segunda-feira, 23 de janeiro de 2017

Judô

Em algum momento, não me lembro qual, eu resolvi que iria tentar fazer posts sobre todos os esportes do programa das Olimpíadas. Eu cheguei a resolver que faria isso antes das Olimpíadas de 2016, mas, quando vi que não daria tempo, decidi que continuaria com esse objetivo mesmo depois disso. Pois bem, para eu alcançá-lo (se não considerarmos o skate e o surf, que foram incluídos no programa pelo COI, mas só vão efetivamente estrear em 2020, então, de fato, ainda não fazem parte do programa), todos os esportes que faltam são lutas.

Não que eu não goste de lutas - gosto muito de assistir a boxe e judô, e eventualmente assisto a outras - mas, por alguma razão que eu não sei bem explicar qual é, jamais havia me interessado em fazer posts sobre lutas aqui no átomo. Para completar o programa olímpico, entretanto, começarei hoje, e decidi começar pelo judô. Foi uma escolha meio aleatória, mas, enquanto escrevia esse post, percebi que foi boa, porque, com ele, eu alcanço um objetivo secundário inesperado: termino de falar sobre todos os esportes do programa das Paralimpíadas.

O judô foi inventado em 1882, no Japão, por Jigoro Kano. Nascido em 1860, na adolescência Kano sofria bullying na escola, o que o motivou a procurar um professor de jiu-jitsu, para aprender uma forma de se defender. Na época, entretanto, o Japão passava pelo período conhecido como Restauração Meiji, na qual as coisas tradicionais japonesas eram consideradas de segunda classe, com as que vinham do ocidente sendo consideradas mais chiques. Nesse cenário, não somente as roupas ocidentais começavam a substituir as tradicionais vestimentas japonesas no gosto da população, ou peças de teatro ao estilo ocidental eram mais encenadas que o tradicional kabuki, mas elementos da cultura japonesa como a cerimônia do chá e o jiu-jitsu eram progressivamente abandonados, considerados ultrapassados e de pouco uso prático. Assim, Kano viu sua tentativa de encontrar um professor de jiu-jitsu frustrada durante muitos anos, e somente em 1877, quando já estudava na Universidade Imperial de Tóquio, ele veio a conhecer Hachinosuke Fukuda, professor que tinha um pequeno dojo no qual ensinava uma variante do jiu-jitsu conhecida como Tenjin Shinyo-ryu para cinco alunos. Fukuda aceitou treinar Kano, e acabaria instilando em sua mente um dos fundamentos do judô, pois, em sua aula, ele dava mais importância à técnica usada nos movimentos do jiu-jitsu que à força na execução dos golpes, em um sistema de treinamento conhecido como randori ("prática livre").

Kano logo se tornaria o melhor aluno de Fukuda, que faleceria em 1880. Como ele não estava disposto a parar de aprender após apenas três anos, logo arrumaria um novo professor, Iso Masatomo, um amigo de Fukuda que preferia colocar mais ênfase no ensino do kata, uma espécie de demonstração dos movimentos do jiu-jitsu em forma de coreografia, ao invés de em uma luta contra um oponente. Masatomo faleceria em 1881, após menos de um ano depois de Kano começar a treinar com ele; ainda insatisfeito, ele encontraria um terceiro professor, Iikubo Tsunetoshi, outro amigo de Fukuda e também adepto do randori, mas que colocava grande ênfase no nage-waza, as técnicas de projeção do oponente. Tsunetoshi ensinava uma variante diferente do jiu-jitsu, chamada Kito-ryu, a qual Kano achou mais interessante, decidindo se especializar e se tornar professor dela.

Após um ano treinando com Tsunetoshi, Kano decidiria abrir seu próprio dojo, em um terreno cedido pelo templo budista de Eisho-ji, em Tóquio. Em suas aulas, Kano ensinaria uma variante do jiu-jitsu criada por ele mesmo, à qual daria o nome de judo, palavra que, em japonês, significa "caminho gentil". Essa variante, segundo Kano, tinha duas características fundamentais: o princípio da máxima eficiência usando o mínimo esforço, segundo o qual a técnica do lutador era mais importante que sua força; e o conceito do bem-estar e benefício mútuo, segundo o qual os lutadores deveriam ferir a si mesmos e a seus oponentes o mínimo possível durante uma luta. Kano rejeitaria todas as técnicas do jiu-jitsu que não se encaixassem nessas duas características, guiando suas aulas pelo conceito filosófico do ju yoku go o seisu (algo como "a suavidade controla a rigidez"). Uma das principais características de se enfatizar a técnica em detrimento da força era que, com o treinamento correto, um lutador poderia derrotar até mesmo um oponente maior e mais forte que ele, ao se preocupar em evadir seus ataques e tirar seu equilíbrio ao invés de resistir às suas investidas e tentar sobrepujá-lo.

Uma das preocupações de Kano era com a forma negativa com a qual a população japonesa via não somente o jiu-jitsu, mas também as artes marciais em geral, já na época consideradas violentas e contrárias às regras de civilidade. Para ele, o judô era mais que uma arte marcial, era um caminho para o auto-aperfeiçoamento. Aplicando a filosofia do judô a todos os aspectos de sua vida, o judoca (como os praticantes do judô são conhecidos, já que a partícula final ka, em japonês, significa "praticante") poderia contribuir para melhorar não somente a si mesmo, mas também à sociedade como um todo. De fato, até hoje, é exigido dos verdadeiros professores de judô que eles ensinem não somente as técnicas de luta, mas também conceitos como gentileza, civilidade, fraternidade, respeito ao próximo e que seu oponente é apenas seu adversário, não seu inimigo.

Três anos após criar o judô, Kano abriria um novo dojo, o qual chamaria de Kodokan, "local para aprender o caminho". Hoje conhecido como Instituto Kodokan, o local, atualmente um prédio de oito andares, é considerado o "quartel-general do judô mundial", contando com cinco dojos onde ainda é ensinado o judô, um museu sobre a história do esporte e da vida de Kano, e a mais completa biblioteca do mundo sobre judô, com mais de sete mil livros. O Kodokan ainda conta com laboratórios de pesquisa sobre a psicologia, a técnica e a fisiologia do judô, e qualquer judoca registrado em sua respectiva federação nacional pode se hospedar lá, como se fosse um hotel, para treinar ou para fazer uso de suas instalações de pesquisa.

Kano, pessoalmente, era contra a prática do judô como esporte de competição; segundo ele, o judô deveria ser encarado como arte e ciência, e não como uma forma de demonstrar que um clube, escola ou país era superior ao outro - o que, apesar de não explicitamente, acaba sendo o objetivo de qualquer competição esportiva. Apesar disso, ele contribuiu para a prática do judô como esporte ao aceitar, em 1899, fazer parte de uma comissão governamental que criaria as regras para os torneios japoneses de jiu-jitsu - e que, mais tarde, passariam a ser usadas também nos torneios de judô. Devido à sua grande contribuição não somente no âmbito esportivo, mas também na divulgação de ideais reconhecidos como parte do olimpismo, o Comitê Olímpico Internacional o convidaria a se tornar membro em 1909. Kano aproveitaria seu status de membro do COI não somente para divulgar o judô pela Europa, mas também para incentivar a prática esportiva e o desenvolvimento da educação através do judô - quando faleceu, em 1938, Kano já era considerado um dos maiores educadores do Japão, graças a seus esforços para disseminar e aprimorar a educação usando os princípios do judô.

No final da década de 1920, o judô já seria extremamente popular em diversos países da Europa, o que levaria à criação, em 1932, da Federação Europeia de Judô, primeiro órgão devotado à regulação do judô fora do Japão. Em 1951, a Argentina decidiria se candidatar a membro da Federação Europeia (pois é), que, após sua aceitação, passaria a se chamar Federação Internacional de Judô (IJF, da sigla em inglês). Hoje, a IJF é o órgão máximo do judô no âmbito esportivo, contando com 195 membros dos cinco continentes, incluindo o Brasil, membro desde 1969.

Em 1932, durante as Olimpíadas de Los Angeles, ao ser perguntado sobre a inclusão do judô nos Jogos, Kano responderia que, se outros membros fossem a favor, ele não se oporia, mas que não tomaria nenhuma iniciativa. Coincidência ou não, pouco depois, o COI aprovaria a inclusão do judô no programa das Olimpíadas de Tóquio, que aconteceriam em 1940. Essa edição dos Jogos, porém, acabaria cancelada em virtude da Segunda Guerra Mundial, e, quando as Olimpíadas retornassem, em 1948, em Londres, o judô não estaria no programa. Somente quando Tóquio estreasse efetivamente como sede de uma Olimpíada, em 1964, é que o judô finalmente faria sua estreia, com quatro provas masculinas.

Apesar de o próprio Kano não se opor ao ensino e à prática do judô por mulheres, e de o Kotokan oferecer aulas específicas de judô para mulheres desde 1923 - contando, como professora, com Keiko Fukuda, neta do professor de Kano, que dedicaria sua vida à divulgação e popularização do judô feminino no planeta - durante muito tempo a maioria esmagadora de judocas em todo o mundo seria de homens, o que faria com que os campeonatos femininos demorassem a engrenar, e com que o judô feminino só estreasse nas Olimpíadas em 1988, em Seul, Coreia do Sul, e, assim mesmo, como esporte de demonstração, pois o COI queria uma prova de que as lutas femininas poderiam ser tão disputadas e atrair tanto público quanto as do masculino. O judô feminino estrearia efetivamente em 1992, em Barcelona; desde então, o programa olímpico conta com 14 provas de judô, sendo exatamente sete masculinas e sete femininas.

O estilo de judô criado por Kano, regulado pela IJF, presente nas Olimpíadas e ensinado na maioria das escolas de judô brasileiras tem hoje o nome oficial de Judô Kodokan, em referência ao Instituto Kodokan; ele não é, entretanto, o único judô existente: assim como o caratê, o wushu e outras artes marciais, o judô possui vertentes, dentre as quais podemos citar o Judô Kosen, uma adaptação das regras do Kodokan originalmente criada no início do século XX para ser usada em torneios entre as escolas de ensino médio japonesas ("Kosen" é uma contração de Koto Senmon, o equivalente japonês do nosso Ensino Médio), mas que depois se popularizou entre os jovens, e hoje possui dojos dedicados a ela; o chamado judô russo, que utiliza alguns movimentos e golpes originários do sambô, uma arte marcial de origem soviética; e o chamado judô estilo livre, regulado pela Aliança Internacional de Judô Estilo Livre (IFJA), e no qual é permitido agarrar o oponente pelas pernas e lutar deitado no chão como no jiu-jitsu. Talvez seja desnecessário dizer, mas, para efeitos desse post, toda vez que eu falar "judô", estarei me referindo ao Judô Kodokan.

O treinamento do judô inclui duas disciplinas, o randori e o kata. O randori é a prática do judô com um colega, como se fosse uma luta amistosa; durante o randori, entretanto, o objetivo não é vencer, e sim aperfeiçoar a técnica. Uma parte importante do randori é o treinamento de ukemi, com o qual o judoca "aprende a cair", para que não se lesione ao ser efetivamente projetado por um oponente; por isso, não é incomum ver os judocas derrubando uns aos outros repetidas vezes e sempre facilmente durante os treinamentos. Já o kata (palavra japonesa que significa "modelo") é uma espécie de luta coreografada, onde dois judocas realizam movimentos específicos em uma ordem específica. O objetivo do kata é ilustrar os princípios básicos do judô, demonstrar a forma correta de se executar uma técnica, e ensinar os conceitos filosóficos sobre os quais o judô é embasado. Atualmente, o judô possui um total de dez kata, e, em teoria, todo judoca deve saber executar todos os dez com perfeição. Alguns kata usam técnicas que não são mais permitidas em competição, ou que já nem fazem parte das técnicas do judô, mas, ainda assim, é considerado importante estudá-los para que se saiba a origem e a história do judô.

O judô utiliza três tipos de técnicas diferentes; as mais comuns são as nage-waza, ou técnicas de projeção, com as quais o judoca tentará tirar o oponente do chão e projetá-lo em direção ao solo. A parte mais importante de uma técnica de projeção é a chamada "pegada", o ato de segurar firme com uma das mãos na gola ou na manga do oponente; quanto mais firme a pegada, maior será a chance de o judoca executar a técnica com perfeição. Um judoca pode tentar impedir a pegada do oponente bloqueando sua mão antes de ele alcançá-lo, ou usando seu antebraço para fazê-lo soltar depois que a pegada já estiver sido estabelecida; em ambos os casos, é permitido ao judoca usar apenas um dos braços para tentar impedir a pegada do oponente, sendo proibido usar ambos os braços simultaneamente. Existem dois tipos de nage-waza, as chamadas técnicas em pé, com as quais o judoca tentará usar o próprio peso do oponente para desequilibrá-lo, e que se subdividem em técnicas de mão, de quadril e de perna - nomes que fazem referência à parte do judoca que está usando a técnica que será usada para efetuar o movimento, e não à parte do corpo do adversário onde ocorrerá a pegada - e as chamadas técnicas de sacrifício, pois farão com que o judoca caia junto com o oponente, e que se subdividem em técnicas de costas e de lado, de acordo com a posição na qual o judoca que aplicou a técnica cairá no chão. Seja qual for a técnica usada, é proibido aos judocas tocar com as mãos abaixo da cintura dos oponentes; todos os toques feitos com as mãos devem ocorrer acima da linha da cintura, com apenas os pés e pernas podendo tocar o oponente abaixo dessa linha.

O segundo tipo de técnica são as katame-waza, ou técnicas de imobilização, usadas após o judoca projetar o oponente contra o chão, para evitar que ele se levante, e que se dividem em três grupos, as técnicas de domínio no solo, nas quais o judoca se coloca sobre o oponente, as técnicas de estrangulamento, nas quais o braço ou a perna do judoca passa pelo pescoço do oponente, e as técnicas de articulação, nas quais o judoca se agarra a um dos braços do oponente - até 2008, era permitido também se agarrar a uma das pernas, mas, desde então, esse tipo de técnica é proibido pela IJF. O terceiro tipo de técnica são as atemi-waza, ou técnicas de golpeamento, com as quais o judoca tenta derrubar o adversário através de fortes chutes em seus pontos vitais. Se você está achando isso estranho, é porque as atemi-waza são proibidas no judô esportivo, embora ainda sejam ensinadas nas escolas, por fazerem parte de alguns kata.

A pontuação do judô é muito simples: se, usando uma técnica válida, o judoca conseguir projetar o oponente contra o solo, de forma que ele caia de costas, ele recebe um ponto, chamado waza-ari (normalmente pronunciado aqui no Brasil como "vazári", embora o correto fosse "uazarí"). Caso o árbitro da luta considere que o movimento usado na projeção teve ímpeto, técnica e controle adequados, ele pode conferir um ippon, que encerra automaticamente a luta, não importando quantos waza-ari tenha o oponente. Até dezembro de 2016, existia uma outra forma de pontuação, o yuko ("iucô"), conferido quando o oponente era corretamente projetado, mas caía de lado, e entre 1975 e 2008 havia o koka ("cocá"), quando o oponente caía sentado, mas essas duas pontuações não são mais usadas em competições oficiais da IJF e de suas federações-membros; também até dezembro de 2016, um judoca que conseguisse um segundo waza-ari na mesma luta ganhava automaticamente um ippon, mas, agora, podem fazer quantos waza-ari quiserem que a luta continua. É importante reforçar que a técnica usada para a projeção deve ser uma técnica válida do judô, não sendo permitido jogar o oponente no chão de qualquer forma; pelo mesmo raciocínio, se o judoca cair sozinho, ou se cair porque se desequilibrou, não será ponto para o oponente.

Caso o judoca consiga projetar o oponente contra o chão com uma técnica válida, pontuando ou não, ele pode tentar uma técnica de imobilização. Mais uma vez, deve ser uma técnica de imobilização válida, não vale agarrar o oponente de qualquer jeito apenas para ele não se levantar. Caso o árbitro considere que a técnica é válida e o oponente está corretamente imobilizado, ele abrirá contagem. O objetivo é fazer com que o oponente fique corretamente imobilizado durante 20 segundos; caso ele consiga se libertar da imobilização, a contagem é interrompida. Se a contagem chegar aos 20 segundos, o judoca que está imobilizando vencerá automaticamente a luta por imobilização (e não por ippon), independentemente do placar do oponente; caso a contagem seja interrompida entre 15 e 20 segundos, o judoca que está imobilizando ganhará um waza-ari (até dezembro de 2016, uma contagem interrompida entre os 10 e 15 segundos valia um yuko, e, até 2008, uma contagem interrompida entre 5 e 10 segundos valia um koka, mas hoje não mais). O oponente imobilizado também pode desistir a qualquer momento, batendo com a mão espalmada no chão ou gritando maitta ("maitá", "eu me rendo"), o que normalmente é feito porque, na posição em que ele está imobilizado, ele está com dor ou sem conseguir respirar direito. O árbitro também pode "declarar a desistência do oponente", caso veja que ele está perdendo os sentidos (por estar sendo, por exemplo, asfixiado). Em ambos os casos de desistência (voluntária ou por ordem do árbitro), o judoca que está imobilizando vencerá a luta por imobilização imediatamente, independentemente da contagem ou do placar do oponente.

Durante uma luta, um judoca também pode receber dois tipos de punição por seu comportamento. A mais leve se chama shido ("xidô", "orientação") e é conferida, por exemplo, por falta de combatividade (ficar fugindo da luta ao invés de enfrentar o oponente), passividade (não atacar o oponente, mesmo tendo oportunidade clara para isso), falso ataque (usar uma técnica válida, mas que não produziria qualquer efeito naquela situação, apenas para não ser punido por falta de combatividade ou passividade), por usar uma técnica inválida, por sair deliberadamente da área válida de luta, ou por se jogar no chão de propósito para impedir uma técnica do oponente. O shido não reverte para pontuação, mas serve como critério de desempate - caso a luta termine empatada, o judoca com menos shido vence. A punição mais grave se chama hansoku make ("derrota por desonestidade"), e seu efeito é a desclassificação imediata do judoca, dando a vitória para o oponente, independentemente da pontuação de ambos. O hansoku make só costuma ser aplicado em casos extremos, como quando o judoca, deliberadamente, procura ferir seu adversário. Um lutador que receba quatro shido na mesma luta também é desclassificado, dando a vitória automaticamente para o oponente.

O local onde a luta se desenrola se chama tatami, é perfeitamente quadrado, e deve ter, no mínimo, 14 metros de lado. Nem todo o tatami é usado durante a luta, apenas uma área de no mínimo 8 e no máximo 10 metros de lado, demarcada por uma linha de cor contrastante com o restante do tatami, de 30 cm de espessura. Próximo ao centro do tatami há dois riscos paralelos, um para cada lutador, da mesma cor e espessura da linha que delimita a área de luta; a cada início e reinício da luta, cada judoca deve permanecer com pelo menos um dos pés sobre seu risco. Em torneios oficiais, até dois tatami podem ser usados simultaneamente, devendo haver uma área de pelo menos três metros entre um e outro. Um movimento que comece dentro da área válida de luta mas termine fora dela é considerado válido, e sair da área válida em decorrência de um movimento, seu ou do oponente, não é considerado falta.

Uma luta de judô tem duração de cinco minutos, com o relógio parando toda vez que a luta é interrompida, e sendo vencedor aquele que tiver mais pontos ao final. Caso a luta chegue ao final empatada, é disputado o golden score, que não tem limite de tempo, se encerrando apenas quando um judoca pontuar, com a vitória do mesmo - ou quando um deles receber um shido, o que dará a vitória para o adversário. A luta é oficiada por um único árbitro, que pode interrompê-la a qualquer momento e ordenar que os judocas retornem ao centro do tatami antes de recomeçar. O árbitro não é obrigado a interromper a luta caso os atletas estejam "desarrumados" - com a camisa aberta ou a faixa torta, por exemplo - mas pode fazê-lo e ordenar que se arrumem. Caso um dos lutadores precise de atendimento médico, terá direito a um minuto, sendo desclassificado caso não retorne à sua posição no tatami antes desse tempo se esgotar. Toda vez que o árbitro interrompe a luta, ele usa o comando matte ("matê", que significa "esperem").

Diferentemente do que muitos pensam, a roupa usada para a prática do judô não se chama quimono, e sim judogi (pronunciado "judoguí", gi significa roupa, então é a "roupa de judô"), ou simplesmente gi. Tradicionalmente, todos os judogi eram brancos, mas, desde 1986, em competições oficiais, um dos judocas luta de branco e o outro de azul, para facilitar a marcação de pontos e faltas pelos juízes e a identificação dos judocas pelo público - muitos tradicionalistas, entretanto, rejeitam o uso do judogi azul, alegando que o branco representa a pureza do lutador, e um lutador de azul seria impuro. O judogi é feito de algodão, e consiste de uma camisa aberta, de mangas compridas, e uma calça comprida - as mulheres podem também usar uma camiseta branca por baixo, para evitar exposições indesejadas. A calça se ajusta na cintura através de um cordão interno, que deve ser amarrado, e, para fechar a camisa, o judoca usa uma faixa amarrada na cintura.

Falando em faixas, foi Kano quem criou o kyu-dan, o sistema de ranqueamento dos lutadores de judô, que depois passaria a ser usado em praticamente todas as artes marciais. Esse sistema, inspirado pelo sistema de ranqueamento usado para jogadores de go, popular jogo japonês de tabuleiro, possui seis níveis iniciais chamados kyu ("classe"), seguidos de (teoricamente infinitos) níveis chamados dan ("etapa") - por isso o nome kyu-dan (que não significa nada em especial). Basicamente, todo estudante de judô começa no sexto kyu, e, após obter conhecimento e técnica suficiente, pode fazer uma espécie de prova. Se passar nessa prova, ele passa a pertencer ao quinto kyu, e assim progressivamente, até alcançar o primeiro kyu. Após conseguir conhecimento e técnica suficientes no primeiro kyu, o estudante pode fazer a prova para o primeiro dan - pois a ordem dos kyu é decrescente, mas a dos dan é crescente. O sistema de provas só é aplicado até o oitavo dan, com o nono e o décimo dan sendo conferidos por merecimento - até hoje, apenas 26 judocas já chegaram ao décimo dan, sendo que o Instituto Kodokan reconhece apenas 15 deles, todos japoneses e todos homens, por terem sido os únicos a serem promovidos pelo próprio Instituto; os outros 11, incluindo Keiko Fukuda, a primeira e única mulher a alcançar o décimo dan, foram promovidos pela IJF, que desde 2011 negocia sua aceitação pelo Instituto. Segundo o próprio Kano, o décimo dan não é o último, sendo possível progredir em dan indefinidamente, mas, até hoje, ninguém chegou ao décimo-primeiro.

Vale citar que, hoje, todos os praticantes de judô são chamados de judocas (como vimos, do japonês judoka), mas, tradicionalmente, apenas estudantes de quarto dan ou mais recebiam esse título, com aqueles do sexto kyu ao terceiro dan sendo conhecidos como kenkyusei (algo como "em treinamento"). Já os professores de judô são conhecidos como sensei, palavra que não significa "professor", mas "predecessor", no sentido de que ele já sabia judô antes daqueles a quem está ensinando. Finalmente, um estudante de qualquer kyu é conhecido como mudansha, palavra curiosa que significa "pessoa sem dan", enquanto um estudante de qualquer dan é conhecido como yudansha, que, como vocês devem imaginar, significa "pessoa com dan".

Quando Kano criou o sistema de ranqueamento, todos os mudansha usavam uma faixa branca, enquanto todos os yudansha usavam uma faixa preta. No início do século XX, alguns professores de judô começaram a experimentar faixas coloridas, e surgiria o sistema usado no Japão até hoje: estudantes do sexto kyu usam uma faixa azul-claro, os do quinto e quarto kyu uma faixa branca, os do terceiro, segundo e primeiro kyu uma faixa marrom ou roxa, de acordo com sua idade, e os de qualquer dan uma faixa preta, sendo que os de nono dan podem optar pela preta ou por uma listrada de vermelho e branco, e os de décimo dan pela preta ou por uma vermelha. A faixa deve ser da cor apropriada em todos os momentos, seja durante as aulas, os treinamentos, ou em competições.

O esquema de cores das faixas usado no Japão, porém, não é o mesmo usado no ocidente, que foi inventado pelo professor Mikinosuke Kawaishi. Japonês de nascimento, Kawaishi deixaria seu país aos 25 anos de idade, logo após se tornar professor de judô, com o intuito de espalhar essa arte pelo mundo, e ajudou a abrir escolas de judô nos Estados Unidos, Grã-Bretanha e França, onde se estabeleceu na década de 1940, e onde se tornaria um dos maiores nomes do judô francês e mundial. Em 1946, junto com o judoca francês Moshé Feldenkrais, ele fundaria a Federação Francesa de Judô, que, no ano seguinte, organizaria o primeiro torneio internacional de judô da história, com a participação de judocas da Grã-Bretanha e da França, que acabaria levando o nome de Copa Kawaishi - e rendendo, ao campeão de cada categoria, a Medalha Kawaishi. Enquanto lecionava na França, Kawaishi também seria o inventor de um método de ensino de judô hoje conhecido como Método Kawaishi, hoje utilizado em escolas de judô de todo o planeta, inclusive no Brasil.

Na década de 1940, Kawaishi decidiria estabelecer uma cor de faixa diferente para cada kyu, e criaria o sistema usado hoje no mundo inteiro, exceto no Japão, Estados Unidos, Brasil e Israel. Pelo sistema de Kawaishi, a primeira faixa (do sexto kyu) é a branca, seguida da amarela, laranja, verde, azul, marrom e preta. No Brasil, existem nada menos que doze kyu, e a ordem das faixas é branca, branca com as pontas cinza, cinza, cinza com as pontas azuis, azul, azul com as pontas amarelas, amarela, amarela com as pontas laranja, laranja, verde, roxa, marrom e preta; esse sistema foi criado pelo mestre Tokuzo Terazaki, que veio do Japão na década de 1930, e fundou, na cidade de Suzano, São Paulo, o primeiro dojo de judô das Américas, a Academia Terazaki.

Como é de praxe em se tratando de competições de lutas, no judô os competidores são divididos em categorias de acordo com seu peso corporal, com cada lutador só podendo enfrentar outros de sua própria categoria. Atualmente existem sete categorias de peso no masculino e sete no feminino, cada uma correspondendo a uma prova das competições oficiais da IJF. As categorias no masculino são até 60 Kg, até 66 Kg, até 73 Kg, até 81 Kg, até 90 Kg, até 100 Kg e acima de 100 Kg; no feminino são até 48 Kg, até 52 Kg, até 57 Kg, até 63 Kg, até 70 Kg, até 78 Kg e acima de 78 Kg. Em alguns campeonatos, ainda existe a categoria Absolutos, aberta a judocas de qualquer peso, que, por uma questão de tradição, ainda é considerada oficial pela IJF, embora já não faça parte das Olimpíadas ou do Mundial.

Falando nisso, depois das Olimpíadas, o torneio mais importante do judô é o Campeonato Mundial, disputado desde 1956 no masculino e desde 1980 no feminino. Inicialmente, o Mundial era disputado a cada três anos, então a cada dois, e, desde 2007, é disputado anualmente, exceto em ano de Olimpíadas; entre 1980 e 1986 o masculino e o feminino eram separados, mas, desde 1987, ambos são disputados em conjunto na mesma sede. Além das 14 provas individuais, o Mundial conta também com duas provas por equipes (uma masculina e uma feminina), disputada por equipes de cinco judocas cada, cada um de uma categoria de peso diferente; a cada embate, a equipe a obter três vitórias primeiro será a vencedora. Outro torneio internacional de renome é o Grand Prix, disputado anualmente desde 2009, com oito etapas por ano; diferentemente de outras competições nesse estilo, porém, o maior vencedor não é coroado "campeão do Grand Prix" ao final da última etapa.

Competições de judô da IJF são disputadas no sistema de mata-mata, ou seja, os competidores são emparelhados dois a dois, por sorteio ou por ranquemento - sendo que, dependendo do número de competidores, os mais bem ranqueados podem estrear diretamente na segunda ou na terceira fase. A cada fase, os vencedores avançam para a fase seguinte, até chegar à final, na qual o vencedor será o campeão; os perdedores, entretanto, não são automaticamente eliminados, pois a IJF estabelece um sistema de repescagem: caso o oponente que derrotou um judoca vença novamente na fase seguinte, este judoca terá direito a participar da repescagem, para tentar ganhar uma medalha de bronze - em um exemplo, se A e B lutam, e A vence, B ainda não está eliminado, pois, se em sua luta seguinte, A vence novamente, B vai para a repescagem; por outro lado, caso em sua luta seguinte A perca, B será eliminado, mas A ainda terá chances de ir para a repescagem, caso o oponente que o derrotou vença sua luta seguinte. Na repescagem, os lutadores mais uma vez são emparelhados, os vencedores vão avançando e os perdedores vão sendo eliminados, até chegar a uma das duas disputas do bronze, contra um dos perdedores das semifinais - isso mesmo, o judô, inclusive nas Olimpíadas, confere uma medalha de ouro, uma de prata, mas duas de bronze, cada uma disputada por um dos perdedores de uma das semifinais contra um dos vencedores de uma das chaves da repescagem.

Como eu já disse lá na introdução, o judô também possui uma versão paralímpica, regulada pela IJF em pareceria com a IBSA, a Associação Internacional de Esportes para Cegos. O judô paralímpico é disputado apenas por deficientes visuais, e usa as mesmas regras da IJF, com algumas poucas modificações especificadas pela IBSA; a mais notável diferença nas regras é que a luta sempre começa com ambos os judocas tocando com suas mãos na gola do oponente, em uma pegada fraca conhecida como kumikata. Durante a luta, toda vez que os judocas se separam, o árbitro deve dar o comando de matte, reconduzi-los ao centro do tatami e restabelecer a kumikata. Todos os paratletas competem juntos, independentemente do grau de sua deficiência; deficientes visuais totais são identificados por um pequeno círculo vermelho presente nas mangas de seu judogi, e têm direito a um assistente para reconduzi-los ao centro do tatami e para fora deste quando acaba a luta. As categorias de peso do judô paralímpico são as mesmas usadas nos torneios da IJF.

O judô faz parte do programa das Paralimpíadas desde 1988 no masculino e desde 2004 no feminino. Também faz parte do IBSA World Championships and Games, um torneio disputado a cada quatro anos que inclui todos os esportes regulados pela IBSA, desde a primeira edição, em 1999, no masculino, e desde a segunda, em 2003, no feminino. O judô paralímpico também tem seu próprio Campeonato Mundial, disputado a cada dois anos, exceto em ano de Paralimpíada, desde 2002.

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