segunda-feira, 1 de agosto de 2016

Vela

Hoje eu vou falar de mais um esporte olímpico, a vela - também chamado por aqui de iatismo. Para falar a verdade, já há um bom tempo que eu penso em escrever um post sobre vela, mas sempre acabei mudando de ideia por achar que ficaria muito grande. Acho que hoje é o dia de descobrir se isso é verdade ou não.

Como o nome sugere, a vela é um esporte que consiste de corridas disputadas usando barcos a vela, impulsionados somente pela força do vento. O uso deste tipo de barco para a navegação remonta aos tempos pré-históricos, com pinturas de barcos a vela datadas de cinco mil anos a.C. tendo sido encontradas no Kuwait, e registros de que os árabes, chineses e indianos usavam barcos a vela regularmente bem antes dos europeus terem criado o mesmo conceito. O uso dos barcos a vela para a prática esportiva, entretanto, surgiria mesmo na Europa, mais precisamente na Holanda, e seria bem mais recente, com as primeiras corridas tendo começado no século XVII. O próprio nome dado aos barcos envolvidos nessas corridas, iate, vem de uma palavra holandesa, jacht, que significa "caçada" - e era usada para nomear não os barcos, mas as corridas, devido ao fato de que elas originalmente eram disputadas por apenas dois barcos, e um deles perseguia o outro, como se o estivesse caçando.

Da Holanda, a prática da vela se espalharia para o restante da Europa, e logo diferentes tipos de barco começariam a surgir, cada um mais apropriado para um tipo de corrida, levando em conta fatores como a velocidade, a resistência e o número de tripulantes. Como é um esporte bastante caro, a vela jamais se tornaria verdadeiramente popular, mas, a partir de meados do século XIX, veria uma contínua expansão em sua prática, graças ao surgimento, na Inglaterra, dos chamados Iate Clubes, clubes onde os praticantes podiam não somente guardar e cuidar da manutenção de seus barcos, mas também disputar corridas contra outros membros ou até mesmo contra membros de outros Iate Clubes. Essas corridas logo se tornaram conhecidas como regatas, termo que originalmente era usado para corridas de remo, mas que hoje está fortemente associado à vela.

Como de costume, no início praticamente cada Iate Clube tinha suas próprias regras para a construção dos barcos e disputa das regatas, o que fazia não somente com que regatas que envolvessem barcos de diferentes clubes fossem bastante complicadas de se realizar, mas também com que provas envolvendo barcos de diferentes países fossem praticamente impossíveis. Para tentar remediar essa situação, em 1907, por iniciativa das federações nacionais do Reino Unido e da França, seria fundada a União Internacional de Iatismo (IYRU), que, em 1996, mudaria de nome para Federação Internacional de Vela (ISAF), e, em 2015, seguindo uma tendência mundial, decidiria passar a se chamar World Sailing. Hoje, a World Sailing conta com 120 membros, incluindo o Brasil, e é responsável não somente pelas regras relacionadas às corridas em si, mas também por aquelas que dizem respeito à construção dos barcos que participarão delas.

Atualmente, a World Sailing reconhece três tipos de prova de vela. A mais conhecida, utilizada tanto nas Olimpíadas como no Mundial, é a chamada fleet race. Uma prova de fleet race é composta por uma série de regatas, normalmente uma por dia - no mínimo três, sem máximo, embora costumem ser disputadas dez ou doze. Cada uma dessas regatas se assemelha a uma prova de automobilismo, com um circuito fechado, demarcado com boias, uma quantidade determinada de voltas nesse circuito para se completar a prova, e um determinado número de barcos - no mínimo quatro, novamente sem máximo - competindo todos juntos para ver quem chega primeiro. A pontuação é atribuída "ao contrário", com aquele que chega em primeiro lugar perdendo um ponto, o segundo perdendo dois, e assim sucessivamente; ao final da última regata, o barco com menos pontos perdidos será o vencedor. Nas Olimpíadas e no Mundial, a última regata é conhecida como "corrida da medalha", e dela só participam os dez melhores colocados até então.

O segundo tipo de prova é a chamada match race, da qual participam apenas dois barcos, um contra o outro, em uma única regata, sendo vencedor o que cruzar a linha de chegada primeiro. A mais famosa prova de match race do mundo é a America's Cup, disputada em intervalos irregulares desde 1851, atualmente entre o vencedor do ano anterior e o vencedor da Louis Vutton Cup, torneio composto por uma série de match races nas quais o perdedor é eliminado, até que só reste um barco. Finalmente, temos a team race, da qual participam quatro, seis ou oito barcos, mas, ao invés de competirem individualmente entre si, os barcos representam dois times, de dois, três ou quatro barcos cada. Também disputada em uma única regata, a principal característica da team race é a de que a equipe vencedora não é a do barco que chega primeiro, e sim a que soma mais pontos, com a primeira posição valendo um número de pontos igual ao número de barcos competindo, e cada posição subsequente um ponto a menos - desta forma, em uma prova de seis barcos, se uma equipe chega com seus barcos nas posições 2, 3 e 4, ela vence a que chegou com um barco em primeiro, pois somará 12 pontos (5 + 4 + 3), contra 9 da rival (6 + 2 + 1). Essa característica faz com que regatas de team race contem com muita estratégia. A principal competição de team race atualmente se chama 2K, e é disputada por equipes de dois barcos cada em várias etapas ao longo do ano em diversos países da Europa; assim como a Louis Vutton Cup, cada etapa da 2K é composta por regatas eliminatórias, sendo que as equipes também ganham pontos por sua posição final em cada etapa, se consagrando campeã aquela que tiver mais pontos ao final da última etapa.

Além de classificar as provas por tipo, a World Sailing também as classifica por formato, sendo reconhecidos, hoje, quatro. O mais comum é o short course, no qual as regatas são disputadas nas chamadas "águas protegidas", como em uma baía ou porto. O segundo formato é a inshore ou coastal, na qual a regata acontece em mar aberto, mas sempre com todos os barcos conseguindo ver a terra firme a olho nu; provas de inshore normalmente são disputadas em praias ou entre ilhas próximas. O terceiro formato é o offshore, no qual as regatas ocorrem em mar aberto, e, em alguns trechos, pode ser que o barco não consiga ver terra firme a olho nu; provas de offshore normalmente são bem mais demoradas que as demais, podendo durar, inclusive, mais de um dia. Finalmente, temos o formato oceanic, semelhante ao offshore, mas no qual as provas são compostas de várias etapas, como uma prova de ciclismo de estrada, e os barcos passam a maior parte do tempo sem conseguir ver terra firme; a mais famosa das provas oceanic é a Volvo Ocean Race, disputada a cada três anos desde 1973, na qual os barcos simplesmente dão a volta ao mundo ao longo de 9 etapas, cada uma delas durando nada menos que um mês inteiro. Os tipos e formatos de prova podem ser combinados livremente - ou seja, podem existir provas de fleet, match e team race em qualquer um dos quatro formatos.

Mas ainda falta a classificação mais importante de todas: aquela que é feita por classe. Como já foi dito, existem diferentes tipos de barco, alguns feitos para apenas um tripulante, outros para dois, três, ou até mais - barcos que participam da Volvo Ocean Race, por exemplo, possuem nove integrantes cada. Características como o formato do casco e tamanho da vela podem fazer com que um tipo de barco seja mais veloz, mais resistente, ou mais eficiente nas curvas do que os outros; por isso, seria extremamente injusto que todos os tipos de barco pudessem competir juntos na mesma prova - até porque isso poderia fazer com que todos os competidores decidissem usar o "melhor", levando à extinção dos demais. Para evitar esse cenário, a World Sailing classifica suas provas por classe, sendo classe nada menos que o tipo de barco usado. Para cada classe, a World Sailing possui regras rígidas referentes ao seu formato, manuseio, e até mesmo à sua construção; essas regras são revisadas de tempos em tempos, o que faz com que, regularmente, surjam novas classes ou desapareçam algumas das antigas. Diferentemente do que ocorre com a combinação de tipos e formatos, nem todas as classes podem ser usadas em todas as provas - um pequeno barco Finn, por exemplo, seria destruído na Volvo Ocean Race, enquanto o gigantesco Ocean 65 teria um certo problema em uma prova disputada em short course. A decisão de qual classe é permitida em qual prova, portanto, obedece a critérios técnicos, e é proferida pelo organizador da prova em questão. Alguns torneios, como as Olimpíadas e o Mundial, permitem a participação de várias classes, mas não juntas; nesse caso, é disputada uma prova para cada classe, com um vencedor para cada uma delas - das Olimpíadas, atualmente, por exemplo, participam oito classes, para um total de dez provas, com um medalhista de ouro, um de prata e um de bronze em cada uma delas. É importante notar que a World Sailing altera as classes participantes das Olimpíadas e do Mundial com frequência, buscando sempre incluir as mais populares ou que precisam de um empurrãozinho para se popularizar, e excluindo as que já não tenham mais tanta popularidade.

É importante registrar também que a maioria das classes possui provas em separado para homens e mulheres - ou seja, provas masculinas e femininas - embora, pela própria natureza do barco - como, por exemplo, devido à força necessária para manobrá-lo - a World Sailing reserve algumas classes para provas exclusivamente masculinas; para compensar, algumas classes são, internacionalmente, apenas usadas para provas femininas, embora, em torneios regionais e nacionais, possam existir provas masculinas dessas mesmas classes. Também é possível que algumas classes tenham provas abertas; nesse caso, homens e mulheres competem uns contra os outros, seja em barcos com equipes formadas apenas por homens, apenas por mulheres, ou com equipes mistas.

Também é interessante notar que existe a vela paralímpica, regulada desde 2014 pela World Sailing - antes disso, ela era de responsabilidade da Associação Internacional de Vela para Deficientes (IFDS), que ainda existe, mas hoje atua como uma afiliada da World Sailing, e não como um órgão independente. Diferentemente do que ocorre com outros esportes paralímpicos, a vela é aberta a todos os paratletas (exceto a deficientes visuais e intelectuais), independentemente de sua deficiência, não existindo, portanto, o sistema de classificação, com atletas como cadeirantes, amputados e paralisados cerebrais participando das mesmas provas. As classes utilizadas na vela paralímpica são específicas, seja usando barcos fabricados especialmente para paratletas ou barcos das demais classes com modificações, mas os tipos e formatos de prova são os mesmos.

Evidentemente, eu vou falar aqui um pouco sobre as classes, mas não sobre todas, pelo simples motivo de que são muitas: atualmente, a World Sailing reconhece mais de cem classes, e pelo menos umas 25 já foram reconhecidas no passado, mas hoje só são usadas em provas nacionais, ou nem são mais usadas em lugar nenhum. Vou me limitar, portanto, às classes atualmente presentes nas Olimpíadas, falando, também, de algumas famosas ou importantes do passado, e de algumas hoje usadas em provas de destaque.

Vamos começar pelos barcos para uma pessoa, mais especificamente pela classe Finn. Considerado o que mais demanda da parte física e estratégica do velejador, um barco da classe Finn tem 4,5 metros de comprimento, 6,66 m de altura, 10,6 m2 de área de vela, e pesa 107 Kg, sendo construído com alumínio, fibra de carbono e polímeros sintéticos, como poliéster, tecnora e kevlar. A classe Finn faz parte do programa das Olimpíadas desde 1952, o que faz com que essa seja a classe há mais tempo no programa olímpico. Seu criador foi o sueco Rickard Sarby, especialista em construir canoas, mas que, em 1949, decidiu se aventurar também dentre os iates.

A classe mais popular dentre os praticantes de vela é a Laser. Considerado o de mais simples manejo e o mais resistente, o barco Laser é fabricado com um composto conhecido como PRG (da sigla em inglês de "vidro reforçado por plástico"), que envolve um núcleo de espuma. Cada barco tem 4,23 m de comprimento, 6,12 m de altura, área de vela de 7,06 m2 e pesa apenas 59 Kg, o que facilita seu transporte - o Laser, inclusive, foi criado em 1969 pelos canadenses Bruce Kirby e Ian Bruce, que desejavam um barco de competição que pudessem levar na caçamba de sua caminhonete. As regras da World Sailing permitem que o Laser seja manejado por uma ou por duas pessoas, mas em todas as competições internacionais ele é manejado por apenas uma. O Laser faz parte do programa das Olimpíadas desde 1996.

A classe Laser possui uma "parente", a Laser Radial, que usa o mesmo casco e mastro da Laser, mas uma vela menor, de 5,76 m2, o que demanda menos força do velejador para manejá-la. Por causa disso, em competições internacionais, a Laser Radial é disputada apenas no feminino, embora em competições nacionais ou regionais haja provas masculinas destinadas a juvenis e iniciantes; em contrapartida, a Laser, em competições internacionais, é disputada apenas no masculino. A Laser Radial faz parte das Olimpíadas desde 2004.

A World Sailing também reconhece as classes da chamada "prancha a vela" (ou windsurf), na qual os "barcos" consistem de uma espécie de prancha de surf com uma vela anexa. A classe olímpica dessa modalidade se chama RS:X, e faz parte do programa desde 2008 (embora a prancha a vela tenha estreado em 1984, mas com outra classe). A prancha da RS:X mede 2.86 m de comprimento por 93 cm, e pesa por volta de 15 Kg; o mastro tem 5,2 m de altura para o masculino e 4,9 m para o feminino, e a vela tem 9,5 m2 para o masculino e 8,5 m2 para o feminino. O conjunto completo, no masculino, pesa 19 Kg, e, no feminino, 17 Kg. A RS:X é considerada a prancha mais segura dentre as classes do windsurf, mantendo a estabilidade em velocidades até 64 Km/h.

Para a vela paralímpica, a classe mais popular dentre os praticantes é a 2.4mR, que faz parte das chamadas construction classes, classes nas quais cada fabricante pode mudar um detalhe aqui e ali sem descaracterizar o barco - algo que não é permitido nas demais classes. Uma das razões para a popularidade é que, na 2.4mR, o velejador pode passar todo o tempo sentado, com todos os equipamentos necessários para o controle do barco e das velas estando ao alcance de suas mãos. Atualmente, o mais famoso fabricante de barcos 2.4mR é o sueco Peter Norlin, e o barco usado nas Paralimpíadas é o Norlin Mk3 One Design, criado por ele em 2004, que tem 4,16 m de comprimento, 4,65 m de altura, vela de 7,5 m2, e pesa 260 Kg. A classe 2.4mR faz parte das Paralimpíadas desde 2000, com o Norlin Mk3 sendo usado desde 2008.

Vamos passar agora para os barcos de dois tripulantes, começando pela classe 470, considerado o barco de dois tripulantes mais fácil de ser manejado, embora ainda assim necessite de uma boa dose de trabalho de equipe - razão pela qual este é o barco preferido nas escolas de vela, e o que costuma ser usado por iniciantes em barcos de dois tripulantes, que depois migram para outras classes. O nome da classe vem do comprimento do barco, 4,7 m (ou 470 cm). Um barco 470 tem três velas, com a maior, conhecida como spinnaker, que infla quando recebe vento, tendo área de 13 m2, a principal tendo 9,12 m2, e uma menorzinha, conhecida como jib, virada para a parte traseira do barco, e que auxilia nas curvas, tendo 3,58 m2. O barco tem 6,76 m de altura, pesa 120 Kg, e é feito de fibra de vidro, com certas partes do casco sendo "ocas" e atuando como tanques de flutuação. O 470 foi criado em 1963 pelo francês André Cornu, e a classe faz parte das Olimpíadas desde 1976.

Outra classe bastante popular para dois tripulantes é a 49er, que, assim como a 470, tira seu nome do comprimento do barco - 4,9 m. Criado na década de 1990 pelo neozelandês Julian Bethwaite, o 49er tem como principal característica o fato de que cada tripulante tem funções específicas: o timoneiro toma as decisões táticas e controla a direção do barco, enquanto o manejador controla a posição das velas - o 49er tem três, com a principal tendo área de 14,17 m2, a jib tendo 5,8 m2, e a spinnaker tendo 37,16 m2; a vela principal do 49er é feita de um material sintético chamado mylar, que lhe dá um aspecto "transparente" diferente do tradicional. Um barco 49er é feito de alumínio e fibra de carbono, tem 7,5 m de altura e pesa 94 Kg. A classe faz parte das Olimpíadas desde 2000.

Assim como a Laser, a 49er tem uma parente, a 49er FX - e, também como a Laser, em competições internacionais a classe 49er é exclusivamente masculina, enquanto a 49er FX é exclusivamente feminina, embora competições nacionais e regionais de juvenis e iniciantes tenham provas masculinas de 49er FX. O barco da 49er FX usa o mesmo casco da 49er, mas com alguns componentes diferentes referentes ao manuseio da vela, o que permite que sejam usadas velas menores - a principal tem 13,8 m2, a jib tem 5,8 m2, e a spinnaker tem 25,1 m2 - o que faz com que seja necessário menos força para o manuseio. A classe 49er FX fará sua estreia nas Olimpíadas em 2016.

Outra classe que fará sua estreia em 2016 é a Nacra 17, que, adivinhem, também tira seu nome do comprimento do barco - 5,25 m, ou 17 pés. O Nacra 17 é um catamarã - barco cujo casco é composto de múltiplas partes - mas foi feito para ser mais leve e mais fácil de manejar que os demais catamarãs regulados pela World Sailing. O nome Nacra vem do fabricante, Nacra Racing, firma especializada na construção de barcos de competição, selecionada pela World Sailing especificamente para criar esse novo barco. O Nacra 17 é feito de fibra de carbono, epoxy e materiais sintéticos patenteados pela Nacra; tem 9 m de altura, pesa 138 Kg, e tem três velas, com a principal tendo área de 14,65 m2, a jib tendo 4 m2, e a spinnaker tendo 19,5 m2.

Algumas classes que já não fazem mais parte das Olimpíadas merecem destaque, como a classe Star, que, tendo feito parte dos Jogos de 1936 a 2012 (exceto em 1976), é a recordista em aparições olímpicas, com 18 (a Finn vem em segundo, com 16). Considerada o carro-chefe das Olimpíadas na época em que estava lá, a Star usa um barco de 6,9 m de comprimento e peso mínimo de 671 Kg, com duas velas, tendo a principal 20,5 m2 e a jib 6 m2, presas a um mastro de 9,5 m de altura; essas características fazem com que, proporcionalmente (em relação ao tamanho do casco), o Star tenha a maior vela dentre todas as classes da World Sailing. A principal característica do Star, entretanto, é a de que o peso somado de seus dois tripulantes - um timoneiro e um manejador, como ocorre no 49er - não pode ultrapassar os 250 Kg. O barco do Star é feito de fibra de vidro, alumínio e kevlar, e foi criado pelo norte-americano Francis Sweisguth em 1910.

Outra classe que merece destaque é a Flying Dutchman (nome que significa "holandês voador", conferido meio que de brincadeira por seus criadores, os holandeses Uus Van Essen e Conrad Gülcher, em 1951, mas que acabou pegando). O Flying Dutchman faz parte das chamadas open classes, classes nas quais modificações nos barcos, feitas pelos fabricantes ou pelos próprios velejadores, são não somente permitidas, como também encorajadas (dentro de um certo limite, logicamente, para não descaracterizar os barcos); isso faz com que raramente um Flying Dutchman seja idêntico a outro, embora todos tenham características em comum, como o comprimento de 6 m, o peso de 130 Kg e a área total de vela de 18,6 m2; até mesmo a altura do mastro pode ser personalizada. Um Flying Dutchman possui três velas, sendo uma principal, uma spinnaker e uma chamada genoa, que faz a mesma função da jib mas é bem maior que ela, algumas vezes maior até que a vela principal. A classe fez parte das Olimpíadas entre 1960 e 1992.

Antes do Nacra 17, o "catamarã olímpico" era o da classe Tornado, que tem dois cascos paralelos, e como principal característica a de que, na maior parte do tempo, apenas um deles toca a água, com o outro permanecendo suspenso - e os dois tripulantes, diferentemente do que se possa imaginar, se posicionando no casco suspenso. O Tornado foi criado pelo inglês Rodney March, que, curiosamente, o inventou para participar de um concurso organizado pela então IYRU, em 1967, que escolheria um barco para ser o principal catamarã usado em competições internacionais, na qual o Tornado derrotou facilmente todos os demais inscritos. O Tornado tem 6 m de comprimento, 9 m de altura, pesa 155 Kg, e tem três velas: a principal tem 16,61 m2, a jib tem 5,33 m2, e a spinnaker tem 25 m2. Outra característica do Tornado, feito de alumínio, carbono e kevlar, é que seu mastro é giratório, o que demanda mais esforço, mas permite maior controle. O Tornado fez parte das Olimpíadas entre 1976 e 2008.

A mais popular classe que já não faz parte das Olimpíadas é a Soling, um barco extremamente resistente, feito de alumínio e fibra de vidro reforçada com poliéster, e que segue rígidas regras de fabricação - costuma-se dizer que todos os Soling são feitos do mesmo molde - o que garante que a habilidade do velejador seja o principal fator determinante de sucesso. Ao contrário do que possa parecer, entretanto, o Soling é complicado de manejar, demandando força, agilidade, velocidade e bom trabalho de equipe de seus dois tripulantes. Um barco Soling tem 8,15 m de comprimento, 9,3 m de altura, e pesa uma tonelada; suas três velas são enormes, com a principal tendo 15,6 m2, a genoa tendo 8,1 m2, e a spinnaker, naquela que é uma das principais características do barco, tendo qualquer tamanho entre 35 e 45 m2. O Soling foi criado pelo norueguês Jan Linge em 1965, e fez parte das Olimpíadas entre 1972 e 2000.

Na vela paralímpica, a principal classe para dois tripulantes é a SKUD 18, que, assim como o Nacra 17, foi "criado sob encomenda", quando a IFDS encomendou ao australiano Chris Mitchell, da Access Sailing, um barco de dois tripulantes para fazer parte do programa das Paralimpíadas (que, até então, só tinha barcos de um e de três), o qual ele criou em parceria com Julian Bethwaite, criador do 49er. O SKUD 18 tem 5,8 m de comprimento, 9 m de altura e pesa 400 Kg; sua vela principal tem 10,5 m2, a jib tem 5 m2, e a spinnaker tem 20 m2. O barco é feito de alumínio, carbono e polímeros sintéticos. O SKUD 18 faz parte das Paralimpíadas desde 2008. Um detalhe curioso é que, nas Paralimpíadas, as provas de SKUD 18, além de abertas, são mistas, sendo obrigatório que cada barco tenha um homem e uma mulher.

Atualmente, não há nenhuma classe nas Olimpíadas de barcos para três tripulantes, mas elas ainda existem, tendo espaço em outros torneios. A mais famosa delas é a classe Dragon, que fez parte do programa olímpico entre 1948 e 1972. Criado pelo norueguês Johan Ankler em 1929, o Dragon é considerado um barco elegante, resistente e de fácil manutenção, construído com fibra de vidro, madeira e polímeros sintéticos. Um barco Dragon tem 8,9 m de comprimento, 10 m de altura e pesa 1.700 Kg; sua vela principal tem 16 m2, a genoa tem 11,7 m2, e a spinnaker tem 23,6 m2. Pelas regras da classe, o peso somado dos três tripulantes não pode ultrapassar os 285 Kg.

Outra classe popular para três tripulantes é a Yngling, que, em competições internacionais, é exclusivamente feminina. "Yngling", em norueguês, significa algo como "jovenzinho", e o barco foi batizado com esse nome por seu criador, Jan Linge, que, em 1967, quis criar um barco especialmente para seu filho, na época com 14 anos. O barco Yngling é bem menor que o Dragon, tendo 6,37 m de comprimento, 7,26 m de altura e pesando 645 Kg; a vela principal tem 10,5 m2, a jib tem 5,33 m2, e a spinnaker tem área máxima de 20 m2, mas não mínima. O barco é feito de feito de alumínio e fibra de vidro reforçada com poliéster, e o peso somado de seus três tripulantes não pode exceder 225 Kg - por causa disso, em competições nacionais e regionais masculinas, o Yngling costuma ter apenas dois tripulantes ao invés de três. A classe Yngling fez parte das Olimpíadas em 2004 e 2008.

Para a vela paralímpica, a classe para três tripulantes mais popular é a Sonar, que também possui provas disputadas por atletas sem qualquer deficiência. O Sonar foi criado em 1979 pelo co-criador do Laser, Bruce Kirby, e, a rigor, é um barco para de 3 a 5 tripulantes, embora em competições internacionais seja sempre tripulado por três. Um barco Sonar é feito de alumínio, fibra de carbono e madeira, e seu convés possui amplos espaços abertos, o que torna fácil a adaptação para a vela paralímpica. O Sonar tem 7 m de comprimento, 9,25 m de altura, e pesa 950 Kg, sendo que 408 Kg são de lastro - ou seja, fora de competição, ele só pesa 542 Kg. As regras estipulam que a área da vela principal e da jib ou genoa somadas não pode ultrapassar 23,2 m2; a spinnaker tem 22,8 m2, mas não é usada nas competições paralímpicas. O Sonar faz sua estreia em Paralimpíadas na edição de 2000.

Para finalizar o assunto, vale falar da classe Ocean 65, a usada na já citada Volvo Ocean Race. Se você acha que todo barco a vela de competição é pequenino, saiba que, feito de madeira, alumínio, fibra de vidro e vários compostos sintéticos e tripulado por nove pessoas, o Ocean 65 tem 22,14 m de comprimento, 30,3 m de altura, e pesa nada menos que 12,5 toneladas. Somente sua vela principal tem 163 m2 (maior que um apartamento), e sua área total de vela chega a mais de 578 m2 - um Ocean 65 pode ter até 3 jibs e uma gennaker, vela mista que reúne características da genoa e da spinnaker. Criado pela empresa Farr Yacht Design em 2013 para substituir o Ocean 70, usado na Volvo Ocean Race até então, o Ocean 65 é um barco caríssimo - custa cerca de cinco milhões de euros - mas que possui todos os equipamentos de segurança, acomodações e, evidentemente, a resistência e manobrabilidade necessárias para uma regata que dá a volta ao mundo.

A vela estreou nas Olimpíadas em 1900, em Paris - o esporte estava previsto no programa de 1896, mas acabou não estreando por falta de competidores inscritos. Após ficar de fora em 1904, retornaria em 1908, para não mais sair. A vela olímpica possui duas curiosidades: primeiro, como as regras da World Sailing determinam que as provas devem ser obrigatoriamente disputadas em águas marinhas, a vela é o único esporte que possui uma permissão especial do COI para que todas as suas provas sejam disputadas fora da cidade-sede - em 2012, por exemplo, a cidade-sede era Londres, que não é banhada pelo mar, o que fez com que as provas de vela tivessem de ser realizadas nas cidades vizinhas de Weymouth e Portland. A segunda é que, como o sistema de classes de barcos só foi instituído em 1930, nas edições dos Jogos até 1928 eles não eram divididos por classe, e sim por características como o comprimento do casco - existindo as "classes" 6 metros, 7 metros e 8 metros, por exemplo - e o peso do barco - com as "classes" meia tonelada, uma tonelada etc. Como vocês podem deduzir, aliás, os barcos usados nas primeiras Olimpíadas eram bem maiores e mais pesados que os usados hoje. As primeiras provas por classe começaram a ser disputadas em 1932, mas as provas nas quais os barcos eram divididos por comprimento ainda permaneceram no programa até 1968.

Atualmente, fazem parte do programa das Olimpíadas as provas de Finn masculino, Laser masculino, Laser Radial feminino, 470 masculino, 470 feminino, 49er masculino, 49er FX feminino, RS:X masculino, RS:X feminino e Nacra 17 aberta. No passado (descartando as provas com classificação por comprimento ou peso), também fizeram parte do programa olímpico as classes Snowbird, O-Jollie, Star, Firefly, Flying Dutchman, Europa, Swallow, Dragon, Elliott, Soling, Tempest, Yngling e Tornado, e as classes de windsurf Windglider, Division II, Lechner A-390 e Mistral. Todas as provas das Olimpíadas hoje são do tipo fleet race, no formato short course, mas, no passado, já foram disputadas provas de match race ou no formato offshore.

Todas as classes que fazem parte do programa olímpico também participam do Campeonato Mundial de Vela, disputado a cada quatro anos desde 2003, também no sistema de fleet race short course, criado para ser o principal torneio classificatório para as Olimpíadas. Cada uma das classes, olímpicas e não-olímpicas, também possui seu próprio Mundial, disputado anualmente; assim, temos o Campeonato Mundial de Star, disputado desde 1923, o Mundial de Finn, desde 1956, o Mundial de Laser, desde 1974, e assim sucessivamente, todos em fleet race short course. A World Sailing também organiza o Campeonato Mundial de Match Race, disputado anualmente desde 1988 no masculino e 1999 no feminino, sempre em short course; o Campeonato Mundial de Team Race, disputado em intervalos irregulares desde 1995, também em short course; e o Campeonato Mundial de Team Race Offshore, disputado a cada dois anos desde 2004, cada um desses com suas próprias classes, incluindo algumas não-olímpicas.

Nas Paralimpíadas, a vela estreou em 1996, com uma prova de demonstração (sem valer medalhas) da classe Sonar. Na edição seguinte, em 2000, a vela entrou oficialmente para o programa paralímpico, com provas de 2.4mR e Sonar, tendo as de SKUD 18 estreado em 2008. Todas as três provas das Paralimpíadas são abertas, ou seja, homens e mulheres competem juntos, uns contra os outros. Atualmente, a vela está no centro de uma grande polêmica, pois o Comitê Paralímpico Internacional (IPC) decidiu que o esporte não fará parte das Paralimpíadas de 2020, em Tóquio, sob o argumento de que o esporte não cumpre os pré-requisitos de alcance mundial necessários para participação no evento (em outras palavras, poucos países praticam a vela paralímpica na opinião do IPC); a IFDS e a World Sailing tentam reverter essa situação, mas, até agora, não parece que terão sucesso.

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