas na face e nas orelhas.

A segunda modalidade, chamada combat ("combá", afinal, é francês), é bem mais parecida com uma luta de boxe, muay thai ou kickboxing, com ambos os lutadores dando tudo de si, e sendo inclusive possível vencer por nocaute. Cada luta no combat dura cinco rounds de dois minutos cada, com um intervalo de um minuto entre um e outro. Em ambos os casos, se a luta terminar empatada, os juízes decidem qual lutador foi melhor, sem necessidade de tempo extra. Cada luta é oficiada por um árbitro, que fica no ringue junto aos lutadores, e por cinco juízes distribuídos ao redor do ringue, que anotam os pontos de cada lutador, ao lado de a que momento eles ocorreram; para que um ponto seja validado, pelo menos três desses cinco juízes têm de tê-lo considerado válido em um intervalo de no máximo dois segundos.

Um fato curioso sobre o savate é que, assim como algumas artes marciais, como o judô e o caratê, possuem um sistema de faixas coloridas para ranquear os lutadores, o savate possui um sistema de luvas coloridas. Todo lutador iniciante no savate é considerado "luvas azuis", passando, após um certo período de tempo e um teste, para "luvas verdes", e, em seguida, vermelhas, brancas, amarelas, de bronze e prateadas. As luvas prateadas são o equivalente à faixa preta, e possuem cinco níveis, chamados simplesmente de I, II, III, IV e V. Lutadores de excelência, considerados grandes mestres do savate, podem ser promovidos pela FISav ao ranking de luvas douradas. Na prática, um lutador não precisa lutar usando luvas da mesma cor que seu ranking (embora nada o impeça de fazê-lo), sendo o normal que o lutador use luvas azuis ou vermelhas com um pequeno adesivo simbolizando a cor de seu ranking em cada punho.

O mais importante torneio do savate é o Campeonato Mundial, sendo que existem Mundiais separados de assault e de combat. O Campeonato Mundial de Combat é o mais antigo, disputado anualmente desde 1985 no masculino e desde 2007 no feminino; o Campeonato Mundial de Assault é disputado anualmente, tanto no masculino quanto no feminino, desde 2010. A FISav usa três sedes por ano, uma para o Mundial de Combat masculino, uma para o Mundial de Combat feminino e uma para o Mundial de Assault masculino e feminino. Nas Olimpíadas de 1924, foi disputada a modalidade combat, com um torneio aberto, sem categorias de peso, e exclusivamente masculino, do qual participaram 19 atletas, sendo 16 franceses e três belgas.

A outra luta que foi Esporte de Demonstração em 1924 foi a canne de combat, cujo nome, em francês, significa "bengala de combate". A canne de combat foi inventada no século XIX, por membros abastados da sociedade, para se protegerem de batedores de carteiras e outros meliantes do tipo. Como, na época, era costume os homens mais chiques carregarem uma bengala, mesmo sem necessidade, alguns deles decidiram treinar para usá-la como arma quando atacados. Não se sabe bem quem teve a ideia primeiro, ou como isso se espalhou para as classes menos abastadas, mas em pouco tempo os lutadores de savate já estavam usando um bastão semelhante a uma bengala em seus treinamentos. O uso da bengala nunca foi incorporado à luta em si, mas se popularizaria dentre os militares e policiais que praticavam savate, que, no dia a dia, passariam a usar as técnicas da canne a serviço, usando seus cassetetes.

A canne de combat atingiria o auge de sua popularidade na época da Primeira Guerra Mundial, mas depois passaria por um declínio - sua inclusão nas Olimpíadas de 1924 seria uma tentativa da Federação Francesa de Savate de alavancar novamente o interesse do público pelo esporte, no que acabaria não sendo bem sucedida. A canne de combat só começaria a ensaiar um renascimento na década de 1970, quando o lutador Maurice Sarry decidiria escrever um novo conjunto de regras, visando tornar o esporte mais dinâmico e mais popular. Sarry levaria suas regras à Federação Francesa de Savate, que passaria a adotá-las. Quando a FISav foi fundada, ela também pegou para si a responsabilidade de regular e difundir a canne de combat; como ela investe mais no savate, porém, a canne ainda é um esporte pouco conhecido fora da França e Bélgica, com poucos praticantes ao redor do planeta.

Pelas regras da FISav, a canne de combat é disputada no mesmo ringue do savate. Uma luta dura dois ou três rounds de dois minutos cada, com intervalo de um minuto entre eles, e é oficiada por um árbitro, que fica no ringue junto com os lutadores, e por cinco juízes, sentados ao redor do ringue. O lutador que obtiver mais pontos em cada round é declarado vencedor daquele round, e quem vencer dois rounds primeiro é declarado vencedor da luta (por isso cada luta pode durar "dois ou três rounds"). Para que um ponto seja válido, pelo menos três dos cinco juízes têm de considerá-lo como tal; um ponto válido é aquele no qual o lutador atinja o oponente com a bengala em um local válido do corpo (panturrilhas, tronco e cabeça, exceto nuca) com o movimento próprio do esporte (sempre de cima para baixo ou de um lado para o outro, estocadas são proibidas) e com a técnica apropriada para o tipo de golpe aplicado (um golpe contra a panturrilha, por exemplo, deve ser aplicado com os dois joelhos dobrados). Executar um golpe inválido simplesmente não rende pontos, mas atingir uma área inválida do corpo do oponente (como os braços ou as coxas) ou atingir o oponente com uma estocada resulta na perda de um ponto. É possível ficar com pontuação negativa, o que significa que um lutador pode vencer um round sem fazer nenhum ponto, apenas com as penalidades aplicadas ao oponente.

O uniforme da canne de combat é semelhante a uma mistura do usado no judô com o usado na esgrima, mas mais acolchoado. Ele consiste em uma camisa de mangas curtas aberta na frente e presa por uma faixa amarrada à cintura, calças compridas presas à cintura por um cordão interno, luvas acolchoadas presas ao punho por velcro, sapatilhas, protetores de pescoço e de genitais, e uma máscara com tela na frente. A bengala é feita de madeira de castanheira, tem 95 cm de comprimento, e pode ser encontrada em duas versões: a bengala de treino possui uma faixa verde na empunhadura e pesa 120 g, já a bengala de competição possui uma faixa preta, e pesa 100 g. O lutador pode segurar a bengala com qualquer uma das mãos, e pode, inclusive, passá-la de uma das mãos para a outra durante a luta.

A FISav reconhece sete modalidades da canne de combat: canne (a tradicional), canne double (na qual cada lutador usa duas bengalas, uma em cada mão), canne défense (na qual dois lutadores encenam uma situação de ataque e defesa usando as técnicas da canne de combat, ganhando pontos de um júri e sendo vencedora a dupla com melhor pontuação); canne chausson (na qual valem pontos tanto as técnicas da canne quanto os chutes do savate); canne fouet (idêntica à canne défense, mas usando as técnicas da canne chausson); baton (na qual, ao invés da bengala, é usado um bastão de 1,4 m de comprimento e 400 g de peso); e baton double (na qual cada lutador usa dois bastões, um em cada mão).

O mais importante torneio da canne de combat é o Campeonato Mundial, disputado anualmente, no masculino e no feminino, desde 2000. Não se pode chamar o que houve em 1924 de "torneio", já que, durante toda a Olimpíada, foi disputada apenas uma única luta, entre dois lutadores franceses. O vencedor ganhou uma medalha de ouro, e o perdedor, uma de prata.

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