segunda-feira, 20 de novembro de 2017

Sambô

Hoje eu vou falar sobre sambô. Não sobre o grupo musical, que eu absolutamente detesto. Eu nem tenho nada contra samba, só acho uma péssima ideia regravar grandes clássicos do rock ao som de samba, principalmente porque, na maioria das músicas, a letra e o ritmo não combinam - poucas coisas são mais ridículas que um grupo de pessoas, com copos de cerveja na mão e sorrisos no rosto, sambando alegremente ao som de Sunday Bloody Sunday, enquanto o vocalista canta "garrafas quebradas sob os pés das crianças, corpos espalhados nas ruas sem saída (...) e mães, filhos, irmãos, irmãs dilacerados". Fico imaginando se algum dia alguém resolvesse montar uma banda para regravar grandes clássicos do samba em ritmo de rock se todo mundo iria aceitar numa boa.

Enfim, o sambô do qual eu vou falar hoje não é a banda, e sim uma luta, inventada na União Soviética - cujo nome, inclusive, é uma sigla, para SAMozashchita Bez Oruzhiya, o que significa "auto-defesa sem o uso de armas". Em uma reviravolta curiosa em relação ao parágrafo anterior, vale citar que, em russo, toda letra "o" que não pertence à sílaba tônica tem som de "a" - e, como a sílaba tônica é o SAM, a pronúncia mais correta não seria "sambô", e sim... "samba". Em português, convenciounou-se chamar a luta de sambô não somente para não confundir com o samba, mas também por influência de outros nomes de lutas terminados com "ô", como "judô", "sumô" e "aikidô". Vale citar, também, que, nos Estados Unidos, a palavra sambo era usada em sentido pejorativo, para se referir a pessoas filhas de negros com índios; por causa disso, nos países de língua inglesa, o nome da luta costuma ser escrito como sombo. Também é comum encontrar o nome da luta escrito todo em maiúsculas (já que, afinal, é uma sigla), ou seja, SAMBO.

O sambô foi criado na década de 1920 por dois homens, Vasili Oshchepkov e Viktor Spiridonov. Curiosamente, eles não trabalharam juntos para criá-lo, mas ambos tinham o mesmo objetivo: integrar noções e técnicas de artes marciais japonesas, como o judô e o jiu-jitsu, ao sistema de combate corpo a corpo utilizado pelo exército da União Soviética na época. Oshchepkov foi um dos primeiros estrangeiros a aprender judô no Japão, tendo sido aluno de ninguém menos que Jigoro Kano, o criador dessa arte marcial, e tendo chegado até do segundo dan, ou seja, a segunda graduação da faixa preta; já Spiridonov era um entusiasta das artes marciais e veterano da Primeira Guerra Mundial que, após receber um ferimento de baioneta que deixou os movimentos de seu braço esquerdo comprometidos, começou a estudar as técnicas do jiu-jitsu para aprender a compensar a falta de força nesse braço durante o combate desarmado. Trabalhando de forma independente, tanto Oshchepkov quanto Spiridonov analisariam meticulosamente cada uma das técnicas do judô e do jiu-jitsu, separariam as que julgassem ter uso durante um combate real, e trabalhariam para que cada uma delas pudesse ser usada para desarmar e subjugar um oponente no menor tempo possível.

Tanto Oshchepkov quanto Spiridonov trabalhariam, em momentos diferentes, para a Dinamo, uma academia militar criada por Kliment Voroshilov, que, em 1953, seria o presidente da União Soviética, mas que, em 1918, era apenas um militar, e teria recebido do próprio Vladimir Lenin a missão de desenvolver e organizar as técnicas de combate corpo a corpo do Exército Vermelho. Em 1923, Anatoly Kharlampiyev, que havia sido aluno tanto de Oshchepkov quanto de Spiridonov, receberia da Dinamo a missão de viajar o mundo para estudar o maior número de artes marciais possível, fazendo um documento que apontasse quais de suas técnicas seriam adequadas ao combate corporal do exército. Sabendo do sonho de seus professores, ele reuniria um extenso catálogo de técnicas nos mesmos moldes dos estudos de Oshchepkov e Spiridonov, o qual apresentaria a Voroshilov em 1933. Kharlampiyev chamaria seu catálogo de "técnicas de auto-defesa sem o uso de armas", frase que, como vimos, deu origem à sigla SAMBO.

Acreditando que o sambô poderia ser mais que apenas um treinamento para soldados, Kharlampiyev passaria os anos seguintes refinando suas técnicas para que ele pudesse ser lutado competitivamente, como já ocorria, por exemplo, com o judô. Em 1938, ele apresentaria seu plano de transformar o sambô em esporte para o Comitê Desportivo Soviético, que, graças a uma certa influência política da qual Kharlampiyev já dispunha, o aceitou, conferindo a licença para que as primeiras academias de sambô fossem abertas, e os primeiros campeonatos de sambô, disputados. Por causa disso, embora a luta em si já existisse há anos antes disso, 1938 é considerado o ano de criação do sambô, e Kharlampiyev é considerado, na União Soviética, como o "pai do sambô"; no exterior, entretanto, Kharlampiyev costuma ser considerado o "pai do sambô desportivo", enquanto Oshchepkov e Spiridonov são reconhecidos como os criadores da arte marcial - Spiridonov, inclusive, chegaria a criar, no início da década de 1930, uma luta desportiva diferente da de Kharlampiyev, chamada samoz, ainda hoje ensinada em várias academias de diversos países, mas não tão famosa quanto o sambô.

Assim como várias outras artes marciais, o sambô é bastante confuso em relação às suas federações internacionais. Originalmente, não existia uma "federação soviética de sambô", com o Comitê Desportivo Soviético fazendo a função de regular o esporte. Graças à influência soviética, após a Segunda Guerra Mundial o sambô se espalharia para outros países da Europa Oriental, como Polônia, Bulgária e Tchecoslováquia, mas, devido à Cortina de Ferro e à falta de integração entre Europa Oriental e Ocidental, ele demoraria para chegar ao restante da Europa, só começando a ser praticado, primeiro na Escandinávia, depois na Alemanha Ocidental, no início da década de 1960. Como a maioria dos países não tinha uma federação nacional de sambô, com suas federações nacionais de luta olímpica sendo as responsáveis por regulá-lo nacionalmente, a Federação Internacional de Lutas Associadas (FILA, hoje United World Wrestling, UWW), então responsável pela regulação, dentre outros estilos de luta, da luta greco-romana e da luta livre olímpica, decidiria, em 1968, passar a regular internacionalmente também o sambô, com o primeiro campeonato mundial da modalidade sendo realizado em 1973.

Algumas federações nacionais, porém, não ficariam satisfeitas com a política da FILA para o sambô, e, em 1985, decidiriam romper com ela e, com a ajuda do Comitê Desportivo Soviético, fundar a Federação Internacional de Sambô Amador (FIAS, da sigla em francês). Aos poucos, todos os membros ligados ao sambô da FILA foram migrando para a FIAS, até que, em 1990, a FILA decidiria deixar de regular o sambô internacionalmente, com a FIAS passando a ser a única federação internacional desse esporte.

Mas esperem que tem mais: no início da década de 1990, começariam a surgir desentendimentos dentro da FIAS em relação às regras do sambô, e dois grupos surgiriam: a "FIAS oriental", liderada pela Rússia, e composta pelas federações que preferiam um sambô mais tradicional, e a "FIAS ocidental", liderada pelos Estados Unidos e composta pelas federações que queriam uma modernização do sambô. Na prática, a partir de 1993, passariam a existir duas federações chamadas FIAS, uma com sede em Moscou e uma com sede em Nova Iorque, ambas com seus próprios membros, organizando seus próprios campeonatos, e clamando para si o direito de ser a única federação internacional de sambô. Essa dualidade duraria até 2005, quando a FILA chegaria a um acordo com a "FIAS ocidental" e voltaria a regular o sambô, dessa vez com as regras usadas nos Estados Unidos - na prática, continuariam existindo duas federações internacionais de sambô, mas agora uma delas se chamava FILA e a outra se chamava FIAS.

Esse novo arranjo, entretanto, duraria pouquíssimo: em 2008, sem nenhuma explicação, a FILA decidiria parar de regular o sambô, o que levaria todos os antigos membros da "FIAS ocidental" a migrar para a FIAS (que, na prática, era a "FIAS oriental"). Como vocês devem estar imaginando, isso não deu muito certo, e os conflitos internos recomeçaram, somente cessando em 2014, quando FILA e FIAS assinaram um novo acordo, dessa vez prevendo que a FIAS era a única federação internacional de sambô, mas que devia espelhar a forma como o regulava na forma como a FILA fazia com suas lutas. Estados Unidos e Canadá não concordaram com esse acordo, e, graças a isso, até hoje a Associação Americana de Sambô (ASA) organiza torneios, que não são reconhecidos pela FIAS, com as regras mais populares nos Estados Unidos. A ASA, entretanto, é filiada à FIAS, o que significa que os lutadores norte-americanos e canadenses, se quiserem, podem participar normalmente dos torneios da FIAS - desde que, evidentemente, lutem de acordo com as regras da FIAS quando o fizerem.

Atualmente, na teoria, a FIAS, que hoje conta com 86 membros dos cinco continentes, incluindo o Brasil, é a única federação internacional do sambô; na prática, entretanto, existem diversas variações do sambô, com três delas sendo consideradas as principais. O sambô regulado pela FIAS, e que será discutido nesse post, é conhecido como sambô desportivo (bor'ba sambo, que traduz para "luta sambô"), e é um esporte semelhante ao judô, mas que não permite técnicas de estrangulamento, apenas de imobilização. Já o sambô regulado pela ASA é conhecido como sambô estilo livre, e tem uma ampla variedade de técnicas de estrangulamento, inclusive algumas que não existem no judô ou jiu-jitsu. Finalmente, temos o sambô de combate (boyevoye sambo), o mais parecido com o sambô original criado para o Exército Vermelho, e que faz uso não somente de arremessos e de técnicas de solo, mas também de chutes, socos, cotoveladas, joelhadas e cabeçadas. Originalmente, o sambô de combate não era esporte, mas, em 2001, foi reconhecido como tal pela FIAS, e, desde 2004, é regulado também pela Federação Mundial de Sambô de Combate (WCSF, da sigla em inglês).

O uniforme do sambô se chama kurtka ("jaqueta" em russo), mas também é conhecido como sambovka, palavra que significa "roupa de sambô". à primeira vista, ele se parece com um judogi, mas com shorts ao invés de calças; na verdade, o kurtka tem esse nome porque sua parte principal é uma jaqueta, até parecida com a camisa do judogi, mas bem mais justa, mais curta e mais rígida. A jaqueta deve ter mangas que vão somente até os punhos, e seu comprimento abaixo da cintura deve ser o mesmo comprimento das mangas; ela é totalmente aberta na frente, devendo ser fechada com uma faixa amarrada na cintura, que, diferentemente do que ocorre com um gi, para maior firmeza no fechamento, passa por aberturas na jaqueta, semelhantes às que existem nas nossas calças para passarmos o cinto. O restante do uniforme é composto por um short curto de lycra e sapatilhas especiais do mesmo tipo usado na luta olímpica - mulheres podem usar uma camiseta branca por baixo da jaqueta, para evitar exposições indesejadas. No sambô, um dos lutadores sempre usa uniforme azul, enquanto o outro sempre usa uniforme vermelho. A jaqueta, o short e a faixa devem ser da mesma cor, mas as sapatilhas podem ser pretas. O sambô não possui um sistema de faixas como o do judô ou caratê, mas lutadores cuja grande técnica seja reconhecida podem ser nomeados Mestre do Esporte pela FIAS ou WCSF; Mestres do Esporte não possuem nenhum elemento em seu uniforme para caracterizá-los como tal.

Assim como em outras lutas desportivas, no sambô os lutadores são divididos em categorias de peso, para assegurar o equilíbrio das lutas. Atualmente a FIAS reconhece nove categorias de peso para o masculino e nove para o feminino. Para o masculino, as categorias são até 52 kg, até 57 kg, até 62 kg, até 68 kg, até 74 kg, até 82 kg, até 90 kg, até 100 kg e acima de 100 kg. No feminino são até 48 kg, até 52 kg, até 56 kg, até 60 kg, até 64 kg, até 68 kg, até 72 kg, até 80 kg e acima de 80 kg.

Uma luta de sambô é oficiada por um árbitro que fica na área de luta junto com os atletas; diferentemente de em outras lutas desportivas, o árbitro não sinaliza seus comandos com palavras, mas sim soprando em um apito. O árbitro pode interromper a luta e ordenar que os lutadores voltem para as posições iniciais toda vez que um ou ambos os lutadores saiam da área de luta, quando um dos lutadores necessitar de atendimento médico ou de arrumar seu uniforme, caso ambos os lutadores estejam deitados mas nenhuma ação efetiva esteja sendo tomada, ou caso um lutador use um golpe inválido ou quebre as regras e precise ser advertido. Além do árbitro principal, a luta conta com um árbitro assistente que a acompanha ao lado da área de luta, auxiliando o árbitro no caso de punições e infrações, e com uma mesa de três juízes que acompanham a luta sentados e fazem o registro da pontuação.

A área de luta do sambô não tem um nome próprio, e costuma ser chamada, por influência da luta olímpica, de mat. O mat deve ser um quadrado de no mínimo 11 e no máximo 14 m de lado, feito de material sintético anti-derrapante com no mínimo 5 cm de espessura; dentro desse quadrado é traçado um círculo de 9 m de diâmetro, que será a área válida de luta. A linha que traça esse círculo faz parte da área válida, e deve ter entre 10 cm e 1m de largura. No centro do círculo deve haver um outro círculo, de 1 m de diâmetro, que determina as posições iniciais dos lutadores - um de frente para o outro, cada um com um dos pés sobre o círculo menor. Assim como na luta olímpica, cada lutador tem direito a um canto do quadrado, o do lado esquerdo da mesa sendo o do lutador de vermelho e o diagonalmente em frente a este sendo o do de azul, com os lutadores se dirigindo para seus cantos antes do início e após o final da luta e toda vez que precisarem de atendimento médico. A FIAS permite que sejam usados mats elevados, desde que eles tenham no máximo 1 m de altura e as laterais façam um ângulo de 45 graus com o solo. Ao redor do mat, contando do ponto onde a lateral toca o solo no caso de ele ser elevado, deve haver uma área de segurança de 1 m sem qualquer elemento. A FIAS permite que até dois mats sejam usados simultaneamente em torneios oficiais.

Durante a luta, os lutadores podem assumir duas posições, a posição de pé e a posição deitado. A posição de pé ocorre quando o lutador está tocando o solo apenas com as solas dos pés; se ele tocar o solo com qualquer outra parte do corpo, estará na posição deitado - mesmo que esteja, por exemplo, ajoelhado ou sentado. Alguns golpes e ações só podem ser tomadas com ambos os lutadores na posição de pé, e outras com ambos na posição deitado, sendo advertido o lutador que usar um golpe ou executar uma ação consigo ou com o oponente na posição incorreta.

Os principais golpes do sambô são os arremessos, técnicas usadas quando o lutador está na posição de pé e que visam desequilibrar e derrubar o oponente, colocando-o na posição deitado. Uma vez que um arremesso tenha sido bem sucedido, o lutador que o utilizou deve também passar para a posição deitado, não sendo permitido que um dos lutadores lute de pé e o outro deitado. Um arremesso é considerado "perfeito" quando o lutador permanece na posição de pé após o oponente assumir a posição deitado, e "imperfeito" caso ambos terminem a ação deitados. Existem também os contra-arremessos, com os quais um lutador que está sendo arremessado, antes de ficar em posição deitado, pode tentar derrubar o lutador que o estava derrubando, sendo o contra-arremesso bem sucedido caso o lutador que usou o arremesso originalmente passe para a posição deitado antes do que foi arremessado. Para efeitos de pontuação, um contra-arremesso é considerado um arremesso imperfeito.

Uma vez que ambos os lutadores estejam deitados, eles podem tentar as técnicas de imobilização, que consistem em segurar ou puxar um braço ou perna do oponente usando uma técnica válida do sambô. Com ambos os lutadores deitados, um deles também pode tentar o hold down, uma técnica na qual ele se deita por cima do oponente e não permite que o oponente escape; o objetivo é manter o hold down, sem o oponente escapar, por 20 segundos, após os quais o árbitro interromperá a luta e ordenará que ambos voltem às posições iniciais, podendo também, entretanto, um lutador ganhar pontos por um hold down incompleto, do qual o oponente conseguiu escapar antes dos 20 segundos. Considera-se que um lutador escapou da imobilização assim que ele reassume a posição de pé, e que ele escapou do hold down assim que não estiver mais imobilizado sob o oponente, mesmo que continue deitado. Um lutador que esteja sentindo dor durante uma imobilização pode desistir da luta por "imobilização dolorida", bastando, para isso, gritar a palavra yes ou bater no chão duas vezes seguidas com a mão espalmada ou a sola do pé enquanto está sendo imobilizado.

Uma luta de sambô dura 5 minutos no masculino, 4 minutos no feminino, ou 3 minutos se for uma luta da repescagem, não importando se for masculina ou feminina. O relógio para toda vez que o árbitro interrompe a luta, voltando a correr quando ele a reinicia; no caso de atendimento médico, há um tempo limite de dois minutos, com o lutador sendo desclassificado caso não esteja apto a lutar após esse período - além disso, cada lutador só pode pedir atendimento médico uma vez por luta, sendo desclassificado caso peça mais de um. Se, a qualquer momento, um dos lutadores tiver oito pontos a mais que o outro, o árbitro deve interromper a luta imediatamente, declarando o lutador com mais pontos vencedor, independentemente do tempo restante. Ao fim do tempo regulamentar, o lutador com mais pontos será o vencedor da luta; caso ambos estejam empatados, vence o que ganhou mais pontos por arremessos, seguido de mais pontos por imobilizações, quem conseguiu uma imobilização por último, quem teve menos penalidades, e quem não recebeu a primeira penalidade. Caso o empate persista, a mesa escolhe o vencedor baseada na técnica apresentada por cada um.

Para pontuar no sambô, um lutador deve primeiro realizar um arremesso e, antes de o oponente se levantar, usar uma técnica de imobilização com sucesso. Caso, antes de usar a técnica de imobilização, o lutador consiga um arremesso perfeito com o qual o oponente caiu de lado, ou um arremesso imperfeito com o qual o oponente caiu de costas, ele ganhará 4 pontos. Caso, antes de usar a técnica de imobilização, o lutador consiga um arremesso perfeito com o qual o oponente caiu em qualquer posição que não seja de costas ou de lado, ou um arremesso imperfeito com o qual o oponente caiu de lado, ele ganha 2 pontos. Caso, antes de usar a técnica de imobilização, o lutador consiga um arremesso imperfeito com o qual o oponente caiu em qualquer posição que não seja de costas ou de lado, ele ganha 1 ponto. Se não conseguir uma imobilização bem sucedida, mas conseguir um hold down, o lutador também pode ganhar pontos, que independem de como o arremesso foi feito: um hold down completo, que dure os 20 segundos, vale 4 pontos, enquanto um hold down que dure entre 10 e 19 segundos vale 2 pontos - holds down entre 1 e 9 segundos não valem pontos.

Durante a luta, um lutador também pode ser penalizado por falta de desportividade (ficar apenas esperando o oponente atacar, ou claramente fugir para que não seja atacado), por sair voluntariamente (e não em decorrência de um golpe) da área de luta, por falso ataque (fingir que vai atacar apenas para quebrar a defesa do oponente), por passar para a posição deitado sem tentar executar um arremesso, ou por "enrolar" enquanto estiver na posição deitado, sem claramente tentar imobilizar o oponente. Em qualquer dessas condutas, o lutador deve primeiro ser advertido, e, se efetuar novamente a mesma conduta, receberá uma penalidade. Caso o lutador use um golpe inválido, receberá a penalidade instantaneamente, sem direito a advertência; já se ele sair da área de luta para evitar ter que desistir por imobilização dolorida, terá direito a duas advertências, somente recebendo a penalidade na terceira vez em que o fizer. Da primeira vez em que um lutador recebe uma penalidade, seu oponente ganhará um ponto. Caso o lutador receba uma segunda penalidade, o oponente ganhará dois pontos, para um total de três. Um lutador que receba uma terceira penalidade é automaticamente desclassificado. Um lutador também pode ser desclassificado instantaneamente, independentemente de quantas penalidades tenha, por usar golpes que atinjam o oponente, como socos ou chutes; por desrespeitar o árbitro ou as regras do sambô; ou por executar golpes que exponham o oponente a risco de lesões ou morte, como arremessá-lo de cabeça no chão, torcer seus membros, ou sufocá-lo durante uma imobilização.

É possível vencer uma luta de sambô por nocaute, o que nesse esporte é chamado de "vitória total". Existem quatro tipos de vitória total: quando o oponente é desclassificado, seja por penalidades ou por ultrapassar o tempo do atendimento médico; quando o oponente desiste da luta devido a uma imobilização dolorida; quando o lutador tem oito pontos a mais que o oponente; ou quando o lutador consegue um "arremesso total" - que consiste em um arremesso perfeito com o qual o oponente cai de costas. Um arremesso total interrompe a luta e dá a vitória total imediatamente ao lutador que o executou, mas só é assim considerado caso os três membros da mesa concordem que o arremesso foi perfeito e o oponente caiu claramente de costas.

Torneios de sambô da FIAS podem ser realizados no sistema de mata-mata ou de grupos. No sistema de mata-mata, os lutadores são emparelhados dois a dois, e os vencedores vão avançando; os perdedores, por outro lado, não necessariamente serão eliminados, já que a FIAS utiliza um sistema de repescagem, permitindo, inclusive, que se escolha entre dois métodos: no primeiro, todo mundo que perde uma luta vai para a repescagem, enquanto no segundo somente aqueles cujo adversário que os derrotou ganhar sua luta seguinte é que vão (como no judô). Em ambos os casos, a repescagem dará direito a duas Medalhas de Bronze, cada uma delas disputada contra um dos perdedores das semifinais - sendo que a luta da Medalha de Bronze não conta como uma luta de repescagem, e, portanto, não dura 3 minutos, e sim 4 ou 5. Dependendo do número de lutadores em um torneio, os mais bem ranqueados podem começar direto na segunda ou na terceira rodada.

Já no sistema de grupos, os lutadores, na primeira fase, são divididos em grupos, e devem enfrentar todos os demais lutadores de seu grupo, ganhando pontos por suas vitórias. Após todos terem se enfrentado, o melhor ou os dois melhores, de cada grupo passa para uma segunda fase de mata-mata. O sistema de grupos não dá direito a repescagem, e ambos os perdedores das semifinais ganham uma Medalha de Bronze cada; caso sejam apenas dois grupos, é possível que os primeiros colocados dos grupos disputem a Medalha de Ouro e os segundos colocados disputem a Medalha de Bronze, sem fase de mata-mata. Uma curiosidade do sistema de grupos é a pontuação conferida às lutas para se determinar o melhor de cada grupo: um lutador que ganhe uma luta por vitória total recebe 4 pontos, enquanto o perdedor não recebe nada; um lutador que ganhe uma luta por vitória no número de pontos recebe 3 pontos, e o perdedor, caso tenha pontuado, recebe 1 ponto, e, caso não ("perdeu de zero"), não recebe nada; um lutador que ganhe uma luta no desempate recebe 2 pontos, e o perdedor, 1 ponto.

Além do sambô individual, a FIAS reconhece o sambô por equipes e o sambô por times. No sambô por equipes, que podem ser masculinas ou femininas, mas não mistas, cada equipe é formada por cinco lutadores, cada um de uma categoria de peso diferente, com as categorias válidas sendo determinadas pela organização do torneio; a cada embate, a equipe vencedora será aquela cujos integrantes vencerem três lutas primeiro. Já a competição por times consiste em simplesmente atribuir uma pontuação aos lutadores de cada país igual à sua posição na competição individual do mesmo campeonato (primeiro lugar 1 ponto, segundo lugar 2 pontos etc.); ao fim da competição individual, o país com menos pontos será o campeão da competição por times.

O mais importante campeonato de sambô é o Campeonato Mundial, disputado anualmente desde 1973 (exceto nos anos de 1976, 1977, 1978 e 1980); entre 1973 e 1984, ele foi organizado pela FILA, entre 1985 e 1993 pela primeira versão da FIAS, entre 1994 e 2004 pela "FIAS oriental", e desde 2005 pela FIAS atual - entre 1994 e 2004 houve um segundo Campeonato Mundial de Sambô, mas, hoje, essas edições são consideradas parte do Campeonato Mundial de Sambô Estilo Livre da ASA, não tendo nada a ver com a FILA ou a FIAS. A Rússia, nada surpreendentemente, é a maior vencedora sem qualquer sombra de dúvida, com mais de 200 medalhas de ouro conquistadas até hoje, contra apenas 15 (sim, quinze, não esqueci nenhum dígito) de Belarus, a segunda colocada.

O sambô não é um esporte reconhecido pelo Comitê Olímpico Internacional, e, portanto, ainda não pode pleitear um lugar nas Olimpíadas; um dos motivos para o acordo firmado entre FILA e FIAS em 2014 era tentar encontrar uma "brecha na lei" que permitisse que o sambô entrasse no programa das Olimpíadas de 2016, no Rio de Janeiro, pela janela, como disciplina da luta olímpica, e não como um esporte novo - como isso não colou, e como atualmente a FILA está mais preocupada em garantir que a luta greco-romana e a luta livre continuem no programa, ao invés de incluir uma luta nova, a FIAS vai ter de se conformar e fazer o caminho normal para os esportes que desejam ser reconhecidos e incluídos. Atualmente, a FIAS também não faz parte da IWGA, e, portanto, o sambô não pode ser incluído nos World Games; no passado, porém, ela já fez, entre sua fundação em 1985 e o racha que deu origem às versões ocidental e oriental da federação, em 1993 - com isso, o sambô fez parte do programa de duas edições dos World Games, justamente as de 1985, em Londres, Inglaterra, e de 1993, em Haia, Holanda.

Para terminar, vale citar que a FIAS também regula, desde 2001, o sambô de combate, e, desde 2014, o sambô de praia. O sambô de combate da FIAS segue as mesmas regras do sambô desportivo, mas se parece com uma luita de MMA, podendo ser usados socos, chutes, cotoveladas, joelhadas, cabeçadas, estrangulamentos e até mesmo técnicas de imobilização com o oponente de pé. As únicas partes do corpo que não podem ser atingidas são a nuca, o pescoço, o cóccix, o ânus e as genitais. Os golpes que atingem o oponente são usados apenas para derrubá-lo, pois, assim como no sambô desportivo, só há pontuação caso o oponente sofra uma imobilização bem sucedida na posição deitado. Devido aos golpes que atingem o oponente, o uniforme do sambô de combate é mais protegido, contando - além da jaqueta, short, sapatilhas, faixa e da camiseta das mulheres - com um capacete do mesmo tipo usado no kickboxing, luvas especiais que protegem as mãos mas deixam o movimento dos dedos livre para efetuar as imobilizações, caneleiras, e protetores para gengiva, virilhas e, no caso das mulheres, seios. As categorias de peso são as mesmas do masculino, inclusive para o feminino.

Já o sambô de praia é disputado em um quadrado de 8 m de lado, com os ângulos demarcados por bandeirolas vermelhas, em uma superfície feita de areia. A jaqueta de ambos os lutadores é sempre branca, e, ao invés de sapatilhas, são usadas meias especiais abertas nos dedos e no calcanhar; faixas, shorts e meias são sempre azuis para um lutador, vermelhas para o outro. As categorias de peso para o masculino são até 52 kg, até 62 kg, até 74 kg, até 90 kg e acima de 90 kg, e para o feminino são até 48 kg, até 56 kg, até 64 kg, até 72 kg e acima de 72 kg. A luta é sempre feita na posição de pé, e o objetivo é levar o oponente para a posição deitado com um arremesso ou contra-arremesso válido; não há pontuação, o primeiro a ser arremessado com sucesso perde. Cada luta dura no máximo 3 minutos; se, após 2 minutos, não houver um vencedor, a mesa escolherá qual lutador está mais ativo, ou seja, tentando realizar mais arremessos com a melhor técnica, e, se a luta permanecer sem ninguém ser arremessado, esse escolhido como mais ativo será o vencedor.

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