segunda-feira, 7 de setembro de 2015

World Games (II)

Em 2007, escrevi aqui para o átomo um post sobre os World Games, uma competição multiesportiva ao estilo das Olimpíadas, criada com o intuito de que seu programa tivesse apenas esportes que não fizessem parte do programa olímpico, dentre outros motivos, para servir de teste para que esses esportes fossem incluídos no futuro.

Na ocasião, meu intuito era fazer uma série, falando das edições dos World Games uma por uma, exatamente como fiz na série sobre as Olimpíadas. Acabei esbarrando, entretanto, em alguns problemas - como a falta absoluta de informações sobre as quatro primeiras edições - e, para não desistir de vez, fiz um post genérico, falando sobre o que seriam os World Games, suas origens, quais esportes eram disputados lá e, de forma resumida, onde foi realizada cada edição e quantas medalhas o Brasil ganhou em cada uma delas. Satisfeito com o resultado, apenas atualizei esse post quando a edição de 2009 se concluiu, mas não pretendi mais transformá-lo em uma série.

Só que, há algumas semanas, algo surpreendente aconteceu: estava eu sem nada o que fazer, e decidi ler alguma coisa sobre a próxima edição, que será realizada em 2017. Para isso, visitei o site da IWGA, entidade que organiza os World Games. Para minha surpresa, o site, que sempre foi bastante pobre e até meio confuso, não somente foi totalmente reformulado como também agora traz vários detalhes sobre todas as edições dos World Games! Desnecessário dizer, ter descoberto isso reacendeu minha vontade de fazer a série, a qual começo hoje. Como de costume, ela virá intercalada com outros posts sobre outros assuntos, para não cansar ninguém.

Antes de começarmos, porém, é preciso tecer alguns comentários. Em primeiro lugar, diferentemente do que eu fiz quando resolvi transformar o post do Kamen Rider em uma série, dessa vez eu decidi não substituir o post original por um tapa-buraco. Apenas dei uma editada nele, para que ele continuasse falando dos World Games de modo geral, servindo de introdução para essa série. Assim, a partir de hoje ele será o (I), e esse aqui, o primeiro da série, será o (II), com os demais seguindo a numeração.

Em segundo lugar, apesar de o site da IWGA realmente ter melhorado muito, algumas informações sobre os World Games, principalmente sobre o programa e os medalhistas, ainda são meio confusas. O site da IWGA, por exemplo, diz que o vôlei de praia fez parte do programa dos World Games de 1993, mas absolutamente nenhum outro lugar diz isso, tanto que, pra mim, é uma novidade. A coisa piora quando se trata dos esportes convidados, pois o site da IWGA não inclui seus medalhistas, e tem informações contraditórias com todos os outros sites que eu conheço em relação a quais esportes foram convidados em qual edição - inclusive com os sites oficiais dos eventos, a maioria dos quais, infelizmente, já saiu do ar (quando eu escrevi o post original, em 2007, os de 1997, 2001 e 2005 ainda podiam ser acessados; hoje, só os de 2005 e 2013 ainda podem, sendo que o de 2013 está cheio de páginas em branco e links quebrados), de forma que a informação que eu peguei lá só sobrevive mesmo nas minhas anotações. Diante disso, pode ser que, nos meus posts, ainda reste uma inconsistência ou outra no programa de cada edição, porque, para essa série, eu vou usar as informações do novo site da IWGA como base, mas usando aquelas que eu considero fidedignas (como as dos já citados sites oficiais) para fazer inclusões ou modificações.

Por último, quando eu escrevi o post, em 2007, até onde eu soubesse, os World Games eram absolutamente ignorados aqui no Brasil. De lá pra cá, felizmente, parece que a coisa mudou: embora eu não tenha visto nada dos World Games de 2009 na televisão, amigos me disseram que assistiram a algumas provas de ginástica dessa edição, e até que se lembraram de mim quando perceberam que elas pertenciam aos World Games. Melhor que isso, em 2013, eu mesmo assisti a competições dos World Games daquele ano de paraquedismo, caratê e tiro com arco transmitidas pelo SporTV. Não chegaram a ter destaque na programação nem eram ao vivo, e sim na forma de um programa ao estilo "o melhor do dia", mas, comparado ao que tínhamos antes - ou seja, nada - foi um avanço.

Antes que alguém pergunte como isso afeta minha série de posts, é por uma questão de nomenclatura: nessas transmissões, não era usado o nome World Games, e sim Jogos Mundiais, que parece que é o nome oficial do evento em português, usado, inclusive, pelas federações brasileiras dos esportes que fazem parte do programa. Desde que eu soube disso, fiquei na dúvida sobre se continuava usando o nome World Games aqui no átomo ou se passava a usar Jogos Mundiais. Como eu já usei World Games em mais de uma dúzia de posts, e teria que trocar tudo, acabei optando por deixar World Games, e torcer para que quem conhece o torneio pelo nome de Jogos Mundiais perceba que se trata da mesma coisa. Mas cabe essa explicação aqui, até para que ninguém pense que eu não sei que o evento tem um nome oficial em português. Eu acabaria fazendo, porém, uma outra mudança no mesmo estilo: a do nome do esporte faustebol para punhobol, nos seis posts em que ele aparece. Fui convencido por amigos que moram no Sul (onde ele é mais praticado) de que ninguém conhece esse esporte com o nome de faustebol aqui no Brasil.

Ah, sim, eu sei que falei "por último", mas ainda tem mais uma coisa: nessa série, assim como na das Olimpíadas, teremos os quadrinhos de medalhas junto com o texto sobre cada edição. As medalhas mostradas nesses quadrinhos são somente as dos esportes oficiais do programa de cada edição, não estando representadas as medalhas dos esportes convidados - o que faz uma certa diferença no caso do Brasil, que já ganhou bastante medalhas em esportes convidados. Mas tem de ser assim porque as medalhas dos esportes convidados são contadas em separado, então não aparecem nos quadros oficiais - ou seja, se eu quisesse incluí-las, teria que somá-las eu mesmo aos totais de cada país, e, na minha opinião, não iria valer a pena ter esse trabalho extra.

Tudo isso esclarecido, comecemos!

O Início

Quando o Barão de Coubertin, no final do século XIX, decidiu criar os Jogos Olímpicos da Era Moderna, ele criou também o Comitê Olímpico Internacional (COI), órgão que seria responsável pelos detalhes da organização do evento, como definir o programa, convidar os atletas, providenciar a hospedagem, dentre outros. Como, na época, ainda não existiam federações internacionais dos esportes do programa olímpico, o próprio COI assumiria a responsabilidade de definir seus regulamentos. Após a fundação das respectivas federações internacionais, os esportes do programa olímpico passariam a respeitar as regras determinadas por elas, cabendo ao COI apenas as funções referentes à organização das Olimpíadas em si.

Apesar disso, muitas federações internacionais, principalmente as dos esportes menos difundidos fora das Olimpíadas, como a luta olímpica e o pentatlo moderno, viam o COI como uma espécie de "confederação internacional", como se ele pudesse intervir em todas as federações internacionais, independentemente de que esporte elas regulassem. O COI não tinha o menor interesse em fazer isso, porém, e sempre se manteve ao largo das discussões entre as federações. Se, por um lado, isso era bom, já que dava mais liberdade a cada federação internacional, por outro lado dificultava o diálogo, já que cada federação tinha de se relacionar com o COI individualmente, sem um representante em comum. Para as federações dos esportes que faziam parte do programa olímpíco isso era relativamente fácil, mas para federações de esportes que não estavam nas Olimpíadas - como, durante um bom tempo, acreditem ou não, o tênis - isso era extremamente complicado, já que elas não tinham direito a um representante dentro do COI.

Para tentar contornar esse problema, em 1967 representantes de 26 federações internacionais - cinco delas responsáveis por esportes que não faziam parte das Olimpíadas - se uniram e fundaram uma organização chamada GAISF - sigla em inglês para "assembleia geral das federações internacionais desportivas", alterada em 1976 para "associação geral das federações internacionais desportivas", e desde 2009 chamada oficialmente de SportAccord. A GAISF não tinha poder para se intrometer nas regras dos esportes ou na organização de torneios de cada esporte em separado, mas cabia a ela definir o que era ou não um esporte, e estabelecer um diálogo entre as federações internacionais e o COI. Em seus primeiros anos, a GAISF conseguiu várias conquistas, como uma lista de esportes reconhecidos pelo COI como "aptos a participar de uma Olimpíada", que poderiam pleitear um lugar nos Jogos Olímpicos durante as assembleias do órgão. Hoje, já com o nome de SportAccord, a GAISF reúne 93 federações internacionais, incluindo 28 que regulam os esportes presentes nas Olimpíadas, 7 que regulam os esportes das Olimpíadas de Inverno, 35 dessa lista de reconhecidos como aptos, e mais 23 que lutam para serem incluídos na lista. Praticamente todos os esportes praticados internacionalmente fazem parte da SportAccord, sendo as únicas exceções notáveis o bodyboarding, o croquê e o rugby league.

No início, o principal objetivo da GAISF era fazer com que todos os seus membros entrassem para as Olimpíadas. Ao longo da década de 1970, porém, conforme as Olimpíadas foram crescendo, os membros não-olímpicos da GAISF começaram a perceber que, talvez, isso fosse impossível. Era hora de pensar em um Plano B. E o criador dessa alternativa foi o sul-coreano Un Yong Kim, na época presidente da Federação Internacional de Taekwondo (WTF) - esporte que não fazia parte das Olimpíadas então.

Sabem aquela máxima de que as melhores ideias são sempre as mais simples? Pois a ideia de Kim não poderia ser mais simples: criar um segundo torneio multiesportivo, do qual só participariam esportes que não faziam parte das Olimpíadas. O intuito de Kim, porém, não era fazer com que esses esportes tivessem "sua própria Olimpíada" para sempre; esse torneio, ao invés disso, serviria como uma espécie de "vestibular" para esses esportes: caso eles provassem que poderiam atrair bom público, novos praticantes, e a atenção da imprensa, o COI os incluiria em uma edição futura das Olimpíadas. Kim apresentaria sua ideia à GAISF no início de 1979, e ela seria aprovada quase que instantaneamente (provavelmente em meio a muitos "como foi que eu não pensei nisso antes?"); ainda em 1979, a GAISF levaria a ideia ao COI, que concordaria em incluir os esportes mais bem sucedidos nas edições seguintes das Olimpíadas. Era a aprovação final da qual o projeto necessitava para sair do papel.

Com tudo certo e encaminhado, a assembleia da GAISF decidiu que o nome do torneio deveria ser, assim como a ideia, o mais simples possível, e acabou optando por World Games - os "Jogos Mundiais", sem um nome próprio (como "Olimpíadas") ou qualquer referência aos esportes que deles participavam. Para cuidar da organização dos World Games, a GAISF criaria, em 1980, uma subsecretaria, o World Games Council, "Conselho dos Jogos Mundiais", ou WGC. Talvez em retribuição por a ideia ter sido dele, Kim foi nomeado o primeiro presidente do WGC - que, após a primeira edição dos World Games, deixaria de ser uma subsecretaria da GAISF para se tornar um órgão autônomo, chamado International World Games Association, ou IWGA.

O primeiro ato do WGC seria convidar as federações dos esportes não-olímpicos então filiadas à GAISF, bem como um representante do COI, para uma reunião na sede da WTF, na Coreia do Sul, para definir quais esportes fariam parte dos primeiros World Games. Nessa reunião, também ficaria decidido que, assim como as Olimpíadas, os World Games ocorreriam a cada quatro anos, sempre no ano seguinte ao de uma Olimpíada, e que todos os esportes do programa e todos os atletas participantes receberiam "tratamento olímpico", seguindo as regras determinadas pelo COI para as Olimpíadas. Finalmente, para a primeira edição, para que fosse dado um caráter oficial ao evento, ficou decidido que os convites às federações nacionais seriam feitos pela GAISF em parceria com o COI, com o WGC os assumindo a partir da segunda edição dos World Games.

Ao todo, 12 federações, incluindo a WTF, participaram da reunião. Essas federações são consideradas fundadoras do WGC, e apenas esportes regulados por elas fizeram parte da primeira edição dos World Games. Nem todas essas federações, porém, são filiadas à IWGA até hoje, e nem todos esses esportes fazem parte do atual programa dos World Games. Isso advém de duas regras propostas por Kim, com a qual todos os membros do então WGC concordaram: primeiro, e obviamente, só poderiam fazer parte dos World Games esportes que não fossem parte das Olimpíadas, o que significava que apenas federações que não regulavam esportes olímpicos podiam fazer parte do WGC/IWGA. Essa regra, porém, tinha duas exceções: primeiro, se um esporte passasse a fazer parte das Olimpíadas, sua federação seria automaticamente desligada do WGC/IWGA, mas, caso algum dia ele saísse do programa olímpico, seria automaticamente readmitida - a Federação Internacional de Beisebol, por exemplo, foi desligada da IWGA em 1992, quando o esporte passou a fazer parte das Olimpíadas, mas readmitida em 2009, depois que ele saiu do programa olímpico. A segunda exceção é que uma federação internacional de um esporte presente nas Olimpíadas poderia se filiar ao WGC/IWGA, desde que apenas modalidades desse esporte que não sejam disputadas nas Olimpíadas façam parte do programa dos World Games - atualmente, fazem parte da IWGA, mesmo tendo seus esportes nas Olimpíadas, as federações internacionais de canoagem, ginástica, handebol, hóquei, rugby e tiro com arco.

A segunda regra proposta por Kim é uma das mais interessantes dos World Games: só podem fazer parte do programa de uma determinada edição esportes para os quais já existam instalações esportivas na cidade escolhida como sede - em outras palavras, a cidade-sede não pode construir nenhuma instalação esportiva especialmente para os World Games, devendo usar apenas as que já tem. O intuito dessa regra é diminuir os custos do torneio, para que qualquer cidade possa sediá-los. Por uma interpretação torta dessa regra, esportes que são pouco populares na cidade-sede também acabam ficando de fora, sob a alegação de que lá não há locais específicos para a sua prática, mesmo que esses locais pudessem ser facilmente arranjados - como no caso da pesca esportiva, por exemplo.

Ao longo dos anos, os World Games foram crescendo em popularidade, e, hoje, de fato já são considerados por muitos como o segundo torneio multiesportivo mais importante do planeta depois das Olimpíadas. 37 federações internacionais são atualmente filiadas à IWGA, e muitos dos esportes que um dia fizeram parte dos World Games, como o badminton, a ginástica de trampolim, o rugby sevens e o taekwondo, hoje fazem parte das Olimpíadas. Uma prova de que, às vezes, as melhores ideias são mesmo as mais simples.

Santa Clara 1981

Ok, o WGC estava formado, as regras estavam definidas. Mas como conseguir uma sede para um evento esportivo que havia acabado de nascer, do qual a maioria das pessoas sequer fazia ideia que existia, e que ainda por cima trazia, em sua maioria, esportes que não são conhecidos do grande público? Se você pensou "pagando", bem, acertou.

A saída encontrada pelo WGC para conseguir uma sede para a primeira edição dos World Games foi, de certa forma, inusitada: eles alugaram as instalações da Universidade de Santa Clara (SCU), localizada na cidade de mesmo nome, no estado da Califórnia, Estados Unidos. Por causa disso, dizer que Santa Clara foi a cidade-sede dos primeiros World Games não é exatamente verdade: a prefeitura da cidade não gastou um tostão com a realização do evento, nenhum habitante de lá se envolveu com a organização do mesmo, e a maioria das pessoas sequer sabia que um evento esportivo estava acontecendo em sua cidade - em parte porque a verba era pouca, e não havia o suficiente para uma campanha de promoção adequada. Toda a organização do evento ficaria por conta do WGC, que se responsabilizaria junto à SCU para entregar todas as instalações em perfeito estado após o mesmo.

Esse esquema curioso acabou tendo dois pontos extremamente positivos: primeiro, o WGC não conseguiu apenas o aluguel das instalações esportivas da SCU, e sim de todas as instalações necessárias à realização dos World Games, o que significa que os atletas participantes puderam ficar hospedados nos dormitórios da universidade e usar seu refeitório para fazer suas refeições, o que fez com que eles, de certa forma, se sentissem em uma Olimpíada - o que era o intuito do WGC desde o início - já que os dormitórios ficaram parecidos com uma mini Vila Olímpica, e os horários das refeições serviam também para que todos se confraternizassem. Em segundo lugar, como todas as competições estavam ocorrendo dentro do campus da universidade, os atletas, após competirem em suas próprias provas, podiam ir torcer por seus colegas, aumentando o público dos eventos - que, infelizmente, devido à já citada falta de promoção, foi extremamente baixo.

O principal ponto negativo do torneio, aliás, foi justamente a falta de divulgação. O WGC não conseguiu contrato com nenhuma rede de televisão, o que fez com que nenhum dos eventos dos primeiros World Games fosse televisionado. Graças à falta de verba, também não houve filmagem oficial, e todos os filmes que existem hoje do evento foram feitos pelos próprios atletas ou por suas famílias - e não são muitos, já que, em 1981, nem todo mundo tinha uma filmadora. A maior parte do público presente nos eventos era composta pelos atletas das outras competições e pelos familiares dos atletas que estavam competindo, com uns poucos estudantes da SCU - que estavam de férias durante o evento - se interessando por acompanhá-los.

Outro ponto negativo foi a questão financeira. Não tendo planejado bem quanto dinheiro gastaria, o WGC acabou ficando sem nenhum, e precisou recorrer a um empréstimo para que o evento não fosse cancelado no meio. Os World Games acabariam sendo salvos por um acordo feito entre o WGC e o West Nally Group, empresa de marketing esportivo presidida por Patrick Nally, que tem contratos com o COI e com a FIFA, e foi contratada para fazer a (parca) promoção do evento. O West Nally Group cobriu todos os gastos além do orçamento do WGC, mas esse acordo não seria bem um empréstimo, já que ele jamais exigiu o pagamento do dinheiro; em compensação, pelos termos do acordo, todos os direitos comerciais dos World Games passariam, durante dez anos, para o West Nally Group - o que significava que, durante uma década, só ele poderia explorar a marca World Games comercialmente, cabendo ao WGC apenas a organização do evento.

Os World Games de 1981 foram realizados entre 24 de julho e 2 de agosto, e contaram com a participação de 1.265 atletas de 36 países dos cinco continentes. Assim como nas Olimpíadas da época, todos os atletas eram amadores, e muitos deles contaram com ajuda financeira das federações dos esportes que praticavam para poder viajar aos Estados Unidos - a Federação Chinesa de Badminton, por exemplo, cobriu integralmente todos os gastos dos quatro atletas que enviou. Sem atletas de ponta nos esportes do programa, o Brasil optou por não enviar delegação.

A cerimônia de abertura seria realizada no Buck Shaw Stadium, estádio de futebol pertencente à SCU, onde hoje joga o time San Jose Earthquakes, da Major League Soccer, principal torneio de futebol dos Estados Unidos, mas que, na época, era usado apenas pelos times universitários de futebol e de futebol americano da SCU. Modesta, a cerimônia contaria com um pequeno show de dança, o desfile das delegações, e um discurso de Thomas Keller, presidente da GAISF. O presidente dos Estados Unidos na época, Ronald Reagan, não compareceria, mas mandaria um telegrama desejando boa sorte aos atletas, que seria lido por Keller ao final de seu discurso. A cerimônia de encerramento seria bem mais tímida: realizada no ginásio da SCU, e sem a presença da maioria dos atletas - que já haviam voltado para seus países de origem - ela teve apenas um discurso do presidente do WGC, Un Yong Kim, e contou com a presença do prefeito de Santa Clara, que recebeu de Kim uma bandeira dos World Games.

O programa oficial do evento contou com 98 competições de 17 esportes: badminton, beisebol, boliche, cabo de guerra, caratê, esqui aquático, finswimming, fisiculturismo, ginástica de trampolim, hóquei sobre patins, patinação artística, patinação em velocidade, pesca esportiva, powerlifting, raquetebol, softbol e taekwondo. Todos esses esportes eram filiados às 12 federações internacionais que fundaram o WGC, sendo que o número não bate porque algumas federações regulam mais de um esporte - como a Federação Internacional de Esportes sobre Rodas (FIRS), que governa a patinação artística, a patinação em velocidade e o hóquei sobre patins. Além dos esportes oficiais, o evento contaria com um esporte convidado: através de um acordo entre o WGC e a FINA - a Federação Internacional de Natação, que não era filiada ao WGC - os organizadores incluíram um torneio de polo aquático feminino, escolhido porque, na época, somente o polo aquático masculino fazia parte do programa das Olimpíadas. Assim como ocorria com os esportes de demonstração das Olimpíadas, o WGC determinou que, embora as atletas do polo aquático fossem ter o mesmo tratamento dispensado aos demais atletas dos World Games, suas medalhas não contariam para o total final de seus respectivos países.

Falando em medalhas, as dos primeiros World Games seriam confeccionadas na Suíça, e trariam, em uma das faces, o símbolo dos World Games - um W estilizado com um globo terrestre estilizado no meio - criado pelo WGC especialmente para o evento, e, na outra, um pictograma - aqueles "bonequinhos-palito" praticando os esportes - do esporte no qual aquela medalha seria conferida. Os pictogramas do evento seriam criados pelo depertamento gráfico da SCU, que também seria responsável pelos dois pôsteres oficiais do evento: um, que adornava os corredores da SCU durante os World Games e servia também de capa do livreto de programação dos eventos, era preto e trazia um globo terreste estilizado em verde, no centro do qual atletas praticavam beisebol, caratê, boliche, patinação e badminton, trazendo também o nome da cidade e o período de realização do evento. O outro, que seria espalhado pela cidade como forma de promoção do evento, acabaria pouco utilizado, sendo um dos motivos que ele trazia alguns erros: a ideia de seus criadores era que ele trouxesse os pictogramas de todos os esportes em disputa, mas acabaram incluindo um pictograma também do boxe, esporte que nem estava sendo disputado (incluíram também o do polo aquático, e usaram um único para os três esportes da FIRS e um único para o beisebol e o softbol, mas até aí tudo bem). Além dessa inclusão bizarra, quem fez o pôster errou o nome do finswimming (escrevendo "Fin Swimming") e exagerou no número de atletas, listando que estariam presentes 1.500 atletas de 58 países.

Dentre os atletas, o maior destaque foi Jurgen Kolenda, da Alemanha Ocidental. Competindo no finswimming, Kolenda ganhou nada menos que quatro medalhas de ouro, nos 100 metros SF, 200 metros SF, 100 metros IM e 50 metros AP, além de ter terminado em quarto lugar nos 1.500 metros SF; na época, além dele, apenas o norte-americano Mark Spitz, nas Olimpíadas de 1972, havia ganhado quatro medalhas de ouro em provas individuais de natação em uma única competição internacional. Também no finswimming, Anne-Marie Rouchon, da França, ganharia três ouros - nos 200, 400 e 800 metros SF - e um bronze - nos 100 metros SF - se tornando a atleta feminina com mais ouros nessa edição dos World Games. Outro atleta de destaque seria o norte-americano Steve Rajeff, que, na pesca, conseguiria quatro ouros e dois bronzes.

O Japão ganharia cinco dos nove ouros do caratê, mas o domínio da Coreia do Sul no taekwondo seria ainda maior: nove dos dez ouros em disputa, com o restante sendo perdido para um atleta canadense na final. Já o badminton seria dominado pela China, que ganharia quatro dos cinco ouros em disputa - e com os quatro únicos atletas chineses na competição, ou seja, um aproveitamento de 100%. Na ginástica, o domínio seria dos Estados Unidos e do Canadá, únicos países a ganhar medalhas nos seis eventos desse esporte. Todos os quatro ouros do raquetebol também ficariam com os Estados Unidos, que ainda conseguiram um pódio completo nas simples femininas e uma dobradinha de ouro e prata nas simples masculinas. Já no boliche, onde todos esperavam uma lavada dos Estados Unidos, o país anfitrião terminaria apenas com uma medalha de bronze, nas simples femininas.

Nos esportes coletivos, os Estados Unidos ganhariam o ouro do beisebol, seguidos da Coreia do Sul com a prata e da Austrália com o bronze; e o do softbol, com a prata ficando com o Canadá e o bronze com Bahamas. No hóquei sobre patins, disputado apenas no masculino, Portugal ficou com o ouro, seguido de Estados Unidos e Argentina. No polo aquático feminino, aconteceu uma situação curiosa: apenas quatro equipes disputaram a competição, sendo duas delas dos Estados Unidos. O torneio já começou nas semifinais, com os Estados Unidos A ganhando do Canadá e os Estados Unidos B perdendo para a Holanda. Na final, a Holanda ganhou dos Estados Unidos A, e, na disputa do bronze, o Canadá ganhou dos Estados Unidos B.

Anfitriões e com a maior delegação, os Estados Unidos, evidentemente, terminaram na primeira colocação do quadro de medalhas com 27 de ouro, 26 de prata e 23 de bronze, bem à frente da segunda colocada, a Coreia do Sul, que conseguiu 9 ouros (todos no taekwondo), 3 pratas e 1 bronze. O melhor país europeu, a Itália, terminou em terceiro, com 7 ouros, 11 pratas e 6 bronzes, e a China, apenas com seus 4 ouros do badminton, ainda conseguiu ficar em décimo lugar. Dos 36 países que enviaram atletas, 21 conseguiram pelo menos uma medalha de ouro, e 31 conseguiram pelo menos uma medalhinha qualquer.

Diferentemente do que faz o COI, nos World Games o quadro de medalhas é oficial e sancionado pela IWGA, mas, assim como nas Olimpíadas, não há um "país vencedor", já que quem compete são os atletas, e não os países. Aliás, uma característica curiosa dos primeiros World Games foi que, nas cerimônias de premiação, não houve hasteamento das bandeiras nem execução dos hinos - segundo o WGC, justamente para que os atletas sentissem que eles é que estavam nas disputas, e não suas nações. De fato, diferentemente do que ocorria nas Olimpíadas de época, os primeiros World Games não tiveram nenhuma disputa política, nenhum desentendimento entre nações, nenhum episódio lamentável. E, mesmo com alguns percalços, seriam considerados pelos organizadores como um grande sucesso.

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