segunda-feira, 23 de outubro de 2017

Kickboxing

Depois que eu fiz o post sobre boxe, fiquei com vontade de fazer um sobre kickboxing. Achei, porém, que faria mais sentido se, antes, eu fizesse um sobre muay thai. Feito o do muay thai, hoje posso seguir com minha ideia original. É dia de kickboxing no átomo.

Por mais surreal que isso possa parecer, o kickboxing foi inventado no Japão - e eu digo surreal porque, pelo menos na minha mente, o kickboxing não costuma ter a mesma imagem de "arte marcial japonesa" do caratê, judô, jiu-jitsu etc. O título de criador do kickboxing pertence ao carateca Tatsuo Yamada, que, em 1959, decidiu criar uma nova arte marcial que misturasse fundamentos do caratê e do muay thai. Ele chamaria esse novo estilo de luta de "karate-boxing", e passaria a convidar lutadores tailandeses para visitar seu dojo e instruir seus alunos nas técnicas do muay thai.

O novo esporte, porém, era visto no Japão apenas como uma curiosidade, e não conseguia atrair novos adeptos. Para tentar mudar esse quadro, Yamada selecionaria três de seus alunos e, em parceria com o promoter de boxe Osamu Noguchi, organizaria um grande evento de "caratê vs. muay thai", na Tailândia, em 1963. Infelizmente para Yamada, o evento seria um fracasso, e apenas um lutador legítimo de muay thai se arriscaria a participar, com os dois outros sendo lutadores de outras artes marciais rapidamente instruídos nas técnicas do muay thai - nada surpreendentemente, portanto, os japoneses, diante de um pequeno público, venceriam por 2 a 1.

O evento acabaria não alcançando o propósito esperado, mas serviria para despertar o interesse de Noguchi pelo muay thai. Ao retornar ao Japão, ele começaria a estudar a luta tailandesa, e criaria um novo conjunto de regras que apresentaria a Yamada com o nome de "kick boxing" - kick, para quem não sabe, significa "chute" em inglês, então seria o "boxe com chutes". Nesse primeiro conjunto, os movimentos válidos eram basicamente os mesmos do caratê, com pouquíssimos movimentos do muay thai sendo incorporados; em compensação, as regras eram quase todas idênticas às do muay thai, com pouquíssimas sendo aproveitadas do caratê. Noguchi também fundaria a primeira entidade voltada a regular o kickboxing, com o nome de The Kickboxing Association, em 1966, e realizaria, naquele mesmo ano, o primeiro torneio de kickboxing do Japão; Yamada transformaria seu dojo de caratê em uma academia de kickboxing, mas, infelizmente, faleceria em 1967, e não conseguiria ver o esporte que criou se espalhar pelo mundo.

O auge da popularidade do kickboxing no Japão se daria na década de 1970, quando lutas seriam transmitidas ao vivo por pelo menos três canais de TV diferentes três vezes por semana. Em 1971, seria fundada a All Japan Kickboxing Association (AJKA), que, para todos os efeitos, era a federação nacional do Japão; o campeonato organizado pela AJKA era fortíssimo, e atraía vários lutadores tailandeses de muay thai, de olho em seus gordos prêmios em dinheiro. Muitos alunos da Universidade de Tóquio, que passou a incluir o kickboxing em seu currículo, também se filiavam à AJKA, inclusive norte-americanos e europeus, que levariam o esporte para a América e a Europa; a primeira federação de kickboxing fora do Japão seria a da Holanda, fundada em 1976.

Entre 1970 e 1973, várias lutas de kickboxing seriam realizadas, também, nos Estados Unidos; lá, porém, as regras acabariam, como às vezes costuma acontecer, adaptadas para o gosto dos norte-americanos, e o kickboxing seria uma mistura não do caratê com o muay thai, e sim do caratê com o boxe. Esse estilo ficaria conhecido como "kickboxing americano", e seria regulado pela Associação Mundial de Kickboxing (WKA), fundada em 1976, e considerada a primeira federação internacional a regular o kickboxing. O kickboxing americano também ultrapassaria as fronteiras dos Estados Unidos e chegaria à Europa, se tornando extremamente popular na Alemanha; lá, também em 1976, seria fundada uma segunda federação internacional, a Associação Mundial das Organizações de Kickboxing (WAKO).

Então, no início da década de 1980, tudo isso começou a ruir. Por motivos inexplicáveis, o kickboxing começaria a sofrer uma crise de popularidade, com cada vez menos novatos se interessando em praticá-lo, e, consequentemente, cada vez menos inscritos nas federações nacionais. No Japão, a audiência cairia tanto que o kickboxing sumiria das transmissões televisivas, e o campeonato da AJKA, antes grandioso, passaria a ser disputado em ginásios cada vez menores e mais acanhados. Nos Estados Unidos, para tentar reverter esse quadro, a federação norte-americana de caratê profissional mudaria de nome, em 1985, para Associação Internacional de Kickboxing Desportivo (ISKA), uma nova federação internacional voltada a promover e a regular o kickboxing. Apesar dos esforços das federações internacionais, o kickboxing parecia estar fadado ao sumiço.

A salvação viria, justamente, do Japão onde o esporte nasceu: em 1993, o carateca Kazuyoshi Ishii, criador do estilo de caratê conhecido como Seidokaikan, fundaria uma organização privada, chamada K-1 Global Holdings Limited, devotada exclusivamente a promover campeonatos de kickboxing. As regras estipuladas pela K-1 eram levemente diferentes, visando tornar o esporte mais veloz, dinâmico e atrativo para o público. A aposta de Ishii daria certo e, graças ao K-1, o kickboxing voltaria a experimentar a popularidade não somente no Japão, mas também em todos os cinco continentes. Hoje, o kickboxing é uma das lutas desportivas que cresce mais rapidamente no planeta.

Como vocês devem ter reparado, o kickboxing, assim como várias outras lutas desportivas, possui mais de uma federação internacional. Nenhuma delas é reconhecida pelo Comitê Olímpico Internacional, então eu não tenho como usar meu critério de sempre para escolher quais regras eu vou abordar. A mais "apropriada" para esse post, por assim dizer, é a WAKO, pois não somente é a que regula mais modalidades diferentes do kickboxing, como também é a que tem mais membros (126 dos cinco continentes, incluindo o Brasil), além de ser membro, desde 2011, da IWGA, o que possibilita a inclusão do kickboxing nos World Games, e de ser a única federação internacional de kickboxing reconhecida pelo órgão internacional SportAccord, o que a coloca na fila para que, um dia, ela seja reconhecida pelo COI. No decorrer desse post, portanto, toda vez que eu falar das regras do kickboxing, estarei me referindo às regras adotadas pela WAKO.

A WAKO regula um total de sete modalidades diferentes do kickboxing; quatro delas são disputadas em um tatami, enquanto as outras três são disputadas em um ringue. O tatami é um quadrado de 10 m de lado, sendo que apenas uma área de 7 m de lado é usada durante a luta; o restante é pintado de cor diferente (normalmente a área de luta é azul e o restante é vermelho), e configura uma "área de segurança", na qual os golpes podem concluir mas não se iniciar. Assim como no caratê, próximo ao centro do tatami há dois retângulos, de 1 m de largura por 2 m de comprimento e espaçados 1 m um do outro, da mesma cor da área de segurança; a cada início e reinício da luta, cada lutador deve ficar dentro de um desses retângulos. Em torneios oficiais, até seis tatami podem ser usados simultaneamente, devendo haver uma área de três metros entre um e outro, e desde que apenas dois deles sejam usados para uma mesma modalidade de cada vez. Já o ringue é idêntico ao do boxe, com as mesmas dimensões, mesmos componentes e feito do mesmo material; até dois ringues podem ser usados simultaneamente em competições oficiais - um "estádio de kickboxing" oficial da WAKO, inclusive, possui dois ringues e seis tatami dispostos em um espaço de 52 por 26 m, com uma única arquibancada para todos.

No kickboxing, um lutador pode usar socos e chutes para acertar qualquer parte da cabeça (exceto o topo e a nuca) do oponente, a frente e as laterais de seu torso (acima da cintura), e seus pés e tornozelos. Os socos são aplicados como os do boxe, com a parte da frente da mão; os chutes podem ser aplicados com a canela, com o peito do pé ou com sua sola, mas não com o calcanhar nem com os dedos do pé (ou seja, nada de pontapés); são permitidas também as "rasteiras", um movimento lateral feito com o pé em direção ao pé ou tornozelo do oponente - sendo a rasteira a única forma válida de se atingir o oponente nos pés ou tornozelos. Para que uma rasteira seja válida, o oponente atingido deve tocar o solo com qualquer parte do corpo que não seja a sola de seus pés. São permitidos "golpes aéreos", ou seja, socos e chutes realizados após um salto, desde que o lutador que os aplicou caia dentro da área válida de luta (no caso do tatami, no caso do ringue é meio difícil ele cair do lado de fora) após saltar.

Os lutadores também podem receber penalidades por efetuar golpes ilegais, conduta antidesportiva, sair de propósito da área válida de luta, falta de combatividade etc. Cada penalidade faz com que o lutador perca um ponto, sendo que um lutador que seja penalizado quatro vezes na mesma luta é automaticamente desclassificado, independentemente de seu placar. Também é possível vencer uma luta por nocaute: caso um lutador toque o solo com qualquer parte de seu corpo que não seja a sola dos pés em decorrência de um golpe na cabeça, o árbitro pode parar a luta imediatamente e avaliar se ele possui condições de continuar lutando; caso conclua que não possui, a vitória é conferida automaticamente ao oponente. O árbitro também pode interromper a luta e declarar nocaute técnico caso perceba que um dos lutadores, mesmo sem ter caído, não tem condições de prosseguir lutando sem colocar sua saúde ou integridade física em risco. Em ambos os casos, logo após a luta ser interrompida, o lutador nocauteado deve obrigatoriamente ser avaliado por um médico. No caso de um lutador se ferir ou se lesionar durante a luta, o árbitro também pode determinar uma avaliação médica, que deve ocorrer em um intervalo de dois minutos, com o lutador sendo desclassificado se não puder voltar a lutar dentro desse período - exceto no caso de o oponente tê-lo ferido deliberadamente, no qual o oponente é que será desclassificado, independentemente de quantas penalidades tinha.

Três das modalidades do tatami possuem regras em comum. Para começar, todas elas usam as mesmas categorias de peso, que são nove no masculino (até 57 kg, até 63 kg, até 69 kg, até 74 kg, até 79 kg, até 84 kg, até 89 kg, até 94 kg e acima de 94 kg) e seis no feminino (até 50 kg, até 55 kg, até 60 kg, até 65 kg, até 70 kg e acima de 70 kg). Não são permitidos clinches, arremessos, cotoveladas ou joelhadas. Para que um golpe marque pontos, ele deve ter sido aplicado com força e velocidade suficientes, e que o lutador esteja olhando diretamente para o ponto golpeado quando seu golpe atingir o oponente. Um chute aéreo na cabeça executado de forma correta vale três pontos; um chute aéreo no torso ou um chute plantado (sem tirar o outro pé do chão) na cabeça executados de forma correta valem dois pontos; qualquer outro golpe executado de forma correta vale um ponto. É possível ambos os lutadores pontuarem simultaneamente. Caso um lutador tenha, a qualquer momento da luta, 15 pontos a mais que o oponente, a luta termina imediatamente, e esse lutador é declarado vencedor por superioridade técnica.

A primeira das modalidades de tatami é a chamada luta por pontos, e se assemelha a uma competição de kumite do caratê. Nela, o objetivo é marcar pontos usando técnicas válidas do kickboxing, com velocidade, agilidade e concentração. A luta é oficiada por um árbitro central, que fica dentro do tatami próximo aos lutadores, e dois juízes, que caminham pelas laterais do tatami. Para que um ponto seja marcado, é necessário que o árbitro e pelo menos mais um dos juízes tenha visto com clareza que aquele golpe atingiu, sendo vedado conferir pontos pelo som do golpe ou pelo comportamento do oponente atingido. Toda vez que um ponto é marcado, o árbitro interrompe a luta, e os juízes apontam para o lutador que marcou o ponto, indicando com a mão quantos pontos ele fez com aquele golpe. Se o árbitro interrompeu a luta por ter visto um ponto, mas nenhum dos juízes o viu, a luta continua normalmente, sem que seja conferida pontuação. Toda vez que o árbitro interrompe a luta, o relógio também para, e os lutadores retornam para a posição inicial. Cada luta por pontos dura três minutos; se, ao final, os lutadores estiverem empatados, ela reinicia sem limite de duração após um intervalo de um minuto, e aquele que pontuar primeiro será o vencedor.

O uniforme da luta por pontos consiste de uma camisa própria, com gola em V e mangas curtas na altura da metade do braço; uma calça comprida presa à cintura por um elástico grosso, semelhante ao de um calção de boxe; luvas, cotoveleiras, caneleiras, protetores para o peito dos pés, protetores de gengiva, protetores de genitais (obrigatório para os homens, opcional para as mulheres) e de seios (apenas para as mulheres); e um capacete acolchoado de proteção, que deixa apenas o rosto e as orelhas à mostra. Opcionalmente, lutadores que desejem podem usar uma faixa amarrada na cintura, ao estilo das usadas no judô ou caratê, e bandagens para proteger as mãos, como as do boxe. As luvas usadas na luta por pontos são próprias dessa modalidade; ao contrários das luvas de boxe, possuem dedos, e são abertas na primeira articulação de cada um (ou seja, a maior parte do dedo fica de fora), inclusive do polegar, o que permite que a mão do lutador se abra e se feche durante a luta. Cada luva pesa 226 g, e é presa ao punho por um velcro. A WAKO recomenda que um dos lutadores sempre tenha uniforme azul e o outro vermelho, incluindo as luvas, capacete e protetores, mas isso não é obrigatório.

A WAKO também regula lutas por pontos por equipes, sendo que as equipes podem ser compostas por três mulheres, por cinco homens, ou por quatro homens e uma mulher cada (sendo que, nesse caso, as duas mulheres devem obrigatoriamente se enfrentar). As regras são as mesmas da competição individual, exceto pelo fato de que a luta dura dois minutos e não três. Cada vitória vale um ponto, e a equipe com mais vitórias após todas as lutas terem sido realizadas é declarada vencedora daquele embate. Uma curiosidade da luta por equipes é que as penalidades não são zeradas ao final de cada luta - ou seja, se o primeiro lutador terminou com duas penalidades, o segundo será desclassificado com mais duas, e não com mais quatro.

A segunda das modalidades é a chamada light contact, criada para ser um equivalente da luta no ringue, mas efetuada no tatami. Nela, a luta se desenvolve de forma contínua, sem que o árbitro a interrompa para marcar os pontos, com o relógio só parando em caso de atendimento médico, ou se um dos lutadores sair da área válida de luta. Cada luta dura três rounds de dois minutos cada, com intervalo de um minuto entre eles, e é oficiada por um árbitro central, dentro do tatami, e três juízes, sentados em posições estratégicas ao redor do mesmo.

O light contact usa um sistema de pontuação eletrônico, com cada juiz possuindo um dispositivo semelhante a um mouse, no qual cada botão corresponde a um lutador. Toda vez que um juiz vê um golpe válido, deve clicar o botão correspondente ao lutador que o executou, um número de vezes igual à pontuação correspondente àquele golpe (uma, duas ou três). Caso dois dos juízes cliquem o mesmo botão o mesmo número de vezes em um intervalo de no máximo um segundo, aquele lutador receberá os pontos. Quando o árbitro deseja aplicar uma penalidade, ele avisa ao lutador penalizado verbalmente e faz um sinal para a mesa, que a registra, sem interromper a luta. Todos os pontos e penalidades aparecem instantaneamente no placar, para que os lutadores e o público possam acompanhar o resultado em tempo real. No caso de impossibilidade de se contar com esse sistema eletrônico, os pontos e penalidades são registrados em papel; ao final de cada round, os papéis dos juízes são recolhidos e os pontos conferidos e atualizados no placar. Seja qual for o sistema de pontuação, se, ao final da luta, houver empate, o vencedor será aquele com mais pontos no terceiro round, seguido do que teve menos faltas, então do que foi mais pró-ativo, o que efetuou mais chutes, o que teve a melhor defesa e, se nem assim houver como quebrar o empate, os juízes se reunirão e decidirão qual dos dois lutou melhor e merece vencer - não são disputados rounds extras.

O uniforme do light contact consiste do mesmo capacete e da mesma calça comprida da luta por pontos; luvas, caneleiras, protetores para o peito dos pés, protetores de gengiva, protetores de genitais (obrigatório para os homens, opcional para as mulheres) e de seios (apenas para as mulheres). O uso de bandagens sob as luvas é obrigatório, devendo ser usadas as de algodão, com 2,5 m de comprimento e 50 cm de largura, presas por uma parte adesiva de no máximo 15 cm de comprimento. As luvas são as mesmas do boxe, sendo sempre usadas as de 10 onças (284 g cada), em todas as categorias de peso. Pelas regras oficiais da WAKO, os lutadores também devem usar uma camiseta comum, estilo t-shirt, mas a maioria dos torneios permite que os homens lutem sem camisa e as mulheres apenas usando um top - que deve ser usado por baixo da camiseta, se for o caso. Mais uma vez, a WAKO recomenda que um dos lutadores sempre tenha uniforme azul e o outro vermelho, com as camisetas podendo ser brancas, mas isso não é obrigatório.

A terceira modalidade se chama kick-light, e é bastante semelhante à light contact, apenas com maior ênfase nos chutes que nos socos (daí seu nome). As regras são idênticas às do light contact, exceto pelo fato de que as áreas válidas para se acertar no corpo do oponente são o rosto, as laterais da cabeça, a frente e as laterais do torso, as laterais das coxas (apenas de fora para dentro e apenas com a canela) e os pés e tornozelos (apenas com rasteiras). O uniforme também é o mesmo do light contact, exceto pelo fato de que não é usada a calça comprida, e sim um calção idêntico ao do boxe, que, no feminino, pode ser do estilo "saia-short" (com um tecido em volta que o deixa semelhante a uma saia).

A quarta modalidade do tatami se chama formas musicais, e não é uma competição de luta, e sim de coreografias, ao estilo do taolu do wushu. Diferentemente das outras três modalidades, uma apresentação das formas musicais usa todos os 10 m de lado do tatami, só não podendo o competidor pisar fora dele. Cada competidor deve, ao som de música, apresentar uma coreografia que lembre uma luta contra um oponente imaginário, sendo julgado por um painel de cinco juízes, que avaliarão cinco critérios: técnica, equilíbrio, grau de dificuldade, sincronismo entre os movimentos e a música, e manipulação das armas (se for o caso). Cada juiz dará uma nota de 7 a 10, e um deles, conhecido como árbitro principal, deduzirá pontos por faltas (como usar um golpe ilegal) de cada uma delas; a maior e a menor notas são descartadas, e as outras três são somadas para se determinar a nota final do competidor. Torneios de formas musicais possuem duas fases; na primeira fase, todos os competidores se apresentam, recebendo suas notas. Os quatro que obtiverem as melhores notas se apresentam novamente em um segundo dia, disputando as três medalhas. As notas do primeiro dia não contam para o segundo, o que significa que é possível terminar o primeiro dia na quarta colocação e ganhar o ouro na segunda apresentação.

As formas musicais não possuem um uniforme próprio, sendo permitido ao competidor usar o mesmo uniforme da luta por pontos, o mesmo uniforme das modalidades de ringue (em ambos os casos, sem os protetores), um gi de caratê, ou uma roupa tradicional do wushu; não é permitido o uso de camisetas ao estilo t-shirt, roupas casuais, máscaras, maquiagem pesada ou fantasias. A música é de livre escolha do competidor, podendo ser de qualquer ritmo; as regras não estipulam um tempo mínimo ou máximo para a apresentação, mas, na prática, cada uma dura entre 3 e 5 minutos. Curiosamente, as regras proíbem o uso de "efeitos especiais", como "lasers, fumaça, fogo, explosões e água", com o competidor sendo instantaneamente desclassificado se os usar. Todos os movimentos usados durante a apresentação devem estar ligados às artes marciais ou ao esporte; um competidor que use a qualquer momento um movimento de dança que não seja considerado desportivo recebe, automaticamente, nota 7 de todos os juízes, sem que seja levado em conta o restante da apresentação.

As formas musicais possuem quatro estilos: hard ("rígido"), que incorpora movimentos do kickboxing, caratê e taekwondo; soft ("suave"), que incorpora movimentos do wushu, wushu tradicional e capoeira; weapons hard (weapon significa "arma"), no qual o competidor pode se apresentar usando as armas kama, sai, tonfa, nunchaku, bo ou katana; e weapons soft, no qual podem ser usadas as armas naginata, jian, shuangjian, gun, shengbiao, dao ou shuangdao. Torneios de formas musicais possuem uma competição em separado para cada um dos quatro estilos, e cada competidor, se desejar, pode participar de até duas, desde que seja uma armada e uma desarmada do mesmo tipo (ou seja, ambas as hard ou ambas as soft, não podendo um mesmo competidor participar da competição desarmada hard e da armada soft ou vice-versa).

Assim como as modalidades de tatami, as três modalidades de ringue possuem regras em comum. Toda luta no ringue é oficiada por um árbitro, que fica dentro do ringue, e por três juízes, estrategicamente sentados ao redor do mesmo. Preferencialmente, é usado o mesmo sistema eletrônico de contagem de pontos do light contact, mas, na impossibilidade desse, pode ser usado o sistema de registro de pontos em papel. No caso de empate, também são usados os mesmos critérios do light contact. No ringue, cada golpe válido vale exatamente um ponto, independentemente do tipo de golpe e da área atingida. Para que um golpe conte como válido, ele deve obedecer a cinco critérios: boa técnica e equilíbrio correto, força e velocidade adequados, tempo e distância corretos, foco total (estar olhando diretamente para o ponto atingido até a conclusão do golpe) e boa desportividade (por exemplo, não provocar o oponente após o golpe). Cada luta no ringue dura três rounds de dois minutos cada, com intervalo de um minuto entre eles. As categorias de peso são 12 no masculino (até 51 kg, até 54 kg, até 57 kg, até 60 kg, até 63,5 kg, até 67 kg, até 71 kg, até 75 kg, até 81 kg, até 86 kg, até 91 kg e acima de 91 kg) e sete no feminino (até 48 kg, até 52 kg, até 56 kg, até 60 kg, até 65 kg, até 70 kg e acima de 70 kg).

A primeira modalidade do ringue é o full contact, um descendente direto do kickboxing americano. A única diferença nas regras do full contact em relação às já citadas aqui é que é permitido atingir o topo da cabeça. O uniforme consiste do mesmo capacete e da mesma calça comprida da luta por pontos, protetores para o peito dos pés, gengiva, genitais (obrigatório para os homens, opcional para as mulheres) e de seios (apenas para as mulheres), uma espécie de meia aberta nos dedos e nos calcanhares, e bandagens, idênticas às do light contact, sob as luvas, que são sempre as de 10 onças, independentemente da categoria de peso. Os homens lutam sem camisa, e as mulheres devem usar um top. Não há nada nas regras que determine a cor dos uniformes dos lutadores.

As lutas de full contact contam também com a presença de um oficial chamado kick counter, o "contador de chutes". Isso ocorre porque cada lutador é obrigado a efetuar pelo menos seis chutes por round. Se um lutador não efetuar seis chutes no primeiro round, ele tem a oportunidade de tentar "completar sua cota" no segundo (por exemplo, caso ele tenha efetuado três no primeiro, pode efetuar nove no segundo que está ok); caso não consiga, recebe uma penalidade (e perde um ponto). Da mesma forma, um lutador que não efetue seis chutes no segundo round pode tentar complementá-los no terceiro; um lutador que não efetue seis chutes no terceiro round recebe a penalidade, independentemente de quantos chutes efetuou nos dois rounds anteriores. Para que um chute conte para essa regra, ele não precisa pontuar, mas o lutador tem de demonstrar de forma clara a intenção de acertar o oponente com um chute.

A segunda modalidade é o low kick, uma versão do full contact que permite uma maior variedade de chutes. Não são permitidos golpes no topo da cabeça, mas, em compensação, são permitidos chutes em qualquer parte das pernas, desde que realizados com a canela. O uniforme é o mesmo do full contact, mas com calções do mesmo tipo dos usados no boxe ao invés das calças compridas. A regra dos seis chutes por round também existe no low kick.

A terceira modalidade é o K1, que usa as mesmas regras da K-1 Global Holdings Limited. No K1, assim como no low kick, é permitido atingir as pernas do oponente com chutes realizados com a canela. Também são permitidas joelhadas, que podem ser usadas para atingir o torso ou a cabeça do oponente; um clich curto, de no máximo 5 segundos, também é permitido, desde que seja usado para se aplicar uma joelhada - apenas uma joelhada é permitida por clinch, com o lutador recebendo uma penalidade se efetuar mais de uma ou nenhuma. O K1 não possui a regra dos seis chutes por round, e seu uniforme é o mesmo do low kick, mas sem os protetores de pés.

Exceto no caso das formas musicais, todas as modalidades do kickboxing, seja no tatami ou no ringue, têm torneios puramente de mata-mata, ou seja, nos quais os lutadores são emparelhados dois a dois, os vencedores vão avançando e os perdedores sendo eliminados, e, dependendo do número de lutadores, os mais bem ranqueados começando direto na segunda ou na terceira rodada; não há disputa pelo bronze, com ambos os eliminados nas semifinais ganhando uma Medalha de Bronze cada, para não submeter os lutadores em questão ao desgaste de uma luta extra. Nas modalidades de ringue, a WAKO também permite "lutas soltas", normalmente reservadas a profissionais - sendo usado, para a disputa do título, um sistema de "desafios", semelhante ao do boxe. Nesse caso, a luta, ao invés de três rounds, pode ter duração de cinco rounds de dois minutos cada, com intervalo de 1 minuto entre eles.

O mais importante campeonato da WAKO é o Campeonato Mundial, realizado em intervalos irregulares desde 1978, anualmente desde 2013. Como o Mundial possui eventos de todas as sete modalidades, até 2016 ele era disputado em duas sedes, em dois países diferentes, com alguns eventos sendo disputados em uma delas e os demais em outras (não necessariamente as de tatami em uma e as de ringue em outra, o que, aliás, nunca aconteceu); em 2017, porém, graças à desistência do Brasil (que iria sediar as provas de light contact, low kick e K1), a WAKO decidiu incluir todas as sete modalidades em uma mesma sede (em Budapeste, na Hungria), e, se tudo der certo, a partir de 2018 esse será o formato padrão.

Assim como o MMA, o kickboxing também possui uma grande quantidade de torneios voltados para profissionais organizados por empresas particulares, como o K-1, o Glory, o Enfusion, o Superkombat e o King in the Ring. Lutadores filiados à WAKO podem participar desses eventos, mas eles não contam para o ranking da federação.

Como nenhuma federação internacional de kickboxing é reconhecida pelo COI, o esporte ainda não pode pleitear um lugar nas Olimpíadas; como já foi dito, desde 2011, a WAKO é filiada ao IWGA, mas, curiosamente, a única aparição do kickboxing nos World Games foi em 2017, e como esporte de demonstração - por qual motivo, eu desconheço. As regras usadas foram as da modalidade K1, mas só foram disputadas 8 categorias de peso no masculino e 4 no feminino; o Brasil conseguiu uma medalha de ouro. Se o kickboxing voltará a fazer parte dos World Games no futuro, só o tempo dirá.

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