segunda-feira, 15 de junho de 2015

Um Amor de Família

Essa semana, conversando com um colega, me lembrei dos primórdios da TV por assinatura no Brasil. Confesso que não me lembro bem como o sistema funcionava, mas me lembro que era necessário uma antena UHF. Sei disso porque, apesar de minha primeira assinatura de TV já ter sido da NET, já na época do cabo, eu tinha uma antena UHF desde, se não me engano, 1992. O motivo é que eu era viciado em Mtv - chegava do colégio e ligava a televisão, deixando-a ligada na Mtv praticamente o dia inteiro - e, aqui no Rio de Janeiro, embora a Mtv tenha estreado em um canal VHF (aqueles que hoje são conhecidos como "TV aberta", e que, fora das TVs por assinatura, têm numeração do 2 ao 13), ocupando a programação do canal 9 a partir de meio-dia, em dado momento ela teve de passar para um canal UHF (o 24, se não me engano), pois o canal 9 foi vendido, os novos donos não tinham interesse em manter a Mtv, e não havia nenhum outro canal VHF disponível. Como eu disse, eu era viciado em Mtv, de forma que enchi o saco do meu pai para ele comprar e instalar uma antena UHF, pois, pra mim, ficar sem Mtv era inconcebível.

Meu pai, que, embora nunca tenha ligado para Mtv, sempre se interessou bastante por novidades tecnológicas, realmente comprou e instalou a tal antena UHF. E foi ele que, procurando por outros canais que não fossem a Mtv, descobriu alguns que tinham uma imagem e um som estranho - que, apenas muitos anos depois, descobriríamos se tratar de codificação, para que só pudesse assitir àqueles canais quem pagasse por eles. Pesquisando, meu pai descobriria se tratar da tal TV por assinatura, que estava chegando ao Brasil. Como era caríssimo, não pudemos assinar, e ficamos bem curiosos em relação a qual seria a programação daqueles canais - que, se a memória não me falha, eram só quatro, um deles a ESPN.

Mas havia uma forma de saciarmos essa curiosidade: outro desses canais, chamado Showtime, especializado em séries, uma vez por dia, durante uma hora, abria o sinal. Nessa hora, podíamos ver propagandas dos demais canais disponíveis, das séries que o Showtime passava, e assistir a um episódio completo de uma dessas séries, chamada Um Amor de Família. E era uma série muito engraçada, que eu adorava assistir, junto com a minha mãe e minha irmã. Todos os dias, à noite, alguns minutos antes de o sinal abrir, já estávamos sintonizados, assistindo a um borrão cinza tremido e ouvindo "wiwiwi", só esperando a abertura do sinal para assistir Um Amor de Família.

Alguns anos mais tarde, quando finalmente tivemos uma TV por assinatura de verdade, descobrimos que Um Amor de Família ainda era exibida, se não me engano, no canal Sony, e voltamos a acompanhá-la. Não sei se assisti a todos os episódios, mas, durante um bom tempo, foi uma das minhas séries preferidas, e uma das que eu achava mais engraçada. Por isso, ao me lembrar dessa história sobre os primórdios da TV por assinatura, é óbvio que eu ficaria com vontade de escrever um post sobre ela. Post esse que vocês estão lendo agora.


Um Amor de Família, cujo título em inglês é Married... with Children ("casados... com filhos") foi a primeira série a estrear no horário nobre do canal Fox, em 5 de abril de 1987. Com 11 temporadas e 258 episódios, também é a segunda série mais longeva da Fox, perdendo apenas para Os Simpsons, o que faz com que ela seja a primeira se não forem consideradas as séries de animação. Embora nunca tenha sido um grande sucesso de acordo com os padrões da TV norte-americana, Um Amor de Família é considerada uma da responsáveis por levar a Fox ao quarto lugar em audiência e popularidade no ranking das TVs dos Estados Unidos, atrás apenas da CBS, da NBC e da ABC.

Um dos motivos para a popularidade da série era que ela mostrava o dia a dia de uma família bem diferente das presentes nas séries da época - se hoje isso é comum, devido principalmente aos Simpsons, na época era raro, com todas as famílias de séries sendo bem estruturadas e retratando um rígido padrão de moral e bons costumes. Os membros da família de Um Amor de Família, embora se amassem à sua maneira, se implicavam, se diminuíam, cometiam atos desonestos e socialmente condenáveis. E, ainda assim, se tornaram queridos de grande parte da audiência.

O chefe da família era Al Bundy (Ed O'Neil, hoje em Modern Family, outra série com uma família diferente, embora por outros motivos). Astro do futebol americano quando ainda estava no colégio, Al foi vítima da "maldição da família Bundy" e se tornou um fracassado, se casando com uma mulher que não o respeita e se tornando um vendedor de sapatos femininos, emprego que odeia. Cínico, depressivo e capaz de cometer pequenos atos de desonestidade sem qualquer remorso para ter algumas alegrias na vida, Al, apesar de tudo, ama sua família, e é capaz de qualquer coisa, inclusive se envolver em brigas, para defendê-la, especialmente à sua filha, Kelly. O maior orgulho de Al, entretanto, não é sua família, e sim seu carro, um Dodge com mais de um milhão de quilômetros rodados.

Al é casado com Peggy Bundy (Katey Sagal, hoje em Sons of Anarchy), mulher que não tem o melhor talento para os trabalhos domésticos, se recusando a cozinhar ou limpar a casa. Peggy passa a maior parte do dia assistindo talk shows na televisão ou afanando o dinheiro de Al para gastar no shopping. Sua principal diversão, porém, é falar mal de Al, se referindo de forma humilhante a seu trabalho, seu salário e suas habilidades sexuais.

A filha mais velha do casal é Kelly Bundy (Christina Applegate, hoje uma bem sucedida atriz de cinema e TV), loura platinada e não muito inteligente. Kelly não possui o mais rápido dos raciocícinios, sua memória também não é lá grandes coisas, e ela costuma pronunciar errado várias palavras e confundir o significado de outras; em compensação, ela é bonita, atraente e popular. Para desespero de Al, Kelly está a cada episódio com um namorado novo e possui uma vida sexual extremamente ativa. Sua principal diversão é humilhar o irmão mais novo, embora o defenda quando ele é humilhado por alguém de fora da família. Quando a série começa, Kelly tem por volta de 15 anos.

O filho mais novo, Bud Bundy (David Faustino, aparentemente o único dos quatro que não conseguiu manter uma carreira de sucesso após a série) é também o membro mais inteligente da família, e, embora não seja popular, tem boas notas no colégio, e, nas últimas temporadas, se torna o primeiro Bundy da história a ingressar em uma universidade; assim como seu pai, entretanto, ele está fadado a sofrer da "maldição dos Bundy", o que lhe é lembrado da pior maneira sempre que está prestes a conseguir uma grande conquista. Bud é obcecado por mulheres, e, embora esteja desesperado para ter uma vida sexual, todas as suas tentativas resultam em fracasso e zoações de Kelly - devolvidas através de comentários sobre a promiscuidade e estupidez da irmã. Assim como Al, Bud frequentemente planeja obter alguma vantagem através de um pequeno ato de desonestidade. Quando a série começa, Bud tem por volta de 12 anos.

Os Bundy têm também um cachorro, da raça pastor de brie; na primeira temporada ele se chama Mike, mas, a partir da segunda, decidiram mudar seu nome para Buck. A partir da quarta temporada, Buck passa a expressar seus pensamentos, com voz de Kevin Curran, um dos produtores do programa - embora em três episódios centrados em seu personagem, Buck tenha ganhado a voz de Cheech Marin, da dupla Cheech & Chong. Buck só "fala" para fazer comentários sobre a estupidez dos Bundy, para reclamar que está com fome, ou para expressar seu desejo de cruzar com as cadelas da vizinhança. Como ele é um cachorro, os Bundy não têm como saber o que ele está pensando. Na décima temporada, como o cachorro que "interpretava" Buck já estava com idade avançada e já não compreendia corretamente as instruções do adestrador que o coordenava em cena, os roteiristas decidiram criar um episódio no qual Buck morre, vai para o Céu dos Cães e reencarna como Lucky, um cocker spaniel. Embora Lucky também passe a ser parte da família, os Bundy não percebem que ele é a reencarnação de Bucky. Lucky pensava com voz de Kim Weiskopf.

Na sétima temporada, como Kelly e Bud já estavam crescidos, os roteiristas tentaram introduzir um novo personagem infantil, o menino Sete (Shane Sweet), filho de um primo de Peggy, que o abandona com os Bundy. O menino não seria bem aceito pelos fãs, e acabaria só aparecendo em sete episódios (coincidência?) antes de ser completamente esquecido e jamais novamente mencionado.

Os Bundy moram na cidade de Chicago, e, no primeiro episódio da série, ganham um novo casal de vizinhos, Steve (David Garrison) e Marcy Rhoades (Amanda Bearse). Até conhecerem os Bundy, os Rhoades são um casal normal de série de TV norte-americana, ambos trabalhando em um banco e vivendo vidas tranquilas e de acordo com a moral e os bons costumes; Al logo "corrompe" Steve, porém, levando-o a clubes de striptease e o envolvendo em seus esquemas desonestos - ou aplicando esquemas desonestos nele. Marcy é feminista e defensora do meio-ambiente, e logo se torna a melhor amiga de Peggy e a nêmese de Al, com quem tem acaloradas discussões sobre seu modo de vida e o modo como ele e Bud veem as mulheres. Al também costuma zoar Marcy, criticando sua aparência e seu comportamento.

Garrison não quis renovar sua participação na série após a quarta temporada, e Steve acabou largando Marcy e fugindo de casa após um colapso nervoso. No primeiro episódio da quinta temporada, Marcy surge com um segundo marido, o jovem, alto, bonito e forte Jefferson D'arcy (Teddy McGinley), na verdade um trambiqueiro desempregado que usa sua boa aparência e habilidades sexuais para conquistar Marcy e mantê-la casada com ele - mesmo com ela odiando se chamar Marcy D'arcy. Para desespero de Marcy, Jefferson logo se torna o melhor amigo de Al, acompanhando-o em suas desventuras. A partir da sexta temporada, Garrison retornaria fazendo participações especiais em alguns episódios, principalmente querendo Marcy de volta.

Um Amor de Família era considerada uma série muito avançada para a época, tocando em assuntos que não costumavam ser vistos na TV, ainda mais em uma série de comédia. Isso levaria a alguns problemas com os executivos da Fox, que frequentemente "censuravam" os episódios, pedindo para que algumas partes fossem refilmadas ou alguns diálogos mudados. Neste sentido, a terceira temporada, exibida entre novembro de 1988 e maio de 1989, foi a mais problemática. Em um de seus episódios, por exemplo, os Bundy e os Rhoades viajariam para um chalé, mas passariam um fim de semana terrível, pois as três mulheres ficariam menstruadas ao mesmo tempo; os produtores tiveram de suar a camisa para convencer os executivos a permitir que o episódio fosse ao ar, e só conseguiram quando concordaram em trocar o nome do episódio, de A Period Piece (trocadilho com a expressão usada em inglês para se referir a uma peça de teatro ambientada em tempos passados, period piece, as quais no brasil chamamos de "peças de época", e a palavra usada para se referir coloquialmente à menstruação, period) para The Camping Show - mesmo com o fato de que os nomes dos episódios não apareciam na tela nem eram referenciados em parte alguma do episódio em si.

Para desespero dos executivos, porém, o episódio que seria exibido duas semanas depois desse seria alvo de uma campanha pelo fim da série. Nele, Al e Steve viajam ao Winsconsin para comprar um sutiã do modelo preferido de Peggy, que já não é mais fabricado e só vende em uma única loja. Uma telespectadora, chamada Terry Rakolta, revoltada com algumas cenas do episódio, como uma que mostrava um homem vestindo lingerie feminina, escreveria cartas para vários dos anunciantes da Fox conclamando-os a parar de patrocinar o canal a menos que a série fosse cancelada. Incrivelmente, os anunciantes decidiram atendê-la, e Rakolta se tornou uma espécie de celebridade, sendo convidada para vários talk shows e entrevistas. Preocupados com a queda nos rendimentos do canal, os executivos pediriam que os produtores maneirassem dali por diante, o que faria com que, a partir da quarta temporada, os episódios, apesar de ainda avançados para a época, não fossem tão transgressores.

A campanha de Rakolta também resultaria em um dos episódios sendo exibido apenas anos após o fim da série: ainda na terceira temporada, havia um episódio em que primeiro Steve e Marcy, depois Al e Peggy, vão a um motel, e, sem que saibam, suas performances são filmadas e vendidas como filmes pornôs. Al e Steve, então, decidem entrar na justiça para ficar com o dinheiro da venda dos vídeos. Como esse episódio estava previsto para ir ao ar bem em meio à crise causada por Rakolta, os executivos recomendaram que os produtores fizessem nada menos que 13 alterações, as quais eles se recusaram porque o deixariam sem pé nem cabeça. Diante da recusa, o episódio seria "pulado", e ficaria anos como um "episódio perdido", sendo exibido pela primeira vez durante as reprises no canal FX, em 18 de junho de 2002, e, mesmo assim, com um diálogo de quatro falas cortado, o que significa que ele nunca foi exibido integralmente nos Estados Unidos.

Felizmente, apesar de pedir mudanças e impedir a exibição de um episódio, os executivos da Fox não aceitariam o cancelamento da série, e lutariam para que os anunciantes retornassem a partir da quarta temporada. Com isso, o acontecido acabaria contribuindo para a popularidade da série, com sua audiência subindo a partir da quarta temporada, e aquelas entre a quinta e a oitava tendo os maiores índices da série. É importante frisar que, diferentemente da ABC, da NBC e da CBS, a Fox, nas décadas de 1980 e 1990, não tinha um alcance nacional - nem todas as cidades dos Estados Unidos tinham um canal Fox - o que fazia com que a audiência de Um Amor de Família fosse bem baixa em relação às das suas concorrentes em outros canais, mas, ainda assim, bastante alta para uma emissora do tamanho que a Fox tinha, e com alguns episódios da sexta temporada chegando a ganhar de um dos três principais canais em algumas cidades. Por causa disso, a Fox sempre renovava a série para uma próxima temporada, apostando que, mesmo que outros programas falhassem, Um Amor de Família estaria lá para garantir bons números.

Mas nada dura para sempre, e a série chegaria a seu fim em 9 de junho de 1997. Então, a Fox já não era mais um pequeno canal lutando para ficar entre os grandes; a popularização da TV a cabo e o grande sucesso de séries como Os Simpsons e Arquivo X faziam com que a audiência trazida por Um Amor de Família, menor a cada ano, já não fosse mais essencial à saúde financeira do canal.

Após seu encerramento, a série ganharia um certo status de cult, e teria inúmeras reprises na Fox e no FX, canal do mesmo grupo, voltado para uma programação mais adulta. A mais recente foi da primeira temporada, em 2012, como parte das comemorações pelos seus 25 anos.

No final do ano passado, após uma reunião do quarteto principal durante a inauguração de uma estrela na calçada da fama para Katey Sagal, a Fox anunciaria estar trabalhando em um spin-off, centrado em Bud, que seria mais uma vez interpretado por Faustino, hoje com 41 anos. Não se sabe, ainda, se o restante do elenco principal faria alguma espécie de participação.

Para finalizar, vale dizer que essa não seria a primeira tentativa de se fazer um spin-off da série, já que a Fox chegou a tentar emplacar três enquanto ela estava no ar. Usando um esquema curioso, o piloto de cada um desses spin-offs era um episódio regular de Um Amor de Família, e, dependendo da audiência e da aceitação do público, a série seria produzida. A que deu mais certo foi Top of the Heap, protagonizada por Matt LeBlanc, o Joey de Friends, que interpretou Vinnie Verducci, um dos namorados de Kelly, em um dos episódios da quinta temporada. Em Top of the Heap, que teve como piloto o centésimo episódio de Um Amor de Família, também da quinta temporada, Vinnie e seu pai desempregado, Charlie (Joseph Bologna), tentam arrumar um esquema para enriquecer sem fazer força. Sem contar o piloto, a série teve um total de sete episódios, exibidos entre 7 de abril e 19 de maio de 1991. Após seu cancelamento, Vinnie ainda apareceria em dois episódios de Um Amor de Família, um da sexta e um da sétima temporada; como o personagem continuava popular, a Fox tentou criar mais uma série com ele, chamada Vinnie & Bobby, na qual Vinnie trabalha na construção civil e divide apartamento com um amigo, Bobby Grazzo (Robert Torti). Assim como Top of the Heap, Vinny & Bobby só teve sete episódios, exibidos entre 30 de maio e 30 de setembro de 1992. Ainda assim, foi melhor que os outros dois spin-offs planejados, que só tiveram o piloto: Radio Free Trumaine, centrado nos DJs da rádio da universidade frequentada por Bud, cujo piloto foi um episódio da nona temporada; e Enemies, uma paródia de Friends protagonizada por um grupo de amigos de Kelly, cujo piloto foi um episódio da décima temporada.

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