segunda-feira, 23 de maio de 2016

Remo

Desde que eu fiz o post sobre canoagem que eu penso em fazer um sobre remo. E vai ser agora.

O remo é um dos esportes mais antigos do mundo: existem registros que confirmam que já no Antigo Egito existiam corridas disputadas no Rio Nilo entre embarcações impulsionadas pela força dos remos, inclusive apontando o faraó Amenófis II como um dos mais habilidosos remadores de sua época. Na Grécia Antiga e no Império Romano a prática continuou, com disputas entre barcos a remo fazendo parte de festivais e de eventos esportivos. Um dos mais famosos festivais que contava com provas de remo era disputado nos canais de Veneza, no Século XIII, e se chamava Regata, nome que, hoje em dia, curiosamente não é mais usado para provas de remo, e sim de vela.

Evidentemente, o esporte de remo como é disputado hoje tem pouco a ver com essas versões antigas, porém, e todos concordam que ele teria surgido na Inglaterra, no início do século XVIII. Na época, havia no Rio Tâmisa um serviço de "táxi aquático", semelhante às famosas gôndolas de Veneza, no qual trabalhavam homens conhecidos como watermen, cuja função era levar as pessoas de uma margem à outra do rio em pequenos barcos a remo. Cada waterman era dono de seu próprio barco, e, em suas horas de folga, eles costumavam disputar quem conseguia cruzar o rio mais depressa, para poder contar vantagem sobre os demais depois. Ao perceber que os watermen estavam competindo, algumas empresas sediadas às margens do rio resolveram começar a "patrocinar" as corridas, oferecendo prêmios em dinheiro para o vencedor, ou até mesmo oferecendo barcos mais modernos e velozes para os melhores, devidamente identificados com o nome ou logotipo da empresa, para que passassem a promovê-la em suas travessias. O próximo passo viria quando essas empresas, ao invés de simplesmente patrocinar as corridas realizadas pelos watermen, passassem a organizar as suas próprias. Uma das mais famosas, a Doggett's Coat and Badge, foi disputada pela primeira vez em 1715, em um trajeto de 7,4 Km entre a Ponte de Londres e o píer de Cadogan, em Chelsea; a Doggett's existe até hoje, e ainda é disputada exclusivamente por watermen - embora seu número, hoje, seja bastante reduzido, e sua principal função seja transportar mercadorias, e não pessoas.

As corridas realizadas pelos watermen eram grandes sucessos de público, e muitos daqueles que as assistiam começariam a se aventurar ou a tentar competir também, ou a praticar o remo como opção de atividade física. Como somente watermen podiam participar das corridas, logo começariam a surgir clubes e associações de remo, para que essas outras pessoas também pudessem desfrutar do esporte. As primeiras associações de remo datam do final do século XVIII: por volta de 1790 já estavam estabelecidos os clubes de remo da Westminster School e da Etton College, abertos a alunos dessas escolas; e o Star Club e o Arrow Club, abertos a atletas de remo amadores. No início do século XIX, as universidades inglesas também começariam a oferecer o remo como opção de atividade física para seus alunos, sendo, então, fundadas aquelas que talvez sejam as duas mais famosas e respeitadas associações de remo do planeta, a da Universidade de Oxford, que começou seu programa em 1815, e a da Universidade de Cambridge, que começou em 1827. Em 1829, alunos de ambas as universidades decidiriam competir uns contra os outros, no segundo evento esportivo intercolegial da história (o primeiro seria uma partida de críquete disputada também entre alunos dessas duas universidades dois anos antes), dando origem à maior rivalidade da história do remo - que persiste até hoje, sendo questão de honra para os alunos de uma dessas universidades bater a rival na corrida anual disputada entre elas.

Conforme o remo se popularizava, ele começava a sair das fronteiras da Inglaterra. O primeiro clube de remo fundado fora daquele país seria o Der Hamburger und Germania Ruder Club, da cidade de Hamburgo, Alemanha, fundado em 1836; nos Estados Unidos, o primeiro seria o Narragansett Boat Club, da cidade de Providence, Rhode Island, fundado em 1838. Em 1843, as universidades de Harvard e Yale começariam seus programas de remo, e, em 1852, disputariam uma corrida entre si, o primeiro evento esportivo intercolegial da história dos Estados Unidos, iniciando uma rivalidade quase tão ferrenha quanto a de Oxford e Cambridge, que também dura até hoje. No Brasil, a primeira prova de remo seria disputada em 1851, no Rio de Janeiro, e o primeiro clube, o Ruder-Club Porto Alegre, seria fundado em 1888 em Porto Alegre, Rio Grande do Sul. O remo já foi o esporte mais popular do Brasil, o que pode ser notado pelo fato de que vários clubes esportivos do país, incluindo três dos quatro grandes clubes de futebol do Rio de Janeiro (Botafogo, Flamengo e Vasco), foram fundados como clubes de remo, com a maioria realizando atividades deste esporte até hoje.

Com a internacionalização do esporte, surgiu a necessidade de se unificar as regras, para permitir que todos praticassem o remo da mesma forma e possibilitar competições entre atletas de países diferentes. Assim, em 1892, representantes das federações nacionais de França, Suíça, Bélgica, Itália e Adriática (hoje parte da Itália) se reuniriam e fundariam a Federação Internacional das Associações de Remo (FISA, da sigla em francês), a mais antiga federação internacional esportiva do mundo ainda em funcionamento. Hoje, a FISA conta com 148 membros, dentre eles o Brasil, que se filiou apenas em 1931.

Atualmente, a FISA reconhece cinco modalidades do remo; todas elas, porém, possuem algumas características em comum. Em primeiro lugar, no remo, diferentemente do que ocorre, por exemplo, com a canoagem, os atletas remam "de costas", sentados de frente para a popa do barco; o movimento usado no remo é bastante característico, e envolve vários músculos, o que faz com que muitos considerem o remo como um exercício completo: o atleta se senta com os joelhos dobrados, e, ao puxar o remo na água, fazendo com que o barco se mova, estica as pernas; então ele retira o remo da água e, enquanto faz um movimento circular com os braços para recolocá-lo, dobra novamente os joelhos. Em segundo lugar, existem dois tipos de barco, o sweep e o scull; no sweep, cada remador tem apenas um remo, e o segura com ambas as mãos, enquanto no scull cada remador possui dois remos, e segura cada um com uma das mãos. Em terceiro lugar, existem barcos para 1, 2, 4 ou 8 remadores, que podem ter ou não um "patrão", um competidor que não rema, mas, sentado de frente para os remadores, dita o ritmo das remadas para eles.

Originalmente feitos de madeira, os barcos atualmente são feitos de duas camadas de um composto de fibra de carbono e plástico revestindo um núcleo de espuma, para garantir resistência, velocidade e pouco peso. Os barcos são pequenos, tendo tamanho pouco mais que o suficiente para acomodar os remadores, e possuem uma espécie de barbatana na parte inferior da popa, para evitar que se virem com o movimento da água. O casco é extremamente fino e levemente arredondado, e a proa é bicuda, para diminuir o arrasto com a água. Os assentos dos remadores não são fixos, correndo sobre uma espécie de esteira para facilitar o movimento da remada, havendo também um suporte para os pés, para firmá-los durante esse movimento. Os remos ficam apoiados em suportes em formato de Y, e são feitos do mesmo composto de fibra de carbono e plástico que os barcos. A parte inferior do remo, chamada lâmina, é achatada, semelhante a uma pá, e tem 50 cm de comprimento por 25 cm de largura. O cabo é cilíndrico, e seu comprimento depende do tipo de barco: remos de sculls têm 2,5 e 3 m de comprimento, enquanto remos de sweeps têm entre 3,4 e 3,6 m.

Atualmente existem dez classes de barcos, cada uma identificada pela FISA por uma sigla: o single scull (1x) conta com apenas um remador, mede em torno de 8,2 m de comprimento, e tem peso mínimo de 14 Kg. O double scull (2x) e o pair (2-) têm dois remadores cada, 10,4 m de comprimento, e peso mínimo de 27 Kg. O coxed pair (2+), tem dois remadores e um patrão, 10,4 m de comprimento e 32 Kg. O quadruple scull (4x) tem 4 remadores, 13,4 m e 52 Kg. O four (4-) tem 4 remadores, 13,4 m e 50 Kg. O coxed four (4+) tem 4 remadores e um patrão, 13,7 m e 51 Kg. E o eight (8+) tem 8 remadores e um patrão, 19,9 m e 96 Kg. Em português, os barcos sweep costumam ser conhecidos por nomes como dois sem e dois com, com o "sem" e o "com", evidentemente, se referindo à presença ou não do patrão (e algumas publicações antigas usando, inclusive os "nomes completos", tipo dois sem patrão ao invés de dois sem).

Uma característica interessante do remo é que, além do peso dos barcos, o peso dos remadores também é levado em conta pelas regras, na forma de duas categorias de competição: a aberta, na qual todos os remadores podem participar, e a leve, na qual só podem participar remadores dentro de uma faixa específica de peso - para o masculino, a média do peso de todos os remadores deve ser menor que 70 Kg, e nenhum remador pode pesar mais de 72 Kg; no feminino, a média deve ser menor que 57 Kg, e nenhuma remadora pode pesar mais de 59 Kg. Embora a lógica diga que um conjunto de remadores mais leve garanta mais velocidade, mais músculos equivalem a mais peso, e, na prática, remadores mais fortes e mais pesados conseguem ser mais rápidos que os mais leves; portanto, a categoria leve foi criada pela FISA em 1974 para garantir que esses atletas mais leves também pudessem competir em alto nível, já que o cenário internacional estava sendo dominado pelos remadores grandes e fortes.

Em relação ao patrão, o raciocínio do peso é inverso: o patrão não rema, então, quanto mais pesado ele for, mais dificuldade os remadores terão para adquirir velocidade. Para evitar que todo mundo saísse colocando patrões pequeninos e leves, a FISA também estipulou regras quanto a seu peso: no masculino, o patrão deve pesar mais de 55 Kg, e, no feminino, mais de 50 Kg. Desde 2000, se o patrão pesar menos que o mínimo, o barco não é desclassificado, mas deverá carregar um lastro equivalente à diferença de peso entre o peso do patrão e o mínimo. Barcos que usam patrão costumam ter um sistema de som, incluído no peso mínimo do barco, que permite ao patrão ditar o ritmo em um microfone, sendo ouvido pelos remadores através de alto-falantes - bem diferente dos primórdios do esporte, no qual o patrão usava um cone vazado para amplificar sua voz. Embora a posição mais usual para o patrão seja sentado na proa do barco, de frente para os remadores, existe um modelo de barco, chamado bowloader, no qual ele vai na popa, deitado como em um divã, com as pernas para dentro da estrutura do barco, o que reduz o atrito com o ar e permite maior velocidade; dessa posição, ele não pode ser visto pelos remadores, mas ainda pode ser ouvido através do sistema de som - mas, como também não pode ver os remadores, deve ter experiência para controlar o ritmo apenas sentindo as remadas. O bowloader costuma ser usado apenas em provas para barcos de dois e de quatro remadores; bowloaders de 8 são considerados perigosos, pois a grande energia cinética gerada pelas remadas pode ferir o patrão em caso de colisão ou adernamento. Bowloaders normalmente são mais comuns em competições nacionais; nas internacionais, a opção da equipe costuma ser pelo assento tradicional. E não há nada nas regras da FISA que proíba bowloaders e barcos tradicionais de competir na mesma prova.

A modalidade do remo mais famosa e popular é a side by side ("lado a lado"), não por acaso a usada nas Olimpíadas e no Mundial. Nela, os barcos são divididos em raias, demarcadas por boias; o número mínimo de raias é duas, mas as regras não estipulam número máximo, podendo haver, em teoria, tantas raias quanto a largura do espaço na qual a prova será disputada permitir - nas Olimpíadas e no Mundial, entretanto, o número de raias é sempre oito. Em cada uma das raias se posicionará um barco, que deve tocar, com sua proa, uma linha de largada imaginária, que cruza a primeira coluna de boias. A um sinal sonoro, os participantes começam a remar, e seu objetivo, sempre se mantendo em sua própria raia, é tocar com a proa do barco antes dos demais uma linha de chegada imaginária, que cruza a última coluna de boias. Evidentemente, quem cruzar essa linha de chegada primeiro será o vencedor. Caso haja mais participantes do que raias, são realizadas provas classificatórias, com os competidores com os melhores tempos nestas se classificando para a final. Algumas provas possuem ainda uma repescagem, disputada pelos barcos eliminados nas classificatórias, que têm, assim, uma segunda chance de chegar na final. Todas as oito classes de barco competem na side by side. Competições internacionais da FISA, como as Olimpíadas e o Mundial, são sempre disputadas em águas calmas, como a de lagos, lagoas e represas, e todas as provas possuem a mesma distância, 2.000 metros, mas outras provas podem ser disputadas em rios e em percursos de qualquer distância - a prova anual entre Harvard e Yale, por exemplo, é disputada no Rio Tâmisa (não o de Londres, mas em um homônimo localizado no estado norte-americano do Connecticut), em um percurso de 6.440 m.

Uma modalidade bastante semelhante à side by side é a chamada dual race. A dual race segue as mesmas regras da side by side, incluindo o uso das raias, mas, nela, apenas dois barcos competem por vez, com o vencedor avançando e o perdedor sendo eliminado até que só reste um, que será o vencedor da prova. Todas as oito classes podem competir na dual race, que pode ser disputada em lagos, lagoas, represas ou rios, em qualquer distância. A Henley Royal Regatta, por exemplo, é disputada nesse formato, no Rio Tâmisa (esse sim o de Londres), em um percurso de 2.112 m. Disputada pela primeira vez em 1839, e realizada em uma pequena cidade chamada Henley-on-Thames, a 64 Km de Londres, a Henley Royal Regatta foi a primeira prova aberta a qualquer remador amador (que não fosse watermen ou aluno de uma escola ou universidade), e até hoje é uma das mais prestigiadas do mundo.

A segunda modalidade mais popular do remo é a head race ou time trial (em português, "contra o relógio"). Normalmente disputada em rios, nela os barcos largam um por vez, separados por intervalos de 10 a 20 segundos. O tempo que cada barco leva para concluir o percurso é registrado separadamente, e o vencedor será aquele que levar menos tempo para fazê-lo - não existe disputa direta na água entre os barcos, portanto. A mais antiga e mais prestigiada head do mundo é a Head of the River Race, disputada, adivinhem, no Rio Tâmisa, em Londres, desde 1926, atualmente em um percurso de 6.840 m. A maior em número de participantes é a Head of the Charles Regatta, disputada no Rio Charles, em Boston, Massachusetts, Estados Unidos, em um percurso de 5.150 m. Essas duas compõem a Tríplice Coroa do remo junto à Head of the Yarra, disputada no Rio Yarra, em Melbourne, Austrália, em um percurso de 8.600 m. Como se pode perceber, a distância nas provas de head é livre, e algumas chegam a ser verdadeiras maratonas, como a Boston Rowing Marathon, disputada em um percurso de 49,2 Km no Rio Whitham, entre Lincoln e Boston, Inglaterra (pois é, se existe um Rio Tâmisa nos Estados Unidos, por que não uma Boston na Inglaterra?) e a insana OC&C Ringvaart Regatta, disputada em um percurso de 100 Km que passa por sete cidades da Holanda, começando e terminando em Kagerplassen. Tradicionalmente, as competições de head são divididas por idade, sendo realizadas provas em até cinco categorias diferentes (júnior, varsity, novatos, adultos e masters), nas classes 1x, 2x, 4x, 2-, 4+ e 8+, masculino e feminino - o que faz com que algumas competições tenham até 60 provas diferentes.

A modalidade mais popular dentre os universitários da Inglaterra é a bumps race. Disputada em rios por barcos 8+, na bumps os barcos largam simultaneamente, mas de pontos diferentes do rio, e o objetivo de cada barco é alcançar os que largaram à sua frente antes de concluir o percurso. Originalmente, as regras exigiam que o barco de trás fizesse contato com o da frente (daí o nome bumps, que significa algo como "trombadas"), mas, atualmente, para evitar danos aos barcos e risco aos tripulantes, o patrão pode fazer um sinal com a mão quando o barco de trás se coloca em condição de toque, "concedendo o bump". Um barco que consiga um bump sobe uma posição em relação à que ocupava na largada (um barco que largou em quinto, com um bump sobe para quarto), mesmo que não ultrapasse aquele imediatamente à sua frente; o objetivo do barco que largou em primeiro, portanto, é cruzar a linha de chegada sem sofrer qualquer bump, e o dos que largaram nas demais posições é conseguir bumps suficientes para alcançar a primeira posição. Provas de bumps são disputadas ao longo de vários dias, sendo campeão aquele que estiver ocupando a primeira posição no último dia, e, a cada dia, as posições de largada serão aquelas nas quais os barcos concluíram o dia anterior - no primeiro dia, podem ser usados os resultados do ano anterior, ou serem disputadas provas classificatórias usando a modalidade head, com os barcos se posicionando em ordem de tempo, do menor para o maior. Como existe uma limitação de distância no percurso, as provas de bumps podem dividir os barcos em vários grupos que competem simultaneamente; ao final de cada dia, o primeiro barco de cada grupo é promovido para o grupo imediatamente superior, enquanto o último é rebaixado para o imediatamente inferior (por exemplo, em grupos de 17 barcos, no final do primeiro dia o barco de número 18, primeiro do grupo B, é promovido a 17, e no segundo dia disputará o grupo A, enquanto o 17, último do A, é rebaixado para o B, passando a ser o 18). As provas de bumps mais tradicionais são as disputadas internamente nas universidades de Oxford e Cambridge (entre alunos delas mesmas, e não uma contra a outra); cada universidade organiza duas provas por ano (a Lent Bumps e a May Bumps em Cambridge, a Torpids e a Summer Eights em Oxford), cada uma delas durando quatro dias e contando com quatro grupos de 17 barcos cada no masculino e dois grupos de 17 barcos cada no feminino.

Finalmente, temos a stake race, modalidade menos popular, e que vem sendo cada vez menos praticada, correndo o risco de desaparecer. Na stake, os barcos remam até um ponto pré-determinado do trajeto, como uma boia ou um barco ancorado, dão a volta nele e retornam, sendo a linha de chegada no mesmo local do ponto de partida. Originalmente, as provas de stake eram disputadas como as dual races, com dois barcos na água de cada vez e os perdedores de cada embate sendo eliminados, mas, devido a um grande número de colisões durante a curva, hoje elas são disputadas como as head, com os barcos largando um por vez espaçados por um intervalo de tempo, e aquele que concluir o percurso no menor tempo se sagrando campeão. A principal dificuldade em uma prova de stake, e principal responsável pela diminuição no número de participantes a cada ano, é justamente a curva, que exige muita força e habilidade no remo, visto que os barcos não possuem leme. As duas principais provas de stake disputadas atualmente são a Green Mountain Head Regatta, disputada no Rio Connecticut, na cidade de Putney, Vermont, Estados Unidos, pelas classes 1x masculino e feminino, em sete categorias de idade cada, e 2x masculino, feminino e misto, em três categorias de soma de idade cada (aberta, até 100 anos e mais de 100 anos); e a Irish Coastal Rowing, disputada no litoral da Irlanda, na cidade de Donegal, por barcos 4+ masculinos e femininos, em um trajeto que conta com três curvas. Por coincidência, ambas as provas percorrem 2.300 m.

O remo faz parte do programa das Olimpíadas desde a segunda edição do evento, em Paris, 1900 - ele chegou a ser incluído no programa de Atenas em 1896, mas, como todas as provas foram canceladas devido ao mau tempo, o COI decidiu desconsiderar essa inclusão. As provas femininas começaram a ser disputadas em Montreal, 1976, e as leves masculinas e femininas em Atlanta, 1996. Atualmente, fazem parte do programa das Olimpíadas 14 provas: 1x, 2x, 4x, 2-, 4- e 8+ masculino; 2x e 4- leve masculino; 1x, 2x, 4x, 2- e 8+ feminino; e 2x leve feminino. Uma regra curiosa da FISA determina que, nas Olimpíadas, cada país só pode inscrever um barco masculino e um feminino - ou seja, se um país inscrever um 8+ masculino, não poderá ter representantes em nenhuma das outras sete provas masculinas. Segundo a FISA, esta regra existe para garantir maior variedade nas competições, e evitar que um mesmo país domine todas das provas do remo. Além das Olimpíadas, o único outro campeonato internacional organizado pela FISA é o Campeonato Mundial de Remo, realizado em intervalos irregulares desde 1966, anualmente desde 1977 - as provas femininas e as leves masculinas foram adicionadas em 1974, e as leves femininas em 1985. Atualmente, no Mundial, são disputadas 22 provas: 1x, 2x, 4x, 2-, 2+, 4- e 8+ masculino; 1x, 2x, 4x, 2-, 4- e 8+ leve masculino; 1x, 2x, 4x, 2-, 4- e 8+ feminino; 1x, 2x e 4x leve feminino. Quando o Mundial cai no mesmo ano de uma Olimpíada, apenas as oito provas que não fazem parte do programa das Olimpíadas (2+ masculino; 1x, 4x, 2- e 8+ leve masculino; 4- feminino; 1x e 4x leve feminino) são disputadas no Mundial. Como já foi dito, todas as provas das Olimpíadas e do Mundial são disputadas na modalidade side by side, na distância de 2.000 metros.

A FISA também é a responsável pela regulação internacional do remo paralímpico. Assim como ocorre em outros esportes paralímpicos, no remo os atletas são divididos em categorias, de acordo com o tipo de sua deficiência, para permitir que todos possam competir em igualdade de condições. A FISA adota três categorias: na LTA (de legs, trunk, arms) competem atletas que possam fazer uso normal das pernas, tronco e braços, como amputados que usem próteses, deficientes visuais e deficientes intelectuais, usando o mesmo barco utilizado no remo não-paralímpico. Já na categoria TA (de trunk and arms) competem os atletas que possam fazer uso normal do tronco e braços, mas não das pernas, como biamputados que não usem próteses e cadeirantes; nessa categoria é usado um barco especial, com um assento fixo, e a técnica de remada é diferente. Finalmente, temos a categoria AS (de arms and shoulders), reservada para atletas que só possam fazer uso normal dos braços, tendo limitação nos movimentos do tronco e das pernas; nessa categoria é usado um barco especial cujo assento, fixo, se parece com uma cadeira, à qual o atleta é amarrado na altura do peito, e uma técnica de remada que somente faz uso dos braços e ombros.

A FISA reconhece quatro categorias de barco para o remo paralímpico: 1x AS masculino, 1x AS feminino, 2x TA misto e 4+ LTA misto. Cada barco 2x misto deve, obrigatoriamente, ter um remador homem e uma remadora mulher, e cada barco 4+ misto deve ter obrigatoriamente dois homens e duas mulheres - o patrão pode ser tanto homem quanto mulher, e não precisa ter qualquer tipo de deficiência. O remo paralímpico faz parte do programa das Paralimpíadas desde Pequim, em 2008, e do Mundial desde 2002, sendo que não são realizadas provas paralímpicas no Mundial em ano de Paralimpíada. Todas as provas da FISA são disputadas na modalidade side by side, na distância de 1.000 metros, mas também existem provas organizadas por outras entidades realizadas em distâncias diferentes e nas modalidades dual, head e até mesmo stake - a Irish Coastal Rowing, por exemplo, conta com provas paralímpicas de 4+ LTA misto.

Para terminar esse post, vale citar um esporte relacionado ao remo bastante curioso, o remo indoor, que, ao contrário do que se possa imaginar, não é disputado em piscinas, e sim usando aquelas máquinas ergométricas presentes em academias de ginástica, que simula a resistência da água, permitindo a remadores amadores e profissionais se exercitarem como se estivessem em um barco. Esse tipo de máquina existe desde meados do século XIX, mas a ideia de usá-la em competições surgiria apenas em 1980, quando ex-remadores dos Estados Unidos organizariam um campeonato entre si para disputar quem conseguiria "concluir uma determinada distância" no menor tempo. Logo a notícia se espalhou, outros ex-remadores decidiram participar, amadores que jamais haviam entrado em um barco, mas estavam acostumados a treinar nessas máquinas em academias, decidiram desafiá-los, e um novo esporte estava criado.

O remo indoor não é regulado pela FISA - e, para falar a verdade, sequer possui uma federação internacional, com seus campeonatos sendo organizados por diferentes entidades nacionais, sendo a mais influente a norte-americana CRASH-B (sigla para Charles River All-Star Has-Beens, algo como "ex-estrelas do Rio Charles", fundada por ex-competidores da Head of the Charles Regatta). Como ninguém sai do lugar usando máquinas ergométricas, todas as provas do remo indoor são disputadas na modalidade head: cada competidor assume uma das máquinas disponíveis, e rema até que seu marcador registre o esforço equivalente a determinada distância. Quando todos os competidores já tiverem remado, aquele que tiver alcançado esse registro no menor tempo será declarado vencedor. Como cada máquina é feita para apenas uma pessoa, e é preciso segurar o suporte da correia com as duas mãos, todas as provas são disputadas em uma classe equivalente a um barco 1x. Falando nisso, é importante registrar que a máquina não tem remos, e sim uma correia presa a um suporte e a uma roldana, que puxa a correia de volta automaticamente quando o atleta interrompe o movimento, o que faz com que a técnica de remada no indoor seja bastante diferente daquela utilizada no barco; esse fato aliado ao de que ela simula apenas a resistência da água, não sendo possível simular a movimentação lateral ou as alterações no equilíbrio do barco causados pela mesma, faz com que o remo indoor e o remo tradicional sejam esportes bastante diferentes.

As competições internacionais mais importantes do remo indoor são o Campeonato Mundial, organizado pela CRASH-B e realizado desde 1982, no masculino e no feminino, em diferentes categorias de idade e peso (o que faz com que cada edição do Mundial atualmente tenha 58 provas diferentes, mas todas usando a distância de 2.000 metros como referência); o British Indoor Rowing Championships, realizado desde 1991, e que, originalmente, era o campeonato nacional da Grã-Bretanha (por isso o nome e o fato de que todo ano é realizado naquele país), mas hoje é aberto a atletas de todos os países, que competem em 16 provas individuais masculinas e femininas (em diferentes categorias de idade e peso) na distância de 2.000 m, e em duas prova de revezamento (uma masculina e uma feminina), nas quais quatro atletas de uma mesma equipe remam 1.000 m cada e seus tempos são somados para se determinar a equipe vencedora (que, na prática, é a que percorreu 4.000 m em menos tempo); e a Ergohead, realizada anualmente desde 1998 na cidade de Amsterdã, Holanda, e cuja regra é "ao contrário": cada atleta rema durante 20 minutos, e aquele que tiver alcançado a maior distância ao final desse tempo será o vencedor; a Ergohead também conta com 16 provas, divididas entre masculinas e femininas em diferentes categorias de idade e peso. O remo indoor também está previsto para fazer parte do programa dos World Games de 2017, como esporte convidado.

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